CLÁUDIO II GÓTICO

CLÁUDIO II GÓTICO

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(Busto de bronze do imperador Cláudio II Gótico, foto de Ronan.guilloux/gallery )

Marcus Aurelius Valerius Claudius (Cláudio II Gótico) nasceu em 10 de maio de 214 D.C , na região da Dardania, que fazia parte das províncias romanas da Ilíria e Moésia Superior.

Claudio era de origem humilde e o seu prenome denota que, provavelmente, ele foi um dos homens livres nascidos depois do Édito de Caracala, que estendeu a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano (Caracala se chamava Marco Aurélio Antonino Augusto). Acredita-se, assim, que a família de Cláudio seria de Ilírios recentemente absorvidos, e apenas parcialmente romanizados, que, como muitas outras famílias romanas do período, demonstrou o seu agradecimento dando o nome do benfeitor aos filhos.

De qualquer forma, como muitos dos seus conterrâneos Ilírios durante o século III, Cláudio alistou-se no Exército Romano e foi sendo promovido em virtude do seu desempenho. Consta que ele era dotado de tamanha força física que era capaz de arrancar os dentes não apenas de homens, mas também de bestas de carga, como cavalos e mulas, com apenas um soco.

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(O relevo deste sarcófago romano de meados do século III D.C, mostra romanos combatendo bárbaros, possivelmente Godos, tanto a aparência dos soldados como dos bárbaros é bem estilizada, porém o soldado retratado na fileira do meio no canto direito pode ser considerado uma reprodução fidedigna de um soldado da época em que Cláudio serviu ao Exército)

Durante o reinado do imperador Décio Trajano, também ele um natural da Ilíria (porém, este era um integrante da classe senatorial), Cláudio alcançou o posto de Tribuno Militar e, no reinado do imperador Valeriano, ele foi promovido para um importante comando militar em sua província nativa.

Contudo, Valeriano foi capturado pelos persas em 260 D.C. (E ele morreria no cativeiro). O trono, então, foi assumido por seu filho Galieno. Durante o reinado deste último, Cláudio foi nomeado “Hipparchus”, isto é,  comandante da cavalaria de elite dos Comitatenses, recém criada por Galieno.

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Em 268 D.C, o reinado de Galieno se encontrava acossado por várias ameaças externas e internas: Quase toda a Gália, a Espanha e a Bretanha eram controladas pelo usurpador Póstumo, e estas províncias tinham se tornado, na prática, independentes, sob a denominação de “Império Gaulês“. No leste, o rei de Palmira, Odenato, conseguiu derrotar os persas e restaurar a Síria para os romanos, mas tornou-se o governante de fato da região e virtualmente independente de Roma, com a tolerância de Galieno. Para piorar, nas regiões do Danúbio e do mar negro, pipocavam invasões de “Citas” (que era como os autores do período costumavam se referir aos Godos) e dos Hérulos.

Galieno lutou bravamente contra o Império Gaulês e os bárbaros, obtendo sucesso parcial. Ele conseguiu derrotar Póstumo e reconquistar parte da Gália até o Rio Ródano, mas, durante um sítio a uma cidade, o imperador foi ferido e teve que abandonar a campanha.

Após se recuperar, Galieno foi impedido de combater os Hérulos devido a um motim liderado pelo comandante de cavalaria Aureolus, em Milão.

Enquanto se preparava para combater Aureolus, em setembro de 268 D.C, Galieno foi morto por seus próprios homens, em uma conspiração até hoje obscura. Muito provavelmente, foram os comandantes mais importantes do Exército, como o general (e futuro imperador) Aureliano, o Prefeito Pretoriano Heracliano, o poderoso general Lúcio Aurélio Marciano, e, talvez, o próprio Cláudio, todos eles militares de origem ilíria, que decidiram que era hora de se livrar do desafortunado Galieno.

Alguns autores acreditam que Cláudio foi escolhido imperador pelo fato de ser admirado pelos soldados como um colega oriundo da tropa que dera provas de valentia e força. Outro motivo, seria a suposta percepção de que Cláudio, ao contrário de Aureliano, que era outro candidato em potencial,  seria menos rígido no que se refere à disciplina militar.

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(Antoninianus, moeda cunhada por Cláudio II, foto de Rasiel )

A  contestada História Augusta assevera que Cláudio não participou do complô contra Galieno e que foi este quem nomeou-o sucessor em seu leito de morte, mas muitos historiadores põem isto em dúvida, tal como Procópio, que escreveu sobre o período e menciona a participação de Claudio na trama. Acrescente-se, ainda, que a História Augusta notoriamente faz uma apologia da dinastia de Constantino, época em que a mesma foi escrita, e que Constantino alegava ser descendente de Cláudio, motivo pelo qual o seu autor tenderia a “dourar a pílula” dos relatos relativos a este último.

Não obstante, consta que Cláudio realmente mostrou uma índole branda ao pedir ao Senado que os familiares e partidários do odiado Galieno fossem poupados e, inclusive, ele mesmo solicitou ao Senado que o finado imperador fosse deificado. Após sua coroação, Cláudio passou a se chamar oficialmente Marcus Aurelius Valerius Claudius Augustus.

Em seguida, Cláudio sitiou Milão com o objetivo de capturar Aureolo, que se rendeu, mas foi executado pela traição a Galieno.

Porém, Cláudio teve que lidar com a muito mais ameaçadora invasão dos bárbaros Alamanos, que cruzaram os Alpes e entraram no norte da Itália.

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Na Batalha do Lago Benaco (atual Lago Garda), no final de 268 ou início de 269 D.C, os Alamanos foram derrotados, perecendo metade da força invasora no combate. Por essa vitória, Cláudio recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

A cronologia dos eventos é incerta, mas mais ou menos na mesma época, Cláudio infligiu uma esmagadora derrota aos Godos, que haviam invadido o Império no reinado de Galieno. Parece que essa campanha foi iniciada por Galieno e não se sabe com certeza se foi Cláudio ou Galieno quem reinava durante a decisiva Batalha de Naissos (atual Nîs, na Sérvia), onde os romanos esmagaram os Godos.

De qualquer forma, Cláudio certamente eliminou os últimos remanescentes da invasão e derrotou uma grande invasão naval dos Godos e capturando muitos deles, que foram incorporados ao Exército.

Entendemos que foi realmente Cláudio quem derrotou os Godos em Naissos, pois ele passou à História com o cognome “Gótico“, sem que houvesse contestação pelos historiadores contemporâneos. Além do mais, dificilmente o vencedor de tão importante vitória seria assassinado semanas ou meses após tão retumbante sucesso, como vimos que ocorreu com Galieno.

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(Mapa das invasões dos Godos durante o final do reinado de Galieno e o reinado de Cláudio II, mapa da lavra de Dipa1965)

Essa vitória foi tão importante que somente um século depois os Godos voltariam a ameaçar para valer o Império Romano. O general Aureliano teve importante participação como comandante da cavalaria romana na batalha, onde foi destruído e capturado o “laager“, o círculo defensivo de carroças tradicionalmente usado como reduto pelos Godos, formação que, na futura Batalha de Adrianópolis, cem anos mais tarde, seria fundamental para a vitória dos bárbaros.

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Cláudio II Gótico então voltou sua atenção para o Império Gaulês e enviou o general Júlio Placidiano para o sul da Gália, onde conseguiu restaurar a Hispânia e o leste do vale do Ródano para o domínio romano.

Porém, em 269 D.C, a viúva de Odenato, a poderosa Zenóbia, rompeu com o Império Romano e atacou com sucesso a Síria e o Egito. Acredita-se que Cláudio chegou a mandar uma força para contra-atacar a invasão de Zenóbia , mas a expedição teria sido derrotada.

Sem condições de intervir mais decisivamente no Oriente, devido a uma nova invasão no Ocidente, agora dos Juthungi, na Rétia, e dos Vândalos, na Panônia, Cláudio, após partir para Sirmium, para enfrentar os últimos, contraiu uma peste, provavelmente varíola, doença que teria sido introduzida no território do Império pelos Godos, e morreu em janeiro de 270 D.C, aos 59 anos de idade, sendo sucedido por Aureliano.

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(Mapa do Império Romano no final do reinado de Cláudio II Gótico, imagem de historicair)

A carreira e reinado de Claudio Gótico são emblemáticos da era dos chamados imperadores-soldados, da segunda metade do século III D.C, todos oriundos dos povos ilírios de índole guerreira,  e que culminou com o reinado de Diocleciano, que, após reformas administrativas, fiscais e militares, conseguiu estabilizar a situação do Império, interna e externamente.

Os imperadores-soldados ilírios, notadamente Cláudio e Aureliano, foram cruciais para construir o terreno sobre o qual Diocleciano reestruturaria o Império Romano. Por isso, todos eles foram responsáveis por garantir a sobrevivência do Império Romano por mais 200 anos, após a crise do século III. Sem eles, a História da humanidade certamente seria muito diferente.

PERTINACE E O ANO DOS CINCO IMPERADORES

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Em 28 de março de 193 D.C, o Imperador Romano Pertinace devia estar ansioso para que o mês, em que já tinham ocorrido tantos acontecimentos funestos, acabasse logo. Mas, de repente, os pensamentos do imperador foram interrompidos pela gritaria dos servos do Palácio e pelo barulho de sandálias militares, o que só podia significar uma coisa…

Origem e carreira

Nascido em 1º de agosto de 126 D.C., na cidade de Alba Pompéia, no atual Piemonte, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), segundo a História Augusta, seria filho de um escravo liberto da Ligúria, de nome Helvius Successus, que ganhava a vida como comerciante de madeira. Todavia, o comércio não deve ter deixado Helvius rico, pois, segundo as fontes, seu filho Pertinace teve que trabalhar como “grammaticus” (professor que ensinava literatura e noções de oratória para crianças mais velhas e adolescentes).

Entretanto, sabendo-se que os historiadores que escreveram a História Augusta algumas vezes inventaram detalhes para enriquecer a biografia dos imperadores, esta narrativa deve ser vista com alguma cautela. Cássio Dião, um historiador mais respeitado, por exemplo,  apenas escreveu que o pai de Pertinace não era de origem nobre

Em algum momento de sua juventude, Pertinace deixou a profissão de professor e, com o patrocínio do ex-Cônsul (144 D.C) Lollianus Avitus, de quem seu pai devia ser cliente, ele entrou para o Exército, alcançando o posto de Prefeito de uma Coorte (unidade que compõe uma legião).

Em seguida, sabe-se que Pertinace foi servir na Síria, onde, inclusive, ele recebeu uma punição pela infração de usar o “cursus publicus” (sistema de estradas e postos de montaria) destinado ao governador daquela província sem autorização, tendo sido lhe aplicada a punição de que voltasse a pé de Antióquia até o local onde sua unidade estava estacionada!

Já segundo a versão de Cássio Dião, o patrono de Pertinace no Exército foi Tibério Cláudio Pompeiano, general e genro do imperador Marco Aurélio. Vale observar que a versão da História Augusta, no que tange à carreira de Pertinace, é mais completa.

Não obstante, o fato é que Pertinace destacou-se na vitoriosa guerra contra os Partas, que ocorreu entre 161 e 166 D.C, no reinado do Imperador Marco Aurélio, servindo sob o comando do co-imperador Lúcio Vero e de Pompeiano, galgando postos no Exército Romano.

Posteriormente, já na década de 170 D.C, Pertinace foi nomeado comandante da Legião XX Valeria Victrix, na Britânia e, depois disso, comandante da Flotilha do Reno e Procurador da Dácia, cargo equivalente ao de governador.

