OS GORDIANOS E O ANO DOS SEIS IMPERADORES

Em 22 de março de 238 D.C., na pequena, mas próspera, cidade de Thysdrus (atual El-Djem, na Tunísia), na província romana da África Proconsularis, uma multidão armada com machados e porretes invadiu a residência do Procônsul da África,  o velho senador Marcus Antonius Gordianus Sempronianus (Gordiano I).

 

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(Anfiteatro romano de El-Djem, na Tunísia, o maior depois do Coliseu, acomodava 35 mil espectadores)

A turba enfurecida tinha acabado de assassinar, poucas horas antes, um dos Procuradores do Imperador, exasperada contra injustos processos de cobrança de impostos e confiscos de propriedades, que tinham sido ordenadas para saciar a necessidade do imperador Maximino Trácio em financiar a guerra contra as tribos germânicas no Danúbio.

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Se o velho Procônsul Gordiano, em seus avançados 79 anos de idade, certamente ficou perplexo com a súbita invasão de sua casa, provavelmente mais apavorado ainda ele ficou quando ouviu os chefes da multidão aclamarem-no imperador, dando-lhe, aos gritos, o título de “Africanus“.

Gordiano tentou desesperadamente recusar o título e até chegou a se prostrar no chão implorando que os revoltosos fossem embora, dizendo-lhes que ele era apenas um velho cansado, que nunca lhes fizera mal, mas os chefes, com armas em riste, disseram que seria melhor para ele arriscar uma futura e incerta punição de Maximino do que a certeza da morte que lhe esperava, caso ele não aceitasse a púrpura imperial naquele exato momento.

Sem alternivas, Gordiano I cedeu, e,  dias depois, acompanhou os revoltosos até Cartago. Não obstante, em algum momento entre a sua aclamação e a entrada em Cartago, Gordiano, lembrando que ele era um homem idoso, entendeu que era conveniente que o seu filho, que também se chamava Gordiano (Gordiano II), igualmente fosse aclamado Augusto e, portanto, co-imperador.

Ao chegar a Cartago, uma grande cidade que, naquela época,  que só perdia em tamanho para Roma, e disputava com Alexandria o título de cidade mais importante da África, os Gordianos foram entusiasticamente recebidos pela população local e pelos líderes da cidade.

Imediatamente, emissários levando cartas de Gordiano foram despachados para Roma, sendo bem recebidos pelo presidente do Senado (Princeps Senatus), o senador Públio Licínio Valeriano (que, anos mais tarde, tornaria-se também imperador). De fato,  um grande número de senadores e do contingente da Guarda Pretoriana, que nunca haviam se conformado com a ascensão de Maximino, cognominado, o Trácio, considerado nada mais do um bárbaro que assassinou o seu antecessor, Severo Alexandre,  apoiou a revolta e, por conseguinte, assim que a notícia da rebelião na África chegou em Roma, Vitalianus, o Prefeito Pretoriano nomeado por Maximino, foi assassinado.

Em seguida, o populacho de Roma, acreditando nos boatos de que Maximino teria sido assassinado, perseguiu pelas ruas a maior parte dos funcionários e magistrados que ele havia nomeado e destruiu as estátuas do odiado imperador.

Assim, em 2 de abril de 238 D.C., o Senado confirmou a aclamação de Gordiano I e de Gordiano II como imperadores romanos. Cartas foram enviadas aos governadores das demais províncias anunciando a coroação dos novos imperadores. E, de fato, muitos aderiram ao novo governo, porém, alguns governadores, com medo da conhecida ferocidade de Maximino, chegaram a executar os mensageiros.

Ao ser coroado, Gordiano I adotou o nome de Caesar Marcus Antonius Gordianus Sempronianus Romanus Africanus Augustus .

Nascido no ano de 159 D.C., com o nome de Marcus Antonius Gordianus Sempronianus, Gordiano I era supostamente filho de um senador romano, cujo nome, segundo a História Augusta, seria Maecius Marullus (um nome que os historiadores modernos acreditam ser fictício). e de Ulpia Gordiana.

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A família da mãe de Gordiano I provavelmente era radicada na Ásia Menor, o que explicaria a origem do nome “Gordianus“. Por sua vez, o prenome feminino “Ulpia” pode indicar algum parentesco com a família do imperador Trajano, ou, mais provavelmente, que a família recebeu a cidadania romana no reinado deste imperador.

Já o prenome “Marco Antônio”, que parece ter sido um nome de família, pode indicar que a família do pai de Gordiano recebeu a cidadania romana durante o triunvirato de Marco Antônio, que governou o Oriente na 2ª metade do século I A.C. Inscrições funerárias encontradas em Ancyra (atual Ancara, capital da Turquia) demonstram que uma certa  Sempronia Romana, filha de um certo Sempronius Aquila , Secretário da Correspondência Imperial em Grego do Imperador (Secretarius ab epistulis Graecis), que podem ter sido a avó e o bisavô maternas de Gordiano I, ergueu o monumento em honra de seu marido, um Pretor, cujo nome, contudo, não aparece.

Inicialmente, durante a sua juventude e idade adulta, os interesses e atividades de Gordiano parecem ter se limitado à  Literatura e Retórica. Ele, segundo a História Augusta, teria escrito poemas e até biografias dos imperadores Antonino Pio e Marco Aurélio, embora nenhuma obra dele tenha sido citada por algum historiador antigo.

As atividades literárias de Gordiano podem ser a explicação para a dedicatória feita a “Antonius Gordianus“, na obra “Vidas dos Sofistas”, escrita por Filóstrato, poucos anos antes de Gordiano ser nomeado imperador. Na dedicatória, Filóstrato menciona que esse Antonius Gordianus era descendente de Herodes Ático, uma aristocrata grego que também foi filósofo sofista e chegou a ser Cônsul Ordinário para o ano de 143 D.C., sendo o primeiro grego a atingir este importante posto. Herodes Ático era amigo do imperador Antonino Pio e foi professor do imperador Marco Aurélio.  A conexão é reforçada pelo fato da já mencionada Sempronia Romana ser filha de Titus Flavius Sempronius Aquila, que foi Secretarius ab epistulis Graecis do Imperador. Mas, como a idade de Gordiano II, que tinha o mesmo nome do pai, encaixa-se melhor nessa cronologia, é bem possível que a homenagem tenha sido feita a ele, e não a Gordiano I. De qualquer forma, a genealogia proposta por Cristian Settipani, com base na Prosopografia se mantém plausível.

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Quando resolveu entrar na carreira pública, Gordiano se destacou como Edil, Questor e Pretor pela magnificência dos espetáculos que financiou e apresentou ao Povo. Disto conclui-se que Gordiano deveria ser muito rico, o que é corroborado pelo fato de ele ser proprietário da “Casa dos Bicos”, uma mansão que pertenceu a Pompeu, o Grande. Seguindo o tradicional Cursus Honorum romano (carreira das magistraturas), o exercicio desses cargos teve como resultado a entrada de Gordiano no Senado Romano.

Inscrições sobreviventes indicam que Gordiano serviu como  Governador da Britânia Inferior em 216 D.C. e, posteriormente, como Governador da Síria Coele,  ou Comandante da Legião IV Scythica, estacionada nesta última Província. Ele ainda foi Governador da Província da Acaia. E em algum momento, durante o reinado do imperador Elagábalo, Gordiano foi nomeado Cônsul Suffectus.

Em 237 D.C., o cargo de governador da  importante província senatorial da África Proconsularis, uma das que cabia ao Senado Romano, coube a Gordiano mediante sorteio. E assim, voltamos para os dramáticos eventos que se seguiram após a aclamação dele como Imperador, em Cartago, que narramos na abertura deste artigo.

As notícias da revolta na África e da decisão do Senado chegaram aos ouvidos de Maximino, que se encontrava em Sirmium, na Ilíria. No início, o imperador até manifestou desprezo pelo fato,  considerando tratar-se de uma insignificante revolta de provinciais da África e cidadãos de Cartago, os quais não eram muito considerados, naqueles dias, pelo valor militar,  e que, além do mais, tinham aclamado um senador quase octogenário,  e o filho deste, cujo estilo de vida não era muito respeitável. Porém, quando soube de que houve a adesão do Senado à aclamação dos Gordianos, o imperador ficou realmente furioso e preparou-se para marchar contra Roma.

Enquanto isso, os Gordianos resolveram livrar-se de um velho desafeto, Capelianus, que era o governador da Província da Numídia, vizinha à África Proconsularis, e que tinha sido nomeado por Maximino, substituindo-o por um novo governador.

Porém Capelianus, quando soube do propósito dos Gordianos, reuniu uma tropa de auxiliares Mouros e  declarou fidelidade ao imperador Maximino, partindo em direção a Cartago, disposto a depor os usurpadores.

A população de Cartago, ao ver a chegada das forças de Capelianus, resolveu armar-se e resistir aos atacantes, comandada por Gordiano II. Porém, sem treinamento militar, eles foram facilmente derrotados, na chamada Batalha de Cartago. O massacre foi tão grande que o corpo de Gordiano II, soterrado por uma montanha de cadáveres, jamais foi encontrado.

Quando a notícia da derrota do filho chegou ao seu conhecimento, Gordiano I  recolheu-se ao seu quarto e matou-se, enforcando=se com a faixa que lhe cingia a túnica, em 12 de abril de 238 D.C. O seu reinado durara apenas 21 dias.

Com a notícia da morte dos Gordianos, não restava nenhuma opção aos senadores romanos senão continuar a revolta contra Maximino Trácio, pois eles tinham certeza que assim que o implacável imperador chegasse a Roma mandaria executar a todos.

Assim, o Senado escolheu dois novos imperadores no lugar dos Gordianos, selecionando-os das suas próprias fileiras., aclamando,  em 22 de abril de 238 D.C, os senadores Marcus Clodius Pupienus (Pupieno) e Decimus Caelius Calvinus Balbinus Pius (Balbino). Ambos faziam parte de um comitê de 20 senadores criado pelo Senado para supervisionar os preparativos militares para a defesa contra Maximino ainda durante o reinado dos Gordianos.

O Senado também conferiu ao neto de Gordiano I, Marcus Antonius Gordianus Pius, um menino de 13 anos de idade, o título de “César”, tornando-o herdeiro do trono.

Pupieno, segundo a História Augusta, era um filho de um ferreiro, e ele ingressou na carreira militar, onde obteve sucesso, chegando a primeiro centurião (Primus Pilus) e, de modo incomum para a época,  e foi promovido depois a general e, depois, nomeado Pretor. Depois, Pupieno exerceu cargos de Procônsul em várias províncias, culminando com a sua nomeação para Cônsul Suffectus em 207 D.C. e  Cônsul Ordinário, em 234 D.C. O mais provável, contudo, para alguns historiadores, é que Pupieno fosse da pequena nobreza equestre e tenha escolhido a carreira militar. (muitos equestres serviam como centuriões no exército romano).

De qualquer modo, o fato de Pupieno ter sido escolhido imperador por seus pares senadores, na iminência da chegada das tropas de Maximino, com certeza deve-se ao fato dele ter experiência militar, não obstante ele já ter entre 68 e 73 anos de idade, na data de sua elevação ao trono.

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Balbino era de uma família da nobreza senatorial e ele ocupou vários postos de governador de província, culminando com dois consulados, um deles em companhia do imperador Caracala.

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Enquanto Pupieno se encarregou de partir para Ravena no norte da Itália para preparar a defesa e recrutar tropas contra Maximino, Balbino ficou em Roma para cuidar da administração civil e da ordem pública na Cidade.

As perspectivas para Pupieno eram as piores possíveis, pois ele teria que enfrentar o experimentado exército de Maximino, que estava em campanha contra os Sármatas, no Danúbio, após derrotar os Alamanos., mas ele fez o melhor que pode reunindo uma tropa de auxiliares germânicos  com os quais ele tinha servido quando fora legado imperial na Germânia.

Porém, quando Maximino chegou ao norte da Itália, necessitando de suprimentos em razão da rapidez com que saíra de Sirmium, a cidade de Aquiléia, na rota para Roma, fechou os portões das suas muralhas,  tomando o partido de Pupieno e Balbino.

As tropas já famintas de Maximino ficaram irritadas durante o inesperado cerco à Aquiléia. Em maio de 238 D.C., soldados da Legião II Parthica invadiram o acampamento de Maximino e o assassinaram,  juntamente com seu filho e seus auxiliares, decapitando-os e enviando as cabeças de todos para Roma.  O reinado de Maximino havia durado pouco mais de três anos.

Parecia que Pupieno tinha conseguido vencer o seu  maior desafio sem sequer precisar  ter lutado.

Entretanto, em Roma, as coisas degeneraram para Balbino. A plebe se enfureceu com a execução de dois soldados desarmados, e tumultos se espalharam pelas ruas. Parece que alguns senadores insuflaram os protestos, sustentando que o neto de Gordiano I, o César Marcus Antonius Gordianus Pius (Gordiano III) deveria ser o imperador. Para piorar o quadro, em junho de 238 D.C, um grande incêndio irrompeu em Roma.

Como se tudo isso não bastasse, quando Pupieno chegou a Roma, com uma guarda de soldados germânicos, Balbino ficou receoso e as relações entre os dois esfriaram.

Por outro lado, a Guarda Pretoriana, já acostumada em várias oportunidades a fazer e desafazer imperadores, não estava nada satisfeita com o incomum protagonismo do Senado na nomeação de Pupieno e Balbino.

Desse modo, quando os Pretorianos perceberam que Pupieno e Balbino não gozavam da aprovação geral, a sorte de ambos estava decidida.  Assim, no dia 29 de julho de 238 D.C., um grupo de Pretorianos invadiu o Palácio e capturou os dois imperadores. Pupieno e Balbino foram arrastados para o Quartel da Guarda Pretoriana, torturados e executados. Eles tinham reinado por apenas três meses.

Gordiano III, de apenas 13 anos de idade, foi  imediatamente aclamado imperador pelos Pretorianos. Ele era filho de Antonia Gordiana, filha de Gordiano I e de um senador cujo nome é desconhecido. Entretanto, o controle do governo de fato de Roma, no início, ficou nas mãos do Senado Romano, tendo em vista a menoridade do imperador.

Em 241 D.C, com apenas 16 anos, Gordiano III casou-se com Furia Sabinia Tranquillina, filha de Gaius Furius Sabinius Aquila Timesitheus, um militar de carreira que exerceu vários cargos militares e civis importantes e foi nomeado Prefeito Pretoriano, tornando-se a eminência parda do Império. Houve algumas rebeliões e a situação nas fronteiras com a Pérsia e nos rios Reno e Danúbio piorou muito, mas Gordiano III sobreviveria no trono até 244 D.C.

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Por tudo isso, o ano de 238 D.C. ficaria conhecido como “O Ano dos Seis Imperadores” e é crucial como um exemplo dos problemas que o  Império Romano enfrentava durante a chamada “Crise do Século III“, marcada pela instabilidade interna e a crescente pressão externa nas fronteiras.

O período dos reinados dos Gordianos e de Pupieno e Balbino marca a definitiva transição do Principado inaugurado por Augusto, caracterizado ainda por uma predominância da elite senatorial tradicional romana entre os aspirantes ao trono, bem como no exercício dos principais comandos militares e governos de províncias,  elite essa que, após a Crise do Século III seria praticamente afastada do Exército, o qual passaria a ser também o principal ator político e caminho de acesso para os cargos públicos.

ANASTÁCIO I DICORO

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(relevo de marfim, provavelmente retratando Anastácio)

Em 11 de abril de 491 D.C. Anastácio I foi coroado em Constantinopla, dois dias após a morte do imperador Zenão I, o seu antecessor.

No dia anterior à coroação, a imperatriz-viúva Ariadne, acompanhada do Senado de Constantinopla, do Grande Camareiro Urbicius, e dos demais ministros de Estado, dirigiu-se para o Hipódromo, onde uma tropa de soldados reunidos na pista, e oitenta mil cidadãos nas arquibancadas, os aguardavam.

