O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

 

O ESPORTE NA ROMA ANTIGA

Durante os próximos 30 dias, a bola será o centro do mundo e muitos discutem a paternidade do futebol, havendo até uma tese de o jogo teria suas raízes em um antigo esporte romano.

 

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Mens Sana in Corpore Sano”.

Quase todo mundo conhece a expressão acima, de origem romana, que significa “Uma mente sã em um corpo sadio” e imediatamente a identifica como uma exortação à necessidade de se cultivar, ao mesmo tempo, o intelecto e o físico. Trata-se, na verdade, de um verso do grande poeta romano Juvenal, que inclui a boa saúde física e mental como uma das bençãos que se deve pedir aos deuses, preferivelmente a uma vida longa, mas sem virtude.

Ao longo dos séculos, porém, a frase de Juvenal acabou adquirindo o caráter de lema romano pela prática de esportes. É com ela, portanto, que iniciamos nosso texto sobre a atividade esportiva em Roma.

Inicialmente, enquanto era apenas uma Cidade-Estado que se expandia pela Itália e pelo Mediterrâneo Ocidental, no período republicano, a prática de esporte em Roma era valorizada apenas como forma de treinamento militar para os jovens cidadãos. Havia um espaço na cidade, o Campo de Marte, onde eram feitas as manobras das legiões e onde os jovens podiam se exercitar no arco, na equitação e na esgrima, entre outras atividades. Porém, naquele tempo, o esporte por esporte não fazia parte da formação da criança e do jovem romano, ao contrário do que ocorria nas cidades-estado gregas.

O fato é que a elite romana, durante muito tempo e ainda no limiar do Império, julgava que exibir-se em público praticando qualquer atividade esportiva que não fosse ligada às artes militares era algo degradante e indigno de um patrício. Por outro lado, o grosso do exército era formado por pequenos agricultores livres, que, certamente, já praticavam bastante exercício físico na dura lida cotidiana do semeio, cultivo e colheita.

Assim, somente quando aumenta o contato direto dos romanos com a civilização grega, no sul da Itália e, sobretudo após a conquista de territórios na Grécia, no século II A.C, é que o esporte, em conjunto com outras manifestações culturais gregas, como o teatro, a filosofia, as artes,e a própria língua grega, passam a ter grande influência na elite romana (“a Grécia cativa cativou Roma”).

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A partir de então, os nobres, em suas villas (propriedades rurais de luxo), construíram espaços privados para a prática de ginástica e atletismo (gymnasia e palestrae). Note-se, porém, que, no início, os romanos viram com maus olhos o atletismo à moda grega, sobretudo porque os atletas se exercitavam e competiam completamente nus. Por isso, algumas leis tentaram proibir membros da aristocracia romana de competirem em público.

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Em 186 A.C., pela primeira vez, jogos públicos incluindo exibição de atletas são organizados pelo cônsul Marcus Fulvius Nobilior, em comemoração à sua vitória contra a Liga Etólia, na Grécia. Nobilior era um grande entusiasta da cultura grega, uma civilização em que os atletas profissionais eram admirados e, por isso, ele resolveu trazer a novidade para Roma.

As competições de atletismo compreendiam as seguintes modalidades: corrida, luta-livre (wrestling – hoje conhecida como luta greco-romana), pugilismo (boxe), pentatlo (que abrangia as modalidades de salto em distância, corrida, lançamento de disco, lançamento de dardo e luta-livre) e pancration (uma luta que pode ser comparada ao nosso “vale-tudo”, agora internacionalizada como MMA).

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Já no fim da República, as termas, ou banhos públicos, começam a proporcionar, além das piscinas e saunas, espaços adjacentes com palestras, ou seja, espaços abertos cercados por colunatas, destinados à prática de exercícios físicos. Nas termas, também havia piscinas específicas para a prática de natação (chamadas de natatio). Em seguida, muitas termas também passaram a dispor de espaços para jogos com bola, chamados de sphaerista, pois, além do atletismo e das lutas, os romanos importaram da Grécia uma série de jogos com bola (pila, em latim).

Entre os jogos com bola mais populares estava o Harpastum, cujo nome derivava do grego harpaston, que significa “capturar” ou “tomar”. Esse jogo também era chamado pelos romanos de “jogo com a bola pequena”. Essa bola pequena e dura, que não quicava, era chamada de harpasta (havia outros jogos com bolas maiores, parecidas com a do nosso futebol, que eram infladas e quicavam (ex: follis).

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O Harpastum, segundo o retórico e gramático Athenaeus, que escreveu sobre muitos costumes do mundo greco-romano no século II D.C, era o nome que os romanos davam ao jogo que os gregos também chamavam de Phaininda.

Não se sabe com precisão quais eram as regras do Harpastum, mas todos os textos que foram preservados mencionando o jogo levam a crer que era muito parecido com o rúgbi. Era, com certeza, um jogo jogado com as mãos, em um campo grande, provavelmente de terra ou às vezes areia e de formato retangular, não muito menor do que um campo de futebol moderno e dividido ao meio por uma linha. Talvez houvesse versões do jogo, variando o número de jogadores de 5 a 12 em cada um dos dois times oponentes. As descrições mencionam um jogador recebendo a bola e fazendo passes para os companheiros de time, com os adversários tentando interceptar. A marcação era dura e os adversários eram jogados no chão. Porém, o objetivo era penetrar no campo adversário e capturar a bola, daí resultando, talvez, o nome que foi dado à pelota.

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Fizemos questão de escrever sobre o Harpastum , nesta semana da abertura da Copa do Mundo, porque há um teoria de que este jogo seria o ancestral do nosso futebol. Sabe-se que os soldados romanos praticavam muito o Harpastum, porque, além de envolver muito esforço físico, o jogo servia também como treinamento estratégico e tático. E as legiões romanas teriam levado o jogo para todos os cantos do império, inclusive a Britânia. Após a Queda do Império Romano, o Harpastum teria evoluído em diversas regiões que se tornariam os futuros países da Europa, e seria o provável ancestral do La Soule, um jogo com bola que surgiu na Normandia, França, e também do ancestral inglês do rugby. E foi a partir de uma cisão ocorrida entre os praticantes deste último que, surgiu na Grã-Bretanha, o football association, o nosso futebol.

Não obstante, os romanos certamente jogavam algum jogo que envolvia chutar uma bola, pois Cícero nos conta acerca de um curioso caso forense envolvendo a morte de um cliente que tinha ido cortar o cabelo em uma barbearia e ali foi morto por causa de uma bola chutada por crianças que jogavam na rua, sendo que a bola bateu na mão do barbeiro no exato momento em que este usava a navalha no pescoço da infeliz vítima!

Se os romanos não foram muito criativos na invenção de esportes, adotando quase todos os que conheciam de outros povos, no entanto, ninguém pode tirar-lhes os louros de terem inventado a indústria do esporte como entretenimento.

Desde os primórdios, havia em Roma jogos públicos para o entretenimento do povo romano (ludi). Esses jogos tinham um nítido propósito religioso, pois integravam festividades em homenagens às diversas divindades adoradas pelos romanos. Não se tratavam, assim,  propriamente, portanto, de competições esportivas, mas sim de exibições que buscavam o espetáculo e a diversão. Com efeito, pelo menos desde 366 A.C., o calendário romano incluía dias feriados chamados de ludi romani (jogos romanos), patrocinados pelo Estado.

Em Roma, o principal espaço para a realização dos ludi era o Circo Máximo, cuja pista existe até hoje. A principal modalidade esportiva praticada ali eram as corridas de bigas e quadrigas (carruagens puxadas por dois ou quatro cavalos), chamadas de Ludi Circensis. Se o leitor quiser ter uma ideia de como elas deviam ser, é só assistir ao filme “Ben-Hur”, em que provavelmente foi encenada a melhor reprodução cinematográfica de uma corrida de quadrigas. Júlio César reconstruiu o Circo Máximo, dotando-o de arquibancadas permanentes revestidas de mármore.

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Como o número de espectadores é o melhor termômetro para se medir qual esporte é o mais apreciado, sem dúvida esse título em Roma vai para as corridas de quadrigas, pois o Circo Máximo tinha capacidade para, pelo menos, 250 mil espectadores!

As corridas consistiam em 7 bigas ou quadrigas darem 7 voltas por toda a extensão da pista de 650 m de comprimento que circundava uma plataforma em forma de “U” bem alongado, chamada de “spina”, ganhando a que chegasse em primeiro. Havia na spina uma espécie de placar marcando o número de voltas e o número da quadriga que estava liderando, consistindo os marcadores  em esculturas de 7 ovos e de 7 golfinhos que eram giradas conforme a situação se desenvolvia.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

Os romanos eram tão apaixonados pelas corridas de bigas que as equipes e respectivos apoiadores logo se dividiram em 4 facções: os Vermelhos, Brancos, Verdes e Azuis. Com o tempo, essas facções evoluíram para representarem não apenas as corridas, mas cultos religiosos, bairros da cidade e, finalmente, agrupamentos políticos. E essas facções perduraram não somente em Roma,  mas permaneceram em existência durante o Império Romano do Oriente, em Constantinopla, também chamado de Império Bizantino. A famosa revolta “Nika”, em 532 D.C, que tentou destronar o Imperador Justiniano, começou com um conflito urbano promovido pelas facções rivais dos Azuis e dos Verdes. Constantinopla, como muitas cidades romanas, também tinha o seu hipódromo, cujas ruínas podem ser vistas ainda hoje. Estima-se que a sua capacidade era de 80 mil lugares.

A história registra vários episódios de devoção ou fanatismo esportivo pelas corridas de bigas. Os escritores faziam questão de registrar as estatísticas esportivas. Consta que o auriga (condutor de carruagens) mais bem sucedido foi Gaius Appuleius Diocles que venceu 1.462 corridas de um total de 4.257 disputadas, ganhando um total de 35.863.120 sestércios, soma que, estima-se, equivaleria hoje a 15 bilhões de dólares, o que o tornaria o esportista mais bem pago de todos os tempos! Diocles aposentou-se com 42 anos, após 24 anos de carreira (conforme matéria publicada no jornal Daily Telegraph (vide https://www.telegraph.co.uk/news/newstopics/howaboutthat/7942699/Wealth-of-todays-sports-stars-is-no-match-for-the-fortunes-of-Romes-chariot-racers.html).

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Os ludi foram imediatamente utilizados pelos imperadores como forma de propaganda política e manipulação de massas. Desde o início do Principado, os espetáculos aumentavam em número e suntuosidade. As lutas de gladiadores, costume que os romanos adquiriram dos etruscos, utilizados em cerimônias fúnebres privadas, passaram a integrar os jogos públicos, oferecidos e custeados pelos cônsules e pelo próprio imperador. Não vamos tratar, aqui, dos detalhes relativos aos combates na arena, uma vez que, em nossa opinião, a prática não se enquadra como esportiva.

O uso dos jogos como ferramenta de controle das massas pelos imperadores romanos, em conjunto com a distribuição gratuita de alimentos (anonna), gerou a célebre expressão “Pão e Circo”,  também cunhada por Juvenal, por volta do ano 100 D.C. A sua análise foi tão profunda, que merece ser citada na íntegra :

Já por muito tempo, desde quando nós não vendíamos o nosso voto para apenas uma pessoa, o povo romano tem abdicado das nossas obrigações; pois ele, que, anteriormente, distribuía os comandos militares, os altos cargos públicos, as legiões, tudo, enfim; agora se auto-restringe e, ansiosamente, espera somente duas coisas: Pão e circo!” (Sátiras, X, 77-81).

Com a advertência de Juvenal, encerramos nosso artigo sobre o Esporte em Roma, esperando que tenham gostado.

TIBÉRIO – UM IMPERADOR RELUTANTE

Tiberius,_Romisch-Germanisches_Museum,_Cologne foto Carole Raddato(Cabeça de Tibério, Museu Romano-Germânico, Colônia, foto de Carole Raddato)

NASCIMENTO, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 16 de novembro de 42 A.C., nasceu Tiberius Claudius Nero (Tibério), membro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza romana, cujos ancestrais tinham ocupado os mais importantes postos desde o início da República, desde o longínquo ano de 494 A.C. O menino recebeu o mesmo nome de seu pai, que havia sido Cônsul, no ano de 50 A.C.

Tibério era filho de Lívia Drusila, que, mesmo estando grávida de seu irmão, Druso, o Velho, divorciou-se de seu pai e casou-se, em 39 A.C, com o jovem triúnviro Otaviano, o herdeiro de Júlio César (que em pouco mais de uma década, tornaria-se o primeiro imperador romano, com o nome de Augusto).

Em 33 A.C., o pai de Tibério faleceu e foi ele quem fez o discurso fúnebre na tribuna dos Rostra, no fórum romano, diante da multidão, quando tinha apenas 9 anos de idade.

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(Cabeça de Lívia Drusila, molde do original da Glipoteca Ny Carlsberg, foto de Giovanni Dall’Orto)

O casamento de Lívia com Augusto fez Tibério entrar no círculo familiar do imperador, e, após a morte do pai dele, ele passou a viver na casa de Otaviano e Lívia, no Palatino, onde recebeu esmerada educação dos melhores tutores, como por exemplo, Teodoro de Gadara, que lhe ensinou Retórica.

Quando Otaviano celebrou o triunfo pela vitória contra Cleópatra (e Marco Antônio) pelas ruas de Roma, em 29 A.C., o menino Tibério, então com cerca de doze anos, recebeu a distinção de conduzir, ao lado de Marcelo, a quadriga triunfal na qual ia o seu padastro.

A posição de Tibério na família imperial foi ainda mais reforçada quando ele casou-se com Vipsânia Agripina, filha do maior colaborador e amigo de Augusto, o general Marco Vipsânio Agripa, então cotado para ser o sucessor. Tenha ou não sido arranjado este casamento, o fato é que Tibério e a esposa apaixonaram-se. Eles tiveram dois filhos: Druso, o Jovem, em 14 A.C., e uma outra criança, que morreu precocemente.

 (Tibério e Vipsânia Agripina)

Por sua vez, Augusto e Lívia não tiveram filhos e a única descendente do imperador era sua filha Júlia, nascida do seu casamento anterior com Escribônia, e que havia se casado com Agripa.

Porém, Agripa morreria em 12 A.C., deixando Júlia viúva com dois filhos pequenos, Caio César e Lúcio César, que já haviam sido adotados por Augusto em 17 A.C., fato que colocou os meninos na condição de prováveis sucessores do trono. Vale notar que essa adoção ocorreu após a morte do sobrinho e predileto de Augusto, Marcelo, filho de sua irmã, Otávia, a Jovem, ocorrida em 23 A.C.. Aliás, essas escolhas permitem vislumbrar como Augusto planejava a questão da sua sucessão, inclusive tendo em vista as suas reações em função dos imprevistos.

A condição de enteado do imperador fez com que Tibério, aos 17 anos de idade, iniciasse a sua carreira pública como Questor, apesar dele não ter a idade legalmente exigida para o cargo. Nessa função, Tibério demonstrou competência para lidar com um problema de abastecimento de grãos, em Óstia.

O progresso de Tibério na carreira das magistraturas foi rápido e, em 13 A.C., novamente antes de ter a idade legal, ele foi escolhido Cônsul.

ASCENSÃO DE TIBÉRIO

Em 11 A.C, Augusto, chegou à conclusão que seu enteado Tibério, em caso de uma eventualidade (o já quinquagenário imperador tinha ficado gravemente doente onze anos antes), seria um bom candidato para ocupar o trono, pelo menos até a maioridade dos seus netos, Caio César e Lúcio César. Com essa finalidade, e provavelmente incentivado por Lívia, o imperador “pediu” (na verdade, provavelmente, ele deve ter ordenado) que Tibério se divorciasse de  sua adorada Vipsânia e se casasse com sua filha viúva,  Júlia.

Tibério, contrariado, teve que obedecer e casou-se com Júlia, tornando-se, agora, além de enteado, genro do imperador. Porém, o coração dos homens não dá muita bola para as razões políticas, e, segundo as fontes, certa vez, após o divorciar-se de Vipsânia, Tibério encontrou-a em algum evento social, ocasião em que copiosas lágrimas desceram pelo rosto dele, obrigando-o a se retirar do local e ir para casa. 

Ainda de acordo com o relato acima, algumas testemunhas teriam ouvido, no trajeto de volta, Tibério implorar aos céus, insistentemente, pelo perdão da ex-mulher.

Foi uma cena que certamente inspirou preocupação na família imperial, pois Suetônio conta que

foram tomadas precauções para que Tibério nunca mais tivesse a oportunidade de encontrar a ex-mulher novamente“.

Enquanto isso, Tibério prosseguiu a sua carreira no serviço público como advogado, atuando em defesa de diversas cidades gregas no Senado e também como acusador público de um senador que havia conspirado contra Augusto.

Depois disso, Tibério destacou-se na carreira militar e acabou se revelando um grande general. Ele comandou campanhas bem sucedidas na Panônia e na Germânia, estas muito bem descritas pela historiador Veléio Patérculo, que serviu sob as ordens dele. Foi Tibério o primeiro romano a descobrir a nascente do Rio Danúbio e ele também marchou à testa de seu exército até o Rio Elba, sem dúvida um feito notável.

Com efeito, as vitórias de Tibério, na Germânia, abriram o terreno para estabelecer esta região como província romana, um projeto que, contudo, seria interrompido pelo Desastre de Varo, que narramos em uma das primeiras postagens de nossa página.

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(Campanha de Tibério na Germânia)

Graças a essas vitórias, Tibério foi o primeiro romano a receber os “ornamentos triunfais“, inaugurando esta nova forma de reconhecimento aos generais vitoriosos, já que os Triunfos, agora, passavam a ser reservados apenas ao Imperador, em pessoa.

Em 7 A.C., Tibério foi designado Cônsul e recebeu, em 6 A.C., o “Poder Tribunício” (que conferia ao magistrado o poder de vetar todos os atos dos demais magistrados e foi retirado do cargo de Tribuno da Plebe e atribuído ao Imperador já no principado de Augusto). Este ato começava a se tornar praticamente um reconhecimento da posição do seu receptor como a pessoa mais importante no Império, depois do Imperador).

Com os despojos obtidos na guerra contra os Germanos, Tibério encarregou-se de restaurar o Templo da Concórdia, no Fórum Romano, que só seria completado em 10 D.C.

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(Reconstrução do Templo da Concórdia, no Fórum, restaurado por Tibério – autor Lasha Tskhondia)

TIBÉRIO NA BERLINDA

Porém, foi após receber essas honrarias e liderar outra bem sucedida campanha, contra os Marcomanos, que Tibério, em 6 A.C, inusitadamente auto-exilou-se na ilha de Rodes. Há muitos debates sobre este misterioso exílio:

Em primeiro lugar, parece claro que Augusto nunca simpatizou muito com o reservado e frio Tibério, somente tendo-o favorecido por instigação da mãe dele, a influente imperatriz Lívia, e pela necessidade de ter um sucessor da família à mão, em caso de imprevisto.

Em segundo lugar, mas talvez mais importante, Caio César e Lúcio César, os já mencionados netos de Augusto,  estavam crescendo. O primeiro, inclusive, já havia sido designado, naquele ano, para ser cônsul quando alcançasse os 20 anos, embora ele ainda tivesse apenas 14 anos na ocasião.

Assim, Tibério provavelmente deve ter sentido a sua posição na sucessão imperial enfraquecida e decidiu retirar-se voluntariamente das intrigas pela sucessão do já quase sexagenário Augusto. Segundo Suetônio, essa explicação teria sido dada, posteriormente, pelo próprio Tibério, porém atribuindo-a ao nobre propósito de não ofuscar  e deixar o terreno livre para os dois rapazes.

Outro motivo que se cogita para o auto-exílio de Tibério em Rodes é o fato de que ele poderia estar se sentindo humilhado pela notória infidelidade da sua esposa Júlia, a quem se atribuía publicamente a participação em vários episódios de adultério e até de orgias.

Consta que Augusto, sincera ou fingidamente, tentou impedir Tibério de partir, somente permitindo a viagem após uma curta greve de fome do genro.  Entretanto, depois da chegada de Tibério à ilha, o imperador passou a preferir que ele permanecesse longe de Roma e a situação de Tibério passou a ser a de um exilado de facto. Há até relatos de que ele chegou a ser hostilizado por algumas pessoas, que percebiam a situação dele como a de alguém que havia caído em desgraça.

Para piorar, Augusto baniu Júlia de Roma, por causa dos adultérios, e decretou, em nome de Tibério, o divórcio de ambos.

Mas o destino, que, segundo a suspeita de muitos, de vez em quando recebia uma mãozinha de sua mãe Lívia, parecia sorrir para Tibério, uma vez que Caio César e Lúcio César morreriam no curto espaço de dois anos, entre 2 e 4 D.C.: Lúcio, por doença, aos 18 anos de idade, e Caio, por ferimentos recebidos em batalha, na Armênia, aos 23 anos.

Com efeito, segundo as fontes, pouco depois da morte de Lúcio César, ocorrida em 20 de agosto de 2 D.C., Augusto acabou cedendo aos apelos da imperatriz Lívia, e os do próprio Tibério, e, depois de oito anos de exílio, autorizou a volta do seu enteado para Roma, onde, após o retorno, ele se manteve como um cidadão privado, afastado de qualquer função pública.

Segundo uma passagem citada por Cássio Dião, em Rodes, Tibério estava acompanhado do famoso astrólogo Trasyllas, que, ao ver no horizonte um navio, teria previsto que ele trazia a mensagem de Augusto e Lívia chamando Tibério de volta à Roma. Prestigiado com o acerto da sua previsão, Trasyllas acompanharia Tibério – que acreditava piamente nos seus poderes de adivinhação – durante boa parte da existência dele.

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(Cabeça de Lúcio César)

Então, como já mencionado, em 21 de fevereiro de 4 D.C., Caio César morreu na província romana da Lícia, no Oriente, após uma prolongado agravamento de sua saúde decorrente de um ferimento sofrido no final do ano 2 D.C., em um ataque traiçoeiro na Armênia, quando ele liderava uma campanha visando pacificar o referido reino-cliente de Roma.

Porém, alguns historiadores, como Tácito e Dião Cássio, suspeitam de que Lívia estaria por trás da morte dos dois rapazes, com o objetivo de afastá-lo do caminho de seu filho Tibério ao trono.

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(cabeça de Caio César)

HERDEIRO DO TRONO

Agora sem os seus dois herdeiros consanguíneos mais próximos, Augusto, naquele mesmo ano de 4 D.C., no dia 26 de junho, adotou formalmente Tibério como herdeiro e sucessor, juntamente com seu último neto vivo, Agripa Póstumo, que era o irmão mais novo dos falecidos e tinha 16 anos de idade. E Tibério também recebeu, mais uma vez, o Poder Tribunício.

Augusto, contudo, ainda não havia abandonado totalmente a esperança de que um parente de sangue da gens Julia viesse a herdar o trono, pois o imperador exigiu, ao adotar Tibério, que este, por sua vez, adotasse o jovem Germânico, que era neto de sua irmã, Otávia, a  Jovem, fruto do casamento desta com o Triúnviro Marco Antônio.

Todavia, em uma clara demonstração de que a posição de Tibério agora era inconteste, em 7 D.C., Augusto ordenou o banimento de Agripa Póstumo, que foi exilado para a remota ilha de Planásia, na costa italiana. Vale citar que, de acordo com alguns relatos, o rapaz tinha o temperamento inconstante e era dado a ataques de fúria, um indício de que ele não estaria apto para ser imperador.

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(Cabeça de bronze de Agripa Póstumo, Louvre, foto de Mbzt)

 

Depois disso, Tibério recebeu comandos militares proconsulares (imperium) para combater os inimigos do império na Panônia e na Germânia (ele teve que lutar contra os bárbaros germânicos que haviam destruído as 3 legiões de Varo). Em 13 D.C., Tibério recebeu poder consular compartilhado com Augusto, tornando-se, na prática, coimperador.

TIBÉRIO IMPERADOR

Desse modo, com a morte de Augusto, em 19 de agosto de 14 D.C, um mês antes dele completar a avançada idade de 76 anos, a sucessão do trono em favor de Tibério foi praticamente “automática”.

Mesmo assim, algumas fontes relatam que Lívia teria escondido do público a morte de Augusto, mantendo-a em segredo até que Tibério, que estaria na Dalmácia, chegasse à Roma. Já outras fontes, como o historiador Cássio Dião, contam que Tibério chegou a receber pessoalmente algumas instruções e conselhos para o seu governo do próprio Augusto, em seu leito de morte.

De qualquer modo, concomitantemente ou logo depois da morte de Augusto, Agripa Póstumo foi prontamente assassinado em Planásia. Tibério foi acusado de ser o mandante, mas negou veementemente essa acusação no Senado. Até hoje há discussão se ele de fato foi o responsável, ou se isso ocorreu por alguma ordem anterior de Augusto. Seja como for, esta medida extrema logo demonstrou não ter sido inteiramente despropositada, pois, pouco tempo depois do fato, apareceu no Império um impostor fazendo-se passar por Póstumo, e o tratante chegou até a angariar algum apoio entre o populacho, causando algum tumulto público, até ele ser capturado e executado.

Vale observar que não havia precedentes para regular as relações do Príncipe com o Senado, já que Augusto, em seu longo reinado de quarenta anos, sem contar o tempo em que ele esteve à frente da República como Triúnviro, e período durante a guerra civil contra Marco Antonio (cerca de 56 anos), sempre fizera questão de se apresentar como um magistrado da antiga República que somente estava ocupando a sua posição excepcional na República em decorrência de crises e guerras civis.

E o fato é que o já citado temperamento frio, desconfiado, introvertido e orgulhoso de Tibério não facilitou em nada a tarefa de conciliar o novo regime que, na prática, era uma monarquia, com a existência de uma assembléia representativa de uma elite aristocrática que acreditava ter direito a administrar o Estado.

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Um episódio, relatado pelo historiador Tácito, já demonstra boa parte dessas dificuldades:

Em uma das primeiras sessões do Senado após a sucessão, na qual os senadores discutiam quais os cargos, títulos, poderes e províncias, entre todos aqueles que Augusto tinha paulatinamente reunido sob o seu cetro, iriam ser conferidos a Tibério, o futuro imperador fingia não querer tamanho fardo sobre suas costas, insinceramente recusando alguns deles, os quais sugeria que fossem conferidos ao Senado. Porém, essa relutância de Tibério, considerada pela maioria como apenas um gesto teatral, alongou-se por tanto tempo, que o senador Asínio Galo, já impaciente com a interminável encenação, perguntou, com ironia:

“Que parte do Império, então, ó César, vós quereis que vos seja confiada?”

E o impasse durou praticamente um mês. Somente na sessão do dia 18 de setembro de 14 D.C., Tibério enfim seria oficialmente aclamado imperador, sendo, assim, essa demora devida não à resistência do Senado, mas à inesperada relutância do próprio imperador. Ele, inclusive, recusou os títulos de “Augusto” e de “Pai da Pátria“.

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Ao contrário de Augusto, que sabia muito bem manobrar seus apoiadores no Senado para que a vontade dele fosse imposta sob uma aparência de naturalidade e de preservação das tradições republicanas, Tibério demonstrou não ter tato nem astúcia para as sutilezas da política. De fato, ele quase sempre mostrava-se ambíguo e enigmático para os senadores, parecendo esperar que os mesmos adivinhassem o que ele realmente queria. No entanto, a verdade é que Tibério não aceitava bem quando os senadores manifestavam oposição aos seus desígnios e isso, pouco a pouco, foi criando uma atmosfera de intrigas e de suspeita.

Uma passagem de Tácito exemplifica o desconforto e o desprezo que Tibério parecia sentir com relação ao cargo de imperador e às maneiras dos senadores: Certa vez, ao deixar um evento, ele foi cercado por senadores, que começaram a fazer reverências e pedidos. Tibério, então, comentou com um de seus acompanhantes:

“Que homens tão bem apropriados para serem escravos!”

