TEODÓSIO II

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(Cabeça de Teodósio II, foto de Marie-Lan Nguyen)

Em 10 de abril de 401 D.C., nasceu Flavius Theodosius Junior (Teodósio II), em Constantinopla , filho do Imperador Romano do Oriente Arcádio, e neto de Teodósio, o Grande, o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império Romano.

A mãe de Teodósio II, Aelia Eudoxia (Eudóxia), era filha de Flávio Bauto, um general Franco, na verdade, um chefe bárbaro assimilado à serviço de Roma, que chegou ao posto máximo de Magister Militum (Comandante do Exército), durante o reinado do imperador Graciano, e foi Cônsul em 385 D.C.

A ancestralidade germânica  por parte de mãe  parece que não retirou o “pedigree” dinástico de Teodósio II como descendente de Teodósio, o Grande, apesar de Eudóxia ter sido rotulada como possuindo “um grau não desprezível de arrogância bárbara” pelo historiador eclesiástico Philostorgius.

Antes mesmo de completar um ano de idade, Teodósio II foi nomeado Augusto, e, portanto, formalmente, co-imperador, por seu pai Arcádio, em 402 D.C, sendo, assim, o imperador mais jovem em toda a História do Império Romano.

Em 1º de maio de 408 D.C, o imperador Arcádio morreu e Teodósio II foi reconhecido como Imperador Romano do Oriente, tendo apenas sete anos de idade.

Consequentemente, quem exerceu de fato o poder na qualidade de regente foi o Prefeito Pretoriano Antêmio, que foi o responsável pela construção da grande obra que marcaria o reinado de Teodósio: as espetaculares Muralhas Teodosianas de Constantinopla, completadas em 413 D.C , as quais garantiriam a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de mil anos, até serem penetradas pelos turcos otomanos, em 1453 D.C. Entretanto, pouco depois da conclusão dessa impressionante obra, Antêmio não seria mais mencionado nas fontes, não se sabendo se ele morreu de causas naturais, se foi demitido ou executado.

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Enquanto isso, Teodósio II recebia esmerada educação em grego e latim, além de aulas de Gramática e Retórica, e treinamento em equitação, esgrima e arco e flecha.

Durante o início do reinado de Teodósio II, contudo, aprofundou-se a divisão e a rivalidade entre as duas metades do Império Romano, ou, para sermos mais precisos, entre a Corte de Constantinopla e a aristocracia senatorial da velha Roma, concentrada no Senado Romano.

Com efeito, o regente Antêmio vinha adotando uma política anti-germâmica e de intervenção nos assuntos do Ocidente, e por isso, ele entrava frequentemente  em choque com a sua contra-parte na corte ocidental, o general Estilicão, que, por sua vez, exercia o poder de fato por trás do Imperador Honório, irmão de Arcádio.

Entretanto, após a execução de Estilicão, em 408 D.C., o qual teve seu prestígio solapado junto a Honório devido à grande invasão bárbara que atravessou o Reno em 406 D.C. e pelo insucesso dele em lidar com os Godos alojados no interior do Império, houve, enfim, uma reaproximação política entre Constantinopla e Ravenna.

Em 414 D.C, Pulquéria, a irmã mais velha de Teodósio II, foi proclamada “Augusta” e assumiu a regência do Império do Oriente, bem como a tutela e criação do imperador, que estava ainda em sua pré-adolescência. Cristã devota, Pulquéria tomou voto de castidade perpétua e esta condição, provavelmente fruto de um cálculo político, assegurou-lhe autoridade moral para adotar uma política de promoção da ortodoxia católica, a qual resultou também na perseguição do paganismo, das heresias cristãs e do judaísmo, mas que acabou acirrando as disputas religiosas no seio do Império do Oriente, degenerando no brutal assassinato da filósofa pagã Hypathia, em Alexandria.

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(Estudiosos acreditam que o relevo de marfim representa Teodósio II e Pulquéria em procissão trazendo relíquias para Constantinopla)

Graças à intervenção de Pulquéria, Teodósio II conheceu a jovem grega Athenais, uma brilhante filha de um filósofo de Atenas, originalmente pagã, que se tornaria a sua esposa, adotando como imperatriz  o nome de Eudocia. Não obstante, Eudocia se tornaria no futuro a grande rival de Pulquéria e ambas disputariam o posto de maior influência sobre Teodósio II. O casal imperial teve três filhos, porém somente a mais velha, Licínia Eudocia, chegaria à idade adulta e se casaria com os imperadores romanos do Ocidente, Valentiniano III e Petrônio Máximo.

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(Eudócia é retratada neste mosaico do séc. XIX, em Sófia, Bulgária)

No plano externo, o reinado de Teodósio II caracterizou-se pela tentativa de conter as ameaças representadas pelo Império Persa e pelos Hunos. Com os Sassânidas, o Império Romano, após uma guerra inconclusiva, conseguiu celebrar um tratado de paz duradouro, que ficaria conhecido como a “Paz dos Cem Anos“.

Durante seu reinado, Teodósio II também procurou auxiliar militarmente o Império do Ocidente contra os Vândalos, infelizmente, sem sucesso

Tentou-se uma política de apaziguamento dos Hunos mediante o pagamento de tributos, com sucesso limitado, já que periodicamente os bárbaros exigiam o aumento do valor, que começou em 350 libras de ouro, aumentou para 700 libras com a ascensão de Átila e Bleda, em 433 D.C e passou para 2.100 libras, em 443 D.C., após os Hunos derrotarem dois exércitos romanos. Mesmo assim, em 447 D.C., os Hunos devastariam os Bálcãs e chegariam aos subúrbios de Constantinopla.

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Relativamente às relações com o Império do Ocidente, Teodósio II apoiou seu tio Honório e defendeu a causa do sucessor deste, seu primo Valentiniano II, chegando a abrigá-lo, acompanhado de sua mãe Gala Placídia, em Constantinopla, e depois ajudando-os a reinstalá-los em Ravena, com o auxílio de um pequeno exército oriental.

.Em 425 D.C., Teodósio II fundou o Pandidakterion, que mais tarde seria considerada como a “Universidade de Constantinopla,” uma precursora das universidades medievais europeias, situada na Magna Aula do Palácio (Magnaura).

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(Reconstituição da Magnaura, em Constantinopla, onde ficava o Pandidakterion – © Byzantium 1200.)

O outro grande legado de Teodósio II, além das Muralhas de Constantinopla e da Universidade, foi o seu “Código Teodosiano“, uma grande compilação e sistematização do Direito Romano produzido até então e que, cem anos mais tarde, seria a base para o “Código de Justiniano”, contribuindo, assim, para a preservação da herança jurídica romana até os nossos dias. Os trabalhos foram iniciados por ordem de Teodósio II em 429 D.C. e, após muitos anos de trabalhos e a nomeação de duas comissões de juristas, o Código foi promulgado em 438 D.C.

Em 28 de julho de 450 D.C, Teodósio II sofreu uma queda de cavalo enquanto caçava. Ele foi levado para Constantinopla, mas não resistiu e morreu naquele mesmo dia. Segundo a versão oficial, ele teria indicado o general Marciano como seu sucessor, já que não tinha mais nenhum filho do sexo masculino. Na verdade, o nome de Marciano foi imposto pelo marechal Áspar, um militar de origem bárbara (Alano-Gótica) que era o comandante-em-chefe do Exército e homem forte do Império Romano do Oriente, desde meados da década de 20 do século V D.C.

Trinta dias após a morte de Teodósio II, Marciano foi reconhecido como imperador e se casou com Pulquéria, que, contudo, manteve o seu voto de castidade.

CONCLUSÃO

Em tempos mais amenos, Teodósio II poderia ter sido um bom imperador, mas a sua época demandava um governante mais enérgico e determinado, que possuísse mais aptidões e meios militares, coisas das quais ele não dispunha.

A BATALHA DE CTESIFONTE

Em 29 de maio de 363 D.C, o Exército Romano, comandado em pessoa pelo imperador Juliano I, que mais tarde seria cognominado “O Apóstata“, derrotou, às portas da capital do Império Sassânida, Ctesifonte, parte do exército persa.

Acredita-se que esta cabeça de estátua possa ser do imperador Juliano. Foto: George E. Koronaios, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Os romanos mataram cerca de 2.500 soldados persas e somente perderam 70 homens.

Seria o coroamento da campanha iniciada em 05 de março daquele mesmo ano pelo imperador romano, que avançou invicto pela Mesopotâmia até as portas da capital persa.

Porém, como várias vezes ocorreu na longuíssima história dos confrontos entre Roma e Pérsia, os segundos, sabedores da superioridade romana em combate aberto, preferiram a tática de fazer emboscadas e limitar a luta a escaramuças, sempre que percebiam que a batalha estava indo contra eles (confira, a esse respeito, nossos artigos sobre a Batalha de Carras e sobre a campanha do imperador Trajano contra o Império Parta).

Os Persas sabiam que o tempo estava do lado deles, pois a campanha nos desertos da Mesopotâmia, quando se afastava do curso dos rios Tigre e Eufrates, impunha grande esforço logístico aos romanos, que marchavam sempre ameaçados pela sede.

Para piorar, Juliano não se preocupou em trazer consigo material em quantidade suficiente para a construção de muitas máquinas de assédio (ele inclusive mandou precipitadamente queimar a frota que acompanhava o avanço romano pelo rio Tigre). Assim, apesar da vitória tática no campo de batalha, ele fracassou em tomar Ctesifonte.

Àssim, o Shainshah (Rei dos Reis) Sapor II (Shapur) que tivera a cautela de colocar a maior parte do seu exército à distância, quando viu os Romanos serem obrigados a suspender o Cerco e marchar de volta pelo deserto, aproveitou a oportunidade para voltar a atacar os romanos durante o trajeto.

Em 26 de junho de 363 D.C, quando avisado que a retaguarda do Exército Romano estava sendo atacada pelos Persas, próximo à Samarra, Juliano deixou a vanguarda das tropas, com tanta pressa que não teve tempo de vestir a sua couraça, correndo para repelir o ataque.

Porém, durante os combates, uma lança foi atirada e atingiu seu dorso. Juliano foi levado ferido para sua tenda, agonizando, e morreu antes da meia-noite. Os comandantes romanos em conselho de guerra resolveram eleger o relativamente jovem general Joviano (32 anos) como sucessor.

Detalhe de relevo Sassânida em Naq i Rostan, mostrando o imperador Juliano morto (foto: Philippe Chavin, CC BY-SA 3.0)

Joviano tentou retirar o restante do Exército Romano dos domínios do Império Sassânida, porém, na cidade de Dura, os Persas conseguiram impedir que os Romanos cruzassem o rio Tigre e retornassem para o seu território.

Assim, Joviano foi obrigado a assinar um Tratado de Paz humilhante, abrindo mão de várias províncias e das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, além da predominância sobre a Armênia.

Como se sabe, Juliano foi o último imperador da dinastia inaugurada por Constâncio Cloro e seu filho Constantino, o Grande (ele era filho de Julius Constantius, meio-irmão deste imperador) que tornou o Cristianismo uma religião legal, refundando a cidade de Bizâncio como Constantinopla, fazendo dela uma capital essencialmente cristã e favorecendo muito a Igreja, que a partir de então começou a predominar no Estado Romano.

Solidus do imperador Juliano, foto: Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, Juliano (que foi elevado ao trono em novembro de 361 D.C) resolveu reverter todas as medidas pró Cristianismo de seus antecessores, voltando a prestigiar as religiões pagãs, reinstaladas como cultos oficiais do Império, motivo pelo qual foi cognominado de “O Apóstata”, pelos historiadores cristãos.

Portanto, podemos considerar que o resultado não conclusivo da Batalha de Ctesifonte e a resultante morte precoce de Juliano foi também um evento decisivo na História de Roma.

ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

 

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NASCIMENTO, ORIGEM FAMILIAR, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 24 de janeiro de 76 D.C, nasceu Publius Aelius Hadrianus (Adriano), em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, uma cidade na província romana da Hispania Betica, a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, onde foram assentados colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.

O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;) já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.

Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai.

Aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.

Consta que, ainda na infância, chamava a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de”graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.

Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.

INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA

Em 98 D.C, o imperador Nerva (que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor), faleceu. Adriano, assim que soube da notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e, cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial. Trajano ficou muito grato e, assim, a carreira de Adriano começou a decolar.

Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, a sobrinha de Trajano, que foi criada como se fosse filha do imperador (que, aliás, nunca teve filhos naturais). Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…

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(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)

Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia (101-102 D.C).

Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas romana (cursus honorum).

E, na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia.

Novamente, Adriano deixou essa campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, Adriano foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstante, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia.

Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto), um posto somente inferior ao consulado ordinário (Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).

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(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)

Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.

Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde ele estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade. Nesse período, em mais um exemplo do seu amor pela civilização grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.

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(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)

Nesse ponto, certos historiadores questionam por que a carreira pública de Adriano ficou em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia.

Eles acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor: Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que até então ele ainda não tinha recebido nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários.

Nessa linha de raciocínio, até se cogita que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…

Não obstante, eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.

ASCENSÃO AO TRONO

Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.

As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Ocorre que certamente Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.

O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento.

Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina deu à vontade do marido falecido…

REINADO

Uma das primeiras ações de Adriano após assumir o trono foi livrar-se de quatro importantes senadores, que tinham sido grandes colaboradores de Trajano. Contudo, as fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado.

A desagradável tarefa foi executada pelo seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…

Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.

Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas as evidências são de que esta decisão de Adriano foi correta, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la, já que a revolta dos locais havia se iniciado ainda no reinado de seu antecessor.

Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que também estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.

O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C – vide foto abaixo).

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Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo este sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes. Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.

Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres da Itália), implantado por Trajano.

Adriano declarou publicamente que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional.

E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125 D.C), e, após voltar à Roma, a África (128 D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128 D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129 D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C.

Todas essas viagens, a nosso ver, demonstravam uma visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.

Aliás,foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescente Antinoos, ou Antinous,  que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.

Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial (Trajano, ao contrário, deu preferência aos membros da classe senatorial), assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.

No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito.

Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.

Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu (que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.

(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)

PERSONALIDADE

A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser, um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas Adriano também era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.

Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:

Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.

Outra vez, quando Adriano viajava, uma mulher abordou a comitiva imperial para fazer um pedido, ao que ele respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .

Cássio Dião descreve Adriano como sendo um homem agradável de se encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Porém, ele excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Adriano também sabia manejar diversas armas.

Ainda, segundo Cássio Dião, Adriano:

“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.

Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.

Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento imperial não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.

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(Busto da imperatriz Víbia Sabina)

O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano foi com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo,  ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.

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Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis.  Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).

As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antínoo teria se oferecido voluntariamente para ser sacrificado em prol da vida ou saúde de seu amante, em algum misterioso ritual religioso, ou, ainda, ele teria sido apenas vítima de um infeliz acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.

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O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.

MORTE

O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.

Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.

Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:

“Pequena alma terna e flutuante,

hóspede e companheira de meu corpo,

vais descer a lugares pálidos, duros, nús,

onde renunciarás aos jogos de outrora.“

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(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)

Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou 21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Adriano inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio“.

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F I M

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CAPROTINIA

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(O Festival da Colheita, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871)

No dia 7 de julho, os romanos comemoravam as Nonas Caprotinas, ou Caprotinia, também chamadas, ainda, de Nonas dos Figos Selvagens, que era o festival em honra de Juno Caprotina, a divindade protetora das mulheres escravas.

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(Estátua de Juno Caprotina)

Segundo a lenda, uma virgem romana chamada Philotis, que tinha sido capturada pelos gauleses, ou, segundo outra versão, por uma tribo latina adversária dos romanos, subiu em uma figueira selvagem (Caprificus) existente no acampamento inimigo e acendeu uma tocha, assinalando para os romanos o local onde eles deveriam atacar os adversários.

Durante o festival da Caprotinia, do qual só participavam mulheres, as escravas deveriam correr se batendo com os próprios punhos ou com pedaços de pau, e depois elas banqueteavam-se sob uma figueira.

A BATALHA DE CARRAS (E TERIAM AS LEGIÕES ROMANAS DE CRASSO IDO PARAR NA CHINA?)

Em 53 A.C., o Triúnviro Marco Licínio Crasso (Crasso), governava a província romana da Síria, como resultado do acordo político firmado entre ele, Pompeu Magno e Caio Júlio César, que resultou no chamado Primeiro Triunvirato, o pacto político que acomodou temporariamente os interesses entre os três homens mais poderosos da Roma Republicana e o Senado.

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(Cabeça de estátua de Crasso)

Ciente de que, no que se refere aos louros obtidos nos campos de batalha, ele era inferior aos seus dois colegas, Crasso ansiava por uma conquista militar que lhe pusesse em pé de igualdade a Pompeu e César.

Sendo o homem mais rico de Roma, e conhecido por sua ganância, Crasso acreditava que seu caminho para a glória militar estava em atacar a Pártia, império que disputava com Roma a influência sobre o Oriente Médio e, principalmente, sobre o Reino da Armênia.

Note-se que a presença romana na Síria era um foco de tensão entre ambos os impérios e isso continuaria assim até o século VII D.C, quando o Imperador romano-bizantino Heráclio esmagou a Pérsia Sassânida, sucessora da Pártia, apenas alguns anos antes de toda a região ser varrida pela expansão dos árabes muçulmanos.

A BATALHA DE CARRAS

Crasso, então, decidiu invadir a Pártia, cruzando a fronteira com a Mesopotâmia, comandando 7 legiões em um total de 43 mil homens, sendo 35 mil legionários, 4 mil tropas leves e 4 mil cavaleiros.

Ao longo da História, as rotas de expedições militares contra a Mesopotâmia partiam da Armênia, montanhosa e menos árida e, mesmo quando eram originárias da Síria, costumavam seguir o curso do rio Tigre ou do Eufrates, porém, Crasso, ignorando os conselhos do rei armênio Artavasdes, aliado de Roma, decidiu cruzar o deserto visando um ataque direto às principais cidades partas.

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O rei Orodes II, da Pártia, decidiu enviar uma expedição punitiva contra os Armênios, e outro contingente, menor, com o objetivo de atrasar o avanço romano, contendo dez mil cavaleiros, sendo 9 mil deles arqueiros montados e mil cavaleiros couraçados, chamados de catafractos, comandados pelo general Surena.

Um chefe aliado de Roma, do reino de Osroene,  chamado  Ariamnes, provavelmente de origem aramaica ou árabe, instigou Crasso a avançar contra o contingente comandado por Surena, guiando-o para uma região árida e desolada do deserto. O que Crasso não sabia é que Ariamnes havia sido subornado pelos Partas.

Então, quando os romanos estavam já no deserto, próximo à cidade de Carras, os Partas cercaram os romanos, em 9 de junho de 53 A.C. (data apontada no poema “Os Fastos”, de Ovídio).

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(Estátua do general Surena, no Museu Mevlana, em Konya, na Turquia)

Embora em menor número no quantitativo total de tropas, os Partas se aproveitaram do fato de que a cavalaria romana era pouco numerosa e, valendo-se disso, eles conseguiam aproximar-se para atacar os romanos despejando torrentes de flechas, mas sem precisar entrar em combate direto com os legionários, que eram sabidamente superiores neste quesito.

Os romanos tentaram se proteger das flechas inimigas com os escudos, entrando na formação conhecida como “quadrado”. Porém, o calor do deserto e o aumento das baixas começaram a enfraquecer o moral dos legionários.

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No início, a tática dos romanos era esperar até que os arqueiros inimigos ficassem sem flechas, mas Surena, habilmente, conseguiu remuniciá-los usando camelos.

Incomodados com as incessantes descargas de flechas, os legionários, então, recorreram à mais defensiva de todas as formações, a tartaruga (testudo), que, no entanto, praticamente impedia qualquer contra-ataque romano.

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Crasso ordenou que um destacamento de 1300 cavaleiros gauleses, secundados por 500 arqueiros e oito coortes de infantaria (cerca de 4 mil soldados), comandados por seu próprio filho, Públio Cornélio Crasso, saíssem da formação e atacassem os cavaleiros partas, que fingiram uma retirada, visando afastar o destacamento do grosso das tropas romanas.

Enquanto as tropas comandadas por Públio avançavam, Surena ordenou que o seu contingente de arqueiros montados desse a volta e se colocasse na retaguarda do inimigo, enquanto os catafractos atacavam a cavalaria gaulesa.

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(Relevo de um arqueiro montado parta, (foto By Jean Chardin – Palazzo Madama, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1766352)

Os gauleses lutaram bravamente, mas, sem armadura e com armamento leve, não eram páreo para os pesados cavaleiros partas. Finalmente, todo o contingente, acossados pelas flechas, foi obrigado a se refugiar em uma colina, onde Públio, sem alternativas à rendição, resolveu cometer suicídio. Sobraram apenas 500 combatentes vivos de sua tropa, que foram capturados.

Enquanto isso, Crasso havia ordenado que o restante das tropas avançasse contra os Partas. No entanto, ao se aproximar dos inimigos, ele foi confrontado com a cabeça de seu filho espetado na lança de um catafracto.

Os ataques dos arqueiros partas, agora sem qualquer temor de contraataque por parte da cavalaria romana, recrudesceram e continuaram até a caída da noite, até o ponto em que Crasso, muito abalado pelo destino do filho, ordenou uma retirada total para a cidade de Carras.

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(Representação da Batalha de Carras, por piojote (Ferdinand Von Nielsen)

Os romanos deixaram no campo de batalha cerca de 4 mil soldados feridos, que foram prontamente mortos pelos Partas. Para piorar, durante a retirada para Carras, 4 coortes (cerca de 2 mil soldados) perderam-se na escuridão do deserto, sendo cercadas e liquidadas pelos inimigos.

Surena, então, ofereceu aos romanos uma trégua, que foi inicialmente recusada. Porém, os já desesperados soldados romanos ameaçaram fazer um motim e, assim, Crasso foi obrigado a negociar.

Quando Crasso e sua escolta foram ao encontro dos Partas para tratar dos termos do armistício, ocorreu um entrevero, após um soldado parta puxar as rédeas do cavalo do comandante romano e Crasso foi capturado.

Consta que os Partas, sabedores do já notório apreço de Crasso por dinheiro, teriam derramado ouro derretido pela sua garganta, matando-o dessa forma.

O exército romano, agora sem seu comandante, tentou romper o cerco, mas acabou sendo derrotado.

Apenas 10 mil soldados romanos conseguiram escapar e chegar à Síria, sendo, do exército original, 20 mil morreram e 10 mil foram capturados pelos Partas. As águias-estandartes das legiões também foram levadas pelos Partas como despojos, um fato considerado humilhante pelos romanos.  Elas somente seriam devolvidas quase 30 anos mais tarde, graças a um grande esforço diplomático do imperador Augusto.

CONSEQUÊNCIAS DA BATALHA

Os Partas, fortalecidos foram bem-sucedidos na invasão da Armênia, que passou, momentaneamente a ser sua aliada, complicando a situação estratégica de Roma no Oriente. Porém, ao tentar atacar a Síria, eles foram repelidos pelos sobreviventes da Batalha de Carras, comandados por Caio Cássio Longino (que depois seria um dos assassinos de Júlio César).

Muitos estudiosos entendem que a morte de Crasso, que resultou na dissolução do Primeiro Triunvirato, precipitou as tensões que resultaram na Guerra Civil entre os partidários da facção senatorial dos nobres (Optimates), liderados por Pompeu e a facção dos Populares, cujo líder era Júlio César.

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(A famosa estátua de Prima Porta, do imperador Augusto, em cuja couraça estão relevos retratando a devolução dos estandartes romanos capturados em Carras)

QUAL O DESTINO DOS SOLDADOS ROMANOS CATIVOS?

O rei Orodes II da Pártia, enviou os prisioneiros romanos capturados em Carras para o leste do seu território, usando-os como mão de obra para construções, pois os legionários romanos eram hábeis construtores.

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(Moeda cunhada pelo rei Orodes II, By Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=28299974)

Em 1941, o professor universitário de sinologia norte-americano Homer Dubs, da Universidade de Oxford, e profundo conhecedor da história da China, notou que muitos habitantes da região onde ficava a antiga cidade de Liqian, na província chinesa de Gansu, tinham olhos claros e traços caucasianos. Homer Dubs relacionou esse fato com um antigo relato histórico chinês da Batalha de Zhizhi, ocorrida em 36 A.C., quando o exército Han atacou uma fortaleza controlada pelo chefe da tribo Xiongnu (ou Hsiung-nu), oriunda das estepes asiática, próxima a Taraz, no atual Casaquistão.

Segundo os relatos, no ataque, os Han teriam lutado contra um grupo de soldados que lutavam em uma formação de “escamas de peixe”, que relembraria a “tartaruga” dos romanos. Assim, Dubs teorizou que os soldados da formação “escama de peixe” seriam os legionários romanos de Crasso, que foram feitos prisioneiros em 53 B.C., e que, depois de serem levados para a fronteira oriental da Pártia, teriam conseguido escapar e virado mercenários à serviço dos Xiongnu.

Finalmente, segundo Dubs, os legionários capturados na Batalha de Zhizhi teriam sido assentados pelos Han em Liqian, o que explicaria os traços caucasianos dos seus habitantes. Vale observar, contudo, que o lugar onde ocorreu a referida batalha fica quase à meio-caminho entre Carras e Liqian…

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O problema é que jamais se encontrou qualquer vestígio de artefato de origem ou de inspiração romana em Liqian. Testes de DNA também não encontraram marcadores específicos da Itália (origem da maior parte das legiões de Crasso).

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(A prefeitura da Liqian não perdeu tempo e construiu esse monumento à “herança romana” da cidade. Note-se o legionário romano à direita).

Embora metade da população atual da antiga Liqian tenha DNA caucasiano, isso se coaduna com o fato de o local encontrar-se na Rota da Seda, milenar via de contato entre a China e a Ásia Central. Acrescente-se que, durante muito tempo, desde 2 mil A.C e até antes disso, houve um influxo de povos indo-arianos para a China, como, por exemplo, os Tocarianos, que são caucasianos. Vale observar, por sinal, que as múmias de Tarim, encontradas em território chinês e datadas de 2000 A.C, são de pessoas de cabelos louros e traços ocidentais (vide foto de algumas das múmias abaixo)

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AGRIPINA, A JOVEM

Em 23 de março de 59 D.C morreu Júlia Agripina, também conhecida como Agripina, cognominada “A Jovem” (para distingui-la de sua mãe, Agripina, chamada, “A Velha“), assassinada a mando de seu filho, o imperador Nero, após várias tentativas frustradas de utilizar métodos que simulassem um acidente.

Busto de Agripina, a Jovem, foto National Museum in Warsaw, CC0, via Wikimedia Commons

Agripina, a Jovem nasceu em 15 de novembro de 15 D.C, filha do adorado general Germânico, sobrinho e filho adotivo do imperador Tibério, e de Agripina, a Jovem, neta do primeiro imperador Augusto. Seu pai Germânico era filho de Antônia, a Jovem, por sua vez, filha do Triúnviro Marco Antônio com Otávia, a Jovem, irmã do imperador Augusto. Germânico também era irmão de Cláudio, que mais tarde se tornaria, para a surpresa geral, imperador.

Os pais de Agripina poderiam ser considerados uma espécie de família real modelo para a opinião pública romana. E Agripina foi a primeira filha do casal, que já tinha três filhos do sexo masculino, incluindo o terceiro, de nome Caio Júlio César, que ficaria conhecido como o imperador Calígula. Depois dela, nasceriam, ainda, duas irmãs, Júlia Drusila e Julia Lívila, além de outras três crianças, que morreram ainda bebês.

Germânico tornou-se um general de sucesso, comandando campanhas na Germânia, e, por isso, Agripina, a Jovem nasceu em um acampamento militar, chamado de Oppidum Ubiorum, por se situar no território da tribo germânica dos Úbios, que mais tarde se tornaria a cidade alemã de Colônia.

Porém, a sorte de Germânico e de sua família sofreria uma guinada quando ele, que havia sido adotado como filho e herdeiro por Tibério seguindo uma determinação do falecido imperador Augusto, morreu em circunstâncias suspeitas, talvez vítima de uma doença não identificada, quando em missão na cidade de Antióquia, na Síria, em 10 de outubro de 19 D.C.