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(relevo de marfim de Ariadne)

“-Vida longa à Augusta!”, “Dê ao mundo um imperador ortodoxo!“, gritou a multidão.

Em seguida, um funcionário, em frente ao camarote imperial no Hipódromo (“kathisma“, em grego) começou a ler uma proclamação da imperatriz:

“-Antecipando o Vosso pedido, nós ordenamos aos ilustres Ministros e ao sagrado Senado, com a aprovação do bravo Exército, que selecione um Imperador Romano Cristão, dotado de todas as virtudes imperiais, que não seja escravo do dinheiro, e que seja, tanto quanto um homem pode ser, livre de todos os vícios humanos“.

O povo, em resposta, gritou:

“-Ariadne Augusta, tu venceste! Ó Rei Celestial! Dê ao mundo um Imperador que não seja avarento!

Ariadne:

“-Para que a escolha possa ser pura e agradável a Deus, nós ordenamos que os Ministros e o Senado, com a concordância do Exército, realizem a eleição ante os Evangelhos e na presença do Patriarca, de modo que ninguém seja influenciado por amizade ou inimizade, parentesco, ou qualquer outro motivo particular, senão que vote com a sua consciência limpa. Consequentemente, considerando que o assunto é muito relevante e diz respeito ao bem-estar do mundo, vocês devem aceitar uma pequena pausa, até que os funerais de Zenão, de pia memória, tenham sido devidamente realizados, e, assim, a eleição não seja feita precipitadamente“.

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(O imperador Teodósio, no kathisma, no Hipódromo de Constantinopla, foto Radomil talk)

Segundo o relato acima, feito pelo imperador Constantino IX Porfirogênito, que também era historiador (o qual extraímos do clássico livro “History of the Later Roman Empire“, de John B. Bury), após o discurso no Hipódromo, o Camareiro Urbicius sugeriu ao conselho de ministros que a escolha ficasse a cargo de Ariadne. A sugestão foi acolhida ou, o que é mais provável, apenas formalizou-se algo que já estava definido previamente.

Vale observar que o discurso de Ariadne faz questão de mencionar o que  se considera serem as três fontes do poder na constituição não-escrita do Império Romano: O Senado, que representava a nobreza, os ministros, que representavam a administração civil do Império, e o Exército, que representava os cidadãos armados, todos agindo em nome do Povo, reunido no Hipódromo,  a quem, ainda que apenas cerimonialmente, eles deviam satisfação.

Ariadne escolheu Flavius Anastasius (Anastácio I), que ocupava o cargo de Silentiarius, um alto funcionário do Palácio encarregado de manter a ordem nas audiências do imperador.

Flavius Anastasius (Flávio Anastácio) nasceu por volta de 430 D.C., em Dirráquio (Dyrrachium, atual Durrës, na Albânia), cidade que, desde 229 A.C.,era um dos mais importante portos romanos no mar Adriático e o ponto de partida da Via Egnatia, uma estrada vital que ia até Constantinopla, passando pela Grécia.

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(Ruínas do Anfiteatro de Dyrrachium, foto de Jed Horne )

 

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Flávio Anastácio era filho de um certo Pompeius, que seria um nobre de origem ilíria de Dirráquio, e de Anastasia Constantina, que era neta de Gallus e bisneta de Anastasia. Esta, por sua vez, era filha de Flavius Claudius Constantius Gallus, neto do imperador Constâncio Cloro e sobrinho do imperador Constantino, o Grande.

Portanto, Anastácio I seria, por parte de mãe, descendente do fundador da dinastia Constantiniana e parente do fundador do Império Romano do Oriente.

Devido ao fato de um dos seus olhos ser de cor negra e o outro de cor azul, Anastácio recebeu o apelido de “Dicorus” (Duas cores, uma condição que na medicina é conhecida como “heterocromia”.

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Anastácio era uma figura muito conhecida e respeitada em Constantinopla, sendo uma presença assídua nas missas na Catedral de Santa Sofia, onde ele costumava debater assuntos religiosos,  ocasiões em que manifestava opiniões nem sempre ortodoxas. Esse fato, inclusive, granjeou-lhe a antipatia do Patriarca de Constantinopla, Eufêmio.

Por isso, quando Anastácio foi escolhido por Ariadne para ser imperador, com a aprovação do Senado, Eufêmio exigiu que Anastácio assinasse uma declaração de obediência ao credo ortodoxo, como condição para que ele participasse da cerimônia de coroação.

Dias após a cerimônia, que foi descrita em detalhes por Constantino IX Porfirogênito,  Anastácio I Dicoro e Ariadne casaram-se, em 20 de maio de 491 D.C.

Logo no início do seu reinado, Anastácio I teve que enfrentar a insatisfação que a sua escolha causou entre os militares de origem isáuria.

Os Isáurios eram um povo apenas parcialmente romanizado que habitavam as montanhas Taurus, na atual Turquia. Devido a sua índole guerreira, o imperador Leão I aproveitou para criar uma unidade composta de Isáurios, com o objetivo de se livrar da influência dos bárbaros germânicos no Exército e, em consequência, nos assuntos de Estado.

Apesar disso, os Isáurios eram considerados como sendo semi-bárbaros pelos habitantes de Constantinopla, os quais nunca aceitaram placidamente o fato do chefe dos Isáurios, Tarasis Kodisa, ter se tornado o sucessor de Leão I, com o nome de Zenão I.

Assim, quando Zenão I morreu, os militares Isáurios desejavam que ele fosse sucedido por seu irmão, Longinus, e, obviamente,  ficaram muito contrariados quando Anastácio I foi o escolhido pela imperatriz-viúva, Ariadne.

Culpando os Isáurios por um tumulto no Hipódromo, Anastácio exilou Longinus para a Tebaida, no Egito e revogou vários privilégios concedidos aos Isáurios pelo seu antecessor Zenão.

Em 492 D.C, estourou uma revolta na Isáuria (Guerra contra os Isáurios) e Anastácio enviou um exército para sufocá-la, liderados pelos generais João, o Cita e João, o Corcunda, que derrotaram os rebeldes na Batalha de Cotyaeum, na Frígia. Porém, o restante dos revoltosos se entrincheiraria nas montanhas da Isáuria e somente em 498 D.C. os últimos focos desta rebelião seriam debelados.

Em 493 D.C., aproveitando que o Império estava ocupado com o conflito na Isáuria, uma invasão dos Búlgaros derrotou o exército comandado pelo general Juliano. Esses Búlgaros eram remanescentes do Império de Átila, o Huno.

As invasões búlgaras repetiram-se em  499 D.C e em 502 D.C., levando Anastácio a ordenar a construção da chamada Muralha Anastácia, 64 km a oeste de Constantinopla, a fim de melhor proteger a capital.

Mal as Guerra contra os Isáurios e os Búlgaros acabaram, Anastácio teve que enfrentar, entre 502 e 506 D.C., o Império Persa, que capturou as estratégicas cidades de Teodosiópolis (atual Erzurum, na Turquia, uma cidade armênia que foi ocupada pelos romanos em 387 D.C.) e de Amida, na Mesopotâmia.

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(Muralhas romanas de Amida)

Anastácio conseguiu recuperar Amida e uma paz foi assinada, visando manter o status quo na região. Então, para se proteger de futuras incursões, Anastácio ordenou a construção da impressionante Fortaleza de Dara, próxima à cidade de Nísibis, com o objetivo de colocar em cheque todo e qualquer o movimento de tropas inimigas pela região. Com o mesmo objetivo, foi construído também o Castelo de Dirráquio, em sua cidade natal, na Ilíria.

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(Cisternas da fortaleza romana de Dara)

Os assuntos militares não impediram que, desde o início do seu reinado, Anastácio se dedicasse a importantes reformas monetárias, fiscais e administrativas.

Segundo o historiador romano-bizantino João Lídio (um funcionário público que iniciou sua carreira no reinado de Anastácio), a cuidadosa política econômica do imperador e o seu rigor na observância das finanças públicas salvaram o Império Romano, que, a partir da custosa e mal-sucedida expedição de Leão I contra os Vândalos na África, um quarto de século antes, desde então constantemente estivera à beira da ruína.

Em maio de 498 D.C., valendo-se da entrada de recursos que o confisco das propriedades de Zenão I e de seus protegidos Isáurios permitiu, Anastácio aboliu o odiado imposto denominado de Chrysargiron (aparentemente, este era  um imposto sobre a receita bruta dos comerciantes, ou seja, sobre as vendas, e que obviamente, como sempre acontece, devia  acabar sendo repassado para os consumidores).

Essa medida foi entusiasticamente recebida pelos súditos, sendo objeto de comemorações exaltando o Imperador por todo o Império Romano do Oriente.

Também criou-se o cargo de Conde do Patrimônio Privado, para administrar os bens e receitas da Coroa, que passou a fazer contribuições maiores para o Erário Público.

Mas a medida mais significativa nesse campo foi a mudança na forma de pagamento da Annona, um tributo de gêneros em espécie, que era coletado pelos magistrados das cidades, e que, a partir da reforma, passaria a ser pago em moeda (o que foi estabelecido também para outros tributos) e cobrado por um corpo de oficiais chamados de “Vindices“.  Essa mudança foi idealizada por um conselheiro chamado Marinus, um dos auxiliares mais próximos do imperador e que era um comerciante de origem síria.

Anastácio promoveu também mudanças nos critérios para fixação do módulo rural fiscal (jugera), com vistas a dividir melhor o fardo da obrigação de responder pelos tributos devidos pelas propriedades  abandonadas pelas propriedades maiores, isentando as menores).

Tão importante quanto o aumento das receitas, era, para Anastácio, a redução das despesas. De fato, ele se notabilizou por diminuir os gastos da Corte, o que lhe angariou, entre a nobreza de Constantinopla, acostumada com o luxo e o fausto, a fama de avarento.

Finalmente, outra medida positiva do reinado foi a introdução de uma nova moeda de cobre, o follis, que era utilizada principalmente pela população mais pobre para pequenas transações e que estava completamente desmoralizada pela péssima qualidade. E as moedas de ouro, que também tinham sofrido muito durante a crise das últimas décadas, foram revitalizadas e divididas em três tipos, e, de fato, moedas cunhadas durante o reinado de Anastácio seriam encontradas até na China.

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(Semissis de Anastácio I, foto de Classical Numismatic Group, Inc)

No campo religioso, área que, em Constantinopla, ocupava o centro da vida política do Império, Anastácio não obteve tanto sucesso.

Anastácio, apesar do compromisso de fé ortodoxa que ele assinou por exigência do Patriarca  Eufêmio, era Miafisita

Nota: o Miafisismo acredita que na pessoa una de Jesus Cristo,  a Divindade e a Humanidade estão reunidas em uma única ou singular natureza – “physis” – sem separação, sem confusão e sem alteração. E, ainda hoje, essa doutrina é professado em algumas igrejas orientais. A diferença entre o Miafisismo e o Credo Niceno-Ortodoxo é um tanto difícil de perceber para nós, modernos, e não é a toa que, hoje, uma discussão sobre detalhes complicados e pouco relevantes é chamada de “discussão bizantina”…

Assim, quando Anastácio I depôs Eufêmio, após uma controvérsia religiosa envolvendo os patriarcas de Alexandria e Jerusalém, que repudiavam o Concílio de Calcedônia, a população de Constantinopla ocupou o Hipódromo exigindo a restauração do seu Patriarca.

Um tumulto ainda mais sério ocorreu em 498 D.C., novamente no Hipódromo, após a prisão de membros da facção dos Verdes (os espectadores das corridas de cavalos em Roma, e depois, em Constantinopla, se reuniam em 4 facções, Verdes, Vermelhos, Azuis e Brancos, que depois, com o tempo, passaram também a expressar posições políticas e também religiosas).

Nesse episódio, um partidário dos Verdes chegou a arremessar uma pedra contra Anastácio, que escapou por pouco. Durante a repressão levada a cabo pelos soldados dos Excubitores, a turba ateou fogo ao Portão de Bronze do Hipódromo e o fogo se alastrou até o Fórum de Constantino.

Mosaico del circo MCGR 2285 by QuartierLatin1968 - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons - httpscommons.wikimedia.orgwikiFileMosaico_del_circo_MCGR_2285.jpg#mediaFileMosaico_

 

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(Reconstrução virtual do Hipódromo de Constantinopla, © 2010 byzantium1200.com)

Em 499 D.C., Anastácio proibiu os combates de homens contra feras, que ainda sobreviviam como reminiscência dos antigas lutas na arena que os romanos tanto apreciavam. E, em 501 D.C, após um filho ilegítimo seu morrer em um tumulto, ele proibiu o festival pagão das Brytae, no qual as danças, muito apreciadas pelo povo, frequentemente degeneravam em distúrbios.

Até, então, apesar de tudo, Anastácio vinha demonstrando uma considerável neutralidade nas  disputas eclesiásticas, respeitando o seu compromisso e a política conciliatória do “henotikon“, estabelecida por seu antecessor Zenão I, de não adotar expressamente nenhuma das teorias sobre a natureza de Cristo.

Porém, em 511 D.C., quando ele depôs o Patriarca de Calcedônia, substituindo-o por um bispo adepto do Monofisismo (onde Cristo somente teria uma natureza, a divina), iniciou-se uma crise que resultou, no ano seguinte, em uma revolta, onde a multidão adepta da ortodoxia aclamou como imperador o general Aerobindus, casado com Juliana Anicia, neta do falecido imperador romano do Ocidente, Valentiniano III e, portanto, integrante da dinastia Teodosiana.

Anastácio, então, mandou informar ao povo que iria abdicar e compareceu ao Hipódromo, sem a coroa, e, surpreendentemente, com esse gesto inesperado, a multidão acabou se acalmando e se contentou em pedir a punição de alguns ministros.

As inflamadas querelas religiosas, porém, continuaram a afligir o reinado, e elas foram um dos pretextos para uma revolta muito mais séria, comandada pelo general Vitaliano, que comandava uma tropa de soldados federados búlgaros na província da Trácia (O outro motivo foram as queixas dos soldados contra o comandante militar daquela província, Hypathius, que, incapaz de debelar a revolta, fugiu para Constantinopla).

Vitaliano e seu exército rebelde marcharam até os muros de Constantinopla, onde os oficiais de Vitaliano foram recebidos em audiência pelo Imperador e Anastácio conseguiu convencê-los a retornar para a Trácia, sob as promessas de donativos, da demissão de Hypathius e da devida solução para as controvérsias religiosas em favor da ortodoxia calcedônica.

De volta à Trácia, porém, Vitaliano desconfiou do novo comandante que Anastácio enviara para chefiar o exército naquela província, Cirilo, e assassinou o general. Reiniciada a rebelião, Anastácio teve que enviar um grande exército para a Trácia para combater Vitaliano,  a quem o Senado de Constantinopla, seguindo a antiga tradição romana, declarara “Inimigo Público“.

Vitaliano, contudo, em 513 D.C., obteve uma grande vitória contra as tropas do imperador e voltou a ameaçar Constantinopla, agora também com uma frota de 200 navios. Mais uma vez, Anastácio teve que negociar, dando dinheiro a Vitaliano e prometendo  restaurar os bispos adeptos do Concílio de Calcedônia e até mesmo a realização de um novo Concílio.

Como nada foi feito, no final de 515 D.C., Vitaliano voltou a sitiar Constantinopla, porém, desta vez, a sua frota foi destruída, pela utilização de uma arma química que prenunciava o célebre “Fogo Grego de Bizâncio” que seria adotado alguns séculos mais tarde, e o seu exército  foi derrotado pelo exército imperial comandado por Marinus. Em decorrência, Vitaliano fugiu e ficaria desaparecido por três anos.

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A imperatriz Ariadne morreu no mesmo ano de 515 D.C.

Anastácio viveu, como governante indisputado do Império Romano, por mais três anos. Consta que ele, sem conseguir decidir-se sobre qual dos seus três sobrinhos o sucederiam, resolveu esconder uma mensagem embaixo de uma almofada de um dos três sofás que ficavam em uma sala onde ele costumava recebê-los (um tradicional triclínio romano, tudo indica), para que aquele que sentasse na almofada sobre o bilhete fosse o escolhido.