MOTIM NA GERMÂNIA

Logo no início do reinado, estourou uma séria revolta entre as legiões da Germânia e da Panônia, as tropas mais numerosas e bem preparadas do Império, que estavam ocupadas lutando contra os bárbaros germânicos. Os soldados cobravam uma gratificação que tinha sido prometida por Augusto e não havia ainda sido paga por Tibério.

Germânico e o filho do imperador, Druso, o Jovem, foram enviados para lidar com os revoltosos e o primeiro, que chegou a correr risco à sua integridade física, conseguiu debelar a revolta. Em seguida, Germânico liderou essas tropas contra a coalizão de tribos germânicas que havia massacrado as legiões de Varo, invadiu a Germânia e conseguiu várias vitórias, recuperando duas das três águias-estandarte perdidas, até ser chamado de volta à Roma por Tibério para celebrar um grande triunfo, em 17 D.C. .Para o historiador Tácito, o temor em relação ao grande prestígio popular que essas vitórias deram a Germânico foi o verdadeiro motivo para que Tibério ordenasse a interrupção da campanha.

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Depois do triunfo, Tibério conferiu à Germânico autoridade sobre as províncias orientais do Império Romano, com objetivo de organizá-las e estabelecer as relações com diversos reinos-clientes, e nomeou-o Cônsul para o ano de 18 D.C., ao lado do próprio imperador. Tais medidas pareciam uma demonstração, ao menos  publicamente, de que Tibério prestigiava a posição de Germânico como seu sucessor.

MORTE DE GERMÂNICO

No Oriente, contudo, Germânico entrou em atrito com o governador da Síria designado por Tibério, Caio Calpúrnio Pisão. Além de visitar o Egito sem a permissão expressa de Tibério (esta província estava sob a autoridade direta do imperador e, com base em uma lei de Augusto, nenhum senador podia visitá-la sem autorização imperial), Germânico demitiu Pisão e ordenou que este se apresentasse em Roma.

Todavia, enquanto ainda estava em Antióquia, Germânico adoeceu sem causa aparente. Desconfiado de que tivesse sido vítima de feitiçaria ou veneno por parte do governador, Germânico enviou uma carta a Pisão, renunciando formalmente à amizade entre ambos. Logo em seguida, Germânico faleceu, em 10 de outubro de 19 D.C.

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Quando a notícia da morte de Germânico chegou à Roma, houve comoção popular e muitos suspeitaram de que Tibério, ou sua mãe, Lívia, que era amiga de Plancina, a  esposa de Pisão, poderiam estar por trás do suposto envenenamento. Tibério ordenou uma breve investigação e Pisão foi preso e enviado para ser julgado pelo Senado. A acusação de envenenamento foi logo arquivada, mas a de traição foi mantida. Durante o julgamento, Pisão foi encontrado morto em sua cela, supostamente tendo cometido suicídio. Obviamente, o fato contribuiu para aumentar as suspeitas sobre Tibério e muitos consideraram que a morte de Pisão teria sido uma “queima de arquivo”.

Apesar do suicídio de Pisão, o julgamento dele prosseguiu e o veredito foi a sua condenação pelo crime de “maiestas” (lesa-majestade), em 20 D.C., o qual, pela primeira vez em Roma, foi considerado como abrangendo o imperador e a casa imperial, já que Germânico, enquanto membro desta, teria tido a autoridade desobedecida por Pisão. Aliás, esta mudança mostra que a transição da República para a Monarquia estava bem avançada, apesar das aparências que Augusto e Tibério procuraram manter..

O caso da morte de Germânico mobilizou tanto a opinião pública romana (segundo Suetônio, vários muros foram pichados com a frase: “Dê-nos Germânico de volta!“) que Tibério foi obrigado a tornar públicas as atas do julgamento de Pisão, o que hoje sabemos graças à descoberta, nos anos 80 do século XX,  próximo à Sevilha, na atual Espanha, de tábuas de bronze contendo o texto do Senatus Consultum de Gn. Pisone Patre, que nada mais é do que um decreto do Senado Romano contendo a versão oficial sobre o assunto (cf. https://scholar.princeton.edu/sites/default/files/SCCPP_0.pdf). Vale notar, entre outras coisas, que o seu texto confirma o relato de Tácito de que a imperatriz Lívia intercedeu para que sua amiga Plancina fosse perdoada.

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Não obstante, apesar das suspeitas de que Tibério estaria implicado na morte de Germânico, há que se ressaltar que, até a morte deste, as ações do  imperador não vinham comprometendo o status do falecido como primeiro na linha de sucessão imperial. Mesmo assim, a viúva de Germânico, Agripina, a Velha, não escondia de ninguém que suspeitava de Tibério e Lívia. Sintomaticamente, os dois não compareceram ao funeral de Germânico

O fato é que a desconfiança passou a reinar no seio da família imperial. Certa vez, Tibério, ouvindo Agripina queixar-se do assassinato do marido, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de um então famoso poema clássico:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Com a morte de Germânico, Tibério  passou a investir somente em seu único filho natural, Druso, o  Jovem, que era cerca de um ano mais novo do que o falecido, e cuja carreira pública progredia junto com a do irmão adotivo. Assim nos parece que Tibério copiou Augusto e planejou a sua sucessão de modo semelhante a do que o seu antecessor havia tentado em relação a Caio e Lúcio César: que ambos reinassem em conjunto, ou que um servisse como substituto no caso do outro morrer antes da sucessão.

Então, em 22 D.C., Druso recebeu o Poder Tribunício, demonstrando que ele estava sendo preparado para suceder o pai.

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(Busto de Druso, o Jovem)

Enquanto isso, aparentemente Tibério ressentia-se com o aumento de sua impopularidade causada pela morte de Germânico e começou, paulatinamente, a se ausentar mais e mais de Roma, passando temporadas no litoral da Campânia, região que, desde a República, era considerada como um balneário de luxo para a elite romana.

SEJANO E MORTE DE DRUSO

De fato, na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o Comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandiu a guarnição dos pretorianos para um efetivo de cerca de nove mil homens, os quais, durante o reinado de Augusto, estavam espalhados em várias cidades nos arredores de Roma, e que por iniciativa de Sejano foram centralizados em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade, por volta de 18 D.C.

Sejano era membro da classe equestre, e sucedera o seu pai,  Lucius Seius Strabo, como comandante dos pretorianos. A família de Sejano era bem relacionada com a classe senatorial, seu avô paterno foi casado com a filha de Caio Mecenas, o rico e influente amigo de Augusto, e o próprio Sejano foi adotado por Caio Élio Galo, que foi governador do Egito no reinado de Augusto. Acredita-se que a esposa de Sejano, Apicata, era filha do rico e famoso gourmet Marcus Gavius Apicius (Apício). Segundo as más línguas, antes de se casar com Apicata, Sejano havia funcionado como amante do sogro. Não obstante, Sejano tornou-se amigo íntimo de Caio César, o neto de Augusto, e, portanto, apesar de ocupar uma posição social inferior à da alta aristocracia, ele acabou ficando próximo da casa imperial.

O poder de Sejano tornou-se tão destacado que Tibério, certa vez, referiu-se a ele como meu sócio-trabalhador” (socius laborum). E Sejano, de fato, tinha altas pretensões. Em 20 D.C., ele  arranjou uma promessa de casamento de sua filha, Junilla,  com o filho do sobrinho do imperador, Cláudio, quando as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano ingressar na família imperial iriam por água baixo, porque, poucos dias depois do arranjo, o menino morreria engasgado com uma pera.

Porém, Druso, o Jovem não tinha boas relações com Sejano e certa vez, segundo Tácito, ele chegou a dar um soco no Prefeito Pretoriano, sendo que, em outra ocasião, o rapaz teria reclamado que:

“Um estranho tenha sido convidado para auxiliar no governo enquanto o filho do imperador estava vivo” 

Mais grave do que tudo isso foi o fato de Sejano ter seduzido Livilla, a esposa de Druso, de quem ele havia se tornado amante.

Porém, em 14 de setembro de 23 D.C., Druso, o Jovem morreu, aos 36 anos de idade, de causa ignorada. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado por Livilla, que também era irmã do finado Germãnico.

Efetivamente, de acordo com o relato de Cássio Dião, oito anos após a morte de Druso, a esposa de Sejano, Apicata, teria enviado uma carta a Tibério, revelando que o marido e Livilla tinham envenenado o herdeiro. A acusação não parece muito plausível e o fato é que, se o adultério de Sejano e Livilla realmente ocorreu, e se a morte de Druso alguma vez lhe pareceu suspeita,  Tibério continuou, durante muitos anos, a confiar em Sejano, e não demonstrou suspeitar da participação do auxiliar na morte do filho.

Seja como for, em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, ressaltou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Com a morte de Druso, o Jovem, os jovens filhos de GermânicoAgripina, a Velha: Nero Julius Caesar Germanicus e Drusus Julius Caesar Germanicus, foram adotados por Tibério e adquiriram a condição de sucessores naturais dele, fato que colocaria todos na alça de mira de Sejano.

AUTO-EXÍLIO EM CAPRI 

No ano seguinte, 26 D.C.Tibério foi viver na Ilha de Capri, em um novo auto-exílio voluntário que, desta vez, duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo imperial nas mãos de Sejano, aparentemente a pessoa em quem ele mais confiava. A  confiança que o imperador depositava em Sejano aumentou ainda mais após o incidente no qual o teto da gruta (grotto) da Villa de Tibério, em Sperlonga, adornada por primorosas esculturas, onde ele costumava fazer banquetes, desabou e Sejano protegeu Tibério com o próprio corpo, das rochas que caíam.

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(1- Grotto da Villa de Tibério, em Sperlonga, e 2- parte das esculturas restauradas, foto: Carole Radatto)

Mesmo assim, durante algum tempo, Tibério deixava Capri e viajava até as cercanias de Roma, provavelmente com a intenção de deixar os senadores em suspense, pois ele, em certas ocasiões, enviava despachos informando que estava vindo à Cidade.

Certamente, a conhecida misantropia do imperador foi um dos motivos que o levou a se retirar de Roma e ir viver na maravilhosa Villa Jovis, que ele mandou construir em Capri. O outro teria sido a tristeza causada pela morte do filho.

Em Capri, o avanço da senilidade – ele tinha 68 anos de idade – e uma misteriosa doença que lhe cobria o rosto e o corpo de feridas (alguns a comparam à sífilis, e, embora a ciência tradicional considere que essa doença não era conhecida na Europa naquela época, estudos recentes parecem indicar que ela já circulava no continente durante o Império Romano) aos poucos deram vazão a uma personalidade paranóica, cruel e devassa (vale notar que a sífilis, em sua fase final, atinge o cérebro e pode causar demência).

Se for verdade o que Suetônio conta, em Capri aconteceram atos os mais tenebrosos de depravação sexual e assassinatos.

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villa jovisUnknown_d_0_0_800.20170804192902(Villa Jovis, Capri, 1- maquete e 2- estado atual)

MORTE DE LÍVIA

Em 29 de setembro de 29 D.C., com a provecta idade de 87 anos, morreu Lívia Drusila. a mãe de Tibério, que, por disposição testamentária de Augusto, recebera o nome de Júlia Augusta. Lívia permaneceu detentora de grande poder durante boa parte do reinado de Tibério, que passou a se ressentir da ascendência pessoal e da influência excessiva da mãe nos negócios do Estado. Houve até quem dissesse que o principal motivo da ida de Tibério para Capri foi o fato dele não suportar mais a personalidade dominadora da mãe.

Consta que, ao ser informado da morte de Lívia e dos preparativos para o funeral, Tibério não viajou, permanecendo em Capri por vários dias, até que os encarregados da cerimônia desistiram de esperar a chegada dele, tendo em vista que o corpo da falecida já estava apodrecendo. Então, Tibério acabou enviando seu sobrinho-neto, Gaius Julius Caesar Germanicus, apelidado Calígula”, o filho mais novo de Germânico e Agripina, a Velha, para fazer a oração fúnebre. E o imperador também vetou que o Senado divinizasse a mãe.

Livia_y_Tiberio_M.A.N._01 foto Miguel Hermoso Cuesta

(Estátuas de Lívia e de Tibério, lado a lado)

“REGÊNCIA” DE SEJANO

Enquanto isso, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri, agia como virtual governante de Roma, ainda mais agora que a intimidadora presença de Lívia desaparecera, e começou a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. Um alvo preferencial de Sejano foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo e reuniu em torno de si um grupo de senadores que faziam oposição a Sejano.

Sejano parece ter instigado Tibério para que este escrevesse uma carta ao Senado denunciando Agripina e seu filho primogênito, Nero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero), de conspiração. Após bastante relutância (Tibério teve que renovar as acusações), o Senado acabou banindo os dois, declarando-os “inimigos públicos”.

(Cabeças de Agripina, a Velha e de seu filho Nero Julius Caesar Germânico, National Archaeological Museum of Tarragona )

Agripina foi exilada para a ilha de Pandatária e lá, após sofrer maus-tratos, morreu de inanição voluntária, em 33 D.C.. E Nero Julius Caesar Germanicus também foi exilado, no mesmo ano que a mãe, para a ilha de Pontia, onde morreria no ano seguinte, compelido a se suicidar, em 31 D.C..

Por sua vez, o filho do meio de Agripina, Drusus Julius Caesar Germanicus, foi acusado por um senador de estar tramando contra Tibério. Consta que foi Amelia, a esposa de Drusus, quem o denunciou para Sejano, que a teria seduzido. Ele foi preso e confinado a uma cela no Palatino, também em 30 D.C.

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(Possível estátua de Drusus Julius Caesar, foto Sailko)

Em 31 D.CCalígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério na Villa Jovis em Capri.

A julgar pelo relato de SuetônioCalígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério e, graças a isso teria conseguido sobreviver ao destino da sua família. Se os chocantes relatos do citado historiador forem verdadeiros, em Capri, Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“.

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(Cabeça de Calígula, com as cores originais que recobriam o mármore)

QUEDA DE SEJANO

Parecia que Sejano nessa época estava no auge de seu poder: o aniversário dele foi incluído no calendário como uma data a ser comemorada e várias estátuas foram erguidas em sua homenagem. E, em 30 D.C., ele conseguiu finalmente a tão almejada conexão familiar com a família imperial, obtendo a autorização para o casamento com Livilla, Nessa toada, no ano seguinte, Sejano foi designado Cônsul, na companhia de Tibério. Nas palavras de Dião Cássio,

parecia que Sejano era o Imperador, e Tibério, o governante de uma ilha.

Entretanto, naquele mesmo ano, Tibério começou a tomar atitudes ambíguas em relação à Sejano: Ele nomeou seu sobrinho Calígula para um prestigioso posto de sacerdote, gesto que foi recebido com entusiasmo pela Plebe, e insinuou que o rapaz poderia ser o seu sucessor.

Sejano chegou a ficar desconfiado de que talvez suas pretensões poderiam fracassar, até que o Senado Romano recebeu um despacho oficial de Tibério convocando uma sessão para o dia 18 de outubro de 31 D.C., na qual  Sejano receberia o Poder Tribunício, acompanhado de uma carta de Tibério que deveria ser lida na sessão, ambos entregues por Névio Sutório Macro, que até pouco tempo era chefe dos Vigiles, o corpo de guardas-bombeiros criado por Augusto. Seguindo as ordens de Tibério, Macro informou o teor da carta a Memmius Regulus, que havia sucedido Sejano como Cônsul (Tibério pouco tempos antes havia renunciado ao cargo, forçando Sejano a segui-lo).

No dia designado, um confiante Sejano compareceu ao Templo de Apolo Palatino, onde, naquela ocasião, o Senado estava se reunindo, lotado de Senadores, que imediatamente o cercaram com bajulações. Enquanto a longa carta era lida, contendo uma introdução sobre  assuntos variados e algumas menções lacônicas de Tibério ao seu “sócio“, o edifício foi cercado pelos vigiles, comandados por Graecinus Laco

A leitura da carta prosseguiu e, para a surpresa de todos, o tom inicialmente amistoso de Tibério, transformou-se em uma acusação de vários crimes contra Sejano, terminando por ordenar a sua prisão.

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(Templo de Apolo Palatino,  acima à esquerda, nesta reconstrução do complexo de palácios e prédios imperiais  a maioria construídos posteriormente na Colina do Palatino)

O espanto logo se transformou em comoção, e os senadores que estavam sentados próximos a Sejano, afastaram-se dele correndo. Sejano continuou sentado, imóvel -ele somente teve que se levantar quando Regulus, pela terceira vez, ordenou que ele ficasse de frente para a assembléia.

Quando a carta terminou de ser lida, Regulus perguntou se algum senador se opunha à prisão de Sejano, mas ninguém teve coragem de se manifestar contra. Este, então, foi levado para a prisão por Laco.

No caminho para a prisão, Sejano foi hostilizado pelo populacho, que zombou acerbamente das suas supostas pretensões ao trono. Naquele mesmo dia, o Senado, ao saber da reação da Plebe e perceber que nenhum soldado pretoriano aparecera para defender o chefe, votou pela condenação de Sejano à morte, decretando também a damnatio memoriae (destruição de todas as estátuas e supressão do seu nome dos registros públicos).

O que muitos senadores ainda ignoravam, enquanto hesitavam temendo alguma reação de soldados fiéis a Sejano, é que Tibério havia dado à Macro um documento nomeando-o novo comandante da Guarda Pretoriana, quando despachou-o para Roma para convocar o Senado. Assim, enquanto Laco cercava o Senado e a carta era lida, Macro já havia assumido o comando no quartel da Guarda Pretoriana.

Sejano foi executado e seu corpo atirado para rolar pelas “Escadas Gemônias“, onde ficou por três dias sendo vilipendiado pela turba (Parece que essa forma de punição foi inaugurada no reinado do próprio Tibério).  Os filhos de Sejano: Lúcio Seio Estrabão, Capito Elano e Junilla, também seriam executados, o primeiro em 24 de outubro, e os outros em  dezembro de 31 D.C., pelo simples fato de serem filhos dele. Como se não bastasse, a ainda adolescente Junilla, antes de ser estrangulada, foi estuprada pelo carrasco, pois o costume proibia executar uma virgem.

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(Escadaria que leva ao Capitólio, em Roma, talvez construída sobre as Escadarias Gemônias)

De acordo com o historiador Flávio Josefo, foi Antônia, a Jovem, cunhada de Tibério e mãe do falecido Germânico, quem denunciou Sejano a Tibério. Ela teria enviado uma carta ao imperador, que estava em Capri, e, supostamente, ignorava as ações do subordinado, contando dos planos dele para tomar o poder, nos quais estaria sendo auxiliado pela amante, Livilla, filha da própria Antônia.

Livilla foi poupada de ser executada, mas foi entregue à mãe, em cuja casa ficou em prisão domiciliar, segundo consta, trancada em um quarto sem receber alimentação, até morrer de inanição.

Quando Apicata, a viúva de Sejano, soube da execução do filho, ela enviou, antes de se suicidar, uma carta a Tibério, acusando Livilla de ter envenenado o próprio marido, e filho do imperador, Druso, o Jovem, em conluio com seu amante Sejano. Muitos historiadores não dão crédito a essa acusação de Apicata, atribuindo-a à vingança de uma esposa traída contra a amante que estava em vias de substituí-la como esposa.

O fato é que a descoberta da conspiração instaurou um frenesi persecutório em Roma e vários senadores que tinham relacionamento com Sejano foram executados.

Tibério mais tarde declararia ao Senado que decidiu remover Sejano quando soube da participação dele na perseguição à Agripina e na morte do filho dela, mas essa explicação não convenceu nem os contemporâneos, nem os historiadores modernos, uma vez que Agripina continuou exilada, até morrer, em 33 D.C, de inanição. quase dois anos após a execução de Sejano, o mesmo ocorrendo com o filho dela, Drusus Julius Caesar, que também morreu de inanição, em sua cela no Palatino, em 33 D.C., igualmente de inanição (consta que ele, famélico, chegou a comer o colchão em que dormia). A coincidência no ano e forma das mortes é um forte indício de que as mortes deles foram ordenadas por Tibério.

TIBÉRIO COMO GOVERNANTE

Tibério era estóico e, durante a juventude e parte da sua vida adulta, ele parece ter se conduzido pelos rígidos padrões morais dessa corrente filosófica. Talvez por isso, a marca do seu reinado tenha sido a austeridade nos gastos públicos, uma política que acarretou um grande superávit no tesouro do Estado. Consequentemente, em termos econômicos, houve grande prosperidade no Império. De fato, quando morreu, Tibério deixou nos cofres do Tesouro a formidável quantia de três bilhões e setecentos milhões de sestércios.

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(Aureus de Tibério, c. 27/30 D.C., foto cgb)

Por outro lado, a falta de espetáculos públicos, jogos e construção de obras públicas grandiosas tornou-o antipático para a plebe romana.

Tibério preocupou-se em controlar os excessos dos governadores das províncias e nomear homens capazes e de boa reputação para administrá-las. Ficou famoso o episódio em que o governador do Egito, Aemilius Rectus, enviou à Roma um volume de tributos maior do que o normal, e recebeu de Tibério a seguinte advertência:

“Eu quero minhas ovelhas tosquiadas, mas não depiladas!”

A cidade de Tiberias, na Galiléia, um reino-cliente de Roma, foi fundada pelo tetrarca Herodes Antipas, em 20 D.C., e foi assim batizada em homenagem a Tibério.

Outro motivo que contribuiu para a grande prosperidade econômica experimentada durante o reinado de Tibério foi o fato dele ter evitado travar campanhas militares, após as campanhas de Germânico, valendo-se precipuamente da diplomacia nas questões de interesse do Estado. Entre as poucas ocorrências bélicas estão a supressão de uma revolta gaulesa liderada por Julius Sacrovir, em 21 D.C., a vitória final contra uma rebelião berbere na Numídia, comandada pelo chefe Tacfarinas, que, após dez anos, foi finalmente derrotado, em 24 D.C., e uma vitória contra tribos montanhesas insubmissas na Trácia, em 26 D.C.

Em 28 D.C., um forte romano foi cercado pela tribo germânica dos Frísios, na Floresta Baduhenna, na atual Holanda. Os Frísios estavam insatisfeitos com o tributo que pagavam como clientes de Roma e mataram os coletores de impostos romanos. Destacamentos da V Legião, após um duro combate, conseguiram repelir os bárbaros, mas 900 soldados romanos morreram. Seguindo política de Tibério de evitar guerras custosas, não houve nenhuma represália e, de acordo com Tácito, o assunto foi deixado de lado.

Politicamente, o reinado de Tibério foi um reinado de perseguições e de julgamentos de senadores por traição (maiestas), instalando-se uma cultura de delações e do uso de informantes.

Segundo Dião Cássio, Tibério também baniu praticantes de religiões estrangeiras que residiam em Roma, inclusive muitos judeus, no caso destes, supostamente motivado pelo fato de que eles estariam fazendo muitas conversões entre os habitantes da cidade. Curiosamente, muitos estudiosos acreditam que provavelmente, foi o seu braço-direito Sejano quem nomeou Pôncio Pilatos  governador da Judéia, entre 26 e 36 D.C, sendo que Jesus Cristo  foi crucificado por volta do ano 30 D.C.

FINAL DO REINADO E MORTE DE TIBÉRIO

Após a queda de Sejano, parece que Tibério desiludiu-se e desinteressou-se por completo do cargo de imperador e permaneceu em Capri, deixando a administração do Império por conta dos funcionários da casa imperial e dos governadores das províncias. Segundo os relatos, ele sequer deu-se ao trabalho de preencher os cargos que iam ficando vagos, e o Senado, por temor de desagradá-lo, ficava de mãos atadas.

Em 33 D.C., Tibério nomeou seu sobrinho, Gaius Julius Ceasar Germanicus (Calígula), Questor honorário, e, cerca de dois anos depois, em 35 D.C., ele fez um testamento no qual Calígula, então com 23 anos de idade, junto com e seu neto, Tibério Gemelo, filho de Druso, o Jovem, que tinha apenas 15 ou 16 anos, eram designados como herdeiros de suas propriedades. Segundo Tácito, nessa ocasião, quando os dois rapazes estavam em Capri, Tibério abraçou Gemelo e, em lágrimas, disse para Calígula:

“Você o matará, e um outro irá te matar”

 

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(Raríssima moeda com a efígie de Tiberius Gemellus, cunhada em 37 D.C., foto Classical Numismatic Group)

Tibério nunca mais voltou à Roma e a sua reclusão em Capri aumentou os boatos sobre o que ele fazia na ilha. A sua saúde  foi dando sinais de que estava indo embora, mas o velho imperador, temendo, talvez, que a sua fraqueza física incentivasse alguma tentativa de assassinato, fazia o possível para não demonstrá-la em público e até evitava que o seu médico lhe medisse o pulso na frente dos outros.

Em 16 de março de 37 D.C., Tibério agonizava em sua outra Villa, em Misenum, e a sua morte era iminente. Em certo momento, ele parou de respirar e os presentes logo foram congratular Calígula como o novo imperador. Porém, segundo Tácito, o imperador moribundo voltou a respirar, o que deixou a todos aterrorizados. Então, naquele mesmo dia, Macro teria entrado no quarto e sufocado Tibério, usando a a colcha e os lençóis. No relato de Dião Cássio, Macro teria sido ajudado por Calígula. Já Suetônio, embora narre fatos semelhantes, adiciona que antes Calígula teria envenenado Tibério  e que, aquele, ao tentar tirar o anel com o selo do imperador do dedo do tio, ao perceber que esse resistia, sufocou-o com o travesseiro.

Assim morreu Tibério, aos 78 anos de idade. O Senado e Povo Romano (pelo menos o de Roma e parte da Itália) comemoraram a morte do antipático imperador e consta que, quando o cortejo fúnebre trazendo o cadáver de Tibério chegou à Cidade, a plebe nas ruas, ameaçando jogar o corpo dele nas água do rio, gritava:

“Tibério ao Tibre!”

O Senado recusou-se a divinizar Tibério, mas ele foi sepultado no Mausoléu de Augusto, tendo um funeral apropriado e com seu sucessor, Calígula, fazendo a oração fúnebre (eulogia).

 

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CONCLUSÃO

Na opinião dos historiadores romanos antigos, com exceção de Veleio Patérculo, não há dúvida de que Tibério faz parte do time dos “maus imperadores”.

Porém, a leitura dos textos desses membros da classe senatorial, não permite um julgamento tão fácil.

Só o fato de Tibério ter reinado durante quase 23 anos já foi um feito importante. E o seu reinado serviu para consolidar a maior parte das instituições e práticas político-administrativas forjadas por Augusto.

Em seus primeiros anos, parece que Tibério efetivamente procurou dividir o poder com o Senado, participando ativamente das sessões desta assembleia e tentando fazer com que os senadores assumissem diversas tarefas. Ele escolheu bons administradores para as províncias, e a manutenção da paz e a parcimônia com os gastos públicos asseguraram uma grande prosperidade econômica, com grande valorização da moeda.

Porém, a sua personalidade fria e distante e a falta de tato político não criaram empatia com a classe senatorial. Talvez a sua relutância em assumir totalmente os poderes de Augusto seja fruto da consciência de sua incapacidade para o jogo político. Mas pode também ter sido apenas uma maneira desastrada e inábil de imitar o primeiro imperador. De qualquer modo, a postura de Tibério contribuiu para agravar o grande problema enfrentado durante boa parte do período imperial: o não-reconhecimento do caráter monárquico do regime pela sua própria cúpula e elite política, com a consequente ambiguidade na delimitação dos papéis do imperador e do Senado.

O grande divisor de águas no reinado de Tibério parece ter sido a morte de Germânico, que, designado como seu sucessor ainda durante a vida de Augusto (que obrigou Tibério a adotá-lo), sempre foi uma sombra capaz de ofuscá-lo e uma opção de governante muito mais querida pela população. Diga-se, como atenuante da suposta responsabilidade de Tibério pela morte do filho adotivo, que, em vários episódios da vida de Germânico, transparece que este realmente cortejava a população e os senadores e agia com demasiada independência em relação a Tibério.

