Nas proximidades da cidade de Zama Regia, a aproximadamente 130 km ao sudoeste da antiga Cartago, e da moderna Túnis, os exércitos romanos e cartagineses esperam na planície as ordens dos seus comandantes, Públio Cornélio Cipião e Aníbal Barca.
Os protagonistas acreditam que a batalha será o round final da Segunda Guerra Púnica, que já durava 16 anos, um conflito que havia se iniciado com o ataque dos africanos à Sagunto, uma cidade ibérica aliada de Roma, e, ganhado proporções épicas quando o cartaginês Aníbal deixando a Espanha em uma marcha surpreendente, cruzou os Alpes e invadiu a Itália, ali derrotando, uma após uma, as legiões romanas enviadas contra ele.
PRELÚDIO
Após a grande vitória de Aníbal na Batalha de Canas, no sul da Itália, em 216 A.C., em que, adotando uma tática magistral, o exército cartaginês destruiu quatro exércitos consulares, matando mais de 60 mil soldados romanos em apenas um dia, todos acreditavam que o cerco e captura de Roma seria uma questão de tempo. Aníbal , inclusive, esperava que as cidades italianas aliadas à Roma iriam passar para o seu lado.
Porém, os aliados de Roma se mantiveram fiéis. Diante da situação desesperadora, o Senado nomeou um comandante, com poderes ditatoriais, o general Quinto Fábio Máximo, que retomou a sua estratégia de guerrilha e de terra arrasada, evitando confrontos diretos com o multinacional exército cartaginês, que além dos povos púnicos, de origem fenícia e berberes, incluía ibéricos, gauleses e mercenários gregos.
Fábio Máximo, devido a estratégia que adotou, ganhou o apelido de “Cuntator“, ou seja, “protelador” (ou “contemporizador”), com o qual ele passaria a História. E de fato, a “estratégiafabiana” funcionou bem:
Assim, Aníbal perambulou à vontade durante quase 10 anos pela península italiana, entretanto, o tempo trabalhava a favor dos romanos, já que, longe da pátria, com poucas fontes de reforços, o exército cartaginês aos poucos ia diminuindo e se enfraquecendo.
Até que, em 207 A.C., os cartagineses decidiram mandar para a Itália o seu importante exército que continuava na Espanha, sob o comando de Asdrúbal, irmão de Aníbal, que também marchou para cruzar os Alpes e juntar-se às forças do irmão ilustre, com o fim de ambos darem o golpe final em Roma.
Desta vez, contudo, os romanos estavam melhor preparados. Asdrúbal acreditava que ele iria enfrentar apenas um exército consular, no Rio Metauro, na Úmbria. Entretanto, os romanos, secretamente, enviaram para juntar-se a este mais um exército, iludindo Aníbal e Asdrúbal, sendo que este segundo exército romano conseguiu ficar escondido no acampamento do primeiro.
Assim, valendo-se dessa dessa oculta superioridade numérica, os romanos conseguiram derrotar a força expedicionária cartaginesa, na Batalha do Rio Metauro. Como recado, a cabeça de Asdrúbal foi cortada e enviada para seu irmão, no sul.
Desse modo, Aníbal perdeu definitivamente a oportunidade de liquidar a campanha na Itália: Ele não receberia mais reforços, e, com os recursos humanos que ele dispunha, ele era incapaz de derrotar Roma, muito embora os romanos ainda não se atrevessem a atacá-lo diretamente.
Concomitante ao quadro acima descrito, os exércitos romanos na Espanha eram comandados por Públio Cornélio Cipião. Sentindo-se confiante com a situação favorável aos romanos na Península Ibérica, após a vitória na Batalha de Ilipa, em 206 A.C., o prestigiado Cipião resolveu voltar para Roma, onde ele conseguiu ser eleito Cônsul.
Cipião, como primeira medida no mais importante cargo executivo da República, propôs a política de mudar o teatro de operações da Itália para a África, defendendo um ataque direto a Cartago. Assim, ao invés de arriscar uma incerta vitória contra o temido Aníbal na Itália, onde uma nova derrota teria consequências desastrosas, Cipião acreditava que um desembarque nas costas africanas obrigaria o próprio cartaginês a vir em socorro da pátria-mãe.
Todavia, o Senado Romano, influenciado por Fábio “Cuntator“, opôs-se ao plano de Cipião, julgando-o muito arriscado. Ocorre que as sucessivas vitórias de Cipião na Espanha deram-lhe muito prestígio junto ao povo e o Senado, pressionado pela opinião pública, acabou autorizando a expedição idealizada por Cipião, porém negando que os soldados conscritos, recrutados para os exércitos consulares, fossem utilizados.
Assim, Cipião partiu, seguido, inicialmente, por apenas 7 mil voluntários, atraídos pelo seu prestígio, para a Sicília, onde ele ficou durante um ano treinando o seu exército para o confronto na África.
Em 203 A.C., com o seu novo exército pronto, Cipião desembarcou próximo à cidade de Útica, na moderna Tunísia, onde ele prontamente derrotou um exército cartaginês de cerca de 30 mil homens enviado para repelir a invasão romana.
Essa derrota inicial dos cartagineses consagrou a eficácia da estratégia de Cipião, pois em função dela o Senado de Cartago chamou Aníbal de volta para a África e pediu a paz aos romanos. Observe-se que o próprio general cartaginês foi favorável à capitulação, até porque os termos do tratado proposto pelos romanos, dada a presente situação militar dos cartagineses, eram bem razoáveis: Cartago permaneceria com todos os seus territórios na África, mas perderia suas colônias na Espanha, Sicília e Sardenha (que, de qualquer forma já estavam em mãos romanas), pagaria uma indenização e, finalmente, teria sua frota reduzida para apenas 40 galeras.
Entretanto, durante as tratativas; uma frota romana com suprimentos enviados para as tropas de Cipião acabou encalhando no golfo de Túnis e os cartagineses se apropriaram dos navios e da carga. Era, sem dúvida, uma óbvia violação da trégua, e, provavelmente, os cartagineses se sentiram encorajados a fazer isso devido ao retorno de Aníbal, embora o grande general continuasse a favor do fim das hostilidades.
Consequentemente, o Senado de Cartago votou pela rejeição do tratado e pela continuação da guerra. Obediente, Aníbal reuniu o máximo de tropas disponíveis e partiu para interceptar os romanos, sendo o primeiro a chegar nas planícies próximas à Zama, seguido pelos romanos…
A BATALHA
Consta que os dois maiores generais que o mundo havia conhecido depois da morte de Alexandre, o Grande, encontraram-se antes da batalha para negociar. Aníbal propôs que o tratado anterior fosse restabelecido. Contudo, Cipião respondeu que, agora, somente a rendição incondicional seria aceita pelo Senado Romano. A paz, portanto, era impossível, e ambos os generais se retiraram para seus acampamentos.
Os cartagineses tinham cerca de 36 mil soldados de infantaria, 4 mil cavaleiros e 80 elefantes, que deveriam ser os primeiros a atacar. Segundo as fontes, entre as tropas cartaginesas, havia 4 mil soldados macedônios que teriam sido cedidos pelo reiFilipe V, da Macedônia, monarca que já estava incomodado com o aumento do poder romano no Mediterrâneo.
Aníbal dispôs as suas tropas formadas em três linhas: as tropas de seu outro irmão Mago, retiradas da Itália, na primeira linha, as tropas domésticas alistadas para essa campanha, na segunda linha, e, na terceira, na retaguarda, os veteranos que vinham servindo com Aníbal desde a Itália. No flanco esquerdo, ficava a eficiente cavalaria númida e, no flanco direito, a cavalaria cartaginesa, menos experiente.
Já o exército romano tinha cerca de 29 mil homens e 6 mil cavaleiros, sendo a maioria deles númidas fornecidos pelo agora aliado rei Masinissa, que havia sido capturado por Cipião na Espanha e, tinha sido, pelos reconhecidos talentos diplomáticos do general romano, convencido a lutar contra Cartago. A forte cavalaria númida ficou na ala esquerda, e a cavalaria italiana na ala esquerda. Observe-se que os romanos sempre foram fracos em cavalaria, arma que vinha se mostrando muito importante nos combates anteriores, e, portanto, o apoio de Masinissa era crucial.
( A ordem de batalha em Zama, diagrama de Mohammad adil)
Preocupado com a ameaça representada pelos elefantes de Aníbal, Cipião, engenhosamente, dispôs as tradicionais três linhas das legiões em blocos espaçados (com exceção das primeiras, para que o estratagema não fosse percebido), como que criando avenidas por onde os elefantes passariam, e no meio das quais os enormes bichos poderiam ser atacados pelos lados. Para assustar os elefantes, o general romano instruiu a cavalaria a soprar suas trombetas a plenos pulmões, fazendo um ruído ensurdecedor.
Quando a batalha começou, assim como previsto, parte dos elefantes se apavorou com o barulho e voltou em direção aos próprios cartagineses, criando confusão em suas linhas, e a outra parte passou pelos corredores sem causar danos de monta.
Masinissa atacou a cavalaria númida cartaginesa, que já tinha sido desorganizada pela fuga dos elefantes, fugindo esta do campo de batalha. Por sua vez, Aníbal ordenou que a cavalaria cartaginesa remanescente desengajasse para atrair a cavalaria romana para fora do campo de batalha, com a intenção de impedir que esta fosse utilizada contra a sua infantaria.
Cipião, então, ordenou que a infantaria romana avançasse. Como sempre, as linhas cartaginesas não conseguiam resistir muito tempo ao assalto dos legionários. Porém, ao contrário do que ocorrera na Batalha de Canas, os cartagineses agora não tinham mais o apoio da cavalaria para ajudar a montar a mesma armadilha usada naquela oportunidade: o falso recuo do centro da linha visando fazer os romanos serem cercados pelas tropas cartaginesas nos flancos da sua formação, e pela cavalaria cartaginesa na retaguarda. Aníbal, notando a situação difícil, ordenou que a sua segunda linha não permitisse o recuo da primeira, e a batalha recrudesceu com a massa de tropas envolvidas. Temendo ser flanqueado pelo número superior de tropas cartaginesas, Cipião ordenou que as legiões formassem agora uma só linha. Era uma manobra complicada que, em meio à confusão do campo de batalha, somente era possível devido ao excepcional treinamento e disciplina do legionário romano e ao excelente nível dos oficiais subalternos (centuriões graduados).
Não obstante, a batalha restou indecisa até o momento que a cavalaria de Cipião retornou, após haver perseguido os inimigos, e atacou a infantaria cartaginesa pela retaguarda. Agora acossados pela frente e por trás, as linhas cartaginesas foram sendo desmanteladas e destruídas. No final, vinte e cinco mil soldados de Cartago foram mortos e o restante foi feito prisioneiro.
EPÍLOGO
Aníbal conseguiu escapar com uma escolta de cavalaria para Hadrumeto, e dali ele alcançou Cartago, onde ele recomendou ao Senado que se rendessem aos romanos, o que acabou sendo aceito, apesar de muita oposição. Deve ter sido um momento devastador para aquele menino que, décadas antes, jurara ao seu pai, Amílcar Barca, perante um altar, que ele seria inimigo de Roma para sempre!
Banido de Cartago, em 195 A.C., Aníbal foi asilar-se na corte de Antíoco III, rei da Selêucia e outro grande adversário de Roma. Quando Roma derrotou também esse reino, em 183 A.C.,Aníbal fugiu para a Bitínia, onde, após o seu anfitrião, o rei Prúsias, ser intimado a a entregá-lo aos romanos, ele cometeu suicídio.
Públio Cornélio Cipião voltou para Roma onde ele celebrou um magnífico Triunfo e foi agraciado com o congnome “Africano“. Disputas políticas, entretanto, fariam com que o grande herói romano da Segunda Guerra Púnica fosse banido da vida pública, falecendo, coincidentemente, também em 183 A.C.
CONCLUSÃO
Com a vitória, Roma tornou-se a potência suprema no Mediterrâneo ocidental, governando a Península Itálica, a Sicília, a Sardenha, a Espanha e o sul da França. Assegurada a supremacia naquela vasta região, em poucos anos Roma seria capaz de derrotar, um a um, na Grécia, na Ásia e no Egito, os Estados helenísticos, herdeiros do vasto império de Alexandre, iniciando, por conseguinte, uma hegemonia política e cultural que duraria 500 anos, ou mesmo 1500, se contarmos o período relativo ao Império Romano do Oriente, centrado em Constantinopla.
Dos objetos romanos que chegaram até os nossos dias, um dos que mais me fascinam são as portas de bronze romanas: além de artisticamente belíssimas, elas transmitem majestade e solidez, conferindo um aspecto digno e solene aos edifícios que elas ainda guardam. E, provavelmente, embora pudessem ter sido originalmente douradas ou dotadas de ornamentos dourados, o fato é que o envelhecimento típico do bronze lhes cai muito bem. E também são tecnicamente muito bem feitas. De fato, até onde eu sei, as portas romanas que descreveremos neste artigo são as mais antigas ainda em funcionamento no Mundo (há portas mais antigas, como a que selava a tumba do faraó Tutankhamun, ou outras até mais antigas, de pedra, mas não podemos dizer que elas ainda sejam portas funcionais).
Sem mais delongas, vamos então às mais antigas portas romanas:
1- Portas da Cúria do Senado Romano (Curia Julia)
Estas portas guardavam a Cúria do Senado Romano, que começou a ser erguida pelo Ditador Júlio César em 44 A.C., no lugardaCuria Hostilia, incendiada nos tumultos que sucederam ao assassinato do político Clódio, em 52 A.C. Mas os trabalhos só foram concluído pelo herdeiro de César, Otaviano, em 29 A.C. Após a Queda do Império Romano do Ocidente, o edifício foi transformado em uma igreja, em 630 D.C, permanecendo nesta função até o governo de Benito Mussolini, em 1938, quando o templo foi desconsagrado, sendo todos os acréscimos posteriores ao período romano removidos, revelando o piso de mármore no padrão opus sectile original e as arquibancadas onde ficavam os bancos de madeira dos senadores. Assim, o prédio da Curia Julia, que sofreu várias restaurações ainda durante o Império Romano, sobrevive no Fórum Romano, sendo a mais importante delas a efetuada pelo Imperador Diocleciano, que resultou no prédio que atualmente podemos visitar hoje. Porém, as magníficas portas de bronze que o guarneciam, medindo imponentes 5,9 m de altura, foram colocadas entre 81 e 96 D.C, durante o reinado do imperador Domiciano. Elas permaneceram na Curia até 1660, quando foram retiradas e instaladas na Basílica Católica de São João de Latrão (San Giovanni Laterano), em Roma, onde se encontram até hoje, em perfeito funcionamento. Durante os trabalhos de restauração realizados no governo de Mussolini, foram instaladas reproduções fiéis das portas originais. Como a própria Basílica de San Giovanni Laterano, apesar de muito reformulada ao longo dos séculos, foi construída e consagrada no reinado do imperador Constantino, o Grande, em 324 D.C, sem dúvida as suas portas merecem o título de portas romanas mais antigas em funcionamento (e talvez do mundo). Finalmente, é fascinante pensar que por essas portas, sem sombra de dúvida passaram ao longo dos séculos vários imperadores e inúmeros senadores romanos.
As portas de bronze do Pantheon são as mais antigas que ainda permanecem no seu local original de instalação. O icônico edifício foi construído no reinado do imperador Adriano, e dedicado em 126 D.C., sendo provavelmente concebido pelo grande arquiteto Apolodoro de Damasco. A opinião prevalente é que essas portas são as originais da construção do prédio atual, embora alguns defendam que possam ser anteriores, até mesmo contemporâneas de um edifício anterior, de mesmo nome e no mesmo local, erguido por Marco Vipsânio Agripa, no governo do imperador Augusto (como gesto de modéstia, Adriano quis que a inscrição dedicatória em nome de Agripa fosse mantida no frontão do novo edifício). Mas há opiniões minoritárias alegando que essas portas seriam medievais ou até mesmo modernas. As portas medem 7,53 m de altura por 4,45 m de largura e cada porta pesa 8 toneladas e meia, totalizando 17 toneladas no total. Durante 241 anos a porta direita não abria, mas trabalhos de restauração no umbral e/ou na soleira, bem como nos pinos, realizados em 1998, restauraram a sua funcionalidade. Assim, ambas as portas, apesar do peso descomunal, podem ser abertas por apenas uma pessoa, graças à perfeição do mecanismo criado pelos Romanos.
Estas foram as primeiras portas romanas que eu vi pessoalmente, quando da primeira vez eu estive em Roma, no Fórum Romano e o seu formato sóbrio e vetusto e o verde marcante da pátina em seu bronze me fascinaram instantaneamente.
Segundo a teoria mais aceita, este templo foi dedicado a Valério Rômulo, filho do imperadorMaxêncio, que morreu ainda adolescente em 309 D.C., sendo divinizado por ordem de seu pai, sendo o único templo romano, além do acima referido Pantheon, que ainda tem as suas portas de bronze originais, inclusive com a fechadura, também autêntica, ainda funcionando perfeitamente! Em 527 D.C, o Templo de Rômulo, durante o reinado de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, foi doado ao Papa, tornando-se, então, o vestíbulo da Basílica de São Cosme e São Damião, no Fórum Romano.
A Basílica de Santa Sabina é um local que eu recomendo muito a todo o viajante que quiser viver uma experiência diferente e mais imersiva na Roma Antiga. Ela fica no topo da colina do Aventino, uma zona residencial chique, desde os tempos do Império Romano, que não é um local tão frequentado por turistas. O templo católico foi construído em 432 D.C, durante o reinado do imperador Valentiniano III, no terreno onde ficava a casa da aristocrata romana Sabina, cristã martirizada em 126 D.C, e, ao contrário de muitas igrejas antigas romanas, não foi alvo de restaurações ou reconstruções em estilo renascentista ou barroco, ao contrário, Santa Sabina conserva a sua arquitetura original do estilo do Baixo Império Romano, da qual é um dos exemplos mais representativos. As portas da basílica são as únicas incluídas neste artigo que são feitas de madeira (cipreste). E, comprovadamente, mediante testes de dendrocronologia e de rádio-carbono realizados, essas portas são originais, datadas do século V D.C. ( vide https://journals.ub.uni-heidelberg.de/index.php/rihajournal/article/download/69927/version/60257/63277?inline=true#page=1&search=%22sabina%20santa%22.
Dezoito dos painéis decorativos esculpidos em relevo são também originais e trazem algumas das mais antigas representações do Novo Testamento, inclusive uma das primeiras reproduções conhecidas da cena da crucificação de Jesus Cristo.
Finalmente, ainda que não diga respeito ao nosso tema, o leitor que visitar Santa Sabina não pode deixar de conhecer o Giardino degli Aranci, um jardim que fica ao lado da igreja, com lindas e antigas laranjeiras que, na estação apropriada, ficam carregadas de laranjas exalando um cheiro delicioso. O jardim também oferece vistas magníficas do rio Tibre e de parte da cidade de Roma e, se tudo der certo e o ambiente estiver calmo, propiciará uma experiência inesquecível, sobretudo para quem se lembrar do famoso afresco daVilla de Lívia, em Prima Porta, retratando um jardim com laranjais.
O chamada “Portão Esplêndido” ou “Porta Bonita” é uma porta interna de bronze instalada na Igreja de Santa Sofia (Hagia Sophia), em Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). A imponente igreja foi construída pelo imperador romano do Oriente Justiniano, no século VI D.C. Porém, a porta em questão foi removida de um templo pagão, que ficava na ilha de Cnido, na Grécia, provavelmente o Templo de Afrodite (embora não se possa afirmar com certeza) e trazidas para Santa Sofia pelo imperador bizantino Teófilo , provavelmente em 838 D.C, tendo em vista uma inscrição com esta data nela aposta. As portas, em duas folhas, nitidamente foram adaptadas para caberem no interior da igreja, provavelmente cortando-se alguma parte delas e davam acesso à nave principal da construção a partir de um vestíbulo no nártex, utilizado pelo imperador e seu círculo íntimo. Considerando o estilo e outras características, especialistas avaliam que as portas foram fabricadas por artesãos gregos, antes ou durante o período romano, por volta do século II A.C, o que as tornariam as mais antigas existentes.
Em 22 de março de 235 D.C., o imperador romano Severo Alexandre, encontrava-se na base militar romana de Castrum Moguntiatium (que deu origem à moderna cidade alemã de Mainz, ou Mogúncia, seu nome em português) quando um motim dos soldados da Legião XII Primigenia estourou.
As tropas recusaram-se a obedecer aos apelos do imperador para que combatessem as tropas lideradas pelo general Maximino Trácio, comandante da Legião IV Italica, as quais tinham aclamado Maximino imperador.
Reunidos no centro do Quartel, os soldados começaram a ficar muito agressivos, acusando Severo Alexandre de ser um covarde dominado pela mãe avarenta e comparando-o ao desprezível Elagábalo, seu primo e antecessor no trono.
Os amotinados, ato contínuo, demandaram que os demais soldados abandonassem “o tímido menininho amarrado à barra da saia da mãe“, fazendo com que toda a soldadesca lhe desse as costas, deixando o imperador sozinho no praetorium.
Severo Alexandre, aterrorizado, correu para a tenda de sua mãe, a imperatriz Júlia Maméia (Julia Mammaea), que o acompanhava, como sempre, naquela campanha contra os bárbaros Alamanos.
Tinha sido Júlia Maméia quem havia aconselhado Alexandre a oferecer aos bárbaros uma boa soma em dinheiro para que eles desistissem de guerrear contra os Romanos.
E esse foi justamente o estopim da revolta das legiões , pois os soldados alegavam que isso era uma grande desonra para o Império Romano (talvez eles esperassem que o dinheiro fosse dado a eles como donativo pela vitória).
No interior da tenda da mãe, Severo Alexandre chorou e recriminou a mãe pelos seus infortúnios. Ele sabia que estava acabado. Por isso, quando um grupo de soldados seguiu o imperador e invadiu a tenda de Júlia Maméia, Alexandre, resignadamente, ofereceu o pescoço para que eles o executassem. Ele morreu aos 26 anos de idade e treze de reinado. Na mesma ocasião, os soldados também mataram Júlia.
Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus(Severo Alexandre) nasceu em 1º de outubro de 208 D.C, na cidade de Arca Caesarea , na província romana da Síria Fenícia (atual Arqa, no Líbano), filho de Marcus Julius Gessius Marcianus e de Julia Avita Mammaea (Júlia Maméia).
O pai de Severo Alexandre era um cidadão romano de origem síria que pertencia à classe Equestre, o segundo nível da nobreza romana e parece ter exercido alguns cargos públicos.
Em algum momento depois do ano 200 D.C., Marcus Julius Gessius Marcianus casou-se com Júlia Maméia, que era sobrinha da poderosa imperatriz Júlia Domna, casada com o imperador Septímio Severo. Durante o reinado do marido, Júlia Domna receberia o título de “Mãe dos Quartéis, do Senado e da Pátria“.
(busto de Júlia Maméia)
Júlia Maméia e sua irmã, Júlia Soêmia, eram filhas de Júlia Maesa, irmã da imperatriz Júlia Domna, que por sua vez eram filhas de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), situado em Emesa (a moderna Homs), na Província da Síria, e integrante da dinastia dos Sempseramidas, que havia séculos governavam a referida cidade, a qual, durante muito tempo, havia sido a próspera capital de um reino-cliente de Roma, até a sua anexação pelo Império Romano.
(Estátua de Júlia Soêmia)
Portanto, a família de Júlia Maméia era riquíssima e, quando o imperador Caracala, filho e sucessor de Septímio Severo morreu, assassinado por ordens de Macrino, sua mãe Júlia Maesa e sua irmã, Júlia Soêmia, valeram-se dessa fortuna e de seu poder e prestígio na importante província da Síria para fomentar a rebelião que em pouco tempo derrubou Macrino.
As tropas da Síria aclamaram o jovem filho de Júlia Soêmia, Elagábalo, de apenas 15 anos de idade, como imperador, em 16 de maio de 218 D.C. Macrino seria derrotado em junho de 218 D.C. e, assim, Elagábalo foi reconhecido imperador pelo Senado.
A mãe do novo imperador, Júlia Soêmia, e a sua tia, Júlia Maesa, foram declaradas “Augustas”. De forma ainda mais surpreendente, as duas seriam, um pouco mais tarde, as primeiras e únicas mulheres a serem admitidas no Senado Romano. E Júlia Maesa ainda receberia o título de “Mãe do Senado”.