Porém, dois dos sobrinhos teriam sentado em um sofá, o terceiro em outro e o sofá que escondia o bilhete acabou ficando vazio…

Então, assim frustrada a primeira tentativa, Anastácio teria decidido que o novo imperador seria a primeira pessoa que, no dia seguinte, entrasse no aposento. E, na manhã seguinte, Justino, o comandante da guarda imperial dos Excubitores foi o primeiro a entrar naquele cômodo…

 

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Anastácio não tinha filhos homens, apenas uma filha, Juliana, que mais tarde se casaria com o futuro imperador Justino II. Ele morreu com a avançada idade de 87 anos, em 9 de julho de 518 D.C. 

O escolhido para sucedê-lo foi Justino I, o Comandante dos Excubitores.t

CONCLUSÃO

Como resultado da sua boa administração econômica, quando Anastácio I morreu, havia no Tesouro Imperial 23 milhões de solidi, ou seja, 320 mil libras de ouro. Seu longo reinado de 27 anos e as muitas medidas sensatas que ele adotou foram muito importantes para assegurar a sobrevivência do Império e prepararam o terreno para o renascimento do poder imperial no reinado de Justiniano I, filho de seu sucessor.

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SEPTÍMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

SEPTIMIO SEVERO – DÉSPOTA APLICADO

Em 4 de fevereiro de 211 D.C., morre, aos 65 anos de idade, em Eburacum (atual York, na Inglaterra), o imperador Lucius Septimius Severus Eusebes Pertinax Augustus, nascido Lucius Septimius Severus, mais conhecido como Septímio, Sétimo ou Setímio Severo.

 

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Quando morreu, na longínqua província da Britânia, Severo estava no curso de uma campanha contra os bárbaros Caledônios, que acossavam a província romana a partir do outro lado da Muralha de Adriano. Era mais uma campanha militar de um imperador que, em seus 18 anos de reinado, passara quase todo o tempo incansavelmente em guerra,  contra muitos inimigos externos e também alguns internos.

Lucius Septimius Severus nasceu em 11 de abril do ano de 145 D.C, na cidade de Leptis Magna, na Província Romana da Tripolitania (atual Líbia), filho de Publius Septimius Geta e Fulvia Pia. O pai de Severo vinha de uma família de ancestralidade púnica, ou seja, ligada aos fundadores de Cartago, que eram oriundos da Fenícia, que, possivelmente,  tinha também algum sangue berbere, a população nativa da região.

O avô de Severo, também chamado Lucius Septimius, era da classe equestre, o segundo nível da nobreza romana. A esposa deste último, e avó paterna de Severo, Victoria, era filha de Marcus Vitorius Marcellus, que foi senador e consul suffectus,  em 105 D.C, e de Hosidia, filha de Gnaeus Hosidius Geta, que foi general, senador e consul suffectus, no ano de 49 D.C.

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(vista de Leptis Magna, foto de SashaCoachman)

Já a mãe de Severo, Fulvia Pia, era de uma antiga família plebéia que, ainda em meados do período republicano, ingressou na nobreza, obtendo vários consulados. Alguns Fúlvios provavelmente se mudaram para Leptis Magna quando a cidade foi reorganizada e recebeu políticas de incentivo por parte de Júlio César.

Leptis Magna, originalmente fundada pelos Púnicos, ou Cartagineses, no século VII A.C, era uma cidade rica que governava um território fértil,  extensamente cultivado. E, sendo uma das famílias mais ilustres da cidade, certamente os Severos deveriam ser também muito ricos.

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Assim, o jovem Severo recebeu a melhor educação que a cidade de Leptis Magna poderia fornecer, tendo sido educado em latim e grego. Entretanto, sabemos que Severo também falava o idioma púnico local, que talvez fosse até a sua língua de infância, pois as fontes relatam que ele falava latim com forte sotaque púnico. Severo deve também ter aprendido Oratória, pois, em Leptis, ele fez o seu primeiro discurso público, aos 17 anos.

Depois disso, certamente almejando horizontes maiores na vida do que os que Leptis lhe permitia, Severo, por volta de 162 D.C, partiu para Roma, a Meca de todos os jovens bem-nascidos do Império. Quando ele lá chegou, foi recomendado por um parente ilustre ao imperador Marco Aurélio, que, em virtude disso, mandou arrolá-lo, já que era descendente de cônsules, como membro da ordem senatorial, o cume da nobreza romana.

Com isso, abriram-se para Severo as portas do “cursus honorum” – a carreira das magistraturas – e ele foi nomeado um dos “Vigintivir”,  membro de um colégio de 26 magistrados juniores, que cuidavam, entre outras coisas, de casos judiciais menores e também da manutenção de estradas, ruas ou prédios públicos. Posteriormente, Severo foi nomeado advocatus fiscus, uma espécie de procurador público imperial.

Contudo, sendo ainda muito jovem para ocupar cargos mais elevados e,  tendo em vista a chegada a Roma de uma epidemia de peste, Severo resolveu voltar para Leptis Magna. Durante o tempo que ficou em sua terra natal, Severo completou 25 anos, a idade requerida para o cargo de Questor, e a epidemia em Roma abrandou, permitindo que ele voltasse para Roma, assumindo, em 169 D.C, aquele  prestigioso cargo.

Na condição de Questor, Severo pode, enfim,  ingressar no Senado Romano.

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Muitos cargos haviam ficado vagos em função da virulência da peste, que ceifou muitas vidas e isso permitiu que Severo progredisse ainda mais no serviço público. Ele foi nomeado Questor pela segunda vez, porém, logo foi surpreendido pelo repentino falecimento de seu pai e teve que voltar para Leptis para resolver assuntos ligados à sucessão e ao inventário do falecido.

Resolvidas as questões legais, Severo foi cumprir o resto do mandato de Questor na ilha da Sardenha, que estava temporariamente sob administração do Senado Romano. Depois disso, Severo foi servir com seu parente Gaius Septimius Severus, que tinha sido apontado Proconsulda África, na qualidade de Legatus pro Praetor, ou seja, general. De volta à Roma, em 174 D.C,  Severo foi escolhido, como candidato do próprio Imperador, Tribuno da Plebe.

 

Sem dúvida, Severo, até então, estava tendo uma carreira notavelmente promissora: apesar dos relatos dos historiadores de que ele era alvo de piadas em Roma por causa do seu forte sotaque púnico, estava claro que Severo estava sendo visto com simpatia pelos poderosos, e até pelo próprio Imperador, e, como relatamos no início, seu pedigree genealógico era suficiente para competir com outros candidatos aos cargos mais importantes.

Severo era um homem forte, embora de baixa estatura, e de pele bem morena, como os naturais do Norte da África. E um dos traços mais marcantes da sua personalidade era ser muito supersticioso, acreditando em sonhos premonitórios e astrologia, que frequentemente lhe prediziam um futuro brilhante. Ele se sentia muito ligado à sua Leptis Magna natal e por isso, não é de se estranhar que, quando Severo resolveu se casar, aos 30 anos de idade, ele escolheu uma esposa natural de Leptis, chamada Paccia Marciana, de família de origem púnica, como a sua.

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O casamento com Marciana durou dez anos e, se eles tiveram filhos (a História Augusta, considerada pouco confiável, relata duas meninas), eles não sobreviveram até a idade adulta. Marciana morreu por volta de 186 D.C.

Ainda segundo a História Augusta, o viúvo Severo, querendo se casar de novo, recorreu à ajuda de astrólogos para encontrar uma nova esposa. Nessa busca, Severo teria ouvido falar de uma mulher síria acerca de quem havia uma previsão de que ela se casaria, um dia, com um rei…

Severo foi até a Província da Síria e encontrou a mulher em questão, Júlia Domna, que era, ela mesma, descendente da casa real dos Sempsiceramidas e Soêmios, reis-sacerdotes da cidade síria de Emesa (atual Homs, na Síria), habitada por um povo de origem semítica árabe-beduína que falava aramaico. Além do incentivo da previsão astrológica, certamente Severo foi incentivado a casar-se com Júlia pelo fato de ser ela muito bonita. E, para completar, Emesa e os seus governantes sempsiceramidas eram riquíssimos…

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Com a aprovação do pai de Júlia Domna, Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus El-Gabal(Elagabalus, ou Heliogábalo, em latim), em Emesa, Severo e Júlia casaram -se em 187 D.C, logo seguindo-se o nascimento dos filhos Lucius Septimius Bassianus (que ficaria conhecido como o futuro imperador Caracala), ocorrido em 188 D.C, quando Severo governava a Gália, e Publius Septimius Geta, em 189 D.C.,  já quando Severo era governador da Sicília.

Vale notar que, desde 180 D.C., o imperador era Cômodo, que sucedera o pai, Marco Aurélio, mas, pelo visto, o nome de Severo continuou a gozar de prestígio junto ao trono.

De fato, o casamento parece ter dado uma nova turbinada na carreira de Severo e, em 190 D.C, ele foi nomeado Cônsul, a mais alta magistratura romana, sob recomendação do imperador Cômodo. E, no ano seguinte, Cômodo nomeou Severo governador da importante província da Panônia, na fronteira do rio Danúbio, o que implicava no comando de várias experimentadas legiões do Exército.

Foi nessa privilegiada posição que Severo encontrava-se quando o imperador Cômodo, após anos de tirania e de vários excessos, foi assassinado em um complô palaciano, em 31 de dezembro de 192 D.C.

O ano de 193 D.C começou com um novo imperador, Pertinax (Pertinace). Porém, antes que o ano terminasse, os romanos ainda veriam mais outros quatro ocuparem o trono, motivo pelo qual aquele ano passaria à História como “O Ano dos Cinco Imperadores”…

Assim, o  ambicioso Pertinace, Prefeito Urbano de Roma, ao saber da morte de Cômodo, na qual talvez ele até estivesse implicado, correu para o Quartel da Guarda Pretoriana, prometendo um grande donativo aos soldados, caso o aclamassem imperador. Eles assim o fizeram e o Senado, exultante pelo fim da tirania de Cômodo, imediatamente reconheceu o pretendente como Imperador. Porém, depois de quatro meses de um reinado promissor, um outro grupo dos insaciáveis pretorianos, sequiosos de dinheiro, assassinou Pertinace , que teve a sua cabeça em um poste.

Em um dos episódios mais vergonhosos da História de Roma, os gananciosos Pretorianos abordaram na rua o rico senador Dídio Juliano e insistiram para que ele aceitasse ser aclamado imperador, obviamente em troca do pagamento de uma grande soma de dinheiro. Ato contínuo, os soldados levaram Dídio Juliano para o Quartel da Guarda Pretoriana, onde, para a surpresa do pretendente, lá já estava outro candidato à púrpura imperial, Flávio Sulpiciano. Na presença dos dois, os Pretorianos promoveram um infame leilão do trono, que, após vários lances, foi ganho por Juliano, que ofereceu a cada soldado a quantia de 25 mil sestércios.

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(Busto de Dídio Juliano)

 

Aproveitando-se da debilidade do novo imperador, uma série de governadores de província, rebelaram-se, incluindo o próprio Severo, que foi aclamado imperador pelas próprias tropas, em 14 de abril de 193 D.C.

Antecipando-se aos seus rivais na sucessão, Severo, prometendo vingar a ignominiosa morte de Pertinax, marchou contra Roma, não sem antes assegurar-se de que um potencial rival, Clódio Albino (também ele um romano nascido na África, em Hadrumeto), o governador da Britânia, não reivindicasse o trono. Para obter a lealdade de Albino, Severo ofereceu-lhe o título de “César” (que equivalia, grosso modo, ao de príncipe-herdeiro), que foi aceito.

Entretanto, as legiões do Oriente  também aclamaram o seu comandante, Pescenius Niger (Pescênio Nigro), governador da Síria, imperador.

Antes de Severo chegar à Roma, contudo, boa parte do Senado já o estava apoiando. Assim, em 1º de junho, Dídio Juliano foi destituído pelo Senado e condenado à morte, após reinar por meros 66 dias. Esta sentença foi prontamente executada pelos próprios Pretorianos, aterrorizados com a aproximação das experimentadas legiões de Severo, as quais eles bem sabiam que não tinham a menor condição de enfrentar em batalha.

Desse modo, Severo entrou em Roma sem oposição, no dia 9 de junho de 193 D.C.

Cumprindo a sua promessa, Severo imediatamente puniu os pretorianos, mas de uma forma sorrateira: ele convidou a guarda pretoriana a um banquete no seu acampamento. Porém, quando os pretorianos chegaram, eles foram desarmados por uma força de soldados de Severo, que executaram os assassinos de Pertinace. Mais tarde, Severo substituiu os pretorianos por soldados originários da Panônia.

No Oriente,  Pescênio Nigro, governador da província da Síria, recusou aceitar Severo como imperador e ainda obteve o apoio da província do Egito. Severo marchou imediatamente para o leste e esmagou o indisciplinado exército de Nigro. A batalha decisiva aconteceu em Issos, na primavera de 194 D.C, e Nigro foi morto em Antióquia. A cabeça dele foi enviada à Severo, que estava instalado em Bizâncio.

Outra característica marcante de Severo era ser implacável com os inimigos, e isso se aplicava às províncias e cidades que haviam apoiado Nigro, que foram severamente punidas.

Em 195 D.C, Severo iniciou uma campanha contra o Império Parta e invadiu a Mesopotâmia, subjugando os árabes osroenes, adiabenes e cenitas, no que também era um acerto de contas pelo fato destes terem apoiado Nigro. Em um gesto simbólico de afirmação de sua origem púnica, Severo, nessa passagem pelo Oriente, mandou reformar com mármore o túmulo de Aníbal Barca, o grande general cartaginês e inimigo mortal de Roma, mas também o seu mais ilustre conterrâneo, que morreu exilado na Bitínia, no longínquo ano de 183 A.C.

Enquanto isso,  Clódio Albino, levando a sério o seu título de César,  começou a cunhar moedas como se fosse imperador, autointitulando -se Augusto.

Severo, que provavelmente sempre teve a intenção de se livrar do rival, deu a seu filho Lucius Septimius Bassianus, conhecido como Caracala ( um apelido dado pelo fato dele usar, costumeiramente, um manto de origem gaulesa, que tinha esse nome) o mesmo título de César, o que, na prática, significava a cassação do status de Albino, que, em seguida, foi declarado “Inimigo Público”.

Foi também 195 D.C que Severo proclamou que era filho do imperador Marco Aurélio, mudando o nome de seu filho Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de se legitimar como continuador da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara com o assassinato de Cômodo.

De fato, bem antes disso, Severo havia feito circular uma estória de que ele mesmo seria filho ilegítimo de Marco Aurélio, e era por esse motivo que ele fazia questão de se apresentar com corte de barba e cabelo idêntico ao utilizado por aquele finado imperador, sendo que os bustos de Severo mostram claramente essa semelhança (mas também devemos notar que barba e cabelo encaracolados eram a moda do período). Porém, esta pretensão de Severo nunca foi considerada  pela maioria dos historiadores antigos e modernos.

Em verdade, Severo e Albino, desde a revolta contra Dídio Juliano, provavelmente sempre estiveram tentando ganhar tempo até terem todas as condições de eliminarem um ao outro. Quando chegou a notícia de sua proscrição pelo Senado, em 196 D.C, Albino já estava preparado para invadir a Gália e, após derrotar o legado de Severo, Vinius Lupus, assumiu o controle da importante província, instalando-se em Lugdunum (Lyon).

Na inevitável guerra que se seguiu, Severo conseguiu derrotar Albino, na Batalha de Lugdunum, em 19 de fevereiro de 197 D.C. Foi uma batalha duríssima, segundo Dio Cassio, envolvendo 150 mil soldados de cada lado (número provavelmente exagerado). Severo ganhou o dia utilizando a sua cavalaria. Albino se matou ou foi capturado e executado, não se sabe ao certo. Porém, as fontes narram que Severo dispensou um tratamento cruel ao cadáver, que foi exposto nu e pisoteado pelo seu cavalo. A cabeça do rival foi decepada e enviada à Roma, como um alerta para futuros pretendentes. Lyon, como punição pelo apoio a Albino, foi saqueada.