Foi nessa época que Pertinace também entrou no Senado Romano, onde ele foi alvo de intrigas palacianas que o prejudicaram aos olhos da Corte, mas acabou sendo reabilitado devido à guerra que Marco Aurélio travava com os Marcomanos. E, em decorrência do seu bom desempenho nesta campanha, Pertinace foi nomeado Consul Suffectus em 175 D.C.

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Depois, ainda no reinado de Marco Aurélio, Pertinace foi nomeado governador das províncias da Moésia Inferior, da Dácia e da Síria. Eu acredito que o motivo de Pertinace ser tão estimado pelo letrado Marco Aurélio devia-se não apenas aos méritos militares dele, mas também pela sua formação de professor.

Quando Cômodo tornou-se imperador, porém, Pertinace foi novamente alvo de intrigas, agora por parte do Prefeito da Guarda Pretoriana, Tigidius Perennis, que tentou implicá-lo em uma conspiração contra o Imperador. Essa suspeita obrigou Pertinace, em 182 D.C, a deixar a vida pública, voltando para a Ligúria, onde o seu pai tinha adquirido uma loja de roupas, lá ficando por 3 anos.

Mais uma vez, contudo, Pertinace conseguiu voltar às boas graças com o monarca reinante e, assim, ele foi nomeado Governador da Britânia, servindo de 185 a 187 D.C. Nesta província, porém, Pertinace teve que enfrentar o motim de uma legião, quando um grupo de soldados atacou os seus guarda-costas e conseguiu ferir o próprio Pertinace, que inclusive chegou a ser dado como morto.

Quando Pertinace conseguiu recuperar-se dos ferimentos, ele reuniu os soldados fiéis e puniu severamente os revoltosos, ganhando a fama de disciplinador implacável. Apesar disso, o clima de tensão com a tropa continuou e, em 187 D.C, Pertinace deixou a Britânia.

No ano seguinte, Pertinace foi nomeado Governador da África.

Já em 189 D.C, Pertinace foi escolhido para ser o Prefeito Urbano de Roma, um cargo muito importante e que o colocava em contato direto com o Imperador Cômodo. Naquele mesmo ano, ele foi nomeado Cônsul, tendo como colega de consulado o próprio imperador, o que era considerado uma grande honraria.

Entretanto, no início da década de 190, ficava cada vez mais claro para a elite romana que Cômodo estava perdendo a sanidade mental, pois juízo e compostura sempre lhe faltaram…

De fato, face aos repetidos desmandos de Cômodo, a expectativa era que alguém tomasse a iniciativa de montar uma trama para acabar com os desmandos do imperador.

Segundo a História Augusta, as pessoas que tomaram para si a tarefa de se livrar de Cômodo foram: o Prefeito Pretoriano Quintus Aemilius Laetus, Márcia, a amante do imperador, e o seu camareiro Eclectus. A urgência surgiu quando eles descobriram que figuravam em uma lista de pessoas a serem executadas a mando de Cômodo,

Ascensão de Pertinace

Assim, os conspiradores assassinaram Cômodo enquanto este tomava banho, em 31 de dezembro de 192 D.C. O nome de Pertinace não é mencionado expressamente na lista de conspiradores, porém, a ação que ele tomaria em seguida, é um indício de que dificilmente ele ignoraria esta trama, e, provavelmente, devia ser participante.

Com efeito, imediatamente após o assassinato de Cômodo, Pertinace se dirigiu ao acampamento da Guarda Pretoriana e prometeu uma doação aos soldados, sendo aclamado imperador. A aclamação dele foi aprovada entusiasticamente pelo Senado, que, tudo indica, também tinha tomado parte na trama.

Consequentemente, em 1º de janeiro de 193 D.C, e, até onde se sabe, pela primeira vez na Historia de Roma, o filho de um liberto se tornava imperador, com o nome de Publius Helvius Pertinax Augustus, aos 66 anos de idade (tornando-se, até então,  a pessoa mais velha a assumir o trono romano, com exceção de Galba).

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Reinado

Pertinace adotou uma série de medidas populares a partir de sua coroação, revogando algumas leis tirânicas ou insensatas de Cômodo.

Todavia, quando Cômodo morreu, só havia um milhão de sestércios no Tesouro do Estado e Pertinax teve muita dificuldade para pagar o donativo prometido aos Pretorianos. Ele, inclusive, teve que vender várias propriedades e escravos de Cômodo até conseguir reunir a quantia necessária.

Segundo o historiador Cássio Dião, ele mesmo um senador que foi contemporâneo de Pertinace no Senado Romano, o reinado de Pertinace havia começado de modo promissor, porém, ele, esquecendo-se de que seu poder dependia da precária boa-vontade dos Pretorianos, tentou revogar os imensos privilégios que Cômodo havia-lhes conferido durante o seu reinado…

Não obstante, Pertinace deve ter percebido que sua posição no trono não era muito segura, pois ele recusou que a sua esposa, Flávia Titiana, recebesse o título de Augusta e ainda mandou o seu filho ir morar com o avô, e não, como seria de se esperar, com ele, no Palácio.

Pertinace deve ter entendido que o reinado dele deveria seguir a “raison d’etre” do principado de Nerva, que não era militar, mas um político oriundo do Senado, que não tinha filhos e era bastante idoso (foi coroado com 65 anos), sendo percebido pela elite civil e militar como um imperador transitório, condição enfatizada pela decisão de Pertinace de afastar a sua família da Corte. Aliás, esta medida revelou-se sensata, pois essa providência permitiu que, mais tarde, eles fossem poupados.

Contudo, Pertinace nomeou seu sogro, o senador e ex-cônsul Tito Flávio Cláudio Sulpiciano, Prefeito Urbano do Roma.

Nota: Acredita-se que Sulpiciano possa ser filho de Tito Flávio Titianus e de Flávia Domitila. Nesse caso, o pai de Sulpiciano era filho de Tito Flávio Clemente, sobrinho do imperador Vespasiano e primo dos imperadores Tito e Domiciano, e a mãe de Sulpiciano seria neta de Vespasiano.  Vale citar, assim, que o avô  da esposa de Pertinace,  o qual foi executado sob acusação de ateísmo,  pode ter sido cristão e seria, na verdade,  o santo católico conhecido como São Clemente. E a sua mãe,Domitila, seria a Santa Domitila dos cristãos.

O fato é que quando março chegou, sendo este apenas o terceiro mês do reinado de Pertinace,  ele teve que enfrentar a primeira tentativa de golpe. Assim, quando ele  estava no porto de Óstia inspecionando o embarque de grãos para Roma, alguns Pretorianos procuraram o cônsul Quintus Sosius Falco, propondo-lhe o cargo de Imperador caso aceitasse participar de uma conspiração contra Pertinace. Segundo o plano, Falco, após a morte de Pertinace, seria levado ao quartel da Guarda Pretoriana e aclamado. Pertinace, porém, avisado a tempo por um escravo, voltou à Roma e fez um discurso no Senado denunciando a conspiração. Alguns senadores propuseram condenar Falco à morte e declará-lo inimigo público, porém o imperador respondeu: “Não permitam os céus que algum senador seja executado durante o meu reinado” e Falco foi perdoado. Na História Augusta, é relatada também a versão de que Falco ignoraria a trama dos Pretorianos, que teria sido feita à sua revelia.

De acordo com Cássio Dião, Pertinace, na referida sessão do Senado, teria irritado os Pretorianos quando disse aos senadores que ele havia lhes pago o mesmo donativo que Marco Aurélio tinha pago quando de sua ascensão ao trono. O motivo da indignação seria o fato de que, na verdade, Pertinace tinha dado aos Pretorianos 12 mil sestércios, em comparação com os 20 mil sestércios que os soldados receberam de Cômodo. Além disso, conta-se que Pertinace mandou executar alguns Pretorianos pelo golpe falho envolvendo Falco, o que também desagradou os soldados.

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Seja como for, essa alusão de Pertinace à questão dos donativos em seu discurso acerca da rebelião de Falco, e a reação zangada dos Pretorianos, mostram que eles deviam estar bem insatisfeitos com a recompensa que receberam por terem elevado Pertinace ao trono.

Morte

Assim, não deve ter sido surpresa, nem para as mentes mais ingênuas, quando, em 28 de março de 193 D.C, um bando calculado entre 200 e 300 Pretorianos se dirigiu ao Palácio. O Prefeito Pretoriano Laetus não interceptou os soldados e Pertinace, apesar de avisado da aproximação do grupo, decidiu ficar no Palácio, que já estava sendo invadido, sem que nenhum de seus guarda-costas oferecesse qualquer oposição.

Dizem as fontes que Pertinace ainda poderia ter fugido, mas ele preferiu ir em direção ao grupo e fazer-lhes um inflamado discurso reprovando a conduta deles , o que causou um grande efeito, levando a maioria dos soldados a baixarem os olhos.

Porém, um certo Tausius, um soldado de origem germânica, insatisfeito,  gritou com os seus camaradas e atirou uma lança no peito de Pertinace, que caiu e foi golpeado por vários outros soldados. Em seguida, a cabeça de Pertinace foi cortada e desfilada por Roma na ponta de uma lança.

Epílogo

Depois da morte de Pertinace, ocorreu um dos mais vergonhosos episódios da História de Roma: Os Pretorianos saíram pela cidade de Roma em busca de candidatos para quem pudessem vender o trono imperial.

Um grupo de Pretorianos levou para o Quartel da Guarda o Prefeito Urbano Sulpiciano, com quem começaram a negociar o preço. Logo em seguida, trazido por outro grupo, chegou o senador Dídio Juliano, que, ouvindo tudo, começou a fazer, ainda do lado de fora dos muros, as suas ofertas. O triste espetáculo transformou-se em um verdadeiro leilão, no qual Dídio Juliano acabou saindo vitorioso.

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Porém, nem o povo, nem o Senado aceitaram a forma abjeta com que Dídio Juliano havia obtido o trono e ele começou a ser vaiado em público, quando comparecia a jogos, cerimônias ou espetáculos. Em um desses eventos, o povo chegou a aclamar o governador da Síria, o general Pescênio Niger, imperador.

Logo, os generais Clódio Albino, Septímio Severo e Pescênio Niger seriam aclamados imperadores, cada um pelas respectivas legiões, e a Guarda Pretoriana, com medo da punição aos seus crimes, abandonou Dídio Juliano.

Quando Septímio Severo invadiu a Itália, o Senado condenou Dídio Juliano à morte e reconheceu-o como novo imperador. Dídio Juliano foi executado por um soldado, em 1º de junho de 193 D.C., antes mesmo de Severo entrar em Roma

Senhor absoluto de Roma (mais tarde ele se livraria dos rivais Niger e Albino nas províncias), Septímio Severo ordenou a execução dos assassinos de Pertinace e fez com que o Senado  “deificasse” o antecessor. Severo também decretou que as datas de nascimento e de ascensão de Pertinace ao trono fossem incluídas no calendário de festejos romanos (e elas ainda constavam do célebre calendário do ano de 354 D.C, de Filócalo), recuperou a cabeça e o corpo de Pertinace, que foram objeto de um funeral estatal, e, honra suprema, incorporou o nome de “Pertinax” ao seu próprio nome imperial.

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Pertinace, apesar de reinar por apenas 86 dias, havia sido um governante popular e respeitado.

Severo, inicialmente, resolveu compor com Clódio Albino e lhe deu o título de “César”, o que implicava em um reconhecimento do seu direito de herdar o trono.

CONCLUSÃO

Pertinace passou à História com a imagem de ter iniciado um reinado promissor que poderia ter restaurado os bons tempos da dinastia dos Antoninos.