Pairaram fortes suspeitas de que a causa da morte de Germânico teria sido o envenenamento, atribuído às maquinações de Lívia Drusila (Júlia Augusta), a poderosa mãe de Tibério, possivelmente com o consentimento, tácito ou expresso, do imperador, inflamaram a opinião pública, sobretudo porque Agripina, a Velha não se esquivava de expressar em público a sua crença de que o marido fora morto para permitir que Druso, o Jovem, o filho natural de Tibério, sucedesse o pai. Observe-se que Druso era casado com Livilla, irmã de Germânico.

Cabeça de Agripina, a Velha

Entretanto, o próprio Druso, o Jovem morreria, em 14 de setembro de 23 D.C, também aparentemente em virtude de um mal misterioso, fato que recolocou Nero Júlio César e Druso Júlio César, os dois filhos mais velhos de Agripina, a Velha de novo no topo da linha sucessória para o trono, sendo ambos adotados por Tibério.

Todavia, após a morte do filho, Tibério paulatinamente foi confiando os assuntos administrativos ao Prefeito Pretoriano Élio Sejano, a quem se referia como seu “sócio-trabalhador“, que, dessa forma prestigiado, começou a ambicionar o trono, para si ou para sua descendência. Sejano chegou a pedir autorização a Tibério para se casar com Livilla, a viúva de Druso, de quem era amante, mas o velho imperador não permitiu o casamento pelo fato do auxiliar ser apenas um Equestre e não pertencer a uma família ilustre. Tibério também negou autorização para que Agripina, a Velha casasse novamente, certamente temeroso de que ela se aproveitasse disso para derrubá-lo. Em verdade, Tibério já andava desconfiado com a viúva de Germânico, que vinha adotando um comportamento independente, relacionando-se com figuras ilustres. Além disso, as relações entre sogro e nora já estavam eivadas de desconfiança, relatando as fontes que Agripina chegou a recusar uma fruta oferecida por Tibério por temer que estivesse envenenada.

Sejano, mesmo assim, não desistiu de suas ambições e tornou-se mais ousado após Tibério, desiludido com o governo e com as intrigas, ter deixado Roma para ir morar em sua espetacular villa em Capri. O ambicioso Prefeito Pretoriano começou a perseguir seus potenciais rivais, e, em sua mira, encontravam-se, em primeiro lugar, Agripina, seus filhos e seus aliados.

Não obstante, Tibério determinou que, em 28 D.C, Agripina, a Jovem, que na ocasião tinha apenas treze anos de idade, se casasse com o ilustre Gnaeus Domitius Ahenobarbus (Cneu Domício Enobarbo), sobrinho-neto de Augusto, que, sendo filho de Antônia, a Velha, tia de Germânico (e irmã da Antônia, a Jovem), era primo em segundo grau da jovem. Assim, parece que a hostilidade do velho imperador, em princípio, não se estendia a prole de Agripina, a Velha. Nessa época, inclusive, Agripina vivia no Palácio tendo a criação supervisionada pela matriarca dos Júlio-Cláudios, Lívia Drusila, e por sua avó, Antônia, a Jovem, ambas mulheres de personalidade forte que certamente influenciaram a criação da menina.

Vale observar que o historiador romano Suetônio escreveu que Cneu Domício Enobarbo era um homem cruel e desonesto. Talvez por isso, ao receber os cumprimentos dos amigos pelo nascimento de seu filho Lúcio Domício Enobarbo (o futuro imperador Nero), em 15 de dezembro de 37 D.C., o citado autor registra que ele teria dito:

“Nada que não seja abominável e uma desgraça pública pode ter nascido de Agripina e de mim”

Suetônio, Vida de Nero, 6
Busto de Cneu Domício Enobarbo, By I, Sailko, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9944785

Por sua vez, Agripina, a Jovem, também por ocasião do nascimento de Nero, segundo o historiador Cássio Dião, ao consultar um astrólogo acerca do futuro do filho, teria ouvido a previsão de que ele reinaria mas que mataria a própria mãe, revelação que teria feito ela gritar, alterada:

“Que ele me mate, conquanto que reine!”

Cássio Dião, Epitome Livro LXI, 2

A morte da veneranda ex-imperatriz Lívia Drusila, viúva de Augusto e mãe de Tibério, em 29 D.C., removeu o último obstáculo que ainda protegia Agripina, a Velha e seus filhos das maquinações de Sejano. Com efeito, após a morte da imperatriz, foi revelada a existência de uma correspondência, supostamente escrita por Tibério, e provavelmente sob a instigação de Sejano, denunciando Agripina e seu filho primogênito, Nero Júlio César, por supostas condutas inapropriadas. Porém, novamente, o clamor popular se manifestou em favor da viúva de Germânico e de seu filho e, assim, Tibério teve que se contentar em exilar Agripina para a ilha de Pandatária, a 46 km da costa da região do Lácio, em 29 D.C.

Por sua vez, Nero Júlio César, o filho mais velho, foi exilado para a ilha de Pontia, a 33 km da costa do Lácio, onde, em 31 D.C, ele seria compelido a se suicidar pelos executores enviados por Tibério.

Caio César, o filho mais novo de Agripina, a Velha, então já conhecido como Calígula, foi morar com seu tio Tibério, em Capri. Ali, de acordo com o relato de Suetônio, o jovem Calígula (17 anos) habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério e, graças a isso, teria conseguido sobreviver ao destino da sua família.

Cabeça de Nero Júlio César, foto de National Archaeological Museum of Tarragona – This image was provided to Wikimedia Commons by Museu Nacional Arqueològic de Tarragona as part of an ongoing cooperative GLAM-WIKI project with Amical Wikimedia. The artifact represented in the image is part of the permanent collection of Museu Nacional Arqueològic de Tarragona., CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=33898602

Melhor sorte não coube a Druso Júlio César, segundo filho de Agripina, que foi denunciado por sua esposa, Emília Lépida, supostamente também amante de Sejano, em 30 D.C, sendo preso e confinado a uma masmorra no Palatino, onde, em 33 D.C, morreria de inanição, após, segundo relatos, ter que comer o forro do próprio colchão.

Finalmente, Agripina, a Velha, cujo exílio não havia dobrado o seu inquebrantável espirito, após sofrer muitas indignidades, acabou morrendo em Pandatária, também em 33 D.C, segundo consta de greve de fome, embora paire a suspeita de que ela tenha sido privada de alimento por ordem de Tibério.

Contudo, no dia 18 de outubro de 31 D.C., chegou a vez do todo-poderoso Sejano ser executado, tendo seu corpo atirado para rolar pelas “Escadas Gemônias“, onde ficou por três dias sendo vilipendiado pela turba. De acordo com o historiador Flávio Josefo, foi Antônia, a Jovem, cunhada de Tibério e mãe do falecido Germânico, quem denunciou Sejano a Tibério. Ela teria enviado uma carta ao imperador, que estava em Capri, contando dos planos dele para tomar o poder, nos quais estaria sendo auxiliado pela amante, Livilla, filha da própria Antônia e também acusando-o de ter sido o responsável pela morte de Druso.

Não obstante a desgraça da família de Germânico e Agripina, a Velha, o marido de sua filha, Agripina, a Jovem, Cneu Domício Enobarbo, foi nomeado Cônsul em 32 D.C. Porém, em 37 D.C, poucos meses antes do nascimento de seu filho, Nero, ele foi acusado de traição, assassinato e adultério e ele somente se safou graças à morte de Tibério, em 16 de março de 37 D.C. Cneu Domício Enobarbo morreria poucos anos depois, de um edema, em janeiro de 40 ou 41 D.C

Morto Tibério, ele foi imediatamente sucedido por seu sobrinho-neto, Calígula, de 25 anos, ja que seu próprio neto, Tiberius Gemellus, era ainda muito novo (18 anos) e logo seria assassinado a mando do novo imperador. Agora, da vasta prole de Germânico e Agripina, a Velha, só restavam vivos: Calígula, Agripina, a Jovem, Júlia Drusila e Júlia Lívila.

Inicialmente, Calígula concedeu várias honras às irmãs. Há relatos, inclusive, de que ele teria relações incestuosas com Júlia Drusila, a quem tratava como se fosse sua esposa, tendo os dois, ainda na adolescência, sido flagrados na cama por sua avó, Antônia, a Jovem, segundo o frequentemente maledicente historiador romano Suetônio. Porém, Drusila em breve contraiu uma doença e morreu, deixando Calígula devastado.

Moeda de Calígula, tendo no verso suas três irmãs, Agripina, Drusila e Júlia Livilla, foto de Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Entretanto, depois de seis meses de um reinado moderado, Calígula começou a mostrar fortes sinais de despotismo e insanidade. E parece que a relação de Calígula com suas duas irmãs sobreviventes não era tão próxima como a que ele mantinha com Drusila.

Talvez por esses dois motivos, em 39 D.C., Agripina, a Jovem e sua irmã, Júlia Lívila, foram acusadas de fazer parte de uma conspiração, fictícia ou verdadeira, contra o seu irmão imperador, para substituí-lo pelo seu cunhado Marco Emílio Lépido, o viúvo de Júlia Drusila, de quem ambas as irmãs seriam amantes, segundo supostas cartas apresentadas por Calígula, resultando na condenação de Agripina e da irmã ao exílio nas ilhas Pontinas, outro arquipélago ao largo da costa do Mar Tirreno (Lépido foi prontamente executado). Então, Calígula aproveitou esse pretexto para confiscar a herança de seu jovem sobrinho Nero, que foi morar com sua tia, Domícia Lépida, irmã do seu pai. Todas as propriedades de Agripina também foram confiscadas e vendidas em leilão.

Reabilitação de Agripina e Nero

Todavia, a sorte de Agripina e Nero mudaria com o assassinato de Calígula pelo centurião Cássio Queréa, em 24 de janeiro de 41 D.C., em uma conspiração engendrada pela Guarda Pretoriana. Logo após o tiranicídio, os guardas descobriram, escondido atrás de uma cortina, o tio da imperial vítima, Cláudio, até então tido como imbecil e incapaz de ocupar qualquer cargo público, e o aclamaram como novo Imperador.

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Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871

Cláudio era irmão de Germânico e, portanto, não surpreende que uma das primeiras medidas de Cláudio tenha sido chamar de volta do exílio as filhas deste, Agripina e Júlia Lívila, que eram suas sobrinhas. Assim reuniram-se, novamente, Agripina e seu filho Nero. O novo imperador mandou também devolver a Nero, que era seu sobrinho-neto, a herança que havia sido confiscada por Calígula.

Recém viúva, Agripina começou a procurar um novo marido. O primeiro alvo de seu interesse foi o general e ex-Cônsul Sérvio Sulpício Galba (o futuro imperador Galba). Porém, Galba, que, embora fosse casado, alegadamente tinha preferência sexual por homens, e por isto não se interessou, segundo o relato de Suetônio. Mesmo assim, conta este historiador, as investidas de Agripina foram tão evidentes que, certa vez, a sogra de Galba, indignada com a ousadia, esbofeteou-a na frente de outras mulheres casadas.

Nova oportunidade, entretanto, surgiu com o divórcio da tia de Nero e cunhada de Agripina, Domícia Lépida. dessa vez, com o apoio de Cláudio, permitindo que Agripina se casasse, por volta de 42 D.C., com o rico ex-Cônsul Gaius Sallustius Passienus Crispus, que acabou ganhando um segundo consulado, em 44 D.C.

Agripina convenceu o marido a nomeá-la como herdeira, e segundo Suetônio, com isso ele, inadvertidamente, acarretou a própria morte, pois Agripina em poucos anos o mataria, por volta de 47 D.C., provavelmente por envenenamento, ficando com a herança.

Ao contrário das expectativas, Cláudio mostrou-se um administrador competente das questões de Estado, valendo-se do auxílio de um ministério integrado por libertos, especialmente Tiberius Claudius Narcissus, como praepositus ab epistuli (secretário da correspondência imperial) e Marcus Antonius Pallas, como secretário do tesouro. Todavia, o mesmo não se pode dizer quanto à sua vida conjugal…

Após dois casamentos fracassados, Cláudio, antes de assumir o trono, tinha se casado com Valéria Messalina (filha de Domícia Lépida), por volta de 39 D.C., uma esposa que se mostrou dominadora e notabilizou-se pela infidelidade e promiscuidade sexual, segundo os relatos antigos, que talvez sejam um tanto exagerados (ver Tácito, Suetônio, Plínio e Juvenal). Messalina deu a Cláudio, em 41 D.C., um filho, que recebeu o nome de Britânico. Porém, Messalina tomou-se de inimizade por Júlia Lívila, a irmã de Agripina e sobrinha de Cláudio, por considerar que a jovem não a tratava com respeito que considerava devido a uma imperatriz, além dela ser muito bonita e ter muita intimidade com o tio.

Messalina, então, conseguiu que Lívila, que era casada com ex-Cônsul Marcus Vinicius, fosse acusada de adultério com o senador e filósofo estoico Sêneca, o Jovem, em 41 D.C, sendo por isto exilada, provavelmente de novo em uma das ilhas Pontinas, terminando por morrer de inanição forçada, da mesma forma que a sua mãe, no ano seguinte, por ordem de Cláudio. Já Sêneca também foi exilado, mas para outra ilha, a Córsega.

Cabeça de Júlia Lívila, foto de By © José Luiz Bernardes Ribeiro, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62550099

Mesmo assim, Agripina, que agora era a única dos filhos de Germânico ainda viva, e Nero continuaram tendo acesso ao Palácio e mostrando-se populares entre a Plebe.

A imperatriz imediatamente percebeu que o jovem Nero era uma ameaça às pretensões de Britânico ao trono. Consta, inclusive, que Messalina encomendou a morte de Nero, então ainda uma criança pequena, a assassinos que chegaram a entrar no quarto do menino durante a sesta e somente não completaram a tarefa porque eles se assustaram com o que pensaram ser uma cobra (na verdade, Nero usava uma pele de cobra enrolada no pescoço, como talismã. Posteriormente, Agripina mandaria colocar esta pele dentro de um bracelete, o qual Nero só deixaria de usar após a morte da mãe).

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Messalina segurando Britânico, estátua no Museu do Louvre, foto de Ricardo André Frantz

A grande popularidade de Agripina e Nero foi atestada quando, durante os concorridos Jogos Seculares, em 47 D.C., eles foram ovacionados pelo povo, que demonstrou ter por eles muito mais simpatia do que por Messalina e Britânico, que também estavam presentes no evento.

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Estátua de Nero criança, foto de Prioryman 

A conduta pretensamente escandalosa de Messalina, real ou exagerada, foi a causa da sua desgraça, e ela acabaria sendo sentenciada à morte em 48 D.C., supostamente por ter se casado em segredo com um senador, Gaius Silius, no que seria uma conspiração para assassinar o seu marido e imperador. Há relatos de que, ainda assim, Cláudio teria relutado em ordenar a execução dela, que somente teria sido levada a cabo por iniciativa direta de seu auxiliar mais chegado, o liberto Tiberius Claudius Narcissus.

Agripina, imperatriz

Após a execução de Messalina, os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, tal união, entre tio e sobrinha, era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que alterar essa lei não era tarefa difícil, e o Senado, induzido pelo imperador, revogou a proibição.

Os relatos acerca da causa do enlace são de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, considerações políticas também pesaram nesta decisão: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu filho, Britânico, tinha apenas sete. Na hipótese de Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa muito saudável, morrer, ou ficar incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, formalmente, ainda que de fato o seu poder fosse quase absoluto, o imperador nos atos públicos, ainda era considerado como um primeiro-magistrado. Com efeito, a transição legal e cultural para uma monarquia ainda estava em curso, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Portanto, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no trono, esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual o próprio Augusto já tinha passado, quando, sendo ele já idoso, e após o falecimento de alguns de seus vários herdeiros prediletos de sangue, seus sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, Augusto viu-se obrigado a adotar o seu enteado Tibério, filho de sua esposa Lívia.

Assim, quase que imediatamente após a revogação da lei que caracterizava o casamento deles como incesto pelo Senado, em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero). Novamente, foram os argumentos de Pallas, o grande aliado (e segundo rumores, amante) de Agripina, decisivos para convencer Cláudio a tomar essa medida.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal, e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. Segundo o comentário de Suetônio, essas foram umas das cenas mais notáveis daqueles tempos.

Tácito descreve o episódio em que o chefe bretão Carataco, capturado e levado em triunfo pelas ruas de Roma, pediu para si e para seu familiares clemência a Cláudio e Agripina, cada um sentado em seu palanque, e, obtida a graça, os bárbaros libertados demonstraram sua gratidão fazendo reverências em frente ao imperador e a imperatriz, algo inusitado na História de Roma.

O prestígio de Agripina era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha. Vale citar que nunca, antes ou depois  na História de Roma, uma cidade romana foi batizada em homenagem a uma mulher.

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Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.

Em 50 D.C., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de Augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

No ano seguinte, em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono, e também foi nomeado Proconsul e entrou para o Senado. A partir daí, Nero começou a participar das cerimônias públicas junto com o Imperador, e até moedas foram cunhadas com a efígie de ambos.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava recebendo a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Ainda em 51 D.C, Agripina persuadiu Cláudio a nomear o  Sextus Afranius Burrus (Burro) como único Prefeito Pretoriano (Comandante da Guarda Pretoriana), no lugar de Lusius Geta e Rufius Crispinus.

E, em 9 de junho de 53 D.C, sob instigação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia. A noiva antes tinha estado compromissada com Lucius Junius Silanus Torquatus, um nobre ilustre que era tataraneto do imperador Augusto. Porém, Agripina, planejando com bastante antecedência o casamento de Nero com Claudia Octavia, manejou para que Silanus Torquatus fosse acusado falsamente de incesto co sua irmã, Junia Calvina, em 48 D.C, Em função disso, o noivo foi expulso do Senado e, no dia do casamento de Agripina e Cláudio, ele se suicidou.

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Cabeça de Cláudia Otávia, primeira esposa de Nero

Enquanto isso, Agripina supervisionava cuidadosamente a preparação de Nero para a futura ascensão ao trono imperial, designando, por exemplo, o afamado filósofo estoico Sêneca, o Jovem, que graças a Agripina havia voltado do exílio, e para quem ela havia conseguido o cargo de Pretor, para ser o tutor do rapaz. Ela também não poupava esforços para fazer o filho querido pelo populacho. Quando Cláudio adoeceu ela organizou em nome de Nero, uma série de magníficas corridas no Circo Máximo como agradecimento pela recuperação do imperador. E, em paralelo, Agripina também espalhava boatos acerca da saúde de Britânico, caracterizando-o como insano e epiléptico.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

“Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Segundo os historiadores Tácito, Suetônio e Cássio Dião, Cláudio somente estaria esperando a maioridade do filho natural para nomeá-lo como seu novo herdeiro, e ele teria declarado isso na presença de outros, sendo esse o fato que levou Agripina a tramar a sua morte.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente Narcissus, partidário de Britânico, estar descansando em sua villa na Campânia (Agripina mandou prendê-lo assim que Nero assumiu o trono, e na ocasião ele se suicidou ou foi executado), e contratou a célebre envenenadora Locusta para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio, com a cumplicidade de seu provador, o eunuco Halotus. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada pelo seu médico Xenofonte, tendo agonizado durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

Nero imperador (com Agripina)

Em seguida a A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado reconhecidamente odiava Cláudio e, acima de tudo, Agripina e Nero podiam contar com a lealdade de Sextus Afranius Burrus (Burro), o Prefeito da Guarda Pretoriana indicado por Agripina...

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Agripina, personificada como a deusa Ceres, coroa Nero. A mensagem devia ser evidente para todos

Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

Tendo na ocasião Nero apenas dezessete anos de idade, na prática era Agripina quem efetivamente controlava o governo. Sintomaticamente, no primeiro dia de seu reinado, ao dar a sua primeira senha para o tribuno que chefiava a guarda palaciana, Nero escolheu a seguinte:

“A melhor das mães“…

Foi Agripina também que providenciou os dois principais auxiliares que aconselhariam Nero durante os primeiros anos do seu reinado: o filósofo Sêneca, o Jovem, que, segundo Cássio Dião, redigiu seu primeiro discurso dele ao Senado, e Sexto Afrânio Burro, que foi mantido como Prefeito da Guarda Pretoriana. Os dois asseguraram que o jovem imperador tivesse um começo de reinado promissor, com várias medidas sensatas e racionais.

Vale notar que, ainda durante o reinado de Cláudio, a administração dos assuntos de Estado começou a ser desempenhada cada vez mais pelos escravos libertos do Imperador que trabalhavam nas dependências do Palácio e que passaram a constituir o embrião de verdadeiros ministérios, no sentido administrativo moderno, assumindo tarefas que antes estavam a cargo dos antigos magistrados da República. Nero herdou esse sistema, e muitos libertos de Cláudio continuaram a exercer seus cargos no seu reinado, como por exemplo o grande aliado de Agripina, o liberto Marcus Antonius Pallas, que continuou exercendo o cargo de Secretário do Tesouro, uma circunstância que assegurou certa continuidade administrativa.

Sêneca e Burro, sensatamente, procuraram assegurar que o imperador mantivesse boas relações com o Senado Romano, comparecendo às sessões desta assembleia e levando em consideração as recomendações dos senadores. Os dois preocuparam-se especificamente em abolir o costume implementado por Cláudio, de conduzir julgamentos em sessões privadas realizadas no próprio Palácio (“in camera”), o que era considerado contrário aos princípios jurídicos romanos tradicionais, que previam audiências públicas..

Todavia, os dois conselheiros em questão, percebendo os danos à imagem do reinado que isto vinha acarretando, procuraram diminuir a excessiva intervenção de Agripina nos assuntos do governo, e, com esse propósito, eles chegaram até a incentivar a paixão que Nero nutria pela liberta Acte, que virou amante do Imperador. Dessa forma, além de afastar Nero da influência da mãe, eles também visavam diminuir a inclinação ao desregramento sexual que já se percebia no jovem imperador, impulsos que o casamento com a imperatriz Cláudia Otávia parecia incapaz de arrefecer.

Um episódio narrado por Cássio Dião, mostra um bom exemplo do propósito de Sêneca e Burro:

“Uma embaixada dos Armênios havia chegado e Agripina quis subir na tribuna de onde Nero falava com eles. Os dois homens (Sêneca e Burro), vendo a aproximação dela, persuadiram o jovem imperador a descer e ir ao encontro de sua mãe antes que ela pudesse chegar ali, como se ele fosse cumprimentá-la de alguma maneira especial. Então, tendo feito isso, eles não subiram de novo na tribuna, de modo que aquela fraqueza do Império não se tornasse aparente para os estrangeiros; e, posteriormente, eles trabalharam para prevenir que qualquer assunto público de novo ficasse nas mãos dela.”

Cássio Dião, Epítome do Livro XLI

Observe-se que Suetônio acusa diretamente Nero e Agripina de manterem uma relação incestuosa, mencionando até que isso costumava ocorrer quando os dois viajavam pelas ruas romanas em liteiras, um comportamento que seria denunciado pelas manchas suspeitas na toga do filho…Outros autores, de fato, também citam este costume que ambos tinham de andar na mesma liteira, mas muitos historiadores consideram que a obra de Suetônio, em muitas passagens, tende a reproduzir e aumentar boatos escandalosos, sem muita preocupação com a verdade histórica.

A tônica, porém, em todas as fontes, é de que Nero não nutria muito entusiasmo pelas tarefas governamentais, preferindo dedicar-se ao canto, ao teatro e às competições esportivas, sobretudo corridas de cavalos. Progressivamente, também, o poder absoluto lhe permitiu experimentar as mais variadas práticas sexuais.

Assim, a falta de aptidão para o cargo, a juventude e a onipotência uniram-se para empurrar Nero para uma ilimitada devassidão. Por outro lado, o avanço dos anos deu-lhe confiança para cada vez mais afirmar a sua vontade e ignorar os conselhos de Sêneca e Burro, ao passo que a repetida intromissão de Agripina em sua vida começou a lhe parecer insuportável, notadamente a oposição que a mãe externava em relação ao seu romance com Acte.

Aparentemente, Agripina se ressentia de não ser mais a figura feminina principal na vida do filho, e da perda de poder e influência que isso acarretava. Assim, ela se referia a Acte como: “minha competidora, a liberta” e “minha nora, a camareira“…

A insistência de Nero em continuar a relação amorosa com Acte irritou tanto Agripina que, segundo Cássio Dião, certa vez ela se irritou e disse na cara do filho:

Fui eu que te fiz Imperador!

Cássio Dião, Epítome do Livro LXI, 7

Por sua vez, farto da interferência da mãe, Nero, com o fim de diminuir o poder de Agripina, demitiu Pallas do cargo de secretário.

Outro fator de discórdia entre mãe e filho, e talvez mais importante, foi o fato de Agripina, certa vez, ter insinuado que Britânico aproximava-se da maioridade, dando a entender a Nero que ela poderia apoiar o rapaz como sendo o legítimo herdeiro de Cláudio. Por isso, em 55 D.C., Nero demitiu o liberto Pallas, que tinha sido um fiel aliado de Agripina desde os tempos de Cláudio, e, segundo algumas fontes, ambos seriam amantes.

Ainda em 12 de fevereiro de 55 D.C., Britânico morreu, de maneira suspeita, no dia exato em que ele completaria a maioridade. Segundo os autores antigos, ele foi envenenado a mando de Nero, que teria também recorrido aos serviços da envenenadora Locusta.

Após a morte de Britânico, aparentemente Nero sentiu-se confiante para se livrar da influência da mãe e dos conselheiros que ela havia escolhido.

O estranhamento entre Nero e Agripina ficou evidente quando o imperador ordenou que a Guarda Pretoriana retirasse a escolta que até então acompanhava a mãe pelas ruas, o que foi imediatamente percebido pela população.

Mas a relação de Nero com a mãe azedou de vez quando, em 58 D.C., a nobre Popéia Sabina, a Jovem, esposa de seu amigo Marcus Sálvio Otão (o futuro imperador Otão) tornou-se amante dele. Agripina, opondo-se ao romance, aproximou-se da imperatriz Cláudia Otávia, que, em oito anos de casamento com Nero, não tinha gerado filhos, muito em função do desinteresse do marido pela esposa.

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Popéia Sabina, segunda esposa de Nero

Popéia Sabina, em vingança à oposição de Agripina ao seu romance com o imperador, teria aconselhado Nero a assassinar a mãe, segundo Tácito e Cássio Dião (Nota: Popéia seria natural de Pompéia, e a sua magnífica Villa, na cidade vizinha de Oplontis, foi soterrada pela erupção do Vesúvio e descoberta em excelente estado de conservação -vide fotos abaixo).

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Morte de Agripina

Para evitar que o público desconfiasse da morte de Agripina, bem como para atraí-la para a armadilha, Nero fingiu uma reaproximação, voltando a ser amistoso e atencioso com a mãe

Os historiadores narram que Nero engendrou vários esquemas engenhosos para matar Agripina, que iam desde o naufrágio em um navio previamente sabotado para se desmanchar no mar (ideia do liberto Anicetus, preceptor de Nero na infância e que odiava Agripina) ao desabamento provocado do teto de um aposento que ela ocupava.

Nero, então, convidou a mãe para ir até a Campânia, região onde a elite romana frequentava o afamado balneário de Baiae, onde ela embarcaria em um navio adredemente preparado para ter uma seção que, posteriormente, em um momento determinado, se romperia, deixando Agripina cair no mar. Desse modo, quando o dispositivo fosse acionado, durante viagem, o público não desconfiaria da morte da mãe por afogamento.

Após embarcar no navio, algum dispositivo foi acionado e uma carga de barras de chumbo caiu em cima de Agripina, mas ela e sua amiga Acerronia Pollia foram protegidas pela cabeceira de madeira maciça da cama onde viajavam. Como o dispositivo não funcionou direito, os marinheiros tentaram virar o navio e Agripina e Acerronia caíram no mar. Na confusão, Acerronia, que estava se debatendo, procurando se salvar, achando que desta maneira ela seria ajudada pelos marinheiros, gritou que ela era Agripina, sem saber que os marinheiros eram partícipes do atentado. Então, acreditando que Acerronia era Agripina, os marinheiros começaram a bater nela com os remos, terminando por matá-la. Agripina, por sua vez, apesar de também receber uma remada, que a machucou, conseguiu nadar até a costa, ou segundo outra versão, foi resgatada por um barco de pesca.