Entre 197 e 199 D.C, foram travadas com sucesso uma série de campanhas contra o Império Parta que derivaram no estabelecimento da nova província da Mesopotâmia. Após a conquista de Ctesifonte, a capital dos Partas,  em cujo assédio faleceram cerca de 100 000 pessoas, os romanos apoderaram-se dos tesouros inimigos. Severo dedicou os cinco anos posteriores a organizar a administração da nova província, cuja existência, entretanto, jamais seria pacífica e teria curta duração, fadada a ser retomada pelos persas sassânidas, que destronaram os partas arsácidas.

Não obstante, as vitórias de Severo na região asseguraram o controle das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara e a supremacia regional de Roma até o ano de 251 D.C, ou seja, por quase 50 anos. Ficou, como testemunho dessa campanha, o Arco do Triunfo de Setímio Severo, no Fórum Romano, ainda existente.

Com efeito, a preocupação com o Exército e as questões militares foram o cerne da política governamental de Severo.

Ele começou por extinguir a Guarda Pretoriana e dispensar, com desonra, os seus integrantes. Em substituição, ele formou uma guarda com 10 coortes (cerca de 10 mil homens), com seus veteranos da Panônia. Depois,  ele ainda acantonou, nas cercanias de Roma, uma legião. Na prática, com essas últimas iniciativas, a Guarda seria reconstituída.

Depois,  Severo decretou um aumento de um terço para o salário dos soldados, o qual passou de 300 para 400 denários e aumentou o número de legiões de 30 para 33, medidas que, entretanto, provocaram um grande déficit público, causando inflação e prejudicando a economia imperial..

Severo ampliou a “Anona” militar, organizando-a oficialmente como uma instituição permanente de apoio aos soldados.

O imperador reformou o estatuto civil dos militares. De fato, até o reinado de Cláudio, os soldados não podiam sair do acampamento enquanto duravam os seus anos de serviço. Portanto, exigia-se  que eles não tivessem família por um número determinado de anos, dependendo da unidade a que pertenciam: os Pretorianos durante 15 anos, os legionários durante 20 anos e os auxiliares durante 30 anos. Cláudio reformara o sistema a fim de permitir os soldados saírem do acampamento quando não estivessem de serviço, facilitando-lhes assim fundarem uma família; porém,  ainda assim, até o reinado de Severo, eles não tinham direito a casar-se legalmente e reconhecer os seus filhos antes de concluir o seu tempo de serviço militar. Severo permitiu que os militares oficializassem a sua vida conjugal.

Como consequência dessa política, aumentou-se o número de cidadãos romanos, pois, com o status de casamento legal, os filhos dos soldados com as mulheres não-romanas que habitavam as proximidades dos acampamentos podiam aspirar à cidadania romana. Desse modo, podemos ver a “Constitutio Antoniniana” – lei editada pelo filho de Severo, Caracala, estendendo a cidadania romana a todo homem livre nascido no Império – como uma continuação dessa política de Severo.

Severo também estabeleceu novas honras militares, autorizando aos oficiais portar um anel de ouro, privilégio até então reservado aos cavaleiros.

Além dos assuntos militares, Severo também dedicou-se à assuntos administrativos e civis.

O imperador tinha como seu principal auxiliar, seu primo, Gaius Fulvius Plautianus, Prefeito Pretoriano,  e era também assessorado por juristas célebres, como Ulpiano e Papiniano,

Na Síria, de onde era natural a sua esposa, Severo criou duas novas províncias, para facilitar a administração local e, não menos importante, diminuir o poder do seu respectivo governador, que comandava várias legiões, que foram divididas entre as duas novas unidades geopolíticas.

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Depois de concluir a campanha no Oriente,  Severo visitou o Egito, onde ele rendeu homenagem ao corpo de Alexandre o Grande,  e, depois, navegou o rio Nilo até Tebas. Depois disso, ele dedicou-se aos assuntos de sua África natal, onde as tribos nativas dos Garamantes estavam causando problemas. Derrotados os inimigos, com a expansão do Limes Africanus, Severo pode estabelecer oficialmente a província da Numídia, separada da África, e, finalmente após esse périplo pelo Oriente e África, o imperador retornou  Roma, em 203 D.C.

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(Painel de madeira pintada, com as figuras de um Severo já grisalho, da imperatriz Júlia Domna e de seus filhos Caracala e Geta (rosto apagado). A pintura é proveniente do Egito e provavelmente foi pintada quando da viagem da família imperial pela Província, por volta do ano 200 D.C. Posteriormente, quando Caracala sucedeu ao pai e assassinou Geta, foi decretada a “damnatio memoriae” deste e, obedientemente, a imagem de Geta foi apagada dos monumentos públicos, bem como deste painel. É o único retrato pintado de um imperador e ele é valiosíssimo pois nos permite ver as cores das vestimentas e dos ornamentos imperiais, inclusive o cetro e a coroa, além da tez da pele e dos cabelos.)

 

Na capital do Império, Septímio Severo erigiu uma série de importantes construções: ele embelezou o lado sul do Palatino mediante a construção de uma monumental fonte chamada Septizódio, dedicada aos sete principais astros. Além disso, foi ampliado o palácio imperial, com a construção de uma nova ala (Domus Severiana), e ele também começou a construção dos banhos públicos que seriam conhecidos depois como Termas de Caracala, já que terminados no reinado de seu filho. Foram, ainda, restaurados muitos edifícios danificados pelos incêndios que decorreram no final do reinado de Cômodo, entre os que se encontravam: o Templo da Paz, o Teatro de Pompeu, o Pórtico de Otávia e o Arco de Nero.

(O Septizódio, cujas ruínas ainda podiam ser vistas no século XVI, e vista do Palatino, mostrando a Domus Severiana, na extrema direita – imagem de Cassius Ahenobarbus)

A cidade natal de Severo, Leptis Magna, também beneficiou-se amplamente em seu reinado, sendo embelezada com vários monumentos suntuosos: o Fórum de Severo, a Basílica de Severo, o Mercado e  grandes instalações portuárias.

(Arco, Anfiteatro, Mercado e Basílica de Leptis Magna, construídos durante o reinado de Severo. Fotos de SashaCoachman)

 

Septímio Severo tomou, ainda, algumas  significativas medidas judiciárias e assistenciais: A Presidência dos tribunais de apelação foi transferida aos Prefeitos Pretorianos, função antes realizada pelo imperador,  e foi instituída a distribuição gratuita de azeite de oliva, que se unia à tradicional repartição de trigo para a plebe.

A fim de consolidar a sua sucessão, Severo casou o seu filho Caracala com Plautilla, filha do Prefeito Pretoriano Plautianus (Plauciano). Esse casamento arranjado, porém, foi o início da discórdia entre Severo e seu antigo amigo e parente.

Caracala odiava Plauciano, e, após o casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com a esposa. Na verdade, consta que Caracala prometeu que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, esposa e sogro,  o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro. Plautiano foi acusado de traição por alguns centuriões em 205 D.C, subornados provavelmente por Caracala. Severo mandou executá-lo e Plautilla foi exilada na ilha de Lipari.

As relações de Severo com o Senado nunca foram boas, devido ao caráter marcadamente ditatorial do seu reinado. O imperador mandou executar dúzias de senadores sob variadas acusações de corrupção e conspiração, substituindo-os por homens fiéis ao trono.

Não obstante, entre a plebe romana, Septímio Severo gozava de popularidade, devido às medidas que ele tomou contra a corrupção generalizada que havia aumentado durante o reinado de Cômodo, e Severo ganhou a boa reputação de ter restabelecido a moralidade pública após os anos de decadência do governo anterior.

Contudo, o aumento vertiginoso das despesas militares, obrigou Severo a promover a maior desvalorização do denário desde o reinado de Nero, o que causaria uma grande inflação.

Nos anos finais do reinado de Severo, ocorreram muitos ataques das tribos caledônias que viviam além da Muralha de Adriano, que foram estimuladas pelo fato de Albino, quando da disputa com Severo pelo trono, haver zarpado para a Gália com praticamente todo o efetivo militar da Britânia.
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Em 207 D.C, o incansável Septímio Severo foi para a Britânia combater os Caledônios, levando consigo a esposa e os dois filhos, realizando várias campanhas no norte da Muralha de Adriano, que foi reforçada por ele. Todavia, esse esforço não foi suficiente para subjugar aquelas ferozes tribos, antepassadas dos escoceses.

As fontes narram que, preocupado com a instabilidade mental demonstrada por Caracala, Severo nomeou, em 209 D.C, seu filho mais novo, Geta, como “César”.

A campanha contra os Caledônios prosseguiu, com resistência maior do que se poderia supor, e a saúde do já sexagenário Severo não aguentou o tranco. Ele caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes um último conselho, em seu leito leito de morte, o qual ficaria célebre:

Não briguem entre si, deem dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum(York), aos 65 anos de idade,  Setímio Severo morreu e Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram interromper imediatamente a campanha e voltar para Roma.

Nove meses depois, Caracala mataria seu irmão Geta,  que se refugiara nos braços da mãe de ambos no próprio palácio, para reinar sozinho. Portanto, Caracala somente seguiria fielmente o segundo e o terceiro conselhos de seu pai…

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(Busto de Caracala, o sucessor de seu pai Severo, cuja expressão corresponde ao seu caráter violento)

CONCLUSÃO

Septímio Severo é um imperador controverso e o seu reinado é um dos mais difíceis de avaliar:  por um lado, ninguém pode negar que ele foi um servidor público incansável e muito dedicado ao dever de governar, tarefa que jamais foi por ele deixada de lado em prol dos prazeres e lazeres que Roma oferecia. De fato, Severo expandiu as fronteiras do Império Romano, visitou inúmeras províncias, venceu guerras e construiu importantes monumentos.

Mas Severo falhou em fazer uma reforma administrativa e tributária capaz de sustentar o aumento no efetivo e no orçamento militar, sendo que o aumento dos soldos acentuou uma tendência que comprometeria as finanças públicas dos reinados que se seguiram. Ironicamente, as benesses dadas aos soldados podem ter comprometido a disciplina militar, fato que seria observado no restante da dinastia inaugurada por ele.

Outra medida  que se considera negativa foi a proibição de que os senadores exercessem comandos militares. Essa vedação, que seria reforçada nos reinados seguintes, afastou a elite romana do serviço militar e acabou contribuindo para criar ou ampliar um estranhamento entre o Exército e o Senado, afastando completamente a aristocracia da carreira das armas, o que no futuro se revelaria nocivo.

E Severo falhou mais amplamente em seguir os quase cem anos de boa política sucessória dos Antoninos, dinastia que ele tinha a pretensão de fazer parte, ao escolher os incompetentes e despreparados Caracala e Geta como herdeiros, mas este, diga-se de passagem, foi um erro no qual o próprio “imperador-filósofo esclarecido” Marco Aurélio também incorreu. Quanto às numerosas execuções de senadores e rivais, talvez Severo não tenha sido diferente da maior parte de seus antecessores e sucessores. O fato é que ser imperador romano, especialmente no século III, como logo seria constatado, era uma das profissões mais perigosas do mundo.

ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

ZENÃO I – O BÁRBARO QUE VIROU IMPERADOR

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Em 9 de fevereiro de 474 D.C, em Constantinopla, Zenão I é coroado Imperador Romano do Oriente, juntamente com seu pequeno filho, Leão II.

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(Tremissis, moeda de ouro do imperador Zenão, foto Classical Numismatic Group)

Nascido em 425 D.C,  na cidade de Rusumblada (que depois seria rebatizada de Zenopolis), com o nome de Tarasicodissa, ou Tarasis Kodisa, Zenão I era chefe de uma tribo de Isáurios, um povo que, de vez em quando, era recrutado para lutar no exército do Império Romano do Oriente.

Assim, em 461 D.C, o imperador Leão I alistou os Isáurios para servirem na sua recém-formada guarda imperial, chamada de “Excubitores” – expressão que  tinha o significado de “sentinelas” ( literalmente, em latim, quer dizer “os do lado de fora da cama”).

Posteriormente, nos séculos VI e VII, os Excubitores seriam responsáveis por elevar vários imperadores ao trono, e, mais que isso, muitos Comes Excubitorii (Condes dos Exubitores) tornariam-se imperadores bizantinos, tais como Justino I,  o filho dele,  Justiniano I, Tibério II e Maurício.

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(Excubitores, em trajes de gala e de combate, protegendo o imperador)

A iniciativa de Leão de criar uma guarda composta por Isáurios visava diminuir a opressiva influência que os bárbaros germânicos, chefiados pelo  general bárbaro Áspar, exerciam desde o início do século V no governo oriental, pois, naquele momento, os germanos constituíam o esteio militar de Constantinopla.

Os Isáurios eram um povo de índole guerreira que habitava a Província romana da Cilícia, na Ásia Menor (dentro do território da atual Turquia). Apesar da região ter sido conquistada pelos romanos no século I D.C, os Isáurios nunca chegaram a ser totalmente subjugados. Em verdade, ao longo de  séculos de domínio nominal romano, eles foram apenas parcialmente romanizados, mas adotaram o cristianismo ortodoxo (Niceno), um fato que, naquele final do século V, os fazia bem mais aceitáveis para os cidadãos romanos do que os Godos ou Alanos ( os quais professavam a heresia ariana). Apesar disso, os Isáurios ainda eram considerados bárbaros pela maioria dos habitantes do Império.

(Mapa da Isáuria, Montanhas Atlas, que dominam a antiga região da Isáuria -foto de Zeynel Cebeci e o rio Göksu, na região – foto de Klaus-Peter Simon)

Em 466 D.C, marcando uma reviravolta no jogo do poder, Tarasis Kodisa, comandante isáurio dos Excubitores, acusou Ardabur, o filho mais velho do general Áspar de trair o império em favor dos velhos inimigos persas, o que contribuiu para piorar as relações entre Áspar e o Imperador.

Leão I, em 467 D.C, recompensou Tarasis Kodisa pelos seus bons serviços, dando-lhe em casamento a sua filha, a princesa Ariadne, e também reforçando a aliança com o militar isáurio, que, para se fazer mais aceitável para a Corte e para o povo, mudou seu nome para o de origem grega Zeno (ou Zenão). Antes que o casamento completasse um ano, Ariadne deu a luz ao filho de Zeno, que recebeu o mesmo nome do seu avô, o imperador Leão.

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(relevo de Ariadne, em marfim)

Enquanto isso, Áspar tentou recuperar sua posição na Corte persuadindo Leão a nomear seu filho mais novo, chamado Patrício, como “César” (título que na época do Baixo Império correspondia ao de príncipe-herdeiro) e a casá-lo com a outra filha do Imperador, Leôncia. Porém, o clero e a população de Constantinopla se opuseram veementemente às pretensões de Áspar, inclusive promovendo um grande tumulto no Hipódromo da capital, tendo em vista que o general bárbaro e o filho eram cristãos arianos. Assim, devido ao clamor público, Áspar, teve que se comprometer que ele se converteria ao credo niceno, antes que o casamento fosse realizado.

Contudo, após a  pretendida nomeação de Patrício, mas ainda antes do seu casamento, já em 471 D.C.., uma trama urdida por Leão I e Zenão conseguiu assassinar Áspar e seu filho mais velho, Ardabur, no interior do próprio Palácio Imperial. Algumas fontes informam que Patrício também foi morto,  e outras que, ferido, ele conseguiu sobreviver. Devido ao massacre, ocorrido em pleno Palácio, Leão foi apelidado de “O Açougueiro“…

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(Áspar, ostentando o traje e postura tradicional de Cônsul Romano, cargo que ele efetivamente ocupou, junto com seu filho Ardabur, retratado como Pretor – foto de Sailko)

Quando Leão morreu, em 18 de janeiro de 474 D.C,  sem conseguir gerar um filho varão, o  neto dele, e filho de Zenão, com o nome de Leão II, foi coroado imperador, com apenas 7 anos de idade. Porém,  ninguém tinha dúvida de que o homem-forte do Império era Zenão.