A forma como Tibério lidou com a hostilidade da viúva de Germânico, Agripina, a Velha, que sem dúvida reuniu em torno de si um núcleo de oposição ao imperador, também parece excessiva, já que isso importou na destruição quase que total da própria dinastia, somente deixando vivo Calígula e as irmãs dele, logo ele que, em seguida, se tornaria o pior de todos os imperadores Júlio-Cláudios, e cuja personalidade doentia pode muito bem ter sido agravada pelo clima de terror que a sua família viveu sob Tibério.

A ida de Tibério para Capri pode denotar um traço de misantropia em sua personalidade, mas também pode ter sido uma maneira de lidar com a desilusão e o desânimo que ele sentia pela função de monarca. É difícil compreender como ele pode ter deixado que Sejano concentrasse tanto poder e porque ele depositou em Sejano tanta confiança. Tanto pode ter sido uma consequência da fraqueza psicológica causada pela morte do filho, como pode ter sido também uma forma maquiavélica de instaurar um reinado de terror, usando Sejano como instrumento, para depois botar a culpa no subordinado. Se é que houve mesmo tal “reinado de terror”, pois, em 23 anos de governo, as execuções registradas foram em número menor comparadas com as que ocorreriam em alguns reinados posteriores. De qualquer forma, Tibério fica com a má distinção de ter sido o primeiro imperador a recorrer aos processos de lesa-majestade (maiestas).

Porém, a facilidade com que Tibério prendeu e executou Sejano mostra que o Principado estava consolidado como instituição, e  ainda era grande o prestígio que a dinastia dos Júlio-Cláudios gozava entre a população civil e o Exército, mesmo quando o seu representante era antipático e pouco querido.

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PAPA LEÃO I, O GRANDE

Em 10 de novembro do ano 461 D.C., faleceu o Papa Leão I.

Wlbw68, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Natural da Toscana, nascido em data incerta, Leão, proveniente da nobreza romana da Itália, foi consagrado bispo de Roma em 440 D.C, quando o Cristianismo já era a religião oficial do Império Romano havia quase meio século.

Em seu papado, Leão estabeleceu as bases para o reconhecimento inconteste da primazia de Roma sobre as demais arquidioceses, tendo jurisdição universal derivada diretamente de São Pedro (“Primazia Petrina“), influenciou os importantes Concí­lios de Éfeso e de Calcedônia e combateu heresias, notadamente o Maniqueí­smo. Nessa questão, Leão contou com o apoio do Imperador Romano do Ocidente, Valentiniano III.

Porém, o fato mais notável da carreira de Leão foi o encontro com Átila, o Huno, quando este invadiu a pení­nsula italiana, saqueando e destruindo a grande cidade romana de Aquileia.

Após conversar com o Papa, às margens do Lago Garda, Átila decidiu se retirar da Itália, fato que os contemporâneos consideraram miraculoso. Fontes mencionam que as correntes quebradas de São Pedro (que até hoje estariam guardadas na Igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma) teriam se unido milagrosamente durante a embaixada de Leão à Átila.

Crenças à parte, muitos historiadores reconhecem a importância da embaixada do Papa, mas que o motivo principal que teria convencido o Huno a deixar a Itália foi a notícia de que grassava a Peste na pení­nsula.

Por sua trajetória, muitos consideram Leão o fundador do papado moderno, e por tudo isso, recebeu o cognome de “Magno” (grande).

GERMÂNICO – O FAVORITO DA PLEBE

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Em 10 de outubro de 19 D.C, aos 33 anos de idade, morreu, em Antióquia, na província romana da Síria, Germanicus Julius Caesar (Germânico), oficialmente vítima de uma doença misteriosa, uma morte sobre a qual recaíram, no entanto, suspeitas de que tenha se tratado, na verdade, de um assassinato por envenenamento.

Germânico era filho de Nero Cláudio Druso, o irmão do futuro imperador Tibério, e de Antônia. a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, irmã do imperador Augusto. Ele provavelmente recebeu em nascença o mesmo nome do pai, e, somente anos depois recebeu o cognome “Germanicus”, que ele herdou de seu pai, que o havia recebido como homenagem às vitórias obtidas contra as tribos germânicas.

Nascido em 24 de maio de 15 A.C, Germânico, por ser sobrinho-neto de Augusto, o primeiro imperador, recebeu esmerada educação, suficiente para que ele, ainda jovem, conseguisse traduzir e publicar um hermético poema sobre Astronomia do poeta grego Arato. O jovem Germânico também foi treinado nas artes da Oratória, sendo reconhecidamente um ótimo orador, um talento que ele utilizaria para angariar muita simpatia entre o povo e as tropas, durante a sua vida pública.

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(A família imperial no reinado de Augusto retratada no painel sul da Ara Pacis. Acredita-se que o menino pequeno seja Germânico, por volta de 13 A.C.)

Após a morte prematura dos dois netos de Augusto, Lúcio César e Caio César, ocorridas, respectivamente em 2 D.C. e 4 D.C., o velho imperador viu-se compelido a adotar o seu enteado Tibério, que era filho natural e primogênito da imperatriz Lívia Drusila, e, já, então, um homem maduro. Porém, Augusto, que tinha simpatia por Germânico, exigiu que Tibério, por sua vez, adotasse o rapaz, visando assim, garantir alguma continuidade sanguínea para a linhagem dos Júlios, mesmo que Tibério já tivesse seu próprio filho natural, Druso Júlio César, que tinha apenas dois anos a menos do que Germânico

Após ocupar o cargo de questor, no ano de 7 D.C., com apenas 22 anos de idade e participar com sucesso da repressão à chamada Guerra Batoniana, uma importante revolta nas províncias da Panônia e da Ilíria, Germânico foi nomeado Cônsul para o ano de 12 D.C.. Devido ao seu bom desempenho e aptidão para os assuntos militares, o Senado deu a Germânico, em 14 D.C., o importante comando para lidar com a guerra contra as tribos germânicas que, lideradas por Armínio, tinham, cinco anos antes, destruído as três legiões de Públio Quintílio Varo, na Batalha da Floresta de Teutoburgo.

No início de seu comando na Germânia, Germânico teve que lidar com uma grande rebelião do exército do Reno, onde ele enfrentou risco à sua própria integridade pessoal e chegou a ter que mandar a família se refugiar por medo de represálias dos soldados. Nesse episódio, ficou evidente o talento de relações-públicas de Germânico, que, além de obter a admiração dos soldados pelos seus méritos pessoais, cativou a afeição das tropas ao usar o seu jovem filho, Gaius, como mascote das legiões, apresentando-o, ainda menininho, fardado com vestimenta militar completa, inclusive sandálias de legionário (caligae), motivo pelo qual o garoto viria a ser conhecido como “Caligula” (sandalinha).

Apaziguadas as tropas, Germânico, em três anos de campanha, derrotou várias vezes os germanos, conseguiu recuperar dois dos três estandartes das legiões de Varo, enterrou os corpos dos romanos mortos naquele desastre, e, finalmente, derrotou o próprio Armínio, apesar deste ter conseguido fugir, evitando a captura. Não obstante, Germânico conseguiu capturar a esposa do chefe bárbaro, Thusnelda, e o filho dele, Thumelicusque foram trazidos para Roma.

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(“Germânico Ante os Restos das Legiões de Varo”, quadro de Lionel Royer, 1896)

Com o prestígio nas alturas, Germânico foi chamado por Tibério à Roma com a finalidade de celebrar o seu Triunfo, o que ocorreu em 26 de maio de 17 D.C., ocasião em que desfilaram, acorrentados, Thusnelda e Thumelicus. 

Germânico agora era considerado um verdadeiro herói romano e era adorado pela plebe romana: afinal, ele era jovem, bonito, inteligente, simpático e chefe de uma família modelo, pois teve seis filhos com a sua esposa, Agripina, a Velha, que era nada menos do que neta do Divino Augusto! Sem dúvida, era um grande contraste com o imperador Tibério, que não tinha parentesco sanguíneo nem com Augusto, nem com Júlio César, e além de velho, era tido como distante, frio, sovina e antipático e cuja percepção popular era de que ele devia o trono às maquinações de sua mãe, Lívia Drusila.

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(Estátua de bronze de Germânico, Museo civico di AmeliaAmelia, Umbria, Itália).

Muitos acreditam que Tibério já estava alarmado com a popularidade do sobrinho entre as tropas e, por isso, ele quis colocar um fim na campanha, convocando Germânico para a realização da procissão triunfal. Para o historiador romano Tácito, isso foi uma atitude prejudicial de Tibério, pois faltava pouco para que Germânico submetesse toda a Germânia.

No final do ano de 17 D.C., Germânico foi enviado por Tibério em uma missão pelas províncias do Oriente, que enfrentavam vários problemas. Foi uma viagem triunfal pelas cidades helenísticas, onde Germânico foi aclamado por onde passou. Nessa viagem, Germânico comandou a anexação dos reinos da Capadócia e da Comagena, que viraram províncias romanas.

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No Egito, Germânico adotou medidas para minorar a escassez de víveres que assolava a grande cidade de Alexandria. Como o Egito era uma província sob a administração direta do Imperador, através de um Legado, os atos de Germânico ali despertaram certa insatisfação entre os administradores nomeados por Tibério, e isso acabou acarretando uma série de intrigas e suspeitas contra o primeiro.

Com efeito, de volta à Antióquia, na Síria, Germânico entrou em atrito com o governador daquela província, Cneu Calpúrnio Pisão, que anulara os atos que ele tinha praticado. Sentindo-se desafiado, Germânico ordenou que Pisão se deslocasse até Roma e se apresentasse a Tibério.

Foi durante essa crise, então, que Germânico adoeceu. Durante seu estado enfermo, desconfiado que Pisão lhe tivesse lhe administrado algum veneno ou usado magia negra contra sua pessoa, Germânico chegou a escrever uma carta ao governador, renunciando formalmente à sua amizade. Pouco depois, o jovem sobrinho do imperador deu seu último suspiro, em 10 de outubro de 19 D.C.

Quando a notícia da morte de Germânico chegou à Roma, houve indignação popular e muitos suspeitaram de que Tibério, ou sua mãe, Lívia, que era amiga de Plancina, a esposa de Pisão, poderiam estar por trás do suposto envenenamento. Tibério ordenou uma breve investigação e Pisão foi preso e enviado para ser julgado pelo Senado. A acusação de envenenamento foi logo arquivada, mas a de traição foi mantida. Durante o julgamento, Pisão foi encontrado morto em sua cela, supostamente tendo cometido suicídio. Obviamente, o fato contribuiu para aumentar as suspeitas sobre Tibério e muitos consideraram que a morte de Pisão teria sido uma “queima de arquivo”.

Apesar do suicídio de Pisão, o julgamento dele prosseguiu e o veredito foi a sua condenação pelo crime de “maiestas“, ou lesa-majestade, em 20 D.C., delito que, pela primeira vez em Roma, foi considerado como abrangendo o imperador e a “casa imperial”, já que Germânico, enquanto filho adotivo e herdeiro imperial, teria tido a sua autoridade desobedecida por Pisão. Essa novidade mostra que a transição da República para a Monarquia estava bem avançada, apesar das aparências que Augusto e Tibério procuraram manter.

O caso da morte de Germânico mobilizou tanto a opinião pública romana – segundo Suetônio, vários muros foram pichados com a frase: “Dê-nos Germânico de volta!” – que para acalmar os ânimos Tibério foi obrigado a tornar públicas as atas do julgamento de Pisão e enviar cópias das conclusões do Senado para várias cidades importantes espalhadas pelo império.

Sabemos disso graças à descoberta, nos anos 1980, próximo à Sevilha, na atual Espanha, de tábuas de bronze contendo o texto do Senatus Consultum de Gn. Pisone Patre, que, basicamente, vem a ser um decreto do Senado Romano contendo a versão oficial sobre o assunto (cf. https://scholar.princeton.edu/sites/default/files/SCCPP_0.pdf). Entre outras coisas, o texto confirma o relato de Tácito de que a imperatriz Lívia intercedeu para que sua amiga Plancina fosse perdoada, fato que, se não pode ser considerada prova de culpa da imperatriz, também não deve ter contribuído para afastar as suspeitas…

Segundo as fontes, Agripina, a Velha, a esposa de Germânico, jamais aceitou a versão oficial e, sempre que ela tinha uma oportunidade, demonstrava que suspeitava de Tibério.

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(Quadro “A Morte de Germânico, de Nicolas_Poussin, 1627)

Germânico recebeu muitas honras póstumas e vários monumentos e estátuas foram erguidos em sua honra. O seu filho Calígula, depois de se tornar imperador, chegou a mandar renomear o mês de setembro como “Germanicus”, em honra do pai, mas a homenagem não vingaria. Já o neto dele, Nero (Lucius Domitius Ahenobarbus), que era filho de sua filha, Agripina, a Jovem, seria o último imperador da dinastia dos Júlio-Cláudios.

BÁRBAROS – A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO E O DESASTRE DE VARO

A HISTÓRIA REAL RETRATADA NA SÉRIE “BÁRBAROS”, DA NETFLIX

PRÓLOGO

Estamos na Floresta de Teutoburgo, em algum dia de setembro do nono ano depois do, então historicamente irrelevante, nascimento de Jesus Cristo (9 D.C), situada no noroeste da Baixa Saxônia, moderna Alemanha – uma região que fazia parte do território que era conhecido pelos Romanos como Germania Magna (Germânia Maior).

No estreito espaço plano entre uma colina íngreme e um vasto terreno pantanoso, pilhas de corpos inertes ensanguentados jazem em ziguezague …

Observando mais de perto, distinguem-se cadáveres de homens, mulas e cavalos, todos juntos e misturados… A terra encontra-se encharcada da água da chuva que caiu incessantemente nos últimos dias, e poças de sangue fluem lentamente, aqui e ali, na direção dos pântanos. Pouco a pouco, a base dos tufos de caniços das respectivas margens começa a ficar avermelhada…

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Um estranho que testemunhasse a cena, isso, claro, caso ele fosse alfabetizado em latim, descobriria, ao ler os estandartes esfarrapados espalhados pelo solo, que aquelas montanhas de cadáveres, um dia, foram a XVII, a XVIII e a XIX Legiões do Exército Romano do imperador Otávio Augusto

Em seguida, o silêncio sepulcral é interrompido por uma multidão excitada e ruidosa, que, em volta de cada uma das pilhas de corpos, cuidava de arrancar, avidamente, espadas, lanças, escudos, couraças, elmos, sandálias e cinturões das mãos e dos corpos das vítimas, fazendo com que alguns fragmentos caíssem na lama. Alguns, mais minuciosamente, procuram, nas vestes e nos corpos dos caídos, qualquer invólucro que pudesse conter objetos valiosos.

O bando urra extasiado e o clima de júbilo é geral. Pelas suas roupas (muitas feitas de peles), cortes e arranjos de cabelo ,quase sempre louro e pelas suas armas e modo de falar, nota-se que os homens são nativos de várias tribos germânicas: Catos, Cheruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos entre outros (nomes conforme a forma latina registrada pelos Romanos),

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De repente, lancinantes e tenebrosos gritos de dor e terror fazem todos pararem o que estavam fazendo e se voltarem para uma clareira ao pé de um enorme carvalho na colina de onde vinha o terrível som: naquele instante vários soldados, ainda vestindo a túnica vermelha característica das legiões romanas, acabavam de ser atirados em fumegantes caldeirões de cobre enfeitados com estranhas figuras.

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(Caldeirão de Gundestrup, Dinamarca)

Agora, um grupo de homens a cavalo desmonta e começa a subir em um pódio adornado por estacas com cabeças humanas cortadas. No centro do grupo, um jovem homem alto começa a fazer um discurso exaltado em sua língua germânica. Mas, examinando detidamente o homem, percebe-se imediatamente que sua aparência é a de um típico comandante romano, vestindo couraça, elmo, cingulus, pteruges e um fino manto encarnado.

Os milhares de guerreiros respondem com um grito uníssono e ritmado a cada pausa da arenga. Até que um dos guerreiros entrega ao oficial o que parece de longe serem duas varas com suas pontas cobertas por um pano. O oficial retira os panos e exibe, triunfante, duas águias douradas, que, mesmo naquele dia nublado, rebrilham com fulgor, parecendo hipnotizar toda a multidão.

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Aos pés do oficial jaz um corpo decapitado e parcialmente queimado. Mesmo naquele estado, é possível perceber, pela couraça de bronze dourado, ricamente ornamentada, que se trata de um general romano importante. No meio da exortação, o jovem oficial baixa a estaca com a águia dourada e , quando a levanta, exibe a cabeça ensanguentada de um homem já idoso…

Durante os quase 800 anos de existência de Roma, desde a lendária fundação por Rômulo em 753 A.C., os Romanos tinham sofrido várias derrotas militares, as quais apenas interromperam brevemente a sua marcha inexorável para se tornarem senhores do maior império que o Mundo Antigo conhecera. No entanto, o aniquilamento de três legiões inteiras era um raro e terrível revés.

Qual seria o impacto desta catástrofe?

E quem era aquele homem e como ele derrotou as três legiões? Essa é uma história que começou 60 anos antes…

A EXPANSÃO ROMANA NA GERMÂNIA

Em 52 A.C, Caio Júlio César e suas legiões, após cerca de dez anos de cruentas campanhas, conseguiram conquistar a Gália, incorporando-a à República Romana, como uma província que, pelo seu tamanho, fertilidade e recursos, prenunciava uma grande prosperidade. Ali, nas décadas seguintes, colônias de veteranos soldados italianos foram fundadas e, em pouco tempo, a própria nobreza gaulesa nativa cada vez mais foi abraçando os usos e costumes romanos.

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Ainda durante a Guerra da Gália, Júlio César teve que conter a crescente penetração de tribos germânicas vindas da margem leste do Rio Reno, notadamente dos Suábios, povo que começava a se assentar naquele território, então majoritariamente celta e a interferir militarmente em conflitos envolvendo as diversas tribos gaulesas.

Com efeito, na grande Batalha de Vosges, travada em 58 A,C, Júlio César derrotou fragorosamente as forças do rei suábio Ariovistus, que foi obrigado a voltar para a margem leste do Reno. Nesta ocasião, cento e vinte mil germânicos morreram. Algum tempo depois, em um ato com nítido propósito dissuasório, mas também de autopromoção, César mandou construir, em apenas 10 dias, uma extensa ponte de madeira em um trecho largo do Rio Reno e atravessou suas legiões para a outra margem, marchando por alguns dias em território germânico, sem encontrar oposição, após o que, ele voltou para a margem ocidental e desmontou a ponte.

Depois desses sucessos romanos, a Gália ficou um tempo livre de invasões germânicas. Nesse intervalo, a nova província romana começou, rapidamente, a prosperar e desenvolver-se economicamente. Todavia, essa prosperidade terminou por atrair, novamente, os Germanos…Assim, os Suábios, por duas vezes, em 38 A.C. e 29 A.C., cruzaram novamente o Reno com o objetivo de saquear a província, mas foram derrotados pelas legiões romanas que tinham sido estacionadas permanentemente na Gália.

Em 16 A.C., ocorreu uma nova invasão, agora das tribos germânicas dos Sicambri, Usipetes e Tentceri, que foi enfrentada pelo governador romano da Gália, Marco Lólio que, todavia, desta vez foi derrotado, ocasião em que até chegou a ser capturada a águia-estandarte da V Legião.

Consequentemente, o imperador Augusto teve que mandar o seu enteado, o capaz general Tibério Cláudio Nero (que se tornaria o futuro imperador Tibério), para conter essa nova invasão germânica. Porém, com a chegada de Tibério, os bárbaros fugiram para a “sua” margem (oriental) do Reno.

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A partir de então, a política imperial de Augusto passou a incluir a Germânia como uma de suas prioridades. E, ao menos segundo o historiador romano Floro, Augusto planejava transformar a Germânia Maior em província, pelo mesmo motivo que o seu pai adotivo Júlio César, conquistara a Gália: aumentar a glória do nome dele.

Assim, em 12 A.C, o general Druso, irmão de Tibério, iniciou uma série de campanhas que o levariam muito além das margens do Rio Reno, derrotando várias tribos e penetrando profundamente na terra germânica, indo até o Rio Elba e até mesmo ao Mar do Norte (vale esclarecer que Augusto já tinha criado as províncias da Germânia Inferior e da Germânia Superior, a oeste do Reno, correspondendo aproximadamente, a primeira, aos territórios de Luxemburgo, do sul da Holanda e Bélgica, e, a segunda, à parte ocidental da Suíça, à Alsácia e, ambas, compreendendo alguns territórios da atual Alemanha a oeste do Reno).

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Nessa campanha, que durou até 9 A.C, Druso (avô do futuro imperador Calígula e pai do sucessor deste, o futuro imperador Cláudio) derrotou as tribos germânicas dos Sugambri, dos Frísios, dos Chaucos, dos Catos (Chatti) e dos Queruscos (Cheruschi). Os bárbaros acabaram pedindo a paz e tendo que entregar membros da própria tribo, como reféns, em garantia. Druso também construiu uma série de acampamentos militares permanentes ao leste do Reno, no interior da Germânia, como, por exemplo, em Oberaden, no Rio Lippe, em Rodgen e, provavelmente, também em Hedemünden, às margens do Rio Werra, local que já fica bem mais próximo ao Rio Elba. Infelizmente para os Romanos, Druso, naquele mesmo ano, morreria devido a uma queda de cavalo. Ficou, assim, a cargo de seu irmão Tibério completar a tarefa: Em 8 A.C, Tibério cruzou o Reno novamente e desta vez, várias tribos germânicas, intimidadas com o avanço romano, enviaram embaixadores para pedir a paz.

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As contínuas vitórias romanas na campanha de Druso e o estabelecimento de quartéis militares além do Reno levaram os historiadores romanos do período, como Floro e Dião Cássio, a considerar que, depois desses sucessos, toda a Germânia tinha sido subjugada. Para o primeiro, inclusive, ela seria ja uma província romana. Mas, de acordo com Dião Cássio, embora Roma controlasse apenas parcialmente todo aquele território, os Germanos já estavam até se adaptando aos costumes romanos, reunindo-se em assembleias pacíficas e fazendo negócios em mercados centrais instalados pelos romanos.

Até pouco tempo atrás, os historiadores modernos (ex: Mommsen) consideravam fantasiosas as narrativas de Floro e Dião Cássio  e defendiam que os Romanos jamais teriam tido a intenção de transformar a pouco desenvolvida Germânia em uma província romana, concluindo que as incursões ao leste do Reno ocorridas durante o reinado de Augusto teriam apenas caráter punitivo.

Contudo, a partir de 1993, as escavações arqueológicas em Waldgirmes demonstraram que os romanos, a partir de 4 A.C, construíram naquele sítio uma cidade com planta tipicamente romana, incluindo um fórum, uma basílica, um quartel militar, canalizações para esgoto e uma praça. Nesta praça, encontraram-se fragmentos de uma estátua equestre dourada, (que, naquele tempo, somente poderia tratar-se de uma estátua do próprio Imperador Augusto). Vale a pena ressaltar que, além de artefatos romanos, foram encontradas peças de cerâmica doméstica de origem germânica, em um contexto que denotava que Romanos e Germânicos estavam vivendo, lado a lado, na cidade (ver http://www.roemerforum-lahnau.de/startseite_englisch.htm)

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(Cabeça do cavalo da estátua equestre romana encontrada em Waldgirmes)

Faço aqui um parêntese para prestar um tributo a Dião Cássio, um historiador romano muitas vezes, a meu ver, negligenciado pelos historiadores modernos, mas que, cada vez mais, venho constatando ter escrito relatos coerentes e fidedignos.

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(Reconstituição da cidade romana cujos vestígios foram encontrados em  Waldgirmes)

Prosseguindo, no ano 1 D.C, Lúcio Domício Enobarbo (avô do futuro imperador Nero), que era governador da Germânia, interceptou a tribo dos Hermunduri, que deixara suas terras à procura de novas, assentando-a no território dos Marcomanos, uma tribo que fizera parte da aliança dos Suábios na época de César, e, após a campanha de Druso, fugindo dos romanos, havia migrado para a região do Danúbio. Depois disso, Domicio levou seu exército até o Rio Elba, onde ele ergueu um altar em homenagem a Augusto, chegando, inclusive a cruzar este rio, indo mais a leste do que qualquer outro general romano antes dele (para o leitor se situar, o Rio Elba marcava boa parte da fronteira entre as antigas Alemanhas Ocidental e Oriental, entre 1949 e 1990). Esta campanha terminou com Domício voltando e estabelecendo seu quartel no Reno.

Note-se que, segundo Dião Cássio, naquele mesmo ano de 1 D.C., Domício teria desagradado aos germânicos em uma questão envolvendo a devolução de exilados Queruscos (que, talvez, poderiam até ser os mesmos reféns que esta tribo entregou aos romanos para garantir o tratado de paz durante a vitoriosa campanha de Druso). Esse fato teria influência, como logo veremos, no desenrolar do evento principal dessa nossa história.

Domício foi sucedido por Marcus Vinicius, que comandou as legiões estacionadas na Germânia entre 1 e 4 D.C., tendo também que travar combates contra algumas tribos germânicas. Depois disso, a partir de 4 D.C., o processo de conquista da Germânia voltou a ficar sob a responsabilidade de Tibério, que, em conjunto com o novo governador da província romana da Germânia, Gaius Sentius Saturninus (Saturnino), durante dois anos, subjugaram a tribo dos Cananefates, que viviam onde hoje é o sul da Holanda, a tribo dos Catos, cujo território ficava no alto rio Weser, correspondendo ao centro e ao sul dos atuais Estados Federais alemães de Hesse e da Baixa Saxônia, e a tribo dos Bructeri, que habitavam entre os rios Lippe e Ems, na região que atualmente fica no norte da Renânia e na Westfália, na Alemanha.

Entretanto, no momento em que Tibério iria dar início a planejada ofensiva contra os Marcomanos, combinada com as legiões de Saturnino, operação esta que devia-se ao fato desse povo germânico, assentando-se na região do Danúbio, a apenas 200 milhas dos Alpes, tornar-se cada vez mais uma ameaça à própria Itália, estourou, em 6 D.C., uma rebelião nas regiões da Panônia e de Illyricum (província romana da Ilíria que correspondia aproximadamente , a uma boa parte do território da antiga Iugoslávia).

Efetivamente, vários povos das referidas províncias tinham-se unido para lutar contra os romanos, porque eles estavam especialmente ressentidos pelo excesso de tributos e pela captura de suas mulheres e crianças para serem escravizadas. E isso aconteceu justamente quando os contingentes militares estacionados em Illyricum estavam sendo convocados para lutarem na campanha de Tibério, em andamento contra os germânicos.

Como os Ilírios eram um notório povo aguerrido e a província fazia fronteira com a Itália, os romanos sentiram-se consideravelmente ameaçados para reunirem uma força composta por 10 legiões, o que correspondia a quase a metade do Exército Romano de então (segundo o historiador romano Veleio Patérculo, que participou em pessoa da campanha, este foi o maior exército reunido por Roma desde as Guerras Civis, que tinham ocorrido 40 anos antes, para combater a Revolta), sendo que esta sangrenta guerra de fato duraria quatro anos ( 6 a 9 D.C.).

Dião Cássio escreveu que Tibério teve que assinar uma trégua com os germânicos devido à necessidade do Império Romano lidar com a Grande Revolta Ilíria. Já Veléio Patérculo narra que o exército de Tibério estava a apenas cinco dias de marcha das posições dos Marcomanos e prestes a se juntar com as legiões de Saturnino, mas, segundo o seu relato, as tribos derrotadas por Tibério na Germânia tinham sido subjugadas antes da insurreição ilíria, sem mencionar nenhuma trégua.