O reinado de Elagábalo seria marcado pelos escândalos e pela repulsa que a sua condição de sumo-sacerdote de El-Gabal, a sua aparência andrógina e o seu comportamento desregrado provocaram não apenas na elite senatorial, mas nas próprias tropas.
Em algum momento, Júlia Maesa percebeu que a crescente rejeição a Elagábalo pela sociedade romana, e, sobretudo, pelos militares romanos, colocava em perigo a própria posição da família. Ela também percebeu que os reiterados excessos sexuais dele eram encorajados pelo fervor religioso com que Elagábalo e sua própria filha, Júlia Soêmia, a mãe do imperador, se dedicavam ao culto a El-Gabal.
Júlia Maesa então aproximou-se de sua outra filha, Júlia Maméia, que também tinha um filho, Marcus Julius Gessius Bassianus Alexianus (Severo Alexandre), então com 13 anos de idade, primo do imperador.
A influente Júlia Maesa conseguiu persuadir Elagábalo a nomear o seu primo como seu herdeiro, dando-lhe o título de “César”, passando a adotar o nome de Caesar Marcus Aurelius Alexander, em 221 D.C, Severo Alexandre seria Cônsul junto com Elagábalo. As duas mulheres também devem ter sido as responsáveis por espalhar o boato de que Alexandre seria também filho ilegítimo de Caracala, o que lhe granjearia a simpatia dos soldados.
(estátua de Júlia Maesa)
Contudo, percebendo o entusiasmo que a nomeação de Severo Alexandre provocou nos soldados da Guarda Pretoriana, já muito incomodados com os seus excessos, Elagábalo resolveu anular sua decisão e revogar os títulos concedidos ao seu primo. Contudo, essa decisão fez o público e as tropas se alvoraçarem temendo pela vida do menino.
Os Pretorianos demandaram a presença de Elagábalo e de Severo Alexandre no Castra Pretoria, devido aos rumores de que Alexandre pudesse ter sido assassinado. É possível até que o motim tenha sido instigado por Júlia Maesa e Júlia Maméia. Quando Elagábalo chegou, começou um tumulto que degenerou no assassinato dele e de sua mãe, Júlia Soêmia, que depois tiveram os corpos arrastados pelas ruas, em 11 de março de 222 D.C.
Em 13 de março de 222 D.C., Severo Alexandre foi aclamado oficialmente imperador romano, adotando o nome de Marcus Aurelius Severus Alexander Augustus, nome escolhido para enfatizar a conexão dinástica com Septímio Severo e Caracala.
Como o imperador Severo Alexandre tinha apenas 13 anos de idade, quem de fato detinha as rédeas do poder era sua mãe, Júlia Maméia.
Júlia Maesa e Júlia Maméia tinham testemunhado a catástrofe que a coroação de um imperador muito jovem, completamente despreparado e de comportamento indecoroso, como foi o seu seu sobrinho Elagábalo, representava, não só ao Império, mas, sobretudo, à própria sobrevivência da dinastia dos Severos.
Assim, as duas mulheres, que, naquele momento, eram as governantes de fato do Império Romano procuraram cercar o jovem Severo Alexandre dos mais ilustres e respeitáveis conselheiros, como foi o caso dos juristas Ulpiano, que foi nomeado para o importante cargo de Prefeito Pretoriano, e Paulus, e também do senador e, mais tarde, historiador, Cassius Dio (CássioDião). Vale citar que Júlia Maesa morreria logo em 224 D.C., portanto, Júlia Maméia foi quem deteve ascendência preponderante sobre o filho.
(Busto de Ulpiano)
Graças a esse Conselho de homens notáveis, os primeiros atos do governo de Severo Alexandre visaram a recuperação moral e econômica do governo romano, a melhoria das condições da plebe de Roma e implantar medidas em prol dos soldados.
Foram implementavas ações para diminuir os gastos da Corte, considerada excessivamente luxuosa e extravagante. Talvez daí tenha surgido a fama de avarenta que Júlia Maméia gozou até o fim da sua vida. Uma fonte chegou a narrar que ela teria determinado que os restos dos banquetes no Palácio fossem recolhidos e guardados para serem servidos em outra oportunidade…
O denário foi inicialmente desvalorizado, provavelmente para aumentar a circulação de moeda e ajudar a equilibrar o déficit do Tesouro, mas posteriormente, mediante o aumento do percentual de prata, a moeda foi revalorizada, o que demonstra que houve uma melhoria nas contas públicas. Isso inclusive permitiu que os impostos fossem diminuídos, o que sempre estimula a economia e satisfaz os contribuintes. Esse programa foi completado pela criação de um serviço para emprestar dinheiro a taxas de juros moderadas.
Durante o reinado de Severo Alexandre foi construído o Acqua Alexandrina, o último dos grandes aquedutos que abasteciam a cidade de Roma, em 226 D.C.. E as Termas de Nero, que se encontravam em péssimo estado, foram reconstruídas, passando o complexo a ser conhecido como “Banhos de Alexandre”.
(Um trecho do aqueduto Acqua Alexandrina, foto de Chris 73)
Severo Alexandre também estabeleceu medidas para beneficiar os militares no que se refere aos direitos sucessórios e pecúlios.
Todavia, já no início do reinado, Severo Alexandre sofreu com o problema da crescente indisciplina dos soldados.
Em 223 D.C., os Pretorianos, insatisfeitos com as medidas do Prefeito Pretoriano Ulpiano, a quem eles eram subordinados, assassinaram o famoso jurista na presença do próprio imperador. Ulpiano se tornaria célebre nas faculdades de direito por ter estabelecido o que seriam os preceitos principais do Direito: “Viver honestamente, não causar mal a ninguém e dar a cada um o que é seu” (Juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere)
Aliás, no período da dinastia dos Severos, apesar dos imperadores seguirem estritamente o conselho do seu fundador, Septímio Severo, de “dar dinheiro aos soldados e desprezar todos os outros“, aumentaram muito os episódios de indisciplina e insubordinação, chegando a um ponto que qualquer medida que visasse enrijecer a disciplina ou reduzir os donativos e gratificações, como ocorreu no reinado de Severo Alexandre, desencadeava rebeliões e motins entre a tropa, cuja efetividade em combate, também, parece ter sido comprometida.
Apesar das questões relativas à disciplina dos militares, o reinado de Severo Alexandre vinha tendo relativo sucesso em relação aos reinados anteriores de Elagábalo e Caracala, melhorando a economia e obtendo estabilidade política.
Contudo, eventos externos que ocorreram no reinado de Severo Alexandre, e em relação aos quais ele não teve qualquer responsabilidade, não só causariam problemas que levariam à sua derrubada, mas teriam graves consequências estratégicas, que, futuramente comprometeriam a própria sobrevivência do Império Romano…
O primeiro deles foi a ascensão de Ardashir I (Artaxerxes I), nobre persa da Casa de Sassan, em 227 D.C., derrotando a dinastia dos Arsácidas, que fazia séculos governava o Império dos Partas e instalando a dinastia dos Persas Sassânidas, criando o império do mesmo nome. Os Sassânidas eram, por assim dizer, mas “nacionalistas”, centralizadores e muito mais agressivos militarmente do que os seus antecessores. Ironicamente, o principal motivo para a ascensão dos Sassânidas foram as sucessivas invasões que os romanos promoveram na Mesopotâmia parta durante os reinados de Trajano, Septímio Severo e Caracala, saqueando a capital Ctesifonte.
(Relevo no Irã, retratando Ardashir e o deus Ahura-Mazda)
Em 230 D.C., Ardashir I lançou um ataque contra o sistema defensivo romano na fronteira da Mesopotâmia, sitiando a estratégica fortaleza de Nusaybin (Nísibis), sem, contudo conseguir tomá-la. Em seguida, as tropas persas invadiram as províncias da Síria e da Capadócia.
Os Romanos foram obrigados a reagir militarmente, e o imperador teve que atender aos reclamos dos governadores.
Para lidar com a agressão persa, Severo Alexandre mandou reunir um exército com soldados das legiões espalhadas pelo Império. O historiador Herodiano de Antióquia narra que a medida causou comoção no Império, provavelmente pelo fato de terem sido recrutados soldados em províncias onde há muito não se faziam conscrições, como, por exemplo, a Itália.
Herodiano também relata que Alexandre e sua comitiva integraram a expedição militar, sendo que, no momento da partida, o imperador pôde ser visto chorando e, repetidamente, olhando para trás enquanto deixava Roma.
Chegando no teatro de operações, o imperador ainda tentou apelar para a diplomacia, enviando embaixadores à Ctesifonte. Os embaixadores não foram recebidos, mas Ardashir mandou sua própria embaixada aos Romanos, com as seguintes exigências, segundo o historiador bizantino João Zonaras:
“O Grande Rei Artaxerxes ordena aos romanos que deixem a Síria e toda a Ásia adjacente à Europa e permitam ao Persas governar até o mar“.
Percebe-se, assim, que o objetivo dos Sassânidas era, como se extrai do referido ultimato, restaurar o Império Persa às fronteiras dos gloriosos tempos de Dario e Xerxes, o que implicaria na perda para os Romanos das importantes províncias da Síria, Ásia, Capadócia e Bitínia, entre outras. Logo, a paz obviamente era impossível.
Nessa ocasião, houve mais uma prova de que a disciplina militar do Exército Romano estava seriamente comprometida: Quando as tropas estavam se preparando para cruzar os rios Tigre e Eufrates, para invadir o território persa, vários motins explodiram entre os soldados, especialmente entre os soldados do Egito, e também na Síria, onde as tropas até tentaram proclamar imperador um certo Taurinus, no verão de 232 D.C., porém esta rebelião foi rapidamente debelada.
Os comandantes militares romanos decidiram dividir o exército em três. O primeiro destacamento invadiria ao norte a Armênia para atacar os Medos, súditos dos Sassânidas. O segundo atacaria a Mesopotâmia na confluência dos rios Tigre e Eufrates e o terceiro, sob o comando direto do imperador, atacaria os Persas no centro. Porém, na Armênia, os romanos tiveram muita dificuldade no terreno montanhoso, mas conseguiram chegar ao território dos Medos, devastando-o. Algumas tropas persas tentaram impedir o avanço, mas o terreno desfavorável à cavalaria impediu-os de engajar os Romanos.
Quando Artaxerxes I soube do avanço do segundo destacamento pelo Tigre e Eufrates, atacou aquele exército com suas tropas principais. Os Romanos avançavam sem muita cautela, pois até então não tinham enfrentado qualquer resistência. Assim, eles foram fragorosamente derrotados pelos Persas.
Para piorar, Alexandre foi aconselhado por Júlia Maméia, que acompanhava a comitiva, a não invadir a Pérsia com o seu exército, contribuindo para que as tropas do segundo destacamento fossem cercadas pelos arqueiros montados persas e aniquiladas.
Apesar do fracasso da expedição, os Romanos conseguiram infligir muitas baixas entre os Persas, e dois dos três segmentos da força expedicionária devem ter conseguido sobreviver, o que impediu os Persas de explorarem a vitória na Mesopotâmia.
De volta a Antióquia, Alexandre distribuiu grandes donativos para as tropas e informou ao Senado, em Roma, que ele tinha vencido os Persas. E ao chegar em Roma, em 233 D.C., o imperador ainda chegou a celebrar um Triunfo.
De fato, como nenhuma inscrição ou texto persa relata uma vitória na ocasião, Artaxerxes I deve der ficado decepcionado com o desfecho da guerra, sobretudo porque as fronteiras do Império Romano no Oriente permaneceram inalteradas.
Assim, o conflito pode ser considerado um empate e Artaxerxes I somente voltaria a atacar o território romano em 237 D.C, dois anos após a morte de Severo Alexandre.
O conflito entre o Império Romano e o Império Persa duraria, com alguns intervalos de paz e vitórias e derrotas para ambos os lados, até a vitória final dos Romanos na Batalha de Nínive, em 628 D.C., no reinado do imperador romano-bizantino Heraclius.
O segundo evento que assolaria o reinado de Severo Alexandre foi a aparição nas fronteiras romanas dos rios Reno e Danúbio, da poderosa confederação de tribos germânicas dos Alamanos, que atacaram as fortificações romanas na fronteira e devastaram as cidades das províncias fronteiriças, em 234 D.C., ameaçando a província da Ilíria e, consequentemente, a própria Itália.
Os Germanos, desde o final do século II A.C., vinham mostrando serem capazes de infligir grandes derrotas aos Romanos em batalhas isoladas, porém, os seus sucessos tinham duração efêmera, pois eles estavam organizados em inúmeras tribos pequenas, que não costumavam colaborar entre si, quando não guerreavam umas contra as outras. E, material e taticamente, em geral, os Germanos eram bem inferiores aos Romanos.
Todavia, assim como nós mencionamos acima com relação aos Persas e o Império Parta, foram os próprios Romanos que contribuíram para mudar a correlação de forças entre os Germanos.
Com efeito, de modo crescente, a partir de meados do século I A.C., os Romanos vinham empregando como soldados auxiliares tribos inteiras de Germanos. Muitos desses Germanos passavam 20 anos servindo no Exército Romano. Ao final do período, muitos adquiriam a cidadania romana, mas, ao contrário da maioria de outros povos que também forneciam tropas aos Romanos, muitos deles voltavam para as suas terras na Germânia, trazendo armamentos e táticas do exército romano. Com o tempo, os Germanos, que já eram tradicionalmente um povo de índole guerreira, foram adquirindo o conhecimento das táticas romanas e reunindo um grande arsenal de armas romanas, aprendendo também técnicas para o seu fabrico.
A partir do século II D.C, começou a se observar que os chefes militares germânicos, muitos, provavelmente, egressos do Exército Romano, foram dominando as tribos vizinhas, que começaram a se aglutinar em forma de confederações de tribos.
Os achados arqueológicos, notadamente os provenientes de enterros em pântanos de turfa, mostram que, na virada do século II para o século III D.C., os bandos de guerreiros germânicos já demonstravam um grau de especialização (cavalaria, infantaria e arqueiros) e dispunham de espadas, elmos, armaduras (ao menos os chefes) e lanças que não ficavam a dever a dos Romanos, ou até mesmo eram de fabricação romana. Por sua vez, a nobreza germânica consumia produtos de origem romana e entesourava moedas de ouro romanas. Parece, neste particular, que os Romanos incentivaram a formação de verdadeiros reinos-clientes entre os Germanos.
Feita essa pausa digressiva, com a invasão dos Alamanos, mais uma vez, Severo Alexandre foi obrigado a se deslocar para o front de batalha. As tropas, cuja disciplina, como vimos, era problemática, estavam reclamando, especialmente as oriundas das províncias atacadas, pelo fato de Severo Alexandre tê-las feito lutar a campanha na Pérsia, o que, no entender deles, provavelmente deve ter facilitado o ataque dos bárbaros germânicos.
Em Mogúncia, base das operações contra os Alamanos, Severo Alexandre, novamente, foi aconselhado por sua mãe a tentar conter a ameaça militar com a diplomacia. Nesse particular, não havia nada de absurdo naquele conselho, pois, há muito tempo, os Romanos costumavam pagar dinheiro aos Germanos para que estes ficassem sossegados e não atacassem o Império.
Não obstante, os militares tinham se acostumado com anos de condescendência, fraqueza e de mão-aberta dos imperadores em relação às suas demandas, e a insatisfação deles ao que parece, foi agravada pelos vexames de Elagábalo e pela falta de aptidão militar de Severo Alexandre, que, para piorar, parece que não era mesmo muito generoso nos donativos, em decorrência da sua política de austeridade fiscal, a qual era atribuída à mãe do imperador.
MaximinoTrácio
Assim, quando eles souberam que Severo Alexandre, seguindo as instruções de Júlia Maméia, estava disposto a dar dinheiro aos bárbaros Alamanos, as legiões aclamaram imperador o comandante da Legião IV Italica, Gaius Julius Verus Maximinus (MaximinoTrácio).
Maximino era um Trácio da Moesia que quando criança trabalhara como pastor, mas, após entrar no exército romano, foi galgando postos, destacando-se nas batalhas devido a sua incrível força física. Há relatos de que ele teria cerca de 2m 40cm de altura e, de fato, as suas estátuas apresentam caracteristicas físicas de acromegalia. Ironicamente, ele havia sido promovido a comandante pelo próprio Severo Alexandre.
Entretanto, não podia ser maior o contraste entre a figura frágil do imperador e a virilidade castrense de Maximino, que parecia aos soldados muito mais adequada para comandar o Exército naqueles tempos belicosos.
Assim, no dia 19 de março de 235 D.C, quando se avistou a coluna de poeira deslocada pelas legiões que aclamaram Maximino, que se aproximavam do quartel-general em Mogúncia, só restou a Severo Alexandre apelar, sem sucesso, à lealdade dos soldados da Legião XII Primigenia, que logo matariam ele e sua mãe. Era o fim da dinastia dos Severos, que governava Roma, com o breve intervalo de Macrino, desde 193 D.C.
Após saberem da execução de Severo Alexandre e Júlia Maméia, a Guarda Pretoriana também aclamou Maximino imperador e o Senado, constrangido, confirmou o nome dele, apesar dos senadores o considerarem pouco mais do que um camponês bárbaro.
Maximino, sem deixar a Germânia, partiu para enfrentar os Alamanos, os quais conseguiu derrotar, apesar do exército sofrer pesadas baixas, no território romano dos Agri Decumates.
O reinado de Maximino marcaria o início da chamada “Crise do Século III“, o período de grande instabilidade verificado entre 235 e 284 D.C quando 30 imperadores ocuparam o trono em 49 anos, ou seja, uma média de apenas 18 meses de reinado por imperador. Nesse período, vários imperadores foram assassinados, dois mortos no campo de batalha e um deles capturado vivo pelos Persas. Para se ter uma comparação, entre os reinados de Augusto e de Severo Alexandre, foram 28 imperadores para um período de 266 anos, com uma média de 9 anos e seis meses para cada reinado…
No ano de 238 D.C., ano que Maximino foi assassinado, houve cinco imperadores diferentes no trono, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“. E, em um futuro próximo, durante um bom período, a Gália e a Síria ficariam independentes, fazendo parte dos chamados “Império Gaulês” e “Império de Palmira“.
O principal motivo de tudo isso foi a duradoura incapacidade de Roma lidar com pesadelo estratégico da guerra em dois fronts naquele período. Embora haja também causas econômicas (especialmente déficit público causado pelos gastos militares e déficit comercial com a China) e demográficas (diminuição da população notadamente por epidemias).
Para terminar nossa narrativa, é interessante citar, com a devida cautela quanto à veracidade do relato, da frequentemente imprecisa HistóriaAugusta, e também do historiador cristão Eusébio, ambos os textos datando provavelmente do reinado do imperador Constantino, oGrande, as passagens abaixo, que afirmam que Severo Alexandre era simpático ao Cristianismo.
Segundo Eusébio, no período que passaram em Antióquia, Júlia Maméia, que era muito religiosa, mandou Severo Alexandre estudar com o afamado teólogo cristão Orígenes.
Já a História Augusta (Lampridius) relata que Severo Alexandre colocou em seu “lararium” (oratório doméstico) imagens do patriarca Abraão e de Jesus Cristo, entre outros místicos famosos, como Apolônio de Tiana.
Ainda segundo a HistóriaAugusta, Severo Alexandre chegou a pensar em erguer um Templo em honra a Cristo em Roma e teria mandado gravar no Palácio dos Césares “as famosas palavras de Cristo”:
“Não faças aos outros o que não gostarias que fizessem contigo.”
Nascido em 24 de setembro de 15 D.C.,Aulus Vitelius (o imperadorromano Vitélio) era filho de Lucius Vitelius ede Sextilia. O avô dele, Publius Vitelius, teria sido agente financeiro do imperador Augusto e era membro da classe Equestre.
Lucius Vitelius era amigo de Antônia, a Jovem, a influente mãe do imperador Cláudio e também era íntimo deste último. Graças a esses vínculos, ele foi nomeado para o importante posto de governador da Síria e, nesta função, foi o responsável por demitir Pôncio Pilatos do cargo de Procurador da Judéia. Além disso tudo, o pai de Vitélio também foi Cônsul por três vezes, em 34, 43 e 47 D.C.
De acordo como o relato do historiador romano Suetônio,Vitélio passou a sua mocidade na majestosa Villa Jovis de Tibério, em Capri, e teria sido uma das muitas crianças que teriam sido usadas como objetos sexuais no comportamento depravado que marcou a velhice do referido imperador naquela ilha.
Por volta do ano 40 D.C.,Vitélio casou-se com Petronia, possivelmente filha do Cônsul do ano de 37 D.C., Caio Petrônio Pôncio Nigrino. Eles tiveram um filho, Aulo Vitélio Petroniano, que, de acordo com Suetônio, era cego de um olho. Ainda de acordo com esse historiador, o rapaz somente poderia herdar a fortuna da mãe caso ele fosse emancipado pelo pai. Por isso, Vitélio teria emancipado o rapaz, mas, pouco tempo depois, aquele morreu envenenado, segundo Suetônio após ele beber um veneno que o próprio pai teria preparado para envenená-lo, para por as mãos na herança do filho.
Anos mais tarde, Vitélio casou-se novamente, com Galeria Faudana, filha de um ex-Pretor, que lhe deu um casal de filhos, Aulo Vitélio Germânico, que era surdo-mudo, e Vitélia.
Graças à posição do pai, Vitélio, ocupou vários cargos no serviço público, culminando com sua indicação para o consulado de 48 D.C. Depois, aproximadamente por volta do ano de 61 D.C, já no reinado do imperador Nero, Vitélio foi nomeado Procônsul (Governador) da província da África.
Apesar dele não ter qualquer experiência ou aptidão militar, Vitélio, para a surpresa geral, foi nomeado pelo sucessor de Nero, o imperador Galba, como comandante das legiões da Germânia Inferior.
Segundo Suetônio, essa indicação teria sido conseguida através de Titus Vinius, principal conselheiro de Galba, de quem Vitélio ficara amigo em virtude do prosaico motivo de ambos torcerem pela facção dos Azuis, uma das quatro que dividiam os torcedores das corridas de quadrigas, no Circo Máximo, em Roma…
Outro motivo da indicação de Vitélio para tão importante comando militar, ainda segundo Suetônio, foi o fato dele ser um notório glutão e bon-vivant, e, portanto, ser considerado como um político incapaz de ameaçar Galba…
Porém, algo que o notório temperamento severo e inflexível de Galba não conseguiu perceber, é que as tropas da Germânia estavam muito descontentes pelo fato delas não terem recebido os donativos esperados quando da subida dele ao trono imperial, em recompensa por terem derrotado as legiões de Julius Vindex, cuja revolta desencadeara a sucessão de eventos que levou à derrubada de Nero.
Assim, as credenciais de Vitélio, tendo em vista o seu “pedigree” de filho de um senador que ocupara o consulado por 3 vezes e, ele mesmo, já ter sido Cônsul, não eram de se desprezar como pretendente ao trono, e, quando ele chegou, em novembro de 68 D.C, à Germânia, legiões estacionadas na província não demoraram em aclamá-lo como novo imperador, em 2 de janeiro de 69 D.C.
O fato é que, ainda que ele não tivesse aderido voluntariamente à revolta, o comportamento de Vitélio não contribuiu nada para a disciplina das legiões. Suetônio conta que durante a marcha para assumir o comando na Germânia, Vitélio chegou até a beijar no rosto os legionários que encontrava pelo caminho. E, ao chegar na província, ele mandou soltar todos os soldados que estavam presos por qualquer motivo.
Após a aclamarem Vitélio imperador, as legiões do Reno, sob o comando dos generais Cecina e Valente, marcharam em direção à Roma. Quando elas estavam a 150 milhas da capital, os comandantes receberam a notícia de que Galba tinha sido assassinado, e que, agora, Marcus Salvius Otho(Otão) era o novo imperador. Não obstante, o exército de Vitélio resolveu continuar avançando, cruzando os Alpes em março de 69 D.C.
Embora as legiões do Danúbio tivessem se declarado a favor de Otão, o que tornava o somatório das tropas disponíveis favorável ao novo imperador, aquelas estavam bem mais distantes da Capital. Sabendo disso, Cecina e Valente ordenaram a construção de uma ponte sobre o Rio Pó e cruzaram para a outra margem, continuando a marcha para Roma.