Parece que o Senado o escolheu com intuito parecido com o que ensejou a nomeação de Nerva: um senador respeitado e de idade avançada para um reinado de transição, que não instauraria uma dinastia, pois enquanto Nerva não tinha filhos, Pertinace tinha deixado claro que não associaria o seu filho ao governo.

O exemplo de Nerva foi bem sucedido porque este soube (ou talvez, mais apropriadamente, não se opôs) escolher um general de prestígio no Exército, com boas conexões com a elite romana e uma ampla base de apoio na sua própria província (Hispânia) para sucedê-lo (Trajano).

Pertinace não parece ter tido tempo sequer de tratar de sua sucessão, e, de modo imprudente,  para dizer o mínimo, ignorou a precariedade da sua posição, já que de fato ele era um verdadeiro refém da Guarda Pretoriana. Esta,  por sua vez, era incapaz de impor, de modo duradouro, qualquer escolha às legiões das províncias. E o Senado também foi ingênuo em achar que poderia escolher alguém entre os seus pares que não tivesse o apoio do Exército.

Por tudo isso, o ano de 193 D.C ficaria conhecido como “O Ano dos Cinco Imperadores“.

CÔMODO – O IMPERADOR GLADIADOR

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(Busto de Cômodo, foto de Sailko)

Em 31 de agosto de 161 D.C., na cidade de Lanuvium, nas cercanias de Roma, nasceu, com o nome de Lucius Aurelius Commodus, o imperador romano Cômodo, o décimo dos quatorze filhos que o imperador romano Marco Aurélio teve com a imperatriz Faustina, a Jovem, e o único do sexo masculino a alcançar a idade adulta.

Cômodo também foi o primeiro imperador romano a nascer durante o reinado de seu pai natural, um fato que somente se repetiria em 337 D.C.

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(Cabeça  de Cômodo jovem)

Assim, Cômodo, desde a sua tenra idade, teve a sua criação voltada para o propósito de ser o sucessor de Marco Aurélio, inclusive recebendo, com apenas cinco anos de idade, o título de “César” (título que, naquela fase do Império Romano, equivalia ao de “Príncipe-herdeiro”) e, em 177 D.C., ele seria nomeado “Augusto”, ou seja, co-imperador, junto com seu pai. Essa foi uma decisão acelerada pela revolta do general Avídio Cássio, ocorrida em 175 D.C, que, após receber a falsa notícia de que Marco Aurélio havia falecido, resolveu usurpar o trono, mas acabou sendo assassinado pelos próprios centuriões quando se descobriu que o imperador estava vivo.

Não corresponde, portanto, à realidade o famoso enredo do filme “Gladiador”, no qual o velho imperador tencionava nomear o fictício general “Maximus Decimus Meridius” no lugar de Cômodo,  que, por este motivo, na referida trama assassina o pai (Aliás, não deixe de ler nosso artigo sobre a plausibilidade e verossimilhança do roteiro de Gladiador e do personagem Maximus Decimus Meridius e onde detalhamos todos os incidentes relativos à ascensão de Cômodo).

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Em 178 D.C., Cômodo casou-se com Bruttia Crispina, uma riquíssima filha  e neta de ex-Cônsules.

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(Busto da imperatriz Crispina, foto de PierreSelim

Quando Marco Aurélio morreu, em 17 de março de 180 D.C., na cidade de Vindobona (atual Viena), no final de uma duríssima campanha contra as tribos germânicas dos Marcomanos e dos Quados, na fronteira do Danúbio, Cômodo foi aclamado Imperador Romano, com apenas 18 anos de idade, adotando o nome de Marcus Aurelius Commodus Antoninus Augustus. Antes dele, somente o imperador Tito tinha conseguido suceder o pai, Vespasiano, como imperador, e isto somente voltaria a acontecer em 337 D.C, após a morte de Constantino, o Grande.

As principais fontes deste período são historiador romano Cassius Dio (Cássio Dião) e a coletânea de biografias de imperadores chamadas de “História Augusta“. Segundo Dião, Cômodo não era talhado para o cargo de imperador, tendo suas deficiências sido percebidas por Marco Aurélio, que, em consequência, procurou cercar o filho de bons conselheiros, escolhidos entre respeitados senadores.

Cômodo porém, contra o conselho deles, recém-empossado e louco para voltar à Roma, resolveu assinar um tratado de paz com os Marcomanos e Quados,  o qual foi considerado por muitos como prejudicial aos interesses romanos, tendo em vista as vitórias duramente conquistadas por Marco Aurélio no campo de batalha, enfraquecendo a posição dos bárbaros.

Uma das primeiras medidas  de Cômodo no governo foi promover uma grande desvalorização da moeda romana, o denário, em uma escala que não ocorria desde o reinado de Nero, mais de um século antes. Mas devemos admitir que isso talvez tenha sido necessário devido à longa e custosa guerra travada no Danúbio por seu pai.

Todavia, o fato é que os círculos mais próximos do trono logo perceberam a inaptidão, preguiça e falta de decoro de Cômodo para o cargo de Imperador.

Assim, logo em 182 D.C., a própria Lucilla, irmã de Cômodo, envolveu-se em uma conspiração para assassinar o imperador, junto como o sobrinho de Marco Aurélio, Marcus Ummidius Quadratus Annianus, suposto amante de Lucilla. Parece que os conspiradores pretendiam proclamar imperador Tibério Cláudio Pompeiano, segundo marido de Lucilla (o seu primeiro marido foi Lúcio Vero, que tinha sido co-imperador jumto com Marco Aurélio, durante 8 anos, até morrer).

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(Estátua de Lucilla, irmã de Cômodo, caracterizada como a deusa Ceres, foto de AlexanderVanLoon)

Então, certo dia, quando Cômodo entrava em um teatro, um sobrinho de Pompeiano, chamado Quintianus saltou sobre o imperador brandindo uma adaga, enquanto gritava: “Veja o que o Senado vos mandou!”, mas ele foi prontamente dominado pelos guardas. Na repressão ao atentado, Quintianus e Ummidius Quadratus foram executados e Lucilla foi exilada em Capri, no que aparentemente era uma pena branda. Porém, naquele mesmo ano, ela seria assassinada por um centurião a mando do irmão. Pompeiano, que não teve participação na conspiração, foi poupado.

Logo no início do seu reinado, ficou claro que Cômodo não tinha a menor disposição de gastar seu tempo com os assuntos de Estado. Ele passava a maior parte do tempo em sua Villa em Lanuvium, treinando e lutando como um gladiador, ou em orgias.

Assim, os assuntos administrativos e estatais ficavam a cargo do Prefeito Pretoriano Tigidius Perennis e dos libertos e empregados domésticos do imperador, especialmente do camareiro (cubiculari) Saoteris, que, segundo uma fonte, seria também amante de Cômodo, e, após a execução deste, do liberto Cleander, que ocupou o posto do morto.

Segundo Cássio Dião:

Cômodo dedicava a maior parte da sua vida ao ócio, aos cavalos e aos combates de bestas selvagens e lutas entre homens. De fato, além de tudo isto que ele fazia em particular, ele frequentemente matou em público um grande número de homens e animais. Por exemplo, usando apenas as próprias mãos, ele eliminou cinco hipopótamos junto com dois elefantes em dois dias seguidos; e ele também matou rinocerontes e um camelo”.

Deve ser assinalado que, para os romanos, a profissão de gladiador era considerada degradante, e os gladiadores ocupavam o estrato social mais rasteiro. Portanto, enorme deve ter sido o escândalo na elite romana quando o próprio imperador exibiu-se em combates na arena.

Para piorar, as próprias fontes do período mencionam que as exibições de Cômodo eram arranjadas, nas quais os seus oponentes não tinham a menor chance, combatendo com armas de brinquedo (assim como as bestas selvagens eram amarradas), apenas para serem impiedosamente abatidos pelo imperador. As fontes concordam, não obstante, que Cômodo era um excelente arqueiro, capaz, entre outras proezas  de acertar de longe a cabeça de um avestruz correndo à toda velocidade.

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Foi nessa época que Cômodo, alegando ser a reencarnação viva de Hércules, apresentou-se publicamente e fez se representar como este herói mítico, sendo que muitas dessas estátuas sobreviveram até os nossos dias.

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(Cômodo retratado como Hércules, com as tradicionais clava e pele do Leão de Neméia)

Enquanto isso, Cleander, em troca de propinas, vendia todo tipo de favores, incluindo os mais altos cargos públicos, chegando, segundo Dião, a vender 25 vezes o cargo de Cônsul, a mais alta magistratura romana, em apenas um ano! (190 D.C.).

A desonestidade de Cleander levou-o a ser odiado pela plebe romana. Assim, ainda no ano de 190 D.C., ao ser hostilizado pela plateia que assistia às corridas no Circo Máximo, Cleander tentou mandar os pretorianos reprimirem a massa, mas os soldados acabaram sendo dispersados pela reação violenta do público, que os perseguiu até os portões do palácio imperial. Como resultado, Cômodo, intimidado pelo clamor popular, acabou ordenando a decapitação de Cleander.

Nas fronteiras, o problema mais sério enfrentado por Cômodo foi uma invasão da Britânia pelas tribos da Caledônia (parte da atual Escócia), em 184 D.C., onde foram necessárias três campanhas para derrotá-los.

Em 188 D.C., a imperatriz Bruttia Crispina foi acusada de adultério, uma acusação aparentemente falsa, e exilada para Capri.  O casal imperial não teve filhos. Ela morreria mais tarde, provavelmente em 191 D.C., aparentemente executada.

Depois de mais uma década de excessos e execuções, a classe dominante não aguentava mais o imperador que ocupava o trono, e a gota d’água, ou ao menos o pretexto para eles quererem se livrar de Cômodo, foi o seu desejo, manifestado em dezembro de 192 D.C., de aparecer, na inauguração do ano seguinte, vestido como gladiador no Senado, ocasião em que seriam celebrados jogos para comemorar o novo nome da cidade de Roma, que fora devastada por um grande incêndio, em 191 D.C., e tinha sido rebatizada com o nome de “Colônia Comodiana”…

Márcia, a companheira de Cômodo, que consta ter sido cristã e próxima ao bispo de Roma (o Papa Victor I), tentou dissuadi-lo desses projetos tresloucados, juntamente com Quinto Emílio Leto, o Prefeito Pretoriano, e o camareiro Ecletus,  as pessoas que, na prática, exerciam naquele momento a administração do Império. Porém, a iniciativa deles fez com que todos incorressem no desagrado do imperador.

Certo dia, no final de dezembro de 192 D.C., enquanto o imperador tomava banho, um escravo, que vinha sendo o favorito de Cômodo e que tinha o sugestivo nome de PhiloCommodus, achou um livreto em formato tablete contendo uma série de nomes de pessoas que deveriam ser executadas e entregou-o a Márcia. Quando esta leu o conteúdo do livreto, para seu espanto, o primeiro nome na lista era o dela…

Então,  Márcia convocou para um encontro Emílio Leto e Ecletus, que temerosos de serem também executados, engendraram o plano de assassinato de Cômodo.

No dia 31 de dezembro de 192 D.C, como de costume, após Cômodo tomar o seu banho, Márcia ofereceu-lhe uma bebida, que desta vez estava misturada com veneno. Porém, como Cômodo,  ao sentir os efeitos do envenenamento, começou a vomitar sem parar, os três conspiradores, temerosos de que ele dessa forma conseguisse sobreviver eliminando o veneno em seu corpo, imediatamente chamaram o atleta e lutador Narcissus e o subornaram para estrangular o imperador em seus aposentos, o que o assassino conseguiu fazer sem muita dificuldade.