E, poucos dias mais tarde, também ninguém ficou surpreso, quando, não dando importância para as aparências, em 9 de fevereiro de 474 D.C, Zenão  foi nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador,  junto com o filho.

O reinado de Leão II duraria apenas 10 meses, pois o menino contraiu uma enfermidade não-identificada e morreu em 17 de novembro de 474 D.C., deixando seu pai Zenão I como Imperador Romano de fato e de direito.

Quase dois anos depois, em 4 de setembo de 476 D.C, Rômulo Augústulo, o Imperador Romano do Ocidente, na verdade um mero fantoche do general bárbaro Orestes, foi deposto pelo chefe da tribo dos mercenários hérulos,  Odoacro.

Odoacro, ao invés de arranjar outro nobre romano para ser sua marionete, surpreendentemente resolveu se nomear ‘Rei da Itália” (Rex) e, valendo-se de um dócil Senado Romano ( que, aparentemente, detestava mais ainda Constantinopla do que os bárbaros) enviou as insígnias imperiais* do Imperador do Ocidente para o imperador Zenão, em Constantinopla.

O fato é que Zenão e a corte de Constantinopla, na verdade, entendiam que Rômulo Augústulo era um usurpador, pois Leão I tinha nomeado Júlio Nepos, que ainda estava vivo e controlava a região da Dalmácia, como Imperador do Ocidente.

Assim, Zenão aceitou as insígnias imperiais de volta, mas recomendou a Odoacro que reconhecesse a autoridade de Júlio Nepos. E, diga-se de passagem, o chefe bárbaro,  agindo de modo conciliador, até cunhou moedas em nome de Nepos, como imperador, porém sem jamais permitir o retorno dele à Itália.

Juridicamente, assim, Zenão agora era o único Imperador Romano, soberano das metades oriental e ocidental do Império Romano. Contudo, a realidade fática era outra:  em verdade, ele não era capaz de projetar poder sobre as províncias do Ocidente, já que a última província ocidental efetivamente governada por Ravena – a capital do Ocidente- era a Itália controlada por Odoacro, sendo a única exceção um enclave romano na Gália, governado pelo chefe militar romano Siágrio, que, no entanto,  em breve seria aniquilado pelos Francos.

Por tudo isso, a data de 476 D.C é considerada pela maioria dos estudiosos como a da Queda do Império Romano do Ocidente que, além disso, marca o início oficial da Idade Média.

Desde o inicio, o reinado de Zenão foi abalado por revoltas e conspirações para derrubá-lo, pois sua origem bárbara tornava-o impopular junto ao Senado e ao povo de Constantinopla.

Assim, em 475 D.C, durante a revolta de Basilisco, o incompetente, porém ambicioso cunhado de Leão I, Zenão até teve que fugir da capital,. Mas o Isáurio conseguiria derrotar todas as revoltas, inclusive a de Marciano, em 479 D.C, e a de Illus, em 484-489 D.C).

Porém, naquele momento, a principal ameaça ao Império vinha dos Godos estabelecidos nos Bálcãs. Mas, para sorte dos romano-bizantinos, os bárbaros estavam divididos e Zenão, valendo-se disso, atuou para fomentar ainda mais a discórdia entre eles.

Com efeito, Zenão conseguiu persuadir Odorico, o novo rei dos Ostrogodos, ramo dos Godos que permanecia nos Bálcãs, a invadirem a Itália, visando a destronar Odoacro.

E esta talvez tenha sido a maior contribuição de Zenão ao Império do Oriente, pois, com a saída de Teodorico e seus Ostrogodos, a ameaça germânica foi afastada do Oriente.

Zenão I morreu em 9 de abril de 491 D.C., e seu sucessor, Anastácio, teve o o apoio da Imperatriz-viúva Ariadne, que se casaria com ele logo depois. Longinus, irmão de Zenão I, que tinha pretensões a suceder o irmão falecido no trono, instigou uma revolta na Isáuria, a qual, contudo, não teve sucesso, e ele acabou sendo exilado da Corte, no sul do Egito.

Leão I, Zenão e Anastácio foram importantes para assegurar a sobrevivência do Império do Oriente, livrando-o das maiores ameaças externas e assegurando uma estabilidade e continuidade administrativa, inclusive devido a longa duração dos três reinados.

*Acredita-se que as insígnias imperiais fossem um conjunto de objetos utilizados pelo imperador ou que o acompanhavam nas cerimônias públicas, tais como uma tiara ou coroa, um cetro,  um esfera, um estandarte, possivelmente com uma águia e/ou o monograma chi-ro, o manto imperial púrpura e os seu broche.

(Objetos como o cetro de Maxêncio, encontrado há alguns anos no Palatino, em Roma, ou aqueles retratados no calendário de Filócalo, de 354 D.C., ou, ainda, na pintura de Septímio Severo, de cerca de 200 D.C., deviam estar entre os objetos enviados por Odoacro a Zenão I, quando o primeiro destronou Rômulo Augústulo, o último imperador romano do Ocidente)

ANTONINO PIO – O IMPERADOR-MODELO

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Em 7 de março de 161 D.C, na cidade de Lório, na Etrúria, Itália,  morre o Imperador romano Antonino Pio.

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Nascido no ano de 19 de setembro de 86 D.C, próximo à antiga cidade latina de Lanúvio, na Itália, com o nome de Titus Aurelius Fulvus Boionus, Antonino era filho deTitus Aurelius Fulvius,  que seria cônsul em 89 D.C, sendo que o seu avô, que também tinha esse mesmo nome, havia sido cônsul em 85 D.C., tendo se destacado como general no início do governo de Vespasiano, ao derrotar os bárbaros roxolanos na fronteira do rio Danúbio.

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(Lanuvio, antiga Lanuvium, a 32 km a sudoeste de Roma, terra natal de Antonino Pio)

A família dos Aurélios Fúlvios era originária da Gália Narbonense,  sendo radicada na cidade de Nîmes (antiga Nemausum).

Por sua vez, a mãe de Antonino, Arria Fadilla, era filha de Gneaus Arrius Antoninus,  um senador que ocupou por duas vezes o consulado e que era muito amigo de Plínio, o Jovem, que o descreveu como ” um homem de caráter reto“. Os Árrios eram uma tradicional família da classe senatorial de Roma.

O pai de Antonino morreu em 89 D.C, motivo pelo qual ele foi criado pelo avô, de quem herdou o nome e as propriedades, passando a se chamar Titus Aurelius Fulvus Boionus Arrius Antoninus. A vultosa herança do avô materno, somada ao patrimônio herdado de seu pai, tornou Antonino um dos homens mais ricos do Império Romano.

Por volta de 110 D.C, Antonino casou-se com a belíssima Annia Galeria Faustina (Faustina, a Velha), filha de Marcus Annius Verus, o Velho, um conterrâneo (da Hispânia) e amigo chegado do futuro imperador Adriano, e que já tinha sido cônsul durante o reinado de Domiciano (e depois viria a ocupar o posto duas vezes durante o reinado de Adriano).

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(Faustina, a Velha)

O casamento com Faustina aproximou Antonino do circulo íntimo de Adriano. Assim, após exercer os cargos de questor e pretor, Antonino foi nomeado cônsul em 120 D.C. Depois, Adriano nomeou-o Procônsul da Itália e da África, em 134/135 D.C, cargos onde ele se destacou pela boa administração.

Sacramentando a confiança e a estima que Antonino gozava junto a Adriano, este, já enfermo, adotou-o como filho e herdeiro, em 25 de fevereiro de 138 D.C.,concedendo-lhe o poder tribunício e o império proconsular,  distinções que caracterizavam, segundo o costume imperial daquele tempo , o reconhecimento oficial dele como co-imperador.

A única condição imposta pelo imperador Adriano foi que Antonino, por sua vez, adotasse Marcus Annius Verus, o Jovem,  que era sobrinho de sua mulher Faustina ( e que se tornaria o futuro imperador Marco Aurélio), e Lucius Aelius Commodus (que reinaria junto com o primeiro com o nome de Lúcio Vero), filho de Lucius Aelius, quem, anteriomente, tinha sido adotado por Adriano, mas falecera devido a uma hemorragia.

Em 11 de julho de 138 D.C, um dia após a morte de Adriano, Antonino foi aclamado imperador pelo Senado Romano, em uma sucessão pacífica, seguindo a característica dos imperadores da dinastia que tinha sido iniciada por Nerva, em 96 D.C,  mas que acabaria por levar o seu nome (os Antoninos).

Uma das primeiras medidas de Antonino foi convencer o relutante Senado a “deificar” Adriano (Este, no final de seu reinado, havia se indisposto com aquela assembléia, executando alguns senadores acusados de conspiração). Essa devoção ao seu pai adotivo valeu a Antonino o cognome de “Pio”, conferido pelo Senado.

Diplomático e cortês, Antonino Pio, por sua vez, manteria boas relações com o Senado Romano durante todo o seu reinado. Com certeza, o fato de ser ele mesmo um membro de famílias que há muito tempo integravam a classe senatorial favoreceu a sua aceitação.

E o prolongado reinado de Antonino Pio ( o mais longo desde Augusto) foi marcado pela paz externa e interna (para os padrões romanos) e pela relativa prosperidade econômica.

De fato, os poucos conflitos externos foram breves e não muito sangrentos. A principal campanha foi na Britânia, resultando na construção da Muralha de Antonino, mais ao norte da Muralha de Adriano, em 142 D.C. Feita de turfa e protegendo uma fronteira mais curta, esse muro provavelmente foi resultado de um plano de Antonino de obter prestígio militar logo no início de seu reinado, já que o território conquistado parece não ter oferecido atrativos econômicos. Foram cunhadas moedas aludindo ao fato e  conferida uma “salutatio” ao Imperador. Contudo, oito anos após a sua construção,  a muralha foi abandonada e os romanos retornaram para a linha defensiva estabelecida pela Muralha de Adriano naquela Província.

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É preciso observar que, para alguns historiadores, a reiterada falta de interesse de Antonino pelas questões militares,  depois dessa inicial campanha britânica,  e que resultou em uma paz que daria  vinte anos de alívio aos inimigos de Roma, notadamente aos Germanos e Partas,  pode ter sido nociva ao Império Romano, conjecturando-se que eles se fortaleceram muito durante esse período.

Em 141 D.C, a sua amada imperatriz Faustina faleceu. Antonino mostrou o seu pesar e devoção pela esposa ordenando a construção de um templo no Fórum Romano, em honra de Faustina, que, a pedido dele,  havia sido deificada pelo Senado. Esse templo ainda existe (atual Igreja de San Lorenzo in Miranda) e, após a morte de Antonino, que também foi deificado, ele foi renomeado como “Templo de Antonino e Faustina“.

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Antonino também fundou, em memória de Faustina,  uma espécie de instituto de assistência para meninas pobres de família, chamado de “Meninas de Faustina“.

No campo jurídico, o reinado de Antonino foi marcado pela edição de várias leis em favor dos escravos, seja facilitando a alforria dos mesmos, seja prevendo penas para os proprietários que matassem os próprios escravos e estipulando a venda forçada para outro senhor, em caso de maus-tratos. A legislação de Antonino estabeleceu, ainda, a presunção legal de que, nos litígios envolvendo a liberdade, quando as provas fossem duvidosas,  o juiz deveria decidir a favor do escravo.

A situação da economia do império durante o reinado de Antonino foi próspera, mas ele foi obrigado, após os gastos com os festejos pelo 900º aniversário de Roma, a desvalorizar o denário de prata romano. Não obstante, quando ele morreu, Antonino deixou o Tesouro com uma impressionante reserva de 675 milhões de denários.

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Em 146 D.C, seu herdeiro Marco Aurélio casou-se com a única filha sobrevivente de Antonino, Faustina, a Jovem (seus outros três filhos com Faustina faleceram antes de sua ascensão ao trono).

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(Faustina, a Jovem, filha de Antonino Pio e esposa de Marco Aurélio)

A admiração de Marco Aurélio pelo genro ficou preservada em sua obra  “Meditações”, que assim descreve as qualidades de Antonino Pio:

Gentileza e resolução inabaláveis nas sentenças proferidas após exame minucioso; renúncia às honras exteriores; amor ao trabalho e à perseverança; presteza para ouvir aqueles que têm algo a contribuir para o bem estar público; o desejo de recompensar cada homem de acordo com o seu mérito, com imparcialidade”; (…)”sua energia na defesa de tudo o que fosse feito com a razão, sua equanimidade constante, sua expressão serena, sua doçura, seu desdém pela glória, sua ambição de dominar todos os problemas“.

Em 5 de março de 161 D.C., Antonino Pio descansava em sua antiga propriedade familiar em Lorium, a 19 km de Roma, onde ele tinha sido educado quando criança, quando, após comer  uma porção de queijo, começou a vomitar. Dois dias depois, no dia 7, ele morreria, com a avançada idade de 74 anos. Consta que,  na noite do dia anterior,  o tribuno da Guarda Pretoriana pediu a Antonino a senha para a vigília daquela noite, tendo o moribundo imperador escolhido esta:

Equanimitas” (Equanimidade)

Mais do que a senha para uma noite, equanimidade retratou o espírito do reinado de Antonino Pio.

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(Ruínas da chamada Villa Romana delle Collonace, em Lorium. A villa de Antonio Pio ainda não foi descoberta pelos arqueólogos)

RÔMULO AUGÚSTULO E O FIM DO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

# RômuloAugústulo #RomulusAugustulus

Em 04 de setembro de 476 D.C., o  bárbaro Odoacro, chefe militar dos Hérulos, e comandante de um exército de mercenários a serviço de Roma, depôs o jovem Imperador do Ocidente, Rômulo Augústulo, em sua capital Ravena, enviando-o para viver em paz próximo a Nápoles, e com o direito de receber uma pensão anual.

Em seguida, Odoacro, ao invés de escolher um fantoche para ser o novo Imperador Romano do Ocidente, como vinha ocorrendo nos últimos 20 anos, devolveu as insígnias imperiais ao Imperador Romano do Oriente, Zenão I, em Constantinopla, gesto que caracterizou o  que a maioria dos historiadores considera como o fim do Império Romano do Ocidente  (27 A.C – 476 D.C.). Porém, Zenão, embora tenha aceitado as insígnias, nunca reconheceu Rômulo Augustúlo como imperador legítimo, mas sim Júlio Nepos, que, naquele momento, controlava a Dalmácia, e ali se manteve até  480 D.C., quando foi assassinado.

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Assim, a data de 04 de setembro de 476 D.C. tradicionalmente marca o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média, muito embora discuta-se, e muito, se efetivamente ela representa o fim do Império do Ocidente, sendo que há várias opiniões respeitáveis defendendo que o que se chama de Queda do Império Romano não teria sido um evento, mas um processo, o qual  havia começado muito antes da referida data, e, igualmente, não estava terminado em 476 D.C, pensamento que também se aplica a própria Era Antiga.

Flavius Romulus (Rômulo Augústulo) era filho do general e político romano Orestes,  um cidadão romano natural da Panônia, que ascendeu no serviço público graças às suas ligações com os Hunos (ele chegou a ser notarius (secretário) de Átila, o Huno).

Orestes foi nomeado Comandante do Exército Romano do Ocidente (Magister Militum) por Júlio Nepos, que por sua vez havia sido nomeado Imperador Romano do Ocidente por Leão I, o Imperador Romano do Oriente que reinava em Constantinopla, no início de 474 D.C.,  para substituir Glicério, um governante que era considerado um usurpador pela corte oriental.

Porém, Orestes tinha outros planos e,  aproveitando-se do fato do Império Romano do Oriente estar conflagrado pela luta entre Zenão I, o sucessor de Leão I, e o usurpador Basilisco, o general,  valendo-se das tropas bárbaras que comandava,  depôs Júlio Nepos,  o qual teve que fugir para a Dalmácia.