Segundo Tácito e Cássio Dião, já a salvo em sua Villa em Bauli, nas proximidades, para onde os populares a haviam levado, Agripina concluiu que o naufrágio havia sido uma tentativa de assassiná-la, mas decidiu que a melhor estratégia seria fingir que acreditava que o naufrágio era um acidente e enviou um mensageiro a Nero contando do sucedido e que ela havia sobrevivido.

Contudo, a sorte de Agripina já estava lançada e Nero, ao receber a notícia, após consultar Burro e Sêneca, que disseram não ser recomendável confiar na lealdade da Guarda Pretoriana no que se referia à execução da filha do adorado Germânico ordenou que Anicetus fosse até Bauli e terminasse a tarefa.

Anicetus reuniu um grupo de marinheiros armados, possivelmente os mesmos que tripulavam o navio-armadilha e foi até a Villa de Agripina. Quando eles entraram, ela imediatamente percebeu o motivo da presença deles. Era 23 de março de 59 D.C.

Então, quando o executor ergueu a espada, Agripina rasgou a sua roupa, e como lamento por ter parido o filho, apontou para o próprio ventre, dizendo:

“Acerte aqui!”

Tácito, Anais, Livro XIV, 8

Ao receber a notícia da morte da mãe, Nero quis conferir pessoalmente, seja para certificar de que ela estava mesmo morta, ou por desejo de vê-la pela última vez.

De acordo com Cássio Dião, quando Nero chegou ao local, ele despiu o cadáver da mãe, percorreu todo o corpo dela com os olhos e examinou os ferimentos dela, “fazendo um comentário mais abominável que até o próprio assassinato“:

“Eu não sabia que eu tinha uma mãe tão bonita”

Cássio Dião, Epítome do Livro LXI, 14

O corpo de Agripina foi cremado na mesma noite. Em seu funeral, Nero manteve-se mudo e aparentemente apavorado, mas a morte da mãe não causou muita comoção e os aduladores de plantão até o congratularam pela morte da mãe, pelo fato dele agora estar livre das maquinações de Agripina. Entretanto, os relatos são de que Nero viveu o resto da vida tendo pesadelos sobre a mãe e sendo consumido pela culpa.

Após o reinado de Nero, as cinzas de Agripina foram depositadas em um mausoléu simples, em Miseno, providenciado por seus antigos serviçais.

Consta que Agripina escreveu suas memórias, hoje desaparecidas, que chegaram a ser consultadas pelo historiador Tácito e pelo escritor e naturalista Plínio, o Velho, que escreveram respectivamente, cerca de 20 (o segundo) e 60 anos (o primeiro) após a morte dela.

CONCLUSÃO

A vida de Agripina, a Jovem é notável porque mostra como, a despeito de viver em uma sociedade patriarcal e até certo ponto misógina, ela conseguiu influenciar o curso da História de Roma e exercer poder de fato, como poucas mulheres na Antiguidade e até mesmo além. Apesar disso, ela não deixou uma imagem virtuosa, passando a História como mulher manipuladora e cruel.

De qualquer forma, a trajetória dela demonstra as mazelas e contradições do regime inaugurado por seu bisavô Augusto.

FIM

A BATALHA DE MUNDA

No dia 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, próximo ao atual vilarejo de Lantejuela, na Andaluzia, os exércitos liderados pelo Ditador de Roma, Caio  Júlio César, e pelos líderes da facção senatorial dos Optimates, Cneu Pompeu e Publius Attius Varus, bem como pelo general ex-partidário de César, Tito  Labieno, se enfrentaram em uma terrível batalha, que seria a última travada no contexto da Guerra Civil.

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Após a morte de Pompeu Magno, no Egito, os Optimates (os defensores dos privilégios da aristocracia senatorial) resolveram continuar a guerra contra César. Assim, eles conseguiram reunir, na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos de César: Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo mais recente, Tito Labieno, que, surpreendentemente, abandonara seu antigo líder e se bandeara para o lado dos Optimates. Foram se juntar a eles,  na atual Tunísia, os dois filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto Pompeu. E os adversários de César ainda contariam com a ajuda do rei Juba, da Numídia.

César deixou Roma e partiu para a África, conseguindo sitiar os Optimates na cidade de Tapsos.  Na batalha que se seguiu, em 06 de abril de 46 A.C, os Optimates foram derrotados e, em decorrência, Catão, o Jovem e Metelo Cipião cometeram suicídio.

Enquanto isso, Cneu e Sexto Pompeu conseguiram fugir para a Espanha, para onde também escapou Labieno. Na Espanha, os três conseguiram formar um novo exército, incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César e eram formadas por veteranos das campanhas de Pompeu Magno. Vários outros veteranos de Pompeu tinham sido assentados na Espanha e, demonstrando fidelidade a seu falecido comandante, juntaram-se aos Optimates. Com esse exército, totalizando treze legiões, eles tomaram boa parte da Espanha, forçando os dois comandantes das forças leias a César, Quintus Pedius e Quintus Fabius Maximus, a se refugiarem na cidade de Oculbo (distante cerca de 50 km da atual Córdoba). De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em apenas 27 dias, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

A rapidez com que decidiu agir somente permitiu que César trouxesse consigo as legiões  nas quais ele mais confiava; a X Equestris e a V Alaudae (esta era uma legião formada por gauleses e é considerada a primeira legião romana formada por não-cidadãos), além de duas legiões recém formadas, a III Gallica e a VI Ferrata . Ele também recrutou, entre os cidadãos romanos que viviam na Espanha, mais quatro legiões.

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O exército de César tentou sitiar a importante cidade de Corduba (atual Córdoba) sem sucesso, e Cneu e Sexto Pompeu, aconselhados por Labieno, decidiram adotar uma estratégia defensiva, o que obrigou César a se preparar para passar o inverno na região, o que lhe obrigou a procurar os mantimentos necessários.

Porém, ainda durante o inverno, o exército de César conseguiu capturar a importante cidade de Ategua, obtendo suprimentos e infligindo uma derrota que enfraqueceu o moral do exército dos Optimates, que começou a experimentar deserções.

Assim, com a chegada do fim do inverno, pressionados pela queda do moral de suas tropas, os Optimates resolveram finalmente enfrentar o exército de César em uma batalha campal, em uma planície situada a uma milha das muralhas da cidade de Munda.

O exército dos dos Pompeianos tendo se desdobrado primeiro em ordem de batalha, escolheu uma elevação suave na planície, dando-lhe uma posição mais favorável. Eles comandavam uma força de treze legiões, mais seis mil auxiliares, além de seis mil cavaleiros, em um total de cerca de 70 mil homens.

Já César comandava oito legiões, com mais oito mil cavaleiros, totalizando cerca de 40 mil homens, sendo que no seu flanco direito, ele posicionou, como de costume, a sua estimada X Legião.

César ordenou que o seu exército parasse a uma certa distância da planície, tentando atrair o inimigo e fazê-lo descer a colina, sem sucesso, já que eles apenas avançaram um pouco, sem deixar a sua posição vantajosa. Suas próprias tropas não gostaram dessa pausa no seu avanço, achando que isso atrasaria a fácil vitória que eles pensavam que iriam obter.

Então, César deu o comando para o ataque, utilizando a senha “Vênus” (a deusa de quem a sua família julgava descender) e suas legiões avançaram soltando um grito de guerra.

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Dessa vez, os Pompeianos estavam dispostos a tudo para vencer, afinal muitos dos seus soldados já tinham sido perdoados por César e, por voltarem a combatê-lo, acreditavam que desta vez não teriam clemência.

Munda

 No calor dos furiosos combates, César teve que desmontar e lutar ao lado da infantaria. Em dado momento, indo para um ponto onde as suas tropas começavam a fraquejar, ele retirou o seu elmo para que os soldados pudessem vê-lo e se sentirem encorajados ou envergonhados por ele ser obrigado a combater junto deles. Não surtindo muito efeito isso, consta que César tirou um escudo das mãos de um legionário e falou para os seus oficiais:

“Isto será o fim da minha vida e também das suas carreiras militares“.

Então, César avançou para a frente de batalha, chegando a ficar a apenas três metros do inimigo, que atirou cerca de duzentas lanças em sua direção,  tendo César conseguido desviar da maioria e os outros cravando-se no seu escudo. Nesse momento, todos os tribunos correram para ele, colocando-se ao seu redor e todo o exército avançou.

Mais tarde,  César diria:

“Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida !“

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A encarniçada luta se estenderia por oito horas, até que a X Legião começou a prevalecer sobre a ala esquerda do exército dos Pompeianos. Cneu Pompeu, percebendo o perigo, retirou uma legião da sua ala direita para reforçar a sua ala esquerda ameaçada. Porém, o rei Bogud, da Mauritânia, que comandava a cavalaria de César, percebendo o consequente enfraquecimento da ala direita inimiga, ordenou uma carga contra a retaguarda de Pompeu.

Munda-2

Labieno viu o ataque da cavalaria de César e deslocou várias unidades para contê-lo, todavia o movimento foi mal interpretado pelo seu exército, que pensou, equivocadamente, que se tratava de uma retirada. O exército pompeiano já estava sob forte pressão em ambos os flancos e quando eles viram várias da suas unidades recuando para fazer a manobra ordenada por Labieno, o pânico se instalou e as suas linhas começaram a se dissolver devido a debandada dos soldados pompeianos apavorados.

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Como era frequente nas batalhas da antiguidade, a grande matança se dava após uma debandada. Assim, morreram trinta mil soldados do exército pompeiano, contra apenas mil mortos das tropas de César.

Labieno tombou na Batalha de Munda, recebendo de César o devido funeral, porém, Cneu e Sexto Pompeu conseguiram escapar. No entanto, um mês depois, o primeiro seria eliminado na Batalha de Lauro, onde lutou até a morte. Já Sexto Pompeu ainda lideraria, anos mais tarde, uma rebelião na Sicília, depois do assassinato de César. Ele somente seria morto por Marco Antônio, em 35 A.C.

14 mil soldados pompeianos ainda conseguiram fugir para Munda, sendo sitiados pelo legado de César, Quintus Fabius Maximus. Córdoba já havia caído e Munda acabou se rendendo.

Este foi o último conflito da Guerra Civil iniciada quando César cruzou o rio Rubicão, quatro anos antes. Deve ter parecido a muitos que César e os Populares tinham derrotado completamente os Optimates e que uma nova era iria começar.

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Porém, havia, em Roma, um núcleo duro da facção dos Optimates que ainda estava disposto a resistir, mesmo sem exércitos…

POR QUE ASSASSINARAM CÉSAR?

Para os conspiradores que esfaquearam César no Senado, a resposta para essa pergunta seria muito simples: “Porque ele era um tirano que planejava tornar-se rei e acabar com a República”, provavelmente eles responderiam prontamente. Os autodenominados “Libertadores” inclusive chegaram a alegar que agiram com base em uma antiga lei grega que, não apenas autorizava, mas até exigia,  que qualquer um que tivesse a oportunidade deveria matar o tirano, não sendo, assim, o tiranicídio, um crime, mas, em verdade, um ato em defesa da Democracia.

O estudo da História de Roma, porém, demonstra que a morte violenta de César era uma questão muito mais complexa do que um tiranicídio…

Nosso artigo, escrito nos dias que precedem  o dia 15 de março – os Idos de março de acordo com o calendário romano – e o mais célebre de todos, o dia 15 de março de 44 A.C., quando o Ditador Caio Júlio César foi morto na Cúria do Teatro de Pompeu, em Roma, é tentar contextualizar o assassinato na História da República Romana.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

Desde a sua fundação, surge, em Roma, uma acirrada luta pelo poder,  opondo o restrito grupo de clãs familiares aristocráticos (gens), cujos integrantes foram inicialmente chamados de “patrícios” contra a maioria da população livre que não fazia parte daquele grupo, compreendendo pequenos proprietários de terras, comerciantes e proletários (pessoas que vendiam sua força de trabalho a empregadores), que constituíam a “Plebe”.  Os patrícios julgavam-se os responsáveis pela Fundação da Cidade, pela sua posterior libertação do domínio etrusco e pela expulsão dos reis, ou seja, eles consideravam-se os fundadores da “Respublica Romana“.

Essa distinção Patrício x Plebeu era sobretudo censitária: plebeu era todo aquele que não fora arrolado como patrício pelo Censor, o magistrado encarregado de fazer o censo, naturalmente um patrício.

E assim, a República Romana não tinha ainda 15 anos, quando, em 495 A.C, os plebeus, insatisfeitos com os privilégios dos patrícios, ameaçaram abandonar Roma e fundar outra cidade. Conflitos como esses se repetiriam várias vezes, e, ao final deles, os plebeus conseguiram expandir seus direitos e limitar as prerrogativas dos patrícios, como por exemplo, quando eles impuseram a obrigação de publicação escrita das leis,  ao obterem os direitos de elegerem magistrados com poder de veto (Tribunos da Plebe) e de serem eleitos para todas as magistraturas, e,  finalmente, isso após prolongada luta, conquistarem o reconhecimento da força legislativa das votações de suas assembleias (“Concilium Plebis“, isto é Conselho ou Concílio da Plebe), em 287 A.C.

Comitium_Kontext-601x338(O”Comitium” era o local no Fórum Romano, em frente à Cúria do Senado, onde se realizava o Concilium Plebis, a assembleia dos plebeus. Sua aparência em meados do período republicano devia ser a da reconstrução acima, que foi extraída de http://www.digitales-forum-romanum.de/gebaeude/comitium/?lang=en )

Durante o crescimento e a expansão de Roma pela Península Italiana e pelo Mediterrâneo, houve a incorporação de vários povos italianos e inúmeras cidades e a fundação de colônias, não só na Itália, mas, também no sul da França e na Espanha, assentando-se nas mesmas soldados veteranos e povoando-as com cidadãos romanos que para lá migravam em busca de oportunidades. Aumentou, também, em decorrência dessa expansão,  o influxo de produtos e riquezas para Roma, enriquecendo muitos plebeus.

Esse processo de criação de uma nova classe de plebeus ricos, levou, ao longo de dois séculos, a uma reformulação da classe dos patrícios: O influxo de plebeus “novos ricos” foi absorvido,  ou melhor poderíamos dizer, cooptado, pela antiga elite patrícia, passando todos a fazer parte de uma nova classe informal, porque não reconhecida então pela legislação romana, chamada de “Nobilitas” (nobreza),  a qual incluía os antigos patrícios e vários plebeus muito ricos.

A ascensão social do plebeu rico era possibilitada pela própria evolução democrática da República Romana, fruto da luta secular da Plebe. Com a conquista do direito de serem votados para ocupar quaisquer cargos, eles podiam percorrer integralmente e em ordem crescente todas as magistraturas (ou cargos públicos), carreira que recebia o nome de “Cursus Honorum“, até chegarem ao Senado Romano. O plebeu que conseguisse chegar ao cargo de Cônsul, automaticamente ingressava no Senado e passava a integrar a nobreza (apelidava-se, então, a esses senadores “sem pedigree”, de “Novus Homo” – um “homem novo”).

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Teoricamente, os plebeus, desde o século III A.C, haviam adquirido a proeminência política em Roma, já que somente eles poderiam eleger os Tribunos da Plebe,  os quais tinham o poder de vetar qualquer leis, inclusive as emanadas do Senado (Senatus Consultus) e qualquer ato dos demais magistrados e, também,  de intercederem em qualquer ato em favor dos plebeus (“intercessio“). Porém, os atos do Tribuno da Plebe, ao contrário, não podiam ser objeto de veto. Aos Tribunos da Plebe era conferida a sacrossantidade, significando não podendo serem presos e nem seus passos impedidos, nem seus atos obstaculizados. Para completar, eles podiam convocar um Conselho da Plebe, onde somente os plebeus tinham direito a voto, com o poder de promulgar leis (“plebiscita” ou plebiscito).

Não obstante, todo esse poder conferido aos Tribunos e Concílios da Plebe raramente era usado. Eram tempos em que Roma se achava em quase permanente estado de guerra, os magistrados no front de batalha e a administração e a política eram conduzidas, quase que exclusivamente, pelo Senado, ao qual todos reconheciam o patriotismo e a abnegação pela causa romana.Esse regime, teoricamente democrático, na prática começou a ser erodido pelo Senado Romano, dominado pela nobreza, da seguinte forma: os Senadores, uma vez ingressados naquele Corpo, eram vitalícios e invioláveis. Os demais magistrados, porém, exerciam um mandato temporário, normalmente de um ano. Assim, ao deixarem o cargo,  eles podiam ser processados. Essa vulnerabilidade, ao longo do tempo, acarretou que todos os magistrados evitassem agir em desacordo com o Senado, procurando sempre consultá-lo antes de qualquer ato importante, para se garantir contra eventuais questionamentos futuros.

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(A Cúria Júlia, onde se reunia o Senado Romano, foi erguida por Júlio César e reconstruída diversas vezes durante o Império Romano. O prédio atual data do reinado do imperador Diocleciano)

Considerando que as eleições para as magistraturas exigiam campanhas que eram  bem custosas para a esmagadora maioria dos plebeus, frequentemente os candidatos, inclusive para o cargo de Tribuno da Plebe, endividavam-se, ou, quando exerciam outros cargos públicos, desviavam recursos públicos para as suas campanhas, ficando passíveis de serem processados pelos inimigos ao término de seus mandatos.

O que acontecia, então, era que majoritariamente apenas plebeus ricos ou aristocratas supostamente simpáticos à causa da Plebe concorriam ao cargo de Tribuno da Plebe. As poderosas prerrogativas do cargo eram disputadas em concorridas eleições, onde homens ambiciosos despejavam dinheiro para comprar votos dos eleitores plebeus. Os candidatos também frequentemente recorriam a bandos armados, com o objetivo de intimidar os adversários pela violência.

Logo, o Senado percebeu que poderia controlar os comícios da plebe se controlasse os Tribunos, já que eram eles que convocavam e presidiam essa assembleia popular.  E, não poucas vezes, na História de Roma constata-se que houve Tribunos que,  na realidade, atuavam em favor dos interesses da elite, como se fossem verdadeiros “pelegos“.

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A aparente constituição democrática de Roma, assim, na prática, degenerara em uma disputa parecida com as que hoje vemos em nações do chamado “3º Mundo”, temperada por aspectos de uma guerra entre “famiglias” da Máfia Italiana,  cenário aliás muito bem retratado nos primeiros episódios da minissérie “Roma”.

Enquanto isso, a expansão de Roma exasperava as contradições políticas, econômicas e sociais internas. Era necessário dar participação política às elites das inúmeras cidades incorporadas ou fundadas não só na Itália, mas também no Sul da França, Espanha, Norte da África e na Grécia.

Mais importante, havia a questão da grande extensão de terras agriculturáveis anexadas ao “Ager publicus” e que eram cedidas para um grupo seleto de nobres senadores ou para ricos integrantes da classe equestre. Essas terras eram exploradas em sistema de latifúndios, cultivados em larga escala com o emprego da grande massa de escravos que resultava das vitórias militares. Tal fenômeno expulsava do campo o pequeno agricultor livre, outrora o esteio do poder militar romano, incapaz de competir com os latifúndios operados em grande escala comercial. Esses pequenos agricultores falidos migravam para a Cidade, à procura de trabalho, engrossando as fileiras do Proletariado. Assim, a fenda entre os aristocratas ricos e o resto não parava de aumentar…

Ademais, essa massa de proletários para sobreviver procurava a proteção de nobres poderosos, que assumiam o seu patrocínio, aumentando a sua clientela (sendo o Clientelismo uma instituição particularmente romana,  na qual se instituíam deveres entre Patrão e Cliente). Não demorou para que a aumentada clientela corrompesse o sistema eleitoral, sob a fórmula “distribua uma esmola e reclame um voto“.

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(Na imagem, clientes comparecem ao ritual conhecido como “salutatio”, o comparecimento matinal da clientela à residência do patrono para demonstrar consideração, aproveitando para pedir algum benefício ou oferecer seus préstimos)

O problema atingiu tal dimensão que provocou o surgimento, dentro da própria nobreza senatorial, de um grupo que defendia uma profunda reforma no sistema político e na estrutura socioeconômica romanos. O estreito contato com a cultura grega propiciado pela anexação das cidades fundadas pelos gregos no sul da Itália e, posteriormente, com a anexação da própria Grécia, permitiu a difusão das mais avançadas teorias políticas e filosóficas gregas no seio da elite romana.

Surgiu, consequentemente, na elite romana, uma corrente que percebia que o sistema político de Roma apodrecia, exemplificando o famoso conceito grego sobre os ciclos de degeneração das formas de organização política dos Estados: monarquia/tirania-aristocracia/oligarquia-democracia/demagogia.

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(O denário de prata mostra um eleitor romano depositando o voto na urna)

O primeiro político romano a seriamente propor e executar uma ação visando a reformar esse Sistema foi Tibério Semprônio Graco…

Tibério Graco era um jovem político que trilhava a tradicional carreira das magistraturas mas que havia se decepcionado bastante com o Senado, pois este repudiara um tratado que ele havia negociado como Questor na Espanha.

Consta que no trajeto de volta da Espanha, Tibério Graco teria constatado o abandono das pequenas propriedades rurais na Etrúria, substituídas por grandes fazendas escravistas. Ele resolveu concorrer ao cargo de Tribuno da Plebe e ganhou a eleição, em 133 A.C.

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Para lidar com o problema, Tibério Graco propôs a “Lex Sempronia Agraria” – que pode ser considerada  a primeira lei de reforma agrária – prevendo a distribuição das terras devolutas, inicialmente aos soldados veteranos e, depois, ao proletariado romano. As terras que tivessem sido ilegalmente distribuídas aos ricos, em contrariedade à antiga Lex Licínia, que previa uma quantidade máxima de terra pública passível de ser cedida a particulares (mas que era largamente ignorada), deveriam também, segundo a Lex Sempronia, serem redistribuídas para os pobres, mediante o pagamento de uma indenização aos seus atuais possuidores, que, no entanto, ainda poderiam ficar com uma determinada fração delas.

A maioria conservadora do Senado se aglutinou e se opôs à Lex Sempronia, alegando que a medida abalava os fundamentos da República e fomentava a revolução social. Essa oposição cresceu,  sobretudo depois que  Tibério Graco, passando por cima do Senado, apelou ao Conselho da Plebe para aprovar a nova lei,  uma medida que,  apesar de estar de acordo com o Direito Romano, era incomum.

O Senado conseguiu convencer o outro Tribuno da Plebe, Otávio, a vetar a Lex Sempronia. Tibério Graco, entendendo que o veto de Otávio contrariava a própria finalidade do cargo de Tribuno – a de defender a Plebe contra a opressão dos nobres – submeteu  à questão ao Conselho da Plebe, pedindo que votasse pela deposição do colega. Após a votação ter começado, Otávio vetou o próprio ato que determinara a votação de seu afastamento. Graco, então, teria mandado retirar Otávio à força da assembléia e a votação prosseguiu, decidindo pelo seu afastamento.

Segundo outra versão, do historiador Apiano, quando a 18ª Tribo de Plebeus, de um total de 35, votou pela deposição do seu colega, Tibério Graco apenas cumpriu a decisão, removendo Otávio porque ele não era mais Tribuno. A diferença entre as versões é relevante, pois, como vimos, um Tribuno da Plebe era sacrossanto, e, portanto, a ação de Graco teria sido formalmente ilegal, caso a primeira delas seja a verdadeira.

O povo saudou Tibério Graco como um verdadeiro herói e, pressionado, o Senado autorizou a formação de uma comissão agrária para implementar a Lex Sempronia. Porém, desde o início, os senadores conservadores tentaram sabotar a execução da lei, liberando apenas uma pequena verba para a instalação dos trabalhos da comissão, alegando a insuficiência de fundos no Tesouro.

Entretanto, naquele mesmo ano de 133 A.C, o Rei Átalo III, de Pérgamo, aliado romano, morreu sem herdeiros, legando toda a sua vasta fortuna (e o próprio reino) à Roma.Tibério Graco viu nisso uma chance de executar seus planos e, invadindo a competência que o costume conferira ao Senado de deliberar sobre o orçamento e os assuntos estrangeiros, determinou que parte da herança de Átalo fosse usada para financiar a implementação de sua lei agrária, valendo-se dos seus poderes tribunícios.

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(Átalo III admirava os romanos e deixou o Reino de Pérgamo como herança para Roma)

O acirramento do confronto entre a maioria conservadora do Senado e Tibério Graco atingiu uma proporção incontornável. Ele foi acusado por Quinto Pompeu, um senador que era seu vizinho, o qual alegava que, nesta condição, soube que Graco havia recebido de presente de um certo Eudemus, de Pérgamo, um manto púrpura e uma coroa de ouro, devido ao fato de este pensar que Graco iria se tornar o Rei de Roma.

Aproximando-se o fim do seu mandato, aumentavam as evidências de que Tibério Graco seria processado pelo crime de violar a sacrossantidade de seu colega Otávio. Assim, Graco decidiu concorrer à reeleição, defendendo a popular plataforma de redução do tempo de serviço militar e de concessão da cidadania romana a povos aliados. Havia rumores de que um amigo seu havia sido envenenado e, por isso, temendo pela sua vida e de sua família, Graco apelou ao povo reunido em assembleia por proteção, e, de fato,  uma multidão passou a acampar em frente a sua casa com o objetivo de protegê-lo, o que lhe granjeou ainda mais simpatia popular.

Tibério Graco foi reeleito. Pouco antes do seu mandato encerrar, ele foi a um comício, apesar de advertido da existência de vários presságios desfavoráveis, estando o povo reunido no Capitólio. Lá ele recebeu a notícia de que os senadores planejavam mata-lo. Seus partidários armaram-se de porretes. Os senadores, já mal dispostos contra Tibério, interpretaram esse gesto como uma insurreição na qual seus partidários pretendiam coroá-lo rei, e exigiram que o cônsul enviasse as tropas para reprimi-la. Com a recusa deste, os próprios senadores, acompanhados de sua clientela, armaram-se de porretes e foram atacar o grupo de Tibério.

Na confrontação que se seguiu,,Tibério Graco e 300 de seus seguidores foram mortos a porretadas e pedradas e seus corpos jogados no Rio Tibre. Consta que o primeiro golpe contra a cabeça de Tibério Graco foi dado por seu novo colega, o Tribuno Publius Satyreius. Segundo Plutarco, esta foi a primeira vez que um conflito político entre cidadãos em Roma degenerou em um banho de sangue. Em seguida, vários partidários de Graco foram exilados, presos e até executados sem julgamento.

Temendo a reação do povo indignado, o Senado informou que iria implementar a Lex Sempronia, mas na prática, ele continuou impondo várias dificuldades para a sua execução.

As tensões e contradições políticas e sociais que Tibério Graco tentou solucionar não morreram com ele. Uma década mais tarde, seu irmão, Caio Graco tentou aprovar um programa ainda mais radical do que o de Tibério. Considerado então o melhor orador de Roma,  Caio foi eleito Tribuno da Plebe em 123 A.C. Em uma trajetória parecida a do seu falecido irmão, ele também acabou sendo falsamente acusado de crimes e morto em um conflito sangrento entre facções.

Eugene_Guillaume_-_the_Gracchi(Escultura “Os Gracos”, de Eugene_Guillaume)

Com a morte de Caio Graco, em 121 A.C, torna-se explícita a divisão da política e do Senado romanos em duas facções: a maioria conservadora aglutinou-se em um grupo que foi batizado de “Optimates” (literalmente, os “Muito Bons” ou “Melhores”), que entendiam que a República deveria ser conduzida pelo Senado, mantendo-se as leis e costumes tradicionais (mos maiorum) em benefício dos cidadãos romanos tradicionais, sobretudo os Nobres; Por sua vez, aqueles que defendiam que o poder deveria emanar dos Concílios da Plebe, limitando o poder do Senado, que a cidadania deveria ser estendida aos povos aliados e que a maior parte dos recursos do Estado deveria ser empregada em benefício dos cidadãos mais pobres, foram chamados de “Populares“. Optimates e Populares não devem, entretanto, ser considerados partidos políticos no sentido moderno.