Como resultado do rápido avanço de Cecina e Valente, o exército de Otão foi obrigado a dar combate às legiões de Vitélio, em uma situação de inferioridade numérica, sendo derrotado em Cremona, no dia 16 de abril de 69 D.C. Quando a derrota do exército imperial ficou evidente, Otão, como mandava o antigo costume romano, cometeu suicídio.
Vitélio, ao receber a notícia da vitória de suas tropas, partiu para a Roma comportando-se já como se fosse o novo imperador, e a sua viagem até a capital foi uma sucessão de banquetes comemorativos. Afinal, as tropas de Otão aclamaram Vitélio e tudo parecia indicar que a sucessão não seria contestada.
Porém, o comportamento de Vitélio, ao mesmo tempo soberbo e desregrado, não granjeou simpatias entre o povo romano. Aliás, consta que, durante o seu breve reinado, ele, um notório glutão, costumava se banquetear quatro vezes por dia. Sintomaticamente, as estátuas de Vitélio que sobreviveram até os nossos dias são a de um homem bem obeso, apesar de, tradicionalmente, os escultores sempre tentarem melhorar a aparência dos poderosos representados em suas obras…
Sobre o imenso apetite de Vitélio, descreve Suetônio:
“Ele fazia suas refeições três, às vezes quatro vezes ao dia, café-da-manhã, almoço, jantar e um coquetel, e ele era prontamente capaz dar conta de tudo isso mediante o seu hábito de tomar eméticos (remédio para vomitar). Além disso, ele era convidado para cada uma dessas refeições várias vezes, por diferentes pessoas, no mesmo dia, e os ingredientes para cada uma delas nunca custavam menos do que quatrocentos mil sestércios! A mais famosa de todas essas foi o jantar dado pelo seu irmão para celebrar a chegada do imperador à Roma, no qual, conta-se, que dois mil peixes, escolhidos entre os melhores, e sete mil aves, foram servidos. Ele mesmo eclipsou até mesmo isso na consagração de uma bandeja, que, devido ao seu enorme tamanho, ele chamou de “Escudo de Minerva, Defensora da Cidade”. Nessa bandeja, ele misturou fígados de lúcios (espécie de peixe), miolos de faisões e pavões, línguas de flamingos e esperma de lampréias, trazidos por seus capitães e navios de guerra de todas as partes do Império, da Pártia ao Estreito de Gibraltar. Sendo, ademais, um homem de um apetite que era não apenas ilimitado, mas também inoportuno e indecente, ele não podia evitar, mesmo quando estava fazendo sacrifícios religiosos ou viajando, de surrupiar pedaços de carne ou de bolos em meio aos altares, praticamente do próprio fogo, e devorá-los no local, ou dos restaurantes ao longo da estrada, das viandas fumegantes ou até mesmo aquelas que tinham sobrado do dia anterior e estavam parcialmente consumidas.
Todavia, em julho de 69 D.C., os exércitos do Oriente aclamaram como imperador o respeitado general Vespasiano, que comandava a campanha contra a Revolta dos Judeus. A situação de Vitélio piorou quando as legiões da Panônia, sob o comando de Antonius Primus, e da Ilíria, sob o comando de Cornelius Fuscus, declararam-se a favor de Vespasiano e marcharam para invadir a Itália. O efetivo destes dois exércitos rebeldes compreendia 5 legiões, metade das tropas leais a Vitélio.
Novamente, o encontro das tropas a favor e contra o imperador se deu em Cremona, em 24 de outubro de 69 D.C., terminando com a derrota do exército de Vitélio. Ele ainda mandou tropas para tentar guardar as passagens pelos Apeninos, mas essas também desertaram em favor de Vespasiano.
Desesperado, Vitélio tentou abdicar, com o objetivo de poupar a sua vida e a de sua família e propor um acordo com Vespasiano, mas os seus partidários o persuadiram a continuar no cargo. Em decorrência, o irmão de Vespasiano, o Prefeito Tito Flávio Sabino, que tinha tentado tomar o controle de Roma, foi repelido, e morto pelos guardas de Vitélio. Nesta refrega, o reverenciado Templo de Jupiter Optimus Maximus, na colina do Capitólio, onde Sabino tinha se refugiado, acabou incendiado.
Dias depois, a vanguarda do exército de Antonius Primus chegou à Roma, sem encontrar nenhuma oposição. Os últimos soldados leais à Vitélio tinham desertado.
Estava tudo acabado, Vitélio ainda tentou se esconder no Palácio deserto, disfarçando-se com roupas humildes e colocando mobília para bloquear a porta do seu quarto, mas ele rapidamente foi descoberto pelos soldados do Danúbio, conduzido seminu, em meio aos insultos da plebe, torturado, nas Escadarias Gemônias, e morto, tendo o corpo arrastado até o rio Tibre, no dia 22 de dezembro de 69 D.C.
Vitélio reinou por oito meses e morreu aos 54 anos de idade. Ele foi o primeiro imperador romano oriundo da classe equestre, pois quando ele nasceu o seu pai ainda não tinha ingressado no Senado.
O filho de Vitélio, Aulo Vitélio Germânico, foi assassinado no mesmo dia que o pai, mas a filha, Vitélia, sobreviveu e depois teve o auxílio de Vespasiano para arrumar um bom casamento.
Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um sangrento cenário: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada…Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a irmã do imperador.
HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA
Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo nível hierárquico da nobreza romana.
Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Província romana da Ásia e além de banqueiro.
Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela província.
Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.
Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.
Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações, Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.
O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.
Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C.
Curiosidade: a filha desta Flávia Domitila, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C. Vide abaixo: Afresco sobre um jazigo nas referidas Catacumbas.
Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caído em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os piores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.
Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Jovem, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“, uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.
Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer, Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face, estendeu-lhe a mão…
Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele durante toda a sua vida (e até mesmo depois, como veremos mais tarde)…
JUVENTUDE E FORMAÇÃO
Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado, conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C., Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.
Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.
Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a esse último traço, consta que Domiciano escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.
Vespasianofoi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.
Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália – o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero – Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Oto (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.
Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Oto foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.
Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difícil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.
A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO
Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, a, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade, quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua família, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.
Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César” (um título que começava a adquirir o significado de “príncipe-herdeiro”).
Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.
Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder, logo nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por esse motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:
“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado”.
Ainda duranteoAno dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada porGaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.
Entretanto, Tito, o filho mais velho deVespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente foi, em70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu oPoder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).
Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dosJúlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.
Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim, agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.
Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito
Durante o reinadodeVespasiano, Domicianofoi designado seis vezes Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o título de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o título de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim, Vespasianosempre deixou evidente que a precedência seria do irmão mais velho.
Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica:Vespasiano tentou casarDomiciano com Júlia Flávia, que era a filha única deTito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época, Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domício Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.
Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.
CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO
Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.
Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.
Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluído da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.
Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mínimo, fria e distante. Isto provavelmente decorria da grande diferença de idade entre eles e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.
Em80 D.C., nasceu o único filho deDomiciano e Domícia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.
Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:
“Cometi somente um erro”.
O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou pelo motivo dele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos. Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia (na verdade, o mais provável é que Tito jamais tenha previsto que o seu reinado seria tão curto). No plano das fofocas, também argumentou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.
ASCENSÃO AO TRONO E REINADO
Consta que no mesmo dia da morte do irmão,Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.
No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribunício. Mais do que uma possível demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.
Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, como poucas vezes se tinha visto na História de Roma: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento”. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, concedidas por ele mesmo aos que apelavam das decisões das Cortes.
Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora , depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.
Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possível ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.
Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruídos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio (foto abaixo), que foi coberto com um magnífico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifícios importantes seriam reconstruídos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.
Mas novos edifícios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cujo formato, preservado entre as arquibancadas substituídas por sobrados, daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).
Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalício, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluía velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.
Fontes relatam queDomiciano era particularmente hostil ao Judaísmo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo, é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.
Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.
Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – a de serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo durante a República.
O imperador também renovou aLex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.
Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.
Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.
O detalhismo da polícia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.
No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.
Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator” (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.
No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante os reinados de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.
Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mínimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercício dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.
Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba
Indubitavelmente, todas as medidas citadas caracterizavam uma guinada para um principado absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores críticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos” (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.
Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules
Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calígula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps” –título que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).
Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difíceis…Ele, segundo as fontes, gostava da solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.
Há uma anedota, contada por Suetônio, de que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraía capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:
“Nem uma mosca…“
As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…
Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à política exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.
Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrícola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrícola derrotou os Caledônios,, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.
Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrícola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrícola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.
Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da província.
A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.
Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.
O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.
E Domiciano, realmente, deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão que foi muito criticada pelos autores antigos.
Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato revelou-se duríssima.
CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO
Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca. Assim, no início do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha).
Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia.
Assim, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendida em poder de Saturnino é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.
Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os já existentes traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror” atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.
No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.
No chamado “reinado de terror” de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”..
A propósito, consta que Domiciano, certa vez, teria dito:
“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados…”.
Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaísmo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de PonzaI e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.
Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basílica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis”. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, a nascente religião já teria, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.
Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma
ASSASSINATO DE DOMICIANO
Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado atingiu o limite e, assim, tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.
Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contactou um liberto do imperador, Maximus, e Stephanus, que era o secretário pessoal da imperatriz Flávia Domitila,
Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo para ser recebido, Stephanus fez chegar ao imperador a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.
Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em queStephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Então, no meio do combate, Stephanus foi ajudado porMaximuse por Satur, um colega do camareiro Partênio, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador.
Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.
EPÍLOGO
O Senado Romano imediatamente aclamou o velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, entre os quais se destacava Públio Élio Trajano.
O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).
O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babáPhyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, situado na colina do Quirinal, em Roma.
Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores romanos que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Dião Cássio, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.
O texto desses historiadores da classe senatorial costuma dividir os imperadores romanos entre “Bons” e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons” são aqueles que mantiveram relações amistosas com o Senado Romano. Já os ‘Maus” são todos aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Ironicamente, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as suas histórias no reinado do sucessor de Nerva, o muito apreciado Trajano.
Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar comparando-se com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.
Entretanto, o estudo do reinado de Trajano, considerado o “Melhor dos Príncipes” (Optimus Princeps) pelo Senado, nos mostra, que, em diversos setores, ele deu continuidade a muitas das iniciativas de Domiciano…
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A foto foi tirada no ano de 2003, em Pont du Gard, próximo à cidade francesa de Nîmes, no Sul da França. A Ponte-Aqueduto sobre o rio Gard é uma das obras-primas da engenharia romana. Eu fui um dos últimos a entrar neste sítio, naquele dia de final de outono. A pessoa que pode ser vista no cantinho superior da foto é minha esposa. Nós tivemos a oportunidade de andar praticamente sozinhos pelo sítio e de certa forma ter a mesma sensação de admiração e reverência que teria um viajante medieval que percorresse aquele caminho e topasse com aquela construção magnífica, testemunho de uma antiga e mais sofisticada civilização.
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(Batalha do Rio Frígido, ilustração de Angus McBride)
Em 05 de setembro de 394 D.C, o exército do Imperador Romano do Oriente,Teodósio, o Grande, após marchar pela província da Ilíria e atravessar os Alpes Julianos, chegou no Rio Frigidus (o rio que separa o que hoje é a Eslovênia da Itália).
Quando o exército oriental chegou, já estavam acampadas no local as tropas do usurpador Eugênio, comandadas pelo general de origem franca, Arbogaste, o homem-forte do Império Romano do Ocidente, e padrinho da nomeação de Eugênio, com o objetivo de darem combate a Teodósio.
A cadeia de eventos que levou ao conflito começa em 383 D.C,com a morte do imperador Graciano, que foi assassinado em Lyon, após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus,
Desaparecido Graciano, o vitorioso Maximusresolveu marchar contraValentiniano II, o jovem meio-irmão de Graciano, que o havia reconhecido como co-imperador por pressão dos generais francos. quando ele sucedeu ao pai de ambos, o grandeValentiniano I, em 375 D.C.
Por sua vez, o imperador Teodósio, (que havia sido elevado ao trono do Oriente por Graciano após a morte em combate de seu outro irmão, Valente, na desastrosaBatalha de Adrianópolis, em 378 D.C), pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como o novo imperador das províncias ocidentais, que até então tinham sido governadas por Graciano, mas sob a condição de que Maximus reconhecesse Valentiniano II como co-imperador no Ocidente. Continuaria a haver, portanto, dois imperadores romanos no Ocidente.
Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximus resolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e, assim, assumir o controle total do Ocidente. Dessa vez, contudo, Teodósio resolveu intervir e, após reunir as suas tropas com as de Valentiniano II, as quais eram comandadas pelo general Arbogaste, e também valendo-se da ajuda dos seus aliados visigodos e mercenários hunos, ambos conseguiram derrotar Maximus, na Batalha de Siscia, em 388 D.C.
Oficialmente, portanto, o novo imperador único do Ocidente passara a ser Valentiniano II, que tinha apenas 17 anos de idade. Porém, o poder de fato no Ocidente estava nas mãos do general de origem franca Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).
Católico devoto e adepto do credo Niceno, durante o seu reinado Graciano promoveu muito a Igreja, ao ponto de instituir o catolicismo como a religião oficial do Império Romano, no Edito de Tessalonica e chegando a ordenara a retirada do ancestral Altar da deusa Vitória da cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos, que ainda eram muito influentes na antiga capital do Império. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, que instigara aquela medida, convenceu o jovem imperador a negar o pedido senatorial.
Enquanto isso, Valentiniano II atingiu a idade adulta e começou a se ressentir do papel de virtual imperador-fantoche de Arbogaste, que além disso parecia nutrir simpatias pelos senadores pagãos.
A tensão entre o imperador e seu comandante-em-chefe aumentou ainda mais quando Valentiniano II resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste, teria respondido:
“Não foi você quem me deu o meu comando e tampouco é você quem pode tirá-lo de mim”,
E, em seguida ao desaforo, Arbogaste jogou a carta no chão, dando as costas ao imperador perplexo, e retirou-se do recinto!
Pouco tempo depois desse incidente, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais, tendo as suspeitas naturalmente recaído sobre Arbogaste, embora uma fonte relate que o imperador teria se suicidado, deprimido pela impossibilidade de confrontar o poderoso general.
O fato é que Arbogaste conseguiu manter o seu poder e fez o Senado Romano nomear o inexpressivo Eugênio, um funcionário palaciano que era professor de Retórica, como o novo Imperador do Ocidente. Esta nomeação foi, inicialmente, tolerada por Teodósio. Não obstante, à míngua de um reconhecimento formal por parte do legítimo Imperador do Oriente, Eugênio é considerado pelos historiadores como um usurpador.
Entretanto, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da influente facção pagã do Senado Romano, que vinha patrocinando um renascimento do paganismo em Roma, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria do Senado, ato que enfureceu o influente bispo Ambrósio e deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla.
Considera-se que esse episódio configurou a última tentativa de se restaurar a proeminência do paganismo no Império Romano.
Em função desses acontecimentos, em 393 D.C, Teodósio concedeu oficialmente ao seu filho, Honório o título de Augusto no Ocidente, isto é, reconhecendo-o como Imperador, o que significava, obviamente, o rompimento com Arbogaste e o seu imperador-fantoche, Eugênio.
Em seguida, o devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste. Teodósio, então, iniciou os preparativos para a guerra iminente, reunindo um exército, e até recrutando e treinando como soldados cidadãos romanos, em uma iniciativa que não ocorria com empenho desde a destruição do exército do Oriente pelos visigodos na Batalha de Adrianópolis, 15 anos antes.
Em 394 D.C., o novo exército romano do Oriente estava pronto e, sob o comando do próprio Teodósio e do fiel general Estilicão, ele deixou Constantinopla rumo à fronteira do Oriente com o Ocidente, que ficava na Ilíria (o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).
O rei Alarico recebeu ordens para que os seus visigodos, que viviam nas terras do Império do Oriente sob a condição de foederati (federados) juntassem-se à ofensiva.
O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos, pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.
Durante os preparativos do exército ocidental para a batalha, ficou claro que o renascimento pagão era a mola inspiradora da campanha: Eugênio e Arbogaste ordenaram que uma estátua do deus Júpiter fosse colocada nos limites do acampamento e que os estandartes das tropas ostentassem imagens de Hércules.
Assim que alcançou o Rio Frigidus, no dia 05 de setembro de 394 D.C., Teodósio viu as tropas ocidentais acampadas e mandou os visigodos atacarem. Entretanto, o terreno era desfavorável e metade dos soldados bárbaros morreu neste ataque (totalizando cerca de 10 mil baixas). Observe-se que, com esta ação, segundo alguns estudiosos acreditam, Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os visigodos, para diminuir a grande e duradoura ameaça que eles vinham representando ao Império, apesar deles, momentaneamente, estarem do seu lado.
(Rio Vipava, na Eslovênia, chamado pelos romanos de rio Frigidus, foto de Johann Jaritz )
No dia seguinte, 06 de setembro de 394 D.C.,, Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o que ele não esperava é que o matreiro Teodósio subornaria os soldados enviados para essa ataque, os quais acabaram juntando-se ao exército oriental.
Em seguida, enquanto Teodósio deslocava o seu exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou um ataque de emboscada Porém, no exato momento em que os soldados dele iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando uma grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que eles foram desbaratados pelos soldados orientais.
Assim, as tropas de Teodósio, com seus escudos decorados com o monograma chi-ro(XP), iniciais em grego de “Cristo” derrotaram o exército de Eugênio, com seus escudos com a imagem de Hércules, fato que os propagandistas cristãos fartariam-se de cantar em prosa e verso.
O próprio Eugênio foi capturado e implorou clemência. Porém, após ser exibido em várias cidades como troféu de guerra, ele foi decapitado. Já Arbogaste, conseguiu fugir por alguns dias, vagando pelos Alpes, mas, após reconhecer que estava em um beco sem saída, ele acabou cometendo suicídio.
Como resultado da batalha, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império Romano, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, de causas naturais, em 395 D.C, sendo sucedido por seu filho, Arcádio, no trono oriental. No trono do Ocidente, Teodósio, após a vitória no rio Frígido, instalou Honório, no lugar de Eugênio.
Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido. Ele seria duramente confrontado por Estilicão, que durante muito tempo seria o homem-forte do Império Romano, nos anos que se seguiram, mas, após a execução deste, o rei visigodo acabou dando um golpe terrível nos romanos, ao executar o Saque de Roma, em 410 D.C.
Em 04 de setembro de 476 D.C., o bárbaro Odoacro, chefe militar dos Hérulos, e comandante de um exército de mercenários a serviço de Roma, depôs o jovem Imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, em sua capital Ravena, enviando-o para viver em paz próximo a Nápoles, e ainda com o direito de receber uma pensão anual.
Em seguida, Odoacro, ao invés de escolher um fantoche para ser o novo Imperador Romano do Ocidente, como vinha sendo o costume nos últimos 20 anos, devolveu asinsígnias imperiais ao Imperador Romano do Oriente, Zenão I, em Constantinopla, em um gesto que caracterizou o que a maioria dos historiadores considera como o fim do Império Romano do Ocidente (27 A.C-476 D.C.). Não obstante, Zenão, embora tenha aceitado as insígnias, nunca reconheceu Rômulo Augustúlo como imperador legítimo, mas sim Júlio Nepos, que, naquele momento, controlava a Dalmácia, e ali se manteve até 480 D.C., quando foi assassinado.
Então, para a historiografia tradicional, a data de 04 de setembro de 476 D.C. passou a marcar o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média, muito embora discuta-se, e com propriedade, se efetivamente ela representa o fim do Império do Ocidente, pois há várias opiniões respeitáveis defendendo que o que se chama de Queda do Império Romano não teria sido um evento, mas sim, um processo, o qual já tinha começado muito antes da referida data, e que, no ano de 476 D.C ainda não estaria terminado, um entendimento que, aliás, também pode ser aplicado ao próprio Mundo Antigo.
Flavius Romulus (Rômulo Augústulo) era filho do general e político romano Orestes, um cidadão romano natural da Panônia, que ascendeu no serviço público graças às suas ligações com os Hunos (ele chegou a ser notarius (secretário) de Átila, o Huno).
Orestes foi nomeado Comandante do Exército Romano do Ocidente (Magister Militum) por Júlio Nepos, que por sua vez havia sido nomeado Imperador Romano do Ocidente por Leão I, o Imperador Romano do Oriente que reinava em Constantinopla, no início de 474 D.C., para substituir Glicério, um governante que era considerado um usurpador pela corte oriental.
Porém, Orestes tinha outros planos e, aproveitando-se do fato do Império Romano do Oriente estar conflagrado pela luta entre Zenão I, o sucessor deLeão I, e o usurpador Basilisco, o general, valendo-se das tropas bárbaras que comandava, depôs Júlio Nepos, o qual teve que fugir para a Dalmácia.
No lugar de Júlio Nepos, o general Orestes, em 31 de outubro de 475 D.C., proclamou imperador o seu próprio filho, que adotou o nome de Flavius Romulus Augustus. Porém, como o rapaz somente tinha 15 anos de idade, ele logo ficaria conhecido como Romulus Augustulus, ou, traduzindo, “Rômulo, o Pequeno Augusto“, que foi reconhecido pelo Senado Romano. De fato, naquele momento, os senadores italianos pareciam mais satisfeitos em manter-se livres da influência da corte de Constantinopla do que livrar-se da ameaça dos bárbaros germânicos..
Contudo, quando da aclamação de Rômulo Augústulo, os únicos territórios que o Império Romano do Ocidente controlava, além da Itália, eram alguns pequenos enclaves na Gália e na Ilíria. Consequentemente, um dos principais problemas causados pela exiguidade desse território apresentou-se de imediato: a completa insuficiência da arrecadação de impostos…Assim, não tendo dinheiro para pagar os bandos de bárbaros que constituíam o que ainda se chamava de Exército Romano, uma revolta contra o novo imperador não tardou a acontecer.
Sem pagamento, uma coalizão de mercenários germânicos, majoritariamente Hérulos e Scirii exigiu que lhes fossem dadas terras correspondentes a um terço do território da Itália, aclamando o seu comandante, Odoacro, como “Rex Italiae” (Rei da Itália). Orestes, cujo poder e reconhecimento dependiam do apoio e do reconhecimento do Senado Romano, recusou.
Em 28 de agosto de 476 D.C. Orestes foi capturado pelas tropas comandadas por Odoacro e executado, próximo à Piacenza. Os mercenários avançaram contra Ravena, a capital do Império do Ocidente, que, apesar de uma breve resistência dos poucos soldados romanos que restavam, caiu, em 2 de setembro de 476 D.C.
Dois dias depois, Odoacro compeliu o jovem Rômulo Augustúlo a abdicar. Consta, todavia, que Odoacro, tomado de pena e também impressionado com a beleza do rapaz, decidiu poupar o imperador deposto e enviou-o para viver em uma vila romana fortificada no que hoje é a cidade de Nápoles, recebendo uma pensão de seis mil solidii de ouro. Essa villa, que havia pertencido ao riquíssimo aristocrata romano Lucius Licinius Lucullus(Lúculo), no século I A.C., hoje é o medieval Castello dell’Ovo (na foto abaixo)
Em seguida Odoacro, marcando uma ruptura com uma prática de décadas, ao invés de colocar um fantoche seu no trono do Império Romano do Ocidente, resolveu aceitar o título de “Rei da Itália”, com o apoio implícito do Senado Romano.
Com efeito, Odoacro mandou devolver ao Imperador Romano do Oriente as insígnias imperiais, que, acredita-se, compunham-se principalmente do cetro e da coroa. Uma embaixada de senadores levou os objetos enviados por Odoacro até Constantinopla, acompanhada da mensagem do Senado Romano :
” A majestade de um monarca único é suficiente para proteger, ao mesmo tempo, o Mundo”
Ao aceitar as insígnias, consta que Zenão I respondeu aos senadores italianos, em tom de reprimenda:
“Que os romanos do Ocidente tinham recebido dois homens enviados pelo Império do Oriente, expulsando um e matando o outro, Antêmio…”
Odoacro, entretanto, agiu de modo prudente e respeitoso para com o trono oriental, e continuou mantendo as aparências externas de que ele, no máximo, tornara-se um rei-cliente do Império Romano do Oriente…Com efeito, ele até cunhou moedas ostentando o nome do Imperador Zenão I.