No lugar de Júlio Nepos, Orestes, em 31 de outubro de 475 D.C., proclamou imperador o seu próprio filho, que adotou o nome de Flavius Romulus Augustus. Porém, como o rapaz somente tinha 15 anos de idade, ele logo ficaria conhecido como Romulus Augustulus, ou seja, “Rômulo, o Pequeno Augusto“, que foi reconhecido pelo Senado Romano. De fato, naquele momento, os senadores italianos pareciam mais satisfeitos em manter-se livres da influência da corte de Constantinopla do que livrar-se da ameaça dos bárbaros germânicos..

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Contudo, quando da aclamação de Rômulo Augústulo, os únicos territórios que o Império do Ocidente controlava, além da Itália, eram alguns  pequenos enclaves na Gália e na Ilíria.  Consequentemente, um dos principais problemas causados pela exiguidade desse território apresentou-se de imediato: a completa insuficiência de arrecadação…Assim, não tendo dinheiro para pagar os bandos de bárbaros que constituíam o que ainda se chamava de Exército Romano, uma revolta contra o novo imperador não tardou a acontecer.

Sem pagamento, uma coalizão de mercenários germânicos, majoritariamente Hérulos e Scirii exigiram que lhes fossem dadas terras correspondentes a um terço do território da Itália, aclamando o seu comandante, Odoacro, como “Rex Italiae” (Rei da Itália). Orestes, cujo poder e reconhecimento dependiam do apoio e do reconhecimento do Senado Romano, recusou.

Em 28 de agosto de 476 D.C. Orestes foi capturado pelas tropas comandadas por Odoacro e executado, próximo à Piacenza. Os mercenários avançaram contra Ravena, a capital do Império do Ocidente, que, apesar de uma breve resistência dos poucos soldados romanos que restavam, caiu, em 2 de setembro de 476 D.C.

Dois dias depois, Odoacro compeliu o jovem Rômulo Augustúlo a abdicar. Consta, todavia, que Odoacro, tomado de pena e também impressionado com a beleza do rapaz, decidiu poupar o imperador deposto e enviou-o para viver em uma vila romana fortificada no que hoje é a cidade de Nápoles, recebendo uma pensão de seis mil solidii de ouro. Essa villa, que havia pertencido ao riquíssimo aristocrata romano Lucius Licinius Lucullus (Lúculo), no século I A.C., hoje é o medieval Castello dell’Ovo (na foto abaixo)

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Em seguida Odoacro, marcando uma ruptura com uma prática de décadas, ao invés de colocar um fantoche seu no trono do Império Romano do Ocidente, resolveu aceitar o título de Rei da Itália, com o apoio implícito do Senado Romano.

Com efeito, Odoacro mandou devolver ao Imperador Romano do Oriente as insígnias imperiais, que acredita-se compunham-se principalmente do cetro e da coroa. Uma embaixada de senadores levou os objetos enviados por Odoacro até Constantinopla, acompanhada da mensagem do Senado Romano :

” A majestade de um monarca único é suficiente para proteger, ao mesmo tempo, o Mundo”

Ao aceitar as insígnias, consta que Zenão I respondeu aos senadores italianos, não sem um tom de reprimenda:

“Que os romanos do Ocidente tinham recebido dois homens enviados pelo Império do Oriente, expulsando um e matando o outro, Antêmio…”

Odoacro, entretanto, agiu de modo prudente e respeitoso para com o trono oriental, e continuou mantendo as aparências externas de que ele, no máximo,  se tornara um rei-cliente do Império Romano do Oriente…Ele até cunhou moedas ostentando o nome do Imperador Zenão I. Porém, Odoacro ignorou solenemente o mais importante dos pedidos do Imperador: a de que ele reconhecesse Júlio Nepos como o legítimo Imperador Romano do Ocidente. Nisso, com certeza, ele teve o apoio do Senado de Roma, que passou a cooperar intimamente com ele na administração da Itália.

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As evidências indicam que, em 507 D.C., Rômulo Augústulo ainda recebia uma pensão, que teria sido mantida pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que havia conquistado a Itália, após derrotar Odoacro, fundando o Reino Ostrogodo, que duraria até a reconquista da Itália pelo imperador Justiniano I, em 554 D.C.

Em uma grande ironia do destino, o jovem soberano, que tanto tinha o nome do lendário fundador de Roma, Rômulo, como também o do fundador do Império Romano, Augusto, terminou sendo o último soberano do Império Romano do Ocidente…

PETRÔNIO MÁXIMO – IMPERADOR DO OCIDENTE POR 11 SEMANAS, OS ANÍCIOS e AÉCIO – O ÚLTIMO DOS ROMANOS

 

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Flavius Anicius Petronius Maximus (Petrônio Máximo) nasceu por volta de 395 D.C. e provavelmente ele era filho de Anicius Probinus, Cônsul para o ano de 395 D.C. e Procônsul da África no ano seguinte, e neto de Sextus Claudius Petronius Probus, que foi Prefeito da Ilíria, Prefeito da Gália, Prefeito da Itália e Cônsul no ano de 371 D.C.

Os Anícios (Anicii) eram uma família rica, poderosa e muito influente da tradicional classe senatorial italiana, e os seus integrantes ocuparam vários cargos públicos importantes a partir do século IV D.C.

A influência dos Anícios perdurou, inclusive, após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C., pois eles continuaram ocupando várias magistraturas durante o reinado dos Ostrogodos, na Itália. O filósofo Boécio (Anicius Manlius Severinus Boethius), por exemplo, foi  senador e cônsul em 510 D.C. (o senado romano continuou a funcionar durante o reino Ostrogodo na Itália), antes de ser executado por ordens do rei germânico.

Em 523 D.C., Flavius Anicius Maximus celebrou a sua nomeação para o consulado celebrando os últimos jogos a serem realizados no Coliseu de Roma, envolvendo caçadas e lutas contra animais (venationes).

Inclusive, depois da reconquista da Itália pelo imperador romano do Oriente, Justiniano I, um dos membros da família, Anicius Faustus Albinus Basilius, foi o último romano a ocupar o cargo de Cônsul, em 541 D.C., ao lado do referido imperador, após o que o cargo foi incorporado como título exclusivo dos imperadores romanos do Oriente (vide painel de marfim abaixo com a imagem do Cônsul Anicius Albinus Basilius, ladeado pela personificação da cidade de Roma).

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Mais de um século depois da Queda do Império Romano do Ocidente, Gregório, o Grande, canonizado como São Gregório, cujo nome de nascença era Anicius Gregorius , foi Papa da Igreja Católica, de 590 a 604 D.C.

Um dos motivos para a ascensão dos Anícios, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande, é o fato de que eles eram cristãos, dentro de um Senado Romano ainda marcadamente pagão.

E Petrônio Máximo também seguiu uma carreira pública de sucesso, tendo ocupado sucessivamente os cargos de Pretor, em 411 D.C, de Tribuno, em 415 D.C, de Conde das Riquezas Sagradas (Comes Sacrae Largitionem, cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro Imperial), de 416 a 419 D.C, e nos dois anos seguintes, ele foi Prefeito Urbano de Roma. Depois disso, Petrônio foi Prefeito Pretoriano da Itália, por duas vezes, em 435 e 439/441 D.C., culminando a sua carreira com dois consulados, em 433 e 443 D.C.

Assim, a maior parte da carreira de Petrônio desenvolveu-se durante o reinado do Imperador do Ocidente Valentiniano III, que se caracterizou por um paulatino desmembramento do Império Romano, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os Vândalos, Suevos e Alanos se instalaram na Espanha e os Visigodos no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente, controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma.

O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado de Honório, antecessor de Valentiniano III, praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia de tropas bárbaras, cujos chefes cada vez mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C.), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas ocasiões em que o exército era comandado por um general de prestígio e de orientação patriótica, como no caso do marechal, meio-romano e meio-vândalo, Estilicão, que foi o Comandante do Exército do Ocidente durante o reinado do imperador Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e as empregavam no interesse de Roma.

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Estilicão (retratado no relevo de marfim acima), contudo, não conseguiu sobreviver à comoção que foi o saque de Roma pelos Godos comandados pelo rei Alarico. Outro fator que contribuiu para a queda de Estilicão foram as intrigas entre as cortes de Honório, em Ravena, e de seu irmão Arcádio, em Constantinopla.

Quando Honório morreu, em 423 D.C., o governo do Império do Ocidente ficou, durante algum tempo, nas mãos da Imperatriz Gala Placídia, filha de Teodósio, o Grande e irmã do falecido imperador, apoiada pelo Imperador do Oriente, Teodósio II, em Constantinopla (como o filho de Placídia, Valentiniano III, tinha apenas 6 anos, ela governou como regente de fato o Império Romano do Ocidente).

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(Alguns acreditam que este medalhão de vidro pintado retrate Gala Placídia, ladeada por Valentiniano III e Honória, mas provavelmente o objeto é mais antigo, do século III).

Vale notar que Gala Placídia foi levada como refém por Alarico, quando do saque de Roma e, depois que o rei bárbaro morreu, naquele mesmo ano (410 D.C.), ela teve que se casar, aparentemente não contra a sua vontade, com Ataulfo, o cunhado e sucessor de Alarico. Gala Placídia somente seria “restituída” ao Império Romano após a morte do marido, em 415 D.C.

Durante o reinado de Valentiniano III, um outro militar da estatura de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército, o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio.

Flávio Aécio, quando criança, foi entregue como refém aos godos e, por estes, aos hunos, durante a juventude, mas, valendo-se do seu talento de persuasão e de suas habilidades diplomáticas, Aécio conseguiu fazer contatos e ter boas relações com os hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.  Efetivamente, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os hunos, que, em diversas ocasiões, lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos visigodos, suevos, francos, burgúndios e outros bárbaros que, já instalados na Gália e Espanha, ou em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de Comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército que tinha a predileção de Gala Placídia, e, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar aos seus amigos hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos na luta. Os hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a nomeá-lo “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os vândalos aproveitaram-se indiretamente desse conflito e invadiram a África, província que era vital como fonte de fornecimento de grãos para o Império do Ocidente (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla), e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio para lidar com essas ameaças é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava: De fato, Flávio Aécio sempre procurou proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os burgúndios e conter os bagaudas, na Gália e, após uma sucessão de derrotas e vitórias contra os visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos bárbaros. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras recém-derrotadas e assentadas em áreas selecionadas do Império para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Em decorrência desses sucessos militares, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C.

Porém, em 451 D.C., Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C., resolveu atacar o Império do Ocidente, alegando um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, conseguiu enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

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Deve ter sido muito embaraçoso para Aécio junto à corte imperial e ao Senado o fato de que seus amigos hunos agora tinham se voltado contra o Império. O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram tomadas, saqueadas e incendiadas.

Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os visigodos, francos e alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando os aliados  aproximaram-se de Orleans, que estava sendo sitiada pelos hunos, Átila teve que abandonar o cerco às muralhas e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champanha. Ali, travou-se uma sangrenta batalha onde os visigodos e alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos. Foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que a Batalha de Châlons foi uma das batalhas mais importantes da História e o historiador romano-bizantino Procópio chamou Aécio de “O Último dos Romanos“. É, todavia, difícil chegar a uma conclusão sobre a importância crucial desta batalha, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império esfumaçou-se tão rápido como surgira.

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Contudo, também o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Châlons, Átila e os seus Hunos invadiriam a Itália. No avanço da horda, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa. Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto os hunos dirigiam-se para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, aparentemente devido a uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio ainda conseguiu casar o seu filho Gaudentius com a princesa Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e ainda por tabela colocando Gaudentius como um sério candidato à sucessão do trono. Isso certamente despertou muitos ciúmes no círculo da elite italiana, especialmente em Petrônio Máximo, que naquele momento era o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos.

Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Petrônio Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio junto a Valentiniano III, instigando o imperador contra o general. Assim, Petrônio aliou-se ao secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio, e os dois conseguiram persuadir Valentiniano III que Aécio planejava matá-lo.

Em seguida, Petrônio e Heraclius sugeriram que Valentiniano convocasse o general para um encontro no Palácio, nos aposentos imperiais, provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Aécio compareceu ao encontro e, enquanto apresentava um relatório, ele foi acusado pelo imperador Valentiniano III de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi subitamente atacado por Valentiniano III e Heraclius e acabou sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, uma vez que Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, enquanto que Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

“Se ele merecia morrer, eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a esquerda”…

Ainda segundo João de Antióquia, Petrônio Máximo tentou convencer Valentiniano III a nomeá-lo para o cargo de Aécio, mas foi convencido por Heraclius a não fazê-lo. Furioso com a recusa, consta que Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas bárbaros de Aécio, chamados Optelas e Thraustelas, a vingarem-se da morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III.

Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, os dois bárbaros mataram o imperador e apoderaram-se do seu manto e do diadema imperial, que foi entregue a Petrônio Máximo, que, com o apoio do Senado, imediatamente tomou o controle do Palácio Imperial e forçou Licí­nia Eudóxia, a viúva de Valentiniano III,  casar-se com ele, o que lhe ajudou a reivindicar com sucesso a condição de Imperador Romano do Ocidente, em 17 de março de 455 D.C.

O reinado de Petrônio Máximo, contudo, duraria pouco…As tropas que se mantinham fiéis graças ao prestígio de Aécio desapareceram e, na prática, não existia mais nada na Itália que pudesse ser chamado de exército romano. Geiserico, segundo algumas fontes, atendendo a um pedido da imperatriz-viúva, aproveitou para invadir a Itália e dirigiu-se para Roma, onde instalou-se o pânico.

Quando Petrônio Máximo soube do funesto fato, e encontrando o Palácio deserto, tentou fugir, mas foi ele acabou sendo descoberto e foi capturado por uma multidão furiosa que o linchou e o apedrejou, atirando seu corpo mutilado ao Tibre (segundo uma outra versão, ele teria sido morto por um soldado de nome Ursus). Era o dia 31 de maio de 455 D.C.

TRAJANO DÉCIO E A BATALHA DE ABRITUS

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(Busto de Trajano Décio, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Gaius Messius Quintus Decius (Trajano Décio) nasceu por volta do ano 200 D.C., ou talvez um pouco antes disso, na cidadezinha romana de Budalia (atual Martinci, na Sérvia), que ficava próxima à importante cidade de Sirmium, a capital da província romana da Panônia Inferior. Assim, considerando que, na segunda metade do século III D.C, muitos imperadores romanos nasceram em Sirmium e na região da Ilíria, alguns historiadores consideram que Décio teria sido o primeiro da longa lista de imperadores-soldados ilírios.

Contudo, a carreira de Décio aponta para uma origem senatorial provincial, e, provavelmente, a sua família era proveniente da aristocracia italiana que se mudou para a região para governar a província da Panônia, onde eles tornaram-se grandes proprietários de terras.

Em verdade, inscrições em monumentos apontam para alguns importantes funcionários de sobrenome “Messius” durante o século II D.C, embora não possamos afirmar com certeza que se tratem de antepassados de Décio.

Por volta de 227 D.C., Décio casou-se com Annia Cupressenia Herennia Etruscilla, que era integrante de uma ilustre família senatorial de antiga origem etrusca (como o seu cognome sugere), e que, tudo indica, tinha mais prestígio do que a família dos Messius, uma vez que o filho do casal, nascido em 227 D.C., recebeu o nome de Quintus Herennius Etruscus Messius Decius (Herênio Etrusco).

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(Moeda com a efígie de Herennia Etruscilla, foto de Rasiel)

Em 232 D.C., Décio foi nomeado Cônsul Suffectus, distinção que, dificilmente, teve relação com a carreira militar, tendo em vista a  idade que ele devia ter, de pouco mais de trinta anos.. Ele já deveria ser, então, Senador. Portanto, este é mais um indício de que a sua carreira não seguiu o curso que mais tarde todos imperadores ilírios percorreriam (de patentes no Exército para cargos de prestígio na administração imperial), desenvolvendo-se, ainda, no âmbito da tradicional política romana, onde os membros da classe senatorial eram nomeados para postos de comando no exército.