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O Senado Romano decretou que as inscrições em homenagem a Cômodo fossem apagadas dos monumentos públicos (damnatio memoriae). Apesar disso, suas cinzas foram depositadas no Mausoléu de Adriano, em Roma. Não muito tempo depois, o imperador Septímio Severo, que pretendia ostentar uma conexão familiar com a prestigiosa dinastia dos Antoninos, revogou a damnatio memoriae de Cômodo e ordenou que o Senado o deificasse.

Logo após a morte de Cômodo,  o Prefeito Urbano de Roma, Publius Helvius Pertinax (Pertinace), foi levado para o Quartel da Guarda Pretoriana e aclamado imperador na manhã seguinte. Muito provavelmente, ele estava implicado na trama que resultou no assassinato de Cômodo. Com Pertinace, inicia-se, então, um período de instabilidade e luta pelo trono que passaria à História com o nome de “O Ano dos Cinco Imperadores“.

Com a morte de Cômodo, encerrou-se, de maneira triste, a chamada dinastia dos “Antoninos“, que havia sido iniciada com Nerva, em 96 D.C, e tinha inaugurado o período que ficaria conhecido como o “Século de Ouro” da História do Império Romano (que vai da ascensão de Nerva até a morte de Marco Aurélio, em 180 D.C.).

FIM

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TRAJANO DÉCIO E A BATALHA DE ABRITUS

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(Busto de Trajano Décio, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Gaius Messius Quintus Decius (Trajano Décio) nasceu por volta do ano 200 D.C., ou talvez um pouco antes disso, na cidadezinha romana de Budalia (atual Martinci, na Sérvia), que ficava próxima à importante cidade de Sirmium, a capital da província romana da Panônia Inferior. Assim, considerando que, na segunda metade do século III D.C, muitos imperadores romanos nasceram em Sirmium e na região da Ilíria, alguns historiadores consideram que Décio teria sido o primeiro da longa lista de imperadores-soldados ilírios.

Contudo, a carreira de Décio aponta para uma origem senatorial provincial, e, provavelmente, a sua família era proveniente da aristocracia italiana que se mudou para a região para governar a província da Panônia, onde eles tornaram-se grandes proprietários de terras.

Em verdade, inscrições em monumentos apontam para alguns importantes funcionários de sobrenome “Messius” durante o século II D.C, embora não possamos afirmar com certeza que se tratem de antepassados de Décio.

Por volta de 227 D.C., Décio casou-se com Annia Cupressenia Herennia Etruscilla, que era integrante de uma ilustre família senatorial de antiga origem etrusca (como o seu cognome sugere), e que, tudo indica, tinha mais prestígio do que a família dos Messius, uma vez que o filho do casal, nascido em 227 D.C., recebeu o nome de Quintus Herennius Etruscus Messius Decius (Herênio Etrusco).

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(Moeda com a efígie de Herennia Etruscilla, foto de Rasiel)

Em 232 D.C., Décio foi nomeado Cônsul Suffectus, distinção que, dificilmente, teve relação com a carreira militar, tendo em vista a  idade que ele devia ter, de pouco mais de trinta anos.. Ele já deveria ser, então, Senador. Portanto, este é mais um indício de que a sua carreira não seguiu o curso que mais tarde todos imperadores ilírios percorreriam (de patentes no Exército para cargos de prestígio na administração imperial), desenvolvendo-se, ainda, no âmbito da tradicional política romana, onde os membros da classe senatorial eram nomeados para postos de comando no exército.

Posteriormente, Décio ocupou os cargos de governador das províncias da Moésia, da Germania Inferior e da Hispania Tarraconense. Essas indicações, ressaltamos, coadunam-se com uma carreira senatorial, dentro da divisão administrativa ainda em vigor iniciada por Augusto, como é o caso de outro cargo que Décio exerceu, o de Prefeito Urbano de Roma, no reinado do imperador Filipe, o Árabe (244-249 D.C.).

Décio, durante o reinado de Filipe, o Árabe, ganhou a confiança do imperador ao ser o único senador que, durante uma sessão do Senado, tentou convencê-lo a não abdicar em virtude de uma rebelião nas províncias da Moésia e da Panônia, liderada por Marinus Pacatianus, concomitante com uma outra revolta na Síria. Pacatianus chegou até a cunhar moedas como imperador, sendo por isso classificado como “usurpador” pelos historiadores).

Como resultado desse apoio, Décio, segundo consta, contra a sua própria vontade, segundo o relato do historiador Zózimo, foi designado por Filipe, o Árabe  para assumir o comando das legiões das províncias rebeldes no Danúbio em 248 D.C. Para essa designação certamente contribuiu o fato de Décio ser radicado na Panônia, onde ele devia ter muita influência e contatos. Assim, é bem possível que Décio, ao contrário do relato preservado por Zózimo,  tenha manobrado nesse sentido.

Uma das causas da revolta na Panônia foi o fato da disciplina das legiões do Danúbio estar em mau estado, em decorrência das frequentes incursões dos bárbaros chamados de “Carpi”.

Todavia, quando Décio chegou ao Danúbio, acompanhado do filho Herênio, as tropas já tinham assassinado Pacatianus,. O novo comandante causou boa impressão nas tropas, tanto por ser originário da região, como pelos cargos que até então ocupara e pelo seu “pedigree” senatorial.

Imediatamente, os soldados revoltosos perceberam que Décio era um nome bem plausível de ser aceito como imperador pelo Senado, sendo que, caso a insurreição fosse bem sucedida, a expectativa deles era a de receber gordos donativos).

Desse modo, as legiões da Panônia aclamaram Décio Imperador, vestindo-o com um manto púrpura.

Décio, inicialmente, hesitou , porém Filipe, o Árabe, assim que soube da aclamação, marchou com seu exército para confrontar a nova rebelião, em junho de 249 D.C..

Os exércitos rivais encontraram-se no norte da Itália, talvez nas cercanias de Verona, em setembro de 249 D.C., e as tropas lideradas por Décio, embora em menor número, levaram a melhor.

Filipe, o Árabe foi morto durante os combates, provavelmente por seus próprios soldados. A Guarda Pretoriana, em Roma, quando soube do resultado da batalha, assassinou o filho e herdeiro de Filipe, que então era apenas um menino.

As fontes do período são esparsas, mas podemos inferir que a ascensão de Décio foi bem vista pelo Senado Romano. Ele adotou o nome de Caesar Gaius Messius Quintus Trajanus Decius Augustus (ele ficaria conhecido como Trajano Décio), referendado pelo Senado.

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Certamente a adoção do nome “Trajano” soava como uma declaração de princípios, pois Marco Úlpio Trajano havia sido um imperador bem sucedido, tanto nos empreendimentos militares, como nas relações amistosas e respeitosas para com o Senado Roman (motivo pelo qual esta assembleia agraciou-o com o título de “Optimus Princeps”).

A política traçada por Trajano Décio visou restaurar as tradições e instituições do “Século de Ouro” do Império, o século II D.C, durante a dinastia dos Nerva-Antoninos, a qual o finado Trajano pertencia.

De fato, Décio e os seus contemporâneos eram romanos que tinham crescido e iniciado suas carreiras nos reinados dos sucessores de Septímio Severo, onde se verificou uma grande orientalização da política e da religião romana, sendo que até mesmo um deles, Heliogábalo (ou Elagábalo) foi sumo-sacerdote de um deus sírio, cujo culto ele chegou a trasladar para Roma.

Portanto, era natural que esses homens atribuíssem a crise do Império ao abandono da religião e do modo de vida tradicional romanos.

Assim, Trajano Décio promulgou um Édito, cujo teor literal, é o seguinte:

Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício”.

Embora a lei não fosse dirigida a nenhuma religião em particular, os fiéis do Cristianismo sentiram-se os mais atingidos pela medida, e os autores cristãos posteriores registrariam o decreto de Décio como uma das várias perseguições que os imperadores moveram contra sua fé.

Na verdade, a medida em questão era mais um exemplo de um programa conservador de governo, como se constata de outra medida de Décio, que foi a recriação do cargo de Censor, que, durante a República era uma das mais importantes magistraturas, encarregada não apenas de recensear os cidadãos, mas de catalogá-los de acordo com a sua ancestralidade, estirpe e classe social, inscrevendo-os nas listas de cidadãos de acordo com a sua dignidade, do que resultava a elegibilidade para os diversos cargos e funções públicas.

Além disso, os Censores eram responsáveis por fiscalizar os costumes e a moralidade públicas. Provavelmente, a reinstituição da Censura era uma tentativa de reorganizar a nobreza romana no interesse do Estado. Porém, a medida não seria implementada, pois o primeiro escolhido, o futuro imperador Valeriano, declinou, e logo a situação militar atraíria a atenção total de Décio.

Em outra manifestação da sua política de restauração dos tempos de glória, Trajano Décio iniciou a construção de suas Termas, ou Banhos de Décio, no bairro romano do Aventino, além do Pórtico de Décio e da restauração do Coliseu. Vale citar que antes disso fazia 20 anos que a cidade de Roma não via uma obra de vulto.

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A revolta de Jotapiano, na Síria, iniciada durante o reinado de Filipe, o Árabe, foi rapidamente debelada pelos próprios soldados revoltosos, bem no início do reinado de Décio.

Infelizmente, durante o reinado de Décio, grassou uma nova epidemia da Peste Antoniniana, que surgira durante o reinado de Marco Aurélio, ceifando milhares de vidas em Roma.

Porém, o grande problema que Décio enfrentaria seria a primeira incursão dos Godos em território romano, cruzando o rio Danúbio.

Em 250 D.C., os Godos, liderados pelo seu rei, Cniva, liderando uma provável coalizão de tribos bárbaras  (as fontes falam em “Citas”, mas estudos demonstram que se tratavam majoritariamente de Godos, além de, provavelmente, Vândalos e outros povos), atacaram as províncias da Moésia e da Trácia, aproveitando que Décio estava ocupado combatendo os Carpi, os quais ele acabou expulsando da Dácia.

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Ainda durante o ano de 250 D.C., os Godos sitiaram as cidades de Marcianópolis (atual Devnya, na Bulgária), de Novae (de onde eles foram repelidos pelo governador e futuro imperador, Treboniano Galo), e de Nicópolis, no Danúbio (no norte da atual Bulgária). Porém,  a chegada do grande exército comandado por Décio obrigou os bárbaros a fugirem para o sul e eles foram perseguidos até a cidade de Augusta Traiana (Beroe, atual Stara Zagora, na Bulgária). Neste local, os Godos conseguiram atacar com sucesso o acampamento romano, dispersando o exército.

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(Anfiteatro de Augusta Traiana, atual Stara Zagora, foto de Benutzer:DALIBRI)

Em maio de 251 D.C., durante essa campanha, Décio conferiu a seu filho Herênio Etrusco o título de Augusto, nomeando-o, assim, co-imperador.

Após derrotar os romanos na Batalha de Beroe, Cniva comandou os bárbaros na tomada e no saque da importante cidade de Philipopolis, na Trácia (atual Plodviv, na Bulgária), também em  251 D.C..

Esse desastre, inclusive, incentivou o governador da Trácia, Titus Julius Priscus, a autoproclama-se “imperador, sob a “proteção” dos Godos”, mas o Senado  Romano imediatamente declarou-o como “Inimigo Público” e Priscus foi morto pelos próprios soldados.

Enquanto isso, Décio e Herênio conseguiram reagrupar o Exército e alcançaram Cniva nas cercanias de Philipopolis, onde houve um combate que terminou com a trágica morte de Herênio, que foi atingido por uma flecha, em junho de 251 D.C.