Death_of_Gaius_Gracchus(A morte de Caio Graco, pintada em 1792. Por François Topino-Lebrun )

A partir de então, a oposição entre Optimates e Populares, quase sempre degenerando em violência e guerra civil, marcaria a política romana até o fim da Guerra Civil do 2º Triunvirato e a ascensão de Augusto como primeiro imperador, em 27 A.C.

Quinze anos depois da morte de Caio Graco, a questão social, segundo Plutarco, havia piorado ainda mais e as reformas dos Gracos tinham sido abandonadas pelo Senado. Aumentava sem parar a massa de pequenos proprietários expulsos de suas terras e cada vez mais o número de cidades e territórios controlados pelo Estado Romano, sem que os aliados tivessem qualquer participação política e gozassem dos inúmeros direitos conferidos aos cidadãos romanos.

Esse período é marcado pela ascensão de Gaius Marius (Caio Mário), um brilhante general sem estirpe que conseguiu ser eleito Cônsul, tornando-se um “Homem Novo” (Novus Homo). Mário era hostil ao Senado e  também é considerado um integrante da facção dos Populares.

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A principal reforma de Mário, fundamental na História de Roma, foi reorganização do Exército Romano. Até então, somente cidadãos livres que fossem proprietários de terras podiam ser recrutados como soldados, já que eles deveriam pagar o seu próprio uniforme e equipamento. Porém, o aumento demasiado dos latifúndios cultivados por escravos levou a uma grande diminuição do número de pequenos proprietários rurais (proletarização), prejudicando o recrutamento militar. Mário instituiu que o Estado deveria pagar um salário e fornecer armas e vestuário para os soldados, criando um exército permanente que recrutaria, basicamente, os proletários urbanos de Roma e das cidades italianas. Terminava, assim, a era da milícia de cidadãos e inaugurava-se o período, ainda embrionário, do primeiro exército profissional moderno da História.

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( Um típico legionário romano após as Reformas de Mário. Os soldados ficariam conhecidos como “Mulas de Mário” por terem que carregar todo o seu equipamento)

Mário era casado com Júlia, irmã do pai de Caio Júlio César, e portanto, era tio deste. Ele seria cônsul por 7 vezes, entre 107 A.C. e 86 A.C., frequentemente entrando em atrito com a maioria conservadora do Senado Romano. Mário seguiu uma linha de atuação política que pode ser descrita como “populista”.

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(Denário de Mário. Difícil não associar a imagem do agricultor lavrando o solco com as políticas defendidas pelos Populares)

Os Optimates encontraram seu campeão na pessoa do ultraconservador e tradicionalista Lucius Cornelius Sulla (Lúcio Cornélio Sila), membro de uma antiga família patrícia, ele também um prestigiado general.

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O conflito entre Mário e Sila ecoava a disputa entre os Populares e os Optimates. No momento em que ambos disputaram importantes comandos militares, Mário, ilegalmente, ignorou a designação de Sila pelo Senado, levando este a se insurgir militarmente.

Após derrotar as forças de Mário em combate, Sila marchou contra a própria Roma e entrou, à testa de suas forças, no “Pomerium“(fronteiras sagradas da cidade de Roma), o que era expressamente proibido pela lei romana. Ele foi o primeiro general romano a ousar praticar esse fato, considerado como um grande sacrilégio. Sila perseguiu os partidários de Mário e revogou a maior parte dos seus atos. Mas Mário conseguiu escapar e se exilou na África.

Entretanto, Sila foi obrigado a deixar Roma e ir combater Mitridates, poderoso Rei do Ponto, na atual Turquia, que havia ordenado o massacre de milhares de civis romanos naquela região (as fontes relatam que 80 mil romanos foram mortos).

Aproveitando a situação, Mário voltou da África e conseguiu assumir de novo o governo, sendo eleito para o seu sétimo consulado. Mas, sendo ele já velho e estando muito doente, Mário acabou morrendo no meio do primeiro mês de seu mandato, em 86 A.C., aos 70 anos de idade, deixando no poder seu colega de consulado, Cina, um correligionário político que apoiava a facção dos Populares. Deve-se observar que esta última volta ao poder de Mário também foi marcada pela perseguição sangrenta aos seus inimigos políticos.

Com a morte de Mário, Cina ficou no poder, ocupando sucessivos consulados até 84 A.C,. Nesse período, ele adotou medidas que faziam parte do ideário dos Populares, como por exemplo, a concessão de cidadania aos italianos, até ele ser morto pelas suas próprias tropas quando elas se preparavam para ir lutar contra Sila.

Neste mesmo ano de 84 A.C., Caio Júlio César casou-se com Cornélia, filha de Cina, o que demonstra a plena inserção do jovem sobrinho de Mário na facção dos Populares.

Quando Sila retornou à Itália e assumiu o governo, sendo nomeado Ditador, ele desencadeou uma grande perseguição aos simpatizantes de Mário e da facção dos Populares, chegando a executar 1.500 nobres e 9 mil pessoas no total, além de exilar outros tantos. E um dos que tiveram que fugir para preservar a vida foi o jovem Júlio César. Logo, familiares e conhecidos do rapaz apelaram a Sila para que ele fosse poupado. Porém, quando o Ditador exigiu que César se divorciasse de Cornélia, o rapaz, galantemente, recusou-se. Sila, mesmo assim, vencido pela insistência dos pedidos, concordou em poupar o rapaz, não sem antes advertir aos senadores:

“Há vários Mários em César“…

Como Ditador, as leis e decretos instituídos por Sila ordenaram a restauração dos privilégios do Senado e a restrição do poder legislativo dos Concílios e dos Tribunos da Plebe, que foram transformados praticamente em meros defensores públicos de indivíduos de condição humilde. Ele também regulamentou o Cursus Honorum e o número das magistraturas, aumentando em consequência o número de senadores de 300 para 600 membros, com a finalidade de cimentar a coesão da elite e proporcionar que o Senado pudesse executar mais funções administrativas. Por fim, ele também declarou Mário “Inimigo do Estado“, mandando banir quaisquer referências à sua memória (damnatio memoriae).

Surpreendentemente, acreditando ter restaurado o poder do Senado, Sila decidiu voluntariamente se retirar da vida pública e voltar para suas propriedades, em 81 A.C, falecendo, provavelmente de cirrose ou úlcera gástrica, em 78 A.C.

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Mesmo que essa não fosse a intenção deles, na prática, Mário e Sila implodiram as fundações da República Romana, pois as ações de ambos demonstraram que as assembleias políticas, tanto a dos plebeus (Concílios), quanto a dos nobres (Senado), não tinham mais o poder de solucionar e arbitrar os conflitos de interesses entre os grupos políticos e as classes sociais.

Agora, o palco estava montado para um tipo diferente de espetáculo e para que os atores pudessem atuar nos papéis principais,  não bastava que eles tivessem talento político, mas, além disso,  deveriam também ser bons generais…

De fato, após Mário e Sila, seria aos generais ambiciosos que as duas facções políticas do Senado iriam recorrer, e as disputas políticas  agora seriam resolvidas no campo de batalha.

Mário de fato criara as condições para isso, ao conceber um exército de soldados profissionais recrutado entre proletários desempregados que deviam seu emprego e sua lealdade ao Cônsul que os recrutara. E fora Sila o primeiro a se valer de um exército como esse para entrar em Roma à força com o objetivo de derrubar o governo, realmente criando o precedente, e também inaugurando o costume de recompensar regiamente os seus veteranos com as terras confiscadas dos adversários políticos proscritos.

Um desses generais ambiciosos foi Gnaeus Pompeius (Cneu Pompeu). O Senado, sem dispor de meios militares, já tinha se valido do jovem e talentoso general para derrotar as forças contrárias a Sila , na Sicília e na África, e depois as de Lépido, que pretendia restaurar o poder dos Tribunos e realizar outras reformas de interesse dos Populares.

Pompey the Great. Marble. Beginning of the 1st century A.D. Inv. No. 733. Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek.(Cabeça de mármore de Pompeu, o Grande)

Em um indício de que a ordem tradicional estava com os dias contados, o Senado, quebrando todos os precedentes, concedeu a Pompeu a honra de celebrar dois triunfos, apesar de ele  sequer ser um magistrado e, em 70 A.C, ignorando todas as normas, ele foi nomeado Cônsul, embora não fosse um senador.

Ironicamente, Pompeu conseguiu compelir o Senado a fazer isso aliando-se com ninguém menos do que os Populares, os quais, até então, ele havia perseguido. Para obter o apoio deles, Pompeu comprometeu-se a revogar os decretos de Sila que retiraram os poderes dos Tribunos da Plebe e dos Concílios.

Foi nessa época que Caio Júlio César entrou oficialmente na política, e a sua adesão à causa dos Populares ficou explícita quando, em 69 A.C, ele, no funeral de sua tia Júlia, a viúva de Mário, pronunciou um discurso fúnebre, onde exaltou a memória de seu tio Mário, discursando a frente de uma imagem do grande general falecido, coisa que não era vista em Roma desde o governo de Sila,  por força da damnatio memoriae.

E foi, de fato, como integrante da facção dos Populares que César seguiu a carreira política, em um período de acirramento da oposição entre eles e os Optimates. O astuto César, contudo, também procurou mostrar-se palatável para os conservadores, como ilustra o fato dele, tendo recém ficado viúvo de Cornélia, ter se casado com Pompéia, que era neta de ninguém menos do que Sila, o inimigo figadal dos Populares, sendo que o casamento ocorreu em 67 A.C.

Contudo, para ganhar eleições e atingir os cargos mais altos, César, como todos os demais políticos romanos, precisava de muito dinheiro, e ele já tinha se endividado bastante para se eleger para o cargo de Questor. Portanto, de muita utilidade tornou-se a sua recente amizade com o aristocrata Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma, que disputava a primazia política com Pompeu (eles tinham sido colegas de consulado, em 70 A.C.). Note-se que Crasso também apoiara, como Cônsul, a restauração dos poderes dos Tribunos da Plebe, apoio este que o afastou da facção dos Optimates, aproximando-o dos Populares.

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(Cabeça de mármore de Crasso, foto de Gautier Poupeau )

Com o apoio financeiro de Crasso, César conseguiu se eleger para o cargo de Edil, em 65 A.C. Os Edis eram magistrados encarregados de vários serviços urbanos em Roma, incluindo a promoção de jogos públicos, e César aproveitou este cargo para agradar a Plebe promovendo espetáculos suntuosos, o que obviamente tornou-o muito popular. Começava, assim, a nascer a política do “Pão e Circo” (“Panem et Circensis“)…

Depois de exercer a edilidade, César gastou rios de dinheiro na eleição para o prestigioso posto de “Pontifex Maximus“, o chefe dos cultos oficiais do Estado e, apesar dele não ser o favorito, César venceu o certame, em 63 A.C.

Então, a política em Roma tinha-se tornado altamente violenta e corrupta, e a República em frangalhos convidava os homens ambiciosos a tentarem a sorte na disputa pelo poder supremo, o que, obviamente, encontrava obstáculo no tradicionalismo da elite senatorial. Para ocupar os cargos mais importantes, contudo, os sequiosos de poder ainda precisavam de votos.

O aristocrata Lúcio Sérgio Catilina foi um desses políticos que, através da demagogia e dos subornos, atraía uma grande clientela e seguidores. Como ele não conseguira ser Cônsul, por ter sido barrado por Marco Túlio Cícero (ele também um “Novus Homo“), Catilina uniu-se à facção dos Populares e passou a defender uma nova lei agrária ampliando a Lex Sempronia .

Cicero_(1st-cent._BC)_-_Palazzo_Nuovo_-_Musei_Capitolini_-_Rome_2016(Busto de Cícero, nos Museus Capitolinos, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Contudo, não obtendo sucesso nas eleições de 63 A.C, apesar de apoiado por Crasso e César, Catilina arquitetou uma conspiração visando suprimir o próprio Senado Romano, em uma trama que foi descoberta e denunciada publicamente por Cícero em sessão do Senado, em suas famosas “Catilinárias“. Desse modo, Catilina foi facilmente derrotado e morto pelas tropas legalistas.

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César, embora fosse aliado de Catilina, não teve participação na conspiração, chegando até a informar Cícero da trama, Não obstante, César defendeu, nos debates no Senado, que os conspiradores presos não deviam ser executados, como queriam Cícero e o senador ultraconservador Catão, uma vez que a lei não previa nem a pena de morte, nem que a competência para o julgamento fosse do Senado, para aquele tipo de caso. Mesmo assim, os conspiradores foram executados, por ordem ou instigação de Cícero, alegando-se motivos de “Segurança do Estado“.

Apesar da conspiração de Catilina ter colocado em risco a sua carreira política, César conseguiu se eleger para o cargo de Pretor, em 62 A.C. E, segundo a lei romana, após cumprir este mandato, ele fazia jus a ser indicado para governar uma das províncias romanas, no seu caso, a Hispânia, como Propretor. Os costumes romanos admitiam que o governador ficasse com uma parte dos tributos arrecadados dos súditos provinciais, sem falar do produto do que fosse saqueado das tribos ainda rebeldes, desde que não houvesse muitos exageros no processo. Assim, após assumir o governo da província, César, após derrotar várias tribos celtiberas, aproveitou esta oportunidade para conseguir o dinheiro necessário para pagar a sua legião de credores em Roma.

Entrementes, naquele ano, após uma prolongada e vitoriosa campanha militar no Oriente, Pompeu voltou à Roma, e, para a surpresa geral de todos, ele entrou na Cidade como um simples cidadão e sem exército. Provavelmente, foi um gesto politicamente calculado para obter o apoio do Senado e do povo, demonstrando ser ele, Pompeu, um cidadão cumpridor da lei e dos costumes tradicionais.

Contudo, Pompeu não gozava nem da simpatia dos conservadores, devido à revogação das leis de Sila que restringiam o poder tribunício, nem dos Populares, dado o seu histórico de lutas contra os mesmos. Assim,  o Senado decidiu não recompensar os soldados veteranos de Pompeu com terras, deixando-o muito contrariado.

Assim, quando César voltou à Roma, no ano 60 A.C, ele viu a oportunidade de conjugar sua ambição com as dos dois homens mais poderosos de Roma: Pompeu e Crasso, pois ambos estavam insatisfeitos com os Optimates que controlavam o Senado. Eles, então, formaram a aliança política que ficou conhecida como o “Primeiro Triunvirato”.

A aliança política foi cimentada pelo casamento de Pompeu com Júlia, filha única de César. Vale ressaltar que, mesmo se tratando de um casamento arranjado, e apesar da diferença de idade entre os noivos (ele tinha 47 anos e ela, 24), os esposos acabariam se apaixonando, e,  anos mais tarde, Pompeu sofreria muito com a morte prematura de Júlia, no parto de uma menina que também não sobreviveu).

Com a eleição de César para Cônsul, em 59 A.C. o Triunvirato assumiu o poder de fato em Roma. Apesar da violenta oposição dos Optimates, liderados por Catão, o Jovem, e do seu colega de consulado, Bíbulo, também integrante da facção, César conseguiu aprovar uma legislação dando terras na Campânia para os veteranos de Pompeu. Ele também conseguiu perdoar um terço das dívidas de impostos dos agricultores. Por sua vez, o seu correligionário Clódio conseguiu aprovar uma lei especial determinando o exílio de Cícero, como punição pela execução dos conspiradores de Catilina sem julgamento. Essa mesma lei também designou o adversário Catão para governar a distante Chipre, o que equivalia, na prática, a um exílio, afastando-o do Senado. Contudo, muitas dessas iniciativas de César foram executadas em desacordo com a lei romana, algo que o deixaria vulnerável à retaliação dos adversários, em tempos futuros.

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(O chamado “Busto de Tusculum” é considerado pelos especialistas o único busto existente que foi produzido durante a vida de César)

Os Triúnviros também decidiram dividir o governo das províncias romanas entre si e, então, César escolheu controlar as Gálias Cisalpina e Narbonense, além da Ilíria, autonomeando-se Procônsul, com mandato de 5 anos, a partir de 58 A.C.

A escolha da Gália tinha um motivo: César constatara que lhe faltavam as glórias militares de Pompeu , que já havia derrotado Sertório, na Espanha, a rebelião do gladiador Espártaco (junto com Crasso), na Itália, os piratas do Mediterrâneo e o rei Mitridates, anexando o Reino do Ponto à Roma, entre outras vitórias, as quais lhe valeram o apelido de Magno, ou “o Grande” e, ainda, em menor escala, os louros de Crasso.

Assumir o governo da Gália permitiu a César arquitetar o plano que lhe colocaria no mesmo plano dos seus colegas: A anexação da Gália Transalpina, povoada pelos temidos gauleses, que, séculos atrás, em 390 A.C, tinham até saqueado e incendiado Roma. O pretexto foi a necessidade de fazer um ataque preventivo, devido ao fato de tribos aliadas dos romanos terem sido atacadas por gauleses e germânicos que, supostamente, pretendiam migrar para a Gália Cisalpina, ou seja, a parte da Itália que fica ao sul dos Alpes.

Em nove anos de guerra, César derrotou completamente os gauleses e anexou toda a Gália. Para alguns, essa teria sido a maior contribuição de César à História, pois, sem isso, não existiria a França e, consequentemente, a Europa e sua civilização seriam completamente diferentes.

A vitória na Gália deu a César não somente uma aura de herói nacional e de general brilhante, mas também o exército mais disciplinado e bem treinado de Roma, além de muito dinheiro proveniente dos saques, afinal os gauleses eram um povo muito próspero.

Mas, enquanto César lutava na Gália, ele certamente mantinha um olho nos assuntos domésticos…

Com efeito, em Roma, o cimento que mantinha unido o Triunvirato começava a amolecer…Pompeu, aparentemente se ressentia do brilho das conquistas militares de César, as quais ameaçavam ofuscar as suas próprias. Talvez por isso, ele manobrou para trazer Cícero de volta à Roma e os dois acabaram se aproximando.

Em 57 A.C., Pompeu recebeu poderes extraordinários do Senado para cuidar do abastecimento de cereais de Roma, o que o colocava em uma excepcional posição em relação aos outros dois colegas, no que tange a capacidade de angariar as simpatias da Plebe. Já as relações entre Crasso e Pompeu, que nunca tinham sido boas, também iam de mal a pior.

Os nobres conservadores aproveitaram as dissensões entre os Triúnviros e conseguiram eleger um dos seus integrantes como Cônsul para o ano de 56 A.C. Por sua vez, Cícero questionou a legalidade da nomeação de César para o governo da Gália.

Percebendo o risco ao Triunvirato e a si mesmo, César deixou o comando da campanha da Gália com seus lugares-tenentes e convocou Pompeu e Crasso para uma reunião em Lucca, cidade romana na fronteira da Itália com a Gália Cisalpina, em abril de 56 A.C.

Nesse encontro, que passaria à História como a “Conferência de Lucca“, César, Pompeu e Crasso resolveram as suas diferenças, estabelecendo que os dois últimos seriam candidatos a Cônsul no ano seguinte, com o apoio de César. Assegurada a eleição, os novos cônsules promulgariam uma lei prorrogando o mandato do proconsulado de César na Gália por mais 5 anos, sendo que, após o término do consulado de Pompeu e Crasso, eles seriam designados procônsules, respectivamente da Hispânia e da Síria, também pelo prazo de 5 anos.

O adversário de Crasso e Pompeu na eleição para o consulado de 55 A.C, era Lúcio Domício Enobarbo, um fervoroso membro da facção dos Optimates, casado com a irmã do líder Catão, o Jovem. Ele prometeu proibir a prática de compra de votos dos eleitores e revogar o comando de César na Gália. Porém, no dia da eleição, ele foi expulso à força do Campo de Marte pelos partidários dos Triúnviros, com o reforço de mil soldados enviados por César, uma ação que garantiu a vitória de Crasso e Pompeu.

Os novos cônsules executaram os termos do acordo da Conferência de Lucca, através da “Lex Pompeia Licinia“, garantindo a recondução de César para a Gália e o proconsulado da Síria e da Hispânia para Crasso e Pompeu, respectivamente.

O destino, porém, abalaria a recém obtida estabilidade do 1º Triunvirato: no ano de 54 A.C, Júlia, a filha de César e esposa de Pompeu, morreria no parto e, em 53 A.C, Crasso, também ele sedento de obter a glória militar contra os Partos, seria capturado e morto por estes, após a desastrosa Batalha de Carras, no que foi a pior derrota militar sofrida pelos romanos desde a 2ª Guerra Púnica, 150 anos antes…

O Triunvirato estava, assim acabado, antes de tudo, matematicamente, pela simples eliminação de Crasso. Agora, só restavam César e Pompeu. E não havia também mais a doce Júlia, a quem  o seu pai e o seu esposo eram muito devotados e a quem eles deviam muito a existência de uma relação cordial entre ambos.

Enquanto isso, desde 55 A.C, em campanha na Gália, César realizava algumas das maiores façanhas militares que Roma já vira. Ele havia derrotado um enorme horda de tribos germânicas, os Usipetes e Tencteris, e, na fuga, os sobreviventes derrotados, inclusive mulheres e crianças, totalizando cerca de meio milhão de bárbaros, foram aniquilados, a maioria, acredita-se, afogados, após tentarem cruzar a confluência entre os rios Reno e Mosela. Depois, César mandou construir uma espetacular ponte de madeira sobre o largo Reno e cruzou, pela primeira vez na História de Roma, aquele largo rio, marchando, também de forma inédita, por dezoito dias na margem oriental. Ainda naquele ano, César cruzou o Canal da Mancha e invadiu, também pela primeira vez na História, a Britânia, ficando lá também por  18 dias. E ele ainda voltaria àquela Ilha no ano seguinte.

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Pompeu, apesar de ser governador da Hispânia, permanecera todo esse tempo em Roma, recebendo as notícias das façanhas de César e sendo assediado pelos partidários da nobreza conservadora no Senado, sobretudo após a morte de Crasso, em 53 A.C. Ele certamente não se opôs que o ferrenho opositor de César, Lúcio Domício Enobarbo conseguisse se eleger Cônsul no ano anterior.

Mais sintomaticamente ainda, Pompeu recusou a proposta de César para que ambos celebrassem uma nova aliança matrimonial, na qual Otávia, sobrinha-neta de César (e irmã do futuro imperador Otávio Augusto) lhe foi oferecida em casamento. Para reforçar ainda mais o distanciamento, Pompeu, expressando sua evidente oposição à proposta de renovação da aliança política com o seu colega, casou-se, em 52 A.C., com Cornélia Metela, filha de Quinto Cecílio Metelo Cipião, que era um dos mais empedernidos membros da facção dos Optimates e, portanto, um inimigo figadal de César.

Em 52 A.C, as lutas políticas na cidade de Roma degeneraram em anarquia, com repetidos motins nas ruas, culminando no assassinato do ex-Tribuno da Plebe e membro dos Populares, Clódio, violências que resultaram inclusive no incêndio do edifício da Cúria do Senado e impediram a eleição dos cônsules naquele ano (Clódio, a bem da verdade, era um dos políticos que mais se valeram do uso político da violência das verdadeiras gangues de rua em que os “collegia”- corporações de ofício de Roma, haviam se tornado).

A situação caótica em Roma obrigou o Senado à medida extrema de nomear Pompeu como único Cônsul para aquele ano. Imediatamente, Pompeu convocou seus soldados e restaurou a ordem na Cidade. Evidenciando ainda mais a sua aproximação com os Optimates, Pompeu nomeou seu sogro Metelo Cipião como seu colega para o Consulado de 52 A.C.

Embora Pompeu ainda resistisse a tomar a iniciativa do rompimento com César, qualquer um que tivesse o mínimo discernimento político perceberia que isso era apenas uma questão de tempo. Na verdade, o motivo pelo qual Pompeu e o Senado somente ainda não haviam tomado nenhuma medida mais efetiva contra César era porque, ainda naquele ano de 52 A.C, estourara uma rebelião geral das tribos gaulesas, recém conquistadas. Unidos e liderados por Vercingetórix, os gauleses preparavam-se para um confronto definitivo contra as legiões romanas na cidade fortificada de Alésia.

Alesia_8.jpg(Reconstrução das fortificações construídas por César em torno de Alésia, foto de Christophe.Finot )

Contudo, em um mês, César não apenas sitiou Alésia, defendida por 80 mil guerreiros, como ainda derrotou a força gaulesa de 100 mil homens que tentava furar a praça sitiada, que, por sua vez,  tinham cercado os romanos. Foi indubitavelmente uma vitória espetacular que levou o prestígio de César às alturas. Apesar da fonte original sobre a campanha ser os próprios “Comentários” de César, estes são geralmente aceitos como verídicos e acurados, sendo respaldados pelas escavações arqueológicas.

Finalmente, portanto, no final de 51 A.C, após quase 10 anos de luta, César havia submetido a Gália até o Reno, equivalendo à maior parte do território da atual França.

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Terminada a luta na Gália, a facção dos Optimates no Senado imediatamente tratou de tentar decretar o o fim do comando de César para aquela campanha. E tanto os senadores conservadores quanto o próprio César sabiam que, despido ele da condição de governador e sem cargo público, César perderia a sua imunidade, sendo muitos os pretextos para processá-lo e condená-lo, na mais suave das hipóteses, ao exílio.

map 1280px-Europe_-50.png(Terminada a conquista da Gália, o mapa mostra o território da República Romana, em amarelo. Mapa de Cristiano64 / Coldeel)

Com efeito, a iminente perda da imunidade tornava-se aflitiva para César. Assim, em 50 A.C, enquanto ainda na Gália, ele tentou, sem sucesso, concorrer ao cargo de Cônsul, mas sem, contudo, abandonar o Proconsulado da Gália e continuando a comandar seus exércitos na Província, o que era proibido por lei.

César, não obstante as manobras dos Optimates, contava com o apoio do Tribuno da Plebe Caio Escribônio Curião, que, segundo alegava-se, teria sido subornado  por ele mediante o pagamento de suas dívidas por César e, de fato, Curião vetava todos os projetos de lei que pretendiam substituir César na Gália ou terminar o seu mandato.

Curião inclusive propôs uma solução conciliatória entre os partidários de César e a facção dos Optimates: César renunciaria ao comando da Gália, desde que ele recebesse permissão para concorrer às eleições para o Consulado de 49 A.C., com a condição de que Pompeu também renunciasse ao seu comando militar. Essa proposta até encontrou alguma simpatia no grupo de senadores moderados, mas o núcleo conservador do Senado, liderado pelo Cônsul Caio Cláudio Marcelo, se opôs ferozmente a ela e obstruiu a votação de qualquer proposta no mesmo sentido.

Com certeza, os senadores mais sensatos perceberam o risco iminente de uma guerra civil e apoiavam uma solução de compromisso. Assim, quando, na Sessão do Senado do dia 1º de dezembro de 50 A.C., o Cônsul Cláudio Marcelo reapresentou a proposta de substituição de César na Gália, eles, que inicialmente haviam aprovado a remoção, acabaram aprovando, por 370 votos a favor e apenas 22 contra, a emenda substitutiva apresentada por Curião, a qual estabelecia que também o comando de Pompeu deveria ser encerrado.

Marcelo, porém, recusou-se a aceitar o resultado da votação da emenda de Curião e, alegando falsamente que César havia cruzado os Alpes com 10 legiões para invadir a Itália, declarou dissolvida a Sessão, antes da aprovação do texto. Em seguida, rompendo com a ordem institucional, Marcelo e alguns integrantes da facção conservadora partiram para a residência de Pompeu para tentar convencê-lo a assumir o comando de todas as tropas na Itália, implorando que o velho general fizesse o que fosse necessário para “salvar a República”. Pompeu concordou, mas ressalvando que ele faria isso, “a não ser que fosse encontrado um caminho melhor”.

Curião, cujo mandato de Tribuno e consequente inviolabilidade terminariam em poucos dias, prudentemente decidiu fugir de Roma e ir ao encontro de César, que se encontrava em Ravena, fora dos limites da Itália Romana, acompanhado apenas da XIII Legião. Apesar de instado por Curião a marchar sobre Roma, César decidiu fazer uma nova proposta de acordo: Ele seria nomeado governador da Ilíria e manteria sob seu comando apenas uma legião, até a eleição para o consulado de 49 A.C. No entanto, essa proposta foi terminantemente recusada pelos Cônsules.