Posteriormente, Décio ocupou os cargos de governador das províncias da Moésia, da Germania Inferior e da Hispania Tarraconense. Essas indicações, ressaltamos, coadunam-se com uma carreira senatorial, dentro da divisão administrativa ainda em vigor iniciada por Augusto, como é o caso de outro cargo que Décio exerceu, o de Prefeito Urbano de Roma, no reinado do imperador Filipe, o Árabe (244-249 D.C.).

Décio, durante o reinado de Filipe, o Árabe, ganhou a confiança do imperador ao ser o único senador que, durante uma sessão do Senado, tentou convencê-lo a não abdicar em virtude de uma rebelião nas províncias da Moésia e da Panônia, liderada por Marinus Pacatianus, concomitante com uma outra revolta na Síria. Pacatianus chegou até a cunhar moedas como imperador, sendo por isso classificado como “usurpador” pelos historiadores).

Como resultado desse apoio, Décio, segundo consta, contra a sua própria vontade, segundo o relato do historiador Zózimo, foi designado por Filipe, o Árabe  para assumir o comando das legiões das províncias rebeldes no Danúbio em 248 D.C. Para essa designação certamente contribuiu o fato de Décio ser radicado na Panônia, onde ele devia ter muita influência e contatos. Assim, é bem possível que Décio, ao contrário do relato preservado por Zózimo,  tenha manobrado nesse sentido.

Uma das causas da revolta na Panônia foi o fato da disciplina das legiões do Danúbio estar em mau estado, em decorrência das frequentes incursões dos bárbaros chamados de “Carpi”.

Todavia, quando Décio chegou ao Danúbio, acompanhado do filho Herênio, as tropas já tinham assassinado Pacatianus,. O novo comandante causou boa impressão nas tropas, tanto por ser originário da região, como pelos cargos que até então ocupara e pelo seu “pedigree” senatorial.

Imediatamente, os soldados revoltosos perceberam que Décio era um nome bem plausível de ser aceito como imperador pelo Senado, sendo que, caso a insurreição fosse bem sucedida, a expectativa deles era a de receber gordos donativos).

Desse modo, as legiões da Panônia aclamaram Décio Imperador, vestindo-o com um manto púrpura.

Décio, inicialmente, hesitou , porém Filipe, o Árabe, assim que soube da aclamação, marchou com seu exército para confrontar a nova rebelião, em junho de 249 D.C..

Os exércitos rivais encontraram-se no norte da Itália, talvez nas cercanias de Verona, em setembro de 249 D.C., e as tropas lideradas por Décio, embora em menor número, levaram a melhor.

Filipe, o Árabe foi morto durante os combates, provavelmente por seus próprios soldados. A Guarda Pretoriana, em Roma, quando soube do resultado da batalha, assassinou o filho e herdeiro de Filipe, que então era apenas um menino.

As fontes do período são esparsas, mas podemos inferir que a ascensão de Décio foi bem vista pelo Senado Romano. Ele adotou o nome de Caesar Gaius Messius Quintus Trajanus Decius Augustus (ele ficaria conhecido como Trajano Décio), referendado pelo Senado.

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Certamente a adoção do nome “Trajano” soava como uma declaração de princípios, pois Marco Úlpio Trajano havia sido um imperador bem sucedido, tanto nos empreendimentos militares, como nas relações amistosas e respeitosas para com o Senado Roman (motivo pelo qual esta assembleia agraciou-o com o título de “Optimus Princeps”).

A política traçada por Trajano Décio visou restaurar as tradições e instituições do “Século de Ouro” do Império, o século II D.C, durante a dinastia dos Nerva-Antoninos, a qual o finado Trajano pertencia.

De fato, Décio e os seus contemporâneos eram romanos que tinham crescido e iniciado suas carreiras nos reinados dos sucessores de Septímio Severo, onde se verificou uma grande orientalização da política e da religião romana, sendo que até mesmo um deles, Heliogábalo (ou Elagábalo) foi sumo-sacerdote de um deus sírio, cujo culto ele chegou a trasladar para Roma.

Portanto, era natural que esses homens atribuíssem a crise do Império ao abandono da religião e do modo de vida tradicional romanos.

Assim, Trajano Décio promulgou um Édito, cujo teor literal, é o seguinte:

Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício”.

Embora a lei não fosse dirigida a nenhuma religião em particular, os fiéis do Cristianismo sentiram-se os mais atingidos pela medida, e os autores cristãos posteriores registrariam o decreto de Décio como uma das várias perseguições que os imperadores moveram contra sua fé.

Na verdade, a medida em questão era mais um exemplo de um programa conservador de governo, como se constata de outra medida de Décio, que foi a recriação do cargo de Censor, que, durante a República era uma das mais importantes magistraturas, encarregada não apenas de recensear os cidadãos, mas de catalogá-los de acordo com a sua ancestralidade, estirpe e classe social, inscrevendo-os nas listas de cidadãos de acordo com a sua dignidade, do que resultava a elegibilidade para os diversos cargos e funções públicas.

Além disso, os Censores eram responsáveis por fiscalizar os costumes e a moralidade públicas. Provavelmente, a reinstituição da Censura era uma tentativa de reorganizar a nobreza romana no interesse do Estado. Porém, a medida não seria implementada, pois o primeiro escolhido, o futuro imperador Valeriano, declinou, e logo a situação militar atraíria a atenção total de Décio.

Em outra manifestação da sua política de restauração dos tempos de glória, Trajano Décio iniciou a construção de suas Termas, ou Banhos de Décio, no bairro romano do Aventino, além do Pórtico de Décio e da restauração do Coliseu. Vale citar que antes disso fazia 20 anos que a cidade de Roma não via uma obra de vulto.

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A revolta de Jotapiano, na Síria, iniciada durante o reinado de Filipe, o Árabe, foi rapidamente debelada pelos próprios soldados revoltosos, bem no início do reinado de Décio.

Infelizmente, durante o reinado de Décio, grassou uma nova epidemia da Peste Antoniniana, que surgira durante o reinado de Marco Aurélio, ceifando milhares de vidas em Roma.

Porém, o grande problema que Décio enfrentaria seria a primeira incursão dos Godos em território romano, cruzando o rio Danúbio.

Em 250 D.C., os Godos, liderados pelo seu rei, Cniva, liderando uma provável coalizão de tribos bárbaras  (as fontes falam em “Citas”, mas estudos demonstram que se tratavam majoritariamente de Godos, além de, provavelmente, Vândalos e outros povos), atacaram as províncias da Moésia e da Trácia, aproveitando que Décio estava ocupado combatendo os Carpi, os quais ele acabou expulsando da Dácia.

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Ainda durante o ano de 250 D.C., os Godos sitiaram as cidades de Marcianópolis (atual Devnya, na Bulgária), de Novae (de onde eles foram repelidos pelo governador e futuro imperador, Treboniano Galo), e de Nicópolis, no Danúbio (no norte da atual Bulgária). Porém,  a chegada do grande exército comandado por Décio obrigou os bárbaros a fugirem para o sul e eles foram perseguidos até a cidade de Augusta Traiana (Beroe, atual Stara Zagora, na Bulgária). Neste local, os Godos conseguiram atacar com sucesso o acampamento romano, dispersando o exército.

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(Anfiteatro de Augusta Traiana, atual Stara Zagora, foto de Benutzer:DALIBRI)

Em maio de 251 D.C., durante essa campanha, Décio conferiu a Herênio Etrusco o título de Augusto, nomeando-o, assim, co-imperador.

Após derrotar os romanos na Batalha de Beroe, Cniva comandou os bárbaros na tomada e no saque da importante cidade de Philipopolis, na Trácia (atual Plodviv, na Bulgária), também em  251 D.C..

Esse desastre, inclusive, incentivou o governador da Trácia, Titus Julius Priscus, a autoproclama-se “imperador, sob a “proteção” dos Godos”, mas o Senado  Romano imediatamente declarou-o como “Inimigo Público” e Priscus foi morto pelos próprios soldados.

Enquanto isso, Décio e Herênio conseguiram reagrupar o Exército e alcançaram Cniva nas cercanias de Philipopolis, onde houve um combate que terminou com a trágica morte de Herênio, que foi atingido por uma flecha, em junho de 251 D.C.

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(Moeda de Herennius, foto de Gfawkes05 )

 

Nesse trágico episódio, Décio, após ser informado da morte do filho, tentando mostrar determinação para os seus comandados, disse a célebre frase:

“Que ninguém lamente. A morte de somente um soldado não é uma grande perda para o Império!”

Cniva e os Godos decidiram se retirar do território romano e voltar para a sua base territorial ( que ficava provavelmente entre a Polônia e a Ucrânia), levando o produto do saque e vários prisioneiros ilustres (para os quais certamente eles  pediriam um alto resgate).

Todavia, Décio resolveu perseguir os bárbaros e derrotá-los antes que deixassem o Império.

 

A BATALHA DE ABRITUS

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(Mapa das invasões bárbaras combatidas por Décio, de Dipa1965 )

Décio perseguiu os Godos até 100 km ao norte de Nicópolis, quando os mesmos já estavam aproximando-se da fronteira do Império Romano.

Informando da aproximação do exército romano, próximo à cidade romana de Abritus (situada nas cercanias da moderna Razgrad, na Bulgária), Cniva, que conhecia bem aquele terreno, dividiu as suas forças em três linhas, colocando a última atrás de um pântano.

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(Achados arqueológicos sugerem que a Batalha de Abritus teria ocorrido no local que hoje é esse campo. Foto extraída da página https://brewminate.com/roman-goth-battle-of-abritus-251-ce-battlefield-identified-near-bulgarias-dryanovets/)

Em 1º de julho de 251 D.C. (data mencionada por algumas fontes), Trajano Décio conseguiu repelir as primeiras linhas do exército bárbaro, mas ao entrar no pântano, ele foi emboscado pelos Godos de Cniva que, fazendo jorrar lanças e flechas sobre os legionários, massacraram os romanos. O corpo do imperador, que morreu combatendo bravamente até o fim, jamais seria encontrado. Anos depois, um altar em honra de Trajano Décio seria erguido no local de sua morte.

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(Alguns acreditam que esse relevo, que faz parte do sarcófago Ludovisi, exposto no Palazzo Altemps, em Roma, retrate Trajano Décio e Herênio em luta contra os Godos).

Segundo o historiador Zózimo, no epísódio os Godos teriam tido algum auxílio do governador da Moésia, Treboniano Galo, mas o relato não parece crível, pois os as tropas sobreviventes da catástrofe de Abritus aclamaram Treboniano imperador (o que dificilmente se enquadraria no código de conduta dos soldados romanos de qualquer época) e Treboniano reconheceu como coimperador Hostiliano, o filho sobrevivente de Trajano Décio, que tinha cerca de 20 anos de idade e havia ficado em Roma, onde tinha sido nomeado ‘César” por Décio (título equivalente a príncipe-herdeiro). Treboniano também manteve o status de imperatriz de Herennia Etruscilla, a viúva de Décio.

Contudo, ainda naquele sombrio ano de 251 D.C., Hostiliano faleceria em virtude da epidemia de peste, em novembro.

CONSEQUÊNCIAS

A Batalha de Abritus foi um dos maiores desastres militares da História de Roma. Apesar disso, ela  é quase desconhecida do público e sequer aparece nas listas das batalha romanas mais importantes, como é o caso das Batalhas de Canas, Teutoburgo ou Adrianópolis. Entretanto, foi a primeira vez que um imperador romano morreu em combate (tecnicamente, Herênio, que tinha sido nomeado Augusto por Décio, foi o primeiro), o que abateu o moral romano e turbinou o dos bárbaros.

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Outra consequência desastrosa para o Império, que estudos recentes parecem demonstrar, foi o fato de que Trajano Décio muito provavelmente levava com ele todo o tesouro do Estado Romano, que foi  inteiramente capturado pelos bárbaros!

Segundo o arqueólogo e numismata polonês Aleksander Bursche, a grande quantidade de achados de moedas de ouro (aurei) novas, cunhadas por Décio e seus antecessores imediatos, com características de nunca terem entrado em circulação e terem sido cortadas e perfuradas cerimonialmente (com a destruição do retrato do imperador inimigo), procedimento que era costume dos bárbaros germânicos para com os despojos ganhos em batalha e encontradas na Polônia e na Ucrânia, em regiões nas quais a arqueologia identificou vestígios das culturas associadas com os Godos no século III D.C, tudo isso aponta para um grande butim que pode ser estimado em várias toneladas de ouro.

(acessível no link https://www.academia.edu/1321300/The_Battle_of_Abrittus_the_Imperial_Treasury_and_Aurei_in_Barbaricum_Numismatic_Chronicle_173_2013_s._151-170

 

Para Bursche, a perda de tamanha quantidade de ouro seria a causa direta da deterioração da qualidade do “aureus”, nos reinados dos sucessores de Décio, inclusive seu filho Hostiliano, que, embora estivesse em Roma, não cunhou nenhuma moeda de ouro, como seria tradicionalmente esperado quando da ascensão de um imperador, muito provavelmente pela falta de ouro no Tesouro Imperial. E. ainda de acordo com Bursche, os “aurei” cunhados por Treboniano Galo, Valeriano e Galieno apresentavam um percentual de ouro muito menor do que o  das moedas cunhadas por Décio.

Portanto, a derrota na Batalha de Abritus e a morte de Décio foi um fator fundamental no aprofundamento da chamada Crise do Século III do Império Romano, iniciada após a dinastia dos Severos.

CONCLUSÃO

Trajano Décio parece ter sido um imperador patriota e bem-intencionado. Podemos criticar, com o distanciamento de quase dois milênios, as suas medidas como sendo ingênuas ou inócuas, tais como o decreto impondo o sacrifício obrigatório aos deuses ancestrais ou a recriação da Censura, mas essas eram tentativas sinceras de interpretar as causas e procurar soluções para a decadência do Império em contraste com as glórias do passado. De fato, não se pode acusar Décio de omissão ou absenteísmo no exercício do governo, e mesmo a decisão taticamente equivocada de perseguir os Godos até a fronteira, seja para manter o prestígio romano, seja para vingar a morte do filho, diz mais favoravelmente sobre a nobreza do seu caráter do que sobre a sua eventual incompetência.

Com efeito, os bustos de Décio que sobreviveram ostentam a representação de um homem preocupado e angustiado e eles são a melhor imagem da crise romana do século III D.C.

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DÍDIO JULIANO – UM LANCE MORTAL

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Didius Julianus

 

Em 1º de junho de 193 D.C., o imperador romano Dídio Juliano foi executado por um soldado no interior do próprio Palácio Imperial, cumprindo uma decisão do Senado que o havia sentenciado à morte.

Após o assassinato do imperador Cômodo, no último dia de 192 D.C., o ano de 193 D.C. tinha começado com um novo imperador, Pertinace, que apesar do início promissor, não conseguiu conter a insaciável Guarda Pretoriana e foi assassinado, em 28 de março, por um grupo de pretorianos, insatisfeitos por não terem recebido o donativo que havia sido prometido quando da ascensão do novo imperador ao trono. E, após este infame assassinato, aquele tumultuado ano ainda testemunharia mais quatro imperadores serem aclamados, motivo pelo qual ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Dídio Juliano nasceu em Mediolanum (atual Milão), em 30 de janeiro de 133 D.C, (uma outra fonte cita a data de 02 de fevereiro de 137 D.C). Ele era filho de Quintus Petronius Didius Severus e de Aemilia Clara, esta pertencente a uma família norte-africana, radicada em Hadrumetum (atual Sousse, na Tunísia), mas que descendia da nobreza romana.

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(Trecho das muralhas romanas de Mediolanum, atual Milão)

Já a família paterna de Dídio Juliano era uma das mais antigas de Mediolanum, cidade originalmente povoada por um povo celta, os Insubres. Em 194 A.C., após décadas de hostilidade, os Insubres se aliaram aos romanos, obtendo, em 89 A.C., a cidadania latina, e,  finalmente, em 49 A.C., a cidadania romana.