Porém, Odoacro ignorou solenemente o mais importante dos pedidos do Imperador: a de que ele reconhecesse Júlio Nepos como o legítimo Imperador Romano do Ocidente. Nisso, com certeza, ele teve o apoio do Senado de Roma, que passou a cooperar intimamente com ele na administração da Itália.
As evidências indicam que, em 507 D.C., Rômulo Augústulo ainda recebia uma pensão, que teria sido mantida pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que havia conquistado a Itália, após derrotar Odoacro, fundando o Reino Ostrogodo, que duraria até a reconquista da Itália pelo imperador Justiniano I, em 554 D.C.
Em uma grande ironia do destino, o jovem soberano, que tanto tinha o nome do lendário fundador de Roma, Rômulo, como também o do fundador do Império Romano, Augusto, terminou sendo o último soberano do Império Romano do Ocidente…
Em 11 de julho de 472 D.C, o imperador romano do Ocidente, Antêmio, após tentar se refugiar na antiga Basílica de São Pedro, na colina do Vaticano, em Roma, foi capturado e decapitado por Gundobado, o Burgúndio, sobrinho do general bárbaro a serviço de Roma, Ricimero.
Procópio Antêmio era filho de Procópio (Vamos chamá-lo aqui de Procópio Pai), um general que ocupou o posto de Marechal do Império Romano do Oriente para as províncias orientais (Magister Militum per Orientem). ProcópioPai, por sua vez, era descendente de outro Procópio(ao qual chamaremos aqui de Procópio, o Velho), que era primo do imperador romano Juliano (cognominado “o Apóstata“, pelos historiadores cristãos), e, após a morte deste na fracassada expedição contra o Império Persa, em 363 D.C (da qual Procópio, o Velho participou e, por motivos até hoje ignorados, não conseguiu unir a sua coluna à expedição comandada pelo imperador). Após a morte súbita de Joviano, o sucessor de Juliano, e a ascensão de Valentiniano I e do irmão dele, Valente, respectivamente, ao trono da Parte Ocidental e Oriental do Império Romano, este Procópio, o Velho se autoproclamou Imperador, tornando-se, assim, um usurpador, mas foi derrotado, capturado e executado, em 366 D.C. Portanto, considerando que Juliano era sobrinho do Constantino, o Grande, pode-se considerar que Antêmio era um dos últimos integrantes, ainda que distante, da prestigiosa dinastia constantiniana.
Por parte de mãe, Antêmio era neto de outro famoso Antêmio (vamos chamá-lo aqui de Antêmio, o Velho), o Prefeito Pretoriano do Oriente (404 a 415 D.C) que, após a morte do Imperador Romano do Oriente, Arcádio, em 408 D.C, na prática foi o regente e virtual governante de metade oriental do Império Romano durante a infância do sucessor deste, Teodósio II. Neste papel, Antêmio, o Velho foi o responsável pela construção das inexpugnáveis Muralhas Teodosianas, que protegeriam a capital por mais de um milênio. A família dos Antêmios estava solidamente estabelecida no seio da aristocracia romana oriental, pois Flavius Philippus, o avô de Antêmio, o Velho, também havia sido Prefeito Pretoriano do Oriente, em 346 D.C, e Cônsul, em 348 D.C., durante o reinado do imperador Constâncio II.
Muralhas Teodosianas, erguidas por Antêmio, o Velho, em Constantinopla. Foto A.Savin, FAL, via Wikimedia Commons
Não se sabe o ano exato que Antêmio nasceu, mas deve ter sido durante o início da década de 420 D.C, época em que seu pai ocupou cargos importantes e se casou com sua mãe, que era filha do poderoso Antêmio, o Velho.
Com tamanho “pedigree“, não espanta que Antêmio tenha recebido uma excelente formação, seguindo a tradição dos jovens da aristocracia romana: ele foi enviado para estudar em Alexandria na famosa escola do filósofo neoplatônico Proclo, que também era retórico, astrônomo e matemático.
Em 453 D.C, Antêmio casou-se com Eufêmia, filha única do imperador romano do Oriente, Marciano. O imperador nomeou Antêmio Comes rei militaris, ou seja, Comandante dos Comitatenses, um dos postos militares mais importantes do Império, abaixo apenas do Magister Peditum e do Magister Equitum (Marechal da Infantaria e Marechal da Cavalaria) e enviou-o para a fronteira do rio Danúbio, com a tarefa de reconstruir as fortificações. No ano seguinte, Antêmio foi chamado de volta a Constantinopla, onde recebeu o título de Patrício e, em seguida, foi nomeado Magister Utriusque Militari (Comandante-em-Chefe da Infantaria e da Cavalaria). Para completar, em 455 D.C, ele foi escolhido para ser Cônsul, tendo o imperador romano do Ocidente, Valentiniano III, como colega, situações que deixavam claro que Antêmio estava sendo escolhido por Marciano como seu sucessor. Na verdade, parece que Marciano chegou a considerar nomear Antêmio como novo imperador romano do Ocidente, após o imperadorAvitoser deposto, em outubro de 456 D.C, pelo general de origem suevo-visigótica FlávioRicimero, o homem-forte do governo ocidental, e, posteriormente, morto, não se sabe ao certo se assassinado ou de causas naturais.
Entretanto, em 27 de janeiro de 457 D.C, o imperador Marciano morreu, de gangrena (ele tinha uma inflamação na perna que o impedia de caminhar direito, sem que ele tivesse expressamente escolhido o seu herdeiro.
Embora Antêmio fosse um candidato natural à sucessão, naquele momento, quem controlava o exército do Império Romano do Oriente era o marechal Flavius Ardaburius Aspar (Áspar), que vinha sendo o homem-forte da metade oriental do Império desde antes de 430 D.C, e que já tinha colocado Marciano, que havia sido seu subordinado no Exército Romano por 15 anos, no trono, em 450 D.C. Sendo de origem bárbara, mais propriamente, alano-gótica, Áspar não poderia assumir o trono ele mesmo, então ele precisava nomear algum romano legítimo que ele pudesse controlar.
E o escolhido de Áspar foi Leo Marcellus (Leão), um militar que ascendeu até o posto de Tribuno dos Mattiari (um regimento do Exército Romano cujos soldados eram especializados no uso da “mattea”, ou seja, maça), cargo em que ele ficava diretamente subordinado à Áspar. Assim, em 07 de fevereiro de 457 D.C.. em Constantinopla, Leão I foi coroado Imperador Romano do Oriente.
Todavia, Leão não se mostraria tão dócil e subserviente como Áspar planejou que ele seria. Astucioso e determinado, o novo imperador, ao longo dos anos, começou a recrutar soldados de origem isáuria (um povo semi-romanizado que vivia na Anatólia, no interior da atual Turquia) e com eles formou uma guarda imperial, chamada de Excubitores (literalmente, “os que dormem do lado de fora do leito imperial”).
No ano de 460 D.C, Antêmio, que mantivera o posto de Magister Militum, derrotou uma incursão dos Ostrogodos liderados pelo rei Valamir, na Ilíria. E, entre o final deste ano e o ano seguinte, ele derrotou uma incursão de Hunos, que haviam tomado a cidade de Serdica (atual Sofia, capital da Bulgária), após sitiá-la. Nenhuma dessas vitórias chegou a ser definitiva, pois sabe-se que Leão concordou em pagar 300 libras de ouro aos Ostrogodos pela paz.
A SITUAÇÃO NO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE
Enquanto isso, o trono do Império Romano do Ocidente continuava vago, após a deposição e posterior morte de Avito, que, acredita-se, tenha ocorrido entre o final de 456 D.C e o início de 457 D.C.
Os responsáveis pela queda e morte de Avito tinham sido os generais Ricimero e Júlio Valério Majoriano. Este último era uma figura rara naqueles conturbados tempos: um aristocrata romano que tinha seguido uma sólida carreira militar, derrotando contingentes bárbaros germânicos em algumas oportunidades. Majoriano entrou para o Exército Romano servindo sob as ordens do Marechal Aécio, que habilmente tinha comandado a estratégia militar do Império Romano do Ocidente durante 20 anos (entre 433 e 454 D.C), fazendo o possível para restaurar o poder imperial, e que, por isso, receberia a alcunha de “O Último dos Romanos”. Por sua vez, Ricimero era um general de origem germânica, de ascendência sueva e visigótica.
Entendo ser necessário agora, então, fazer uma breve digressão sobre os eventos que antecederam a supracitada vacância do trono ocidental.
Após o assassinato de Aécio, morto pelo imperador Valentiniano III em pessoa, em 454 D.C, e o assassinato deste último, vingado por dois auxiliares de Aécio, no ano seguinte, Majoriano, contando com o apoio de Ricimero, chegou a ser cogitado para suceder o imperador, mas o escolhido, com o apoio da aristocracia senatorial da Itália, foi o senador Petrônio Máximo, envolvido na trama que resultara na morte do grande comandante e também na do citado imperador. Após ser aclamado, Petrônio Máximo nomeou Majoriano para ser Comes Domesticorum (Comandante da Guarda Imperial).
O reinado de Petrônio Máximo seria breve, uma vez que a aristocracia e o populacho da cidade de Roma, indignados com a invasão dos Vândalos, que controlavam o Norte da África, liderados pelo rei Geiserico, e o cerco à cidade de Roma, que logo cairia e seria saqueada, apedrejou e linchou o imperador, em 31 de maio de 455 D.C .
Então, Ricimero, Majoriano e a aristocracia senatorial italiana não viram alternativa senão apoiar a escolha de Avito, um senador galo-romano que tinha laços estreitos com os Visigodos, naquele momento uma das poucas forças capazes de confrontar os Vândalos e outros adversários que ameaçavam o Império do Ocidente.
Entretanto, Avito, adotando uma linha que, de certo modo, era estrategicamente mais racional, mostrou-se mais preocupado em defender a sua nativa Gália de novas invasões bárbaras, mas ele dependia excessivamente das tropas visigóticas. Ele também nomeou muitos de seus conterrâneos galo-romanos para cargos importantes. A elite senatorial e o populacho de Roma ressentiram-se dessa política que entenderam como detrimental da Itália. Enquanto isso, Ricimero obteve duas vitórias navais contra os Vândalos na Sícília e na Córsega. Então, com o apoio dos senadores e da plebe romana, Ricimero e Majoriano iniciaram a rebelião que resultou na queda de Avito.
Apesar do trono ocidental igualmente, nessa oportunidade, ter ficado vago, já que inexistia um imperador reconhecido pelo Senado do Ocidente ou pelo Imperador do Oriente, Ricimero recebeu, ou melhor dizendo, se conferiu o posto de Magister Militum e o título de Patrício, que naquele tempo significava algo como grão-vizir ou shogun significariam no Império Otomano ou no Japão Feudal. Por sua vez, Majoriano também foi alçado a Magister Militum.
Por volta de abril de 457 D.C, um bando de cerca de 900 bárbaros alamanos invadiu a Itália e foi derrotado pelo Conde Burco, seguindo ordens de Majoriano. Em outros tempos, esta seria não mais que um confronto insignificante, indigno sequer de menção nas fontes, mas, na situação em que o Império do Ocidente se encontrava, foi considerado uma grande vitória, e Majoriano foi aclamado imperador pelas tropas. O acontecimento foi celebrado pelo poeta Sidônio Apolinário.
Somente em 28 de dezembro de 457 D.C, Majoriano foi formalmente declarado imperador pelo Senado Romano. Provavelmente, a demora deveu-se ao fato dos senadores estarem esperando um reconhecimento formal por parte do Imperador Romano do Oriente, como de costume. Contudo, Leão, tudo indica, ao menos inicialmente, não reconheceu Majoriano, o que é reforçado pelo fato dele ter assumido o consulado do ano seguinte sozinho, sem um colega ocidental, de acordo com as fontes orientais contemporâneas.
Majoriano seria o último imperador ocidental realmente capaz e também o último imperador ocidental a comandar exércitos no campo de batalha. Ele conseguiu, ainda que com o auxílio vital de tropas bárbaras, restaurar o controle imperial sobre o sul da Gália e boa parte da Hispânia (e também a Sicília), reduzindo os Visigodos, Burgúndios e Suevos, que já se intitulavam como reinos, ao status de Foederati (Federados, segundo a lei romana do período tardio, eram povos que recebiam por tratado a autorização de residir no interior do Império, mantendo seus chefes como rei-clientes e como súditos do Imperador, ficando obrigados a fornecerem soldados para o Exército).
Infelizmente, em 460 D.C, Majoriano sofreria um grande revés: Ele reunira uma grande frota em Cartagena para invadir o reino dos Vândalos no Norte da África, mas o astucioso rei Geiserico conseguiu destruir os navios. Se o plano tivesse dado certo, ele poderia ter representado a salvação do Império do Ocidente. Entretanto, Majoriano tinha investido recursos e reunido um exército basicamente formado por bárbaros, os quais, sem ter mais dinheiro para pagar, foi obrigado a desmobilizar. O único contingente militar significativo restante estava sob as ordens de Ricimero. Então, quando Majoriano, desmoralizado pelo revés em Cartagena, retornava para a Itália, escoltado apenas por uma pequena guarda imperial, ele foi interceptado na altura de Tortona, capturado e, após cinco dias de torturas, executado por Ricimero, em 07 de agosto de 461 D.C.
Sem mais ninguém para lhe fazer sombra, Ricimero esperou três meses até indicar o novo imperador ao submisso Senado Romano, o obscuro senador Líbio Severo, que, no entanto, não foi reconhecido por Leão. Após reinar quatro anos como imperador-fantoche, Líbio Severo foi descartado por Ricimero, que precisava do apoio de Leão para poder manter o que restava do Império do Ocidente. Não se sabe realmente se Ricimero mandou matar Líbio Severo, mas este morreu em 14 de novembro de 465 D.C.
Então, o trono ocidental ficou novamente ficou vago por um ano e meio, sendo o Império do Ocidente governado, de fato, por Ricimero.
Contudo, apesar de Ricimero ter sido a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C., e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e, posteriormente, Olíbrio, ele mesmo, na prática, não poderia atrever-se a assumir o trono, uma vez que Ricimer era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos.
Selo de Ricimero. Foto See page for author, Public domain, via Wikimedia Commons
ANTÊMIO, IMPERADORDO OCIDENTE
Ricimero, então, recorreu a Leão para que o imperador romano do Oriente, legalmente, indicasse o novo imperador romano do Ocidente. Leão escolheu Antêmio.
O fato é que Ricimero precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos, que estava tentando compelir o Senado Romano a escolher Olíbrio, um senador da influente família dos Anícios, casado com Placídia, filha de Valentiniano III, que, junto com sua mãe, a imperatriz Licínia Eudoxia, e sua irmã, Eudocia, foram levadas para Cartago pelos Vândalos, após o Saque de Roma, em 455 D.C.
Como retribuição à sua aceitação de Antêmio, e também como uma provável compensação por abrir mão de colocar um outro fantoche seu no trono ocidental, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.
Mas é provável também que Leão tenha tido mais um motivo para escolher Antêmio. Com efeito, este era um experiente homem público de origem tão ilustre que ele chegou até ser considerado um candidato potencial ao trono. Leão, assim, astutamente, ao tê-lo enviado para a Itália, com um exército, para fazer valer os interesses de Constantinopla no Ocidente, estava livrando-se, ao mesmo tempo, de um provável rival e pretendente ao seu próprio trono.
Desse modo, Antêmio foi proclamado Imperador em 12 de abril de 467 D.C.
Agora, pela primeira vez em várias décadas, havia a chance real de que os imperadores romanos do Ocidente e do Oriente cooperassem efetivamente para enfrentar a ameaça bárbara.
Solidus de Antêmio, imperador do Ocidente. No verso, ele e Leão dão as mãos, sinalizando a união dos Impérios Ocidental e Oriental. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons
De fato, como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente: a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e em várias outras regiões na orla do Mediterrâneo, e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos na Gália.
Para isso, Antêmio contava com o apoio de Leão I, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se preocupado com a situação do Império do Ocidente. E, sem a participação de Constantinopla, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque os recursos materiais e humanos à disposição de Leão eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental. Outro apoio importante seria do Conde Marcelino, um comandante militar romano que, desde a morte de seu amigo Aécio, controlava a Dalmácia e que também havia apoiado Majoriano (ele, inclusive, iria participar da fracassada campanha que este imperador havia planejado contra Geiserico e os Vândalos, em 460 D.C).
Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em sua maior fonte de grãos, em 435 D.C., para os Vândalos, e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente praticamente não tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.
Ainda em 467 D.C, Antêmio planejou uma campanha contra o Vândalos, chegando a reunir uma frota, mas o mau tempo obrigou a frota a retornar ao porto.
Expedição à África
Todavia, os Vândalos haviam se tornado um problema também para o Império do Oriente, chegando a fazer incursões navais de saque até a Grécia, no coração dos domínios ocidentais, e prejudicando a navegação em todo o Mediterrâneo.
Leão, Antêmio e Marcelino então, planejaram uma gigantesca operação militar combinada das forças armadas orientais e ocidentais, em sua maior parte financiada pelo tesouro oriental, visando a esmagar os Vândalos para sempre:
Uma gigantesca frota de 1.113 navios zarpou de Constantinopla, transportando forças estimadas em 100 mil homens (há controvérsias sobre esse número), sob o comando de seu cunhado Basilisco, para atacar diretamente Cartago, a capital vândala. Concomitantemente, o general Heráclio deveria zarpar do Egito com direção à Tripolitana, e dali, marchar por terra contra Cartago. Enquanto isso, o Conde Marcellinus atacaria a Sicília e, após derrotar os invasores Vândalos lá instalados, rumaria também para Cartago.
A operação até começou bem, pois Heráclio conseguiu desembarcar em Tripolitana e Marcellinus dominou os Vândalos na Sicília. Porém, o grande erro de Leão foi ter escolhido o seu incompetente cunhado Basilisco, irmão da Imperatriz Verina, como comandante da principal ponta do ataque.
Efetivamente, Basilisco após conseguir dispersar a frota vândala na Sicília, facilmente fundeou na Baía de Cartago, mas, ao invés de imediatamente atacar Geiserico, inexplicavelmente, ele aceitou um pedido de trégua de 5 dias pedido pelo rei bárbaro. Ocorre que Geiserico aproveitou o refresco para construir novos barcos e balsas incendiárias. Como, normalmente, a sorte não ajuda a incompetência, no final da trégua, fortes ventos impulsionaram as balsas vândalas em chamas contra a frota romana e metade dela foi incendiada, na chamada Batalha do Cabo Bon. Assim,Basilisco teve que fugir com os remanescentes para a Sicília, visando se juntar a Marcelino. Este porém, logo em seguida foi assassinado na Ilha, suspeita-se, a mando de Ricimer. Já o general Heráclio, quando soube da derrota romana em Cartago, resolveu recuar de volta para o Egito.
Assim, este foi o final desastroso da campanha que poderia ter salvo o Império do Ocidente. Ela tinha sido, na verdade, uma retomada, mais ambiciosa, dos planos de Majoriano, o que mostra como os imperadores mais comprometidos com os reais interesses romanos tinham a consciência de que a reconquista da África era vital para a existência de um império ocidental viável.
Antêmio, então, teve que dirigir sua atenção aos Visigodos, que, sob a liderança do rei Eurico, tinham aproveitado o enfraquecimento militar verificado após a morte de Majoriano para se expandir pela Gália. Os provinciais galo-romanos inclusive enviaram uma embaixada ao imperador, em Roma, liderada por Sidônio Apolinário, solicitando proteção. Carente de tropas, após o desastre da expedição africana, Antêmio recrutou, em 470 D.C, um contingente de doze mil Bretões, liderados pelo rei Riothamus, para atacar Eurico, os quais chegaram a ocupar a cidade de Bourges.
Nota: especula-se que esses bretões poderiam ser remanescentes de tropas “fronteiriças” – ou limitanei- romano-britânicas, que no final do Império tinham sido rebaixadas à condição de uma quase-milícia. E que Riothamus, cujo nome na verdade seria um título, poderia ser na verdade um certo AmbrosiusAurelianus, uma liderança romano-britânica que resistiu aos invasores saxões da Grã-Bretanha, que por sua vez seria tio e antecessor do rei Arthur nas lendas e crônicas medievais britânicas.
Entretanto, os Visigodos conseguiram repelir os homens de Riothamus, obrigando Antêmio a enviar, como último recurso, uma tropa chefiada pelos generais Thorisarius e Everdingus, provavelmente chefes bárbaros a serviço do Império e pelo Conde dos Estábulos Hermianus, que foi derrotada por Eurico, por volta de 471 D.C,em uma batalha nas vizinhanças de Arles, inclusive matando o filho do imperador, Anthemiolus, que era o comandante formal da expedição.
Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental. Para piorar a situação, Leão, em uma Constantinopla, praticamente falida pelos custos astronômicos da expedição contra os Vândalos, naquele momento era incapaz de fornecer qualquer auxílio (segundo o historiador J.B. Bury, o impacto financeiro da expedição foi tão grande que o tesouro oriental levou mais de trinta anos para se recuperar – “History of the Later Roman Empire, vol, 1, p. 337).
O fim de Antêmio
O estopim para o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimero a abandonar Roma acompanhado de 6 mil guerreiros, em direção a Milão, onde ficou instalado como se fosse um imperador de fato ou um rei independente.
O bispo de Pavia tentou intermediar uma trégua entre Antêmio e Ricimer, a qual durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram, Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.
Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio.
Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes, já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono ocidental. Leão também havia, finalmente, conseguido, com a ajuda dos Excubitores e seu comandante isáurio, Tarasis Kodisa (o futuro imperador Zenão I), livrar-se de seu Magister Militum, o general bárbaro Áspar.
Contudo, os soldados de Ricimero controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Nela, Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma, além de informar ao colega ocidental que ele havia conseguido dar cabo de Áspar, aconselhando Antêmio a fazer o mesmo com Ricimero. Não de surpreender, diante dessas circunstâncias, que o estratagema de Leão acabasse tendo efeito contrário: Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente.
Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.
Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre, interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimero, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii, que poucos anos mais tarde entraria para a História como o homem que destronaria o último imperador romano do Ocidente.
Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimero havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.
Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimero, cognominado “O Burgúndio”, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias, que veio em apoio do tio. Efetivamente, o substituto de Gundobado, Bilimer, também veio em socorro de Antêmio, mas ele foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.
Então, em 11 de julho de 472 D.C., com seus últimos soldados desertando e sem esperança de reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, refugiando-se na Igreja de São Crisógono, no bairro de Trastevere, em Roma, mas foi identificado e decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja, teoricamente um santuário que deveria ser respeitado pelo bárbaro supostamente cristão.
Igreja de São Crisógono, em Roma, onde Antêmio foi decapitado, coincidentemente, a mesma forma pela qual o santo foi martirizado. Foto Por LPLT – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7586506
EPÍLOGO
Pouco mais de um mês depois da morte de Antêmio, o general Ricimero também morreria, aparentemente de causas naturais, após vomitar sangue. Durante mais de quinze anos ele tinha sido o homem mais poderoso do Ocidente, tendo seu poder apenas diminuído um pouco durante o reinado de imperadores capazes como Majoriano e Antêmio, notadamente mais sob o primeiro. Historiadores debatem se ele foi um general bárbaro leal ao Império ou, se ao contrário, apenas buscava o poder para o seu benefício imediato, ao arrepio dos interesses imperiais, e, consciente ou inconscientemente, agia a favor dos seus conterrâneos germânicos. O fato é que muitas ações de Ricimero foram apoiadas, senão estimuladas, pela aristocracia senatorial italiana. Por outro lado, o comportamento dele durante a expedição de Basilisco contra os Vândalos foi indubitavelmente nocivo ao Império.
Olíbrio ocuparia o trono ocidental apenas por alguns meses, morrendo de edema em 02 de novembro de 472 D.C., sendo sucedido por mais um imperador-fantoche, Glicério, agora alçado ao trono por Gundobado, em março de 473 D.C, que não foi reconhecido por Leão.
Sem o apoio oriental, que, diga-se de passagem, naquele momento, somente poderia se dar de maneira muito limitada, não havia muito o que qualquer imperador pudesse fazer no Ocidente: a Gália e a Hispânia encontravam-se tomadas por povos germânicos e a Ilíria era governada por um subordinado leal ao Império do Oriente.