No dia 1º de janeiro de 49 A.C., César tentou sua última cartada no Senado para manter a sua carreira política: Valendo-se do novo Tribuno da Plebe, Marco Antônio, que, da mesma forma que o seu colega, Longino, eram fiéis colaboradores de César, ele enviou, por Curião, uma carta ao Senado para ser lida em sessão por Antônio. Todavia, quando Antônio começou a ler a carta, após o trecho em que César reiterava a disposição de somente deixar a Gália e desmobilizar o seu exército caso Pompeu fizesse o mesmo, ele foi interrompido aos gritos pelos senadores conservadores, e não conseguiu continuar.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.(Busto de Marco Antônio)

Metelo Cipião, o sogro de Pompeu, propôs que fosse fixada uma data para que César fosse demitido do comando na Gália e dispensasse suas tropas, após o que ele seria considerado “Inimigo Público“. A moção foi aprovada, e os únicos votos contrários foram de Curião e do senador Célio. Muito provavelmente, a explicação para a diferença entre esta votação e aquela ocorrida um mês antes foi a maciça presença de tropas de Pompeu nas cercanias de Roma…

Mas o Tribuno Marco Antônio vetou a moção e apresentou nova proposta para que fosse incluído na lei que o comando de Pompeu também se encerraria na mesma data, sendo essa idéia novamente bem recebida. Porém, novamente, o cônsul Lúcio Cornélio Lêntulo, apoiado por Metelo, dissolveu a Sessão antes que a lei com as modificações propostas  por Antônio fosse aprovada.

Em 7 de janeiro de 49 A.C, o Senado Romano aprovou o “Senatus Consultum Ultimus” declarando Lei Marcial e nomeando Pompeu como “Protetor de Roma“, isto é, na prática, um Ditador. Como era esperado, essa lei também declarou o término do mandato de César na Gália, ordenando que o mesmo entregasse o comando das suas tropas.

Em seguida, os soldados de Pompeu ocuparam Roma e Pompeu expediu uma nota dizendo que “não poderia garantir a segurança dos Tribunos“…

Marco Antônio e Cássio entenderam bem o recado e fugiram de Roma, indo ao encontro de César. Quando lá chegaram, César percebeu que não havia mais espaço para manobras políticas ou negociações. Ele teria que optar entre obedecer o Senatus Consultum Ultimus, e arriscar a sorte como um cidadão comum exposto à sede de vingança dos inimigos, ou tornar-se um rebelde e um fora-da-lei.

Na verdade, como frequentemente acontece nas guerras, revoluções ou golpes de Estado, as partes rivais sempre alegam um bom pretexto para legitimar a sua ação. O fato é que a fuga dos Tribunos da Plebe, ou, como é mais correto, a expulsão deles de Roma, violando a sua sacrossantidade legal, deu a César um bom pretexto para ele para começar a Guerra Civil.

Rimini088(Coluna de César, em Rimini, erigida para marcar o local onde César discursou para as suas tropas exortando-as a entrarem com ele na Itália. Foto de Georges Jansoone (JoJan)

No dia 10 de janeiro de 49 A.C. (data estimada), César, comandando apenas a XIII Legião, cruzou um riacho chamado Rubicão, que marcava a fronteira da Itália com a Gália Cisalpina. Ao entrar na Itália, ele violou a lei romana e era, tecnicamente, autor de um crime de alta traição. Em suas próprias palavras:

“A sorte está lançada!” (alea iacta est).

Começava a Guerra Civil!

Menander_and_New_Comedy_Masks_-_Princeton_Art_Museum.jpg(Relevo do autor grego Menandro, com máscaras de teatro de Comédia. César era grande apreciador da obra de Menandro e a frase “A sorte está lançada”, ou, mais precisametne, “os dados estão lançados’, foi uma citação de uma das peças dele, “Arrhephoros”  – vide Deipnosophistes, livro XIII)

GUERRA CIVIL

Durante a confrontação política que antecedeu a travessia do Rubicão por César, os Optimates cometeram alguns graves erros de avaliação:

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Por exemplo, eles superestimaram a capacidade militar de Pompeu na Itália: Embora Pompeu tenha retido sob seu controle, irregularmente, duas legiões recrutadas por César no sul da Península, elas não eram páreo para a experimentada XIII Legião que lutara com ele na Gália.

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Da mesma forma, os Optimates também levaram em conta a seu favor o fato de que  Pompeu comandaria, teoricamente, todas as forças romanas na Hispânia, África, Egito, Grécia e Oriente, em número bem superior às 8 legiões que César tinha na Gália,

E os Optimates também confiavam  no histórico dos muitos sucessos militares de Pompeu.

Por último, os Optimates acreditavam que, pelo fato de César ter violado a proibição da lei romana de entrar na Itália com um exército,  a maior parte da população da Itália ficaria contra ele, que, ao menos formalmente, tinha se tornado um criminoso.

Mas eles não poderiam estar mais errados….

As legiões da Gália, calejadas por dez anos de guerra cruenta contra os gauleses, naquele momento eram, provavelmente, os melhores soldados do Mundo Antigo; Pompeu era um renomado general, mas estava ficando velho e não comandava uma legião, quanto mais uma campanha, havia vários anos; Ademais, ao contrário do que os Optimates esperavam, no trajeto do norte da Itália em direção a Roma, César foi aclamado triunfalmente em diversas cidades, cujas  respectivas guarnições acabavam por juntar-se ao seu exército.

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Entretanto, nem tudo ia bem para César, pois, durante o avanço sobre Roma, o seu ajudante em mais de 10 anos de luta, o hábil general Labieno, desertou e uniu-se às forças de Pompeu. Não se sabe o motivo exato da defecção de Labieno, sendo que as explicações mais plausíveis são que ele seria um legalista que via a insurreição de César como criminosa ante as leis da República ou, então, o fato de ele estar decepcionado por não ter recebido maiores recompensas por seus serviços, como por exemplo, um consulado, ficando, ainda, talvez enciumado pela predileção que César demonstrava em relação a Marco Antônio.

Pompeu, mesmo assim, concluiu que a sua melhor estratégia era fugir para a Grécia, onde ele poderia reunir um grande exército e, já que controlava a frota romana, interceptar os carregamentos de cereais para Roma, causando ali uma fome cuja responsabilidade seria atribuída a César, enfraquecendo-o perante a Plebe.

Embora esse não fosse um plano ruim, o simples fato de ele ter que abandonar a Itália, demostra o despreparo com que Pompeu foi pego pela rápida ação de César. E isto apesar de terem sido Pompeu e os Optimates que deram o ultimato ao adversário, motivo pelo qual seria de se esperar que eles, ao menos deveriam estar de antemão preparados.

A maior parte da facção dos Optimates acompanhou Pompeu em sua retirada estratégica da Itália . Portanto, ao contrário de César, que era o indiscutível comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem qualquer experiência bélica…

Não é nosso propósito, todavia, aqui narrar pormenorizadamente os eventos da Guerra Civil, mas apenas traçar um quadro explicativo dos eventos que degeneraram no desfecho sangrento dos Idos de março de 44 A.C.

Senhor da Itália, César, ainda desejoso de respeitar as formalidades legais, convocou os senadores que tinham permanecido em Roma para um encontro, realizado em 1º de abril de 49 A.C, mas muito poucos apareceram. Consta que, ofendido com as ausências dos senadores, César teria dito:

“Convidei-os para se reunirem a mim na tarefa de governar Roma. Porém, se a timidez faz com que recuem diante da tarefa, não os incomodarei mais. Governarei sozinho“.

Logo depois, porém, César conseguiu convencer (ou compelir) o Senado a autorizar o uso de um fundo de reserva para construir uma frota. Todavia, em uma demonstração de que seus oponentes ainda tinham poder na Cidade, a medida foi vetada pelo Tribuno Lúcio Cecílio Metelo. Não obstante, César ignorou o veto, entrou em Roma e, ameaçando executar Metelo, lançou mão dos recursos, manu militari.

César, então, partiu para enfrentar o exército de Pompeu na Hispânia.  Este, porém, naquele momento encontrava-se na Grécia, reunindo outro exército. Por isso, César assinalou:

“Parto para a Espanha para enfrentar um exército sem general e logo seguirei para enfrentar um general sem exército.”

Em Ilerda, na Espanha, César cercou o exército de Pompeu, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C. A partir desta vitória, César principiou um comportamento em relação aos inimigos vencidos que ele repetiria muitas outras vezes durante a Guerra Civil e que se tornaria uma de suas marcas registradas causando admiração em muitos escritores antigos: a “Clementia” de César (clemência), poupando e anistiando os adversários. Com efeito, em Ilerda,  César concedeu aos inimigos derrotados que não quiseram se juntar ao seu exército, a opção de retornarem para casa como civis.

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Esse era um comportamento tão incomum na antiguidade que o próprio exército de César, pela primeira vez desde que ele se tornara um general, amotinou-se. O motivo da revolta era que os seus soldados esperavam saquear os pertences dos vencidos. O motim, contudo, foi reprimido sem muito custo.

Voltando a Roma, César, em apenas 11 dias de estadia na capital, foi nomeado Ditador por um curto período, o que lhe permitiu convocar a eleição para o consulado de 48 A.C, para o qual ele, naturalmente, se candidatou. Ele aproveitou também para colocar seus correligionários em todos os cargos importantes e, além disso, promulgou várias leis, entre elas uma dispondo sobre o pagamento de dívidas, permitindo que fossem dados bens em pagamento, dado o grande número de romanos endividados em função das turbulências políticas. Finalmente, César também restituiu os direitos civis aos cassados durante o governo de Sila e conseguiu que Pompeu fosse declarado fora-da-lei.

De volta à campanha de César na Guerra Civil, seguiram-se o quase-desastre em Dirráquio e a surpreendente vitória em Farsália, em 09 de agosto de 48 A.C., na qual César lutou em desvantagem numérica de 1 x 3 e onde muitos Optimates foram capturados, apesar de Pompeu ter conseguido fugir para o Egito, onde acreditava que iria ser acolhido pelo faraó Ptolomeu XIII, supostamente seu aliado.

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Porém, o jovem faraó, aconselhado a cair nas boas graças do vencedor, mandou prender Pompeu e decapitá-lo, enviando a cabeça dele para César. Quando ele, perseguindo o adversário, chegou em Alexandria, a História registra que César, ao receber, chocado, a cabeça de Pompeu, chegou a chorar, penalizado com o destino do seu ex-genro. E, em verdade, parece mesmo que nunca chegara a haver inimizade pessoal entre os dois grandes homens de Roma.

Julius Caesar Aghast at Soldier Holding Pompey's Head

Em Farsália, César pode exercer novamente a política de clemência para os adversários. Antes da luta, ele distribuiu aos seus oficiais uma lista dos partidários de Pompeu que deveriam ser poupados. Entre os nomes, estava o de Marco Júnio Bruto, um senador da facção dos Optimates e filho da amante de César, Servília Caepionis, que era irmã de Catão, o Jovem, o senador que pode ser considerado o verdadeiro ideólogo dos Optimates no Senado.

Seguiu-se o envolvimento de César na disputa pelo trono do Egito e o romance com Cleópatra VII, que resultaria no nascimento de seu único filho homem, chamado de Ptolomeu XV Filópator Filómetor César e que foi apelidado de “Cesarion“.

TRIUNFO E PODER ABSOLUTO

#César #Caesar #idosdemarço

Morto Pompeu, o seu único rival pelo poder supremo, César celebrou os seus Triunfos com uma magnificência jamais vista em Roma. Nos festejos pela vitória na Gália, que tinham sido adiados pela Guerra Civil, vinha, no final da procissão triunfal, Vercingetórix acorrentado (o altivo chefe gaulês seria executado após a cerimônia, como era o costume romano). Houve, ainda, uma batalha naval simulada em um lago artificial e 400 leões foram soltos em um Circo, para serem mortos por quem se dispusesse a pagar uma taxa. E em seu novo Fórum construído perto do antigo, César, presença de Cleópatra e Cesarion, desvendou uma bela estátua de ouro de sua amante e rainha do Egito, ao lado do Templo de Vênus Genitrix,  a deusa que a gens Júlia reivindicava como sendo sua ancestral.

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(Denário de prata de 48 A.C.,  com a imagem de Vercingetórix acorrentado, é a única imagem do líder gaulês capturado e executado após o Triunfo de César, em Roma)

Provavelmente esses festejos foram a maior exibição de propaganda política em toda a História de Roma. Mas os Optimates ainda não tinham sido completamente derrotados…Na África, um exército de 40 mil soldados liderado pelos velhos inimigos Catão, o Jovem e Metelo Cipião, e pelo inimigo recente, Labieno, aos quais se juntaram os filhos de Pompeu, contando com a ajuda do rei Juba, da Numídia, ainda constituía uma ameaça respeitável.

César, após as celebrações de seu triunfo, partiu de Roma e sitiou a cidade de Tapsos, na atual Tunísia. Os Optimates foram forçados a aceitar a batalha campal e o exército de César mais uma vez venceu, em 06 de abril de 46 A.C. Os Númidas fugiram e os 10 mil soldados inimigos que quiseram se render foram mortos pelos soldados de César. Esse massacre não era compatível com a política de clemência que ele vinha adotando desde o início da Guerra Civil. A explicação, segundo Plutarco, é que César, durante a Batalha de Tapsos, perdeu os sentidos devido a um ataque, supostamente epilético, e o desfecho sangrento teria acontecido à sua revelia.

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Catão, o Jovem e Metelo Cipião conseguiram fugir de Tapsos. O primeiro, que não era militar e não participara da batalha, se refugiou em Útica, mas acabou cometendo suicídio ao saber do resultado da luta. Consta que César, ao ser informado da morte de Catão, disse:

“Eu lamento a sua morte, Catão, assim como você teria lamentado se eu tivesse poupado a sua vida”.

Cipião também cometeu suicídio, após ser interceptado pela frota de César, quando tentava chegar com um navio até a Espanha, onde esperavam obter auxílio dos numerosos veteranos de Pompeu que viviam naquela Província.

Vale observar que, especialmente Catão, o Jovem, ao tirar a própria vida, tornou-se um símbolo para os Optimates de uma vida virtuosa e de sacrifício em prol da República. Posteriormente, já durante o Império, o nome dele seria sempre evocado como exemplo pelos senadores insatisfeitos como o Principado e por aqueles que , no futuro, conspirariam contra o despotismo dos imperadores.

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(Busto de bronze de Catão, o Jovem, achado na cidade romana de Volubilis, no Marrocos)

Após essa vitória, César foi nomeado Ditador da República Romana por 10 anos, algo inédito. Ele também foi eleito Cônsul para o ano de 46 A.C. (o que se repetiria nos dois anos seguintes).

O último bastião da resistência dos Optimates era agora a Espanha, onde os filhos de Pompeu, Cneu Pompeu e Sexto  Pompeu, valendo-se do grande número de soldados veteranos do falecido general assentados naquela província, conseguiram reunir um grande exército (incluindo duas legiões que tinham desertado do exército de César). Com isso, eles tomaram toda a Espanha, forçando as legiões leais a César a se refugiarem na cidade de Oculbo. De lá, os sitiados pediram ajuda a César.

César, cuja qualidade mais impressionante como general talvez fosse a velocidade com que conseguia que suas tropas se deslocassem, marchou os 2.400 km que separavam Roma de Oculbo em menos de 1 mês, e, com essa aparição súbita, conseguiu levantar o sítio.

Em 17 de março de 45 A.C, na planície de Munda, após uma feroz batalha que durou 8 horas, o exército de César saiu vencedor. Ele assim definiria a Batalha de Munda, segundo suas próprias palavras:

“Inúmeras vezes, eu lutei pela vitória; em Munda, eu lutei pela minha vida ! “

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Trinta mil soldados inimigos foram mortos na batalha, incluindo o general Labieno. Um dos filhos de Pompeu, Cneu, foi capturado um mês após e morto. Já Sexto, sem exército, somente seria morto por Marco Antônio dez anos mais tarde.

César agora era o senhor absoluto de Roma, para onde voltou para implementar seus projetos de governo, que tinham sido interrompidos pela necessidade de combater os últimos focos de resistência senatorial em Tapsos e Munda.

Inicialmente, derrotados os inimigos, é preciso reconhecer que César, ao contrário de Mário e Sila – que tinham sido os únicos que haviam chegado perto de deter tamanha parcela de poder na República e que se aproveitaram disso para eliminar os desafetos – perdoou seus inimigos e permitiu que eles participassem da administração pública e retornassem ao Senado, sendo os exemplos mais ressonantes, os adversários Cícero, Cássio, Marco e Décimo Bruto.

E o que César tencionava fazer com tanto poder?

César nunca escreveu, ou foi registrado para a posteridade, quais eram os seus planos para a República: se pretendia aboli-la ou meramente reformá-la. Ele também não teve tempo, se é que esse era mesmo o seu propósito, de estabelecer para si uma nova posição como monarca de Roma. Somente podemos inferir, das medidas que tomou após alcançar o poder absoluto, algumas linhas gerais:

Uma diretiva inequívoca de seus planos é dada pelo aumento do número de Senadores e renovação da composição do Senado Romano (que havia sido muito desfalcado pelos anos de guerra civil). César aumentou o número de senadores para 900 e nomeou senadores oriundos de províncias fora da Itália, especialmente gauleses. Esse propósito é corroborado pela permissão de que legionários fossem recrutados nas províncias. De fato, César criou legiões compostas por gauleses, espanhóis e súditos do Oriente. Para isso, a cidadania romana e latina foi concedida amplamente na Sicília, na Gália, na Hispânia e até na Criméia.

Tudo isso constitui um indício de que o plano de César era criar um Império Romano universal e mais inclusivo, e não apenas manter uma dominação de Roma e das cidades italianas sobre colônias ao longo do Mediterrânea, em uma dominação etnicamente latina sobre súditos de outras raças. Nisso, talvez César até evocasse os desígnios de Alexandre, o Grande, um herói por ele admirado desde a juventude,  e cujos atos, inclusive os seus casamentos, manifestavam o propósito do rei macedônio de criar um império mundial que unisse  os gregos e outros povos orientais, como os persas e os hindus.

Podemos cogitar que César não tencionava restaurar a velha ordem republicana. Provavelmente, o Senado não seria mais a instância máxima de poder, funcionando como um conselho consultivo e, em seu governo, não apenas os Optimates, mas também os Populares, não encontrariam lugar, pois, já no início de sua Ditadura, os Concílios da Plebe atuavam apenas para referendar as leis promulgadas pelo Ditador, sem maior debate ou discussão. Nessa linha, César havia abolido os “collegia“, as associações corporativas que participavam politicamente das eleições, e que tinham se transformado em milícias violentas utilizadas para influir nos pleitos.

Vale citar como exemplo o fato de César ter sido o primeiro romano a exercer, concomitantemente, diversas magistraturas republicanas, que podem ter sido formalmente mantidas, mas cuja concentração nas mãos de um único homem era um fato inédito e que constitui mais um indício de que se tratava de uma nova ordem.

Assim, César, além de Ditador pelo longo prazo de dez anos (e em 44 A.C, ele seria nomeado “Ditador Perpétuo“) era, respectivamente: Cônsul e Pontífice Máximo (Chefe da religião) e, além disso, em mais uma inovação, mesmo sem ser Tribuno da Plebe, ele recebia, anualmente, o “Poder Tribunício“, ou seja, detinha todos os poderes inerentes a essa magistratura, inclusive o poder de votar todos os atos administrativos ou legislativos, bem como a “sacrossantidade” daqueles magistrados. Essa fórmula, diga-se de passagem,  seria mantida por Augusto e todos os imperadores que o sucederam. Devemos, contudo, observar que, de certa maneira, a menção expressa ao Poder Tribunício não deixava de ser um reconhecimento de que o Poder emanava do Povo.

O virtual fim da República também foi evidenciado pelas leis que deram a César:

a) o novo cargo de “Prefectus Morum“, encampando as atribuições dos Censores. Com esse poder, César podia nomear ou expulsar do Senado quem ele julgasse que obedecesse, ou não, os costumes morais romanos;

b) o direito de nomear os governadores das províncias para um mandato com prazo fixo, e de recomendar ao povo, para referendo, a metade dos magistrados em Roma;

c) o direito de declarar guerra e de celebrar a paz;

d) o direito de votar em primeiro lugar no Senado (assumindo, na prática, o lugar do “Princeps Senatus“, distinção conferida ao Senador mais antigo ou eminente e que seria a inspiração para Augusto batizar a posição ocupada pelo Imperador, dando o nome pelo qual o novo regime por ele inaugurado seria conhecido: “Principado“);

e) o direito perpétuo de comandar o Exército (“Imperium“, atributo do “Imperator“, ou comandante,  e que, futuramente, também acabaria batizando o governante do novo regime que seria inaugurado por Augusto);

f) o direito de dispor dos fundos públicos; e

g) o direito de promulgar Éditos,  que deveriam ser confirmados sem discussão pelo Senado.

Entretanto, devemos anotar que alguns historiadores não têm certeza de que César pretendesse que as reformas supracitadas fossem permanentes, considerando o fato de que ele, antes de morrer, planejava uma grande campanha militar contra a Pártia. Assim,  talvez essas reformas se destinassem apenas a assegurar a estabilidade do governo, enquanto ele estivesse ausente na planejada guerra.

César também reorganizou a estrutura dos governos municipais das cidades italianas e parece que ele tencionava uniformizar os diferentes sistemas de governo por elas adotados. Considerando que ele fundou diversas cidades, inclusive refundando as destruídas Cartago e Corinto, é possível supor que César compreendia que a força do Estado Romano repousava nas cidades e talvez ele até imaginasse o futuro império como uma confederação de cidades autônomas unidas sobre a autoridade de um governo central. Notavelmente, nas renascidas Cartago e Corinto, César determinou que fossem prestigiadas as populações nativas.

O Ditador César promoveu a reforma de várias leis penais, aumentando a punição para crimes violentos. Ele também instituiu um sistema uniforme de taxas alfandegárias e promulgou uma lei proibindo a exibição de luxo excessivo em público, uma preocupação recorrente dos governos desde quando o enriquecimento da aristocracia romana após as Guerras Púnicas atingiu níveis astronômicos. César também iniciou um vasto programa de obras públicas, visando aproveitar a numerosa mão de obra ociosa do proletariado romano, que aumentou muito após a desmobilização das legiões que se verificou com o fim da Guerra Civil.

O poder absoluto de César e a aura de semi-divindade que ele assumira perante boa parte da opinião pública acarretaram que lhe fossem concedido um sem número de honrarias inauditas, como por exemplo: O 5º mês do calendário romano, “Quintilis“, foi rebatizado de “Julius” (Julho), em sua homenagem. Aliás, a reforma do antiquado e astronomicamente impreciso calendário romano, pelo muito mais acurado “Calendário Juliano“, foi uma das grandes contribuições de César para a Civilização Ocidental. E, pela primeira vez na História de Roma, a efígie de um governante foi cunhada nas moedas, a dele. Finalmente, muitos templos e estátuas foram erguidos em sua homenagem.

Surpreendentemente, César, apesar do pouco tempo decorrido desde a derrota militar da facção aristocrática do Senado, em Munda. mantinha seus exércitos fora da Itália e, na cidade de Roma,  ele era protegido apenas por uma pequena guarda pessoal. E mesmo este destacamento foi afastado pouco antes de março de 44 A.C.

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(Busto de César, retratado em seus últimos anos)

OS IDOS DE MARÇO – O ASSASSINATO DE CÉSAR

Nos meses anteriores ao assassinato de César, as fontes antigas narram um certo descontentamento com o seu comportamento soberbo e arrogante, ao menos por parte da elite governante. Suetônio narra que surgiram rumores acerca de conspirações para derrubá-lo e que tais informações tinham chegado anteriormente aos ouvidos de César, que se limitou apenas a advertir publicamente que ele  tinha ciência das mesmas.

A conspiração que resultou no assassinato de César, como não é de surpreender, em vista de tudo que narramos desde a primeira parte de nosso artigo, nasceu no seio dos remanescentes da facção dos Optimates no Senado Romano. O número de conspiradores, nas fontes antigas, varia entre 60 e 90 senadores. Os líderes da conspiração eram Caio Cássio Longino, Marco Júnio Bruto e Décimo Bruto.

Marco Júnio Bruto era filho do pai do mesmo nome e, supostamente, ele era descendente direto do fundador da República Romana, Lúcio Júnio Bruto, que expulsara o último rei de Roma e se tornaria o 1º Cônsul da República. Bruto era filho de Servília Caepionis, que também era meia-irmã de Caio Cássio Longino e que, desde longa data, era notória amante de ninguém menos do que Júlio César. Alguns suspeitavam até que Bruto pudesse ser filho ilegítimo de César, mas isto é altamente improvável, pois ele tinha apenas 15 anos quando Bruto nasceu. Além disso, Bruto era genro do finado Catão, o Jovem, que se suicidara em Útica após uma vida de lutas contra César. A presença de Bruto entre os líderes da conspiração conferia legitimidade ideológica e histórica ao movimento.

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Bruto sempre foi um integrante da facção dos Optimates no Senado Romano e acompanhou Pompeu na Guerra Civil. Poupado por ordens expressas de César na Batalha de Farsália, Bruto, em seguida, foi admitido no círculo mais íntimo do Ditador e nomeado por ele Governador da Gália, em 46 A.C.

O historiador Nicolau de Damasco, uma das fontes antigas que escreveu em época mais próxima aos Idos de Março de 44 A.C, narra que o círculo de conspiradores foi crescendo, atraindo pessoas que tinham sido prejudicadas pela guerra civil com a perda de seu patrimônio ou de sua posição social, bem como antigos aliados de César que se sentiam preteridos em favor de inimigos perdoados, e, não menos importante, aqueles idealistas que achavam que César estava destruindo a República e, ainda, pessoas incomodadas com a idolatria a César.

Não há dúvida de que a Guerra do 1º Triunvirato havia deixado feridas abertas na aristocracia romana. Temos um exemplo parecido com o que ocorreu após a Guerra Civil Americana (1861-1865). Aliás, o assassino de Abraham Lincoln, o ator John Wilkes Booth, assumidamente reivindicou ter se inspirado em Bruto e, de fato, após atirar em Lincoln, ele repetiu a frase célebre atribuída a Bruto na cena do assassinato de César, em meio às punhaladas:

“Sic semper tiranus!” (Sempre assim com os tiranos!).

A aristocracia senatorial romana era um clube fechado de umas centenas de famílias que se consideravam fundadoras da República, as únicas com direito a exercer o governo, em benefício não só da nação, mas também em seu próprio proveito e, não menos importante, julgavam-se merecedoras de especiais deferência e privilégios. Não é a toa que a carreira política do homem de Estado romano era chamada de “Cursus Honorum“…O direito a essas “honras” era inerente ao papel do aristocrata na sociedade romana. Em muitos aspectos, e não apenas o semântico, em Roma, “Respublica“, na prática, assumia um significado mais parecido com “Cosa Nostra“…

Como vimos no início de nosso estudo, essa aristocracia já havia reagido com violência à perspectiva de perda de seus poderes e privilégios,  inclusive assassinando os líderes da facção dos Populares que ameaçaram a sua posição privilegiada, como ocorreu com Tibério e Caio Graco.

Indiscutivelmente, a nomeação de César como Ditador Perpétuo, em 15 de fevereiro de 44 A.C deve ter desencadeado a conspiração para assassinar César.  E, neste mesmo mês, ocorreu o episódio que muitos historiadores consideram que forneceu o pretexto para o assassinato do Ditador – a acusação de que César pretendia ser coroado Rei.

Com efeito, foi na festa religiosa da Lupercalia que Marco Antônio, um dos celebrantes, completamente nu, colocou, por três vezes, um diadema de ouro sobre a cabeça de César, e sendo, por três vezes, repelido pelo Ditador. É bem possível que esse ato de Marco Antônio tenha sido encenado de comum acordo para demonstrar que César não tencionava ser coroado rei. Há quem acredite, por outro lado,  que aquela encenação foi um ardil para sondar o sentimento popular,  um teste para verificar se a massa reprovaria o gesto. O  fato é que alguns na multidão realmente aclamaram César como rei, o que deve ter aterrorizado os Optimates.