Seja como for, a partida de Tibério e Saturnino para combater a Revolta da Ilíria faz entrar em cena o primeiro protagonista do nosso tema principal: Para ocupar o lugar deles, em 6 D.C., Augusto nomeou Públio Quintílio Varo (Publius Quinctilius Varus) para ser o  governador da província da Germânia…

PÚBLIO QUINTÍLIO VARO

Públio Quintílio Varo pertencia a uma família da classe senatorial, que, no entanto, encontrava-se em uma situação decadente no século final da República. Mas, a desfavorável situação familiar logo daria uma guinada, pois o avô materno de Varo casou-se, em segundas núpcias, com a irmã de Caio Otávio, o sobrinho-neto de Júlio César que, em alguns anos, tornaria-se o primeiro imperador de Roma, com o nome de Augusto.

Embora o pai de Varo, Sexto Quintílio Varo, tenha escolhido o lado “errado” na guerra civil entre os partidários de César e a facção do Senado responsável pelo seu assassinato (Optimates), o filho dele, isto é, o nosso personagem Públio Quintílio Varo, quando ainda era bem jovem, tornou-se partidário de Otávio e, paulatinamente, foi ingressando no circulo íntimo de colaboradores do imperador,  e  ele acabou conseguindo casar-se com Vipsânia Marcela Agripina, que era filha de Marco Vipsânio Agrípa, o melhor amigo e o braço-direito de Augusto, e de Claudia Marcella, que, por sua vez, era sobrinha do próprio imperador (ela era filha da irmã mais nova de Augusto, Otávia, a Jovem).

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(Estátua do imperador Augusto)

Assim, não é de espantar, diante dessa estreita conexão familiar com a casa imperial, que a carreira política de Varo tenha decolado. De fato, entre 8 e 7 A.C, ele governou a província da África (que corresponde a uma boa parte da atual Tunísia e um pequeno pedaço da atual Líbia). Em seguida, Augusto nomeou Varo para governar a rica província da Síria, onde ele ficou de 7 a 4 A.C.

No que se refere à administração de Varo na Síria é importante dois traços que certamente teriam influência sobre os eventos que futuramente iriam ocorrer na Germânia:

Com efeito, na Síria, a conduta de Varo foi caracterizada: a) pela elevada e impiedosa taxação e, b) pela extrema severidade contra qualquer dissidência nativa.

Com relação à ganância de Varo (apesar de, nas províncias romanas aceitar-se tacitamente que o governador ficasse com uma parte dos tributos), é bastante esclarecedor o relato do historiador romano Veleio Patérculo sobre o governo dele na Síria:

“Ele entrou pobre em uma província rica e saiu rico de uma província pobre.”

A província da Síria englobava o reino-cliente da Judeia, o qual era governado pelo rei Herodes, o Grande, nomeado pelo Senado Romano, em 37 A.C. Quando  Herodes morreu, em 4 A.C., houve disputas pela sucessão e uma facção judaica hostilizou os romanos.

A brutal resposta de Varo foi queimar algumas cidades, como Emaús, e crucificar dois mil judeus, como narrou Flávio Josefo, em sua obra “Antiguidades Judaicas”.

Curiosidade: Tendo em vista que Varo era o governador da Síria, em 4 A.C. , e que o rei Herodes morreu neste memso ano, é extremamente provável que Jesus Cristo tenha nascido durante a administração dele, pois, segundo a narrativa dos Evangelhos de São Lucas e de São Mateus, Jesus nasceu enquanto Herodes ainda estava vivo. Ocorre que, muito embora o primeiro evangelista citado expressamente afirme que o nascimento de Jesus ocorreu na época do censo ordenado pelo governador da Síria, Quirino, tudo indica que isso deve ser fruto de uma confusão de Lucas, pois Publius Sulpícius Quirinius foi governador da Sìria a partir de 6 D.C, ou seja, dez anos após a morte de Herodes. Por isso, alguns estudiosos realmente acreditam que o referido evangelista teria confundido “Publius Quinctilius”, o nome e sobrenome da gens de Varo, com “Publius Quirinius”. Além do mais, se o nascimento de Jesus tivesse ocorrido em 6 D.C., isto colocaria o ano de sua morte em 39 D.C, isto é, três anos após Pôncio Pilatos ter deixado o governo da Judeia, o que é incompatível com a narrativa evangélica e com as fontes romanas, tais como Tácito, Suetônio e Josefo.

Feita essa observação, o fato é que, em 6 ou 7 D.C., Públio Quintílio Varo assumiu o governo da Gália, tendo também autoridade sobre a Germânia. E os textos sobreviventes dos historiadores romanos que nos contam sobre a conduta de Varo na administração dos assuntos germânicos denotam que ele continuou agindo da mesma forma como na Síria: voraz quanto aos tributos e impiedoso em relação aos nativos…

Com efeito, os historiadores romanos Veléio Patérculo, Floro e Dião Cássio, em uníssono, relatam que Varo procedia com desprezo pelos Germanos, que, apenas recentemente tinham sido derrotados, mas não inteiramente subjugados, pelos Romanos.

E todos os historiadores citados chamam a atenção para o comportamento de Varo dar a entender que ele acreditava piamente que a Germânia ao Leste do Reno já era uma província romana, uma vez que ele passou a expedir decretos e enviar litores (que eram funcionários que agiam como uma espécie de oficial de justiça, com o poder de compelir os administrados a cumprirem as ordens dos magistrado, poder esse que era expresso por um feixe de varas, para açoitar os recalcitrantes, e um machado) para garantir o seu cumprimento (na foto abaixo, relevo romano retratando um litor).

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Em um ponto muito destacado por Patérculo, Floro e Dião Cássio, Varo também passou a reunir os Germanos em assembleias, onde os conflitos de interesses envolvendo os bárbaros seriam julgados por ele, na condição de autoridade judiciária máxima. Esse foi um fato que desagradou aos Germanos, já que, em muitos casos, de acordo com os costumes deles, as disputas entre homens eram resolvidas em combate, sendo que as penas estabelecidas pelas suas leis orais, eram, em geral, bem mais leves do que as penas romanas. por exemplo, um assassinato entre eles não era punido com a morte, mas sancionado como a  obrigação de pagar uma soma em dinheiro ou bens. Cabia à família da vítima, caso não ficasse satisfeita, buscar a reparação desafiando o ofensor para uma luta.

Outro elemento de descontentamento, obviamente, foi a cobrança de tributos sobre as tribos germânicas. Se hoje os tributos nos são desagradáveis, o que dirá para um povo que, até então, vivia da agricultura ou pecuária de subsistência, e não em cidades, mas em aldeias? Não podemos afirmar que Varo foi o primeiro governador romano a cobrar tributos dos Germanos, mas, considerando o que foi dito sobre sua passagem pela Síria, é bem provável que ele o tenha feito de modo mais ávido e duro do que o seu predecessor Saturnino...

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Assim, a semente da revolta germânica pode não ter começado a germinar durante o governo de Varo, mas, com certeza, por ele foi regada e desabrochou, incentivada, ainda, pelo fato de Augusto ter sido obrigado a transferira algumas legiões para debelar a Grande Revolta Ilíria, deixando Varo com somente três legiões para policiar a Germânia…

Essa era a situação da Germânia, quando, em setembro de 9 D.C, Varo marchava com seu exército de três legiões  e mais 6 coortes de auxiliares (unidades militares contendo cerca de 500 homens), incluindo destacamentos de cavalaria, que deixaram o seu quartel próximo ao Rio Weser, nas vizinhanças do território da tribo germãnica dos Cheruscos.

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Era a rotina dos romanos na Germânia Maior passar o verão nos quartéis ao leste do Reno, que ficavam bem no interior desta “proto-província”. Porém, como nesta região o o clima era mais frio e, considerando que, na Antiguidade, todas as operações militares normalmente cessavam no inverno, os romanos, quando da chegada desta estação, deslocavam-se para os quartéis situados às margens do Reno, provavelmente em Mogúncia (Mainz), local em que o clima era mais ameno, e a distância para a Itália, menor.

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(Um típico quartel romano do período)

As fontes citam que alguns chefes germânicos recentemente tinham pedido a Varo que pequenos destacamentos de soldados romanos fossem enviados para algumas aldeias, com o objetivo de prender ladrões e guardar rotas de comércio, e que o governador, acreditando na veracidade do motivo, autorizou o envio

Enquanto isso, integrado à comitiva de Varo, estava um jovem germânico, comandante militar de tropas auxiliares romanas, com cerca de 20 e poucos anos de idade, filho do chefe querusco Segimerus, ou Segimer (Nota: somente cidadãos romanos poderiam ser legionários, mas os romanos costumavam alistar soldados de vários povos estrangeiros como tropas auxiliares, normalmente empregadas como unidades especializadas, tais como cavaleiros, arqueiros fundibulários, etc.). Não se sabe o seu nome em sua língua nativa, mas ele era chamado de Arminius pelos romanos (e muitos acreditam que este seria uma forma latinizada do nome “Hermann”, significando “guerreiro”) e ele é o segundo protagonista do drama que começava a se desenrolar…

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Nenhuma fonte romana afirma isso, mas é quase certo que Arminius deve ter sido um dos reféns queruscos entregues ao general Druso, por volta de 9 A.C (ver a parte introdutória dessa nossa história). Arminius teria, então, cerca de quatro anos de idade e deve ter sido entregue aos Romanos provavelmente junto com seu irmão, chamado Flavus (provavelmente o nome latino dado pelos romanos, significando “louro”), para garantir que os Queruscos mantivessem a paz.

Não se sabe em que parte do Império Romano Arminius cresceu, mas o certo é que ele recebeu a oportunidade de prestar serviço militar à Roma, destacando-se a ponto de ter recebido a cidadania romana, bem como a grande distinção de ser arrolado entre a classe dos Cavaleiros (Equestres/ Equites), ascendendo, assim, ao segundo nível da aristocracia romana, em uma posição social somente inferior aos senadores e suas famílias (a classe senatorial era o cume da nova nobreza imperial romana).

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Segundo Veléio Patérculo, antes de 9 D.C, Arminius participou de algumas campanhas militares, que podem muito bem ter sido aquelas promovidas por Tibério e Saturnino, das quais já falamos, depois de 4 D.C, pois, então, ele já teria idade suficiente para ser soldado, e também contra os rebeldes na Grande Revolta Ilíria, que durou de 6 a 9 D.C.

É provável, assim, que Arminius tenha retornado à Germânia quando Varo já governava a região. Com certeza ele rapidamente conseguiu impressionar o general romano, a ponto de Dião Cássio registrar que Arminius era uma companhia frequente de Varo, chegando até ao ponto deles comerem juntos na mesma mesa.

Enquanto isso, só podemos especular como deve ter sido o reencontro de Armínius com seu pai….

Eles provavelmente não se viam desde que Segimerus entregara o filho aos Romanos, cerca de dezoito anos antes. Talvez Arminius esperasse que o pai ficasse orgulhoso de ver como ele havia prosperado em Roma, apresentando-se vestido em trajes de oficial romano. Mas é bem possível que, naquele intervalo de tempo, Segimerus tenha sofrido muitos desaforos por parte de seus compatriotas, pois, ao ter entregado o próprio filho aos romanos, para garantir o tratado de paz, ele praticara um ato humilhante de acordo com os costumes germânicos.  É possível que os líderes rivais tenham se aproveitado disso para diminuir a posição de liderança do velho na tribo. E agora, além de ter entregue o filho como refém, este ainda virara um soldado romano!

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Arminius, garbosamente vestido com sua cota de malha coberta de fáleras (discos de prata com figuras gravadas que podem ser equiparadas as modernas medalhas), elmo emplumado e manto escarlate pode ter percebido no olhar do velho, ao invés do esperado orgulho paterno, a decepção, a vergonha e a tristeza que a surpresa causara; quem sabe, a pungente cena se passara na mesma cabana de madeira e teto de palha onde o próprio Arminius nascera, ele, filho de um antes respeitado chefe.

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Mas, sem dúvida, eles deviam ter muita coisa para conversar. Segimerus deve ter contado como as coisas tinham mudado nos últimos anos. Como a orgulhosa tribo tinha sido várias vezes humilhada pelos pretores romanos e seus litores. Deve ter se queixado da obrigação de ter que pagar o pesado tributo, de ter que se inclinar perante a efígie de César Augusto, e até sobre alguma vez em que eles, como era de costume, foram atacar os vizinhos que haviam roubado o gado, mas foram impedidos pelos tribunos, sendo obrigados a levar o caso ao pretor…

Segimerus pode ter mostrado a Arminius o lugar onde as cinzas de sua mãe haviam sido enterradas com seus pertences mais preciosos, o pântano de turfa onde tantas vezes eles jogaram as armas e os corpos dos inimigos vencidos, e até o levou até o ponto onde se descortinava a floresta sagrada onde ficava o grande tronco de carvalho esculpido, Irminsul (talvez uma das explicações para o nome que ele dera ao filho), o lugar dos sacrifícios a Wodan, Zyo e Frea, deuses ancestrais dos germânicos (ilustração abaixo).

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Com o passar dos dias, circulando pela aldeia, Arminius deve ter visto como os orgulhosos oficiais de Varo tratavam com dureza e desdém aos seus compatriotas: a aspereza das ordens gritadas em latim, a arrogância dos gestos autoritários…E assim o prazeroso sentimento inicial de ocupar uma posição privilegiada em algo grandioso deve ter começado a se esvair do peito de Arminius como o ar de um balão…

Após o seu retorno a Germânia, que deve ter  ocorrido provavelmente no início daquele fatídico ano de 9 D.C., Arminius conheceu a bela Thusnelda, filha do nobre Segestes, que era um outro respeitado chefe querusco. Porém, Thusnelda, segundo nos conta o historiador romano Tácito, foi prometida para outro jovem. Como era costume entre os Germanos, as famílias aguardavam a chegada da idade adulta dos noivos para celebrar o casamento e consumar a união. Podemos crer que, neste momento, Armínius, tenha se apaixonado pela linda compatriota, de olhos claros e longos cabelos louros como ele jamais havia visto em todo o tempo que ele passara em Roma, e, ignorando os costumes ancestrais, ele tenha passado a cortejar a moça.

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Segestes, embora fosse ainda um altivo chefe guerreiro, à altura das melhores tradições germânicas, era um partidário dos Romanos, como registram as fontes. Inclusive, Augusto, em reconhecimento a sua amizade, tornou-o cidadão romano!  É possível que Segestes, ainda criança, tenha ouvido as estórias sobre as campanhas de Júlio César na Gália, e da grande matança que ele tinha feito entre os Gauleses e os Germanos que lutaram contra a conquista daquela província. E, de fato, ele mesmo, Segestes, experimentara o poder das legiões de Druso. É bem provável que, depois, ele tenha viajado à Gália para comerciar e testemunhado como esta província vinha se desenvolvendo e, sobretudo, como a nobreza gaulesa que havia colaborado com Roma tinha prosperado: Vale lembrar que o próprio César inclusive havia nomeado nobres gauleses para o Senado Romano!

Todavia, embora Segestes se mostrasse solícito com o governador Varo, ele não poderia tolerar a investida de Arminius sobre Thusnelda. Ele a prometera para outro nobre e a sua honra seria seriamente comprometida caso ela não se casasse com o escolhido. Por isso, Segestes, segundo narra Tácito, passou a detestar Arminius.

Arminius, por sua vez, que agora tinha em Thusnelda  outro poderoso imã que o atraía para a sua pátria natal, possivelmente começou a visitar, no início de 9 D.C, outras aldeias e a viajar pela região entre os rios Lippe e Weser, para cumprir várias missões, tais como supervisionar rotas, escoltar suprimentos, distribuir sentinelas, etc. Em poucos meses, ele deve ter conhecido e estabelecido laços com chefes de vários povos vizinhos, notadamente Catos, Queruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos e até alguns Suábios. Em todos esses lugares, Arminius perceberia que, embora vivessem separados e vez por outra até guerreassem, falavam todos eles a mesma língua e tinham os mesmos costumes, e, mais importante, eles compartilhavam o mesmo sentimento de insatisfação com os Romanos.

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Mas como eles poderiam resistir aos Romanos? Varo tinha três legiões e várias coortes, cerca de 20 mil soldados no total. As tribos daquela parte da Germânia, quando muito, depois de tantas derrotas nos últimos anos, conseguiriam no máximo reunir o mesmo número. Desse modo, para vencerem os romanos, que tinham melhores armas e eram imbatíveis em campo aberto, somente através de uma emboscada. Porém, as legiões não dormiam um dia sequer fora do quartel fortificado com paliçadas e torres armadas com as temíveis catapultas e balistas. Já os Germanos não tinham a menor expertise em fazer guerra de cerco.

Voltando ao quartel-general romano, Arminius deve ter percebido como Varo estava seguro e confiante da completa submissão das terras germânicas, naquele início de 9 D.C… A disciplina no quartel de verão parecia estar relaxada e muitas mulheres e até crianças  conviviam entre os soldados. Enquanto isso, Varo passava o dia no pretório, sentado em sua cadeira curul, resolvendo as disputas legais, rodeado pelos chefes das tribos.

Em algum momento, a ideia deve ter surgido na mente de Arminius. Após servir por cinco anos no Exército Romano e participar de várias campanhas, ele conhecia bem as táticas dos Romanos, as suas forças, mas também as suas fraquezas. Se os romanos pudessem ser atraídos para um terreno desfavorável, onde os soldados não pudessem entrar em formação e as legiões não conseguissem cooperar entre si, elas poderiam ser vencidas. E ele, que já gozava da confiança do governador, dificilmente seria suspeito de ser um rebelde. Assim, Arminius se sentiu encorajado a contar seus planos para o pai, que apoiou entusiasticamente a ideia. Seria a chance de seu povo vingar a humilhação de 18 anos atrás, e, sobretudo, livrar-se dos litores e dos publicanos.

Eles teriam apenas algumas semanas para colocar um plano em prática, pois, no final do outono, Varo voltaria para o quartel de inverno do Reno, onde ele poderia ter o suporte das outras legiões que ficaram ali estacionadas e onde as tribos eram realmente amistosas.

Arminius e Segimerus devem ter começado a falar com os chefes queruscos que eram mais próximos ao velho nobre, encontrando apoio imediato. Depois, nos meses seguintes, eles devem ter encontrado os chefes de outras tribos, em festivais religiosos ou em “things” (assembleias de homens livres ) de várias tribos vizinhas, e a conspiração foi tomando forma…

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(Este desenho de um relevo da Coluna de Marco Aurélio, em Roma, retrata um “thing”, a assembleia de germânicos, no caso, de Marcomanos)

                                                              A ARMADILHA

O plano que Arminius concebeu consistia em atrair Varo para uma região desconhecida dos romanos, mas que ficava dentro das terras de sua tribo. Como pretexto, ele escolheu o único motivo que faria o governador romano marchar com toda o seu exército para um território ainda não desbravado: um levante armado! E para enfraquecer um pouco as legiões de Varo, alguns chefes que ele reputava confiáveis pediriam ao governador que lhes enviasse destacamentos de soldados romanos para garantir a segurança nas suas aldeias. A data da emboscada, concluiu Arminius, teria que ser no final do outono, pois, certamente, os Romanos iriam querer resolver rapidamente a questão para que eles pudessem passar o inverno no conforto de Moguntiacum (Mogúncia), no Reno. Além do mais, dificilmente os Romanos teriam como mandar reforços depois que a neve caísse, sobretudo com os quartéis de verão no interior da Germânia destruídos, como os Germanos pretendiam fazer assim que eles derrotassem Varo

A escolha do local deve ter sido sugestão dos chefes queruscos. De fato, bem ali na terra deles, ficava, em um raio de centenas de quilômetros, a única rota de passagem em terreno seco e plano ligando o leste e o oeste da Germânia, entre as montanhas Wiehengebierge e o grande pântano que se extendia até o Mar do Norte. Em um determinado ponto, a largura da passagem era de apenas 100 metros, entre a montanha e pântano. Aquela era a realmente a melhor opção de trajeto, para alguém que não quisesse ficar com os pés encharcados ou andar em terreno montanhoso dentro da floresta…

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Quando o mês de setembro chegou, os chefes da conspiração resolveram oferecer um festim no quartel de Varo, uma fingida homenagem à iminente partida do governador, em que foram consumidos muito vinho e cerveja, esta oferecida pelos germânicos. Durante a festa, Segestes, que já vinha alertando Varo para não confiar em Arminius, e como chefe que ele era, já tinha ouvido rumores acerca da conspiração, levantou-se e acusou Arminius de traição, chegando inclusive a pedir ao governador que prendesse, não apenas os conspiradores, mas também ele mesmo, Segestes, com o propósito de que Varo pudesse melhor investigar quais eram os chefes leais e quais seriam inimigos de Roma.

Varo, que já tinha notado o ódio que Segestes nutria por Arminius, devido ao romance que este havia iniciado com sua filha Thusnelda, não deu muita importância. Provavelmente, ele mal conseguia entender o arremedo de latim que Segestes falava, e além do mais, o inconsciente de Varo não queria acreditar naquilo, pois tudo o que ele costumava ouvir dos chefes germânicos, até então, eram bajulações e elogios à sua administração,  coisa que ele julgava muito natural diante dos seus evidentes méritos…

No dia seguinte, Arminius chegou galopando rápido à frente de um esquadrão de cavalaria (turmae), trazendo a trepidante notícia de que os Bructeros tinham se revoltado próximo ao território dos Queruscos, os quais pediam a ajuda dos Romanos.

Alvoroçado com a notícia, Varo mandou reunir as três legiões e as seis coortes de auliares que estavam com ele e ordenou que todos marchariam para combater os rebeldes. Entre as ordens, estava a determinação de que Arminius e os chefes germânicos guiassem as legiões até o local da suposta revolta, através do caminho mais rápido.

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Em seguida, Arminius e os chefes queruscos pediram autorização a Varo para que eles deixassem a comitiva e fossem até as aldeias amigas para reunir forças para se aliarem às legiões na repressão à revolta, sugerindo que batedores germânicos da confiança deles guiassem o exército até o local exato.

Entretanto, isso era apenas um disfarce. Na verdade, Arminius saiu e foi ao encontro do exército germânico combinado composto por guerreiros queruscos, catos, bructeros, chaucos, marsos e até de alguns Suábios, que aguardava, no local combinado, a chegada das legiões de Varo. Concomitantemente, Arminius despachou mensageiros às aldeias onde estavam estacionados pequenos destacamentos de soldados romanos, a pedido dos chefes envolvidos na conspiração anti-romana. Quando a mensagem de Arminius chegou aos destinatários, todos os soldados romanos espalhados pelas aldeias foram imediatamente mortos.

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(Ilustração de Arminius feita pelo artista Gambargin, http://fav.me/dai0tmm)

Enquanto isso, marchando através de território que eles acreditavam ser amistoso, as legiões não prosseguiam em ordem de batalha, como seria de costume, mas em blocos separados. A longa coluna devia se estender por vários quilômetros de comprimento. Tudo indica que os Romanos acreditavam que estavam indo resolver um assunto fácil: um levante dos Bructeri, os quais tinham sido facilmente derrotados por Tibério e Saturnino, apenas quatro anos antes…Os soldados confiavam que, antes do final de outubro, eles estariam no conforto dos quartéis do Reno. Assim, misturados à tropa, iam mulheres, crianças, escravos domésticos e toda a sua bagagem, transportadas em carros de boi e mulas…

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – PRIMEIRO DIA

O historiador romano Dião Cássio, a partir daí, é quem nos dá o relato mais detalhado dos acontecimentos:

Os Romanos foram guiados para uma trilha que passava por dentro da Floresta de Teutoburgo. Os soldados, inclusive, tinham que derrubar árvores e ir aplainando os caminhos para as carroças transitarem. Nesse momento, começou a chover muito forte. Foi então que grupos de guerreiros germânicos escondidos entre as árvores despejaram dardos contra a retaguarda da coluna, matando muitos soldados romanos que tentaram, sem sucesso, defender-se com os seus escudos, os quais, encharcados da água que caía, começaram a ficar muito pesados. Além disso, os Germanos começaram a derrubar algumas árvores para que os troncos caíssem em cima dos Romanos.  Agora, as tropas estavam dispersas ao longo do caminho, já bem escorregadio, que se encontrava atravancado pelas carroças e pela correria desesperada dos civis. Sem dúvida, estava muito difícil organizar uma formação de batalha naquele momento. Assim, cada grupo de soldados combatia em minoria contra um número muito maior de bárbaros. Em pouco tempo, vários legionários já estavam caídos na floresta, mortos ou feridos. Para piorar, as tropas auxiliares começaram a desertar e fugir para o meio da floresta.

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Apesar de tudo, os oficias romanos conseguiram achar um local mais ou menos adequado para fazer um acampamento fortificado com uma paliçada e passar à noite. Eles, com pesar, decidiram queimar as carroças e abandonar tudo o que não fosse necessário para o combate.

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – SEGUNDO E TERCEIRO DIAS

No dia seguinte, os Romanos conseguiram avançar de forma mais ou menos ordenada para o oeste, conseguindo chegar até campo aberto, porém sem deixar de sofrerem contínuas perdas em emboscadas. Talvez Varo e os oficiais romanos ainda acreditassem que, em algum momento, Arminius chegaria com os reforços prometidos e aliviaria a situação. Neste ponto, Dião Cássio conta que as tropas teriam entrado de novo em outro trecho da floresta.

Foi neste dia que os Romanos, segundo Dião Cássio, sofreram as suas perdas mais pesadas. O historiador narra que os soldados tiveram que formar suas linhas em um espaço estreito. A ênfase nesses dois elementos: pesadas perdas e a largura do terreno, apontam para a estreita passagem situada ao pé da colina Kalkriese, 20 km ao norte da atual cidade de Osnabrück, como sendo o ponto focal da Batalha.  Foi ali que os Romanos ficaram imprensados entre o pântano e a floresta.

De fato, durante dois mil anos, o local exato onde ocorreu a Batalha da Floresta de Teutoburgo sumiu da História e da memória dos europeus.

Até que, em 1987, um militar inglês – que nas horas vagas tinha  como hobby ser arqueólogo amador – descobriu uma grande quantidade de moedas romanas, sendo que nenhuma das moedas encontradas era posterior a 9 D.C. Avisadas, as autoridade começaram uma escavação científica, encontrando fragmentos de equipamento militar romano e ossos humanos e de animais, na maior parte das vezes, misturados em buracos cavados propositalmente para enterrá-los.

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(Foto do sítio de Karlkriese. O caminho marca o trajeto provável do deslocamento da tropa romana, conforme os achados arqueológicos)

Os arqueólogos alemães também descobriram, neste sítio, vestígios de um longo muro de turfa encimado por troncos, o qual se estendia em zigue-zague, com passagens em intervalos periódicos. Embaixo de um trecho que parecia ter cedido, eles encontraram um crânio humano, ao lado um suporte de plumagem característico de um elmo romano, e o esqueleto de uma mula. Os arqueólogos calcularam que foram necessárias apenas algumas semanas para construir esse muro, encimado por uma paliçada, que ficava ao pé da montanha. Escavando o terreno, eles verificaram que, ao longo dos séculos, o mesmo foi modificado pelas sucessivas gerações de agricultores, tendo ficado bem diferente do que ele era em 9 D.C. Com efeito, originalmente, o local era uma faixa de terreno seco arenoso de cem metros de largura delimitado, em um lado, pela colina Kalkriese, então, como hoje, coberta de árvores, mas, do outro lado, por um pântano, que foi sendo aterrado ao longo dos séculos.

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(Foto da reconstituição do solo original no século I D.C., em Kalkriese. Ao fundo, pode-se ver a paliçada reconstruída)

Ali foram encontrados 6 mil itens arqueológicos (moedas, pedaços de sandálias militares, pontas de lança, e de dardos de catapultas, arreios de cavalos e mulas, etc.) relacionados ao Exército Romano. E o maior agrupamento de achados fica justamente no trecho onde foram construídos o muro de turfa e a paliçada pelos germânicos.