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(Moeda de Herennius, foto de Gfawkes05 )

Nesse trágico episódio, Décio, após ser informado da morte do filho, tentando mostrar determinação para os seus comandados, disse a célebre frase:

“Que ninguém lamente. A morte de somente um soldado não é uma grande perda para o Império!”

Cniva e os Godos decidiram se retirar do território romano e voltar para a sua base territorial ( que ficava provavelmente entre a Polônia e a Ucrânia), levando o produto do saque e vários prisioneiros ilustres (para os quais certamente eles  pediriam um alto resgate).

Todavia, Décio resolveu perseguir os bárbaros e derrotá-los antes que deixassem o Império.

A BATALHA DE ABRITUS

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(Mapa das invasões bárbaras combatidas por Décio, de Dipa1965 )

Décio perseguiu os Godos até 100 km ao norte de Nicópolis, quando os mesmos já estavam aproximando-se da fronteira do Império Romano.

Informando da aproximação do exército romano, próximo à cidade romana de Abritus (situada nas cercanias da moderna Razgrad, na Bulgária), Cniva, que conhecia bem aquele terreno, dividiu as suas forças em três linhas, colocando a última atrás de um pântano.

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(Achados arqueológicos sugerem que a Batalha de Abritus teria ocorrido no local que hoje é esse campo. Foto extraída da página https://brewminate.com/roman-goth-battle-of-abritus-251-ce-battlefield-identified-near-bulgarias-dryanovets/)

Em 1º de julho de 251 D.C. (data mencionada por algumas fontes), Trajano Décio conseguiu repelir as primeiras linhas do exército bárbaro, mas ao entrar no pântano, ele foi emboscado pelos Godos de Cniva que, fazendo jorrar lanças e flechas sobre os legionários, massacraram os romanos. O corpo do imperador, que morreu combatendo bravamente até o fim, jamais seria encontrado. Anos depois, um altar em honra de Trajano Décio seria erguido no local de sua morte.

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(Alguns acreditam que esse relevo, que faz parte do sarcófago Ludovisi, exposto no Palazzo Altemps, em Roma, retrate Trajano Décio e Herênio em luta contra os Godos).

Segundo o historiador Zózimo, no epísódio os Godos teriam tido algum auxílio do governador da Moésia, Treboniano Galo, mas o relato não parece crível, pois os as tropas sobreviventes da catástrofe de Abritus aclamaram Treboniano imperador (o que dificilmente se enquadraria no código de conduta dos soldados romanos de qualquer época) e Treboniano reconheceu como coimperador Hostiliano, o filho sobrevivente de Trajano Décio, que tinha cerca de 20 anos de idade e havia ficado em Roma, onde tinha sido nomeado ‘César” por Décio (título equivalente a príncipe-herdeiro). Treboniano também manteve o status de imperatriz de Herennia Etruscilla, a viúva de Décio.

Contudo, ainda naquele sombrio ano de 251 D.C., Hostiliano faleceria em virtude da epidemia de peste, em novembro.

CONSEQUÊNCIAS

A Batalha de Abritus foi um dos maiores desastres militares da História de Roma. Apesar disso, ela  é quase desconhecida do público e sequer aparece nas listas das batalha romanas mais importantes, como é o caso das Batalhas de Canas, Teutoburgo ou Adrianópolis. Entretanto, foi a primeira vez que um imperador romano morreu em combate (tecnicamente, Herênio, que tinha sido nomeado Augusto por Décio, e foi morto em combate alguns dias antes do pai foi o primeiro), o que abateu o moral romano e turbinou o dos bárbaros.

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Outra consequência desastrosa para o Império, que estudos recentes parecem demonstrar, foi o fato de que Trajano Décio muito provavelmente levava com ele todo o tesouro do Estado Romano, que foi  inteiramente capturado pelos bárbaros!

Segundo o arqueólogo e numismata polonês Aleksander Bursche, a grande quantidade de achados de moedas de ouro (aurei) novas, cunhadas por Décio e seus antecessores imediatos, com características de nunca terem entrado em circulação e terem sido cortadas e perfuradas cerimonialmente (com a destruição do retrato do imperador inimigo), procedimento que era costume dos bárbaros germânicos para com os despojos ganhos em batalha e encontradas na Polônia e na Ucrânia, em regiões nas quais a arqueologia identificou vestígios das culturas associadas com os Godos no século III D.C, tudo isso aponta para um grande butim que pode ser estimado em várias toneladas de ouro.

(acessível no link https://www.academia.edu/1321300/The_Battle_of_Abrittus_the_Imperial_Treasury_and_Aurei_in_Barbaricum_Numismatic_Chronicle_173_2013_s._151-170

Para Bursche, a perda de tamanha quantidade de ouro seria a causa direta da deterioração da qualidade do “aureus”, nos reinados dos sucessores de Décio, inclusive seu filho Hostiliano, que, embora estivesse em Roma, não cunhou nenhuma moeda de ouro, como seria tradicionalmente esperado quando da ascensão de um imperador, muito provavelmente pela falta de ouro no Tesouro Imperial. E, ainda de acordo com Bursche, os “aurei” cunhados pelos imperadores Treboniano Galo, Valeriano e Galieno, que reinaram logo depois, apresentavam um percentual de ouro muito menor do que o  das moedas cunhadas por Décio.

Portanto, a derrota na Batalha de Abritus e a morte de Décio foi um fator fundamental no aprofundamento da chamada Crise do Século III do Império Romano, iniciada após a dinastia dos Severos.

CONCLUSÃO

Trajano Décio parece ter sido um imperador patriota e bem-intencionado. Podemos criticar, com o distanciamento de quase dois milênios, as suas medidas como sendo ingênuas ou inócuas, tais como o decreto impondo o sacrifício obrigatório aos deuses ancestrais ou a recriação da Censura, mas essas eram tentativas sinceras de interpretar as causas e procurar soluções para a decadência do Império em contraste com as glórias do passado. De fato, não se pode acusar Décio de omissão ou absenteísmo no exercício do governo, e mesmo a decisão taticamente equivocada de perseguir os Godos até a fronteira, seja para manter o prestígio romano, seja para vingar a morte do filho, diz mais favoravelmente sobre a nobreza do seu caráter do que sobre a sua eventual incompetência.

Com efeito, os bustos de Décio que sobreviveram representam o semblante de um homem preocupado e angustiado e eles são a melhor imagem da crise romana do século III D.C.

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SEVERO, O TETRARCA, E A TETRARQUIA

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Em 16 de setembro de 307 D.C., o Imperador Romano Flávio Severo foi executado por ordens do usurpador Maxêncio, na estalagem chamada Tres Tabernae, que era um tradicional ponto de pernoite na Via Ápia para os viajantes que rumavam em direção à Roma,  que ficava a 50 km de distância.

Flavius Valerius Severus (Severo) era mais um dos muitos oficiais de origem ilíria que, durante a segunda metade do século III D.C. e o início do século seguinte, assumiram o comando do Exército Romano e,  valendo-se desta posição, alcançaram o trono imperial. O mais importante dos generais desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C.

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Entre as inovações introduzidas por Diocleciano no Império estava a divisão do poder imperial, que costumava ficar centralizado na pessoa de um só monarca, que tradicionalmente governava a partir da cidade de Roma, para agora quatro governantes: dois deles mais graduados, que detinham o título de “Augustos“, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e os outros dois, situados em plano um pouco inferior e subordinados aos primeiros, intitulados “Césares“, instalados em Trier e Sirmium. Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“.

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De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão dos Augustos deveria ocorrer automaticamente, com a substituição destes pelos Césares que lhes eram subordinados, motivada pela morte, incapacidade ou aposentadoria dos primeiros sendo que, em seguida, os novos Augustos nomeariam dois novos Césares, e assim por diante.

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

Em 305 D.C., Diocleciano, aos 60 anos de idade, doente e sentindo-se cansado, resolveu se aposentar. Essa era a primeira vez, após mais de três séculos de Império Romano, que um imperador abdicava voluntariamente do trono.

Inicialmente, as coisas ocorreram de acordo com o plano de  Diocleciano e  seu amigo e colega imperial, Maximiano, a quem ele havia nomeado como Augusto ainda em 286 D.C., também concordou em abdicar junto com ele, tendo a abdicação de ambos sido formalizada em uma cerimônia simultânea ocorrida nas respectivas capitais, no mesmo dia, em 1º de maio de 305 D.C.

Em obediência ao sistema idealizado por Diocleciano, imediatamente, ele e Maximiano foram sucedidos por Galério e Constâncio Cloro, respectivamente, os novos Augustos do Oriente e do Ocidente.

A grande expectativa agora era em relação a quem seriam os novos Césares

Naquele momento, tudo indica que Galério valendo-se de sua influência sobre Diocleciano, manobrou para que o seu velho camarada de armas, Flávio Severo, fosse o escolhido como o novo César do Ocidente, enquanto ele mesmo designou o seu sobrinho, Maximino Daia, para ser o novo César do Oriente.

Então, Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza construído na cidade de Salona, em sua terra natal, na Dalmácia. Boa parte desse palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.

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A expectativa geral, contudo, era a de que Maxêncio, o filho de Maximiano, e Constantino, o filho de Constâncio Cloro seriam os escolhidos. Constantino, inclusive, já possuía mais de 30 anos, havia sido educado na corte de Diocleciano e servido em várias campanhas.

Assim, grande foi a surpresa quando Maximino Daia e Flávio Severo foram anunciados como os novos Césares. A Tetrarquia, que mal havia começado, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão.

No caso de Severo, o espanto da sua coroação foi  ainda maior, diga-se de passagem, pelo fato dele ser um notório beberrão.

Os primeiros a transformarem em ações a sua insatisfação com a sucessão “tetrárquica” seriam Constantino e Constâncio Cloro, que se encontravam em campanha na Britânia. Constantino, que vivia na condição de virtual refém de Galério, em Nicomédia, imediatamente percebeu que sua vida corria perigo e, valendo-se de um momento de distração, conseguiu obter do referido Augusto uma autorização relutante para deixar a corte oriental para ir ajudar seu pai na Britânia, o qual ficara doente no curso da campanha contra os bárbaros Pictos, no norte da Ilha (Quando Galério mudou de ideia, no dia seguinte, Constantino já estava em galope acelerado rumo à Britânia).

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Em 25 de julho de 306 D.C., na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro morreu, não sem antes dar o sinal verde ao filho para lutar pelo trono. Imediatamente, Constantino foi aclamado Augusto pelos soldados, por iniciativa do chefe germânico Chrocus, um bárbaro alamano a serviço de Roma, que,  à maneira dos Germanos, mandou os seus homens erguerem Constantino em cima de um escudo.

Quando a notícia chegou à Nicomédia, Galério ficou enfurecido, mas premido pelas circunstâncias (Os exércitos de Constâncio controlavam a Britânia, a Gália e a Hispânia), ele momentaneamente acabou reconhecendo a aclamação de Constantino, contudo conferindo-lhe o posto menor de “César“. Concomitantemente, para suceder o falecido pai de Constantino na posição de Augusto do Ocidente, Galério designou o seu velho amigo Severo, em 25 de julho de 306 D.C, o que ainda estava de acordo com as regras da Tetrarquia, afinal, Severo era o César de Constâncio Cloro.

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Entretanto, em Roma, a Tetrarquia logo sofreria um novo abalo, em adição à aclamação de Constantino, uma vez que, em Roma, Maxêncio também se revoltou terminando por ser aclamado imperador pelas tropas remanescentes da Guarda Pretoriana, em 28 de outubro de 306 D.C. (estava nos planos de Galério extinguir a Guarda).