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Diante disso, a decisão de executar a conspiração de matar César dependia apenas de se decidir sobre o dia, o local e o modo. Os conspiradores logo concordaram que, considerando que César comparecia ao Senado sem escolta, lá seria o local mais fácil de executar o Ditador, além de  poderem facilmente ocultar os punhais sob suas togas, traje obrigatório para o comparecimento às sessões.

No dia 15 de março de 44 A.C, César acordou e ficou em dúvida se deveria ir ao Senado. Sua esposa Calpúrnia tinha tido um pesadelo em que aparecia uma poça de sangue e implorou para que César ficasse em casa. César. que não era nada supersticioso, decidiu ir. O adivinho Surinna também teria lhe advertido para ter cuidado com os Idos de  Março, mas César fez pouco caso. E, já na rua, em direção ao Senado, ele chegou a receber um rolo de papiro em que alguém delatava a conspiração, porém, guardou o manuscrito sem ler.

A reunião do Senado ocorreria em um recinto existente no Odeon do magnífico teatro construído por Pompeu, chamado de “Cúria de Pompeu”, já que a Cúria tradicional do Senao tinha sido danificada nos tumultos da guerra civil e estava em reparos.

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 (A Cúria de Pompeu, local onde César foi assassinado, seria o edifício em forma de templo no meio do semicírculo do Teatro.Computer generated image of the Theatre of Pompey by the model maker, Lasha Tskhondia – L.VII.C)

No caminho para a Cúria de Pompeu, César estava acompanhado de Marco Antônio, mas os conspiradores, sabendo que ele era um sujeito parrudo e com experiência militar, acharam que ele poderia dificultar o assalto a César, e, assim, conseguiram distraí-lo a pretexto de um assunto e separá-lo do Ditador. César entrou sozinho na Cúria.

Os conspiradores esperaram César se sentar e se aproximaram, fingindo apresentar alguns requerimentos, até que o senador Cimber, em um sinal previamente combinado, arrancou a túnica do pescoço do Ditador, que, chocado, reclamou:

“Por quê? Isto é uma violência!”

Então o Senador Casca desferiu o primeiro golpe, mas, devido ao seu nervosismo, este apenas pegou de raspão no pescoço de César, que se virou e segurou a mão de Casca, dizendo:

“Casca, seu vilão, o que estás fazendo?“

Aterrorizado, Casca gritou, em grego :

“Adelphi, boethei !” (“Irmãos, ajuda!”)

Nesse momento, vários conspiradores atenderam ao apelo de Casca, desferindo sucessivos golpes de adaga em César. Segundo Suetônio, quando César percebeu que Bruto estava entre os que o atacavam, ele falou, em grego:

“Kai su, teknon?” (“Tu também, criança?”)

Segundo os relatos, César tentou se evadir dos seus atacantes como um leão ferido, mas, quando percebeu que estava perdendo forças, ele deixou-se cair e apenas cobriu a sua cabeça, tentando morrer com alguma aparência de dignidade (durante toda a sua vida, César sempre fora preocupado com sua imagem).

Bruto, em seguida, tentou fazer a sua proclamação, mas todos os senadores, aterrorizados, fugiram da Cúria.

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Foram contadas 23 feridas de punhaladas em César. De acordo com Suetônio, na opinião de um médico, que, pode-se dizer, autopsiou César, apenas uma delas, no peito, tinha sido fatal.

O corpo de César, ironicamente, ficou caído aos pés da estátua de seu maior rival, Pompeu, e jazeu ensanguentado por três horas no chão frio da Cúria, até ser recolhido por seus escravos.

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Bruto e os demais conspiradores se auto-intitulariam “Os Libertadores“. Eles tentaram imediatamente alguma conciliação com os Populares, oferecendo a preservação de todos os atos de César como Ditador e o direito a um funeral público.

Porém, na cerimônia pública de cremação, no Fórum Romano, um discurso de Antônio inflamou a massa e uma turba saiu à caça de qualquer um que fosse suspeito de participação na conspiração contra César.

Os “Libertadores” tencionavam restaurar a República, mas em três anos, todos eles seriam mortos, e o resultado da ação deles foi apenas causar outra Guerra Civil, primeiro para vingar César e depois para decidir quem seria o seu sucessor. É mais ou menos como se alguém tivesse tentado fazer recuar os ponteiros do relógio da História, mas apenas conseguisse segurá-los por 14 anos (até a vitória de Otaviano, o futuro Augusto, em Actium, em 31 A.C.)

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(Denário cunhado pelos “Libertadores” ostentando os punhais usados para assassinar César, o tradicional capacete associado no Mundo Antigo aos que lutam pela Liberdade e a inscrição abreviada “Idos de Março)

A República já havia morrido antes de César lutar e vencer a Guerra Civil e obter o poder supremo, porém seu sucessor Augusto, seria mais astuto em preservar algumas aparências republicanas e conceder algumas deferências à classe senatorial.

(Templo do Divino Júlio, construído no exato local onde o corpo de César foi cremado, no Fórum Romano. A 2ª foto mostra o estado atual da ruína, com os restos do altar. Normalmente, mesmo nos dias atuais,  sempre há flores colocadas  nas ruínas do altar).

Como brilhantemente constatou Cícero, nos meses que se seguiram ao assassinato:

“Matamos o Rei, mas o Reino continua entre nós“.

FIM

O RETRATO PERDIDO DE CLEÓPATRA

Por Eduardo André Lopes Pinto

“E alguns dizem que o braço de Cleópatra parecia ter dois pequenos e indistintos furos; E parece que Augusto também acreditava nisto. Porque, no seu triunfo, uma imagem da própria Cléopatra, com a serpente agarrada nela, foi levada na procissão”

Plutarco, “Vida de Antônio”, 86. pág. 139

“Entre outros detalhes, uma efígie da falecida Cléopatra foi levada em cima de um divã, com o objetivo que, de um certo modo, ela também, juntamente com outros cativos e com seus filhos, Alexandre, também chamado de Helios, e Cleópatra, também chamada de Selene, fosse parte do espetáculo e um troféu na procissão”.

Cássio Dião, “História de Roma”, Livro LI, 21, 8

“Ele (Júlio César) colocou uma bela imagem de Cleópatra ao lado da deusa, que continua ali até hoje”. 

Apiano, “As Guerras Civis”, Livro II, 102

1- A morte de Cleópatra

Segundo os historiadores Plutarco e Cássio Dião – que são as melhores e mais completas fontes antigas sobre a vida de Cleópatra e Marco Antônio – depois que a rainha egípcia cometeu o seu dramático suicídio, no dia 10 de agosto de 30 A.C., em Alexandria, não se tinha certeza exata acerca da maneira pela qual ela se matou: alguns defendiam a versão que acabou ficando célebre: a da morte por envenenamento decorrente de uma picada de uma serpente (uma áspide trazida escondida dentro de um cesto ou um jarro de água por um súdito fiel, quando ela encontrava-se cativa no próprio palácio, à disposição do futuro imperador Augusto); enquanto outros inclinavam-se a favor do relato de que ela havia intencionalmente se ferido com seu próprio alfinete de cabelo, envenenado. Vejamos os textos:

“Porém, quando ela retirou alguns figos e a viu, ela disse: “Veja. aí está”, e, descobrindo o braço, ela o manteve firme para a mordida. No entanto, outros dizem que a serpente foi cuidadosamente selada em um jarro de água e que enquanto Cleópatra a estava atiçando e irritando com uma roca dourada, ela deu o bote e se enrolou no braço dela. Mas a verdade sobre este fato ninguém conhece; pois também se disse que ela carregava um veneno em um alfinete de cabelo oco que mantinha escondido sob o seu cabelo; mesmo assim, nenhuma marca ou outro sinal de veneno apareceu no corpo dela. Ademais, nem mesmo o réptil foi visto dentro do quarto, embora pessoas tenham relatado que viram alguns rastros dela perto do mar, para onde as janelas do quarto davam vista”.

Plutarco, Vida de Antônio, 86, 1-3

Ninguém sabe com clareza de que modo ela morreu, porque as únicas marcas no corpo dela eram pequenas picadas no braço. Alguns contam que ela aplicou em si mesma uma serpente que lhe foi trazida em um jarro de água, ou talvez escondida no meio de algumas flores. Outros declaram que ela se inoculou com um grampo, que ela usava para prender o cabelo, com algum veneno possuidor de certas propriedades que, em circunstâncias usuais, não causaria qualquer dano ao corpo, mas, se entrasse em contato com uma gota de sangue apenas, o destruiria indolor e silenciosamente.; e que, antes desse momento, ela o usava no cabelo como de costume, mas então ela teria feito um leve arranhão no seu braço e mergulhou o grampo no sangue. Dessa forma ou de modo similar, ela morreu, e com ela mais duas criadas.(…). Quando César soube da morte de Cleópatra, ele ficou chocado, e não apenas foi ver o corpo morto dela, mas também valeu-se de remédios e dos Psylli, na esperança que ela pudesse ressuscitar. Esses Psylli são homens, porque nenhuma mulher nasce na tribo deles, e eles tem o poder de sugar o veneno de qualquer réptil, se deles se fizer uso imediatamente depois que a vitima tiver morrido; e eles não são afetados quando mordidos por tais criaturas”.

Cássio Dião, “História de Roma”, Livro LI, 14, 1-4

Estrabão, em sua obra Geografia, escrita em 7 A.C., ao falar de Alexandria, também alude aos relatos sobre a maneira que Cleópatra morreu:

“Porém, pouco depois, ela também se matou secretamente, enquanto estava presa, pela picada de uma serpente, ou (porque existem dois relatos), ao se aplicar um unguento venenoso;”

“Geografia, Livro XVII, 10

Também o historiador romano Floro, escrevendo por volta do ano 110 D.C., menciona a causa da morte de Cleópatra como sendo picada de serpentes, no plural:

 “Ali, tendo colocado uma veste elaborada ao lado de seu amado Antônio, em um sarcófago preenchido com ricos perfumes, e aplicando serpentes em suas veias, ela morreu assim como se estivesse dormindo.”

Epítome da História de Roma, Livro II, capítulo XXI

Finalmente, o célebre médico e filósofo greco-romano, Galeno, também discorreu sobre a morte de Cleópatra, em sua obra De Theriaca ad Pisonem (atribuída pela maioria dos estudiosos a ele), que teria sido escrita por volta do ano 200 D.C.:

“E eles relatam que ela chamou as suas duas servas de maior confiança cuja tarefa era cuidar dos seus trajes com vistas a exibir a sua beleza, chamadas Naeira e Charmione. Naeira arrumou seu cabelo de uma maneira apropriada e Charmione cortou as unhas dela e então ela ordenou que a cobra fosse trazida escondida no meio de algumas uvas e figos, de modo que os guardas não percebessem. Ela, então, experimentou a cobra nestas mulheres para ver se ela era capaz de matar rapidamente, e, depois disso, ela se matou com o restante do veneno, e eles contam que Augusto ficou completamente estupefato, tanto pelo fato das servas amarem tanto Cleópatra a ponto de morrerem com ela, como pelo fato dela ter preferido morrer de uma maneira nobre a viver como uma escrava. E eles contam que ela foi encontrada com a sua mão direita segurando o diadema, provavelmente para que, até mesmo naquela altura, fosse evidente para os observadores que ela tinha sido rainha.”

Galeno, De Theriaca ad Pisonem, pág. 93, em https://ore.exeter.ac.uk/repository/bitstream/handle/10871/13641/LeighR.pdf?sequence=1

Ainda de acordo com Plutarco, a explicação da causa da morte de Cleópatra como tendo sido a picada de uma serpente foi aceita pelo próprio Otaviano (Augusto) como verdadeira, o que é demonstrado pelo fato de que na procissão triunfal pelas ruas de Roma, assim que Augusto retornou de Alexandria, foi exibido um retrato da rainha egípcia no qual a mesma era retratada com o réptil em seu braço:

“E alguns dizem que o braço de Cleópatra parecia ter dois pequenos e indistintos furos; E parece que Augusto também acreditava nisto. Porque, no seu triunfo, uma imagem da própria Cleópatra, com a serpente agarrada nela, foi levada na procissão.“

Plutarco, “Vida de Antônio”, 86. pág. 139

Não obstante, modernamente, alguns autores questionam a possibilidade de que cobras ou serpentes tenham sido responsáveis pela morte de Cleópatra, entendendo que os répteis dessa família que são capazes de matar com rapidez e sem causar muito sofrimento e danos extensos ao corpo da vítima seriam grandes demais para caber em um cesto ou jarro. Um estudo compreensivo sobre essas hipóteses pode ser visto em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33868954/. Há até alguns autores modernos que defendem que na verdade a rainha teria sido executada por Augusto e a história do suicídio dela inventada pelos romanos para não prejudicar a imagem pública do futuro imperador.

Como transcrevemos no início deste artigo, tanto Plutarco, que escreveu sua obra por volta do ano 100 D.C. como Cássio Dião, cuja obra data aproximadamente do ano 230 D.C, ao relatarem os eventos que se seguiram à morte de Cleópatra, mencionam a existência de uma representação da rainha egípcia, um retrato ou imagem, que foi levada na procissão triunfal de Augusto, em Roma.

Vale observar que o historiador romano Apiano, em sua História de Roma, no livro acerca das Guerras Civis, escrito por volta do ano 160 D.C., ao relatar os acontecimentos referentes ao triunfo de Júlio César celebrado 26 de setembro de 46 A.C, também menciona a existência de uma imagem ou retrato da rainha egípcia, que foi depositada pelo Ditador no recém-construído Templo de Vênus Genitrix:

“Ele erigiu um templo à Vênus, sua ancestral, como ele havia prometido fazer quando estava para dar início à Batalha de Farsália, e ele estabeleceu uma área em torno do templo para ser um fórum para o povo romano, não como um mercado para a compra e venda de mercadorias, mas sim como um espaço para negócios de interesse público, como as praças públicas dos Persas, onde o povo se reúne para demandar por justiça ou aprender sobre as leis. Ele colocou ali uma bela imagem de Cleópatra ao lado da deusa, que permanece ali até os nossos dias. “

“As Guerras Civis”, Livro II, 102

Entretanto, a imagem acima referida por Apiano, por óbvio, foi produzida mais de 15 anos antes da morte de Cleópatra e há relatos de que se tratava de uma estátua de ouro, conforme é mencionado por Cássio Dião, em sua História de Roma, Livro LI, 22, 3.

O fato é que, depois da Antiguidade, durante muitos e muitos séculos não se ouviu mais qualquer referência a imagens de Cleópatra.

2- Uma polêmica seiscentista sobre uma certa pintura de Cleópatra

Contudo, em 1646, o escritor e polímata inglês Sir Thomas Browne publica sua Pseudodoxia Epidemica (com o título alternativo de “Investigações acerca das Muitas Crenças Recebidas e Verdades Vulgarmente Presumidas“), onde, em seu capítulo XII, ele avalia uma pintura de Cleópatra que teria visto, ou mais provavelmente, ouvido falar, em seus dias:

“Sobre a pintura descrevendo a morte de Cleópatra.

O quadro referente à morte de Cleópatra com duas víboras ou serpentes venenosas nos seus braços, ou seios, ou ambos, requer consideração: porque nisto a coisa em si é questionável, nem é indiscutivelmente certa a maneira pela qual ela morreu. Plutarco, em Vida de Antônio, abertamente afirma que ninguém soube de que modo ela morreu; porque alguns afirmaram que ela morreu por meio de um veneno que ela sempre trazia em um pequeno alfinete de cabelo oco, no cabelo. Além disso, nunca se encontrou alguma serpente no lugar em que ela morreu, embora duas de suas criadas tenham morrido junto com ela; somente foi dito que duas quase imperceptíveis picadas foram encontradas no braço dela; que foi tudo em que César (Otaviano) baseou-se para presumir a forma pela qual ela morreu. Galeno, que foi contemporâneo de Plutarco, relata duas versões: Que ela se matou com a picada de uma serpente, ou perfurou o seu braço e derramou veneno dentro. Estrabão que viveu antes de ambos também tinha duas opiniões: que ela morreu pela mordida de uma serpente ou por meio de um unguento venenoso.

Nós poderíamos questionar o comprimento das serpentes, que por vezes são descritas como bastante curtas; Enquanto a Chersaea ou serpente-terrestre que a maioria cogita que ela tenha usado, tem mais do que quatro cúbitos de comprimento (N.T: cerca de 2 metros). O número delas também não é indiscutível: Pois, enquanto geralmente duas são descritas, Augusto (conforme relata Plutarco) levou em seu triunfo a imagem de Cleópatra com somente uma serpente em seu braço. No que concerne às duas picadas, ou pequenas marcas no braço dela, elas não inferem a pluralidade de serpentes, pois, como a víbora, a áspide tem duas presas, por meio das quais ela deixa atrás essa marca, ou dupla perfuração.

E por último, nós poderíamos questionar o lugar (da picada); porque alguns a situam no seio dela, o que, não obstante não será consistente com a História; e o mesmo foi bem observado por Petrus Victorius. Mas aqui é fácil de ver o equívoco: sendo o costume em condenados à pena capital aplicá-las no peito, como determinou o autor de De Theriaca ad Pisonum, uma testemunha ocular de Alexandria, onde Cleópatra morreu: Eu contemplei, disse ele, em Alexandria, o quão rápido essas serpentes privam da vida um homem; porque, quando alguém é condenado a este tipo de morte, se a intenção deles é trata-lo favoravelmente, isto é, despachá-lo rapidamente, eles prendem uma áspide no peito dele, e ordenando-lhe que caminhe, ele naquele momento morre desta forma”.

Sir Thomas Browne, Pseudodoxia Epidemica, capitulo XII

As dúvidas levantadas por Sir Thomas Browne foram refutadas pelo escocês Alexander Ross, um escritor e polemista que também foi capelão real do rei Charles I, da Inglaterra, na obra que Arcana Microcosmi, escrita em 1651, cujo título alternativo é “Ou os segredos ocultos do corpo humano descobertos. Em um duelo anatômico entre Aristóteles e Galeno no que diz respeito às suas partes. Como também pela descoberta das estranhas e maravilhosas doenças, sintomas e acidentes do corpo humano“:

“Há algumas outras pinturas que ofendem os olhos do Doutor; como : 1. A de Cleópatra com duas serpentes. Suetônio fala de uma, Floro de duas, tal como Virgílio.

“Nec dum etiam geminos à tergo respicit angues”.

E assim diz Propercio

“Brachia spectavia sacris admorsa colubris.”

Consequentemente, ele deveria tê-los reprovado, ao invés do pintor; ele também deveria ter brigado com Augusto, que dos orificíos que ele encontrou nos braços dela, concluiu que ela tinha sido picada por serpentes, e, por conseguinte usou os Phylli para sugar o veneno. Mas, tenha sido ela picada por uma, duas ou nenhuma serpente, a pintura é inofensiva, e de acordo tanto com os Historiadores quanto com os Poetas. “

Alexander Ross, Arcana Microcosmi, capítulo XI
Alexander Ross, Engraving by Pierre Lombart after unknown artist – National Portrait Gallery, UK[1], Public Domain,https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7251976by; after Pierre Lombart; Unknown artist,print,published 1653

Inobstante, não fica muito claro se essa polêmica entre os dois eruditos britânicos acerca da consistência histórica do retrato em questão refere-se a uma obra artística contemporânea de ambos, ou se eles discutiam sobre uma pintura mais antiga.

3- Aparece um retrato, supostamente autêntico, de Cléopatra

Todavia, quase duzentos anos depois, o editor de livros inglês Simon Wilkin editou uma coletânea das obras completas de Sir Thomas Browne (entre 1835 e 1836). Em uma nota ao acima transcrito capítulo XI da Pseudodoxia Epidemica de Browne, relativo à pintura de Cleópatra, Wilkin alude a uma então recente descoberta de uma pintura da rainha egípcia, a qual teria ficado escondida por séculos e teria sido pintada por um pintor da Grécia Antiga, fazendo uso da desaparecida técnica de Encáustica (pintura esta que, tendo em vista o fato de ter sido descoberta no início do século XIX, obviamente, não poderia ser a mesma que foi objeto dos comentários de Browne e Ross no século XVII):

“Uma antiga pintura encáustica de Cleópatra foi recentemente descoberta, e retirada de uma parede, na qual esteve escondida por séculos, e tida como sendo um retrato de verdade, pintado por um artista grego. Foi feito sobre uma lousa azul. O colorido é fresco, muito vívido. Ela é representada aplicando áspide no seio dela”. Extrato de uma carta de Paris; Philadelphia Gazette, 27 de novembro de 1822 – Jeff.

A notícia precedente refere-se com toda probabilidade à pintura que foi trazida para a Inglaterra pelo seu detentor, Signor Micheli, que a avaliou em 10 mil libras esterlinas. Ele providenciou que fosse feita uma gravura dessa pintura, que eu tive a oportunidade de ver, nas mãos de R.R. Reinagle, Escudeiro, Real Academia (Reinagle, embora de fato tenha sido membro da Real Academia, até ser exonerado, em 1848, era também um falsário e é obvio que se deve ter isto em mente – J.E) e por sua gentileza eu também fui agraciado com esta muito completa e interessante história e descrição desta curiosa obra de arte, de acordo com minha solicitação:

“17, Fitzroy Square, o2 de dezembro de 1834.

“Senhor, – A pintura foi feita sobre uma espécie de lousa de mármore negra – estava quebrada em dois ou três lugares. Disse o Cavalheiro Micheli, o proprietário, que a trouxe de Florença para este país, que ela foi encontrada nas cavidades de uma grande adega, onde outros fragmentos da Antiguidade foram depositados. Que ela estava em uma caixa de madeira muito grossa quase que totalmente deteriorada. Que ela chegou às mãos de um negociante, através do mordomo da casa ou do palácio onde ela foi encontrada, tendo vendido uma parte da dita madeira insignificante na qual a pintura foi encontrada Em geral, ela estava incrustada com algum tipo de tártaro e verniz decomposto, que foi limpo por certos químicos eminentes de Florença. Partes do colorido foram raspadas e analisadas por três ou quatro pessoas. Atestados formais foram dados por eles às autoridades constituídas, e os documentos receberam selos de órgãos autorizados e assinaturas. Chegou-se à conclusão que as cores eram todas minerais e em pouco número. O vermelho era synopia grega (N.T: uma espécie de terra vermelha); um outro vermelho etéreo, usado no manto que Cleópatra vestia, era de uma origem não descoberta – ele tinha a aparência de pigmento vermelho veneziano brilhante, da cor carmesim; – o branco era um giz, mas eu esqueci de que natureza; – o amarelo tinha a natureza de amarelo de Nápoles – parecia vitrificado; – havia também amarelo ocre; – o preto era carvão. A cortina verde era denominada “terra vera da Grécia”, aplicada com alguma desconhecida cor amarela enriquecida. O cabelo era arruivado, e poderia ser manganês; – os cachos elaborados foram finalizados cabelo por cabelo, com linhas curvas vívidas nas partes mais claras, de cor dourada amarelo brilhante. O colar consistia de várias gemas engastadas em ouro: o amuleto era de ouro, e uma corrente dava duas ou três voltas no pulso direito dela. Ela usava uma coroa com pontas radiantes, e joias entre cada uma delas; – e também uma joia na testa, com uma grande pérola nos quatro cantos, disposta em forma de losango na testa dela; parte do seu cabelo frontal era trançada, e duas tranças rodeavam o pescoço, e estavam presas em um nó do cabelo; – o manto vermelho estava preso em ambos os ombros – não se via nenhuma roupa. Ela segurava a áspide em sua mão esquerda; era de cor verde, e bastante grande. Sua cabeça era extravagante, e compartilhava os caprichos tanto dos escultores antigos como modernos, lembrando a cabeça e a bico de um golfinho. No processo de se contorcer, como se preparando para dar um segundo bote; duas diminutas perfurações das presas estavam marcadas no seio esquerdo, e uma gota ou duas de sangue fluía. Cleópatra estava olhando para cima; uma expressão de tremor dos lábios, e lágrimas copiosas escorrendo pelas suas bochechas, davam ao semblante um efeito singular; a mão esquerda dela estava pendendo do antebraço como se a vida estivesse esvaindo-se e começando as convulsões. A composição da figura era ereta e judiciosamente disposta no espaço confinado onde foi colocada. A proporção da pintura era de aproximadamente dois pés e nove polegadas (NT: 83,8 cm), e estreita, como aquelas telas que os artistas na Inglaterra chamam de Kitcat. Decompondo as cores, os homens instruídos de Veneza e Paris ficaram totalmente persuadidos de que era uma pintura encáustica: cera e uma goma resinosa foram nitidamente separadas. Toda a pintura apresenta os mais fortes sinais de antiguidade; porém, permanece em muitas mentes a dúvida se trata-se mesmo de uma verdadeira antiguidade. Ela foi atribuída a Timomachus, um artista de grande eminência e um viajante, que viveu na corte de César Augusto. Ele seguia o estilo encaustico de Apelles. e com ele morreu ou desapareceu esta difícil arte. A pintura foi pintada (como se supõe), pelo supracitado artista grego, de memória (pois ele frequentemente tinha visto Cleópatra) para ocupar o lugar dela no triunfo de Augusto, quando ele celebrou a suas vitórias no Egito sobre Antônio e Cleópatra. Ela, por meio de sua desesperada firmeza, privou-o da honra de expor a sua pessoa à contemplação do povo romano. Conta-se que a pintura foi levada, como uma preciosa relíquia artística, por Constantino para Bizâncio, depois nomeada Constantinopla, e devolvida à Roma por seus sucessores à antiga sede do governo. Como ocorre com tantas coisas relativas à arte, esta pintura foi esquecida, e permaneceu nas escuras e profundas cavidades da adega. O Cavalheiro Micheli a levou de volta para a Itália, quando deixou a Inglaterra, há cerca de dois anos atrás. O que é feito dela desde então, eu desconheço.

O título da gravura é o seguinte:

– “Cleópatra, Rainha do Egito. O original, do qual esta é uma representação fiel, até então é o único espécime conhecido de pintura grega antiga. Ela deu origem às mais judiciosas investigações tanto na Itália como na França, e tem sido universalmente admitida pelos “cognoscenti”, auxiliados pela real análise das cores, como sendo uma pintura encáustica. A pintura é atribuída a Timomachus, e presumivelmente pintada por ele para seu amigo e patrono, César Augusto, para adornar o triunfo que celebrou suas vitórias sobre Antônio e Cleópatra, como uma substituta para a beleza da original, que o desapontou por meio da heroica morte que ela infligiu a si mesma. Esta lâmina é dedicada aos “virtuosi” e amantes das artes refinadas no Império Britânico pelo autor, que também é o possuidor desta inestimável relíquia da Arte Grega”.

Permaneço seu muito obediente servo,

Ao Sr. S. Wilkin.

R.R. Reinagle“

Simon Wilkin, “The Works of Sir Thomas Browne“, em https://archive.org/stream/worksofsirthomas02brow/worksofsirthomas02brow_djvu.txt

4- A antiga arte da Encáustica

A Encáustica é uma técnica de pintura conhecida na Antiguidade Clássica, cujo nome deriva da palavra grega “enkaustikos“, que significa “gravar a fogo” e que foi descrita pelo célebre naturalista romano Plínio, o Velho, em sua obra “História Natural“. A encáustica consiste no uso da cera como aglutinante dos pigmentos, formando uma mistura densa e cremosa aquecida ou aplicada com um pincel ou uma espátula quente. Embora fosse um processo muito antigo cujo conhecimento tenha se perdido durante séculos, o fato é que a técnica foi redescoberta e hoje voltou a ser utilizada pelos artistas. Segundo Plínio dá a entender, esta técnica teria surgido para pintar navios de guerra, já que o processo resultaria numa pintura resistente a agua salgada e às intempéries (vide Plinio. Nat. 35.4).

Posteriormente, como relata Plínio, a pintura encáustica, cuja invenção teria sido por alguns antigos atribuída ao pintor grego Aristides, foi utilizada por vários outros artistas e pintores gregos célebres, como Praxíteles, Apelles e Timomachus. Segundo Plínio, os materiais onde se executava este tipo de pintura eram a madeira e o marfim.