O sítio arqueológico de Kalkriese é uma prova irrefutável de que Arminius e os Germânicos planejaram e executaram uma emboscada magistralmente sofisticada. E eles não apenas atraíram os Romanos para um terreno desfavorável, mas ainda prepararam com antecedência este terreno. E eles fizeram isso em apenas algumas semanas.

A maioria dos soldados da XVII, XVIII e XIX Legiões comandadas por Varo deve ter sido morta no trecho murado, tentando, inclusive, tomar de assalto um destes trechos, sem sucesso (essa, inclusive, foi a parte do muro que desabou sobre os soldados); mas alguns grupos devem ter conseguido prosseguir. A trilha dos achados arqueológicos demonstra que, ultrapassada a paliçada germânica, houve uma bifurcação no avanço dos romanos. Um grupo um pouco maior ainda avançou um pouco mais para o norte, e outro, menor, para o sul.

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A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – ÚLTIMO DIA

De fato, Dião Cássio conta que, quando raiou o quarto dia, o que restava das legiões ainda estava avançando, quando voltou a cair uma tempestade de chuva e vento, impedindo novamente os Romanos de usarem seus escudos e seus arcos (pois as cordas feitas de tendão ficam frouxas quando molhadas). Para piorar, outros bandos de Germanos se sentiram encorajados a se juntar aos que atacavam os Romanos, que ficaram em ainda maior inferioridade numérica.

Estava tudo acabado: Públio Quintílio Varo, que já tinha sido ferido nos dias anteriores, vendo-se na iminência de ser capturado, mostrou a bravura que tradicionalmente era esperada de um general romano e, repetindo o que seu pai e seu avô já tinham feito antes, ele tirou a própria vida, jogando-se sobre a sua espada. Por sua vez o Legado (general) Numonius Vala tentou fugir com suas unidades de cavalaria, mas ele acabou sendo alcançado pelos cavaleiros de Arminius e morto. Os historiadores romanos condenaram este ato como covardia, mas diante da situação, talvez fosse a única alternativa. Dos dois Prefecti Castrorum (Prefeitos do Acampamento), que eram os terceiros em comando na legião), Lucius Eggius pereceu combatendo, mas o outro, Ceionnius, rendeu-se, apenas para morrer torturado pelos bárbaros.

O corpo de Varo, segundo o historiador romano Veléio Patérculo, foi parcialmente cremado e enterrado às pressas, provavelmente pelos seus servos domésticos, mas logo o mesmo seria descoberto, desenterrado (o historiador Floro também narra isso) e decapitado pelos Germanos. Depois, Arminius enviou a cabeça de Varo para o rei dos Marcomanos, Marobóduo (Marbod), no Danúbio, com o objetivo de incentivá-lo a se unir à aliança dos Queruscos e povos vizinhos contra o Império. Contudo, o prudente rei preferiu não tomar partido e, como gesto de boa vontade, enviou de volta a cabeça de Varo para Augusto, em Roma, onde mais tarde ela foi depositada, com honras, no mausoléu da família.

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Dois dos estandartes-águia das legiões foram capturados por Arminius. Porém a terceira águia, segundo, Floro, foi escondida por um soldado porta-estandarte (aquilifer) dentro das próprias vestes,  que com ela mergulhou no pântano.

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O grande historiador Tácito narra que Arminius insultou as águias e os estandartes, discursando para a multidão de guerreiros em cima de uma tribuna improvisada. Os tribunos e oficiais sobreviventes foram sacrificados vivos em altares e tiveram suas cabeças cortadas e penduradas em árvores. Por sua vez, alguns soldados seriam poupados, para serem escravos dos Germanos e deve ter sido algum deles que, anos mais tarde relatou essas cenas. Um pequeno punhado de soldados teve mais sorte e eles conseguiram chegar até as guarnições romanas no Reno.

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CONSEQUÊNCIAS

Logo após a Batalha da Floresta de Teutoburgo, todos os quartéis romanos até o Reno foram atacados pelos Germanos. Somente o forte de Aliso resistiu heroicamente e foi somente essa resistência que impediu os bárbaros de cruzarem o Reno e atacarem a Gália, prosseguindo, quem sabe, até a Itália.

A nascente cidade romana de Waldgirmes, que mencionamos na primeira parte de nossa história, foi prontamente evacuada. Sabemos que ela não foi destruída pelos Germanos, pois não há traços de incêndio, nem esqueletos de vítimas. Na verdade, a cidade foi propositalmente desmantelada pelos Romanos, provavelmente logo que eles receberam a notícia da derrota, naquele mesmo ano de 9 D.C.

Quando a notícia do Desastre de Varo (Clades Variana, como a derrota seria batizada em latim) chegou à Roma, houve uma comoção geral e muitos de fato acreditaram que logo os Germanos atravessariam os Alpes e invadiriam a Itália. O imperador Augusto ficou muito abalado. Segundo o historiador romano Suetônio, o velho imperador, meses após a derrota, repetidas vezes foi visto batendo a cabeça contra uma parede e clamando:

“QUINCTILIUS VARUS, LEGIONES REDE!” (Quintílio Varo, devolva-me minhas legiões!).

Foi de fato a pior derrota que Augusto sofrera em 50 anos à frente do governo de Roma. Ele havia planejado minuciosamente que o número de legiões do Exército Romano, após as guerras civis do Triunvirato, seria de 28…Agora, restavam 25, e os números das legiões massacradas na Batalha da Floresta de Teutoburgo nunca mais seriam utilizados de novo pelos supersticiosos romano: Realmente, jamais houve quaisquer outras Legiões XVII, XVIII e XIX. Viraram números malditos…

Muitos historiadores incluem a Batalha da Floresta Teutoburgo entre as dez batalhas mais decisivas da História. Eu concordo. Hoje, não há dúvidas de que Augusto tinha um projeto de anexação e “romanização” da Germânia, o qual estava em andamento. Se os Romanos tivessem ganho a Batalha ou, mais provável, se Varo tivesse dado ouvidos a Segestes e desarticulado a conspiração, em poucos anos teria havido a fundação de novas cidades e consolidação e aumento das já existentes, como Waldgirmes. Em algumas décadas, a Germânia até o rio Elba ficaria cada vez mais e mais parecida com a Gália. E a leitura das fontes que citamos demonstra que realmente havia uma facção da nobreza germânica que apoiava essa “romanização” (o maior exemplo é o próprio Segestes). Uma derrota de Arminius certamente teria reforçado e promovido esses nobres pró Roma. Isso, obviamente, não quer dizer que as outras tribos germânicas além do rio Elba, incluindo as que viviam na Escandinávia, futuramente não atacariam as fronteiras romanas, e nem que o Império do Ocidente não viesse mais tarde a entrar em colapso. Porém, muito provavelmente, a fronteira linguística e cultural da Europa latinizada e católica seria no rio Elba. Como  disse o historiador militar britãnico J.F.C. Fuller, ainda que com algum exagero:

“Sem Teutoburgo, não haveria Carlos Magno, não haveria Sacro Império Romano-Germânico, não haveria Guerra dos Trinta Anos, não haveria Napoleão, não haveria Alemanha e não haveria Hitler

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Demorou cinco anos para o Império Romano preparar uma revanche. O general Germanicus Julius Caesar (Germânico), que era filho adotivo do sucessor de Augusto, o Imperador Tibério (que conduziu inúmeras campanhas bem sucedidas na Germânia) entrou na Germânia comandando 6 legiões. Ele travou vários combates muito sangrentos, matou milhares de bárbaros, e até conseguiu recuperar uma das águias capturadas na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Germânico engajou vitoriosamente Armínius em combate algumas vezes, mas nunca sem conseguir derrotá-lo definitivamente. Contudo,  Segestes, que tinha sido cercado pelas tribos leais à Arminius, pediu ajuda a Germânico, que prontamente veio em seu socorro e conseguiu derrotá-los, em  15 de maio de 15 D.C. Em agradecimento, Segestes entregou à Germânico a sua própria filha Thusnelda, que então era esposa de Arminius e estava grávida do filho do libertador da Germânia.

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(Estátua romana de mulher germânica cativa, apelidada de “Thusnelda”)

Logo depois, naquele mesmo ano, Germânico e suas legiões alcançaram o local da Batalha da Floresta de Teutoburgo, visitando o campo de batalha em Kalkriese. A sombria , macabra e brilhante descrição que o historiador Tácito faz dessa visita traz à minha mente uma cena parecida com a que assisti no filme “Apocalipse Now”, quando o louco Coronel Kurtz é encontrado no Laos:

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De acordo com Tácito, havia ossos descarnados espalhados por todo local e, das árvores, pendiam crânios dos soldados romanos sacrificados. Tácito conta que o próprio Germânico cuidou de enterrar, juntamente com os soldados, os ossos dos companheiros mortos. E isso é confirmado pelas escavações modernas em Kalkriese, pois foram achadas as mesmas covas que o general romano mandou cavar. Inclusive, na pressa em fazer o sepultamento, já que os romanos estavam em terreno inimigo, foram enterrados ossos humanos junto com os das mulas e cavalos mortos, o que, em circunstâncias normais, jamais ocorreria.

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(Foto real dos ossos encontrados em uma dos oito poços escavados pelos soldados de Germânico, em Kalkriese)

O vívido relato de Tácito e a cena do filme vieram imediatamente à minha mente quando eu estive em Kalkriese, no final de 2008 (http://www.kalkriese-varusschlacht.de/en/).

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Há no sítio uma reconstrução da paliçada germânica e um trecho de terreno que foi escavado e reconstituído para mostrar como eram os alagados. Há também estandartes fincados com rostos humanos para lembrar os soldados romanos caídos, e um museu com os achados, onde se destacam uma máscara cerimonial de cavalaria romana e uma reconstituição facial do crânio de um soldado romano encontrado. Além de um pedaço de armadura do tipo lorica segmentata, que é o mais antigo jamais encontrado. Com efeito, acreditava-se que esse tipo de armadura tinha sido introduzido no reinado de Tibério, Calígula ou Cláudio, mas, graças a descoberta de Kalkriese, sabe-se que deve ter sido no reinado de Augusto.

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EPÍLOGO

Thusnelda foi levada para Roma e lá deu à luz ao filho de Arminius, que foi chamado de Thumelicus. Consta que Arminius lamentou muito a captura de sua esposa e de seu filho. Não se sabe qual foi o destino de Thusnelda, mas Tácito afirma que Thumelicus foi educado em Ravena e, anos mais tarde, ele sofreu uma grande humilhação, que o historiador nos alerta que iria contar em outro capítulo (infelizmente, o livro contendo essa passagem anunciada se perdeu). Alguns acreditam que o termo usado pelo historiador poderia inferir que Thumelicus pode ter virado gladiador, pois essa era considerada uma das mais baixas condições sociais em Roma.

Em 16 D.C, Germânico travou um grande batalha contra a coalizão de tribos liderada por Arminius em pessoa. Os Romanos venceram de forma arrasadora e teriam matado cerca de 20 mil Germanos, porém Arminius conseguiu escapar. Nesta ocasião, Germânico conseguiu recuperar a segunda águia perdida em Teutoburgo. Já a terceira águia, que deve ter sido encontrada escondida no pântano pelos bárbaros logo após a batalha, somente seria recapturada em 41 D.C., no reinado do imperador Cláudio.

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(Cabeça de Germânico)

Em 21 D.C, Arminius foi assassinado por rivais de sua própria tribo que, supostamente, temiam que ele quisesse virar rei (curiosamente, esse foi o mesmo pretexto para o assassinato de Júlio César). Não obstante, Tácito  nos recorda que, 100 anos depois da Batalha da Floresta de Teutoburgo, o nome dele ainda era cantado nas sagas dos Germanos.

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(Lápide do túmulo do 1º centurião da XVIII Legião, Marcus Caelius, a inscrição diz:  “Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito Lemoniano de Bolonha, primeiro centurião da 18ª Legião, 53 anos de idade. Ele morreu na Guerra de Varo.  Podendo também conter os ossos dos seus libertos. O seu irmão, Publius Caelius, filho de Titus, do Distrito Lemoniano, ergueu essa lápide“. Tudo indica que Publius, o irmão do centurião TItus, estava na expedição de Germânico e conseguiu reconhecer e resgatar os ossos do irmão falecido em Teutoburgo, dando-lhes um enterro digno, junto com os libertos que o acompanhavam).

Em 2020, a Netflix produziu a série BÁRBAROS, até agora com 2 temporadas, dramatizando a saga de Arminius e a Batalha de Teutoburgo (clicar no link em azul ou em https://www.netflix.com/br/title/81024039)

                                                                               FIM

PETRÔNIO MÁXIMO – IMPERADOR DO OCIDENTE POR 11 SEMANAS, OS ANÍCIOS e AÉCIO – O ÚLTIMO DOS ROMANOS

 

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Flavius Anicius Petronius Maximus (Petrônio Máximo) nasceu por volta de 395 D.C. e provavelmente ele era filho de Anicius Probinus, Cônsul para o ano de 395 D.C. e Procônsul da África no ano seguinte, e neto de Sextus Claudius Petronius Probus, que foi Prefeito da Ilíria, Prefeito da Gália, Prefeito da Itália e Cônsul no ano de 371 D.C.

Os Anícios (Anicii) eram uma família rica, poderosa e muito influente da tradicional classe senatorial italiana, e os seus integrantes ocuparam vários cargos públicos importantes a partir do século IV D.C.

A influência dos Anícios perdurou, inclusive, após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C., pois eles continuaram ocupando várias magistraturas durante o reinado dos Ostrogodos, na Itália. O filósofo Boécio (Anicius Manlius Severinus Boethius), por exemplo, foi  senador e cônsul em 510 D.C. (o senado romano continuou a funcionar durante o reino Ostrogodo na Itália), antes de ser executado por ordens do rei germânico.

Em 523 D.C., Flavius Anicius Maximus celebrou a sua nomeação para o consulado celebrando os últimos jogos a serem realizados no Coliseu de Roma, envolvendo caçadas e lutas contra animais (venationes).

Inclusive, depois da reconquista da Itália pelo imperador romano do Oriente, Justiniano I, um dos membros da família, Anicius Faustus Albinus Basilius, foi o último romano a ocupar o cargo de Cônsul, em 541 D.C., ao lado do referido imperador, após o que o cargo foi incorporado como título exclusivo dos imperadores romanos do Oriente (vide painel de marfim abaixo com a imagem do Cônsul Anicius Albinus Basilius, ladeado pela personificação da cidade de Roma).

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Mais de um século depois da Queda do Império Romano do Ocidente, Gregório, o Grande, canonizado como São Gregório, cujo nome de nascença era Anicius Gregorius , foi Papa da Igreja Católica, de 590 a 604 D.C.

Um dos motivos para a ascensão dos Anícios, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande, é o fato de que eles eram cristãos, dentro de um Senado Romano ainda marcadamente pagão.

E Petrônio Máximo também seguiu uma carreira pública de sucesso, tendo ocupado sucessivamente os cargos de Pretor, em 411 D.C, de Tribuno, em 415 D.C, de Conde das Riquezas Sagradas (Comes Sacrae Largitionem, cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro Imperial), de 416 a 419 D.C, e nos dois anos seguintes, ele foi Prefeito Urbano de Roma. Depois disso, Petrônio foi Prefeito Pretoriano da Itália, por duas vezes, em 435 e 439/441 D.C., culminando a sua carreira com dois consulados, em 433 e 443 D.C.

Assim, a maior parte da carreira de Petrônio desenvolveu-se durante o reinado do Imperador do Ocidente Valentiniano III, que se caracterizou por um paulatino desmembramento do Império Romano, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os Vândalos, Suevos e Alanos se instalaram na Espanha e os Visigodos no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente, controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma.

O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado de Honório, antecessor de Valentiniano III, praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia de tropas bárbaras, cujos chefes cada vez mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C.), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas ocasiões em que o exército era comandado por um general de prestígio e de orientação patriótica, como no caso do marechal, meio-romano e meio-vândalo, Estilicão, que foi o Comandante do Exército do Ocidente durante o reinado do imperador Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e as empregavam no interesse de Roma.

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Estilicão (retratado no relevo de marfim acima), contudo, não conseguiu sobreviver à comoção que foi o saque de Roma pelos Godos comandados pelo rei Alarico. Outro fator que contribuiu para a queda de Estilicão foram as intrigas entre as cortes de Honório, em Ravena, e de seu irmão Arcádio, em Constantinopla.

Quando Honório morreu, em 423 D.C., o governo do Império do Ocidente ficou, durante algum tempo, nas mãos da Imperatriz Gala Placídia, filha de Teodósio, o Grande e irmã do falecido imperador, apoiada pelo Imperador do Oriente, Teodósio II, em Constantinopla (como o filho de Placídia, Valentiniano III, tinha apenas 6 anos, ela governou como regente de fato o Império Romano do Ocidente).

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(Alguns acreditam que este medalhão de vidro pintado retrate Gala Placídia, ladeada por Valentiniano III e Honória, mas provavelmente o objeto é mais antigo, do século III).

Vale notar que Gala Placídia foi levada como refém por Alarico, quando do saque de Roma e, depois que o rei bárbaro morreu, naquele mesmo ano (410 D.C.), ela teve que se casar, aparentemente não contra a sua vontade, com Ataulfo, o cunhado e sucessor de Alarico. Gala Placídia somente seria “restituída” ao Império Romano após a morte do marido, em 415 D.C.

Durante o reinado de Valentiniano III, um outro militar da estatura de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército, o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio.

Flávio Aécio, quando criança, foi entregue como refém aos godos e, por estes, aos hunos, durante a juventude, mas, valendo-se do seu talento de persuasão e de suas habilidades diplomáticas, Aécio conseguiu fazer contatos e ter boas relações com os hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.  Efetivamente, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os hunos, que, em diversas ocasiões, lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos visigodos, suevos, francos, burgúndios e outros bárbaros que, já instalados na Gália e Espanha, ou em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de Comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército que tinha a predileção de Gala Placídia, e, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar aos seus amigos hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos na luta. Os hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a nomeá-lo “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os vândalos aproveitaram-se indiretamente desse conflito e invadiram a África, província que era vital como fonte de fornecimento de grãos para o Império do Ocidente (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla), e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio para lidar com essas ameaças é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava: De fato, Flávio Aécio sempre procurou proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os burgúndios e conter os bagaudas, na Gália e, após uma sucessão de derrotas e vitórias contra os visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos bárbaros. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras recém-derrotadas e assentadas em áreas selecionadas do Império para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Em decorrência desses sucessos militares, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C.

Porém, em 451 D.C., Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C., resolveu atacar o Império do Ocidente, alegando um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, conseguiu enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

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Deve ter sido muito embaraçoso para Aécio junto à corte imperial e ao Senado o fato de que seus amigos hunos agora tinham se voltado contra o Império. O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram tomadas, saqueadas e incendiadas.

Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os visigodos, francos e alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando os aliados  aproximaram-se de Orleans, que estava sendo sitiada pelos hunos, Átila teve que abandonar o cerco às muralhas e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champanha. Ali, travou-se uma sangrenta batalha onde os visigodos e alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos. Foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que a Batalha de Châlons foi uma das batalhas mais importantes da História e o historiador romano-bizantino Procópio chamou Aécio de “O Último dos Romanos“. É, todavia, difícil chegar a uma conclusão sobre a importância crucial desta batalha, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império esfumaçou-se tão rápido como surgira.

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Contudo, também o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Châlons, Átila e os seus Hunos invadiriam a Itália. No avanço da horda, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa. Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto os hunos dirigiam-se para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, aparentemente devido a uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio ainda conseguiu casar o seu filho Gaudentius com a princesa Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e ainda por tabela colocando Gaudentius como um sério candidato à sucessão do trono. Isso certamente despertou muitos ciúmes no círculo da elite italiana, especialmente em Petrônio Máximo, que naquele momento era o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos.

Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Petrônio Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio junto a Valentiniano III, instigando o imperador contra o general. Assim, Petrônio aliou-se ao secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio, e os dois conseguiram persuadir Valentiniano III que Aécio planejava matá-lo.

Em seguida, Petrônio e Heraclius sugeriram que Valentiniano convocasse o general para um encontro no Palácio, nos aposentos imperiais, provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Aécio compareceu ao encontro e, enquanto apresentava um relatório, ele foi acusado pelo imperador Valentiniano III de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi subitamente atacado por Valentiniano III e Heraclius e acabou sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, uma vez que Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, enquanto que Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

“Se ele merecia morrer, eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a esquerda”…

Ainda segundo João de Antióquia, Petrônio Máximo tentou convencer Valentiniano III a nomeá-lo para o cargo de Aécio, mas foi convencido por Heraclius a não fazê-lo. Furioso com a recusa, consta que Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas bárbaros de Aécio, chamados Optelas e Thraustelas, a vingarem-se da morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III.

Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, os dois bárbaros mataram o imperador e apoderaram-se do seu manto e do diadema imperial, que foi entregue a Petrônio Máximo, que, com o apoio do Senado, imediatamente tomou o controle do Palácio Imperial e forçou Licí­nia Eudóxia, a viúva de Valentiniano III,  casar-se com ele, o que lhe ajudou a reivindicar com sucesso a condição de Imperador Romano do Ocidente, em 17 de março de 455 D.C.

O reinado de Petrônio Máximo, contudo, duraria pouco…As tropas que se mantinham fiéis graças ao prestígio de Aécio desapareceram e, na prática, não existia mais nada na Itália que pudesse ser chamado de exército romano. Geiserico, segundo algumas fontes, atendendo a um pedido da imperatriz-viúva, aproveitou para invadir a Itália e dirigiu-se para Roma, onde instalou-se o pânico.

Quando Petrônio Máximo soube do funesto fato, e encontrando o Palácio deserto, tentou fugir, mas foi ele acabou sendo descoberto e foi capturado por uma multidão furiosa que o linchou e o apedrejou, atirando seu corpo mutilado ao Tibre (segundo uma outra versão, ele teria sido morto por um soldado de nome Ursus). Era o dia 31 de maio de 455 D.C.

VIRGÍLIO

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Em 21 de setembro de 19 A.C. morreu o grande poeta romano Virgílio, o poeta romano mais conhecido em todos os tempos, na cidade de Brundisium, na Itália, quando ele voltava de uma viagem à  Grécia.

A poesia de Virgílio, rica em temas rurais, pastoris e épicos, foi muito bem recebida pelo nascente regime inaugurado pelo imperador Augusto, pois o novo regime procurava exaltar os costumes tradicionais e as virtudes do camponês italiano, e, portanto, fazia coro à propaganda imperial. Graças a isso, Virgí­lio contou com o patrocí­nio de Caio Mecenas, rico amigo e partidário de Augusto (que, de tanto apoiar escritores, acabou virando o substantivo que significa “patrono das artes”).

As  grandes obras de Virgílio são as Bucólicas, as Geórgicas, e, a mais célebre de todas, a Eneida, um monumental poema épico que  trata da fundação mítica de Roma, cantando a ligação da lendária Tróia com os romanos. A Eneida integrava o currículo básico de formação de todos os romanos e citações do seu texto já foram encontrados em achados arqueológicos desde a África até a Inglaterra, inspirando poetas durante a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento e mesmo até hoje em dia. Dante Alighieri e Luís de Camões, para citar exemplos, foram profundamente influenciados por Virgílio, como podemos observar nas obras “A Divina Comédia” e “Os Lusíadas“.

Publius Vergilius Maro  (Públio Virgílio Marão ) nasceu em 15 de outubro de 70 A.C. (segundo a tradição), próximo à cidade de Mântua, a qual, fundada pelos Etruscos, foi depois controlada pelos Gauleses, até ser conquistada pelos Romanos, na época da Segunda Guerra Púnica.

Depois de aprender a ler e escrever, Virgílio foi estudar nas cidades de Cremona e Milão, que eram as principais cidades da província romana da Gália Cisalpina. Já chegada a mocidade, ele foi para Roma estudar Retórica, Medicina, Astronomia e, finalmente, filosofia. Em Roma, Virgílio estudou e aprendeu grego com o famoso gramático e poeta Parthenius de Niceia. Ele também conviveu e fez parte do círculo de poetas chamados de neotéricos, que procuravam se afastar dos cânones da poesia homérica clássica, e foi discípulo do poeta, historiador, intelectual  e estadista Gaius Asinius Pollio (Asínio Polião). Completando a sua formação, Virgílio foi para Nápoles, estudar com o filósofo epicurista Siro.

Foi no período que se seguiu à morte de Júlio César que Virgílio começou a sua carreira como poeta. Parece que as propriedades rurais de sua família em Mântua foram confiscadas na série de proscrições decretadas pelos sucessores de César, os Triúnviros Marco Antônio e Otaviano, e isso acabou inspirando em parte a sua primeira série de poesias com temas predominantemente pastorais, batizadas de Éclogas (ou Bucólicas), mas, onde, de modo diverso ao formato tradicional desse tipo de poesia, estabelecido pelo poeta grego Teócrito de Siracusa, Virgílio fez alusões ao assassinato de César, aos horrores da guerra civil e o nascimento de uma criança miraculosa, que viria dar fim à “Era de Ferro” (Écloga IV). Esse poema, séculos mais tarde, seria considerado por autores cristãos como tendo profetizado o nascimento de Jesus Cristo, como podemos ver no trecho abaixo (muito embora, os especialistas apontem que se trata de uma referência a Otaviano, o futuro imperador Augusto):

“Sicilianas Musas, nossos cantos, um tanto soergamos:

nem a todos deleitam os arbustos, os tamariscos franzinos,

se é aos bosques que cantamos,

que de um cônsul os bosques sejam dignos!

Eis que na verdade, do oráculo de Cumas vem chegando a derradeira idade:

Dos séculos a grande ordem de novo recomeça;

Eis que volta a Virgem; eis que de Saturno o reino já regressa,

e dos altos céus nova linhagem desce!

Mal nasça o menino com que já fenece

a férrea idade, e de polo a polo

se mostre a áurea estirpe, tu, casta Lucina, o favorece!

Já reina o teu Apolo!

Em teu consulado, ó Polião, e sob a tua guia,

principiará a glória desta nova era,

e dos grandes meses o transcurso, dia a dia.

Se de nosso crime algum vestígio houvera,

írrito será doravante,

e livre quedará do pavor eterno a esfera.

Dos deuses receberá vida o nascituro infante,

e aos deuses juntos os heróis verá;

ver-se-á a si a estes mesclado,

e o mundo regerá,

pela virtude paternal pacificado.

Depois das Éclogas, que foram publicadas por volta de 38 A.C., Virgílio ingressou no círculo de poetas patrocinado por Mecenas, com o objetivo de fazer propaganda das ideais políticos de  Otaviano e que também incluía outro grande poeta romano, Horácio.

Foi Mecenas quem insistiu para que Virgílio escrevesse a sua próxima obra, as Geórgicas, uma ode à vida rural da Itália, versando sobra as lavouras, a avicultura, estocagem e apicultura, com alguns versos laudatórios a Otaviano. A série foi terminada em 29 A.C., mas, segundo consta, antes disso, Mecenas e Virgílio costumavam declamar os poemas para o futuro Augusto.

A leitura de alguns versos da Écloga VI e das Geórgicas mostra que, durante a sua produção, Virgílio já estava elaborando as ideias para a sua próxima obra, que se chamaria Eneida.

Na Eneida, poema épico que é considerado a obra-prima de Virgílio, narra, em versos hexâmetros, a trajetória do mítico herói troiano Enéias, que foge de Troia após a Guerra narrada na Odisseia de Homero, levando o pai, Anquises, e o filho, Ascâneo, e, guiado pelos deuses, passa por Cartago, onde a rainha Dido se apaixona por ele, mas acaba por se suicidar devido a partida do herói, que ouvira dos deuses que ele iria fundar um grande cidade, e  termina por se estabelecer na Itália, onde ele se fixa no Lácio e se apaixona por Lavínia, a filha única do rei Latinus, que estava prometida para Turno. O romance causa uma guerra entre os Troianos e os outros povos italianos, que é vencida pelos primeiros, e termina com Enéias matando Turno.