Ao saber da nova revolta, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e marchasse com o seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maior parte das tropas do exército de Severo  tinha sido comandada anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, que era ninguém menos do que pai do revoltoso Maxêncio

Maxêncio mandou emissários ao pai propondo dividir com ele o posto de Augusto do Ocidente. Assim, quando Severo alcançou as muralhas de Roma, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e a Maxêncio.

Sem alternativa, Severo fugiu para Ravena, onde ele entrincheirou-se atrás dos impenetráveis pântanos que circundavam a posição da cidade (uma característica estratégica que influenciaria muitos acontecimentos durante a História do Baixo Império Romano e  até na Idade Média)

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Sabendo da dificuldade de tomar Ravena, Maximiano ofereceu a Severo a proposta de que a sua vida seria poupada e ele receberia um tratamento digno caso ele se rendesse pacificamente. Severo, provavelmente por julgar que sua situação já estava muito enfraquecida, aceitou. Porém, quando ele se entregou a Maximiano, por volta de abril de 307 D.C., foi preso e enviado para a estalagem de Três Tabernas, na Via Ápia.

Quando Galério, conduzindo o seu exército, finalmente invadiu a Itália para combater a rebelião dos usurpadores, Severo foi assassinado, em 16 de setembro de 307 D.C.. por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicí­dio).

O filho de Severo, Flávio Severiano, conseguiu escapar e foi se refugiar na corte de Galério, em Nicomédia, na Bití­nia (atual Izmir, na Turquia).

Epílogo

Galério, contudo, não conseguiu fazer uma campanha bem sucedida contra Maximiano e Maxêncio, e, temendo a falta de víveres, ele teve que se retirar da Itália.

Em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano, preocupados com a situação caótica em que a Tetrarquia se encontrava, convocou os rivais para uma conferência em Carnuntum, cidade fortificada situada no sudeste da atual Áustria.

Conderência de Carnuntum resultou em um acordo que estabelecia um equilíbrio precário: Maximiano, que agora estava rompido com Maxêncio, pelo fato dele ter censurado a conduta  que o filho vinha tendo como governante em Roma, e tinha ido se refugiar junto a Constantino, na Gália, foi compelido a se aposentar novamente. Maxêncio foi declarado um usurpador. Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio, teve o seu posto de “César” confirmado, o mesmo ocorrendo com Maximino Daia, no Oriente (para o desagrado de ambos, que reivindicavam o tí­tulo de Augusto, o que eles acabariam conseguindo, em 310 D.C.).

Para aumentar os fatores de instabilidade, Galério nomeou Licínio, que era outro amigo e companheiro de armas seu, para ser o Augusto do Ocidente.

Quando Galério morreu, em 5 de maio de 311 D.C., Maximino e Licí­nio dividiram entre si as províncias do Oriente. Esse acordo, porém,  teve vida curta, porque Licí­nio preferiu aliar-se a Constantino, e Maximino Daia, a Maxêncio, que foi derrotado e morto por Constantino em Roma, na Batalha de Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 D.C.

Quando Licínio atacou e derrotou Maximino Daia, em 30 de abril de 313 D.C, Flávio Valeriano, o filho de Severo, que tinha sido nomeado por Maximino governador da Isáuria, foi considerado por Licínio como uma ameaça à sua legitimidade ao trono e, em decorrência disso, ele foi executado.

CONCLUSÃO

A Tetrarquia durou apenas 20 anos e falhou em seu principal propósito que era dar estabilidade ao Império Romano e resolver o problema da sucessão. Porém, a percepção de Diocleciano quanto à necessidade de reorganização político-administrativa do Império e estabelecimento de uma outra corte imperial instalada em outra capital que ficaria responsável por governar e defender uma parte do Império seria retomada e vigoraria por praticamente um século e meio.

MORRE O IMPERADOR TRAJANO

MORRE O IMPERADOR TRAJANO

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Em 8 de agosto de 117 D.C., morre, em Selinus, na Cilícia, o imperador romano Trajano, quando ele retornava de uma exaustiva, mas bem sucedida campanha no Oriente, na qual  o Exército Romano derrotou o Império Parta e incorporou a Mesopotâmia como província.

Marco Úlpio Trajano nasceu em Italica (próximo à atual Sevilha), na Hispânia, em 53 D.C. O pai dele, que tinha o mesmo nome, foi nomeado Cônsul no reinado do imperador Vespasiano.

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Trajano seguiu a carreira militar com sucesso e, no reinado do imperador Domiciano, quando era legado na Espanha, ele teve um papel importante nas ações para debelar uma conspiração contra o referido imperador, que, reconhecendo o mérito, a partir de então nomeou Trajano para vários comandos importantes.

Quando Domiciano foi assassinado, em 96 D.C., encerrando a dinastia dos Flávios, o novo imperador escolhido pelo Senado, o velho senador Nerva, desde o início precisou do apoio do Exército para conter a insubordinação da Guarda Pretoriana em Roma, e, como resultado, ele teve que adotar Trajano como herdeiro, sendo sucedido por ele, em 98 D.C., após falecer sem deixar filhos.

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O reinado de Trajano foi caracterizado, no plano externo, por uma série de campanhas militares que resultaram em importantes conquistas de território. De fato, durante o Principado de Trajano, o Império Romano atingiria a sua maior extensão geográfica. A conquista da Dácia, que se apresentava como um perigoso Estado belicoso no Danúbio, e o espólio dali resultante, permitiu um grande afluxo de ouro e prata na economia romana. Já a conquista da Pártia ocidental eliminou temporariamente um ameaçador império rival no Oriente e anexou ao Estado Romano as províncias da Armênia e da Mesopotâmia (esta teria vida curta e seria abandonada por seu sucessor, Adriano). Antes disso, o Reino dos Nabateus havia sido anexado, tornando-se uma província com o nome de Arábia Petra.

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No plano interno, o reinado se notabilizou pelas boas relações do Palácio com o Senado Romano, cujos membros foram prestigiados e apontados para importantes comandos militares. Como já dito, o ouro e a prata da Dácia  trouxe prosperidade econômica e permitiu a construção de grandes monumentos em Roma, entre os quais se destacam o Fórum de Trajano – o maior dos fóruns imperiais, do qual faziam parte a Basílica Úlpia e a Coluna de Trajano (cujos relevos narram a campanha da Dácia), bem como as Termas de Trajano. Grande obras públicas também foram construídas nas províncias, especialmente estradas e pontes. Trajano instituiu um programa de apoio aos órfãos e crianças pobres da Itália, chamado de “Alimenta“, fornecendo aos menores carentes comida e ensino subsidiado pela Estado.

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Por todas essas realizações, Trajano recebeu do Senado Romano o título de “Optimus Princeps” (Melhor Príncipe). Os historiadores sempre o incluíram como um dos maiores representantes da categoria dos “Bons Imperadores”.

Trajano era casado com a imperatriz Plotina, mas eles não tiveram filhos. Por isso, Trajano escolheu como sucessor seu parente Adriano, que era filho de seu primo e conterrâneo Públio Élio Adriano Afer, que morreu quando Adriano tinha 10 anos de idade, deixando Trajano como tutor do menino.

Ele morreu de um edema,  aos 63 anos de idade, sofrendo, no último ano de sua vida um quadro de declínio em sua saúde, que pode ser constatado em suas últimas estátuas.

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Voltaremos a falar de Trajano e do seu reinado, fazendo um artigo mais completo, como os leitores já estão acostumados, quando de seu aniversário de nascimento ou de aclamação.

VALENTINIANO II

VALENTINIANO II

Em 15 de maio do ano de 392 D.C na cidade de Vienne, capital provincial da Prefeitura Pretoriana da Gália, os camareiros da residência imperial ocupavam-se como os preparativos para o desjejum matinal e para a “cura corporis” do Imperador (cuidados de asseio e higiene pessoal) quando escutaram um grito aterrorizado, vindo do “sacrum cubiculum” (como era chamado o aposento particular do imperador). Em seguida, uma escrava saiu correndo de lá, chorando copiosamente. O camareiro-mor, temendo que o alarido despertasse o Imperador, correu para o quarto e estranhou que não estavam à soleira da porta nenhum dos “scutarii”, que serviam como guarda-costas do imperador…

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(Templo de Augusto e Lívia, na cidade de Vienne, foto de Troyeseffigy )

Após relutar um pouco, o camareiro-chefe abriu a porta e ficou petrificado. De uma arquitrave no teto pendia o corpo enforcado de um jovem vestido em deslumbrante traje de seda púrpura com fios de ouro. Era Valentiniano II,  o Imperador Romano do Ocidente.

Flávio Valentiniano (Flavius Valentinianus) nasceu em 371 D.C, filho do imperador do Ocidente, Valentiniano I, e da imperatriz Justina, a segunda mulher do imperador, que também teve com este outras três filhas: Galla, Grata e Justa. Valentiniano I já tinha um filho, Graciano, nascido em 359 D.C., de seu primeiro casamento com Marina Severa. Graciano foi preparado para suceder Valentiniano I,  tendo acompanhado, ainda criança, o seu pai em diversas batalhas e sendo, proclamado, em 367 D.C, com apenas 8 anos de idade, Augusto, ou seja, co-imperador.

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Em 375 D.C, Valentiniano I, considerado por muitos o último grande imperador romano, faleceu após mais um dos seus temidos ataques de fúria, nesse caso causada pelo comportamento insolente de embaixadores da tribo dos Quados. que lhe causou um derrame em plena audiência. Enquanto isso, o imperador Valente, irmão de Valentiniano, reinava, na metade oriental do Império, em Constantinopla.

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O súbito falecimento do grande e temido Valentiniano I deixou um vácuo de poder e causou uma crise ligada à sucessão do imperador falecido, pois os senadores romanos e os generais do Ocidente provavelmente não confiavam nas virtudes militares de Graciano.

Com efeito, a História mostraria que os generais e políticos ocidentais tinham certa razão para não terem confiança em Graciano. Ele demonstrou fraqueza com relação à disciplina das tropas, chegando a concordar com uma petição em que os soldados pediam para serem dispensados de usarem armadura (tal fato, aliás, provavelmente denota que o grosso das tropas eram compostas já por soldados de origem germânica). Graciano também mostrava-se muito propenso a intervir nos conflitos religiosos em favor da ortodoxia católica, o que desagradava núcleos adeptos do cristianismo herético ariano e, sobretudo, a rica e influente facção pagã do Senado de Roma, a antiga capital, que continuava a ter muita influência política.

Assim, alguns generais do exército romano, notadamente o general de origem franca Merobaudes, aclamaram como imperador o menino Valentiniano II, com apenas 4 anos de idade, forçando Graciano, então com 16 anos de idade, a aceitar o irmão caçula como co-imperador do Ocidente (inaugurando, dessa forma, a tendência que dominaria as últimas décadas do império romano: a escolha de imperadores fantoches por comandantes militares de origem bárbara). Graciano efetivamente controlava a Gália, a Hispânia e a Britânia, enquanto que a Itália, a Iliria e a África ficaram subordinadas a Valentiniano II.

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Todavia, em 378 D.C, uma das maiores catástrofes militares sofridas pelos romanos, veio sacudir esse precário arranjo da situação: Cerca de 200 mil Godos, após cruzarem a fronteira romana do rio Danúbio, procurando asilo motivado pela sucessão de migrações causadas pelo avanço das tribos hunas em direção ao Ocidente, acabaram se revoltando, invadindo a província romana da Trácia.