Este lindíssimo retrato em Encáustica sobre madeira, de uma bela mulher que faleceu no Egito durante o período romano, foi encontrado na múmia da falecida em Fayum e encontra-se no Museu Britânico, em Londres. Foto: British Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

Efetivamente, a durabilidade da pintura encáustica é comprovada pelo número de pinturas que sobreviveram praticamente intactas até os nossos dias, ostentando figuras nítidas e cores vibrantes, quase todas retratos de pessoas que foram mumificadas no Egito durante o período romano, conhecidas como Múmias de Fayum, mas também vários murais descobertos nas cidades romanas de Pompéia e Herculano, soterradas pela erupção do Vesúvio. Algumas estátuas de mármore também apresentam vestígios de pintura encáustica. Vale observar que os retratos das múmias de Fayum são sempre pintados sobre madeira, mas que algumas vezes é tratada ou revestida com gesso. ou cola (vide https://www.biancakiso.com/en/enkaustik/).

Retrato do menino Eutyches,, de cerca do século I ou II D.C., descoberto na tumba onde sua múmia repousava, na cidade egípcia de Fayum. Foto tirada pelo autor no Museu Metropolitan de Nova York, cujo acervo ele integra.

O cavalheiro que mostrou a gravura da pintura de Cleópatra trazida para a Inglaterra a Simon Wilkin e escreveu-lhe a carta contando os detalhes sobre a obra é Ramsay Richard Reinagle (1775-1862), um pintor inglês da Academia Real que chegou a estudar na Itália e na Holanda e cujos temas mais frequentes eram paisagens e retratos. Ele também especializou-se em reproduzir obras de mestres consagrados.

Porém, em 1848, Reinagle apresentou em uma exposição, como sendo de sua lavra, um quadro que, posteriormente, descobriu-se que havia na verdade sido pintado por um outro artista e que ele adquiriu de um marchand, tendo ele feito apenas algumas alterações na tela. Assim, devido ao escândalo, Reinagle foi obrigado a renunciar ao seu diploma de membro da Real Academia. Vale notar que, não obstante ele mesmo não fosse gravurista, isto é, fizesse gravuras, foram feitas várias gravuras de seus trabalhos por diversos gravuristas ingleses, entre 1818 e 1830, sendo a gravura um tipo de arte que estava na moda no período.

Ramsay Richard Reinagle, Public domain, via Wikimedia Commons

5- A Pintura Encáustica de Cleópatra desperta o interesse dos especialistas

Não obstante, a bombástica notícia de que uma supostamente antiga pintura de Cleópatra teria sido descoberta (pintura esta que, com certeza, é a mesma cuja reprodução em gravura foi vista por Simon Wilkin e referida por R. R. Reinagle) de fato circulou pelo mundo culto no início da década de 1820, tendo sido esta obra, cuja autenticidade de pronto suscitou controvérsias, examinada por integrantes da comunidade artística e científica, como podemos ver do seguinte trecho do The European Magazine, and London Review, Volume 83, edição de janeiro de 1823:

“A Pintura Encáustica de Cleópatra

-Esta pintura, executada em lousa, representa Cleópatra no instante em que ela é picada pela áspide em seu seio esquerdo. M. Luigi Micheli, a quem esta gravura pertence, fez com que a mesma fosse examinada pelo Marquês Ridolfi, um químico erudito. M.Ridolfi acredita que nela ele pode reconhecer um precioso monumento de arte anterior ao declínio da arte da pintura. Ele até supõe que ela foi feita por Tymomacus, da escola de Apelles, a quem Plutarco menciona. M. Zannoni, um conhecido antiquário de Florença, é de opinião contrária e estipula uma data bem moderna para a obra em questão. Ele observa que as feições não guardam nenhuma semelhança com as de Cleópatra existentes em antigas moedas latinas e gregas: onde ela nunca é representada com uma coroa raiada, nem o arranjo dos seus cabelos, vestido, etc., similares aos desta pintura; e que o ferimento produzido pela serpente não prova nada. M. Zannoni não reconhece nesta pintura a Cleópatra de Plutarco e Dionysius, mas, ao contrário, ele a percebe como é representada por Guido e pelos artistas modernos. Com relação à composição empregada nesta pintura, ele cita as observações do Conde de Caylus, que diz que a encáustica era utilizada pelos antigos em tabuletas de madeira, e que estes não conheciam a lousa; a encáustica tendo sido revivida e reintroduzida pelo Conde de Caylus desde 1754, e trazida à perfeição por Requeno, e por Fabbrinion e Parenti, ambos de Florença, sendo sua opinião que esta gravura pertence a um destes dois últimos. Esta pintura, objeto de pesquisas químicas e de antiquários, está agora em Paris, onde a questão que tem dividido os italianos sem dúvida será solucionada.”

Fonte: https://books.googleusercontent.com/books/content?req=AKW5Qadq8Q7gRbIFknuGYOK6B4cq0c75UEVVmHPpdKOivhAVIfwOYCyAhOBpnQ1uTbHlAuWerZ6e3kuuASZ_KUN_aNlfJlMzgqJmnMlm2ptck2Ci4BZ_wMmidcKRIAja9bw30KdjPtIoYkJRlm16PprKKScGy5iApg9b3e1vAhwFyc_ml6OX66IcE7qRumtxcF-eRr1uUCht43Bt45KyHEWjAJJ360OWCEQM7HlzmHNkEPvYHHjSXR092SzevpmXuDGeR-ISYodl2fMvP5GraJ-pTsPI9HHp_uawfL9IQ8CosG46M_wAhtM

O acima citado Marquês Ridolfi, químico que teria examinado o retrato de Cleópatra, escreveu uma carta na qual é exibida uma gravura ilustrando o mesmo, sendo a carta publicada na Autologia di Firenze, em agosto de 1822, e, posteriormente, em um artigo escrito pelo escritor, revolucionário e poeta italiano Ugo Foscolo, na London Magazine, de maio de 1826, conforme mencionado pela escritora italiana Eugenia Levi, em 1913 (La Bibliofilía, Vol. 15, No. 2/3 (Maggio-Giugno 1913), pp. 68-90, publicado pela Casa Editrice Leo S. Olschki s.r.l.). Desse modo, esta deve ter sido a primeira vez que uma imagem do retrato em questão foi publicada, e esta gravura, que copiamos do artigo de Levi pode ser vista abaixo:

Mas o fato de que essa gravura da suposta pintura de Cleópatra realmente existiu e foi divulgada na época é confirmado por uma nota publicada em 28 de agosto de 1858, na revista Notes & Queries, um periódico editado pela Oxford University Press desde 1849, voltado para estudiosos e curiosos fazerem perguntas e darem respostas sobre temas versando sobre história, antiguidades, literatura e língua inglesa. Na nota, uma pessoa anônima, que se identifica apenas pela letra grega “β”, pede informações sobre o paradeiro da pintura trazida cerca de 35 anos antes para a Inglaterra pelo Sr. Micheli, e avaliada por ele em 10 mil libras, que foi reproduzida em uma gravura que trazia exatamente o mesmo título extenso transcrito na carta de Reinagle, acima citada por Wilkin (vide Notes & Queries, 2nd S., Vol. 6 (139), p. 166, August 28, 1858, disponível no Google Play).

Não posso, contudo, deixar de observar que a saga dessa pintura de Cleópatra reveste-se de um ar suspeito, e não me surpreenderia se ela tiver sido o objeto de uma trapaça dos citados Micheli e Reinagle objetivando vender um quadro falso a algum ricaço inglês (empreitada que não deve ter sido bem sucedida, pois Reinagle relata, na carta transcrita por Wilkin, que Micheli levou a pintura de volta para a Itália, por volta de 1832…). Mas existe a possibilidade de que, mesmo não sendo proveniente da Antiguidade, a pintura possa ter sido produzida por algum anterior especialista em pintura encáustica, quem sabe os referidos Fabbrinion e Parente, ou talvez o próprio Conde de Caylus, referido na matéria do The European Magazine, and London Review.

Com efeito, Anne Claude de Tubières-Grimoard de Pestels de Lévis (1692-1785), o Conde de Caylus referido na matéria pelo especialista cético M. Zannoni, de fato foi um dos redescobridores da técnica da antiga pintura encáustica e ele também era um notável antiquário e arqueólogo amador, estudioso da arte clássica e hábil gravurista que produziu inúmeras gravuras de objetos antigos.

Comte de Caylus By Alexander Roslin – pl.pinterest.com, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=21855758

Seja como for, sessenta anos após o aparecimento da pintura trazida por Micheli e vista por Reinagle e Wilkins na Inglaterra, ela seria vista e examinada na Itália pelo artista anglo- americano John Sartain, em 1883.

John Sartain fez esta gravura de si mesmo. Foto By Unknown author – http://www.antiquehelper.com/item/309799, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18992462

John Sartain (1808-1897) era um gravurista que foi o pioneiro da gravura em metal (calcografia), através da técnica chamada de meia-tinta (mezzotinto), que ele próprio introduziu nos EUA, um processo de produção de gravuras que foi muito empregado para ilustrar livros e jornais no século XIX, fazendo grande sucesso.

Em 1885, Sartain escreveu um livro que recebeu o título de “On the Antique Painting in Encaustic of Cleopatra” (na verdade, a obra está mais para um pequeno ensaio ou artigo) relatando a viagem que ele fez à Itália, em outubro de 1883, e onde teve a oportunidade de examinar duas pinturas supostamente provenientes da Antiguidade Clássica, ambas produzidas com o emprego da Encáustica sobre uma lousa de ardósia oriental: um retrato de uma jovem, com uma coroa de louros na cabeça, um seio à mostra, segurando uma lira, que, por este motivo foi apelidada de “Musa Polyhymnia“, até hoje existente no Museu da Academia Etrusca de Cortona; e uma pintura de Cleópatra, retratando-a logo após ela ser mordida pela serpente, guardada na cidade de Sorrento. O livro é dedicado ao Barão de Benneval, um nobre francês que, na ocasião, era o proprietário do retrato de Cleópatra e uma edição original do livro encontra-se no acervo da Biblioteca da Universidade de Cornell, nos EUA, e uma cópia em PDF pode ser facilmente consultada e baixada via internet.

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Capa do livro de John Sartain

No seu livro, Sartain, escrevendo da cidade de Cortona, Itália, inicialmente discorre sobre as duas pinturas, relatando as circunstâncias de suas descobertas.

6- A Musa Polyhymnia – uma pintura sobrevivente da Antiguidade Clássica?

Sartain relata, em primeiro lugar, a interessante história da Musa Polyhymnia, uma pintura supostamente antiga que teria sido descoberta em 1734 pelo Senhor Rainero Tommasi próximo à cidade de Petrignano onde aquela havia sido, por sua vez, encontrada alguns anos antes por um camponês que vivia nas terras do referido cavalheiro, tendo o humilde homem acreditado que a pintura fosse um retrato da Virgem Maria.

Após a visita de um padre que contestou a identidade da mulher retratada, considerando-a uma obra pagã, o camponês em questão resolveu usar a pintura como uma portinhola para o forno de sua casa, até ela ser resgatada deste indigno destino por seu senhorio, o citado Tommasi, que a compra, tendo então esta pintura sido mantida em poder da sua família até 1852, quando foi doada pela Senhora Louise Bartolotti Tommasi à Academia Toscana de Cortona e colocada no museu onde até hoje se encontra.

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Musa Polyhyminia, , Museu da Academia Etrusca de Cortona

A narrativa de Sartain acerca da Musa Polyhymnia é importante porque a mesma história das circunstâncias de sua descoberta foi relatada por Curzio Tommasi, sobrinho de Rainero, em 1765, como se pode constatar no livro “Fabriquer L’Antique“, de Delphine Burlot (ver https://books.openedition.org/pcjb/6288, em francês). Portanto, ainda que a estória original em si não seja isenta de suspeitas, podemos considerar que não resta dúvida de que Sartain não a inventou.

Para o nosso artigo sobre a pintura de Cleópatra, é relevante também constatar que a gravura que Sartain produziu e incluiu em seu livro reproduzindo a Musa Polyhymnia de Cortona é bem fiel ao original exposto no Museu da Academia Etrusca de Cortona, como se pode examinar abaixo.

File:Muse of cortona.png
John Sartain, Public domain, via Wikimedia Commons

A Musa Polyhymnia acabou sendo acolhida pela comunidade de Cortona como um verdadeiro tesouro local e praticamente uma relíquia histórica proveniente da arte grega antiga, ideia que foi corroborada por algumas análises feitas por especialistas do final do séculos XVIII até a metade do século XIX, que atestaram, segundo critérios técnicos disponíveis na época, que de fato tratava-se de uma pintura encáustica proveniente da Antiguidade.

Como não se trata de nosso assunto principal, e nosso artigo já está bem longo, não vamos detalhar o processo pelo qual se chegou a essa conclusão, mas o fato é que, a partir do século XX, peritos em arte e pintura começaram a contestar a autenticidade da Musa Polyhymnia, nos aspectos estilístico e técnico, e, atualmente, o próprio Museu da Academia Etrusca de Cortona expõe a pintura como sendo um exemplar de pintura sobre ardósia que deve ter sido pintado entre os séculos XVI e XVIII.

Mas para quem se interessar em estudar a interessante saga dessa pintura, há um capítulo do já citado livro “Fabriquer L’Antique“, de Delphine Burlot (ver https://books.openedition.org/pcjb/6288) tratando da referida obra: Nesta, basicamente, a autora oferece argumentos bem elaborados de que o retrato da Musa Polyhymnia foi uma tentativa de reproduzir pinturas que haviam sido recentemente descobertas na cidade romana soterrada de Herculano, sendo provavelmente um trabalho de Camillo Paderni, um pintor italiano conhecido por pintar e copiar obras da Antiguidade e que teria sido contratado pelo antiquário Marcello Venuti, cujo objetivo seria mostrar ao rei de Nápoles que as pinturas recentemente descobertas em seus domínios – Pompéia e Herculano, não seriam obras-primas da arte greco-romana.

7- O retrato de Cleópatra é localizado em Sorrento e reproduzido em gravura por Sartain

Retornando à pintura de Cleópatra, Sartain conta a trajetória prévia da pintura até chegar às mãos do Barão de Benneval, agora com alguns detalhes que não constavam dos primeiros relatos desde 1822 e mencionados por Wilkin e Reinagle:

O outro exemplo de pintura de cavalete antiga é de grande importância, e está preservada na Villa do Barão de Benneval em Piano de Sorrento. Esta também está em boas mãos, mas também deveria encontrar um lugar de repouso permanente em alguma coleção nacional, onde deveria estar protegida para sempre. Ela representa Cleópatra morrendo da picada de uma áspide, e, obviamente, não se pode defender que se trate de um retrato feito em vida, já que foi evidentemente pintado após o trágico fim dela. Foi descoberta por Micheli, o conhecido antiquário, embaixo do recinto do Templo de Serápis, na Vila de Adriano. Da primeira pintura (ele fala da Musa Polyhymnia), não se cogita sequer de sua origem, exceto que ela é evidentemente grega, mas da última existem informações que fornecem uma aproximação razoável a uma história conectada. Quando encontrada, ela estava em dezesseis fragmentos, que ao serem juntados mostravam que praticamente nenhuma parte estava faltando. As peças separadas foram levadas para Florença, e submetidas a um exame crítico do eminente advogado Giovannni Battista Tannucci, da Academia Real de Pisa, que escreveu um elaborado relatório sobre o assunto, mostrando o quão profundamente ele ficou impressionado com o valor da descoberta. O relatório foi publicado na “Autologia di Firenze”, volume 7. Em Agosto de 1822, o conhecido cientista e químico Marquês Cosimo Ridolfi, auxiliado por Targiani Tozzeti, submeteu o material do qual ela era composto a uma análise química e dessa forma chegou ao exato conhecimento dos veículos empregados junto com os pigmentos de cor. Esses provaram serem feitos de dois terços de resina e um terço de cera. Tais experimentos estão detalhados em um estudo que também foi publicado na “Autologia”, em 1822, e dos quais eu obtive uma cópia. Os manuscritos originais de ambos os estudos estão arquivados nos arquivos públicos de Florença. Finalmente, as peças quebradas foram remontadas e colocadas juntas em uma base de cimento. Ambas as pinturas foram feitas sobre ardósia oriental de uma cor cinzenta”,

“On the Antique Painting in Encaustic of Cleopatra“, John Sartain, em https://penelope.uchicago.edu/oddnotes/cleoinencaustic/cleopatraencaustic.html

Sartain também relata a quase rocambolesca da saga do retrato de Cleópatra até chegar às paredes da vila do Barão de Benneval, em Sorrento:

Após ser descoberto pelo antiquário Micheli, nas ruínas do Templo de Serápis, na Vila do imperador romano Adriano, em Tìvoli, o retrato de Cleópatra foi oferecido ao Grão-duque da Toscana, que mantinha o Museu Florentino, que recusou-se a pagar o alto preço pedido. Depois, devido a dificuldades financeiras que o negócio dos irmãos Micheli enfrentava, eles acabaram oferecendo o objeto de arte como garantia a uma dívida. Após a morte dos irmãos, os herdeiros deles, não podendo remir a dívida, venderam o quadro a um conhecido do Barão de Benneval, que quitou a dívida. Posteriormente, o adquirente vendeu o quadro ao Barão, em 1860.

O quadro, então, foi exibido em galerias de Londres, Paris, Munique e Roma, e foi em Munique que a obra teria recebido uma base de cimento, a fim de manter os fragmentos unidos com segurança, trabalho feito por M. Plater, restaurador que trabalhava para o rei Ludwig, da Baviera.

Em 1869, o imperador da França, Napoleão III, teria feito uma oferta pelo quadro, que foi enviado a Paris. Contudo, ao eclodir a Guerra Franco–Prussiana, inclusive tendo ficado lá durante o cerco prussiano à Cidade-Luz, aos cuidados do Príncipe Czartoryski. Não concluído o negócio, provavelmente pelo fato de Napoleão III ter sido deposto, em 1870, a pintura voltou para Sorrento.

Gravura da Villa do Barão de Benneval, em Sorrento, extraída do livro de John Sartain. Eu procurei na internet alguma referência à esta propriedade, bem como esquadrinhei o google earth, inclusive o street view, e não achei nenhuma menção a ela, nem encontrei nenhum prédio semelhante na cidade, mas o imóvel pode ter sido remodelado, destruído(ou apenas eu não consegui encontrá-lo).

Percebe-se que ao ser exibida em várias capitais da Europa, reacendeu-se o interesse dos especialistas em arte e antiguidades pela pintura, e o livro de Sartain menciona vários estudos que foram feitos sobre ela, sendo o mais abrangente deles, feito, obviamente com a tecnologia disponível na época, o do perito alemão D.R. Schoener.

Schoener examinou pessoalmente a pintura em Sorrento, que descreve como tendo sido feita em uma lousa de ardósia oriental medindo 79 cm de altura x 57 cm de largura, e pela descrição que ele faz, não há dúvida de que é exatamente a mesma pintura objeto do livro de Sartain.

O perito alemão considerou que o diadema que a figura ostenta na pintura corresponde à coroa radiada utilizada pelos monarcas da dinastia dos Ptolomeus, da qual Cleópatra foi a última representante, junto com seu filho Cesárion, como pode ser observado em moedas do período (não obstante, deva ser observado que até hoje não tenha sido encontrada nenhuma moeda, relevo ou escultura de Cleópatra usando este tipo de coroa), e que as joias usadas pela figura feminina retratada correspondem a tipos de ornamentos utilizados por mulheres romanas do período, conforme afrescos descobertos em Pompéia.

Ptolemy VIII Euergetes II (Physcon). 145-116 BC, usando uma coroa radiada. AR Tetradrachma, foto by Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, Public domain, via Wikimedia Commons
Moeda de Ptolomeu IV Philopator, retratando seu deificado pai, Ptolomeu III, também usando uma coroa radiada, foto by PHGCOM, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Novamente, não vamos descrever a análise técnica dos pigmentos e do processo examinados por Schoener, que também faz no texto uma abrangente e minuciosa explanação sobre a pintura encáustica, mas falarei agora um pouco da plausibilidade do relato da descoberta do retrato, algo que também é abordado pelo alemão.

Como já mencionamos, a existência de um retrato póstumo de Cleópatra, pintado pouco depois da morte da rainha, para ser exibido no Triunfo do imperador Augusto, em Roma, é um fato relatado pelas fontes antigas. E também que, cerca de quinze anos antes do suicídio da egípcia, uma imagem ou estátua de Cleópatra foi colocada por Júlio César no Templo de Vênus Genitrix, e que, por volta do ano 160 D.C, quase duzentos anos após a morte dela, essa imagem ainda estava lá.

A Vila de Adriano, concluída no ano de 128 D.C, foi construída pelo célebre imperador não somente para ser sua residência, mas também para servir como um autêntico parque temático privado para evocar os tesouros e preciosidades do mundo greco-romano e helenístico, sendo reservado um espaço especial para o Egito, onde morreu e foi deificado Antínoo, o adorado amante de Adriano. De fato, neste particular, o complexo tinha uma grande piscina cercada por uma colunata, conhecida como Canopus, emulando o rio Nilo (nome original da cidade onde Antínoo morreu afogado), que levava a um Serapeum (Santuário do deus greco-egípcio Serápis), e neste local, foram encontradas várias esculturas de deuses em estilo egípcio, incluindo do próprio Antínoo, e do deus egípicio Bes, bem como de crocodilos. Havia também muitas reproduções de importantes obras de arte da arte clássica, trazidas de outros lugares. Muitas dessas estátuas foram escavadas no século XVIII.

O Serapeum, na Vila de Adriano. Foto Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Sabe-se, pelas fontes, que a Vila de Adriano ainda era utilizada pelos imperadores no século III D.C., e, embora tudo indique que esta residência palaciana tenha sido paulatinamente abandonada a partir de então, o mais provável é que a propriedade continuasse sendo parte do patrimônio imperial até a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C. Já no período ostrogodo, há relato de que as instalações da Vila de Adriano foram utilizadas como armazém tanto pelos germânicos como pelos bizantinos, durante a Guerra Gótica, que durou de 535 a 554 D.C. Nessa época, então, tudo que deveria haver de valor já teria sido saqueado há várias décadas.

E ainda assim, enquanto o Império Romano ainda não tinha caído, a partir do final do século IV D.C, com a decisão de Teodósio, o Grande de tornar o Cristianismo a religião oficial do Estado, iniciou-se um grande surto de vandalização e destruição de estátuas ou de edifícios que estivessem relacionados com o Paganismo.

Efetivamente, é enorme a quantidade de estátuas desse período que apresentam danos intencionais causados por fanáticos cristãos. E, ironicamente, graças ao fato delas não serem feitas de material precioso e de terem sido destruídas ou danificadas, e arrojadas e descartadas, ficando perdidas embaixo de detritos ou da própria terra, é que ainda hoje muitas dessas obras são encontradas, ainda que em fragmentos.

Assim, uma pintura como a de Cleópatra, ostentando a coroa radiada (sinal de divindade) e trazendo a serpente enrolada no braço (para os cristãos da época, um símbolo do Diabo), poderia muito bem ter sido percebida como um ídolo pagão e destruída em pedaços, assim que esses fanáticos religiosos tiveram acesso à Vila de Adriano, que já devia estar abandonada no século V D.C.

Normalmente, pinturas não sobrevivem muito tempo ao ar livre, mas, tendo sido realizada com a técnica da encáustica, que foi criada justamente para resistir à água, e estando em fragmentos soterrados sobre grande quantidade de material ou solo, torna-se, a meu ver, bem plausível acreditar que uma pintura encáustica sobre ardósia proveniente da Antiguidade possa ter chegado em bom estado até o século XVIII ou XIX.

Obviamente que espertalhões do mercado de antiguidades e falsários (não obstante, frequentemente eruditos e versados nos textos antigos), poderiam saber de tudo isso, assim como as suas vítimas prediletas: os ricaços europeus adeptos do “Grand Tour” (a febre de viagens educativas aos berços da Civilização Greco-Romana que grassou no final do século XVIII até meados do século XIX) e os monarcas e nobres colecionadores ávidos por peças antigas para abrilhantar os seus museus e galerias.

Que a pintura pode ser falsa, admitamos, é uma suspeita que também é estimulada pela divergência nos relatos acerca da sua descoberta. Segundo a já citada carta de Reinagle a Wilkin, ele menciona que a mesma, segundo o antiquário Micheli, “foi encontrada nas cavidades de uma grande adega, onde outros fragmentos da Antiguidade foram depositados. Que ela estava em uma caixa de madeira muito grossa quase que totalmente deteriorada“, portanto, um relato um tanto diferente do que nos foi trazido por Sartain (achado embaixo do recinto do templo de Serápis). Mas, também é admissível, e nos parece até bem provável, que as versões diferentes sejam apenas fruto de um ruído na transmissão dos fatos por Reinagle que não entendeu ou relatou com precisão o que teria ouvido de Micheli. Ele pode muito bem ter confundido “Cella” (recinto de um templo ou santuário antigo) com “Cellar” (adega, em inglês).

Não obstante, Schoener, baseando-se muito na análise de Ridolfi, e na comparação entre o que ele observou na pintura e as características da técnica da encáustica exaustivamente mencionadas por ele, concluiu que a pintura é autêntica.

John Sartain incluiu no livro uma gravura que ele fez retratando a pintura de Cleópatra que ele pôde observar na Vila do Barão de Benneval. Examinando-a podemos notar que é muito semelhante, podendo muito bem ser a mesma, que foi impressa na carta do Marquês Ridolfi publicada na Autologia di Firenze, em agosto de 1822, obviamente que com algumas diferenças decorrentes da técnica utilizada e do estilo de cada artista.

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Gravura de retrato de Cleópatra em posse do Barão de Benneval,por John Sartain

Considerando que a gravura de Sartain retratando a Musa Polyhymnia reproduz muito bem o original até hoje exposto na Museu da Academia Etrusca de Cortona, é admissível cogitarmos de que a sua gravura do retrato de Cleópatra também seja bem fiel à pintura encáustica de propriedade do Barão de Benneval, que, segundo todos os relatos, seria a pintura de Cleópatra alegadamente desenterrada na Vila de Adriano, e que, supostamente, seria um original proveniente da Antiguidade, pintado logo após a morte da rainha egípcia.

8- Um anticlímax…

Eu estava já terminando de escrever este artigo, quando, em um último afã de obter mais alguma informação sobre o paradeiro deste suposto retrato de Cleópatra, que tanto eletrizou a comunidade artística e científica durante boa parte do século XIX, deparei-me com a já mencionada cópia do artigo da escritora italiana Eugenia Levi, publicado em 1913 (La Bibliofilía, Vol. 15, No. 2/3 (Maggio-Giugno 1913), pp. 68-90, pela Casa Editrice Leo S. Olschki s.r.l..

O artigo, cujo título é “L’articolo sull’ “Incausto” di Ugo Foscolo” trata, como o nome diz, sobre um artigo escrito pelo escritor, revolucionário e poeta italiano Ugo Foscolo, na London Magazine, de maio de 1826, na qual foi reproduzida uma gravura do retrato de Cleópatra conforme já relatamos no item 5 deste nosso artigo.

Para minha grande surpresa, no final do seu artigo, Eugenia Levi relata que conseguiu o endereço da viúva do Barão de Benneval, que estava vivendo em Nápoles, após a Vila deles em Piano de Sorrento ter sido vendida. Embora não tenha conseguido se encontrar com a viúva, Eugenia Levi conseguiu obter o endereço do antiquário onde o retrato de Cleópatra que pertencia ao finado Barão estava à venda! (vide cópia abaixo do artigo, que pode ser baixado em https://www.jstor.org/stable/26207999?read-now=1&refreqid=excelsior%3A6c88eef44eb77fd9269dfa8401934097&seq=23#page_scan_tab_contents

De acordo com Eugenia Levi, o quadro estava sob os cuidados do antiquário Ferdinando Massa, em sua loja situada na Praça Torquato Tasso, em Sorrento. Finalmente, após três meses de insistência por parte de Eugenia Levi, o antiquário consentiu em lhe remeter uma fotografia do retrato de Cleópatra, que se encontra estampada na página 70 do referido artigo, cuja cópia, igualmente extraída do JSTOR.ORG, encontra-se abaixo:

Tenho que confessar que, após fazer esta longa, mas divertida, jornada em busca do paradeiro do Retrato de Cleópatra, aprendendo sobre os mistérios da antiga pintura encáustica e sua redescoberta no século XVIII, trilhando a instigante investigação realizada por tantos especialistas oitocentistas sobre esta elusiva obra, ao comparar a figura acima, enviada pelo antiquário como sendo a da pintura que, após tantas peripécias, chegou às mãos do Barão de Benneval, com a reprodução em gravura feita por John Sartain, o sentimento que desponta é o de decepção.