Na prática, o Imperador do Ocidente controlava apenas a Itália, que era defendida por tropas bárbaras leais aos seus chefes, que apenas nominalmente tinham títulos de comandantes do exército romano. Para se ter uma ideia do quadro de anarquia e desagregação que grassava, durante o igualmente curto reinado de Glicério, quando recebeu a notícia da morte do pai, Gundobado preferiu deixar a Itália e partir para a Borgonha, para garantir o seu direito à sucessão do reino burgúndio. Assim, o Império Romano do Ocidente agonizava.
Kleopatra VII Thea Philopator (Cleópatra) nasceu no início do ano de 69 A.C., em Alexandria, a capital do Egito. Ela era filha do faraó Ptolomeu XII Auletes e, provavelmente, não se tem uma certeza exata, da rainha Cleópatra V Triphaena. Kleopatra quer dizer, em grego: “A glória do pai“, e “Thea Philopator ” significa: “Deusa que ama o pai“.
“A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados. Apenas escutar o som da voz dela já era um prazer, e a sua língua, como se fosse um instrumento de muitas cordas, podia passar de um idioma para outro, conforme ela desejasse, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete, respondendo-lhes pessoalmente e sem auxílio.”
Plutarco, Vida de Antônio, 27,2
Genealogia, infância e juventude de Cleópatra VII
Busto de Cleopatra VII – Altes Museum – Berlin – Germany 2017.jpg
Cleópatra e sua família eram descendentes diretos do nobre macedônio Ptolomeu, um general que foi um dos auxiliares mais próximos do rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.
Quando Alexandre morreu, em 323 A.C, os generais mais próximos de Alexandre estabeleceram-se, inicialmente, como “sátrapas” (governadores) das terras que tinham sido anexadas pelo rei macedônio, e a Ptolomeu coube governar o Egito. Em 305 A.C., Ptolomeu, da mesma forma que os outros sátrapas, após uma série de conflitos entre os sátrapas e diversos pretendentes à sucessão de Alexandre, denominada de Guerra dos Diádocos, autoproclamou-se rei do Egito, com o nome de Ptolomeu I Soter.
No Egito, os sucessores e descendentes de Ptolomeu rapidamente assumiram os títulos e ornamentos milenares dos faraós, e, para se legitimarem perante os súditos nativos, adotaram também muitos dos costumes da realeza nativa, entre os quais estavam os casamentos endogâmicos, entre irmão e irmã, que tinham o objetivo de preservar o caráter divino da linhagem sanguínea dos faraós.
Por outro lado, culturalmente e em suas relações com o mundo mediterrâneo, a corte ptolomaica reconhecia a si mesma e comportava-se como os outros reinos helenísticos surgidos a partir do falecimento de Alexandre, o Grande. A língua da corte era o grego koine e em Alexandria foram erguidos templos, monumentos e palácios em estilo arquitetônico clássico. Entretanto, os ptolomaicos continuaram construindo templos e monumentos no estilo egípcio, inclusive ostentando inscrições em hieróglifos e participando do culto às divindades egípcias tradicionais.
O Egito Ptolomaico experimentou tempos prósperos e chegou mesmo a ser um reino muito poderoso; porém, quando Cleópatra nasceu, o país estava em franca decadência política, em boa parte devido a disputas sucessórias e incompetência dos governantes, tornando-se praticamente um protetorado da grande potência do mundo mediterrâneo, Roma, que vinha paulatinamente anexando todos os reinos helenísticos. Na verdade, então, o único estado digno de nota no Mediterrâneo, além da República Romana, era o Egito, que, apesar de conflagrado e desorganizado, era bastante rico, graças aos abundantes excedentes de trigo gerados produzidos pela fertilidade oriunda do ciclo das enchentes do rio Nilo e ao comércio com a Índia.
Cleópatra recebeu uma educação clássica esmerada. O seu tutor foi Philostratos, provavelmente um filósofo, com o qual aprendeu Filosofia e Oratória. De fato, desde ja infância, a jovem princesa deve ter demonstrado uma notável inteligência, pois ela aprendeu a falar nove línguas: grego, egípcio, latim, persa, etíope (amárico), aramaico, siríaco, troglodita e a língua dos Medos. Segundo nos conta o historiador antigo Plutarco:
“Era um prazer somente escutar o som da voz dela, com a qual, como se fosse um instrumento de muitas cordas, ela podia passar de uma língua para outra, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete para responder.”
Plutarco, Vida de Antônio, 27,3
O reinado do pai de Cleópatra foi marcado pelo aumento da dependência política e econômica do Egito para com Roma. Muitas dívidas foram contraídas junto aos banqueiros romanos e o Senado Romano chegou a cogitar a anexação do reino, acarretando que humilhantes concessões aos romanos tivessem que ser feitas. Obviamente, que isso desagradou à população egípcia e aos influentes sacerdotes.
Assim, em 58 A.C., as tensões políticas internas do Egito levaram a uma revolta popular que resultou no exílio de Ptolomeu XII, após a anexação da ilha de Chipre, que era domínio ptolemaico, pelos romanos. O faraó acabou indo morar na Villa do triúnviro Pompeu, na colinas albanas, próximo à cidade de Roma, levando consigo a sua filha Cleópatra, que tinha onze anos de idade (os dois filhos homens de Ptolomeu XII: Ptolomeu XIII Theos Philopator e Ptolomeu XIV, ainda tinham somente quatro e dois anos de idade).
Contudo, o levante nacionalista, que colocou como governante do Egito a irmã mais velha de Cleópatra, Berenice IV, em conjunto com rainha Cleópatra VI Triphaena, (que não se tem certeza se era outra irmã das duas ou a esposa de Ptolomeu XII), teria vida curta. Os banqueiros romanos, grandes credores de Ptolomeu XII, tinham todo interesse em sua restauração. Assim, Pompeu ofereceu uma grande soma em dinheiro ao governador romano da Síria, Aulus Gabinius, para ele invadir o Egito e recolocar Ptolomeu XII no trono.
No início de 55 A.C., Gabinius invadiu o Egito e Ptolomeu XII e Cleópatra acompanharam a expedição. Entre os oficiais de Gabinius, estava o jovem Marco Antônio, que inclusive impediu um massacre de civis na cidade greco-egípcia de Pelousium. Anos mais tarde, Marco Antônio contaria que foi durante a invasão que ele conheceu, e se apaixonou, pela jovem princesa egípcia de apenas 14 anos de idade…
Em pouco tempo, apoiado pela vitoriosa expedição, Ptolomeu XII já reinava de novo sobre o Egito. Ele executou a sua filha Berenice IV e vários de seus apoiadores, apoiado por dois mil soldados e mercenários romanos, que foram apelidados de “Gabinianos“. Percebendo a aptidão de Cleópatra para governar, e provavelmente já percebendo os primeiros sinais de doença, Ptolomeu XII, em 31 de maio de 52 A.C, a nomeou Regente do Egito, como atesta uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera.
Rainha do Egito
Nos primeiros meses de 51 A.C., Ptolomeu XII morreu, nomeando como herdeiros e sucessores, em seu testamento, a sua filha Cleópatra e o seu filho Ptolomeu XIII, que deveriam reinar em conjunto. Para serem os executores deste testamento, Ptolomeu encarregou, expressamente, o “Senado e Povo Romanos”…
Rainha aos dezoito anos de idade, Cléopatra casou-se, como impunha o costume real egípcio, com seu irmão e agora colega Ptolomeu XIII, que tinha somente doze anos. Ele foi reconhecido oficialmente como governante, mas, na prática, quem atuava como o seu regente era o eunuco Pothinus (ou Potheinos).
(Dracma de Cléopatra VII. Podemos ver nesta moeda, que foi cunhada no reinado dela, todos os elementos convencionais da iconografia da rainha: O diadema real dos Ptolomeus, o cabelo fatiado no estilo “melão”, o coque, o nariz ligeiramente aquilino ou adunco e o queixo proeminente Foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892
O fato é que, sendo mais velha e muito mais preparada do que o irmão, Cléopatra governava como se fosse a única soberana. A partir de agosto de 51 A.C, ela começou a cunhar moedas apenas com a sua efígie como rainha, e os documentos oficiais não mencionavam mais Ptolomeu XIII. A situação econômica, porém, continuava difícil, pois ela herdara a grande dívida que o pai contraíra junto aos romanos.
Pothinus e outros conselheiros de Ptolomeu XIII persuadiram-no a reagir contra a predominância da irmã no reino. Eles urdiram uma conspiração que foi bem sucedida e que foi ganhando o apoio de pessoas importantes, pois tudo indica que, antes do final de 50 A.C., Ptolomeu passou a controlar o governo, já que os documentos oficiais, a partir de então, ostentam o nome dele antes do nome da irmã.
Havia uma guerra surda não-declarada dentro de Alexandria entre as cortes de Ptolomeu XIII e Cleópatra quando, no verão de 49 A.C., chegou à cidade Gnaeus Pompeius, o filho de Pompeu, o Grande, que tinha sido obrigado a fugir para a Grécia após Júlio César invadir a Itália e tomar Roma, dando início à Grande Guerra Civil. Pompeu pedia ao Egito auxílio financeiro e tropas para ajudar as forças leais aos Optimates na guerra contra César e os Populares.
Cleópatra e Ptolomeu XIII concordaram e assinaram um último decreto conjunto enviando a Pompeu 60 navios de guerra e 500 soldados egípcios, além dos “Gabinianos“.
Deposição e luta pelo poder
Nesse meio tempo, os partidários de Ptolomeu conseguiram prevalecer sobre a facção que apoiava Cleópatra e ela foi obrigada a fugir do palácio, indo se refugiar em Tebas, mais ao sul, subindo o Nilo.
Agora, o Egito também estava vivendo uma guerra civil aberta.Assim, Cleópatra, acompanhada de sua meia-irmã Arsinoe IV, viajou para a Síria, e lá ela conseguiu reunir um exército para tentar recuperar Alexandria, porém, o avanço do seu exército foi barrado nas cercanias de Pelousium.
Em 9 de agosto de 48 A.C., Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsália, e, com o remanescente de seu exército, ele fugiu para a cidade de Tiro, no atual Líbano. Lá, Pompeu decidiu que valia a pena ele viajar até o Egito, tendo em vista as boas relações que ele sempre manteve com Ptolomeu XII, pai dos atuais governantes do país, os quais, inclusive, haviam atendido o seu pedido anterior de ajuda, e onde ele esperava obter um valioso apoio para continuar a luta contra César.
Quando o navio de Pompeu chegou próximo a Pelousium, ele foi abordado por galeras da frota egípcia, que aderira a Ptolomeu XIII. O jovem rei foi aconselhado por Pothinus a não ajudar Pompeu, e, em uma armadilha idealizada pelo seu auxiliar Theodotus, Pompeu foi atraído para desembarcar e morto no próprio bote em que ele estava sendo transportado, tendo a sua cabeça sido cortada, fato ocorrido em 29 de setembro de 48 A.C.. Este assassinato ocorreu porque Ptolomeu e Pothinus acreditavam que, assim, eles estariam agradando a César, o qual poderia seria ser simpático à causa do primeiro na disputa contra a irmã.
Porém, ao contrário do que os egípcios esperavam, César ficou consternado e enfurecido com o assassinato de Pompeu. Além da afronta que representava o assassinato de um cônsul ao prestígio romano, ele certamente pretendia utilizara captura de Pompeu politicamente, talvez perdoando-o, como era do seu costume, para angariar simpatia perante a opinião pública. Assim, César ordenou que Ptolomeu XIII e Cleópatra desmobilizassem os seus exércitos e fossem encontrá-lo em Alexandria, onde ele resolveria a disputa entre os irmãos à luz dos interesses de Roma.
Todavia, Ptolomeu XIII não obedeceu a ordem de César e chegou a Alexandria à testa de seu exército, que ficou acampado nas cercanias da cidade, enquanto ele e seus auxiliares mais diretos, instalados na mesma, aguardavam a audiência como o líder romano. Já César ficou instalado no palácio real, situado em uma península.
Amante de Júlio César, restauração do trono e maternidade
Para a surpresa de Ptolomeu XIII, a sua irmã/esposa e rival dele conseguiu furar o cerco que o exército dele fazia à cidade e penetrar no palácio, chegando até os aposentos de César. A ser verdadeiro o célebre relato de Plutarco, foi uma aparição espetacular: Cleópatra entrou no palácio escondida dentro de um tapete enrolado, que estava sendo levado como presente para César!
Acho altamente provável que, já naquela noite, César tenha dormido com Cleópatra, conforme o relato de Plutarco deixa transparecer. Ela tinha entre 20 e 21 anos e era bonita, inteligente e sedutora. Ele tinha 52 e era famoso por ter casos com mulheres ilustres, incluindo algumas rainhas. E é até possível que César tenha sido o primeiro homem na vida de Cleópatra. Ela certamente não deve ter tido relações sexuais com o irmão bem mais novo.
(Busto de Tusculum, considerado o único que foi feito enquanto César era vivo, por volta dos 50 anos de idade, mostrando a aparência que ele deveria ter quando conheceu Cleópatra, Museum of antiquities, Public domain, via Wikimedia Commons)
A versão do historiador romano CássioDião, embora um pouco diferente nos detalhes, e sem mencionar a rocambolesca entrada em um tapete, é no mesmo sentido:
“Cleópatra, ao que parece, tinha, inicialmente, exposto a César o seu pleito contra o irmão por meio de emissários, porém, assim que ela descobriu as inclinações dele (que era muito suscetível, a tal ponto de ter tido casos com tantas outras mulheres – indubitavelmente, com todas que por acaso tivessem passado pelo seu caminho), ela o avisou de que estava sendo traída pelos amigos dela, e pediu permissão para defender a sua causa em pessoa. Pois ela era uma mulher de beleza transcendente, e, naquela época, quando ela estava na flor da sua idade, ela estava ainda mais impactante; ela também possuía uma voz muito charmosa, e sabia como se fazer ainda mais agradável a todos. Sendo deslumbrante tanto para ser vista como para ser ouvida, e com o poder de conquistar a qualquer um, e até mesmo um homem saciado de amor que já tinha ultrapassado o auge da idade, ela achou que era o seu papel encontrar César e escorar em sua beleza todas as suas reivindicações ao trono. Ela, consequentemente, pediu para ser admitida à presença dele, e, obtendo essa permissão, ela se enfeitou e se arrumou de modo a aparecer perante ele com a aparência mais majestosa, e, ao mesmo tempo, inspiradora de pena. Quando ela aprontou esse esquema, ela entrou na cidade (pois ela estava vivendo fora dela) e, à noite, sem o conhecimento de Ptolomeu, entrou no Palácio. César, ao vê-la e ouvi-la dizer algumas palavras, imediatamente ficou tão cativado por ela que, antes da alvorada, mandou buscar Ptolomeu e tentou reconciliá-los, agindo assim como advogado daquela mesma mulher da qual ele tinha decidido ser o juiz.”
Cássio Dião, História de Roma, Livro LII, 34, 4 – 35, 1
Furiosos com a intimidade que agora César e Cleópatra demonstravam ter, há até quem diga que ele, ao chegar no palácio para falar com César, encontrou a irmã no quarto do romano, Ptolomeu XIII e os seus partidários resolveram partir para o confronto direto com o futuro Ditador romano. Eles correram até a multidão, denunciando que Cleópatra iria entregar o Egito aos romanos e a turba, revoltada, cercou o palácio. Entretanto, embora César tivesse entrado em Alexandria com poucas soldados, o número era suficiente para conter a multidão eele não se abalou: o líder romano mandou ler em público o testamento de Ptolomeu XII e afirmou que a vontade do falecido rei seria respeitada, devendo Ptolomeu XIII e Cleópatra governarem o Egito juntos.
O eunuco Potheinus não se conformou com a decisão de César e secretamente mandou uma mensagem para o general egípcio Achillas, o assassino de Pompeu e comandante militar de Ptolomeu XIII, instando-o a ordenar um ataque aos romanos em Alexandria. Ele estava confiante que César, contando com apenas quatro mil soldados, não conseguiria resistir ao exército do faraó, que era muito maior, de cerca de vinte mil homens. Mas, após o envio do recado, o ardil de Pothinus foi descoberto e ele acabou sendo executado por ordem de César. Diante da situação, o líder romano até tentou negociar um acordo com Achillas, mas este executou os emissários romanos, e, em seguida, marchou contra Alexandria, sitiando César e Cleópatra no palácio.
Arsinoe IV, a jovem e ambiciosa irmã de Cleópatra, que tinha entre cerca de 15 ou 20 anos de idade (não se sabe exatamente quando ela nasceu), aproveitou para fugir do palácio, auxiliada pelo eunuco Ganymedes, e se juntou a Achillas, proclamando-se rainha do Egito, já que o seu irmão Ptolomeu XIII encontrava-se sob a custódia de César. Em seguida, Arsinoe ordenou a execução de Achillase nomeou Ganymedesno lugar dele, como comandante do exército.
Em 23 de junho de 47 A.C., Cleópatra deu a luz a seu primeiro filho, que se chamou Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar. Ela anunciou que o menino, que receberia o apelido de Caesarion (Cesárion ou Cesarião), era fruto do seu relacionamento com Júlio César, que, aliás, nunca negou publicamente a paternidade, apesar de, igualmente, jamais ter reconhecido oficialmente a criança. A cronologia do nascimento de Caesarion, estimando-se que ele tenha nascido com 9 meses, aponta para uma concepção por volta de outubro de 48 A.C., mais ou menos a data em que deve ter ocorrido o primeiro encontro entre Júlio César e Cleópatra, ou, então, somente um punhado de dias depois.
(Cabeça que se acredita retratar Caesarion como Faraó. Os traços faciais lembram muito os das imagens de Cleópatra; Sdwelch1031, CC0, via Wikimedia Commons
Com muita dificuldade, César conseguiu resistir ao cerco até que reforços chegassem, em março de 47 A.C. O exército egípcio, agora comandado por Arsinoe IV e Ptolomeu XIII, que tinha conseguido autorização de César para sair de Alexandria, para servir de negociador, recuou para o Nilo, onde foram derrotados por César, na chamada Batalha do Nilo. O barco de Ptolomeu XIII, na fuga, virou, e ele acabou se afogando no rio, em janeiro ou fevereiro de 47 A.C., morrendo com 15 anos de idade, aproximadamente. Arsinoe foi capturada e, mais tarde, seria exibida na procissão triunfal de César pelas ruas de Roma.
Em seguida, César designou o irmão mais novo de Cleópatra, Ptolomeu XIV, que tinha doze anos de idade, para reinar ao lado dela, como faraó, e, como previa o costume, irmão e irmã se casaram. Não obstante, Cleópatra e César continuaram morando juntos, no palácio, em Alexandria. Como presente, César também devolveu ao Egito o governo da ilha de Chipre, que tinha sido tomada pelos romanos em 58 A.C.
Se a posição de Cleópatra no Egito parecia assegurada., no entanto, a de César, na República Roman, certamente estava longe disso, pois ainda havia consideráveis forças dos Optimates na África e na Espanha, onde os seus adversários estavam firmes e resolutos no prosseguimento da guerra civil. Além disso, havia assuntos políticos urgentes a decidir em Roma, já que ele havia sido, recentemente, nomeado Ditador.
Por isso mesmo, até hoje é motivo de espanto entre os analistas o fato de César, deixando de lado a sua premente situação, ter ficado até abril de 47 A.C. no Egito, ou seja, mais de dois meses. E, segundo a narrativa de Suetônio, os amantes aproveitaram esse tempo para fazer um idílico cruzeiro romântico e turístico pelo Nilo, visitando os antigos monumentos da milenar civilização egípcia na barcaça real de Cleópatra, que se chamava Thalamegos e tinha remos de prata. Este inusitado interlúdio amoroso somente foi interrompido pelo fato dos soldados romanos que acompanhavam César terem se recusado a continuar até a Etiópia:
“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem, e também ao marido, ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; Mas, acima de todas, com Cleópatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer, e com quem ele teria ido até a Etiópia, atravessando o Egito, na barcaça real dela, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele chamou-a para Roma, e não deixou-a ir até que ele a cobrisse de honrarias e de ricos presentes; E ele até permitiu que ela desse o seu nome à criança que ela carregava. De fato, de acordo com certos autores gregos, essa criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino, e que Gaius Matius, Gaius Oppius, e outros amigos de César, sabiam disso”.
Suetônio, Vida de Júlio César, 52, 1-2
Barcaça de Cleópatra, de Henri Pierre Picou, 1891, foto Internet Archive Book Images, No restrictions, via Wikimedia Commons
Detalhe do famoso mosaico romano retratando cenas do rio Nilo, no Museu Nacional de Palestrina, por amelia.boban, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
Em abril de 47 A.C., César foi para a Capadócia lutar contra o rei Farnaces II, que havia se aproveitado da guerra civil romana para invadir a região e tentar retomar o antigo reino de seu pai, o Ponto, deixando no Egito quatro legiões para apoiar Cleópatra e vigiar eventuais ações contra os interesses romanos. Em 2 de agosto de 47 A.C., essa guerra na Ásia já estava terminada, com a vitória romana na Batalha de Zela. A campanha foi tão rápida, que levou César a dizer uma de suas frases célebres: “Veni, vidi, vinci” (Vim, vi e venci).
De fato, o tempo ocioso passado no Egito dera tempo às forças remanescentes do falecido Pompeu e do Senado de se reorganizarem na Áfric, obrigando César a ter que se deslocar para lá, mas, mesmo assim, ele conseguiu vencer as Batalhas de Ruspina, em 04 de janeiro de 46 A.C. e de Tapsos, em 6 de abril de 46 A.C., na qual foram eliminados seus grandes opositores, Catão, o Jovem, e Metelo Cipião.
A Guerra Civil ainda não estava terminada, já que restava um importante foco de resistência na Hispânia, centrado em Córdoba, que era liderado pelos filhos de Pompeu. Por sua vez, nessa campanha, os exércitos de César eram comandados pelos seus lugar-tenentes, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio. Não obstante, Cleópatra e César julgaram a situação suficientemente segura para que a rainha fizesse uma espetacular visita à Roma, no final de 46 A.C, acompanhada de Ptolomeu XIV, para assistirem ao Triunfo de César.
Cleópatra em Roma. Grandes esperanças e decepções.
Em Roma, Cleópatra foi recebida por César com toda a pompa que os monarcas helenísticos estavam acostumados a ter. Mas, para manter as aparências, uma vez que ele era casado com a sua esposa romana Calpúrnia, a rainha e o seu irmão-consorte ficaram hospedados nos Horti Caesaris, a propriedade com grandes jardins que o Ditador possuía do lado de fora das muralhas de Roma, às margens do rio Tibre. Lá, ela era visitada pelos mais ilustres membros da sociedade romana, incluindo Cícero, que se queixou da rainha egípcia em uma carta. a seu amigo Atticus. Nesta missiva, o célebre político e orador romano confessa que detestava Cleópatra, de quem não suportava a arrogância, e se queixa de que a rainha não teria cumprido uma promessa relativa a “assuntos literários” (talvez, quem sabe, algum livro raro da Biblioteca de Alexandria no qual Cícero estaria interessado?).
Dião Cássio afirma que essa recepção à Cleópatra comprometeu a imagem de César perante a opinião pública, o que tanto pode se referir apenas à classe senatorial, como à população em geral. Ciente, ou não disso, durante a estadia de Cleópatra e Ptolomeu, César providenciou para que eles recebessem o título de “Amigos e Aliados do Povo Romano“.
Estátua de Cleópatra, no Museo Pio Clementino, parte dos chamados Musei Vaticani. A imagem possui o diadema real, o penteado “melão”, o nariz adunco e outros traços faciais correspondentes às de outros retratos identificados como o da rainha. É, indiscutivelmente, uma estátua de Cleópatra. Foto:.Vatican Museums, Public domain, via Wikimedia Commons
Em setembro de 46 A.C., César celebrou o seu grande triunfo pelas ruas de Roma, celebrando suas vitórias desde a Gália até o Egito, e que durou espantosos dez dias. Nessas procissões triunfais, foram exibidos, como cativos, o chefe gaulês Vercingetórix, e Arsinoe IV, a irmã de Cleópatra. Porém, Dião Cássio menciona que a visão da jovem Arsinoe sendo levada acorrentada em um carro inspirou compaixão na multidão, que ficou com pena da menina de apenas 17 anos de idade (estimativa mais baixa). Essa inesperada reação do público forçou César a poupar a vida de Arsinoe, contrariamente á tradição de executar o líder inimigo cativo após o evento, e então ela foi enviada para residir no Templo de Artémis, em Éfeso, um tradicional santuário para perseguidos políticos e fugitivos da justiça.