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Na Eneida, Ascâneo, filho de Enéias, é chamado Iulus,  de quem a gens Julia alegava descender. Assim, explicitamente, o poema associava Augusto, sobrinho-neto e filho adotivo de Júlio César a Enéias e à própria deusa Vênus, que era mãe daquele herói mitológico.

A Eneida compreende doze livros,  e alguns deles foram recitados para Augusto e a família imperial pelo próprio Virgílio, em 23 A.C..

Em 21 de setembro de 19 A.C., quando voltava de uma viagem à Grécia, onde tinha contraído uma febre, Virgílio morreu, quando chegou no porto italiano de Brundisium (atual Brindisi).  Ele ainda não tinha finalizado a Eneida, que ainda carecia de alguns retoques. Inclusive, consta que, com essa finalidade, ele teria retornado à Itália a pedido de Augusto.

Consta que Virgí­lio, antes de morrer, teria determinado que os manuscritos da Eneida fossem queimados, não se sabendo o motivo, mas Augusto, quando soube dessa última vontade do poeta, proibiu a destruição do manuscrito e providenciou a sua publicação, que foi feita por um velho amigo do poeta, Varius.

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(Túmulo de Virgílio, em Nápoles)

 

DOMICIANO, UM BOM “MAU IMPERADOR”…

PRÓLOGO

Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um cenário sangrento: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada. Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a sobrinha do imperador.

HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA

Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo ní­vel hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Proví­ncia romana da Ásia e além de banqueiro.

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Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela proví­ncia.

Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.

Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.

Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações,Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.

O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.

Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C. (Curiosidade: a filha dela, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

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Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caí­do em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os maiores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.

Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Velha, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“, uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.

Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer, Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face, estendeu-lhe a mão…

Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele durante toda a sua vida (e mesmo depois, como veremos adiante).

JUVENTUDE E FORMAÇÃO

Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado, conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C.,Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.

Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.

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Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a este último traço, consta que Domiciano escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.

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Vespasiano foi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.

Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Otho (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.

Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Otão foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.

Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difí­cil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.

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A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO

Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade, quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua famí­lia, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.

Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César” (um tí­tulo que começava a adquirir o significado de “prí­ncipe-herdeiro”).

Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.

Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder, rapidamente nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por este motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado“.

Ainda durante o Ano dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada por Gaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.

Entretanto, Tito, o filho mais velho de Vespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente foi, em 70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu o Poder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).

Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim, agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.

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(Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO

Durante o reinado de Vespasiano, Domiciano foi designado seis vezes Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o tí­tulo de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o tí­tulo de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim, Vespasiano sempre deixou evidente que a precedência era do irmão mais velho.

Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica: Vespasiano tentou casar Domiciano com Júlia Flávia, que era a filha única de Tito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época, Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domí­cio Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.

Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.

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Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.

Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.

Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluí­do da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.

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Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mí­nimo, fria e distante. Isso provavelmente decorria da grande diferença de idade e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.

Em 80 D.C., nasceu o único filho de Domiciano e Domí­cia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.

Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi somente um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou porque ele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos. Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia. No plano das fofocas, também cogitou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.

ASCENSÃO AO TRONO E REINADO

Consta que no mesmo dia da morte do irmão, Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.

No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribuní­cio. Mais do que uma possí­vel demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.

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Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, que acompanhava de perto como poucas vezes se tinha visto nos reinados anteriores: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e o seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento“. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, que ele mesmo concedia aos que apelavam das decisões das Cortes.

Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora, depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.

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Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possí­vel ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.

Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruí­dos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio, que foi coberto com um magní­fico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifí­cios importantes seriam reconstruí­dos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.

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Mas novos edifí­cios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cuja forma sobrevivente daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).

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Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalí­cio, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluí­a velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.

Fontes relatam que Domiciano era particularmente hostil ao Judaí­smo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo, é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.

Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.

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Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo ainda durante a República.

O imperador também renovou a Lex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.

Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.

Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.

O detalhismo da polí­cia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.

No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.

Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator” (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.

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No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante o reinado de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.

Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mí­nimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercí­cio dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.

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(Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba)

Indubitavelmente, todas as medidas citadas faziam parte de uma guinada para um principado mais absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores crí­ticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos” (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.

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(Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules)

Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calí­gula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps“, tí­tulo que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).

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Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difí­ceis…Ele, segundo as fontes, gostava de solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.

Há até uma anedota na qual se conta que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraí­a capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:

Nem uma mosca…

As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…

Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à polí­tica exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.

Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrí­cola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrí­cola derrotou os Caledônios, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.

Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrí­cola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrí­cola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.

Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da proví­ncia.

A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.

O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.

E Domiciano, realmente, deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão que foi muito criticada pelos autores antigos.

Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato revelou-se durí­ssima.

CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO

Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca.

Assim, no iní­cio do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha). Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia.

Consequentemente, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendidas em poder de Saturnino após a derrota deste é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.

Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror” atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.

No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.

Entretanto, no chamado “reinado de terror” de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”, o que mostra a má vontade da elite senatorial em relação a Domiciano.

A propósito, consta que Domiciano, certa vez, teria dito:

“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados...”

Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaí­smo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de Ponza e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.

Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basí­lica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis“. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, constata-se que a nascente religião já tinha, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.

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(Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma)

ASSASSINATO DE DOMICIANO

Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado com ele atingiu o limite e, assim, tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.

Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contatou um liberto do imperador, Maximus e também Stephanus, que era o secretário pessoal da sobrinha do imperador, Flávia Domitila,

Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo relevante para ser recebido pelo imperador, Stephanus fez circular a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.

Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em que Stephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Durante o combate, Stephanus foi ajudado por Maximus e por um colega do camareiro Partênio, Satur, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Então, após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador. Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.

EPÍLOGO

O Senado Romano imediatamente aclamou o  velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, como Marco Úlpio Trajano.

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O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).

O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babá Phyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, na colina do Quirinal, em Roma.

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(O Templo dos Flávios, no Quirinal, foto de Cassius Ahenobarbus)

CONCLUSÃO

Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Cássio Dião, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.

O texto desses historiadores da classe senatorial normalmente divide os imperadores romanos entre “Bons” e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons“são aqueles que mantiveram boas relações com o Senador Romano. Já os ‘Maus” são aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Com efeito, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as histórias deles no reinado do sucessor de Nerva, Trajano. Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar em contraste com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.

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FIM

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CONSTÂNCIO CLORO

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Em 31 de março de 250 D.C., na Dardânia, região da Província da Moésia,  nasceu Marco Flávio Valério Constâncio (Constâncio Cloro), filho de um certo Eutrópio, que, segundo a História Augusta, seria um “nobre” daquela região, e de Cláudia, que, supostamente, seria sobrinha do imperador romano Cláudio II Gótico (vale notar que a maior parte dos historiadores modernos acredita que esse suposto parentesco foi inventado pelo escritor da “História Augusta”, com o objetivo de melhorar o “pedigree” da dinastia constantiniana).

Observe-se que na Dardânia,  desde a sua conquista pelos romanos, em 73 A.C, foi estabelecido um acampamento de legionários que deu origem à cidade de Naissus (atual Nîs, na Sérvia) e a região tornou-se um dos principais centros de recrutamento de tropas para o exército romano no século III D.C.

Como outros conterrâneos seus da 2ª metade do século III D.C., Constâncio ingressou no exército e foi galgando postos. Neste progresso, ele recebeu a prestigiosa patente de “Protector Augusti Nostri”, dada a soldados de elite que se destacavam no serviço ao imperador, no reinado do imperador Aureliano, e depois foi promovido a Tribuno, após os Protectori Augusti Nostri se tornarem um corpo de elite do Exército Romano. Nesta condição, ele deve ter conhecido o futuro imperador Diocleciano, que mais tarde comandaria o referido corpo de elite, já no reinado do imperador Caro, em 282 D.C.

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(As tropas que serviam próximo ao Imperador durante a carreira de Constâncio Cloro deviam ter essa aparência)

Deve ter sido no Exército que Constâncio recebeu o apelido de Cloro (Chlorus), que em latim significa “pálido”, devido a sua pele excessivamente clara.

Como Protector Augusti Nostri, Constâncio Cloro participou da campanha de Aureliano contra o Império de Palmira, que tinha se formado a partir da secessão das províncias romanas da Síria, Arábia Pétrea e Egito, além de outras partes da Ásia Menor, entre 272 e 273 D.C, e era governado pela grande rainha Zenóbia.

Foi nessa campanha que Constâncio Cloro conheceu Helena, uma jovem bitínia, nativa da cidade de Drepanus, que trabalhava numa estalagem ao longo da estrada pela qual o exército marchava para dar combate aos rebeldes palmirenos.

Consta que Constâncio Cloro notou que a jovem usava um bracelete de prata idêntico ao que ele estava usando no momento, o que lhe teria dado a certeza de que ela era a sua alma-gêmea enviada por Deus.

Verdadeira ou não a história, o fato é que, finda a sua participação na campanha, Constâncio Cloro, levou Helena consigo para sua terra natal na Dardânia, onde, na cidade de Naissus, ela deu a luz ao seu primeiro filho, que recebeu o nome de Constantino (o futuro imperador Constantino I, o Grande), em 27 de fevereiro de 272 D.C. (considerado o ano mais provável).

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(Estátua de Helena. A obra é do período clássico, mas a cabeça foi alterada  por escultores durante o reinado de seu filho Constantino para retratá-la)

A Bitínia era uma das regiões onde o Cristianismo mais cedo se enraizara no Império. Por exemplo, o apóstolo Pedro já menciona a existência de uma comunidade cristã na Bitínia por volta do ano 60 D.C.. E, no início do século II D.C., Plínio,o Jovem, quando ocupou o cargo de governador da província, chegou a consultar, por meio de uma carta, o imperador Trajano acerca de como ele deveria proceder com os cristãos locais, os quais se encontravam não apenas nas cidades, mas espalhados pelos campos.

E de fato, jovem bitínia Helena se mostraria, anos mais tarde, uma das cristãs mais devotas. Podemos, assim, considerar, com um bom grau de probabilidade, que o filho de Constâncio, o menino Constantino, desde a mais tenra infância sofreu as influências da devoção de sua mãe (Como todos sabem, Constantino, depois de se tornar imperador, favoreceu muito o Cristianismo e a sua conversão mudou a História Mundial).

Até hoje se discute se Constâncio Cloro e Helena se casaram ou se eles viveram em concubinato. Sabemos que Maxêncio, o principal rival de Constantino, o acusaria de ser filho de uma prostituta, mas essa acusação pode  também ser vista como propaganda política negativa. Não obstante, sabe-se que, na Antiguidade, e mesmo na Idade Média, não era prática incomum que mulheres que trabalhassem em estalagens ou pensões tivessem também que dormir com os hóspedes…

Após a união com Helena, Constâncio continuou ascendendo na carreira militar e, no reinado do imperador Caro, ele foi nomeado “Praeses” (governador) da província da Dalmácia, entre 282 e 283 D.C. No mesmo período, Caro nomeou Diocleciano como Comandante dos Protectori Augusti Nostri, que, neste posto, acompanhou o imperador na invasão da Mesopotâmia, coração do império Sassânida.

Não há menção nas fontes se Constâncio participou da bem sucedida campanha de Caro contra os Persas, na qual este imperador acabaria falecendo, em 283 D.C., segundo consta atingido por um raio durante uma tempestade. Caro foi, então, sucedido pelos  seus filhos, Carino e Numeriano.

Porém, em novembro de 284 D.C., Numeriano morreu na Bitínia, em circunstâncias misteriosas, quando voltava para Roma, aparentemente devido a uma doença caracterizada por inflamação nos olhos.

Então, um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor de Carino e ele foi aclamado imperador pelas tropas em Nicomédia. Assim, Diocleciano, desde o início, se apresentou como adversário de Carino, deslocando-se para dar combate ao rival, cujo exército  ele encontrou na Moésia, na Batalha do rio Margus ( local próximo à atual Belgrado, na Sérvia), em julho de 285 D.C., ocasião em que os principais generais de Carino se passaram para o lado de Diocleciano. Carino foi, em seguida, morto pelos seus próprios homens.

Alguns historiadores acreditam que, durante o avanço de Diocleciano pelos Bálcãs para engajar Carino, Constâncio também teria aderido ao seu velho conterrâneo e camarada dos Protectori Augusti Nostri.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Maximiano. Embora ambos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, era muito mais áspero e implacável do que Diocleciano, que, no entanto, tinha sobre ele uma considerável ascendência moral e intelectual.  Assim, em 1º de abril de 286 D.C, Maximiano, foi elevado de “César” para “Augusto”.

Sintomaticamente, os dois Augustos se concederam os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano), em uma espécie de alusão ao papel de ambos no Império, no qual Diocleciano figurava como o “sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo” e Maximiano,  como o guerreiro encarregado das tarefas militares.

Entre 287 e 288D.C., Constâncio Cloro já era um dos principais auxiliares, senão o mais importante, de Maximiano, e, nesta condição, liderou a campanha contra os bárbaros Alamanos, chegando a cruzar o Reno para atacá-los, fato que sinalizou o reerguimento do poder romano na região, após vários anos de invasões e rebeliões durante a crise da segunda metade do século III D.C.

Provavelmente por volta de 288 D.C., Maximiano designou Constâncio Cloro para o cargo de Prefeito Pretoriano do Ocidente, cargo que havia sido reformulado dentro das extensas e fundamentais reformas administrativas e militares promovidas por Diocleciano, e que passava a ser uma espécie de Chefe de Gabinete e Chefe do Estado-Maior do Imperador.

Os laços entre o imperador Maximiano e seu subordinado Constâncio Cloro foram ainda mais reforçados com o casamento de Constâncio com Flávia Maximiana Teodora, a filha (ou para alguns, enteada) de Maximiano, união que, segundo um dos Panegíricos Latinos, teria ocorrido em 289 D.C. Assim, Constâncio teve que se divorciar (ou separar-se, caso proceda a versão de que a relação era de concubinato) de Helena, a mãe de seu primogênito, Constantino.

Ainda que motivado por razões políticas, o casamento de Constâncio Cloro com Teodora seria prolífico, gerando 6 filhos (3 homens), nenhum dos quais, contudo, chegaria a ocupar o trono.

Enquanto isso, Maximiano tinha que lidar com os camponeses fora-da-lei chamados de bagaudas, no norte da Gália. Submetida essa insurreição, Constâncio Cloro foi encarregado de combater a insurreição de Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, a quem Maximiano havia condenado à morte, devido a uma acusação de peculato. Por este motivo, Caráusio, que estava firmemente estabelecido na Grã-Bretanha, e controlava, ainda, o noroeste da Gália, autoproclamou-se “Imperador da Britânia”.

Maximiano e Constâncio Cloro, se preparam para combater o usurpador Caráusio, mas as  fontes sugerem que houve algum incidente com a frota que eles estavam construindo para invadir a Britânia, por volta de 289 D.C., e, assim, Caráusio conseguiria resistir ainda por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de Imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e nas quais louvava a suposta concórdia (paz) entre eles.

A experiência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império Romano certamente contribuiu para inspirar Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C., caracterizada pela divisão administrativa do poder imperial,  que antes era centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma,  e agora seria repartido entre quatro governantes:  dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto”, tendo as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, chamados de “Césares”, instalados em Augusta Treverorum (Trier) e Sirmium. A idéia é que quando os “Augustos” se retirassem ou morressem, fossem substituídos automaticamente pelos “Césares”.

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(Os Tetrarcas, escultura da época imperial, hoje na lateral da Catedral de São Marco, em Veneza)

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

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(Cabeça de Galério)

Constâncio Cloro, em decorrência da sua nomeação,  foi obrigado a enviar seu filho Constantino, então um rapaz já no começo dos seus 20 anos, para ir viver na corte de Diocleciano, na cidade de Nicomédia, na Bitínia, acompanhado de sua mãe, Helena, que assim retornava à sua terra natal.

Embora Constantino tenha recebido a melhor educação clássica em Nicomédia (onde certamente teve contato com Lactâncio, professor de retórica latina na Corte, que, posteriormente, se tornaria um dos intelectuais cristãos mais influentes), e iniciado sua carreira serviço público e militar, considera-se que ele,  na verdade, era sobretudo um refém sob a custódia de Diocleciano, visando assegurar a lealdade de seu pai, Constâncio Cloro.

Enquanto isso, na Britânia, o usurpador Caráusio foi assassinado e substituído por seu lugar-tenente Alecto (Allectus), que era apoiado pelos Francos.

Constâncio Cloro teve muito trabalho para conter os Francos e lutar contra os Alamanos, que ameaçavam a fronteira do Reno. Ele ficou baseado em Trier, que, nesse período, começou a ser embelezada com monumentos dignos de uma capital imperial.

Quando Maximiano chegou para reforçar a defesa do Reno, Constâncio Cloro conseguiu expulsar Alecto do norte da Gália, e, com a ajuda de seu prefeito pretoriano, Asclepiodoto, reuniram duas frotas para a invasão da Grã-Bretanha. A frota comandada por Asclepiodoto desembarcou perto da atual Ilha de Wight e derrotou e executou o rebelde, enquanto Constâncio capturou e ocupou a capital da Britânia, Londinium (atual Londres). A entrada de Constâncio em Londres aparece em um medalhão de ouro que seu filho Constantino, mandou cunhar quando já era imperador, e que foi encontrado em Arras, na França).

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(Aureum mostrando Londinium se rendendo a Constâncio Cloro)

Derrotado Alecto, Constâncio Cloro dedicou-se a reorganizar a província da Britânia e e reparar suas fortificações, incluindo a famosa Muralha de Adriano. Em 298, D.C., contudo, ele já estava na Germânia lutando novamente contra os Alamanos, a quem conseguiu derrotar após ser cercado por eles na cidade de Vindonissa (na atual Suíça).

No ano de 303 D.C., Diocleciano decretou a repressão ao Cristianismo, que pelos cristãos seria chamada de “A Grande Perseguição”. Dos quatro tetrarcas, Constâncio Cloro seria o mais que foi mais brando na execução da política de Diocleciano,  limitando-se a demolir algumas igrejas. Talvez a moderação de Constâncio Cloro tivesse alguma influência de sua relacionamento com Helena, mas pode ser também que Lactâncio tenha tido a intenção de fazer média com o pai de Constantino, o futuro primeiro imperador cristão, abrandando o papel que ele desempenhou.

Porém, em 305 D.C, Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério. Foi a primeira vez, durante mais de três séculos de Império, que um Imperador voluntariamente abdicou do trono. Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal ( a atual cidade de Split, na Croácia). Seguindo, naquela oportunidade, a política traçada por Diocleciano, Maximiano também abdicou voluntariamente em prol de Constâncio Cloro.

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(Palácio de Diocleciano em Split)

Em 1º de maio de 305 D.C., em uma cerimônia militar em Milão, Maximiano proclamou Constâncio Cloro o novo Imperador (Augusto), do Ocidente, que passou a se chamar Imperator Caesar Marcus Flavius Valerius Constantius Herculius Augustus .

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Porém, para a surpresa geral, Maximiano, quando foi anunciar o nome do novo “César” do Ocidente,entregou o seu manto púrpura para Severo, um velho amigo e colega de armas de Galério,  o Imperador Romano do Oriente.

Ocorre que todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, naturalmente seriam os novos Césares…

Embora o sistema da Tetrarquia não exigisse o princípio dinástico, obviamente que os filhos dos Augustos eram os candidatos naturais. E, obviamente, a circunstância de um imperador ter herdeiros naturais adultos, já seguindo a carreira militar, preteridos em favor de outros só poderia ser um fator de instabilidade.

Constâncio Cloro e Constantino logo perceberam que não apenas as ambições, mas a própria vida do segundo estariam ameaçadas na corte de Galério, em Nicomédia. Por isso, Constâncio enviou um pedido formal ao colega Galério pedindo que o filho fosse liberado para lhe ajudar na campanha contra os Pictos, que estavam causando problemas no norte da Britânia.

Consta que Galério, quando recebeu a carta de Constâncio Cloro, estava participando de um banquete e, na presença de Constantino, deu o seu consentimento. Naquela mesma noite, Constantino abandonou o palácio a toda velocidade e partiu para encontrar o pai, antes que Galério mudasse de idéia. Assim, quando o imperador acordou, no dia seguinte, Constantino já estava a léguas de distância da corte.

Constantino se juntou ao pai na costa da Gália e ambos cruzaram o canal para comandar uma expedição militar contra os Pictos. Em 7 de janeiro de 306 D.C., Constâncio Cloro recebeu o título de “Britannicus Maximus“. após algumas vitórias contra os bárbaros.

Porém, antes que a campanha fosse completada, a saúde de Constâncio Cloro piorou e ele teve que se retirar para a cidade de Eburacum (York) para passar o inverno. Sentindo que ia morrer, Constâncio resolveu abandonar as regras da Tetrarquia, mandou reunir as tropas e recomendou o seu filho ao Exército como seu sucessor.

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(Restos da muralha romana de Eboracum, foto de Kaly99

Em 25 de julho de 306 D.C., Constâncio Cloro faleceu, em Eboracum. O primeiro a tomar a iniciativa de aclamar Constantino foi o chefe Alamano Chrocus, um bárbaro a serviço de Roma, que, à maneira dos Germanos, mandou seus homens erguerem Constantino de pé em cima de um escudo.

Galério, apesar de ter ficado enfurecido, premido pelas circunstâncias, reconheceu a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de “César“.

Para suceder o falecido Constâncio Cloro, Galério nomeou o seu velho amigo Severo, que afinal era o César do Ocidente, como Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.

Em uma inusitada consequência da importância do papel de Constâncio Cloro na História e de seus feitos militares na Britânia, a sua figura acabaria sendo também lembrada nas lendas galesas e seu nome mencionado pelos proto-historiadores ingleses medievais.

CÉSAR – O HOMEM

CÉSAR – O HOMEM

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(Humanização do busto de Tusculum, considerado o único existente que foi feito durante a vida de César, quando ele devia ter cerca de 50 anos de idade. Para mim, o artista conseguiu reproduzir uma expressão carismática e um olhar que eu julgo que pode ser bem fiel ao do estadista)

O nosso propósito neste texto foi discorrer sobre a vida pessoal de César, com base nas fontes históricas e achados arqueológicos que chegaram até nós, porém deixando um pouco de lado os acontecimentos políticos e militares, a não ser quando eles revelem algo sobre o homem Caio Júlio César, tais como: os seus atributos físicos, a sua saúde, a sua personalidade, a sua família, seus gostos, enfim, tudo o que, hoje, como sempre, faz alguém conhecer melhor uma PESSOA. Não se trata, portanto, de um texto sobre a trajetória política dele, embora esta, obviamente, seja diretamente uma consequência de tudo isso.

1- Antecedentes familiares

Consta, para a maior parte dos historiadores, que Caio Júlio César nasceu em 13 de julho do ano 100 A.C., em Roma ( embora haja alguma discordância quanto ao ano e o dia – alguns sustentam que ele pode ter nascido no dia 12 e propõem anos alternativos: 102 ou 103 A.C).

A família de César era uma das que faziam parte da “GensJúlia (“Gens”, ou “gente”, é um termo aproximado a “clã”, devendo ser entendido como um grupo de famílias romanas que era ou se julgava descendente de um ancestral ilustre em comum).

Os Júlios reivindicavam ser descendentes de “Iulus” (também chamado de Ascâneo), filho de Enéias, herói troiano da Guerra de Tróia, e Creusa, filha do rei de Tróia, Príamo.

Segundo a mitologia, Enéias, por sua vez, seria filho de Anquises e da própria deusa Vênus, com quem Anquises teve um caso amoroso.

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(Estátua romana da deusa Vênus)

Conta a lenda que, após a queda de Tróia, Enéas, carregando seu seu pai Anquises, veio para a Itália, sendo os doisrecebidos por Latinus, rei dos primeiros Latinos. Já na Península, Enéas casou-se com Lavínia, filha de Latinus, fundando a cidade de Lavinium, em honra dela, que deu à luz a Ascâneo.

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(Enéas carregando Anquises, estátua romana)

Posteriormente, Ascâneo/Iulus fundou a cidade de Alba Longa, da qual ele foi o primeiro rei, um povoado considerado como sendo o berço ancestral da Gens Júlia. No século VII A.C., o rei de Roma, Tullus Hostilius, destruiu Alba Longa, porém removendo a sua população para a própria Roma, dobrando o número de habitantes e arrolando, entre os patrícios romanos, as principais famílias albanas, entre as quais a dos Júlios.

Os Júlios foram muito importantes no início da República Romana (que se inicia em 509 A.C.), tendo obtido seis consulados entre 489 e 379 A.C.. Em 352 A.C., Gaius Julius Iulus foi nomeado Ditador,  que era um cargo temporário somente concedido por motivos emergenciais.

A gens Júlia, como acontecia com as demais, multiplicou-se em várias famílias que foram adquirindo a sua identidade, marcada por um cognomen. Em algum momento, uma dessas famílias integrantes da gens Júlia recebeu o cognome de “Caesar” (pronuncia-se, “ káisar ”, em latim – ou “César ”, em português.

Segundo Plínio, o Velho, o nome Caesar deriva da palavra latina “caedere”, que significa “cortar“, indicando o procedimento cirúrgico de cortar o ventre da mulher grávida para se dar luz a uma criança,  o qual chegou até nós com o nome de “cesariana”. Assim, o primeiro “César”, séculos antes de seu descendente mais famoso, teria nascido de uma cesariana.

Porém, a “História Augusta” aponta outras três teorias para o nome César: (a) o originador do nome da família seria cabeludo (“caesaris”); (b) ou ele teria “olhos cinzentos” (“oculis caesiis”); ou, então, (c) o nome derivaria da palavra de suposta origem berbere “caesai”, que significa “elefante“, devido ao fato de um integrante da família ter matado um elefante em batalha. Pode ser que esta última seja a explicação mais acertada, pois o primeiro ancestral conhecido da família foi Sextus Julius Caesar (I), que lutou durante a Segunda Guerra Púnica contra Aníbal (que invadira a Itália levando elefantes) e foi eleito Pretor em 208 A.C.. Além disso, seu descendente, Caio Júlio César cunhou vários denários de prata com a imagem de um elefante, talvez evocando a história familiar que ele próprio ouvira sobre a origem do seu nome.

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No período que antecedeu as Guerras Púnicas, os Júlios tinham perdido um pouco da importância, pois, desde a mencionada Ditadura de Gaius Julius Iulus, em 352 A.C., não ocupavam nenhuma magistratura importante, até que Lucius Julius Libo ocupou o consulado, em 267 A.C. obtendo um triunfo contra o povo italiota meridional dos Salentinos.

Provavelmente ajudados pelo prestígio pessoal que Sextus Julius Caesar (I) obteve na guerra contra Cartago (2ª Guerra Púnica), seu filho, Lucius Julius Caesar, obteve o cargo de Pretor, em 183 A.C., e seu outro filho, Sextus Julius Caesar (II), foi eleito Cônsul para o ano de 157 A.C., o posto mais importante até então ocupado pela família dos “Júlios Césares”. Acredita-se, ainda, que houve um terceiro irmão, que além de também senador, era historiador, chamado Gaius Julius Caesar (I) e que seria o bisavô do nosso Caio Júlio César.

O período que sucede esse consulado de Sextus Julius Caesar (II) assiste Roma dominar a Grécia e derrotar definitivamente Cartago. O afluxo de riquezas acelerou as contradições do sistema político romano e a desigualdade entre patrícios e plebeus. A tentativa de reforma empreendida pelos Tribunos da Plebe, Tibério e Caio Graco, foi combatida através da violência pelos nobres, que se aglutinam na facção dos Optimates, os quais, assassinando os dois irmãos, entre 132 e 121 A.C., conseguiram, momentaneamente, obstaculizar os partidários da primazia política pelos Comícios da Plebe, que se reuniram no Senado na facção dos Populares.