Com efeito, o retrato de Cleópatra que aparece na foto do Antiquário onde ela estava exposta à venda, no ano de 1913, não se parece nada com uma pintura produzida na Antiguidade Clássica. E a mesma também parece diferente e, em termos artísticos, muito inferior às reproduções que dela se fizeram, sobretudo a de Sartain.

Teria sido a foto encaminhada pelo antiquário à Eugenia Levi tirada em condições desfavoráveis e/ou por uma máquina fotográfica ruim? Ou seria a pintura mostrada na foto, na verdade, uma falsificação de má qualidade, ainda que a real pintura que pertenceu ao Barão de Benneval também fosse nada mais do que uma falsificação, só que mais bem feita? Uma outra possibilidade a ser cogitada é que a pintura tenha sido danificada ou mal restaurada.

De qualquer forma, ainda que o Retrato de Cleópatra de Sorrento não seja autêntico, a sua saga é tão interessante que esperamos que um dia ele reapareça, e então poderá ser submetido a exames com técnicas científicas modernas.

ADENDO: QUAL SERIA A REAL APARÊNCIA DE CLEÓPATRA?

Em tempos recentes, têm surgido artigos acerca da real aparência de Cleópatra, os quais, por terem sido escritos, a nosso ver, com um viés mais ideológico do que histórico, vêm suscitando polêmicas. A tese subjacente é que tendo ela nascido e sido governante de um Reino situado na África, a rainha necessariamente deveria ter uma aparência fenotípica de etnias da África Subsaariana.

Aproveito aqui para ressaltar que, para este autor, a aparência de Cleópatra, em termos fenotípicos, não deve ser tomada como historicamente relevante, tanto para justificar como para combater preconceitos raciais existentes na atualidade, tanto isso é verdade que nenhum dos historiadores da Antiguidade preocupou-se em relatar qual era a cor da sua pele, dos seus olhos ou dos seus cabelos.

Com efeito, não há fontes históricas descrevendo as características físicas de Cleópatra, como pode ser constatado nas citações de Plutarco e Cássio Dião abaixo, sobretudo no que se refere a cor da pele. E o motivo prosaico para isso é que, no Mundo Helenístico Clássico, esta era uma questão praticamente irrelevante: o que importava era estar o indivíduo inserido no universo civilizacional ou cultural greco-romano, pertencesse ele a qualquer grupo étnico, em assim sendo, ele era distinto daqueles que não faziam parte da civilização helenística, genericamente tachados de “bárbaros“.

Assim é que um norte-africano de origem berbere e cartaginesa de pele bem escura, como Septímio Severo, pôde se tornar imperador, e um general romano de origem germânica, filho de um chefe vândalo com uma cidadã romana, como Estilicão, jamais poderia aspirar ao trono. Por tudo isso, em nosso anterior artigo sobre Cléopatra, não mencionamos nada acerca de suas características físicas.

Finalmente, é preciso dizer que a História registra grandes rainhas negras, como Candace da Etiópia, que derrotou um exército do imperador Augusto, e a rainha Nzinga, de Angola, entre muitas outras.

Feito este parêntese, não podemos deixar de reconhecer, por outro lado, que sendo Cleópatra uma das mulheres mais fascinantes de todos os tempos, é mais do que natural a curiosidade acerca de sua aparência, e, felizmente, a História e a Arqueologia nos oferecem algumas pistas.

Ancestralidade

Cleópatra e sua família eram descendentes diretos do nobre macedônio Ptolomeu,  um general que foi um dos auxiliares mais próximos do rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.

Ptolomeu era filho da nobre macedônia Arsinoe, que algumas fontes relatam ter sido concubina de Filipe II, o pai de Alexandre, o Grande, a quem chegou-se a atribuir a paternidade do próprio Ptolomeu. Segundo esta narrativa, Filipe II teria dado Arsinoe, já grávida de Ptolomeu, ao seu cortesão Lagus de Eordaia, que é oficialmente o pai de Ptolomeu. Em outra versão, considerada mais verossímil pelos historiadores modernos, Arsinoe seria filha de Meleagro, que por sua vez era primo do rei macedônio Aminthas III, pai de Filipe II e descendente do rei Alexandre I da Macedônia.

Ptolomeu I Soter

Os Macedônios habitavam o norte da Grécia continental, na península dos Bálcãs e falavam um dialeto que se acredita ser derivado do grego dórico do noroeste; eles compartilhavam as crenças religiosas, costumes e outros elementos culturais com seus vizinhos do sul da Grécia. Portanto, a maioria dos estudiosos considera que os Macedônios eram etnicamente gregos apesar do fato de que, durante o período clássico, os Gregos do sul, especialmente os Atenienses, considerassem os Macedônios como bárbaros ou semibárbaros, muito em função do fato deles terem adotado uma forma de organização política, baseada não na polis (Cidades-Estado autônomas e frequentemente democráticas), mas sim no regime monárquico. Não obstante, acredita-se também que os Macedônios podem ter absorvido ou se misturado a algumas populações de etnias trácias e ilírias que teriam habitado o mesmo território.

Quando Alexandre morreu, em 323 A.C, os seus generais mais próximos estabeleceram-se, inicialmente, como “sátrapas” (governadores) das terras que tinham sido anexadas pelo rei macedônio, e a Ptolomeu coube governar o Egito. Em 305 A.C., Ptolomeu, da mesma forma que os outros sátrapas, após uma série de conflitos entre eles e outros pretendentes à sucessão de Alexandre, denominada de Guerra dos Diádocos, autoproclamou-se rei do Egito, com o nome de Ptolomeu I Soter.

Ptolomeu I teve várias mulheres e filhos, que conseguiram posições proeminentes em outros reinos helenísticos, mas quando já governava o Egito, ele conheceu e se casou com Berenice I, uma nobre da Eordaia, inicialmente uma região limítrofe ao norte que depois veio a integrar a Macedônia, e que era filha de Antígona, sobrinha do regente da Macedônia, Antípatro, e de Magas, ele também um nobre macedônio da Eordaea. De sua união com Berenice I, nasceu o sucessor de Ptolomeu I no trono do Egito, Ptolomeu II Filadelfo (*309 A.C/+246 A.C) que por sua vez casou-se com sua prima distante Arsinoe I, filha do rei Lisímaco, um dos Díadocos, generais macedônios sucessores de Alexandre, o Grande, e que se tornou rei da Trácia, da Ásia Menor e da Macedônia, e de Nicéia, filha do mencionado regente Antípatro.

Ptolomeu II FIladelfo foi sucedido por seu filho Ptolomeu III Evergetes (*280 A.C/+222 A.C), fruto de seu casamento com Arsinoe I. Ptolomeu III, por sua vez, casou-se com sua prima Berenice II, rainha da Cirenaica e filha de Magas de Cirene que era filho do primeiro casamento de Berenice I, a já referida esposa de Ptolomeu I Soter, com Filipe, um oficial macedônio do Exército de Alexandre, o Grande.

No Egito, os sucessores e descendentes de Ptolomeu I e Ptolomeu II para se legitimarem perante os súditos nativos, adotaram também muitos dos costumes da realeza nativa, entre os quais estavam os casamentos endogâmicos, principalmente entre irmão e irmã, que tinham o objetivo de preservar o caráter divino da linhagem sanguínea dos faraós. Ainda assim, a língua da corte era o grego koiné, também utilizado para os assuntos diplomáticos e administrativos.

A personagem de nosso artigo, Cleópatra VII Philopator, nasceu em 69 A.C, em data ainda desconhecida, em Alexandria. Ela era filha legítima do faraó Ptolomeu XII Auletes. (*117 A.C/+51 A.C.) Nâo se sabe exatamente quem foi a mãe de Cleópatra,, assim, como há dúvidas acerca da identidade da mãe do pai dela. Ptololeu XII era o filho mais velho do faraó Ptolomeu IX Soter II (*c.141 A.C/+81 A.C.) e algumas fontes antigas, como Cícero, afirmam que o pai de Cleópatra seria filho ilegítimo deste último, o que pode significar que ele era filho de uma concubina, provavelmente oriunda da aristocracia, seja a originária da Macedônia ou a nativa do próprio Egito. Por sua vez, Ptolomeu IX era filho de Ptolomeu VIII Evergetes II, apelidado de Physcon (*c. 184 A.C/+116 A.C), filho de Ptolomeu V Epifânio (*210 A.C./+180 A.C.), filho de Ptolomeu IV Philopator e da rainha Arsinoe III, e assim na linha direta paterna, regressivamente, até o fundador da dinastia, Ptolomeu I Soter (*367 A.C/+282 A.C.).

Vale observar que Ptolomeu V Epifânio, por razões diplomáticas, casou-se com Cleópatra I Síria, que era filha do rei Antíoco III, o Grande, tatareneto do nobre e general macedônio Seleuco I Nicator, que era outro dos Díadocos e fundador do Império Selêucida, que dominou a Mesopotâmia, a Sìria e a Anatólia (Turquia). A mãe de Cleópatra I Síria era a rainha Laodice III, filha do rei Mitridates II do Ponto, descendente da nobreza persa e da rainha Laodice, por sua vez filha do rei selêucida Antíoco II Theos, que era neto de Seleuco I Nicator.

Antíoco III, provável antepassado de Cleópatra, foto Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Abaixo, apresentamos as imagens de todos os ascendentes masculinos de Cleópatra na linha direta paterna, excluindo Ptolomeu I Soter, cujo busto encontra-se no início deste tópico.

Ptolomeu II FIladelfo, foto de Naples National Archaeological Museum, CC BY 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by/2.5, via Wikimedia Commons
Ptolomeu III, Evergetes, foto de Miguel Hermoso Cuesta, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Ptolomeu IV Philopator, foto de British Museum, Public domain, via Wikimedia Commons
Ptolomeu V, Epifânio, foto de ArchaiOptix, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Ptolomeu VIII Physcon, bisavô de Cleópatra, foto American Numismatic Society, CC0, via Wikimedia Commons
Ptolomeu IX Soter II, avô de Cleópatra, foto Keith Schengili-Roberts, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons
Ptolomeu XII Auletes, pai de Cleópatra, foto Louvre Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

De acordo com historiadores da dinastia ptolomaica, considera-se a rainha-consorte Cleópatra V Tryphaena como a figura histórica mais provável de ter sido a mãe da nossa Cleópatra. Ela é uma personagem obscura, da qual pouco se sabe, além dos fatos de que casou-se com Ptolomeu XII Auletes em 79 A.C., e pode tanto ter sido filha, legítima ou ilegítima, de Ptolomeu IX (e, portanto, como mandava o costume faraônico, seria irmã ou meia-irmã de seu marido Ptolomeu XII. Mas ela também pode ter sido filha legítima de Ptolomeu X, irmão mais novo de seu marido. É possível que Cleópatra Tryphaena tenha falecido ao dar à luz à sua filha mais célebre. Mas deve ser ressalvado que não há certeza absoluta de que ela seja a mãe da nossa personagem principal, Cleópatra VII.

Precisamos, ainda, ressaltar que é uma pouco tormentoso traçar a genealogia de algumas mulheres da dinastia ptolomaica porque no último século desta houve muita instabilidade, havendo muitos pretendentes rivais que se sucederam no trono, sendo eles irmãos, primos ou sobrinhos, algumas vezes reinando junto com a própria mãe e, sobretudo, porque todas as mulheres da dinastia, em três séculos de existência, somente recebiam um desses três nomes: “Cleópatra“, “Arsinoe” ou “Berenice“.

Abaixo, apresentamos imagens de algumas prováveis ascendentes de Cleópatra, tanto pela linha materna como paterna.

Cleopatra Tryphaena, provável mãe de Cleópatra, foto de Musée Saint-Raymond, Public domain, via Wikimedia Commons
Acredita-se que este busto pode representar Cleópatra II, ancestral de Cleópatra VII, foto Louvre Museum, Public domain, via Wikimedia Commons
Arsinoe III, mãe de Ptolomeu V, tataravó de Cleópatra, foto Sailko, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons
Berenice II, foto de Sailko, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons
Segundo estudiosos, este mosaico pode representar, Berenice II, ascendente de Cleópatra
Arsinoe I, foto de Einsamer Schütze, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Descendência

Se conhecer alguns dos principais ascendentes de Cleópatra pode nos dar uma pista sobre a aparência dela, vamos também, com esta mesma finalidade, examinar os seus descendentes:

Em 23 de junho de 47 A.C., Cleópatra deu a luz a seu primeiro filho, que se chamou Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar. Ela anunciou que o menino, que receberia o apelido de Caesarion (Cesárion ou Cesarião), era fruto do seu relacionamento com o Ditador de Roma, Caio Júlio César, que, aliás, nunca negou publicamente a paternidade, apesar de, igualmente, ele jamais ter reconhecido oficialmente a criança, nem mesmo em seu testamento, aberto após o seu assassinato nos Idos de março de 44 A.C.

Caesarion
Cabeça encontrada em Alexandria que se acredita retratar Caesarion como Faraó. Os traços faciais lembram muito os das imagens de Cleópatra; Sdwelch1031, CC0, via Wikimedia Commons

Posteriormente, no final de 40 A.C., Cleópatra deu a luz a um casal de gêmeos, que receberam os nomes de Alexandre Helios (Sol) e Cleópatra Selene (Lua), nascidas de seu relacionamento amoroso com o Triúnviro romano Marco Antônio. A menina depois se casaria com o rei Juba II, da Numídia e Mauritânia, união da qual nasceria Ptolomeu da Mauritânia, que seria o último monarca do referido reino.

Busto de Cleópatra Selene, foto de Hichem algerino, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons
Acredita-se que esta seja uma estatueta de Alexandre Helios, filho de Cleópatra, foto de Metropolitan Museum of Art, CC0, via Wikimedia Commons
Busto de Ptolomeu da Mauritânia, neto de Cleópatra, foto PericlesofAthens, CC0, via Wikimedia Commons

Cleópatra também teve com Marco Antônio mais um filho, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus que, juntamente com seus outros irmãos foi exibido no triunfo de Otaviano pelas ruas de Roma, em 29 A.C., fato após o qual ele não é mais mencionado pelas fontes.

Representações de Cleópatra

As fontes históricas antigas que sobreviveram até os nossos dias não mencionam a cor da pele, dos cabelos, dos olhos, altura, ou qualquer característica física de Cleópatra.

E os historiadores Plutarco e Cássio Dião, inclusive, divergem um pouco sobre a beleza da rainha egípcia. Para Plutarco, a beleza da rainha não tinha nada de notável; já, para o segundo, Cleópatra seria uma mulher estonteante:

“A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados. Apenas escutar o som da voz dela já era um prazer, e a sua língua, como se fosse um instrumento de muitas cordas, podia passar de um idioma para outro, conforme ela desejasse, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete, respondendo-lhes pessoalmente e sem auxílio.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,2

Pois ela era uma mulher de beleza transcendente, e, naquela época, quando ela estava na flor da sua idade, ela estava ainda mais impactante; ela também possuía uma voz muito charmosa, e sabia como se fazer ainda mais agradável a todos. Sendo deslumbrante tanto para ser vista como para ser ouvida, e com o poder de conquistar a qualquer um, e até mesmo um homem saciado de amor que já tinha ultrapassado o auge da idade, ela achou que era o seu papel encontrar César e escorar em sua beleza todas as suas reivindicações ao trono.”

Cássio Dião, História de Roma, Livro LII, 34, 4 – 35, 1

De qualquer modo, baseados no relato dos dois historiadores, podemos considerar que, com certeza, Cleópatra não era uma mulher feia, como às vezes se lê em algumas reportagens modernas.

Há, na verdade, uma menção antiga aos traços físicos de Cleópatra, no caso a cor da pele, embora não em textos de historiadores ou cartas, mas em um poema. Em nossa opinião, não obstante esta observação possa decorrer de licença poética, deve ser observado, que Lucano, o poeta que escreveu os versos (no caso, a parte que canta um banquete que Cleópatra ofereceu a Júlio César, em Alexandria), tendo vivido entre 39 D.C e 65 D.C, estava muito mais próximo da época de Cleópatra do que as demais fontes citadas neste texto. Acredita-se que o poema tenha sido escrito por volta de 60 D.C, quando provavelmente as últimas pessoas que teriam conhecido Cleópatra viva já teriam morrido ou teriam idade avançadíssima (cerca de 100 anos de idade), mas provavelmente deveriam existir muitas imagens pintadas dela, e também pessoas vivas que teriam conhecido alguém que conviveu com a rainha. Portanto, acreditamos que qualquer alusão que fosse incompatível com a aparência de Cleópatra poderia gerar críticas ou até mesmo escárnio por parte do público romano letrado:

“… E então vieram legiões de escravas. Elas na cor da pele e na idade variavam ;

Algumas tinham os negros cabelos da Líbia, e outras cabelos tão ruivos ostentavam,

que César negou que ele alguma vez tivesse visto cabelos tão vermelhos;

nas terras pelo Reno banhadas;

Outras tinham a pele negra, e de suas testas recuava uma cabeleira encaracolada;

Ali os monarcas, junto a César, cujo poder era maior, se reclinavam;

E a Rainha (Cleópatra), sua perigosa beleza por cosméticos reforçada,…

Vestia riqueza em sua cabeça e pescoço, e sentindo em si suas joias pesadas,

Seus seios brancos como a neve, através do tecido diáfano sidônio, rebrilhavam.

Lucano, Pharsalia 10, 125-145


Das representações antigas de Cleópatra, aquelas sobre as quais não pairam dúvidas sobre o fato de ser ela a pessoa retratada na imagem são as moedas cunhadas durante o seu reinado. Mesmo assim, estudiosos frequentemente debatem se a figura constante das mesmas é um retrato fidedigno da rainha, sendo que com relação a alguns exemplares se a possibilidade da imagem ser um padrão convencional, ou de ser o reaproveitamento de outras moedas e até mesmo se acredita que em alguns casos a cunhagem tenha tido a intenção de reforçar algum atributo masculino. Não obstante, há bastante homogeneidade com relação a vários traços, como por exemplo, o penteado estilo “melão”, o coque, o nariz adunco (às vezes bem pronunciado, às vezes apenas levemente curvado), os olhos grandes, o queixo proeminente, e a tiara, como símbolo helenístico da realeza.

Abaixo, apresentamos alguns exemplares de moedas com a efígie de Cleópatra:

Cleopatra_VII_tetradrachm_Ascalon_mint

Cleopatra VII. 51-30 BC. Æ Hemiobol of Patra – Hexachalkon (21mm, 5.01 g). Agias, son of Lyson, magistrate. Struck circa 32/1 BC.  http://www.cngcoins.com
Otto Nickl, Public domain, via Wikimedia Commons

Com relação às estátuas e bustos de mármore que se considera como sendo retratos de Cleópatra, não há certeza absoluta de sua identidade, uma vez que não há nelas nenhuma inscrição informando tratar-se dela, porém, tendo em vista os atributos da imagem, especialistas em Arte e historiadores consideram que um punhado de obras efetivamente retratam a rainha egípcia. A seguir, reproduzimos os exemplares mais aceitos:

A cabeça de mármore abaixo foi descoberta no ano de 1784 nas ruínas da Villa dos Quintílios, na Via Ápia, em Roma, e estima-se que seja datada entre 40 A.C e 30 A.C, encontrando-se atualmente no Museo Gregoriano Profano, integrante dos Museus Vaticanos. Ela ostenta o penteado estilo melão, o coque e a tiara da realeza ptolomaica, esta com um detalhe que pode ser uma pedra preciosa (falaremos sobre isso mais adiante) ou talvez seja o resto de uma serpente (ureaus, ornamento característico dos faraós). Infelizmente, o nariz da escultura foi danificado, de forma intencional, provavelmente, e se perdeu.

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Portrait of Cleopatra VII. Inv. No. 38511. Rome, Vatican Museums, Pius-Clementine Museum.

 

Já esta outra célebre cabeça de mármore é conhecida como o Retrato de Cleópatra de Berlim e está no Altes Museum, Staatliche Museen zu Berlin. Ela foi descoberta entre 1786 e 1797 durante escavações patrocinadas pelo Cardeal Antonio Despuig y Dameto, Conde de Montenegro, também efetivadas na Via Ápia, ao sul de Roma, no trecho compreendido entre Ariccia e Genzano. Não é preciso ser especialista forense para se notar que se trata, quase que com absoluta certeza, da mesma mulher retratada na escultura anterior, no Museo Gregoriano Profano, e ambas devem ser contemporâneas. Olhos, boca, os cabelos e o penteado, e o formato geral do rosto, são praticamente idênticos. A mulher também ostenta uma tiara real, porém sem qualquer engaste. Exceto por este detalhe, as tiaras são idênticas às retratadas nas moedas de Cleópatra. Vale notar que ambas as esculturas apresentam uma espécie de marca próxima à maçã do rosto (também falaremos sobre isso em breve). Vale citar que os cabelos da cabeça ainda têm traços de pigmentos vermelhos, indicando que seriam ruivos. Confiram as fotos abaixo:

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Interessante observar que os traços fisionômicos das mencionadas cabeças do Museu Gregoriano Profano e do Altes Museum parecem muito com as imagens existentes de Ptolomeu XII Auletes, o pai de Cleópatra.

Existe, ainda, uma estátua retratando Cleópatra, encontrada na área pertencente à Villa dos Quintílios, na Via Ápia (e não na Tomba de Nero, na Via Cássia, como originalmente se pensava), também escavada entre 1783 e 1784. Porém, o corpo da estátua é uma cópia romana de um original do final do século V A.C. Já os braços e os pés originais faltantes foram substituídos por outros. Por sua vez, a cabeça é um molde da cabeça existente no Museu Gregoriano Profano, supracitada, porém com um nariz provavelmente ajuntado.

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Há outras estátuas de Cleópatra produzidas no Egito, porém, o exame das mesmas demonstra terem sido produzidos no estilo altamente estilizado da arte egípcia, e tudo indica não são retratos naturalistas. De qualquer forma, reproduzimos alguns exemplares abaixo, incluindo também um relevo do Templo de Dendera, no Egito.

Estátua de Cleópatra VII no Museu Hermitage, em São Petersburgo, foto: I, George Shuklin, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons
Estátua presumidamente de Cleópatra VII, no Museu Metropolitan de Nova York
Relevo no Templo de Dendera, Egito, retratando Cleópatra VII e seu filho Cesarion. Foto: anegyrics of Granovetter, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Para finalizar, há pouco mais de dez anos, levantou-se a possibilidade de que uma pintura existente em uma parede de uma casa em Pompéia retrate Cleópatra.

Segundo a arqueóloga Susan Walker, do Museu Britânico e do Ashmolean Museum, da Universidade de Oxford, uma pintura encontrada na sala 71 da Casa de Marcus Fabius Rufus, em Pompéia pode representar Cleópatra, ou, mais especificamente, a uma estátua de Cleópatra, possivelmente retratada como Ísis/Afrodite, colocada por Júlio César, no Templo de Vênus Genitrix que ele ergueu no Fórum de César, em Roma (Vide “Cleopatra in Pompeii?“, em Papers of the British School at Rome 76 (2008), pp. 35-46 e 345-8, https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/S00682462000004040)

A pintura mostra uma figura feminina, que pode ser identificada como Vênus, na soleira da porta de um templo com uma pequena figura apoiada em seu ombro direito, que seria seu mitológico filho Cupido, encostado no seu rosto e no seu pescoço. A pesquisadora Eleanor Winsor Leach entendeu que a cena retrataria uma atriz de teatro representando uma rainha, porém, ao contrário do que é recorrente neste tema, nenhuma máscara teatral é mostrada.

Susan Walker nota que a representação de Vênus com o Cupido em questão é associada com a Vênus Genitrix, atributos da deusa que foi primeiro celebrada em público por Júlio César, que lhe dedicou o primeiro templo de Vênus Genitrix em Roma, onde, como já vimos, de acordo com as fontes romanas, como Apiano e Cássio Dião, foi colocada uma estátua de Cleópatra, provavelmente com os mesmos atributos da deusa, já que no Egito, a rainha era associada à deusa Ísis, que por sua vez, em Roma estava associada à Vênus/Afrodite.

Observa, ainda, a arqueóloga, que as joias ostentadas pela deusa na pintura correspondem às que se encontravam na moda em Pompéia, bem como em Alexandria, na metade do século I A.C. Ela veste um manto púrpura, talvez reminiscente do direito que foi conferido a César de usar uma toga desta mesma cor.

O véu diáfano que cobre a cabeça da mulher na pintura apresenta dobras que fazem perceber o penteado estilo “melão”, característico das representações de Cleópatra, e ela ostenta uma tiara dourada tendo no centro uma pedra preciosa de cor vermelha. Esta tiara assemelha-se um tanto à tiara que adorna a cabeça de Cleópatra existente no Museo Gregoriano Profano, mostrada acima, e que também tem um objeto incrustado no centro, muito provavelmente também uma pedra preciosa. Os cabelos da mulher são ruivos, ou castanho avermelhados (algo que é relativamente comum na Arte Clássica, tanto por haver menções a mulheres de cabelos ruivos, na mitologia e na vida real, em Roma e na Grécia, como pelo fato comprovado de muitas delas tingirem o cabelo desta cor).

Segundo uma teoria citada pela arqueóloga, a marca existente na maçã do rosto desta cabeça (assim como também há uma semelhante na lateral do rosto, porém menor e mais próxima à orbita do olho na cabeça de Cleópatra integrante do acervo do Altes Museum, em Berlim), têm uma correspondência com a posição do Cupido na pintura de Pompéia, dando a entender que as duas cabeças, que seriam inspiradas na referida estátua de Cleópatra no templo de Vênus Genitrix, ali retratada, também, originalmente, teriam uma estátua de Cupido colada à face, posteriormente removidas ao longo dos séculos. A presença de Cupido evocaria Cesárion, o filho que Cleópatra deu à luz como fruto de seu relacionamento amoroso com César.

Venus_and_Cupid_from_the_House_of_Marcus_Fabius_Rufus_at_Pompeii,_most_likely_a_depiction_of_Cleopatra_VII_(2)

A comparação da fisionomia da mulher retratada na pintura acima, que Susan Walker propõe representar Cleópatra, com as duas cabeças existentes nos dois museus anteriormente citados, mostra vários pontos coincidentes, como, por exemplo, o formato dos olhos, do nariz, da boca, além do penteado e cor dos cabelos (e também, eu acrescentaria, todos esses traços são semelhantes à pintura que pertenceu ao Barão de Benneval, supostamente sobrevivente da Antiguidade, como já vimos).

Finalmente, no artigo de Susan Walker, consta a informação de que a pintura em questão, encontrada na sala 71 da Casa de Marcus Fabius Rufus, encontrava-se atrás de uma parede construída posteriormente, como se os proprietários da casa quisessem escondê-la, fato que a arqueóloga relaciona como decorrente da derrota de Marco Antônio e Cleópatra na Guerra Civil do Segundo Triunvirato por Otaviano, e da consequente inconveniência política de se ter em casa uma estátua da inimiga do primeiro imperador de Roma, sobretudo ostentando a presença do pretenso filho natural dela com o seu pai adotivo no recém-inaugurado regime imperial.

Portanto, se Susan Walker estiver certa, e a pintura de Pompéia retratar mesmo Cleópatra, ou então a sua estátua no Templo de Vênus Genitrix (lembrando que as estátuas romanas eram pintadas em cores para retratar a aparência real ou presumida dos representados), ela pode constituir a representação mais acurada da rainha egípcia, a não ser, é claro, que a pintura da Vila do Barão de Benneval, em Sorrento, seja autêntica…

FIM

FONTES: Todas as fontes estão citadas no corpo do texto.

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