No dia 26 de setembro, último dia de seu triunfo, César inaugurou o chamado Fórum de César, próximo ao Fórum Romano, cujo espaço já estava ficando insuficiente para abrigar o público. E dentro do Fórum de César foi erguido o Templo de Vênus Genitrix (Vênus Genitora), divindade que ele associava ao culto da sua própria genealogia, pois os Júlios alegavam ser descendentes de Enéas, que, segundo a mitologia romana, era filho da deusa. E, no precinto do templo, César mandou colocar várias obras de arte, incluindo uma estátua de ouro de Cleópatra, caracterizada como se fosse a deusa egípcia Ísis.
(Fórum de César, com o Templo de Vênus Genitrix, onde ficava a estátua de Cleópatra
Porém, no início de 45 A.C., Fábio Máximo e Quinto Pédio pediram a intervenção de César, pois eles estavam em situação difícil na Espanha, sitiados pelos exércitos dos Optimates, liderados por Cneu e Sexto Pompeu, além de Labieno, um general ex-partidário de César. Assim, César deixou Roma às pressas e foi para a Espanha. Não sabemos se Cleópatra e o irmão voltaram para o Egito, mas após derrotar definitivamente os adversários na Batalha de Munda, em 17 de março de 45 A.C., o último conflito da Guerra Civil,César retornou para Roma.
Em fevereiro de 44 A.C., na celebração do festival das Lupercais, Marco Antônio tentou, por 3 vezes, colocar um diadema de ouro na cabeça de César. O diadema era um tipo de coroa em forma de aro que simbolizava a realeza nos reinos helenísticos, como era o caso do Egito. Com efeito, Cleópatra, inclusive, assim como os seus antepassados ptolomaicos e os seus congêneres macedônios, selêucidas, atálidas, etc., era quase sempre retratada usando um diadema.
Portanto, além de parecer uma óbvia manifestação de um projeto monárquico, seja de César ou de seus partidários, o gesto de Antônio, ao menos indiretamente, pode muito bem ter sido associado à relação de César com Cleópatra: Tencionariam ambos reinar sobre o mundo como um casal real? Seria aquela união uma repetição da política de Alexandre, o Grande, que costumava casar-se com as rainhas dos países que ele conquistava? Sintomaticamente, Cícero, que estava presente na ocasião, desconfiado, chegou a perguntar “de onde teria vindo aquele diadema”…
O fato é que o incidente com o diadema nas Lupercais sem dúvida desencadeou, ou ao menos apressou, a execução da conspiração para assassinar César.
Quando, em 15 de março de 44 A.C., César foi assassinado na Cúria de Pompeu, por um grupo 60 senadores,Cleópatra e seu filho Caesarion ainda estavam em Roma. E, certamente, no grande caos que se seguiu ao assassinato, a rainha egípcia deve ter temido pela segurança de ambos, mas, mesmo assim, ela ainda ficaria em Roma até meados de abril.
Teria sido esse período de aproximadamente um mês que Cleópatra ficou em Roma após o assassinato de César decorrente da sua esperança de que Caesarion obtivesse algo de grande monta no testamento do Ditador falecido? Quem sabe o esperado reconhecimento póstumo da paternidade do menino, ou, ao menos, quem sabe, algum grande legado. Porém, segundo as fontes, o testamento não continha nenhuma menção a Caesarion, mas, ao contrário, a última vontade de César oficializava a adoção do sobrinho-neto dele, Gaius Octavius Thurinus (ou Otaviano, como ele passou a ser chamado, que mais tarde se tornaria o futuro imperador Augusto), que, além de filho adotivo, tornou-se o herdeiro político de César e, além disso, recebeu dois terços da imensa fortuna do tio-avô.
De volta ao Egito e reinado “junto “com Caesarion.
Otaviano, que estava na Ilíria recebendo treinamento militar para participar, junto com César, na planejada campanha contra a Pártia, chegou à Roma em 06 de maio de 44 A.C., ocasião em que Cleópatra já tinha voltado para o Egito. Aliás, essa missão de Otaviano, juntamente com outras ações do Ditador em favor do sobrinho neto, não deixam muitas dúvidas de que César jamais planejou tornar o filho de Cleópatra seu herdeiro.
De volta ao Egito, Cleópatra passou a reinar sozinha, e o seu irmão e marido oficial, Ptolomeu XIV, era faraó apenas no papel. Mas, em algum momento, entre o final de julho e o final de agosto de 44 A.C., Ptolomeu XIV morreu. Suspeita-se, com boa dose de probabilidade, que ele tenha sido assassinado por ordem de sua irmã e consorte.
Assim, em 02 de setembro de 44 A.C., com a tenra idade de três anos, Caesarion foi coroado Faraó do Egito, com o nome oficial de Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar, passando a reinar oficialmente ao lado da mãe, que, obviamente, era quem detinha todo o poder.
Relevo no Templo de Dendera, retratando Cleópatra, personificada como Ísis., e Caesarion, como faraó. Foto de Olaf Tausch, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons
Cleópatra iniciou a construção de um templo em honra de César, o Caesareum, em Alexandria. Ela mandou retirar quatro imensos obeliscos erguidos por faraós das 18ª e 19ª dinastias do Antigo Egito para decorar o templo. Aliás, um destes obeliscos, conhecido como a “Agulha de Cleópatra“, foi doado pelo Quediva do Egito aos Estados Unidos, no século XIX e encontra-se no Central Park, em Nova York. Cleópatra construiu também outros templos e até uma sinagoga para os judeus, em Alexandria (estima-se que mais de 100 mil habitantes da cidade eram judeus).
Enquanto isso, a situação política em Roma permanecia confusa: Marco Antônio e Otaviano apresentavam-se como herdeiros políticos de César, cada um tendo seus partidários e exércitos. No início, houve confronto entre ambos, e o Senado tentou se aproveitar disso para reassumir o controle do Estado, aliando-se aos assassinos de César. Todavia, os numerosos veteranos de Júlio César não gostaram nem um pouco disto. Assim, Antônio e Otaviano se associaram a outro correligionário de César, o general Marco Emílio Lépido e os três assumiram o governo, formando o chamado “Segundo Triunvirato“, em 43 A.C.. O Senado, acuado, assentiu com o governo dos três pelo prazo de cinco anos, mas, neste ínterim, os assassinos de César, que se autoentitulavam Liberatores (“Os Libertadores”), tinham conseguido fugir da Itália e levantar alguns exércitos, encontrando apoio entre alguns governadores simpáticos à causa deles, conseguindo, com isso, controlar a Grécia a Macedônia e a Síria.
Começava, assim, uma nova guerra civil romana e, como não era de surpreender, em pouco tempo chegaram ao Egito duas mensagens pedindo o apoio militar de Cleópatra: uma delas enviada pelo governador da Síria, Públio Cornélio Dolabela, um ex-partidário de César, que, tendo inicialmente aderido à causa dos Liberatores, e assim obtido a sua nomeação, resolveu mudar de lado novamente e apoiar o Segundo Triunvirato; a outra, de Caio Cássio Longino (Cássio), o principal líder, juntamente com Bruto, da conspiração que assassinara César. Inclusive Cássio, que conseguira apoio na Síria, tinha sido designado pelo Senado para substituir Dolabela, em uma decisão tomada antes do reconhecimento do Segundo Triunvirato. Agora, ambos lutavam pelo controle da Síria.
Cleópatra respondeu a Cássio que o seu reino estava mergulhado em problemas internos. Porém, ela permitiu que as quatro legiões que César tinha deixado no Egito se juntassem à Dolabela, além de lhe fornecer alguns navios. Em troca, Dolabela conseguiu que o Senado, agora controlado pelos Triúnviros, reconhecesse Caesarion como rei do Egito. Entretanto, não só as legiões que Cleópatra enviou do Egito foram capturadas por Cássio, como Serapion, o governador que Cleópatra havia nomeado para o Chipre, resolveu se juntar a ele, fornecendo-lhe vários navios. Este último fato talvez seja um indício de que a estratégia de Cleópatra era a de tentar ficar bem com os dois lados, e esperar para ver quem iria prevalecer.
Então, na Batalha de Fílipos, travada em duas etapas, em 03 e 23 de outubro de 42 A.C., Marco Antônio e Otaviano derrotaram os exércitos de Bruto e Cássio, que se suicidaram.
(Mapa do mundo romano, após a Batalha de Fílipos, por ColdEel)
Romance com Marco Antônio
Após a Batalha de Fílipos, Antônio passou a controlar a maior parte das províncias orientais da República Romana, enquanto Otaviano passou a mandar no Ocidente. Porém, dentre as suas primeiras medidas, Antônio resolveu apurar as responsabilidades daqueles que tinham apoiado Bruto e Cássio contra o Segundo Triunvirato. Assim, de acordo com o relato de Plutarco, Antônio mandou convidar Cleópatra para uma audiência em Tarsos, na Cilícia, parte da atual Turquia, onde ele estava aquartelado, no verão de 41 A.C., já que ela tinha sido acusada de ter fornecido dinheiro e navios a Cássio. Como a rainha não respondeu às várias cartas remetidas, Antônio enviou um assessor, Quintus Dellius, para tentar convencer Cleópatra a se encontrar com ele em Tarsos. Então, segundo, Plutarco:
“Ela foi convencida por Dellius, e, levando em consideração as evidências que, antes disso, ela tinha percebido acerca do efeito que a beleza dela teve sobre Júlio César e Cneu, o filho de Pompeu, ela esperava que Antônio cairia mais facilmente aos pés dela. Pois, César e Pompeu a tinham conhecido quando ela ainda era uma garota inexperiente nas coisas, mas agora ela iria visitar Antônio exatamente na idade em que a beleza das mulheres é mais brilhante e elas estão no pico da sua capacidade intelectual. Consequentemente, ela levou consigo muitos presentes, dinheiro e ornamentos que, naturalmente, a sua alta posição e o seu reino próspero tornavam possível, porém, ela partiu colocando a maior confiança em si mesma, e no charme e no feitiço de de sua própria pessoa.”
Plutarco, Vida de Antônio, 25, 3
E Cleópatra não estava errada. Ela chegou a Tarsos de forma arrasadora e deslumbrante, na sua barcaça-real Thalamegos, a mesma embarcação que a levara junto com César no cruzeiro romântico pelo Nilo. Plutarco descreve a cena:
“Ela muito menosprezou e se riu daquele homem, ao ponto de subir o rio Cydnus em uma barcaça de proa dourada, cujas velas abertas tinham cor púrpura e cujos remadores remavam com remos de prata. ao som de flautas misturados com órgãos de tubo e alaúdes. Ela própria ia reclinada sob um toldo salpicado de ouro, adornada como Vênus em uma pintura, enquanto meninos, também como Amores em uma pintura, ficavam de cada lado abanando-a. Da mesma forma, as mais belas criadas, vestidas como Nereidas e Graças, estavam a postos, algumas nas voltas dos lemes, e o outras nas cordas esticadas. Maravilhosos odores de incontáveis incensários se espalhavam ao longo das margens do rio. Alguns dos habitantes acompanhavam-na em cada margem do rio desde a embocadura, enquanto outros desceram da cidade para observar aquela cena. Então, a multidão no mercado gradualmente foi se dispersando, até que o próprio Antônio, sentando no seu tribunal, ficou sozinho. E um rumor se espalhou por toda parte de que Vênus tinha vindo para se divertir com Baco pelo bem da Ásia.”
Plutarco, Vida de Antônio, 26,1-3
Cleópatra navegando pelo rio Cygnus para encontrar Marco Antõnio, 1892, Óleo de Henryk Siemiradzki, Public domain, via Wikimedia Commons
Antônio foi jantar na barcaça de Cleópatra, toda iluminada, e foi recebido com todo o luxo e sofisticação decorrentes de séculos de refinamento egípcio e grego, os quais faziam os romanos parecerem rudes camponeses. No dia seguinte, o triúnviro tentou retribuir, em terra, o banquete, mas, segundo Plutarco, ele não conseguiu nem chegar perto. Vale a pena, contudo, transcrever, nesse episódio, mais uma descrição da rainha:
“Cleópatra via nos gracejos de Antônio muito de soldado e de plebeu, e ela também adotou esses modos com ele, sem hesitar e audaciosamente. A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados.”
Plutarco, Vida de Antônio, 27, 1
Não surpreende, assim, que a acusação contra Cleópatra tenha sido descartada; Antônio, inclusive, entregou-lhe Serapion, o ex-governador egípcio de Chipre que ajudara Cássio, e a rainha mandou imediatamente executá-lo. Mas Antônio também atendeu a um outro pedido de Cleópatra, este muito mais sombrio: Ele mandou executar a irmã dela, Arsinoe IV, que, como vimos, estava custodiada no Templo de Artémis, em Éfeso, apesar de este ser um santuário reconhecido por todo o mundo helenístico (e listado entre as Sete Maravilhas). Com efeito, a execução da jovem, de apenas 22 anos de idade, morta nas próprias escadarias do templo, em desrespeito à santidade do santuário, foi considerada um grande escândalo em Roma, e este fato mancharia as reputações de Antônio e Cleópatra.
Reconstrução do Templo de Artémis, em Éfeso, uma das 7 maravilhas do mundo antigo e local da execução de Arsinoe. Por Zee Prime at cs.wikipedia, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons
Nota: Hilke Thür, uma arqueóloga austríaca, afirmou que os vestígios de uma tumba descoberta há várias décadas, em Éfeso, continham restos mortais que poderiam ser de Arsinoe. A tese decorre do fato da tumba ser octogonal, lembrando o formato do célebre Farol de Alexandria, e da data estimada da construção bater com o período em que Arsinoe viveu em Éfeso. Todavia, a análise do esqueleto mostrou que tratava-se de uma jovem cuja idade estava entre 15 e 18 anos na data da morte, um tanto jovem demais para ser Arsinoe, de acordo com os historiadores (ver https://www.livescience.com/27459-cleopatra-sister-discovery-controversy.html).
Os “Inimitáveis Viventes
Em novembro de 41 A.C., Antônio visitou Alexandria, a convite de Cleópatra, e o caso entre os dois não era mais segredo para ninguém. Eles passavam o tempo em fantásticos banquetes, rindo e se divertindo, entre eles e com amigos. Plutarco conta que os dois amantes fundaram uma espécie de sociedade, que eles batizaram de “Os Inimitáveis Viventes“, o que por si só dá uma ideia do prazer que ambos estavam tendo na companhia um do outro (É interessante observar que, em sua “Vida de Antônio“, Plutarco menciona que ouviu esses relatos de seu próprio avô, que conviveu com uma testemunha ocular).
Cleópatra e Antônio passavam o dia e a noite inteira juntos, e nem mesmo as brincadeiras e arruaças que eles costumavam cometer pelas ruas de Alexandria pareciam deixá-los mal com a população da cidade. Plutarco:
“Ela jogava dados com ele, bebia com ele, caçava com ele e o assistia enquanto ele treinava com armas; e, quando à noite, ele se postava nas portas ou janelas da gente comum da cidade e zombava daqueles que se encontravam dentro das casas, ela ia junto, nessas suas sessões de maluquices, vestindo um traje de serva, porque Antônio também tentava se disfarçar de servo. Por conta disso, ele sempre recebia uma batelada de insultos, e, frequentemente, de pancadas, antes de voltar para casa, embora a maioria das pessoas suspeitasse quem ele era. Entretanto, os alexandrinos adoravam os modos engraçados e civilizados deles; Eles gostavam dele, e diziam que ele usava uma máscara de teatro trágica com os romanos, porém, quando estava com eles, ele punha uma máscara de comédia“.
Afresco da Casa dos Amantes Castos, em Pompéia, por WolfgangRieger, Public domain, via Wikimedia Commons
Entre as estórias deliciosas do romance entre os dois, Plutarco conta que Antônio, incomodado pelo fato de Cleópatra estar assistindo uma pescaria na qual ele não havia conseguido pescar nada, certa vez mandou que um pescador mergulhasse e prendesse um peixe enorme, mas já pescado, na linha dele para impressionar a amante. Cleópatra percebeu a trapaça, mas não deu recibo, fingindo ficar admirada com a destreza de Antônio. Na pescaria seguinte, ela convidou todos os amigos do casal e mandou que outro mergulhador prendesse um arenque defumado no anzol de Antônio, e quando ele puxou a linha, todos caíram na gargalhada.
Mas toda essa diversão não significa que Cleópatra descurasse dos assuntos de governo. No início do reinado dela, por exemplo, ela ordenou que os grãos armazenados nos celeiros reais fossem distribuídos para aliviar os efeitos da seca. E, no decorrer de seu governo, ela decretou uma reforma monetária e promulgou leis instituindo monopólios e de controle de preços, pois o Egito vivia em duradoura crise econômica decorrente de problemas climáticos e do pagamento das dívidas com Roma.
Inclusive, chegou até os nossos dias um papiro, datado de 33 A.C., registrando uma isenção de impostos dada a um romano relacionado a Antônio, assinado pela própria Cleópatra, que constitui um dos raríssimos casos de escrita manuscrita de um governante da antiguidade. O texto com a parte dispositiva do papiro foi produzido por um escriba, mas, no final do documento, a rainha escreveu, de próprio punho: “Faça-se com que aconteça“.
Ancient Ptolemaic-period scribe(s) as well as Cleopatra VII of Egypt who offered her signature on the document, Public domain, via Wikimedia Commons
Todavia, Marco Antônio era casado com a rica e poderosa Fúlvia, que naquele momento não apenas representava os interesses do marido em Roma, mas agia e dava as cartas na política romana por conta própria, pois herdara as conexões políticas de seu ex-marido, o populista e demagogo Clódio. Inclusive, para selar a aliança do Segundo Triunvirato, Otaviano casou-se com Clódia, filha de Clódio e de Fúlvia.Mesmo assim, Fúlvia se opôs a algumas medidas de Otaviano e conseguiu reunir oito legiões para defender os interesses de Antônio. Então, houve um conflito armado na Itália, no final de 41 A.C, entre as tropas de Otaviano e essas legiões reunidas por Fúlvia, comandadas por Lúcio Antônio, irmão caçula de seu marido, que acabaram sendo sitiadas na cidade de Perugia. Mas, em fevereiro do ano seguinte, Lúcio Antônio acabou se rendendo e Fúlvia foi obrigada a fugir da Itália para a Grécia, levando junto os seus filhos. Por isso, Antônio, já no ano seguinte, foi encontra-la em Atenas, onde ele censurou a esposa por ter desencadeado o conflito.
Segundo o historiador Apiano, o motivo principal para Fúlvia ter provocado a guerra contra Otaviano teria sido o desejo dela de obrigar Marco Antônio a deixar Cleópatra e voltar para a Itália. Esse motivo, entre outros, também é mencionado por Plutarco, mas o mais provável é que a motivação tenha sido política.
Entretanto, ainda em 40 A.C., Fúlvia morreu, próximo a Corinto, aparentemente de alguma doença, e isso foi um pretexto para Antônio e Otaviano reconciliarem-se publicamente, na Itália, alegando que as suas desavenças tinham sido provocadas pela falecida. Então, para selar essa reconciliação, Antônio casou-se, em outubro de 40 A.C, com Otávia, a Jovem, a bela irmã mais velha de Otaviano (ela, aliás, nasceu no mesmo ano que Cleópatra). Pouco depois, em Brundisium (Brindisi), os Triúnviros dividiram formalmente entre eles o território romano, celebrando o chamado Tratado de Brundisium.
Sintomaticamente, Dião Cássio faz questão de observar que, durante as negociações, em que as partes se ofereceram banquetes, Otaviano se apresentava vestido com uniforme romano de general, enquanto que Antônio vestia trajes egípcios e orientais, mas, segundo Plutarco, embora, nessa época, Antônio estivesse apaixonado pela rainha egípcia, ele ainda não admitia a possibilidade de tê-la como esposa, mostrando que, ao menos politicamente, a sua razão continuava a prevalecer sobre a emoção.
Busto de Otávia, a Jovem, irmã de Otaviano, foto de Giovanni Dall’Orto
No final de 40 A.C., Cleópatra deu a luz a um casal de gêmeos, que receberam os nomes de Alexandre e Cleópatra. As crianças eram filhas naturais de Antônio, mas, legalmente para os romanos, era preciso que Antônio reconhecesse as crianças, para que o fato gerasse efeitos jurídicos relevantes.
Busto de Cleópatra |Selene II, filha de Cleópatra e Marco Antônio, no Museu de Cherchell, Argélia. Por PericlesofAthens, CC0, via Wikimedia Commons
Nessa período, Antônio estava envolvido com assuntos importantes: primeiro com o conflito de Fúlvia contra Otaviano e, em seguida, com a invasão da Síria pelos Partos, liderados por Pacorus, filho do rei Orodes. Contudo, sabe-se que, no intervalo dessas guerras, Antônio passou o início do ano de 40 A.C. em Alexandria, que deve ter sido quando Cleópatra engravidou dos gêmeos.
De qualquer forma, pouco tempo antes ou depois dos gêmeos de Cleópatra nascerem, conforme já mencionamos, Antônio já estava morando com sua nova esposa, Otávia em Atenas, cidade em que o casal foi residir depois da celebração do Tratado de Brundisium. Sabemos que, em agosto ou setembro de 39 A.C., nasceu a primeira filha do casal, Antônia, a Velha. Sem dúvida, Antônio não negligenciava os deveres de amante, e muito menos os de marido…O seu comportamento, contudo, continuava a escandalizar os romanos: ele se autodenominou “Dionísio” e promovia festas em que se apresentava vestido como este deus.
Como não deve causar espanto, tudo indica que a relação entre Cleópatra e Antônio esfriou a partir do nascimento da filha dele com Otávia. O romano, agora, governava a partir do lar conjugal deles, em Atenas, o que, sem dúvida, enfraquecia os projetos mais ambiciosos de Cleópatra, pois, desse modo, Alexandria deixava de ser o centro do Mundo Helenístico.
Não obstante, o fato das atenções de Antônio, e de Roma, no Oriente estarem totalmente voltadas para a guerra contra os Partas, enquanto que Otaviano tinha que lidar com a oposição armada de Sexto Pompeu, o filho de Pompeu, o Grande, que controlava a Sicília, ao Segundo Triunvirato, deixava a rainha com considerável margem de atuação política.
Com efeito, Cleópatra já podia se orgulhar dela não só ter mantido a independência do Egito ante Pompeu e César, durante a Guerra Civil romana, mas também de ter persuadido Antônio de restaurar vários territórios que historicamente fizeram parte do império ptolomaico, tais como Chipre e a Cilícia.
Também sob Cleópatra, o Egito havia voltado a ser um ator influente na política do mediterrâneo oriental: De fato, em dezembro de 40 A.C., ela recebeu como refugiado o tetrarca e futuro rei Herodes, o Grande, da Judéia, um aliado de Antônio, mas que tinha sido obrigado a se exilar pelo rival Antigonos II Mattathias, que tomou o trono apoiado pelos Partas. Mas Cleópatra nunca escondeu que o seu desejo era restaurar o império ptolomaico em sua máxima extensão, o que incluía a Judéia. Assim, Herodes acabou indo procurar ajuda em Roma.
Por outro lado, quando a relação entre Antônio e Otaviano voltou a ficar conflituosa, Otávia foi fundamental para apaziguar o marido e o irmão. e até conseguiu convencer este a ceder tropas para a campanha de Antônio contra os Partas. Esta campanha estava sendo bem conduzida pelo lugar-tenente de Antônio, que, entre 39 e 38 A.C., obteve várias vitórias, culminando com a derrota e morte de Pacorus. E a morte do príncipe parta causou muita instabilidade na Pártia, resultando que o rei Orodes acabasse sendo assassinado, junto com boa parte da sua família, pelo próprio filho, Fraates IV, que assumiu o trono. Este era um nítido sinal de fraqueza que estimularia Antônio a buscar a glória de anexar o Império dos Partas, que, menos de duas décadas antes, tinha infligido dura derrota aos romanos, aniquilando as legiões de Crasso, em Carras.