Ao saber da invasão, Valente, o Imperador Romano do Oriente, comandando todo o seu exército e sem esperar pelo auxílio das tropas ocidentais de seu sobrinho Graciano, resolveu atacar sozinho os bárbaros, mas foi fragorosamente derrotado, na chamada Batalha de Adrianópolis, onde dois terços do exército romano, cerca de 40 mil soldados, morreram, incluindo o próprio imperador Valente, cujo corpo jamais foi encontrado em meio à montanha de cadáveres.

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A morte de Valente  tornaria seu sobrinho Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente, juntamente com seu meio-irmão Valentiniano II, de apenas 7 anos de idade (que governa nominalmente a Itália, d África e parte da Ilíria), automaticamente também Imperador do Oriente.

Contudo, com os Godos à vontade para se locomoverem nos Bálcãs ( o que ameaçava a própria Itália), não dispondo de outras opções militares, tendo em vista que mal acabara de concluir uma campanha contra os Alamanos, poucos meses antes do desastre de Adrianópolis, e também pelo fato de não haver mais generais experientes no Oriente, Graciano resolveu chamar o respeitado general espanhol Flávio Teodósio(Teodósio I)de seu retiro na Espanha e, em um raro gesto de desprendimento, nascido, é verdade, da necessidade, nomeou-o Augusto, em 19 de janeiro de 379 D.C, entregando-lhe o trono da metade oriental do Império Romano.

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Entretanto, em 25 de agosto de 383 D.C, Graciano foi assassinado em Lyon, para onde teve que fugir após não conseguir debelar a revolta do general da Britânia, Magnus Maximus, um militar também de origem espanhola que havia servido como subordinado do Conde Teodósio, pai do imperador Teodósio I, e invadira a Gália para depor o imperador, supostamente devido ao fato das tropas estarem insatisfeitas com a preferência que Graciano dava às tropas compostas por bárbaros alanos.

Valentiniano II, que, como vimos, por influência dos generais francos, havia sido reconhecido por Graciano como co-imperador, seria o próximo alvo de Maximus. Teodósio I, então, pressionado pelas circunstâncias, acabou concordando em reconhecer Maximus como o novo imperador nas províncias governadas por Graciano, sob o compromisso de que Maximus, por sua vez, reconheceria Valentiniano II como co-imperador no Ocidente.

Esse acerto durou até 387 D.C, quando Maximusresolveu invadir a Itália para derrubar Valentiniano II e assumir ele mesmo o controle total do Ocidente. Um dos motivos principais foi a crescente influência de Teodósio nos assuntos da corte de Valentiniano II. Assim, o jovem imperador, acompanhado da mãe, resolveu fugir para Tessalônica, na parte oriental governada por Teodósio. Este resolveu intervir e, após combinar o seu exército com as forças remanescentes de Valentiniano II, comandados pelo general de origam franca, Flávio Arbogaste, bem como com as de seus aliados Visigodos e mercenários Hunos, conseguiu derrotar Maximusna Batalha de Siscia, no rio Sava, na atual Croácia, em 388 D.C.. Maximus conseguiu fugir, mas foi capturado e executado próximo a Aquileia.

Portanto, na prática, ainda que não de direito, Teodósio I tornou-se o virtual imperador de todo o Império Romano.

Considerando que Valentiniano II, na ocasião, somente tinha dezessete anos, Teodósio ainda ficou três anos na Itália, organizando o Império do Ocidente, somente voltando para Constantinopla em 391 D.C.  Embora, oficialmente, o novo imperador único do Ocidente passasse a ser Valentiniano II, contudo, o real poder no Ocidente estava nas mãos do general franco Flávio Arbogaste, que ocupava o cargo de Comandante-em-chefe da Infantaria (Magister Peditum Praesentalis).

Com efeito, durante todos esses eventos, Valentiniano II sempre havia sido um imperador-fantoche: Primeiro, na Ilíria, sob a proteção de Graciano, e, depois, nas mãos de sua mãe Justina, em Milão, a capital do Império do Ocidente, onde viveu por doze anos, até ter que fugir para Tessalônica.

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Nesses anos em Milão, Justina tornou-se a virtual regente do Império Romano do Ocidente. Ela era adepta do cristianismo segundo a doutrina do bispo Ário (Para os cristão “arianos”, Jesus Cristo, o Filho de Deus, era subordinado ao Pai, e, portanto, esse credo negava o dogma da “Santíssima Trindade”. Para os católicos, isto somente poderia ser uma heresia).

Para azar de Justina, a figura mais influente em Milão naquela época era o Bispo da cidade, Ambrósio, um homem carismático e eloquente, de personalidade forte e muito bem relacionado, pois antes de ser bispo, havia sido governador da Província. Ambrósio era inimigo implacável de tudo que se opusesse à ortodoxia do credo niceno-trinitário, fosse o paganismo ou as heresias cristãs.

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Ambrósio, apenas com a sua determinação e força de seus sermões, já havia conseguido persuadir Graciano a retirar o quase ancestral altar da deusa Vitória da Cúria do Senado, em Roma, sob protestos dos senadores pagãos. Quando estes apelaram a Valentiniano II para que o altar fosse restaurado, Ambrósio convenceu o jovem imperador a negar o pedido. Ele também conseguira exonerar os bispos arianos no Concílio de Aquileia, e nem o poderoso Teodósio escapou de sua influência, sentindo-se obrigado a tomar uma série de medidas contra os pagãos, incluindo a proibição de sacrifícios.

Quando Justina tentou, entre 385 e 386 D.C, que uma basílica fosse consagrada ao culto ariano, Ambrósio ocupou o edifício com uma milícia de cristãos-ortodoxos,  que lá se entrincheiraram, protegidos por barricadas, forçando a imperatriz-viúva a desistir da ideia.

Porém, uma das iniciativas de Justina que teve sucesso foi o casamento da sua bela filha Galla, irmã de Valentiniano II, com Teodósio.

Após o usurpador Maximus ser derrotado, Valentiniano II foi residir em Vienne, capital provincial da Gália. Justina havia recém-falecido e os seus ministros foram nomeados por Teodósio, que também nomeou o poderoso general Arbogaste para o cargo de Magister Peditum Praesentalis.

Valentiniano, agora já em seus vinte anos de idade, começou a se ressentir do fato de ser apenas uma figura decorativa, totalmente dominada por Arbogaste. Para se ter um ideia dessa situação, em um episódio sintomático, certa vez Arbogaste matou, na presença do próprio imperador, um amigo deste, Harmonius, que havia sido acusado de corrupção.

O fato é que a única coisa que impedia Arbogaste de se apropriar do trono e coroar-se a si mesmo era a sua origem bárbara. Apesar da proeminência dos bárbaros no exército, era inadmissível para a sociedade romana que um germânico se tornasse imperador. Era uma realidade tão evidente que, mesmo na fase terminal do Império, nenhum general bárbaro jamais reivindicou o trono para si. O próprio Odoacro, quando destronou o último imperador romano do Ocidente, Rômulo Augusto, não ousou nomear-se Imperador Romano, mas, apenas Rex (Rei) da Itália, devolvendo as insígnias imperiais do Império do Ocidente à Constantinopla.

Valentiniano II tentou se libertar do jugo de Arbogaste, escrevendo cartas secretas a Teodósio, pedindo auxílio. E também buscou o apoio de Ambrósio, inclusive manifestando o desejo de ser batizado pelo Bispo segundo os rituais do Credo Niceno.

A tensão entre Valentiniano II e o seu general aumentou quando o primeiro resolveu demitir Arbogaste do cargo de Marechal da Infantaria do Ocidente. Consta que ao receber do imperador a ordem escrita, Arbogaste foi à presença de Valentiniano e lhe disse, em pessoa: “Não foi você quem me deu o meu comando e não é você quem pode tirá-lo de mim”, após o que, jogou a carta no chão, deu as costas e foi embora!

Segundo Philostorgius, um historiador da igreja de Constantinopla, Valentiniano, como último recurso desesperado, tentou pessoalmente matar Arbogaste, apoderando-se de uma espada de um dos seus guarda-costas,  mas acabou sendo impedido pelo mesmo.

Pouco depois desse incidente, Valentiniano II foi encontrado morto em seus aposentos imperiais. Ele morreu com apenas 21 anos de idade.

Não há, contudo, certeza absoluta de que Valentiniano II tenha sido assassinado. Rufino de Aquileia, um historiador mais próximo dos fatos, tanto temporalmente como espacialmente, escreveu que “ninguém pode estar certo do que aconteceu com o imperador”. Já o historiador Zózimo e outros, consideram que Valentiniano II foi assassinado a mando de Arbogaste. Alguns historiadores modernos acreditam que a causa da morte dele foi suicídio, decorrente do quadro depressivo que Valentiniano II deveria estar enfrentando pela reiterada insolência de Arbogaste e por sua submissão ao general. Ambrósio, em sua eulogia ao imperador, não aborda o assunto, até porque se ele mencionasse o suicídio, isso teria sido um grave pecado de Valentiniano, à luz da doutrina católica.

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O fato é que Arbogaste conseguiu fazer o Senado Romano nomear o inexpressivo Eugênio, um político pouco influente e ex-professor de retórica, como Imperador do Ocidente, o que foi inicialmente reconhecido por Teodósio.

Porém, Eugênio e Arbogaste aproximaram-se da facção pagã do Senado Romano, autorizando, inclusive, a reabertura dos templos e a celebração de rituais pagãos em Roma, culminando com a restauração do Altar da Vitória na Cúria, o que enfureceu Ambrósio e deixou Teodósio em uma posição politicamente difícil na ortodoxa Constantinopla.

Assim, em 393 D.C, Teodósio elevou o seu próprio filho Honório à posição de Augusto no Ocidente, reconhecendo-o como Imperador, o que obviamente significou o seu rompimento definitivo com Arbogaste e Eugênio.

Em 394 D.C, Arbogaste e Eugênio, liderando tropas que lutavam sob a proteção de estandartes adornados com imagens de deuses pagãos, foram derrotados por Teodósio, na sangrenta Batalha do Rio Frígido. Após essa vitória, Teodósio I se tornou o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império.

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VALENTINIANO III

Em 16 de março de 455 D.C, no Campo de Marte, em Roma,  o imperador  Valentiniano III estava  treinando com o arco e flecha,  quando foi morto por dois mercenários hunos, chamados Optelas e Thraustelas, que também mataram o eunuco Heraclius, que acompanhava seu mestre. Era o fim da dinastia teodosiana no Ocidente.

Nascido em 2 de julho de 419 D.C, em Ravena, capital do Império Romano do Ocidente, Flavius Placidius Valentinianus (Valentiniano III), era filho de Flávio Constâncio e de Galla Placídia.

O pai de Valentiniano foi um dos últimos de uma longa linha de generais nativos da Ilíria que assumiram o trono no período final do Império Romano do Ocidente. Nascido em Naissus, na atual Sérvia, ele derrotou uma série de usurpadores durante o reinado do Imperador do Ocidente, Honório, e conseguiu alguns sucessos contra os Godos, com os quais conseguiu entrar em acordo, assentando-os no sul da Gália.

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(Medalhão romano do século V que se acredita retratar Valentiniano III. Galla Placídia e Honória)

Outro item do tratado assinado por Flávio Constâncio com os Godos foi a devolução à Roma da irmã de Honório, Galla Placídia, que havia sido capturada pelos bárbaros quando do Saque de Roma, liderados pelo rei Alarico, em 410 D.C.

O poderoso Flávio Constâncio acabou se casando com Galla Placídia, em 417 D.C, e, em função disso, em 421 D.C, ele conseguiu ser nomeado Augusto, e, portanto, co-imperador junto com Honório, reinando com o nome de Constâncio III.