O avô paterno de Dídio Juliano, Quintus Petronius Severus, foi um general bem-sucedido, e a sua avó, Didia Jucunda pertencia à gens Didia, uma família plebéia de “novos homens”, sendo que um de seus antepassados alcançara o consulado em 89 A.C.

Pelo lado materno, Dídio Juliano era parente, talvez neto ou sobrinho, não se sabe ao certo, do famoso jurista Salvius Julianus, que compilou e codificou, durante o reinado do imperador Adriano, os Éditos dos Pretores (juízes) romanos (espécies de súmulas de jurisprudência e normas processuais), promulgados durante a República e que nunca haviam sido sistematizados.

Salvius Julianus também era nativo da região de Hadrumetum (vilarejo de Pupput) e é possível que a mãe de Dídio Juliano fosse sua filha ou sobrinha. Salvius também era membro do Conselho Privado do Imperador Adriano, uma posição que ele manteve no reinado do sucessor deste, Antonino Pio,  culminando a sua carreira com a nomeação para o cargo de Cônsul, no ano de 148 D.C.

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(Ruínas romanas de Pupput, na Tunísia, terra natal de Salvius Julianus)

A proximidade de Salvius Julianus com os imperadores Adriano e Antonino Pio provavelmente é a explicação para o fato de Dídio Juliano, após a morte de seu pai, haver sido criado na casa de Domitia Lucilla, mãe do imperador Marco Aurélio e cunhada da esposa de Antonino Pio.

Assim, Domitia Lucilla ajudou seu protegido Dídio Juliano a ser nomeado para o colégio de magistrados chamado Vigintivirati, que era o primeiro passo para uma carreira pública no Império Romano daquele período.

Por volta de 153 D.C, Dídio Juliano casou-se com Manlia Scatilla, integrante de uma ilustre família senatorial, que, naquele mesmo ano, deu à luz à única filha e descendente do marido, a qual eles deram o nome de Didia Clara.

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(Moeda com a efígie de Manlia Scatilla, esposa de Dídio Juliano, foto de Rasiel Suarez )

E, durante a dinastia dos Antoninos, Dídio Juliano continuou prosperando, ocupando, sucessivamente, os cargos de Questor, Edil e, em 162 D.C., de Pretor militar, sendo nomeado comandante da Legião XXII Primigenia, estacionada em Moguntiatum (atual Mainz, na Alemanha). Mais tarde, em 170 D.C.,  ele foi nomeado Prefeito da Gália Bélgica, servindo nessa qualidade por cinco anos, período no qual ele reprimiu uma invasão da tribo germânica dos Chauci.

Em reconhecimento dos seus serviços nas províncias, Dídio Juliano foi nomeado para a mais importante magistratura tradicional romana, o Consulado, no ano de 175 D.C., tendo como colega o futuro imperador Pertinace.

Posteriormente, Dídio Juliano, que por então havia se tornado um homem muito rico, foi Governador da Dalmácia e da Germânia Inferior, e, após voltar à Roma, ele foi designado Prefeito encarregado da distribuição de dinheiro aos pobres da Itália. Nesse cargo, ele foi acusado de estar associado a uma conspiração contra o imperador Cômodo, que já havia sucedido Marco Aurélio. Contudo, ele foi inocentado e voltou a ocupar cargos importantes, tais como os de governador da Bitínia e de Procônsul da África, sucedendo, neste último cargo, Pertinace.

 

Quando Cômodo foi morto, em um complô palaciano que envolveu a amante do imperador, seu camareiro e o Prefeito Pretoriano, Quintus Aemilius Laetus, que, certamente, devem ter sido apoiados por vários senadores, Pertinace foi levado para o quartel da Guarda Pretoriana e ali aclamado imperador.

Não obstante a forma com que ele chegou ao trono, Pertinace, desde o início, demostrou que pretendia restaurar os procedimentos de seriedade na administração que nortearam os reinados dos imperadores da dinastia dos Antoninos, até o fim do reinado de Marco Aurélio.

Porém, quando os pretorianos perceberam que eles não iriam receber a recompensa esperada pela nomeação de Pertinace ao trono, cerca de 200 guardas invadiram o Palácio, em 28 de março de 193 D.C., e mataram o recém-nomeado Pertinace, cujo reinado durou apenas 86 dias.

Em seguida ao assassinato de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os guardas pretorianos saíram pela cidade de Roma à procura de candidatos para quem eles pudessem vender o trono imperial.  Assim, um grupo de soldados levou para o Quartel o Prefeito Urbano Sulpiciano, sogro de Cômodo, com quem começaram a negociar o preço pela sua aclamação!

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(Relevo dos Pretorianos, séc. I D.C., Louvre. Acredita-se que os soldados retratados sejam guardas pretorianos, que usavam  tradicionais uniformes e equipamentos antigos da época republicana, da mesma forma que as guardas imperiais ou presidenciais fazem hoje em dia. Foto em Historien spécialiste du bassin minier du Nord-Pas-de-Calais JÄNNICK Jérémy / Wikimedia Commons & Louvre-Lens)

Enquanto isso ocorria, Dídio Juliano, que segundo o historiador Dião Cássio, era, ao mesmo tempo, ganancioso e desregrado, estava em um banquete e, encorajado pelos presentes, incluindo sua esposa e filha, resolveu ir ao Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria) para testar a sua sorte.

Diga-se de passagem, que havia, de fato, alguns aspectos aptos a encorajar Dídio Juliano nessa ousada empreitada: Ele teve muita proximidade com a dinastia dos Antoninos, ocupou cargos importantes, inclusive o Consulado, e a sua trajetória política parecia que estava sempre seguindo diretamente os passos do finado imperador Pertinace (consta até que este, quando vivo,chegou a fazer brincadeiras neste sentido).

Segundo outra versão, Dídio Juliano foi até à Cúria do Senado Romano para tentar ser aclamado pelos seus pares, mas, achando o prédio fechado, ele acabou sendo levado por dois tribunos da Guarda Pretoriana até o Castra Pretoria.

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(Ruínas dos muros do Castra Pretoria, em Roma, no século XVIII, gravura de Giovanni Battista Piranesi)

Lá chegando,  Dídio Juliano, ainda do lado de fora dos muros, ao ouvir a negociação de Sulpiciano com os Guardas, começou a gritar, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. Ele também enfatizou aos militares que Sulpiciano, sendo sogro de Cômodo, poderia tentar responsabilizá-los pela morte daquele imperador.

Assim, Dídio Juliano foi admitido a entrar no Quartel e, logo, o triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, que parecia que iria ser vencido por Sulpiciano, pelo valor de 20 mil sestércios para cada Pretoriano. Porém, Dídio Juliano subiu o lance e, oferecendo 25 mil sestércios, acabou sendo o vitorioso. O Senado, intimidado, reconheceu a aclamação, no mesmo dia 28 de março de 193 D.C.

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(Aureus de Dídio Juliano)

Contudo, a população nunca aceitou a forma como Dídio Juliano havia obtido o trono. Logo, o novo imperador passou a ser vaiado em público. Além disso, o fato é que Pertinace, apesar de reinar apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Em pouco tempo, a insatisfação espalhou-se pelas províncias e  os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger foriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões.

A única medida conhecida do governo de Dídio Juliano foi desvalorizar a moeda romana para o percentual de prata anterior ao reinado de Pertinace.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, ele ordenou que muitos dos seus soldados entrassem em Roma disfarçados. Além disso, a Guarda Pretoriana não era páreo para o experimentado exército da Ilíria. Quando percebeu-se que a derrota do imperador era só uma questão de tempo, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu Severo como imperador. Antes disso, a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes,já havia abandonado o imperador a quem tinha vendido o trono.

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(Cabeça de bronze de Septímio Severo)

Dídio Juliano, em 1º de junho de 193 D.C., foi abordado por um soldado que, em cumprimento à ordem emanada do Senado, executou-o no interior do próprio Palácio, em seus aposentos. Ele havia reinado por apenas 66 dias.

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Níger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace, fazendo com que o Senado “deificasse” o falecido e prestando, ele mesmo, várias honras à memória daquele infeliz imperador.

Severo poupou a esposa de Dídio Juliano, Manlia Scatilla, e a sua filha, Didia Clara (que, consta, era uma das mulheres mais lindas de Roma). Porém, ambas perderam os títulos de imperatrizes. Elas receberam autorização para sepultar o corpo do marido e pai no Mausoléu de Salvius Julianus, que ficava no marco das 50 milhas da Via Labicana, nos arredores de Roma.

 

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SEVERO, O TETRARCA

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Em 16 de setembro de 307 D.C., o Imperador Romano Flávio Severo foi executado por ordens do seu colega Galério, na estalagem chamada Tres Tabernae, que era um tradicional ponto de pernoite na Via Ápia para os viajantes que rumavam em direção à Roma,  que ficava a 50 km de distância.

Flavius Valerius Severus (Severo) era mais um dos muitos oficiais de origem ilíria que, durante a segunda metade do século III D.C. e o início do século seguinte, assumiram o comando do Exército Romano e,  valendo-se desta posição, alcançaram o trono imperial. O mais importante dos generais desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C.

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Entre as inovações introduzidas por Diocleciano no Império estava a divisão do poder imperial,  que costumava ficar centralizado na pessoa de um só monarca, que governava a partir da cidade de Roma, entre quatro governantes: dois deles mais graduados, que detinham o título de “Augustos“, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e os outros dois, situados em plano um pouco inferior e subordinados aos primeiros, intitulados “Césares“, instalados em Trier e Sirmium. Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“.

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De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão dos Augustos deveria ocorrer-automaticamente, com a substituição deles pelos Césares que lhes eram subordinados, motivada pela morte, incapacidade ou aposentadoria dos primeiros sendo que, em seguida, os novos Augustos nomeariam dois novos Césares, e assim por diante.

Inicialmente, as coisas ocorreram de acordo com o plano de  Diocleciano (que já havia escolhido seu amigo e colega de generalato, Maximiano, como Augusto, em 286 D.C.)., e os dois, por sua vez indicaram, em 293 D.C, outros dois generais, Galério e Constâncio Cloro, para o posto de Césares.

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Assim, garantida pela incansável energia e o enorme prestígio de Diocleciano, a Tetrarquia, aparentemente, estreara bem.

Porém, em 305 D.C., Diocleciano,  aos 60 anos de idade, doente e sentindo-se cansado, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério.  Essa era a primeira vez, após mais de três séculos de Império Romano, que um imperador abdicava voluntariamente do trono.

Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza construído na cidade de Salona, em sua terra natal, na Dalmácia. Boa parte desse palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.

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Seguindo, naquela oportunidade, as regras da Tetrarquia, o colega de Diocleciano, Maximiano, também abdicou em favor de Constâncio Cloro.  A grande expectativa agora era em relação a quem seriam os novos Césares

A maioria do público achava que Maxêncio, o filho de Maximiano, e Constantino, o filho de Constâncio Cloro, seriam os prováveis escolhidos.

Porém, grande foi a surpresa quando os nomes de Maximino Daia, que era sobrinho de Galério, e do general Flávio Severo, que era um velho camarada de armas e amigo de Galério, foram anunciados. A Tetrarquia, que mal havia começado, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão.

No caso de Severo, o espanto da sua coroação foi  ainda maior, diga-se de passagem, pelo fato dele ser um notório beberrão.

Os primeiros a transformarem em ações a sua insatisfação com a sucessão ‘tetrárquica” foram Constantino e seu pai., que se encontravam em campanha na Britânia (Constantino, que vivia na condição de virtual refém de Galério, em Nicomédia, havia conseguido arrancar deste imperador uma autorização relutante para auxiliar Constâncio Cloro, que estava muito doente).

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Em 25 de julho de 306 D.C., na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro  morreu, não sem antes dar o sinal verde ao filho para lutar pelo trono. Imediatamente, Constantino foi aclamado Augusto pelos soldados, por iniciativa do chefe germânico Chrocus, um bárbaro alamano a serviço de Roma, que,  à maneira dos Germanos, mandou os seus homens erguerem Constantino em cima de um escudo.

Quando a notícia chegou à Nicomédia, Galério ficou enfurecido, mas premido pelas circunstâncias, ele acabou reconhecendo  a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de César.

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Porém, para suceder o falecido pai de Constantino na posição de Augusto do Ocidente, Galério, nomeou o César de Constâncio Cloro, o seu velho amigo Severo , ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C, o que  ainda estava de acordo com as regras da Tetrarquia.

Entretanto, em Roma, a Tetrarquia logo sofreria um novo abalo, em adição à aclamação de Constantino, uma vez que, em Roma, Maxêncio também se revoltou terminando por ser aclamado imperador pelas tropas remanescentes da Guarda Pretoriana, em 28 de outubro de 306 D.C. (estava nos planos de Galério extinguir a Guarda).

Ao saber da nova revolta, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e marchasse com o seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maior parte das tropas do exército de Severo  tinha sido comandada anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, que era ninguém menos do que pai do revoltoso Maxêncio

Maxêncio mandou emissários ao pai propondo dividir com ele o posto de Augusto do Ocidente. Assim, quando Severo alcançou as muralhas de Roma, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e a Maxêncio.

Sem alternativa, Severo fugiu para Ravena, onde ele entrincheirou-se atrás dos impenetráveis pântanos que circundavam a posição da cidade (uma característica estratégica que influenciaria muitos acontecimentos durante a História do Baixo Império Romano e  até na Idade Média)

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Sabendo da dificuldade de tomar Ravena, Maximiano ofereceu a Severo a proposta de que a sua vida seria poupada e ele receberia um tratamento digno caso ele se rendesse pacificamente. Severo, provavelmente por julgar que sua situação já estava muito enfraquecida, aceitou. Porém, quando ele se entregou a Maximiano, por volta de abril de 307 D.C., foi preso e enviado para a estalagem de Três Tabernas, na Via Ápia.

Quando Galério, conduzindo o seu exército, finalmente invadiu a Itália para combater a rebelião dos usurpadores, o seu amigo Severo foi assassinado, em 16 de setembro de 307 D.C.. por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicí­dio).

O filho de Severo, Flávio Severiano, conseguiu escapar e foi se refugiar na corte de Galério, em Nicomédia, na Bití­nia (atual Izmir, na Turquia).

Galério, contudo, não conseguiu fazer uma campanha bem sucedida contra Maximiano e Maxêncio, e, temendo a falta de víveres, ele teve que se retirar da Itália.

Em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano,  preocupados com a situação caótica em que a Tetrarquia se encontrava,  convocou os rivais para uma conferência em Carnuntum, cidade fortificada situada no sudeste da atual Áustria.

Conderência de Carnuntum resultou em um acordo que estabelecia um equilíbrio precário: Maximiano, que agora estava rompido com   Maxêncio, pelo fato dele ter censurado a conduta  que o filho vinha tendo como governante em Roma, e tinha ido se refugiar junto a Constantino, na Gália, foi compelido a se aposentar novamente. Maxêncio foi declarado um usurpador. Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio,  teve o seu posto de “César” confirmado, o mesmo ocorrendo com Maximino Daia, no Oriente (para o desagrado de ambos, que reivindicavam o tí­tulo de Augusto, o que eles acabariam conseguindo, em 310 D.C.).

Para aumentar os fatores de instabilidade, Galério nomeou Licínio, que era outro amigo e companheiro de armas seu, para ser o Augusto do Ocidente.

Quando Galério morreu, em 5 de maio de 311 D.C., Maximino e Licí­nio dividiram entre si as províncias do Oriente. Esse acordo, porém,  teve vida curta, porque Licí­nio preferiu aliar-se a Constantino, e Maximino Daia, a Maxêncio, que foi derrotado e morto por Constantino em Roma, na Batalha de Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 D.C.

Quando Licínio atacou e derrotou Maximino Daia, em 30 de abril de 313 D.C, Flávio Valeriano, o filho de Severo, que tinha sido nomeado por Maximino governador da Isáuria, foi considerado por Licínio como uma ameaça à sua legitimidade ao trono e, em decorrência disso, ele foi executado.

A Tetrarquia havia durado apenas 20 anos e falhara em seu principal propósito de dar estabilidade ao Império Romano e resolver o problema da sucessão.