Ao mesmo tempo, estava chegando ao fim o mandato de cinco anos que o Senado dera aos Triúnviros para governar a República, que ia até 31 de dezembro de 38 A.C.. Em um encontro intermediado por Otávia, Otaviano e Marco Antônio se encontraram em Tarento, já em 37 A.C., e concordaram em impor a renovação da aliança até 33 A.C. Entre as cláusulas do chamado Tratado de Tarento estava o fornecimento por parte de Otaviano de duas legiões completas, mais auxiliares, cerca de 20 mil homens, para a planejada campanha de Antônio contra os Partas.
Antônio voltou para o Oriente ainda em 37 A.C., deixando, na Itália, Otávia, grávida da segunda filha deles, Antônia, a Jovem, que nasceria em 31 de janeiro de 36 A.C. Na narrativa sobre o Tratado de Tarento, Plutarco menciona passagens que denotam que Otávia de fato amava o marido.
Porém, Otaviano deixou de cumprir o compromisso de fornecer as prometidas tropas a Antônio para a campanha contra os Partas. Em vez de 20 mil, só foram enviados 2 mil, dez por cento do prometido e que não representavam grande ajuda.
Busto de Antônia, a Jovem, na Ny Carlsberg Glyptotek, Public domain, via Wikimedia Commons
Consequentemente, precisando de soldados, e também de dinheiro, Antônio, por conveniência ou não, lembrou-se de sua rica e poderosa amante em Alexandria. Instalado em Antioquia, quartel-general das operações, Antônio mandou chamar Cleópatra para uma conferência. A rainha chegou, como sempre, em grande estilo, e desta vez trazendo os gêmeos Alexandre Helios (Sol) e CleópatraSelene (Lua), que, pela primeira vez, iriam ser apresentados ao pai. As crianças estavam com três anos de idade e, provavelmente, foi nesta ocasião que elas receberam os seus segundos nomes e foram reconhecidas oficialmente por Antônio. E esses nomes denotam, sem dúvida, que os pais delas tinham planos bem elevados para o futuro deles…
Em Antioquia, Cleópatra obteve de Antônio importantes concessões: O Egito receberia todo o território da Fenícia, exceto Tiro e Sidon, e a cidade de Ptolemais Akko, fundada pelo seu antepassado Ptolomeu II. Cleópatra também recebeu a região da Síria-Coele, uma parte do reino dos Nabateus (parte da atual Jordânia), a cidade de Cyrene, na atual Líbia e duas cidades na ilha de Creta. Em troca, Cleópatra financiaria à campanha de Antônio na Pártia, além de fornecer boa parte do exército egípcio. Isso possibilitou a Antônio armar o que talvez fosse o maior exército jamais reunido pelos romanos, que alguns estimam, provavelmente com algum exagero, em 200 mil homens.
Fazer tantas concessões à Cleópatra, sendo cristalino que elas seriam repudiadas pela opinião pública romana, foi uma aposta muito arriscada de Antônio (e outras concessões ainda maiores seriam feitas no futuro!): Em uma justificativa racional dessa cartada, Antônio deve ter ficado impressionado com os recursos materiais e financeiros que o Egito podia lhe proporcionar e pensou que, com os mesmos, se ele derrotasse o Império Parta, o caminho de eliminar Otaviano e assumir o poder unipessoal em Roma estaria pavimentado. Sem dúvida, Antônio deve ter se sentido próximo de emular a carreira quase mitológica de Alexandre, o Grande, e tanto mais próximo disso ele não estaria, quem sabe, unindo-se matrimonialmente à última remanescente do império macedônio que aquele fundara?
Seja como for, os relatos das principais fontes, notadamente Plutarco e Dião Cássio, dão conta de que, em Antioquia, Cleópatra e Antônio reataram a sua união amorosa. E, dali em diante, eles não se separaram mais, exceto quando chegou o crepúsculo de suas vidas.
Cleópatra chegou a acompanhar Antônio no início da campanha, que começou pela invasão da Armênia, em 36 A.C., mas voltou para Alexandria, já que agora ela estava grávida do seu terceiro filho com Antônio, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus.
A campanha de Antônio contra os Partas estava enfrentando altos e baixos. Os romanos até ganharam alguns confrontos, mas sofreram várias emboscadas e foram cercados algumas vezes. Mas a maior causa de baixas foram doenças e o frio do inverno que chegava. As perdas já alcançavam cerca de 30 mil homens, quando Antônio resolveu suspendê-la e retirar-se para a cidade de Leukokome, próximo à Beirute, no atual Líbano.
Quando a notícia da volta de Antônio e do insucesso da sua expedição chegou em Alexandria, Cleópatra partiu para o Líbano, levando mantimentos e dinheiro para pagar as tropas, e lá encontrou Antônio abatido e entregue à bebida., em dezembro de 36 A.C. Em seguida,ambos voltaram para Alexandria, onde ele finalmente pode conhecer o seu segundo filho homem, Ptolomeu Philadelphus.
As Doações de Alexandria
O ano de 35 A.C., começou com Antônio planejando retomar a campanha na Armênia. Otávia, que soube do insucesso da expedição do marido, se propôs a viajar para Atenas levando os dois mil soldados para ajudá-lo na continuação da guerra. Segundo as fontes, esta foi uma tentativa da esposa romana de tentar contrabalançar a influência de Cleópatra e afastar o marido da presença da amante. Consta que seu irmão, Otaviano, permitiu a viagem da irmã e forneceu os soldados, já prevendo que poderia utilizar o episódio como propaganda contra Antônio.
E Otaviano estava certo: Antônio não só não foi ao encontro da sua fiel e dedicada esposa, como ainda lhe deu ordens para que não deixasse Atenas para encontrá-lo no meio trajeto da expedição; todavia, sem demonstrar nenhum constrangimento, Antônio aceitou os soldados que Otávia lhe trouxera. Foi um ultraje para a distinta Otávia, uma ofensa que até justificaria, aos olhos da opinião pública romana, uma resposta de Otaviano.
Segundo Plutarco, sentindo a ameaça que a volta de Otávia a Atenas e a aparente determinação dela em reconquistar Antônio representavam, Cleópatra valeu-se de vários artifícios românticos e dramáticos para seduzi-lo e mantê-lo preso a ela. O autor narra, entre outros exemplos, que a rainha chegou a fazer um regime para emagrecer, além de passar a usar roupas sensuais e a simular choros. Fantasioso ou não o relato, o fato é que Antônio adiou por algum tempo a expedição à Armênia e continuou em Alexandria.
Enquanto isso, a quase repudiada Otávia retornou para Roma. Otaviano, como se esperava, utilizou a humilhação da irmã o máximo possível contra a reputação de Antônio. Ele chamou Otávia para morar em sua casa, como uma mostra de que sua irmã não podia mais contar com a proteção do marido. Porém, para a surpresa de muitos. Otávia recusou e foi morar na residência de Antônio, em Roma. Lá, ela continuou cuidando não só das filhas que tinha com ele, mas também dos filhos de Antônio e Fúlvia, demonstrando publicamente que ainda se considerava a legítima esposa do marido. Não é impossível, contudo, que tudo isso também tenha sido combinado com Otaviano, para vitimizá-la ainda mais perante o público romano.
Mas foi o próprio Antônio, estimulado por Cleópatra, quem daria o maior golpe na própria reputação, dando a Otaviano um trunfo gigantesco na disputa entre ambos pelo poder supremo:
No outono de 34 A.C., retornando de uma, enfim, moderadamente bem sucedida campanha na Armênia, Antônio e Cleópatra organizaram em Alexandria uma parada triunfal, sendo que Antônio conduzia o carro vestido de deus Dionísio-Osíris, e na qual a família real armênia foi exibida pelas ruas da cidade, até dois tronos dourados, um para Antônio, outro para Cleópatra. Em seguida, ao povo reunido no Gymnasium , Antônio proclamou solenemente que Cleópatra, que na ocasião estava vestida como a deusa Ísis, era a “Rainha dos Reis” e “Rainha do Egito, Chipre, Líbia e Sìria-Coele“, junto com seu filho, Caesarion, o “Rei dos Reis“. Alexandre Helios foi nomeado “Rei da Armênia, da Média e da Pártia“. Já Ptolomeu Philadelphus foi designado “Rei da Cilícia e da Síria”, e Cleópatra Selene, por sua vez, a “Rainha de Creta e de Cyrene“. Na cerimônia, Antônio também fez questão de proclamar que Cleópatra tinha sido esposa de Júlio César, e que o seu filho Caesarion, era o filho legítimo de César.
Tudo aquilo representava, sem dúvida nenhuma, uma declaração de rompimento com Otaviano e com o próprio Senado Romano. Na verdade, aquela era uma iniciativa que seria recebida em Roma quase que como uma declaração de guerra, pois, doando-os à amante e aos filhos, abria mão de territórios que faziam parte da esfera de influência de Roma, alguns até já controlados diretamente, ainda que não formalmente anexados.
Essa distribuição de territórios feita por Antônio à Cleópatra e aos seus filhos, um ato que, já naquele tempo, recebeu o nome de “AsDoações de Alexandria“, era tão impactante e inacreditável, que, quando a mensagem que Antônio enviara comunicando o decreto ao Senado Romano chegou à Roma, já no ano seguinte, os futuros cônsules GnaeusDomitius Aehonabarbus e GaiusSosius, que eram partidários de Antônio, recusaram-se a tornar o documento público, resistindo aos insistentes pedidos de Otaviano!
A “Guerra Fria” entre Antônio e Otaviano
O prazo renovado do Segundo Triunvirato expirou em 31 de dezembro de 33 A.C, não havendo interesse em nova prorrogação. Otaviano e Antônio, então, começaram uma guerra aberta de propaganda, cada um expondo episódios de má conduta, traições, ultrajes, etc., contra o outro, pois já anteviam o conflito que estava por vir e, por antecipação, ambos queriam justificar perante a opinião pública o motivo da iminente guerra civil, colocando a culpa pelo início da mesma no adversário. E não causou espécie a ninguém que o motivo mais grave alegado por Otaviano foi o fato de Antônio ter reconhecido oficialmente Caesarioncomo o filho legítimo e herdeiro de Júlio César…
Por sua vez, Cleópatra também foi apontada pelos propagandistas de Otaviano como a principal responsável pelas causas do conflito, acusando-se a egípcia ter seduzido Antônio para satisfazer as suas ambições dinásticas. De modo muito parecido com o que acontece hoje, políticos, poetas e escritores divulgavam verdadeiras “fake news“, como por exemplo a de que Cleópatra teria usado de bruxaria para enfeitiçar Antônio. Este também foi acusado de ter doado à amante todos os livros da biblioteca de Éfeso, uma acusação que, posteriormente, mostrou-se inverídica. Da sua parte, Antônio chegou a afirmar que Otaviano somente teria sido adotado por César porque este costumava possuir sexualmente o sobrinho-neto…
Havia outras acusações tão ou mais sérias, segundo a lei romana, que incluíam o fato de Antônio ter iniciado a guerra contra a Armênia e a Pártia sem a necessária autorização do Senado (não ficando claro, contudo, se o mandato como Triúnviro lhe dava poderes para tanto) e ter executado Sexto Pompeu sem julgamento. Por sua vez, Antônio acusou Otaviano de ter removido ilegalmente Lépido da posição de Triunviro (o que ele realmente fez) e se apossado do território que este controlava, a Sicília.
A versão de Otaviano, obviamente, foi aquela que, mais tarde, prevaleceria. Mas o fato é que, naquele momento, Antônio ainda tinha muitos simpatizantes em Roma, inclusive no Senado. De acordo com Dião Cássio, em 1º de janeiro de 32 A.C., primeiro dia de sessão do ano, por exemplo, o cônsul e aliado de Antônio, Gaius Sosius, proferiu um discurso no Senado atacando violentamente Otaviano e propondo a aprovação de uma legislação contrária aos interesses deste.
Otaviano resolveu, então, abandonar os escrúpulos de legalidade e, na sessão seguinte do Senado, no outro dia, compareceu à Cúria acompanhado de sua guarda pessoal e de partidários armados com adagas escondidas sob as togas. Como Otaviano controlava as legiões da Itália, bem como do Ocidente em geral, nos dias seguintes os cônsules Gaius Sosius e Domitius Ahenobarbus, intimidados, abandonaram Roma e partiram para se unir a Antônio na Grécia, sendo acompanhados por mais de duzentos senadores que também apoiavam Antônio.
Fachada da Curia Julia, no Fórum Romano,em Roma, onde o funcionava o Senado Romano. Foto de Thorvaldsson, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons
A situação era um tanto parecida com a que deflagrara a Primeira Guerra Civil, de César contra Pompeu. Este fugiu para o Oriente, junto com os senadores partidários dos Optimates. Agora, eram os partidários de Antônio que fugiam para encontrá-lo no Leste. E, assim como os historiadores militares consideram que abandonar a Itália foi um grande erro de Pompeu, eu, igualmente, acredito que também foi um grande erro de Antônio ter deixado Otaviano ter o controle total da Itália. A Itália ainda era o esteio militar do mundo romano, mesmo que o oriente helenístico fosse mais rico e mais populosos, e isso seria mais uma vez demonstrado na nova guerra civil que estava por vir.
Já preparando-se para a guerra, Cleópatra providenciou duzentos navios de guerra para a frota de oitocentas naves que Antônio estava reunindo, além, naturalmente, de muito dinheiro para o esforço bélico. O casal reuniu-se em Éfeso para organizar a campanha contra Otaviano. Segundo as fontes, alguns senadores correligionários de Antônio, sobretudos os amigos dele, Titiuse Munatius Plancus, mostraram-se contrariados pela proeminência que Cleópatra demonstrava ter em todas as decisões, e, por sua vez, resolveram partir e aderir a Otaviano.
De acordo com Plutarco, Titiuse LuciusMunatius Plancus conheciam os termos do testamento de Antônio, que, conforme o costume, havia sido depositado lacrado em poder das Virgens Vestais, e contaram tudo para Otaviano. Ciente, assim, dos termos da última vontade do rival, Otaviano, ilegalmente, conseguiu se apossar do testamento, que foi aberto e lido por ele em uma sessão do Senado. Entre suas cláusulas, segundo consta, havia a recomendação de Antônio para que o seu corpo fosse entregue à Cleópatra e sepultado em Alexandria. Essa disposição muito convenientemente ia de encontro ao boato que os partidários de Otaviano andavam espalhando por Roma: a de que Antônio, caso vencedor, pretendia transformar Alexandria na capital do território romano!
A “Guerra contra Cleópatra”
Engenhosamente, o Senado Romano, agora controlado por Otaviano, não declarou guerra a Antônio, apesar dele ser o alvo principal da medida – Preocupados com a opinião pública, e com a posteridade, os senadores formalmente votaram pela declaração de guerra contra Cleópatra, a rainha do Egito, e, assim, todos os tradicionais ritos previstos para uma guerra contra inimigos estrangeiros puderam ser celebrados. Além disso, tal circunstância impedia que os senadores partidários de Antônio fossem considerados desertores ou criminosos, deixando uma porta aberta para o seu retorno. Não obstante, foi decretada expressamente a retirada de todos os poderes que Antônio ainda detinha. Essa preocupação com as aparências, e a necessidade de justificar a guerra pelo poder como um conflito contra uma governante estrangeira, mostra também que o povo devia estar indeciso sobre quem tinha razão no conflito entre os dois líderes romanos.
Se ainda havia alguma dúvida de que o rompimento era definitivo, ainda em 32 A.C, Antônio divorciou-se de Otávia. A partir daquele momento, Cleópatra não precisaria mais temer a rival e, aparentemente, a opinião dela prevaleceria em todos os aspectos, incluindo a estratégia que seria adotada para a guerra…
Contrariando os conselhos dos seus assessores militares mais próximos, que defendiam uma guerra terrestre, já que, nominalmente, eles possuíam mais tropas do que Otaviano (aproximadamente cerca de 100 mil homens, contra 80 mil de Otaviano), Antônio seguiu a vontade de Cleópatra, que defendia que Otaviano deveria ser derrotado no mar, pela frota composta, em parte apreciável, pelos navios egípcios. E os navios da frota de Antônio, de fato, eram mais numerosos e maiores do que os de Otaviano.
Mas o motivo principal da estratégia proposta por Cleópatra, na visão de muitos historiadores, era o fato de que uma vitória no mar, travada na Grécia ou na Turquia, protegeria melhor o Egito de um ataque romano, pois nesta batalha, boa parte da frota romana seria destruída. De todo modo, ainda que mais numerosos, os navios de Antônio e Cleópatra tinham um considerável déficit em suas tripulações, em alguns casos havendo menos da metade dos remadores previstos. Além disso, em virtude dessa deficiência, muitos deles não eram remadores experientes, e sim tropeiros, fazendeiros e até meninos.
Os historiadores antigos criticam Antônio por ter cedido às intenções de Cleópatra, mas o mais provável é que ele conhecesse as deficiências do seu efetivo militar. De fato, as próprias fontes dão a entender que o exército de Otaviano era melhor treinado. Não que Antônio não tivesse um núcleo de tropas romanas experimentadas com ele, mas o número de legiões essencialmente romanas de Otaviano parece que era maior. Por outro lado, os recursos financeiros à disposição de Antônio parecem ser ter sido bem maiores, pois as fontes relatam que ele chegou a enviar dinheiro para a Itália para tentar subornar partidários de Otaviano, que realmente ficou bem preocupado com essa possibilidade.
A Batalha de Actium
Consta que Antônio chegou a tentar um avanço naval até Corcyra, atual Corfu, na fronteira da atual Grécia com a Albânia, o que o colocaria bem próximo de poder atacar a costa italiana, mas, ao encontrar unidades navais da frota de Otaviano, ele desistiu e voltou para o Golfo Ambraciano, ou Golfo de Actium, na costa setentrional da Grécia, no final de 32 A.C.. Assim, quem tomou a iniciativa foi Otaviano. Ele zarpou para a Grécia e se dirigiu para Actium, local onde, agora, Antônio e Cleópatra tinham estabelecido o seu quartel-general das operações e reunido sua imensa frota. Enquanto isso, seu almirante, Marcus Vipsanius Agrippa (Agripa), tomou Corcyra e lá instalou uma base para as operações contra Antônio.
Otaviano desembarcou suas tropas no lado oposto do Golfo Ambraciano e enviou emissários aos comandantes de Antônio propondo uma negociação, proposta esta que foi recusada. Porém, nas escaramuças que se seguiram com as tropas de Antônio, estacionadas ao longo de Actium, as forças de Otaviano levaram a melhor. Começaram, então, a pipocar deserções entre os aliados de Antônio, que incluíam quase todos os reinos-clientes de Roma no Oriente, tais como Amynthas, da Galatia, e Deiotarus, da Paflagônia, além de amigos romanos de longa data, como Quintus Dellius, que fugiu e foi se juntar a Otaviano, fornecendo a este informações valiosas sobra o estado da frota e os preparativos de Antônio.
De acordo com o relato de Dião Cássio, nessa fase da campanha, Cleópatra fez prevalecer a opinião dela de que as posições mais defensáveis deveriam ser ocupadas por guarnições militares, mas que ela e Antônio, juntamente com o grosso das tropas, deveriam rumar para o Egito. Assim, parece realmente que o que importava mesmo para a rainha era a defesa do Egito e, para Antônio, que ele pudesse continuar contando com o suporte financeiro e militar de Cleópatra, dinheiro que, cada vez mais, aparentava ser o elemento fundamental para a coesão do seu exército.
Tendo em vista que o número de marinheiros era insuficiente para tripular adequadamente todos os navios da sua frota, Antônio ordenou que aqueles em mau estado fossem queimados, e selecionou os melhores. Ele e Cleópatra também ordenaram que, secretamente, todo o tesouro fosse embarcado neles.
No dia 02 de setembro de 31 A.C, Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual suas sete legiões estavam acampadas, e de onde podiam assistir às manobras. Sua frota agora era composta de 230 grandes galeras.
Segundo os relatos, a nau-capitânia de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita entre alguns historiadores de que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava a seu favor, fugir em direção à Alexandria. Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o tesouro e dos navios que escoltavam Cleópatra, que seguia, atrás, embarcada em sua nau-capitânia, batizada de “Antonias“.
Comandada por Agripa, a frota de Otaviano tinha 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio. Graças às informações fornecidas por QuintusDellius, entretanto,Otaviano e Agripa tinham ciência dos planos de Antônio, e estavam preparados, esperando a frota inimiga.
Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. Sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito, porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.
Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem e se dirigindo à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso acabou abrindo espaços no centro da sua formação.
Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio, e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.
Não se sabe com exatidão os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão. Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro da linha deles e rumado para o norte. De fato, a rainha pode ter perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado, capturado ou fugido.
O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando para trás o restante da frota, que ficou lutando acéfala, exceto por cerca de 60 navios egípcios que conseguiram acompanhar a fuga deles. Mesmo assim, os combates duraram até a madrugada do dia seguinte, mas, no final, toda a frota remanescente de Antônio acabou sendo destruída por Otaviano. A grande duração dos combates ao nosso ver mostra que, sem a fuga de Antônio e Cleópatra, o resultado da Batalha de Actium poderia ter sido outro.
Nesse sentido, vale notar que, mesmo após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros mantiveram-se aquartelados por uma semana, esperando o aparecimento de Antônio, mas, passado esse tempo, os soldados desistiram e se renderam. Com isso, todos os reis aliados abandonaram a causa de Antônio e entraram em acordo com Otaviano, sendo um destes o rei Herodes, o Grande, da Judéia.
Embora, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandassem, ao menos no papel, um numeroso exército, o fato é que o custo moral da derrota foi muito alto.
Assim, Cleópatra e Antônio e seus navios remanescentes navegaram até o Peloponeso, conseguindo se evadir à breve perseguição dos navios de Otaviano. Consta que durante a viagem, que durou três dias, ambos não se falaram. De lá, Cleópatra resolveu partir o mais rápido possível para o Egito, temendo que a notícia da derrota chegasse à Alexandria primeiro do que ela, o que poderia desencadear uma rebelião. Por isso, ela mandou decorar as proas dos seus navios de modo a que parecessem estar chegando ao porto em triunfo pela vitória inexistente.
Já Antônio foi para a Líbia, pensando em trazer as legiões que ele tinha deixado ali para a defesa da fronteira ocidental do Egito. Porém, o governador de Cyrene e comandante daquelas legiões, Lucius Pinarius Scarpus, que tinha sido apontado por ele, mas também era primo de Otaviano, recusou-se a entregá-las. Percebendo que tudo estava desmoronando, Plutarco conta que Antônio tentou o suicídio, mas foi impedido pelos amigos. Ele então partiu para o Egito, para reencontrar Cleópatra.
Chegando no Egito, Antônio encontrou Cleópatra organizando um plano ousado: transportar por terra os trezentos navios da frota egípcia para o Mar Vermelho, através da península do Sinai, com o objetivo de colocá-los à salvo da frota de Otaviano. Contudo, este plano foi por água baixo quando os primeiros navios que chegaram próximo à cidade de Petra foram queimados pelos Nabateus, instigados pelo governador da Síria, Quintus Didius, partidário de Otaviano. Este é mais um exemplo de que a linha mestra da rainha egípcia sempre fora a manutenção da independência do Egito e a sobrevivência da dinastia ptolomaica.
Os “Parceiros na Morte”
Inicialmente, Cleópatra e Antônio mantiveram-se afastados em Alexandria, ele vivendo em uma mansão à beira-mar, e ela no palácio. Porém, quando chegou a idade de inscrever Caesarion na lista dos efebos (evento que marcava o fim da infância no mundo grego) e de Anthilyus, o filho de Antônio e Fúlvia, vestir a toga virilis, Antônio passou os dias na companhia de Cleópatra, comendo e bebendo nos suntuosos banquetes comemorativos do evento.
Le repas de Cléopâtre et de Marc-Antoine, 1754, por Charles-Joseph Natoire, Public domain, via Wikimedia Commons
Foi durante esses eventos que, segundo Plutarco, Cleópatra e Antônio resolveram dissolver a sociedade dos “Inimitáveis Viventes” e fundar outra em seu lugar, a qual batizaram de “Sociedade dos Parceiros na Morte“, nome que certamente demonstra a consciência que os dois tinham de que a cortina estava se fechando para eles e de que estava chegando ao fim a brilhante trajetória que tinham percorrido juntos…
Os autores antigos afirmam que, nessa época, Cleópatra começou a testar venenos em prisioneiros condenados, inclusive submetendo-os a picadas de serpentes, com o objetivo de encontrar algum que causasse a morte mais rápida e indolor possível.