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Nesse quadro, que dura uns 50 anos, os “Júlios Césares” novamente perderam posição política, exceto pelo exercício de um cargo de pretor urbano por Sextus Julius Caesar (III), filho do Sextus acima citado, em 123 A.C..

Foi uma época em que a massa de proletários expulsos de suas terras aumentava em decorrência dos latifúndios que utilizavam a mão de obra escrava, acompanhada pelo cada vez maior número de cidades e territórios controlados pela República Romana, sem que, contudo, os aliados italianos, que forneciam uma boa parte do contingente militar, tivessem qualquer participação política, além dos mesmos não poderem gozar de inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

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Esse período é marcado pela ascensão de Caio Mário, um brilhante general, que, sem pertencer a nenhuma família nobre, devido aos seus feitos militares conseguiu ser eleito Cônsul pela primeira vez, em 107 A.C., tornando-se, assim, um “homem novo ” (novus homo). Mário era hostil ao Senado e é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi a reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, porém, Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas.

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Em 113 A.C., quando Mário era Pretor, e após ter exercido o cargo de governador na província da Hispânia, ele se casou com Júlia, que era filha de Gaius Julius Caesar (II), que havia ocupado um cargo de Pretor, e de Márcia, filha do Pretor Quintus Marcius Rex, que, em 144 A.C., havia sido encarregado da obra do aqueduto que posteriormente levou o seu nome, a Acqua Marcia.

Júlia, a esposa de Mário, tinha como irmãos, Gaius Julius Caesar (III) e Sextus Julius Caesar (IV). Provavelmente, o casamento de Mário com uma integrante de uma das famílias mais ilustres da nobreza, ainda que, naquele momento, pouco poderosa, deve ter facilitado a sua ascensão política.

2- Nasce Caio Júlio César

Em 100 A.C., Mário foi eleito para o seu sexto consulado, o quinto seguido, um fato sem precedentes na História de Roma. Naquele mesmo ano de 100 A.C., no dia 13 de julho, nascia, em uma casa (domus), no bairro popular da Suburra (Subura), em Roma, o primeiro filho homem de seu cunhado Gaius Julius Caesar (III), o irmão mais velho de sua esposa Júlia.

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O recém-nascido era filho de Gaius Julius Caesar (III) com Aurelia Cotta, filha de Lucius Aurelius Cotta, Cônsul no ano de 119 A.C., e cujo avô paterno também havia sido Cônsul, em 144 A.C. Eles deram ao menino o mesmo nome do pai, Gaius Julius Caesar (IV), o nosso Caio Júlio César, que foi o terceiro filho do casal, que já tinha então duas filhas, ambas chamadas Julia, que, para distinguir uma da outra, eram chamadas de Julia Major e Julia Minor.

Nos primeiros anos da infância de Júlio César, o Senado Romano havia conseguido confrontar um pouco o poder de Mário, mas a eclosão da chamada “Guerra Social”, uma revolta dos aliados italianos de Roma (socii) contra as leis que lhes impediam de ter cidadania romana plena, obrigou os senadores a recorrerem novamente a Mário, dando-lhe o comando da campanha contra os rebeldes, sendo que esta guerra durou de 91 a 88 A.C.

Assim, não surpreende que os “Júlios Césares”, que agora eram parentes do homem mais poderoso da República, prosperassem no período que vai de 103 A.C. a 90 A.C. Sextus Julius Caesar (III), tio do menino César e cunhado de Mário, foi Pretor, em 94 A.C., e Cônsul no ano seguinte. Depois disso, exerceu, ainda o cargo de Procônsul. Gaius Julius Caesar (III), pai de César e cunhado de Mário, foi também Questor, Pretor em 92 A.C. e Procônsul da Ásia.

A facção dos Optimates encontrou o seu campeão na figura de Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), um general ultraconservador e tradicionalista general que também havia se destacado na Guerra Social. Os Optimates conseguiram eleger Sila Cônsul, no ano de 88 A.C.

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O conflito entre Mário e Sila espelhava a disputa entre os Populares e os Optimates. E, quando ambos disputaram o importante comando da Campanha contra Mitridates, Rei do Ponto, na atual Turquia, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando o rival a se insurgir, e logo as forças militares de ambos entraram em conflito.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “pomerium” (fronteiras sagradas da cidade), conduta que era expressamente proibida pela lei romana. Em seguida, Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Porém, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater a Mitridates que havia massacrado milhares de civis romanos no Ponto.

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e, apoiado por seus veteranos, conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas, já velho e doente, ele morreu no meio do 1º mês de seu mandato, em 86 A.C., deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário que apoiava a facção dos Populares. A última volta ao poder de Mário foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados, até 84 A.C.. Neste período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como a concessão de cidadania aos italianos, até ser morto pelas suas próprias tropa, quando eles se preparavam para ir lutar contra Sila.

Curiosamente, a divisão política do Senado Romano em duas facções não poupou sequer a família dos Júlios Césares, pois sabemos que Lucius Julius Caesar e seu irmão, Gaius Julius Caesar Strabo Vopiscus, apoiaram Sila (Sulla), motivo pelo qual eles seriam mortos pelos partidários de Mário, em 87 A.C. Sabemos que a irmã dos dois, também chamada Júlia, foi a primeira esposa de Sila, de cerca de 110 A.C. até a morte dela, em 104 A.C., o que provavelmente explica a divisão no meio da família

3- Infância/Educação do jovem César

Essa era a posição social e política de sua família quando Caio Júlio César nasceu, no dia 12 ou 13 de julho do ano 100 A.C., na casa de seu pai, no bairro romano da Suburra, em um imóvel que, segundo observou Suetônio, era modesto.

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(A casa dos pais de César na Suburra era modesta, segundo Suetônio. Talvez fosse um antigo exemplo de  primitiva domus itálica, imagem por Tobias Langhammer )

A Suburra era um bairro habitado por pessoas de baixa classe social, que viviam em ínsulas ( Insulae – prédios multi-familiares de cômodos alugados), algumas das quais talvez pertencessem à própria família de César. A região era também conhecida em Roma como zona de prostituição, onde se instalaram vários lupanares, ou bordéis, muitos, quem sabe, talvez também explorados, direta ou indiretamente, pelos próprios “Júlios Césares”, já que as escavações em Pompéia mostram que muitas domus aristocráticas tinham lojas (tabernae) voltadas para a rua, as quais eram alugadas para a exploração de vários negócios, incluindo, comprovadamente, casas de prostituição.

Certamente, em sua modesta casa na Suburra, o pai de César deveria, frequentemente pela manhã, receber dezenas de clientes, cidadãos pobres que viam lhe pedir favores e prestar reverência. Assim, desde o início, o menino César deve ter tido contato com humildes plebeus que constituíam o eleitorado da facção popular, à qual, a partir da união familiar com Mário, o seu clã estava intimamente ligado.

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Quando César nasceu, seu pai, Gaius Julius Caesar (III), e sua mãe, Aurélia Cotta já eram pais, como já dito, de duas meninas, ambas chamadas de Júlia, sendo a mais velha, apelidada de Major (“A Maior” ou “A Velha”), para diferenciá-la da mais nova, apelidada de Minor (“A Menor” ou “A Jovem”), que nasceu um ano antes de César, em 101 A.C.

Júlia, a Jovem casou-se, por volta de 86 A.C, com Marcus Attius Balbus, primo de Cneu Pompeu, então um jovem partidário de Sila. Júlia teve com Attius Balbus três filhas, sendo que a segunda, Attia Balba Secunda, em 63 A.C deu à luz a Gaius Otavius, fruto de seu casamento com o Questor do mesmo nome. Assim, Gaius Otavius, filho de Attia, era sobrinho-neto de Júlio César, o qual, décadas mais tarde, em seu testamento, adotaria o rapaz e o nomearia herdeiro, ocasião em que este passaria a se chamar Caio Júlio César Otaviano, e, mais tarde, receberia o título de Augusto, o primeiro imperador romano.

Segundo sabemos, e nos confirma Tácito, era costume das famílias romanas deixar os cuidados com a criança e a educação infantil dos filhos a cargo da mãe e o grande historiador cita, como um dos melhores exemplos dos benefícios dessa prática, a criação de César por Aurélia. Ainda segundo Tácito (que nesta passagem pretende criticar as famílias da sua época, o final do século I D.C, quando os filhos da nobreza eram desde o nascimento cuidados somente por escravas e tutores), César, como os demais “filhos-família” de seu tempo, estudava em casa, supervisionado e dirigido pela mãe, que determinava não apenas os estudos e ocupações da criança, mas também suas brincadeiras e jogos, O normal é que esse papel preponderante da mãe durasse até os oito anos de vida, quando a tarefa passava para o pai.

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É bem possível que Aurélia tenha cuidado quase que sozinha da educação do filho, pois os relatos apontam que o pai de César deve ter ficado fora por um tempo considerável, principalmente após ele ter sido nomeado Procônsul na Ásia.

Assim, provavelmente foi Aurélia que contratou o grande gramático e professor de retórica, Marcus Antonius Gnipho (Gnifo) para ser tutor do menino César. Gnifo era um gaulês que foi abandonado pelos pais no nascimento e, depois de ganhar a liberdade, estudou em Alexandria, tendo grande conhecimento de latim e grego. Após trabalhar na casa de César, Gnifo fundou uma famosa escola que, posteriormente, como prova da excelência do tutor, chegou a ser frequentada pelo maior orador romano, Cícero, quando este foi Pretor, em 66 A.C. (época em que César então já tinha mais de 30 anos).

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Sabemos, devido a Suetônio, que o ensino esmerado que César recebeu de Gnifo fez nascer no primeiro, já na adolescência, o amor pelas letras. César teria, ainda menino, composto um texto chamado de “Louvores a Hércules”, uma tragédia com o título de “Édipo” e uma “Coleção de Apotegmas” (Aforismos).

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César também escreveu alguns poemas, mas, de acordo com a observação sarcástica de Tácito, felizmente eles não chegaram a ser lidos por muitos.

Não descurando do famoso ditado romano, “mens sana in corpore sano”, César também se empenhava nas atividades físicas. Ele aprendeu a montar e se tornou, desde menino, um grande cavaleiro. Tudo indica que, de fato, ele provavelmente deve ter sido muito incentivado a se exercitar. Com efeito, sabemos que César, mesmo em sua maturidade, era um grande nadador, capaz de verdadeiras proezas, como, por exemplo, constatamos que ocorreu ao ser cercado pelo exército egípcio em Alexandria, ocasião em que ele pulou na água e nadou com apenas uma das mãos, segurando na outra papiros valiosos, para que não se molhassem. Portanto, essa prática deve ter começado já em sua infância ou adolescência, quando César também começou a aprender a manejar as armas romanas mais usadas, nas quais ele também era muito hábil, segundo Suetônio e Plutarco.

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4- Adolescência e juventude/Aparência, saúde e costumes de César

Quando Mário voltou para o seu último consulado, seu sobrinho César tinha entre 14 e 15 anos de idade e estava entrando na idade de abandonar a sua “toga praetexta” para vestir a “toga virilis”, cerimônia que marcava para os meninos romanos o fim da infância e o início da idade adulta (não existia, por assim dizer, adolescência na antiguidade; isso, aliás é uma criação contemporânea, a partir do segundo quarto do século XX). Quem decidia tal momento era o pai da criança (pater familiae), que, segundo o costume, podia retardar a referida cerimônia até os 16 anos.

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Não sabemos a data exata em que César vestiu a “toga virilis” e virou adulto, e nem sequer sabemos se isto foi por vontade do seu pai, uma vez que, em 85 A.C., Gaius Julius Caesar (III) morreu subitamente, em Roma, quando se abaixava para calçar suas sandálias.

Curiosamente, Plínio, o Velho, que é quem nos conta como o pai de César morreu, escreveu também que um outro “César”, ex-pretor (muito provavelmente o avô de Júlio César), morreu exatamente da mesma forma, em Pisa.

Como depois veremos, é muito provável que ambos sofressem de uma doença hereditária, talvez um aneurisma ou tumor cerebral, o que explicaria os vários episódios de ataques e desmaios de César que foram considerados, pelos autores antigos, como uma manifestação de epilepsia.

Aos 16 anos, já adulto e órfão de pai, César tornou-se, assim, formalmente, não apenas o chefe da sua família nuclear, constituída dele, da mãe Aurélia e das irmãs, e de todo o patrimônio herdado do pai como primogênito, mas também de toda a família dos “Júlio Césares”, já que seu tio, Sextus Julius Caesar (III) também já havia anteriormente morrido de doença, quando comandava o cerco à cidade de Asculum, em 89 A.C.

No ano seguinte, 84 A.C., sendo Lúcio Cornélio Cina ainda Cônsul, e, portanto, estando os integrantes da facção dos Populares no poder, César foi nomeado “flamen dialis”, ou seja, um dos quinze sacerdotes de Júpiter, que era uma posição de muito prestígio para os jovens.

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(Relevo romano mostrando uma procissão dos flamen dialis, com o seu característico chapéu, chamado apex)

Naquele mesmo ano, conta Suetônio, César rompeu seu compromisso com Cossutia, uma jovem da classe equestre que lhe tinha sido arranjada por seu pai ainda na infância e que era de família muito rica. Não se tem certeza se o casamento de César com Cossutia chegou realmente a se consumar, ou se apenas houve o rompimento de uma promessa de casamento celebrada por seu pai.

Não obstante, essa menção de Suetônio à união ou compromisso de César com Cossutia é muito relevante para confirmar um fato: Quando César nasceu, e durante a sua infância, a situação financeira do seu pai devia ser mesmo muito ruim, pois sendo César neto e bisneto de Cônsules e pertencendo a uma das famílias mais tradicionais da nobreza romana, o casamento dele com uma integrante da classe equestre representava uma diminuição do prestígio de seu pai, o que somente pode ser explicado pela necessidade do dinheiro que adviria do dote da rica Cossutia

De qualquer forma, todavia, não temos dúvidas sobre o motivo do fim da ligação de César com Cossutia: pouco tempo depois ele próprio decidiu se casar com Cornélia, filha do Cônsul de Roma, Lúcio Cornélio Cina, o chefe da facção dos Populares, da qual os “Júlio Césares” eram integrantes. Assim, claramente, César demonstrava ter ambições muito maiores do que as preocupações financeiras do seu pai…

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Mas o futuro do jovem César, que parecia radiante e promissor, ficou completamente nublado quando, como já vimos, o Cônsul Cina, seu sogro, mais ou menos na mesma época de seu casamento com Cornélia, em 84 A.C., foi morto em um motim do exército que ele reuniu para ir para a Ilíria para interceptar Sila, que havia obtido uma trégua com Mitridates.

Quando soube da morte de Cina, após estabilizar a situação no Oriente, Sila partiu para a Itália, conseguindo derrotar o exército dos partidários de Cina e dos Populares na Batalha de Porta Collina, em novembro de 82 A.C. Sila, imediatamente, assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, e desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e aos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos.

Um dos que tiveram que fugir para preservar a vida, apesar de ser apenas um rapaz de 17 anos, foi o próprio Júlio César. Neste momento, Aurélia, a mãe de César, cuja família era ligada às Virgens Vestais, sacerdotisas da deusa Vesta, conseguiu que elas, em caravana, a acompanhassem para apelar a Sila que poupasse a vida do filho. Sila, enfim, cansado de ouvir as súplicas de tantas mulheres ilustres, desistiu de mandar matar o jovem. Porém, tendo em vista que César era casado com a filha de seu grande inimigo Cina, o implacável Ditador exigiu que César se divorciasse de Cornélia.

Para a surpresa geral, inclusive dos autores antigos, César recusou a exigência de Sila e decidiu continuar casado com Cornélia. Furioso, Sila demitiu César do posto de sacerdote de Júpiter (flamen dialis), decretou a perda da herança paterna de César e a perda do dote de Cornélia. Consta que, dessa vez a muito custo, Sila foi novamente demovido da idéia de executar César, sem deixar, entretanto, de fazer a famosa advertência aos que advogavam pela vida do rapaz:

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Em outra alusão à César, consta que Sila costuma também advertir os senadores para que eles “desconfiassem do rapaz mal cingido”, devido ao gosto que César de usar um cinto frouxo na cintura.

Esse episódio evidencia uma das facetas da personalidade de César: a sua extrema preocupação com a sua aparência,  ainda desde bem jovem, o que mostrava ser ele muito vaidoso.

Com efeito, César, em seu tempo, pode ser comparado ao que, no século XIX, chamava-se de “dândi”: um jovem aristocrata ou burguês sofisticado, que gostava de se vestir com roupas caras, perfumar-se e enfeitar-se com penteados, tudo de forma um tanto extravagante, um rapaz que hoje também poderia ser classificado como um “It boy”.

Suetônio nos transmitiu a seguinte descrição de César:

Afirma-se que César era alto, de pele clara, com membros bem proporcionados, rosto algo redondo, olhos negros de olhar penetrante, e tinha boa resistência física, ainda que, no final de sua vida, ele tenha sido acometido por desmaios repentinos e pesadelos noturnos que lhe perturbavam o sono. Experimentou também duas vezes ataques de epilepsia, enquanto desempenhava suas funções públicas. Dava muita importância ao cuidado do seu corpo e não satisfeito em ter o cabelo cortado e ser barbeado com frequência, ainda se fazia depilar, mesmo sendo criticado, e não suportava pacientemente a calvície, que, mais de uma vez, o deixou exposto a gozações de seus inimigos. Por este motivo, ele penteava para frente o cabelo ralo da parte posterior; e por isso, de tantas honrarias que lhe foram concedidas pelo Senado, nenhuma lhe agradou mais do que a de usar constantemente uma coroa de louros. Preocupava-se também com a sua roupa; ele usava uma túnica laticlava guarnecida de mangas, que lhe chegavam até as mãos, e colocava sempre sobre esse traje um cinto bem frouxo. Sobre esse costume, Sila costumava dizer, dirigindo-se aos nobres: “Desconfiem desse rapaz tão mal cingido.”

Cícero, mais tarde, também, implicaria com a vaidade de César, como se viu em um discurso no Senado, que assim foi preservado:

Quando eu considero essa cabeleira tão bem penteada e tão esquisitamente cheia de adereços, e o vejo coçar a cabeça, apenas com a ponta de um dedo, eu imagino o contrário, que tal homem jamais poderia ter imaginado um infeliz empreendimento como o de querer destruir toda a República Romana”.

A descrição que Plutarco faz de César prende-se mais à descrição de algumas características físicas, saúde, dieta e preocupação com a forma física:

“Ele era magro, de pele macia e clara; era sujeito a dores de cabeça e, às vezes, era atacado de epilepsia, que contraíra, pela primeira vez, conta-se, em Córdoba, cidade da Espanha; mas ele não usou a sua saúde frágil como desculpa para uma vida preguiçosa, mas, ao contrário, usou o serviço militar como um remédio para ela, uma vez que, mediante longas caminhadas, dieta sóbria, frequente sono ao relento e aguentando o cansaço, ele lutou contra a sua enfermidade e tornou o seu corpo resistente aos ataques dela”.

Não existem imagens sobreviventes de César na infância ou juventude. Dos bustos que restaram, quase todos foram produzidos após a sua morte, quando ele já tinha mais de 50 anos.

Os especialistas de fato acham que o único retrato produzido em vida foi o chamado Retrato de Túsculo, um busto de mármore, que seria cópia de um original em bronze, achado nesta cidade italiana e que se acredita ter sido produzido por volta de 45 A.C. ( E, possivelmente, uma cabeça de estátua encontrada em 2007, no Rio Ródano, na França).

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( O Retrato de Túsculo, considerado o único busto existente de César feito em vida)

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(Os especialistas concordam que as efígies de César nas moedas cunhadas durante o seu governo devem ser as imagens mais fiéis à sua verdadeira aparência)
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(Esta cabeça foi descoberta no fundo do Rio Ródano, em 2007, e, segundo uma tese, é um retrato de César, feito ainda durante a vida do Ditador)

Com relação à saúde de César, tanto Suetônio quanto Plutarco afirmam que os ataques de desmaios dos quais ele sofria, tradicionalmente descritos como epiléticos, apareceram na idade madura, provavelmente a partir dos 50 anos de idade, ou seja, nos últimos anos da vida de César, como diz Suetônio. Segundo Plutarco, os primeiros desmaios teriam aparecido durante o cerco à Córdoba. Esta cidade, quando mencionada na vida de César, aparece relacionada à Batalha de Munda, em 45 A.C., na guerra civil contra os partidários de Pompeu e do Senado (época em que César tinha cerca de 55 anos de idade), muito embora o próprio Plutarco relate um episódio ocorrido na Batalha de Thapsus, um ano antes.

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De qualquer modo, esses relatos parecem afastar que a causa seja uma epilepsia congênita ou adquirida na juventude, ou, ainda, alguma doença infecciosa. Caso se tratassem mesmo de ataques epiléticos, então eles possivelmente teriam sido causados por traumas, tumores ou condições extremas enfrentadas durante a idade madura de César.

Não devemos ignorar que o pai e o avô de César faleceram subitamente na idade madura exatamente em circunstâncias idênticas: enquanto calçavam suas sandálias, algo que requer um certo esforço e posição que, sem dúvida, podem contribuir para um derrame ou AVC, decorrentes de uma predisposição hereditária a ter aneurismas cerebrais, que pode muito bem ter sido transmitida a César.

Seja como for, vários autores antigos comentam que César tinha um intelecto privilegiado, valendo citar as menções feitas por Cícero, em sua oração Filípicas, contra Marco Antônio, e, especialmente, a afirmação de Plínio, o Velho, que, ao tratar da memória do ser humano, em seu tratado “História Natural”, citou César como exemplo extraordinário de capacidade da mente:

O exemplo mais impressionante de vigor mental inato eu considero ser do Ditador César; e eu não estou cogitando de valor ou resolução, mas de vigor nativo e rapidez alada como se estivesse propelida pelo fogo. Conta-se que ele costumava escrever ou ler, ditar ou ouvir simultaneamente, e ditar de uma vez, quatro cartas para os seus secretários acerca de assuntos importantes – ou, se não estivesse ocupado com outras coisas, sete cartas de uma vez”.

De fato, a memória excepcional de César lhe seria muito útil na sua carreira política e militar. Por exemplo, ele, em várias ocasiões, costumava se lembrar imediatamente do nome dos eleitores mais humildes e de simples soldados que havia brevemente conhecido décadas antes, e estes, obviamente, ficavam lisonjeados com o fato.

Sobretudo, o seu raciocínio rápido fazia com que César não vacilasse em decidir e executar imediatamente um plano para qualquer circunstância espinhosa que se apresentasse, como ocorreu centenas de vezes durante a sua carreira, notadamente na Guerra das Gálias e na Guerra Civil, antecipando-se sempre a seus inimigos, que, quase sempre, eram pegos de surpresa pelas suas ações.

A frugalidade da dieta de César também chamou a atenção de vários historiadores antigos, como é o caso de Veleio Patérculo, que narrou que:

César comia muito pouco e sempre comidas triviais. Gostava de pão recheado, de pescados pequenos, queijos feitos à mão e de figos frescos, da espécie que dá frutos duas vezes por ano; que ele beliscava antes da hora tradicional das refeições, em qualquer hora e lugar, segundo as necessidades do seu estômago”.

Veleio Patérculo narra, ainda, que César uma vez escreveu: Comi na carruagem pão e passas” e, em outra carta: “Ao voltar do palácio de Numa para minha casa, comi em uma liteira uma onça de pão (cerca de 30 g) e algumas passas.

Em outra carta, dirigida a um certo Tibério, César escreveu:

Não existe judeu que respeite com maior rigor o jejum do que eu observei hoje: até a primeira hora da noite não comi senão duas porções no banho, antes que me perfumassem”.

Patérculo conta, ainda, que César somente comia de acordo com o seu apetite: às vezes jantando sozinho, antes ou depois de seus convidados, permanecendo durante os banquetes sem provar nada.

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Quanto à bebida, César também era moderado. De fato, sobre isso, Suetônio escreveu:

“Que ele bebia pouquíssimo vinho, nem mesmo os seus inimigos contestam: Há o dito de Marco Catão de queCésar foi o único homem que tentou derrubar a República enquanto estava sóbrio”.

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Após a retaliação de Sila, as fontes narram que César achou mais prudente fugir de Roma, valendo-se de um disfarce, e tendo que subornar o líder dos soldados de Sila, chamado Cornélio, pela quantia considerável de 2 talentos, não precisando se eram de ouro ou prata. Nesta fuga, Suetônio conta que César chegou a ser acometido de uma “febre quartã”, termo que na antiguidade se referia a uma febre que durava quatro dias. Provavelmente, isso foi apenas um resfriado ou virose, facilitados pelo estado de stress e pelo cansaço decorrente de uma súbita viagem desconfortável (há, contudo, quem defenda que essa febre era efeito de malária e que essa doença mais tarde explicaria os ataques, supostamente epiléticos, de César).

Plutarco narra que após fugir de Roma, César ficou escondido no antigo território dos Sabinos, não muito longe de Roma.

5- Auto-exílio e início da carreira militar

César, então achou mais prudente afastar-se para valer de Roma e procurar alguma colocação nas colônias, já que, ao menos formalmente, ele havia sido perdoado por Sila das Proscrições de 82 A.C. Talvez, na minha opinião, o suborno de 2 talentos,  anteriormente referido como tendo sido feito por César ao líder dos soldados de Sila, Cornélio, para permitir que ele fugisse de Roma, refira-se, na verdade, ao valor pago por César para não ser incluído na lista dos proscritos, já que sabemos que a execução das Proscrições de 82 A.C. ficou a cargo do liberto de Sila, Lucius Cornelius Chrisogonus…(Nota: um talento de ouro equivale a cerca de 70 libras de ouro, e hoje isso valeria mais de 1 milhão de dólares; já um talento de prata valeria hoje cerca de 22 mil dólares – assim, dois talentos de ouro, ou mesmo, de prata, parece ser uma soma muito grande para  subornar um simples líder de um bando de soldados para ele fazer vista grossa para um fugitivo, porém, não para se obter um favor legal do braço direito de um Ditador…)

Isso explicaria como foi possível que César, pouco depois de sua saída de Roma, conseguisse se alistar nas tropas sob o comando do Pró-Pretor romano para a Província da Ásia, Marcus Minucius Thermus, que, logicamente, não se arriscaria a alistar um fugitivo desafeto de Sila

Servindo sob o comando de Thermus, César se destacou no cerco à cidade grega de Mitilene, que havia se rebelado contra Roma. Nesse cerco, ocorrido em 81 A.C., César, que então tinha, apenas, entre 18 e 19 anos de idade, destacou-se nas operações de assalto às muralhas da cidade sitiada, quando chegou a salvar a vida de um colega, razão pela qual ele foi condecorado com a prestigiosa “Coroa Cívica”, honraria concedida àqueles que salvassem a vida de um cidadão romano em batalha.

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Logo depois, no ano seguinte, Thermus encarregou o seu jovem comandado, César, de ser o emissário que levaria ao rei aliado Nicomedes IV, da Bitínia, um pedido para que este monarca contribuísse com navios e recursos para a Guerra Contra os Piratas que infestavam a região.

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O rei Nicomedes tinha sido obrigado a se asilar em Roma, em 88 A.C., durante a guerra que lhe moveu o rei Mitridates VI, grande inimigo de Roma. Após Mitridates pedir a trégua aos romanos, Nicomedes voltou para assumir o seu reino na Bitínia, em 84 A.C.

6- Sexualidade de César

As fontes não contam se, no período que passou em Roma, Nicomedes chegou a conhecer o jovem César, mas isso não seria impossível, já que César assumiu o posto de sacerdote de Júpiter em 84 A.C., e ambos podem ter se conhecido em alguma cerimônia pública, da qual ambos participaram.

Nicomedes era famoso por ter inclinação sexual por jovens rapazes, dos quais ele se fazia rodear em sua corte na cidade de Nicomédia.