Cleópatra e Marco Antônio supervisionando a morte de conspiradores, 1866, quadro de Antoine Van Hammée, Public domain, via Wikimedia Commons
Parece que a sobrevivência da dinastia dos Ptolomeus agora era a única preocupação de Cléopatra: Segundo Dião Cássio, ela enviou uma correspondência secreta para Otaviano, contendo uma coroa e um cetro, que foram aceitos por ele. Assim, em público, Otaviano teria continuado a dar ultimatos para que ela abandonasse as armas e renunciasse ao trono, mas, secretamente, mandou mensagens prometendo que, se Cleópatra mandasse matar Antônio, ela seria perdoada e mantida como soberana.
Enquanto isso, Antônio também enviou correspondências a Otaviano, acompanhadas de muito ouro, afirmando que ele concordava em largar tudo e ir viver como particular. Já em outra versão, ele propôs a Otaviano que ele se mataria, desde que o rival deixasse Cleópatra viver. Em todo o caso, as fontes concordam que Otaviano somente respondia às mensagens de Cleópatra, ignorando as de Antônio.
As fontes antigas enfatizam que as respostas de Otaviano à Cleópatra visavam três objetivos: incentivá-la a eliminar Antônio, o que encerraria logo a guerra e lhe daria o poder absoluto em Roma; dissuadir que Cleópatra dispersasse ou destruísse o imenso tesouro egípcio, preservando-o para os romanos; e desestimular que a rainha se matasse, para que não lhe fosse roubada a incomensurável glória de exibi-la em triunfo pelas ruas de Roma. Mas parece que os dois primeiros motivos eram os mais prementes para Otaviano, pois, quando ele soube que Cleópatra pretendia levar todo o tesouro do Egito para a tumba que ela estava construindo para si mesma nos jardins do palácio, onde tudo seria queimado, Otaviano mandou Thyrsus, que era seu liberto, levar para Cleópatra cartas na qual ele dizia que estava apaixonado por ela, ao menos segundo a versão de Dião Cássio, na esperança de que a rainha, que se consideraria irresistível, acreditaria nisso e daria cabo de Antônio, mantendo-se viva, e o tesouro, intacto.
O cerco se fecha
Na primavera de 30 A.C., As forças de Otaviano tomaram Pelousium, que, de acordo com Dião Cássio, teria sido entregue sem luta, seguindo ordens de Cleópatra. Porém, segundo Plutarco, essa suspeita parece infundada, pois ela concordou com a execução da esposa e dos filhos de Seleucus, o governador que se rendeu a Otaviano.
O exército de Otaviano, aproximava-se dos muros de Alexandria., na vizinhança do Hipódromo, Antônio comandou um ataque à vanguarda do exército inimigo e conseguiu derrotar a cavalaria de Otaviano, que, já cansada da marcha até a cidade, foi perseguida até o acampamento. Porém, a inferioridade numérica impediu qualquer exploração desse sucesso, e Antônio retornou ao palácio, onde, vestido de uniforme e couraça, ele beijou Cleópatra e contou sobre a pequena vitória que eles tinham obtido. Ela deu caros presentes para um soldado que havia se destacado na batalha, mas, como um emblema da situação desesperadora em que eles se encontravam, naquela mesma noite o soldado fugiu e desertou para Otaviano, levando consigo os presentes…
No dia seguinte, Antônio tentou um ataque combinado por terra e por mar. Ele próprio cavalgou até próximo das tropas inimigas e desafiou Otaviano para um combate singular, corpo a corpo, entre os dois, um desafio que ele já havia feito anteriormente. Otaviano ignorou e mandou responder que “havia muitos maneiras pelas quais Antônio poderia morrer“.
Quando Antônio ordenou que a frota avançasse, para a sua consternação, os remadores levantaram os remos em sinal de rendição e ele soube que eles tinham aderido à Otaviano, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido por ordens de Cleópatra, que talvez tivesse resolvido traí-lo para cair nas boas graças de Otaviano, ou, poderia também estar com medo de que Antônio tentasse fugir para a Espanha. É de se notar, contudo, que a cavalaria dele também desertou. Antônio ainda tentou combater com a infantaria que lhe restara, mas foi facilmente derrotado. Naquele momento, então, Antônio não teve dúvidas de que estava tudo acabado. Ele deixou o campo de batalha e correu para o palácio.
Cléopatra foi se esconder no interior do mausoléu que ela havia mandado construir, acompanhada de um eunuco e duas escravas. Quando Antônio chegou, ele foi informado de que Cleópatra havia se matado e estava enterrada na tumba, que havia sido lacrada. Desesperado, Antônio, segundo Plutarco, proferiu as seguintes palavras:
“Por que tu demorastes tanto, Antônio? O Destino levou a tua única desculpa para te agarrares à vida!”
Antônio, então, entrou na antecâmera da tumba, tirou a couraça e, deixando-a de lado, continuou:
“Oh, Cleópatra! Eu não lamento que tu tenhas sido arrancada de mim, pois logo eu me juntarei a ti, mas eu lamento que um comandante tão grande como eu tenha se mostrado menos corajoso do que uma mulher”
Em seguida, Antônio implorou ao seu escravo doméstico, Eros, que o matasse, como ele já o havia anteriormente instruído. Porém, o devotado Eros, ao invés de matar o seu amo, pegou a espada e matou a si mesmo, para não ter que cumprir essa dolorosa ordem. Desesperado, Antônio, então, jogou-se sobre a própria espada apoiada no chão, que penetrou em sua barriga. Porém, esta ferida não foi suficiente para matá-lo imediatamente e, assim, Antônio ficou agonizando na cama, pedindo para que algum dos presentes se dignasse a apressar a sua morte.
Os ruídos e lamentos do agonizante Antônio acabaram sendo ouvidos por Cleópatra, que, observando a cena de dentro da tumba, por uma janela, mandou seu secretário Diomedes trazer Antônio para dentro. Quando Antônio percebeu que Cleópatra estava viva, ele mandou que os servos dele o colocassem de pé. Mas, como a porta do mausoléu estava selada, Antônio teve que ser erguido por cordas até a janela, puxadas pelas escravas de Cleópatra que estavam lá dentro, além da própria rainha, que também ajudava. Segundo o próprio Plutarco, enquanto Antônio era puxado, coberto de sangue, ele estendia os braços e as mãos em direção à Cleópatra, e para o historiador, de acordo com as testemunhas presentes que descreveram a cena, jamais houve cena mais pungente:
“E quando Cleópatra dessa forma conseguiu pegá-lo e deitá-lo, ela rasgou suas roupas sobre ele, puxou e socou os seios com as próprias mãos, esfregou um tanto do sangue dele no rosto dela, e o chamou de amo, marido e imperador; De fato, em sua compaixão por ele, ela quase esqueceu a sua própria desgraça. Mas Antônio fez cessar os lamentos dela e pediu uma taça de vinho, tanto por ele estar com sede, como para lhe dar mais rapidamente um alívio. Depois de ter bebido, ele aconselhou-a buscar a sua própria segurança, se ela pudesse fazer isso sem desonra; que, dentre todos os amigos de César (Otaviano), ela deveria confiar em Proculeius; e que ela não lamentasse as últimas adversidades que ele tinha sofrido, mas que o considerasse feliz pelas boas coisas que ele tinha conseguido, uma vez que ele tinha se tornado o mais ilustre dos homens, tinha conquistado o poder supremo; e que, naquele momento, ele não tinha sido derrotado de modo ignóbil, mas em uma luta de romano contra romano“.
Plutarco, Vida de Antônio, 77, 1
Antoine rapporté mourant à Cléopâtre d’Eugène-Ernest Hillemacher (1863), Museu de Grenoble, Eugène Ernest Hillemacher, Public domain, via Wikimedia Commons
Em poucas horas, Antônio morreu nos braços de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C. Ele tinha 53 anos de idade. Um dos seus guarda-costas, Dercetaeus, escondeu a espada com a qual ele tinha se suicidado, fugiu do palácio e entregá-la a Otaviano, que, fingidamente ou não, mostrou-se consternado pela morte do rival.
Prisioneira de Otaviano
Verdadeiro ou não o seu lamento, agora a maior preocupação de Otaviano era evitar que Cleópatra cumprisse as ameaças de se suicidar, impedindo-o de exibi-la em seu almejado triunfo pelas ruas de Roma, e de levar consigo todo o tesouro do Egito, para ser incinerado junto com o cadáver dela na tumba real. Assim, ele enviou o seu auxiliar Proculeius para conversar com Cleópatra, que ainda estava encerrada no mausoléu, cujas pesadas portas eram fechadas com poderosos ferrolhos e trancas. Na conversa com Proculeius, do lado de dentro da tumba, Cléopatra fez o pedido para que os filhos dela herdassem o seu trono, enquanto o enviado tentava tranquilizar a rainha, dizendo-lhe que ela podia confiar em Otaviano.
Na verdade,Proculeius, agindo bem ao contrário do que o finado Antônio havia mencionado a seu respeito, tinha aproveitado a conversa para fazer um reconhecimento do mausoléu e voltou para contar a Otaviano o que ele tinha visto. Em decorrência, Otaviano mandou Gallus, com o pretexto de fazer uma nova entrevista com Cleópatra. E, então, enquanto Gallus e a rainha conversavam, Proculeius, valendo-se de uma escada, conseguiu entrar na tumba pela janela. Quando notou a invasão, Cleópatra tentou se matar com uma faca, mas Proculeiusconseguiu impedir que ela se ferisse, e disse:
“Oh, Cleópatra! Você está enganando a si mesma e a César (Otaviano), tentando roubar dele uma oportunidade de mostrar a maior bondade, e pregando nele o estigma de ser implacável e não-confiável“.
Dito isso, ele retirou a faca dela e revistou-a, para certificar-se de que ela não tinha outra arma escondida. Otaviano, ao saber do que havia sucedido, ordenou que Cleópatra fosse mantida sob estrita vigilância, mas que a rainha deveria ter tudo que fosse necessário para o seu conforto e lazer. A verdade é que, na prática, Cleópatra, agora estava sob prisão domiciliar…
Antes disso, enquanto Otaviano ainda não havia conquistado Alexandria, Cleópatra havia mandado seu filho Caesarionpara a Etiópia, junto com um tesouro bem substancial, como ponto de partida para a viagem dele para a Índia, onde o rapaz poderia ficar a salvo da perseguição romana. Era um plano inteligente, mas, que deveria ter sido posto em prática com mais antecedência, pois, tudo indica, Otaviano não demorou a saber disso, e, mais tarde, Caesarion acabaria sendo capturado e morto. Na versão de Plutarco, foram os próprios tutores de Caesarion, Rhodon e Theodorus, certamente a mando de algum emissário de Otaviano, que convenceram o rapaz a voltar para Alexandria, sob o falso pretexto de que Otaviano deixaria que ele continuasse reinando no lugar da mãe. Já segundo Dião Cássio, a caravana de Caesarion foi interceptada ainda na estrada para a Etiópia e o rapaz foi morto ali mesmo, mas, em qualquer caso, isso somente ocorreu após a morte de Cleópatra. A morte de Caesarion teria sido decidida após o filósofo Areiusassim ter advertido Otaviano:
“Boa coisa não é que haja muitos Césares!”
Após a morte de Antônio, Otaviano consentiu que Cleópatra sepultasse o corpo de Antônio no mausoléu, em uma cerimônia suntuosa, típica da realeza. Devido ao pesar que ela sentia pela morte de Antônio e pelas dores que ela sentia devido aos golpes que ela mesmo desferira contra os próprios seios, Cleópatra acabou ficando doente após o funeral, e até deixou de comer. Ela ficou aos cuidados do médico Olympus, a quem ela pediu conselhos sobre a melhor forma de cometer suicídio, como o próprio Olympusescreveria mais tarde em um livro, que deve ter sido consultado por Plutarco.
Temendo a morte de Cleópatra, o que esvaziaria o seu triunfo, Otaviano ameaçou-a com relação ao bem-estar dos filhos dela, e, assim, preocupada com o destino deles, a rainha acabou consentindo em receber cuidados médicos.
Mesmo assim, o próprio Otaviano resolveu visitar Cleópatra em pessoa, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido a pedido dela. Na narrativa deste historiador, Cleópatra mandou arrumar o quarto da forma mais esplêndida e luxuosa, onde foram espalhadas imagens de seu antigo amante Júlio César, o pai adotivo de Otaviano. E Cleópatra também colocou a seu lado, as várias cartas de amor que ela recebera de César. Então, quando Otaviano entrou, ela teria se jogado aos pés dele, em sinal de submissão, e, depois de ter lido trechos ardentes da carta, Cleópatra tentou seduzir Otaviano com olhares lânguidos e voz melosa, terminando por dizer a ele que, se ela o tivesse, seria como se ela tivesse César, e que César viveria nele.
Sobre esse episódio, eu prefiro a narrativa de Plutarco:
“Após alguns dias, o próprio César (Otaviano) veio conversar com ela e confortá-la. Ela estava deitada numa cama simples de estrado, vestida apenas com a sua túnica, mas saltou da cama quando ele entrou e se jogou aos pés dele; o cabelo e o rosto dela estavam terrivelmente desarrumados, sua voz tremia, e os seus olhos tinham olheiras. Havia também muitas marcas visíveis das cruéis pancadas no peito dela: em uma palavra, o corpo dela parecia não estar em melhor estado do que o seu espírito. Apesar disso, o charme pelo qual ela era famosa, e o impacto da sua beleza, não estavam de todo extintos, ao contrário, apesar dela estar naquela situação lamentável, eles resplandeciam e se manifestavam nas expressões dela. Após César (Otaviano) ter rogado para que ela se deitasse e ele próprio ter se sentado próximo a ela, ela começou a fazer uma espécie de justificativa das suas ações, atribuindo-as à necessidade e ao medo que sentia de Antônio; Contudo, enquanto César (Otaviano) discordava dela e a refutava em cada ponto, ela rapidamente mudou de tom e buscou sensibilizá-lo com as suas preces, como se ela fosse alguém que, acima de todas as coisas, agarrava-se à vida. E, finalmente, ela lhe deu uma lista de todos os tesouros que ela possuía; Nesse momento, quando Seleucus, um dos camareiros dela, demonstrou, conclusivamente, que ela estava escamoteando e escondendo alguns deles, ela saltou da cama, agarrou-o pelos cabelos e despejou uma saraivada de golpes no rosto dele. E quando César (Otaviano), com um sorriso, fez com que ela parasse, ela disse: “Mas não é uma coisa horrível, Oh, César, que quando tu te dignaste a vir e falar comigo, embora eu esteja nesta situação miserável, os meus escravos me denunciem por separar alguns adornos femininos – não para mim mesma, é claro, mulher infeliz que sou – mas para que eu possa dar alguns presentes insignificantes para Otávia e para tua Lívia, e, mediante a intercessão delas, te fazer mais piedoso e gentil?” Então César (Otaviano) ficou satisfeito com este discurso dela, restando totalmente convencido de que ela queria continuar viva. Consequentemente, ele disse que ele deixaria esses assuntos por conta dela, e que, em todos os outros aspectos, ele lhe daria o tratamento mais esplêndido que ela poderia esperar. Ele, então, saiu do quarto, supondo que a tinha enganado, mas ele é quem seria enganado por ela”.
Uma vitória na morte
Plutarco narra, ainda, que um dos companheiros de Otaviano, chamado Cornelius Dolabella, que tinha uma certa queda por Cleópatra, conseguiu avisá-la de que Otaviano havia mandado as legiões se aprontarem para marchar pela Síria, e que, dentro de três dias, ele iria envia-la para Roma junto com os filhos. Cleópatra agora tinha certeza de que a intenção de Otaviano era exibi-la acorrentada em carro aberto em seu triunfo pelas ruas de Roma, perante o populacho da cidade.
Então, no dia 12 de agosto de 30 A.C. (alguns defendem que foi no dia 10), Cleópatra pediu aos seus captores para que lhe fosse permitido entrar no mausoléu para proceder alguns ritos religiosos em honra de Antônio. Obtida a permissão dos romanos, Cleópatra tomou banho, fez uma suntuosa refeição e mandou as suas duas servas de maior confiança, que se chamavam Charmion e Iras, vestirem-na com os trajes de gala da realeza ptolomaica.
Enquanto isso, chegou na antessala dos aposentos de Cleópatra, um camponês trazendo um cesto. Os guardas perguntaram o que havia dentro dele e o camponês respondeu que eram figos para a rainha, abrindo a tampa. Os guardas olharam e o camponês, sorrindo, disse que eles poderiam ficar com alguns. Acreditando que não havia motivo para desconfiarem, os guardas deixaram o homem entrar e deixar o cesto no quarto.
Após o banho, Cleópatra chamou um mensageiro e entregou uma mensagem em uma tabuleta selada para que fosse entregue a Otaviano. Depois que o mensageiro saiu, Iras e Charmion trancaram as portas do aposento.
Quando Otaviano abriu a carta e leu o seu conteúdo, o seu rosto deve ter ficado lívido: entre várias lamentações e pedidos, Cleópatra implorava para que ele a enterrasse junto com Antônio. O futuro imperador percebeu imediatamente do que se tratava e mandou que alguns dos seus auxiliares fossem o mais rápido possível até os aposentos de Cleópatra. Todavia, quando os guardas romanos, que ainda não sabiam de nada, abriram as portas, encontraram Cleópatra já sem vida, deitada sobre uma colcha de ouro, vestida com os trajes reais. Eles ainda puderam ver que Iras agonizava, já sem sentidos, aos pés da sua rainha, e, por sua vez, Charmion, também já quase desfalecendo, arrumava o diadema sobre a testa de Cleópatra. Plutarco conta que alguém, indignado, chegou a dizer, em tom de repreensão: “Bela ação, Charmion!“, tendo a serva respondido, antes de também cair morta:
“Sem dúvida, é a mais bela, e condizente com a descendente de tantos reis”
Uma das muitas representações artísticas da morte de Cleópatra está no Museu dde Belas Artes de Toulouse, por Jean-André Rixens (1874), Public domain, via Wikimedia Commons
Tanto Plutarco quanto Dião Cássio afirmam que ninguém soube a causa exata da morte de Cleópatra, mas que havia duas picadas no braço. O primeiro menciona os comentários de que ela foi mordida por uma áspide (serpente) a qual estaria escondida no cesto de figos, e o segundo, que o réptil estaria dentro de um jarro d’água. Mas os dois historiadores também citam que havia quem afirmasse que Cleópatra teria usado um palito ou prendedor de cabelo oco, contendo veneno, para se espetar. Provavelmente, segundo Plutarco, a versão da picada da cobra também era a que Otaviano acreditava, pois, no triunfo que ele celebrou pela vitória sobre Cleópatra, uma imagem da rainha egípcia com uma serpente agarrada nela foi carregada junto com a procissão. (Nota: tratamos desta imagem, e da aparência de Cleópatra, em nosso artigo: “O Retrato Perdido de Cleópatra“.
Ao receber a notícia da morte de Cleópatra, Otaviano ficou consternado, tanto pela grandeza de espírito que ela demonstrara, quanto pelo fato de ele ter sentido que ela lhe roubara a glória do seu tão desejado triunfo. Se verdadeiro o relato de Dião Cássio, Otaviano chegou a mandar que fossem administradas drogas e sugado o sangue de Cleópatra por um membro da tribo dos Psylli, especialistas em serpentes, em uma vã tentativa de ressuscitá-la.. Seja como for, ele deu ordens para que o corpo dela fosse sepultado ao lado do de Marco Antônio, com a pompa da realeza. E até Charmion e Irastambém tiveram direito a um enterro solene.
Epílogo – Vitória na “Batalha dos Genes”
Quando morreu, Cleópatra tinha 39 anos de idade. Com a morte dela, o Egito foi incorporado como uma província de Roma (o Império Romano começaria oficialmente em 27 A.C., com Otaviano recebendo o título de “Princeps” e o cognome de Augusto, tornando-se o primeiro imperador).
Os três filhos que Cleópatra teve com Marco Antônioforam poupados por Otaviano e, depois deles serem exibidos na procissão triunfal pelas ruas de Roma, foram entregues para serem criados pela irmã dele, Otávia.
Os meninos não atingiriam a idade adulta e não se sabe ao certo o que aconteceu com eles.
Contudo, a menina, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II, da Numídia, tornando-se rainha da Mauritânia, e boa parte dos estudiosos acredita que o filho dela, Ptolomeu da Mauritânia, através do casamento com Júlia Urania, teve como filha Drusilla da Mauritânia, que, por sua vez, casou-se, em segundas núpcias, com Gaius Julius Sohaemus Philocaesar Philorhomaeus, membro da família real da cidade síria de Emesa (os Sempseramidas, que também eram sumo-sacerdotes do deus El-Gabal), o qual reinou, como rei-sacerdote, entre 54 e 73 D.C..
Busto de Ptolomdu da Mauritânia, Museu do Louvre, foto de Marie-Lan Nguyen
Sohaemus e Drusilla tiveram um filho, de nome Gaius Julius Alexion, que também reinou em Emesa, entre 73 e 78 D.C (após o que o reino foi incorporado à Província Romana da Síria) e é mencionado em uma inscrição tumular em Emesa como sendo pai de Gaius Julius Sampsiceramus, que, por sua vez, é considerado por alguns prosopografistas como antepassado de Gaius Julius Bassianus, sumo-sacerdote de El-Gabal.
O motivo pelo qual estamos traçando para o leitor esta talvez tediosa genealogia é porque Gaius Julius Bassianus foi o pai de Júlia Domna, uma integrante da família real de Emesa que casou com o futuro imperador romano Septímio Severo (193-211 D.C.), e foi mãe dos imperadores Geta (209-211 D.C) e Caracala (198-217 D.C). Por sua vez, Júlia Maesa, a outra filha de Bassianus, teve duas filhas, Julia Soemias Bassiana, que foi a mãe do imperador romano Elagábalo (Heliogabalus – 218-222 D.C). e Julia Avita Mamea, mãe do imperador romano Severo Alexandre (222-235 D.C).
Portanto, temos como uma grande ironia do destino o fato de que é altamente provável que Cleópatra seja antepassada direta de quatro imperadores romanos, enquanto que Augusto, o seu algoz, somente teve dois descendentes diretos como imperadores: Calígula e Nero
Vale também citar que, entre os presumidos descendentes de Cleópatra está a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que alegava ser descendente da rainha egípcia, e que, no final do século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito, ameaçando a própria sobrevivência do Império Romano. Segundo relata a História Augusta, depois de derrotada e levada para Roma, em triunfo, Zenóbia teria se casado com um senador romano e com ele teve filhos. De fato, a efígie da rainha até mostra alguns traços de semelhança com as imagens convencionais de Cleópatra, notadamente o penteado ao estilo “melão. Porém, essa ascendência de Zenóbia é considerada por muitos estudiosos como bem menos provável.
A rainha Zenóbia, de Palmira, uma possível descendente de Cleópatra, foto Classical Numismatic Group, Inc
CONCLUSÃO
Foi somente graças à Cleópatra que o Egito conseguiu ficar independente por mais 20 anos, depois da grande guerra civil de Roma. Valendo-se apenas de sua inteligência, ela influenciou os dois homens mais poderosos do Império mais poderoso que o Mundo Clássico até então havia conhecido, e, mais do que isso, manobrou-os para conseguir os seus objetivos políticos. E, por pouco, ela não conseguiu, ainda que isso pudesse ter durado apenas alguns anos, tornar Alexandria a capital do mundo romano e governá-lo junto com Marco Antônio, chegando próxima de criar uma dinastia “Júlio-ptolomaica”. Enfim, Cleópatra mostrou ao mundo que uma grande mulher não era inferior aos grandes homens do seu tempo.
Dificilmente um escritor ou roteirista conseguiria imaginar eventos de tamanha dramaticidade como a história de Cleópatra. Episódios como a entrada no palácio enrolada no tapete, o cruzeiro junto com César pelo Nilo, a morte trágica de Antônio e o próprio suicídio dela, caso fossem escritos como ficção, certamente seriam tachados de mirabolantes e até poderiam causar rubor ao seu autor. E, no entanto, tudo isso aconteceu de verdade!
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