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As fontes contam que César ficou um tempo considerável na Bitínia, talvez mais do que fosse esperado, e foi admitido no círculo mais íntimo da Corte de Nicomedes. E, certa vez, em um banquete no Palácio, segundo os autores antigos, César teria aparecido publicamente como parte da “entourage” de jovens rapazes que rodeavam a mesa real, servindo o rei como copeiros.

Quando, posteriormente, o fato se tornou conhecido em Roma, César foi muito criticado por esse fato, e, pelo resto da vida, jamais se livraria das insinuações, ironias e acusações diretas de seus inimigos políticos, e até de piadas do povo em geral, de que ele tivesse sido um dos amantes de Nicomedes. O tom dos ataques e pilhérias era sempre depreciativo, pois, naqueles tempos, considerava-se humilhante para o homem livre romano praticar sexo com outro homem na condição de sujeito passivo da relação sexual.

Tirando esse episódio, que seus antagonistas políticos fizeram questão de perpetuar para a posteridade (Cícero, especialmente, que era famoso pela língua ferina, comprazia-se em relembrar o episódio em discursos no Senado), todos os demais relatos da vida sexual de César o mostram como sendo um contumaz mulherengo (womanizer), daquele tipo que não podia ver “um rabo de saia”.

Suetônio, historiador romano que por vezes mais parece um colunista de revista de fofocas, relaciona várias amantes de César, além de suas esposas legítimas Cornélia, Pompéia e Calpúrnia, nas três passagens abaixo:

Que César era desenfreado e extravagante em seus casos amorosos é a opinião geral, e ele seduziu muitas mulheres ilustres, entre elas Postumia, esposa de Servius Sulpicius, Lollia, esposa de Aulus Gabinius, Tertulla, esposa de Marcus Crassus, e até mesmo a esposa de Pompeu, Mucia. (…) Mas, acima de todas, César amou Servília, a mãe de Marcus Brutus, para quem, em seu sexto Consulado, ele comprou uma pérola no valor de seis milhões de sestércios. Durante a Guerra Civil também, junto com outros presentes, ele adquiriu alguns ótimos imóveis em um leilão público pelo preço estipulado e, quando alguns expressaram surpresa pelo pequeno valor pago, Cícero espirituosamente comentou: “é um negócio ainda melhor do que você pensa, pois é ainda uma terça parte menor do que isso…” e de fato acreditava-se que Servília estaria prostituindo a sua própria filha, Tertia, para César”.

(…)

“E que ele não se abstinha de casos amorosos nas províncias é evidenciado em particular por esse coro, que também era cantado pelos soldados em seu Triunfo da Gália: “ Homens de Roma, aqui vem um adúltero careca, mantenham suas esposas trancadas!; Você gastou na Gália em namoros, as bolsas de ouro que em Roma pegou emprestadas! ”.

(…)

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; mas acima de todas com Cléopatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer e com quem ele teria ido, através do Egito, na sua barcaça real até a Etiópia, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele a chamou para Roma e não deixou-a ir até que ele a enchesse de honras e ricos presentes, e ele permitiu que ela desse o nome dele à criança que ela concebeu. De fato, de acordo com certos autores gregos, esta criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino e que Gaius Matius, Gaius Oppius e outros amigos de César sabiam disso”.

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É verdade que Marco Antônio, após a morte de César, quando disputou a primazia política em Roma com Otaviano, o sobrinho-neto e filho adotivo nomeado pelo Ditador como sucessor em seu testamento, acusou o rival de prestar favores sexuais ao tio, enquanto ainda adolescente. Esta acusação certamente tinha o objetivo de desmoralizar Otaviano, pois, de acordo com a moral da época helenística, paulatinamente adotada pelas classes altas romanas, o adulto mais velho (“erastes”), que no caso seria César, assumia a condição de ativo em um relacionamento com um adolescente (“eromenos”) não tinha a sua masculinidade comprometida.

Tudo indica, porém, que esse ataque de Antônio não tinha nenhum fundamento, tendo o mero intuito de difamar Otaviano, pois esta acusação só foi feito muito tempo depois da morte de César, e não encontrou respaldo em nenhuma outra fonte que não fosse o próprio Antônio. O mesmo pode ser dito no que se refere ao alegado reconhecimento de Cesarion.

Desse modo, pensamos que a inclinação de César era heterossexual, sendo que o episódio com Nicomedes IV na Bitínia pode ter alguma dessas três explicações:

a) uma aleivosia inventada pelos seus políticos rivais Optimates, já que desde a juventude, César identificava-se com a facção dos Populares, com o objetivo de desmoralizar o jovem político, que, ademais, era conhecido pelo excesso de vaidade no vestir, o que poderia ter lhe granjeado a fama, de acordo com os preconceitos de todas as épocas, de afeminado, mentira que, ainda, obteve credibilidade devido ao fato de Nicomedes ser notório pederasta; b) César, efetivamente, chegou a ter relações sexuais com o rei, para obter dele algum favor, seja a cessão da frota de Nicomedes, ou alguma vantagem financeira, sem que ele tivesse, de fato, inclinações homossexuais; ou c) César seria, efetivamente, bissexual (neste último caso, procederia o famoso comentário de seu inimigo político Gaio Escribônio Curião, de que César seria “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”).

7- Morte de Sila e cativeiro em Pharmacusa

Na Ásia, César, agora, estava servindo sob as ordens de Publius Servilius Isauricus, um correligionário de Sila, que havia sido apontado como cônsul no ano anterior e, em 78 A.C., estava comandando a Guerra Contra os Piratas, os quais infestavam a costa da Cilícia, na qualidade de Procônsul.

Enquanto servia na Cilícia, ocorreu um episódio que contribuiu para a fama de César como homem de temperamento inquebrantável: O barco que o levava foi interceptado por piratas, próximo à ilha de Pharmacusa (atual Farmakonisi, um território grego na costa da Turquia) e ele foi feito refém.

César, durante o cativeiro, mostrou-se altivo e zombeteiro, chegando a exigir que os piratas elevassem o preço do seu resgate de 20 para 50 talentos de prata, para que o mesmo estivesse de acordo com a importância da sua pessoa, e, ainda, prometendo crucificá-los depois que eles o libertassem. E, de fato, assim que foi libertado, após 38 dias de cativeiro, com o pagamento do resgate, César, valendo-se de recursos próprios, armou uma pequena frota, perseguiu, capturou e, cumprindo a sua promessa, crucificou os piratas. Porém, como sinal de sua compaixão (para os padrões da época), que mais tarde se tornaria célebre, César ordenou que eles fossem degolados, antes de serem colocados na cruz, para que não sofressem as agruras daquela terrível forma de execução.

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Não sabemos quanto tempo durou essa perseguição aos piratas, que, penso eu, pode ter ocorrido como parte da campanha de Servilius Isauricus e não, exclusivamente, da sua iniciativa individual, como contam Plutarco, Suetônio e Veleio Patérculo.

Durante a sua ditadura, Sila decretou a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Comícios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em defensores públicos dos indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o cursus honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções. E Sila também declarou Mário, “Inimigo do Estado“, mandando banir quaisquer referências à sua memória.

Todavia, para a surpresa geral, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades em 81 A.C., falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

Quando Sila morreu, César ainda estava na Cilícia, e, com a morte do Ditador e algoz da facção dos Populares, ele sentiu-se seguro para voltar à Roma. Segundo Suetônio, o retorno de César também foi estimulado pelo fato do cônsul para o ano de 78 A.C., Marco Emílio Lépido (pai do Triúnviro de mesmo nome), após a morte de Sila, ter tomado uma série de medidas revertendo as leis do Ditador, bem como adotando outras em favor da causa dos Populares.

Aliás, a cronologia desses eventos é confusa, entre Suetônio e Plutarco. De acordo com a “Vida de César”, de Suetônio, César retornou a Roma e tornou-se acusador público, como  uma espécie de promotor, destacando-se na acusação ao político Dolabela, partindo, depois, para Rodes para estudar, sendo, então, capturado pelos piratas. Já Plutarco adota a narrativa mais próxima a que fazemos neste texto, colocando a chegada de César à Roma posteriormente à sua captura pelos piratas da Cilícia, sendo que, antes de voltar à Cidade, ele foi estudar em Rodes.

Entretanto, a narrativa de Suetônio é mais plausível geograficamente, já que uma rota marítima de Roma para Rodes, beirando a costa, que é como os antigos costumavam navegar, passaria antes por Pharmacusa, onde o navio de César foi interceptado. Os textos contam que os barcos utilizados pelos piratas eram pequenos e, portanto, o grupo que capturou César não devia ser muito grande. Logo, não é impossível que a versão de Suetônio seja a correta, colocando o episódio no contexto da viagem particular de César para Rodes, após sua volta para Roma e atuação como acusador de Dolabela. Em qualquer caso, estaria ao alcance de César, após a sua soltura, armar alguns barcos e liderar uma pequena expedição particular para capturar e punir os piratas.

8- Término de sua formação em Rodes, volta à Roma e atuação como “Promotor Público”

Feita essa pequena digressão, nos parece mais plausível que a atuação de César na acusação contra Dolabela, a qual lhe granjeou fama pela eloquência apurada, tenha ocorrido após o aprofundado estudo da arte da retórica em Rodes, onde aprimorou suas habilidades de oratória e argumentação para uso nos tribunais romanos.

Em Rodes, César foi estudar com Apolônio Molon, um célebre retórico que também foi professor daquele que é considerado o maior orador romano de todos os tempos, Marco Túlio Cícero (Cícero era seis anos mais velho do que César e ambos parecem ter, algumas vezes, compartilhado os mesmos mestres, como Gnifo eApolônio).

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Concluídos os seus estudos, César finalmente regressou à Roma, atendendo ao insistente chamado dos amigos, que estavam estimulados pela morte de Sila e a consequente melhoria das perspectivas políticas para os partidários dos Populares.

Seus dons e a sua recém-adquirida formação conduziram naturalmente César para o exercício do cargo de acusador público. Não havia, entre os romanos, a figura do Promotor Público, como funcionário do Estado encarregado da acusação. Assim, eram advogados privados especializados que exerciam a tarefa de acusar as pessoas suspeitas de crimes perante o tribunal. Essa era uma função que dava muito prestígio popular, já que os julgamentos contra pessoas importantes eram públicos, realizados no Fórum Romano, e os mesmos atraíam multidões para assisti-los.

César resolveu fazer, por volta do ano 77 A.C., a acusação pública de Gnaeus Cornelius Dolabella (Dolabela), um partidário de Sila que havia sido Cônsul, em 81 A.C., que, durante o seu governo como Procônsul da Macedônia, entre 80 A.C. e 78 A.C., foi acusado de extorsão contra os provinciais e de malversação de fundos.

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Dolabela acabou sendo absolvido, mas o libelo acusatório de César foi aclamado como uma brilhante peça de oratória. Outras cidades gregas resolveram contratar César para acusar outros governantes romanos corruptos e, pouco a pouco, César foi ficando famoso entre o público romano, pela eloquência e pela sua empostação de voz, de tom agudo, bem como o seu gestual elaborado nos tribunais.

Cícero, ao discorrer sobre os oradores romanos, disse não ver nenhum para quem César tivesse que abrir mão do troféu de melhor orador, afirmando que “o estilo dele era ao mesmo tempo elegante e transparente, grandioso e, de certo modo, nobre”. E o mesmo Cícero, que foi considerado o maior orador romano, também escreveu sobre César, em uma carta a Cornélio Nepos:

“Agora, que orador você classificaria à frente dele, daqueles que não devotaram sua vida a outra atividade? Quem tem epigramas mais inteligentes ou frequentes? Quem é mais descritivo, ou mais seletivo em sua fala?”

9- Ingresso na política e vida familiar: o César pai e esposo e o seu Estilo de Vida

Agora César já tinha se tornado conhecido pelo povo de Roma, não só pela brilhante oratória, mas também pelo estilo de vida glamuroso, evidenciado pelas roupas elegantes e, sobretudo, pelo jeito afetuoso de tratar os possíveis eleitores e, não menos ainda, pela generosidade nos presentes e banquetes que ele frequentemente oferecia. Assim, ele resolveu concorrer, e foi eleito, para o seu primeiro cargo público, o de Tribuno Militar. Esse cargo, após as reformas militares de Mário, representava o primeiro passo na carreira das magistraturas da República Romana (cursus honorum), sendo elegíveis jovens da nobreza romana.

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Por volta de 76 A.C., Cornélia, a jovem esposa de César, que tinha apenas 21 anos, deu à luz a primeira filha, que seria a sua única descendente oficialmente reconhecidauma menina que recebeu o nome de Júlia.

A menina cresceria e, futuramente, se tornaria uma mulher linda e, tudo indica, de personalidade encantadora, e muito devotada ao pai. Ela não hesitaria em se casar, em 59 A.C., quando tinha apenas 17 anos, com Pompeu, então 30 anos mais velho, em obediência às conveniências políticas do pai. Porém, apesar disso, as fontes relatam que esta foi uma união bem-sucedida, e que ambos se amavam. As delícias de um casamento feliz teriam até afastado Pompeu da política.

Quando Júlia morreu, devido a complicações no parto de seu primeiro filho (ou filha, não se tem certeza), o viúvo, Pompeu, e o pai  ela, César, publicamente deram demonstrações de sua tristeza. (Nota: É possível que, antes de se casar com Pompeu, Júlia estivesse prometida a Marco Júnio Bruto (que passou a usar o nome de Quintus Servilius Caepio, após ser adotado por seu tio, de mesmo nome) e quem, ironicamente, seria, muitos anos mais tarde, o líder da conspiração que assassinaria o pai dela).

Após o nascimento de Júlia, César, no exercício do cargo de Tribuno, teria, por volta de 73 A.C, segundo Veléio Patérculo, diligenciado para que fosse votada a Lex Plautia, uma lei que visava anistiar os romanos que tinham sido exilados por Sila (outros autores mencionam que isso teria ocorrido mais tarde).

Em 69 A.C., ano em que vários eventos significativos em sua vida ocorreriam, César concorreu e venceu a eleição para o importante cargo de Questor, que era um cargo com atribuições judiciárias e militares. Nessa eleição, ficou evidenciado que ele não costumava medir gastos para cair nas boas graças dos eleitores.

Eleito César Questor, em 69 A.C., em seguida,  morreram naquele mesmo ano, praticamente ao mesmo tempo, a sua esposa Cornélia e a sua tia Júlia, viúva do Ditador Mário, o grande campeão da causa dos Populares e a quem a sua família devia o retorno aos altos escalões da política romana.

César aproveitou a oportunidade para fazer do velório público das duas mulheres um ato político combinado com uma manifestação de veneração pela esposa, esta um fato pouco comum em uma sociedade patriarcal e machista como a romana.

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A procissão e os discursos que acompanharam o funeral ocorreram nos “Rostra” – o célebre palanque público situado no coração do Fórum Romano, adornado com os esporões dos navios inimigos capturados em batalha (“rostrum”).

Apesar de Mário haver sido declarado “Inimigo Público” por seu inimigo e sucessor, Sila, estando proibida qualquer alusão pública à sua memória, César mandou que a efígie de cera do marido de sua falecida tia integrasse a procissão fúnebre dela. Era, evidentemente, uma declaração política de apoio à causa dos Populares, o que muito irritou os Optimates (facção aristocrática do Senado), mas, talvez,  tão desafiadora quanto isso tenha sido a apologia que ele fez à própria família. Suetônio preservou uma parte do discurso laudatório de César à sua tia Júlia:

“A família de minha tia Júlia descende, por parte de mãe, dos reis e, por parte de pai, é aparentada com os deuses imortais; pois os Márcios recuam até Anco Márcio (rei mítico de Roma), e os Júlios, dos quais nossa família é um ramo, até Vênus. Nosso sangue, consequentemente, tem ao mesmo tempo a santidade dos reis, cujo poder é supremo entre os mortais, e o direito à reverência que se prende aos deuses, que reinam sobre os próprios reis”.

A multidão que acompanhou o cortejo aplaudiu entusiasticamente o discurso, e recebeu com simpatia a oração e as preces do viúvo César pela falecida Cornélia, apesar de não ser costume fazer discursos fúnebres em homenagem a mulheres jovens, sendo que, segundo as fontes, César foi a primeira pessoa importante a fazer isso, o que lhe granjeou a fama de homem sensível e de bom coração.

Assumindo as funções de Questor, César, ainda no ano de 69 A.C., acompanhou Gaius Anstitius Vetus à Hispânia, Província para a qual este havia sido nomeado Pró-pretor.

Voltando para Roma, ainda viúvo, César, por volta do ano 67 A.C., casou-se pela segunda vez, escolhendo como sua nova esposa, Pompéia, filha de Quintus Pompeius Rufus e de Cornélia Sila, filha mais velha do finado Ditador Sila. Vale notar que o pai de Pompéia havia sido assassinado pelos partidários de Mário, em um tumulto, no ano de 88 A.C.

Não há como negar que o casamento de César com a neta de Sila foi também um ato político que visava a uma conciliação com os Optimates e melhorar a aceitação do jovem César, que era um herdeiro político presuntivo de Mário, pela facção dos aristocratas.

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Se o casamento efetivamente rendeu algum resultado político proveitoso para César é difícil saber. O fato é que, em 65 A.C. ele conseguiu ser eleito, sucessivamente, Curador da Via Ápia e Edil Curul, dois cargos importantes que lhe permitiram administrar verbas públicas, realizar obras e, no caso do último, oferecer espetáculos ao povo.

Como Curador da Via Ápia (“curator”), César mandou fazer vários reparos e embelezamentos nesta importante estrada, pagando-os de seu próprio bolso.

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Já no exercício da edilidade, César manteve a consistência de sua adesão à causa dos Populares e determinou a restauração ou reconstrução dos monumentos erguidos em homenagem ao seu tio Mário.

No entanto, o que realmente chamou a atenção e agradou à plebe foi a magnificência dos espetáculos que César bancou como Edil. Plutarco nos conta que ele custeou 320 pares de gladiadores, além de apresentações de teatro, procissões e banquetes públicos, superando todos os seus antecessores, caindo assim nas graças do povo.

De fato, Cássio Dio conta que, durante a edilidade de César, ele apresentou os Jogos Romanos (“Ludi Romani”) e os Jogos Megalenses em uma escala suntuosa. As lutas de gladiadores provavelmente foram oferecidas  por ele em homenagem à memória do falecido pai (esse era um costume etrusco que foi herdado pelos romanos – as lutas, ou jogos funerais, faziam parte das homenagens aos falecidos).

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Plínio, o Velho, de fato, relata que César, quando Edil, nos jogos funerais que ofereceu em honra do pai, foi a primeira pessoa a apresentar todo o aparato dos gladiadores em prata, sendo também a primeira vez que criminosos enfrentaram animas selvagens, também adornados com prata, na arena, sendo que, mais de um século depois, esta prática continuava a ser imitada até mesmo nas cidades das províncias.

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Toda essa “generosidade” de César, no entanto, começava a agravar um problema inevitável para quem não nascera no seio das famílias mais ricas de Roma…Dívidas!

Com efeito, para poder fazer tudo isto o que ele fazia, em escala poucas vezes vista anteriormente, com o propósito de obter prestígio popular, César teve que pegar dinheiro emprestado. E os cargos públicos exercidos na cidade de Roma, não permitiam, como ocorria nas Províncias, que os seus ocupantes extorquissem o dinheiro dos provinciais via tributos, ficando com uma parte deles para si, renda com a qual contavam para pagar as liberalidades que tinham feito para obter o cargo. E, mais importante, a acirrada política da Cidade Eterna fazia com que os adversários aproveitassem qualquer irregularidade para processar sem piedade o oponente apanhado em alguma malversação.

Aliás, segundo Plutarco, antes mesmo que César exercesse qualquer cargo público, os débitos dele já alcançavam a estratosférica soma de 1.300 talentos!

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E, para isso, certamente, concorria o estilo de vida glamuroso que César fazia questão de cultivar. Parece-nos que César fazia isso não porque ele não conseguisse viver sem conforto (embora ele apreciasse as coisas belas), mas, sobretudo,  como parte da imagem pública de “superstar” que ele fazia questão de ostentar.

Por exemplo, sabemos que, segundo Suetônio, César, quando ele ainda era pobre (para os padrões dos grandes aristocratas romanos), e endividado, após construir e decorar a casa de campo dele (ou villa), às margens do Lago de Nemi, mandou demolir tudo de uma vez apenas porque ele não gostou de como ela havia ficado depois de pronta.  E, ainda de acordo com o historiador citado, César, quando em campanha, levava em sua bagagem pisos de mármore e de mosaico para forrar seus aposentos!

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Suetônio também conta que César era um colecionador de pedras preciosas, gravuras, estátuas e pinturas de artistas antigos,  sendo, assim, podemos dizer, um apreciador de Arte e de antiguidades. Segundo o historiador, até os escravos dele eram escolhidos entre aqueles de melhor aparência e treinamento.

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Obviamente que o apreço de César pelas coisas belas e valiosas aumentou junto com a sua ascensão aos cargos mais altos da República.

Como exemplo, consta, segundo Plínio, o Velho, que César, quando já era Ditador, comprou duas pinturas, “Medéia” e “Ajax”, do pintor Timomachus, por 80 talentos, para colocá-las no Templo de Vênus Genitrix, que ele construiu para honrar a divindade de quem a sua família reivindicava descendência.

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E Plínio conta também que, para os seus banquetes triunfais, César comprou 6 mil peixes da rara espécie Murena. Para esses mesmos banquetes, ele mandou colocar, em cada mesa, uma ânfora cada dos afamados vinhos Falérnio, Quiano, Lésbio e Mamertino, sendo esta considerada a primeira vez em Roma que quatro tipos diferentes de vinho foram servidos na mesma refeição!

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César também era perfeccionista e detalhista no que se refere as regras de etiqueta então vigentes na sociedade romana, preocupando-se sempre se os eventos que patrocinava atendiam os ditames da arte de bem receber.

10 – Pontifex Maximus e César, o bom filho.

Com a popularidade em alta após o exercício da edilidade, César decidiu concorrer, em 63 A.C, ao posto de Pontifex Maximus (Sumo Pontífice), que era o chefe da religião romana, e, além disso, verificava a legalidade dos casamentos, adoções, enterros e funerais, sucessão testamentária, regulava o calendário e também supervisionava a moralidade pública. Era um cargo tão importante que foi um dos últimos a serem franqueados aos plebeus, sendo, até 254 A.C., exclusivo dos patrícios.

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Consta que, no dia da eleição, segundo Plutarco, a mãe de César, Aurélia Cota, em lágrimas, acompanhou-o até a porta da casa onde eles moravam na Subura, ocasião em que César, despedindo-se,  beijou a mãe, dizendo-lhe:

“Mãe, hoje tu verás o teu filho Pontífice Máximo… ou um exilado”.

Para a surpresa de muitos, César, apesar de ser bem mais jovem e ilustre do que os dois outros concorrentes, ganhou a eleição, onde também gastou muito dinheiro, razão pela qual disse a frase dramática com a qual se despediu da mãe no dia do pleito (se ele perdesse, teria que se exilar para escapar dos credores). Um dos derrotados era Quinto Lutácio Catulo, chamado de “Capitolino”, porque ele havia cuidado da restauração do Templo de Júpiter Optimus Maximus na colina do Capitólio. Este era um velho partidário de Sila e inimigo dos Populares. Já o principal contribuinte para a campanha de César ao Pontificado foi Marco Licínio Crasso, então o homem mais rico de Roma.

No aspecto privado desse episódio, podemos constatar que César, aos 37 anos, ainda morava junto com Aurélia. Com efeito, essa cena do dia da eleição para Sumo Pontífice é mais uma das que demonstram a forte ligação entre César e sua mãe. Já vimos, por exemplo, como ela ousadamente fez a defesa do filho junto ao Ditador Sila.

Aurélia Cota morreria, ironicamente, em 31 de julho de 54 A.C (mês do nascimento de César e que, posteriormente, recebeu esse nome em homenagem ao filho dela), na casa em que ambos moravam. Ela então deveria ter cerca de 65 anos de idade.

Assumindo o cargo de Pontífice Máximo, César mudou-se para a Domus Publica, uma habitação destinada aos Sumos Pontífices, que era um venerável ex-palácio dos reis de Roma e que teria sido construído pelo rei Numa Pompílio. A Domus Publica ficava entre a Casa das Virgens Vestais e a Via Sacra, no Fórum Romano.

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(Ruínas da Domus Publica, no Fórum Romano)

Aurélia, após César se casar com Pompéia, foi com eles morar na Domus Publica na Régia e, como sempre havia feito, continuou administrando ali a casa do filho.

A afeição e os laços estreitos que César tinha com a mãe, mesmo depois de já ter uma longa carreira de homem público, também eram manifestados com os parentes e amigos em geral. Com efeito, César, segundo Cássio Dio:

“César possuía uma forte afeição por todos os seus parentes, exceto os mais ímpios. Por isso, ele não ignorou nenhum deles nas suas vicissitudes, nem invejou aqueles que gozavam de boa fortuna, e sim, ajudou a estes a aumentarem as posses que eles já tinham, e deu para os outros o que lhes faltava, dando a alguns deles dinheiro, algumas terras, alguns cargos e alguns sacerdócios. Novamente, a sua conduta em relação aos seus amigos e outros aliados foi notável. Ele jamais escarneceu deles ou insultou-os, mas sempre foi cortês com todos.

Suetônio, igualmente, escreveu sobre isso:

“Ele tratava seus amigos com invariável gentileza e consideração. Quando Gaius Oppius acompanhou-o em uma viagem através de uma região selvagem e florestada, e ficou subitamente doente, César lhe deu o único abrigo que havia”.

O fato acima também foi relatado por Plutarco, que especifica que ele ocorreu durante uma tempestade, sendo que César deixou Oppius dormir dentro de uma pobre cabana, onde somente cabia uma pessoa, enquanto ele e o resto de sua comitiva foram dormir ao relento. Segundo Plutarco, naquela ocasião, César disse aos amigos:

As honrarias devem ser concedidas aos mais fortes, mas o que é de necessidade, aos mais fracos

Em dezembro de 62 A.C, ocorreu o famoso episódio dos ritos da Bona Dea (a Boa Deusa), celebrados na casa do Pontifex Maximus, organizados pelas Virgens Vestais e pelas anfitriãs, Pompéia, a esposa de César, e Aurélia Cota, sua mãe.

Somente mulheres podiam participar da celebração (na verdade, sequer o nome da deusa poderia ser pronunciado por homens, daí o eufemismo “Boa Deusa”), porém o senador Públio Clódio Pulcher, um partidário dos Populares que tinha fama de devasso, conseguiu entrar na casa de César, disfarçando-se de mulher, supostamente com a intenção de seduzir Pompéia.

Clódio foi descoberto e o escândalo público que se seguiu foi tão grande que César viu-se obrigado a se divorciar de Pompéia, apesar de aparentemente a esposa não ter culpa de nada. Os Optimates, adversários políticos de César e dos Populares, não perderam a oportunidade de aproveitar ao máximo o fato, e um processo criminal por “incestum” foi instaurado contra Clódio. Pompéia e Aurélia, inclusive, prestaram depoimento como testemunhas. César tentou defender seu correligionário político, ao mesmo tempo alegando que nada tinha ocorrido. Quando os adversários lhe perguntaram porque motivo então ele tinha se divorciado de Pompéia, César disse a célebre frase: “A mulher de César tem que estar acima de qualquer suspeita”, que acabou sendo imortalizada como:

“À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

Com esse último episódio, que demonstra que a característica mais prevalente da personalidade dele era a de ser um “animal politico” nato, terminamos este texto sobre Júlio César.

Depois do cargo de Pontífice Máximo e o grande impulso que o exercício dessa função deu em sua carreira política, César foi para a província da Hispânia como governador (Procônsul), o que além de lhe dar a experiência de comando militar, lhe permitiria obter os recursos para saldar suas vultosas dívidas. Então, ele já tinha quase quarenta anos de idade e todos os aspectos de sua personalidade já estavam delineados.

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