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Entretanto, Constâncio III somente reinaria por 7 meses, vindo a falecer de causas desconhecidas, em 2 de setembro daquele ano.

A mãe de Valentiniano III, Galla Placídia, além de irmã de Honório, era filha do imperador Teodósio, o Grande, e neta do imperador Valentiniano I, o último imperador do Ocidente que comandou um grande exército, e, consequentemente, ela era a mulher mais ilustre do Império Romano naquele tempo. Além disso, Galla Placídia, durante o cativeiro nas mãos dos Godos, havia se casado, aparentemente não contra a própria vontade, com o rei deles, Ataulfo, que depois seria assassinado em 415 D.C.

O sucessor de Ataulfo, Wallia, necessitando de alimentos para o seu povo, concordou em assinar o tratado proposto por Constâncio III e devolveu a viúva Galla Placídia aos romanos.

Como Honório era divorciado, Galla Placídia, após a elevação de seu marido Constâncio à posição de Augusto, passou a ser a única Augusta (imperatriz) no Ocidente. Após ela ter ficado viúva de Constâncio, intrigas da Corte e as suspeitas de um relacionamento incestuoso com o irmão Honório forçaram Galla Placídia e seu filho bebê, Valentiniano, a se exilarem em Constantinopla, sob a proteção do Imperador do Oriente, Teodósio II, em 423 D.C.

Naquele mesmo ano de 423, Honório morreu de edema e o trono do ocidente foi usurpado por João, colocado no trono pelo general Castino. Teodósio II obviamente não reconheceu João e nomeou seu parente Valentiniano, filho de Galla Placídia, como César, além de arranjar o futuro casamento deste com sua filha Licínia Eudóxia, sendo ambos ainda crianças.

Após a derrota de João, Valentiniano III foi, oficialmente, coroado como Imperador Romano do Ocidente, em 23 de outubro de 425 D.C, com apenas 6 anos de idade.

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Assim, no início do reinado de Valentiniano III, o governo do Império do Ocidente ficou de fato nas mãos de sua mãe, a Imperatriz Gala Placídia, regente de fato.

O reinado de Valentiniano III caracterizou-se pelo progressivo desmembramento do Império Romano do Ocidente, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os bárbaros Vândalos, Suevos e Alanos consolidaram seus reinos na Espanha, e os Visigodos, inicialmente, no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma. (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla).

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O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado do antecessor de Valentiniano III, Honório,  praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia majoritariamente de tropas bárbaras, cujos chefes, cada vez, mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas vezes em que o exército era comandado por um general de prestígio e dotado de orientação patriótica, como foi o caso do meio-romano, meio-vândalo Estilicão, que foi o comandante do Exército de Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e empregá-las no interesse de Roma.

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Foi o que ocorreu, quando, decorridos alguns anos do reinado de Valentiniano III, outro militar do quilate de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército: o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio. Aécio tinha sido, durante a juventude, entregue como refém aos Godos  que, por sua vez, o entregaram aos Hunos. Porém, Aécio, valendo-se de seu talento para a Diplomacia, conseguiu fazer  muitas amizades e contatos entre os Hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.

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De fato, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os Hunos, que lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos Visigodos, Suevos, Francos, Burgúndios e outros tantos, os quais, já instalados na Gália e Espanha, ou, em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército, que gozava da predileção de Gala Placídia. Nessa luta entre romanos, Aécio, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar até aos seus amigos Hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos no combate.

Os Hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a lhe nomear “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os Vândalos se aproveitaram desse conflito e aproveitaram para invadir a África, que era vital como fonte de fornecimento de grãos e de tributos para o Império do Ocidente, e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio diante desse grave quadro é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava.

Com efeito, Flávio Aécio,  procurou proteger, entre todos os domínios imperiais, a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os Burgúndios e conter os bagaudas, na Gàlia e ,após algumas derrotas e vitórias contra os Visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos últimos. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras que tinham sido recentemente derrotadas e assentadas para conter aquelas outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Por outro lado, embora a defesa da Gália, no plano militar, fosse a escolha mais adequada, no campo político essa estratégia colocou Aécio em choque com os interesses da nobreza senatorial italiana, que ainda era muito influente e achava que a Itália deveria ser defendida a qualquer preço.

Efetivamente, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C. Porém, em 451 D.C, Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C, resolveu atacar o Império do Ocidente, valendo-se de um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, tinha conseguido enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram saqueadas e incendiadas.

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Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os Visigodos, Francos e Alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando o exército aliado aproximou-se de Orleans, sitiada pelos Hunos, Átila teve que abandonar o cerco e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champagne.

Ali, em 20 de junho de 451 D.C., travou-se uma sangrenta batalha onde os Visigodos e Alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os Romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos.

A vitória na Batalha de Châlons foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que esta foi uma das batalhas mais importantes da História, e o historiador romano-bizantino Procópio apelidou Aécio de “O Último dos Romanos“. É difícil, no entanto, chegar a uma conclusão, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império se esfumaçou tão rápido como surgira.

Todavia, o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Chalons, Átila e seus Hunos invadiriam a Itália. Em seu avanço, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa.

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Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto a horda se dirigia para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar da Itália e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, quando teria tido uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio tinha conseguido a honra de casar seu filho Gaudentius com Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e colocando seu filho como um sério candidato à sucessão do próprio Valentiniano III.

A ascensão de Aécio despertou muitos ciúmes, especialmente em Petrônio Máximo, então o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos. Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio, conseguindo envenenar o imperador  Valentiniano III contra o general, cujo prestígio junto aos senadores italianos estava muito abalado pela invasão da Itália.

Petrônio aliou-se a um secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio e ambos conseguiram convencer Valentiniano III de que Aécio planejava matá-lo. Em decorrência persuadiram o imperador a convocar o general para um encontro no Palácio, onde seria recebido por Valentiniano III em pessoa,  no que foi provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Valentiniano III convocou Aécio ao Palácio e, quando este lhe apresentava um relatório, o imperador acusou-o de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi atacado por Valentiniano III e por Heraclius, sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, pois, enquanto Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

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Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

Se foi bom ou ruim eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a vossa esquerda“…

O ambicioso Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas de Aécio a vingarem a morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III. Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, em Roma, quando o imperador estava praticando com o arco e flecha, os dois bárbaros mataram Valentiniano III, bem como o eunuco Heraclius, que o acompanhava. Assim, terminava a dinastia inaugurada pelo imperador Teodósio, o Grande no Ocidente.

Naquele mesmo ano, Roma seria alvo de um devastador saque pelos Vândalos e, no espaço de apenas 21 anos, o Império Romano do Ocidente deixaria de existir.

                                                                      FIM

GLICÉRIO – O ANTEPENÚLTIMO IMPERADOR ROMANO DO OCIDENTE

Glicerio_-_MNR_Palazzo_Massimo.jpg(moeda de Glicério, foto de TcfkaPanairjdde)

Em 3 de março de 473 D.C., em Ravena, Itália,  Flavius Glycerius (Glicério) foi escolhido como novo Imperador Romano do Ocidente, pelas tropas comandadas por Gundobado, o Burgúndio, que sucedera seu tio Ricimero na condição de Patrício (um título que no final do Império era dado ao comandante militar supremo do exército romano, ou Magister Militum, normalmente um chefe bárbaro germânico).

Glicério, quando de sua ascensão ao trono, ocupava o cargo de Comes Domesticorum (Conde dos Domésticos), ou seja, comandava o regimento de guardas imperiais do Palácio de Ravena. E antes deste posto, as fontes citam que Glicério ocupou um comando militar na Dalmácia.

As fontes nada mencionam sobre a origem de Glicério, mas, certamente, ele devia ser um cidadão romano e sem antepassados bárbaros recentes, pois,  para ser considerado um candidato aceitável para o Senado Romano e para a população italiana, era necessário ter este pedigree.

Com efeito, apesar de Ricimero  ser a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C. e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e Olíbrio, ele mesmo jamais se atreveu a assumir o trono, uma vez que Ricimero era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos. E se Ricimero,  mesmo depois de quase vinte anos de poder, não foi um pretendente viável ao trono, muito menos o seria seu sucessor e sobrinho, Gundobado.

Contudo, apesar de ser um efetivo criador de imperadores, Ricimero preferiu não se opor à indicação de Antêmio (467/472 D.C.), feita pelo pelo Imperador Romano do Oriente, Leão I, para ser o novo imperador do Ocidente, devido ao fato de que Ricimero precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos. Como retribuição à sua boa vontade e provável compensação, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.

Como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente:  a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e no Mediterrâneo e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos  na Gália.

E, mais importante, Antêmio contava com o apoio de Leão I, o novo Imperador Romano do Oriente, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se interessado nos assuntos ocidentais. Sem a participação de Constantinopla, contudo, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque seus recursos materiais e humanos eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental.

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Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em  sua maior fonte de grãos, em 435 D.C., e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente mal tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.

Porém, a grande expedição conjunta contra Cartago, a capital dos Vândalos na África, em 468 D.C., foi um retumbante fracasso. E Antêmio não teve mais sorte contra os Visigodos, que derrotaram as tropas ocidentais próximo a Arles, inclusive matando seu filho, Anthemiolus.

Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental.

O estopim para  o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimer a abandonar Roma acompanhado de 6 mil  guerreiros, em direção a Milão.

O bispo de Pavia intermediou uma trégua entre Antêmio e Ricimer que durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram, Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.

Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio.

Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono.

Contudo, os soldados de Ricimer controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma.

Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente. Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.

Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu  cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre, interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimer, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii.

Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimer havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.

Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimer, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias. O provável substituto de Gundobado, Bilimer, também veio em socorro de Antêmio, mas foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.

Derrotado e sem reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, mas foi decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja.

basilica são pedro 21.jpg(Antiga basílica de São Pedro,no Vaticano, construída pelo imperador Constantino, o Grande. Ela durou até a atual ser construída, no século XVI).

Assim, Olíbrio assumiu o trono, mas, novamente, quem governava de fato era Ricimer, secundado por Gundobado. O novo imperador era integrante de uma das famílias senatoriais mais ilustres e mais ricas do Baixo Império Romano, os Anícios, mas isso não lhe seria de muita serventia, pois o que contava agora era a capacidade de controlar tropas e recursos e isso ele não tinha. Para piorar, como não é de surpreender, ele não foi reconhecido pelo imperador do Oriente, Leão I, o único capaz de oferecer algum auxílio.

Uns 30 ou 40 dias após a ascensão de Olíbrio ao trono, Ricimer morreu, aparentemente de causas naturais, sendo sucedido por Gundobado, agora o novo Patrício.

O reinado de Olíbrio seria curto e insignificante. Não havia nada que ele pudesse fazer para reverter a situação terminal do Império do Ocidente, se é que ele tinha alguma disposição de tentar, assim, não espanta que os esparsos indícios de suas ações relacionem-se com a religião cristã.  Em outubro ou novembro de 472 D.C., Olíbrio morreu de alguma doença cujo sintoma era hidropsia.

Com a morte de Olíbrio, Gundobado tinha 3 alternativas: a) colocar um sucessor no trono ocidental; b) oferecer o trono ocidental a Leão I, que, afinal, ainda que apenas formalmente, tinha legitimidade para reunificar o Império Romano; ou c) proclamar-se ele mesmo o novo imperador romano.

Gundobado, como vimos, jamais seria um imperador aceito pela aristocracia senatorial romana. Esta podia não ter nenhum poder militar, mas o fato é que os senadores do Ocidente tinham, em regra, uma fortuna descomunal, proveniente de séculos de acumulação de patrimônio, e, além disso, a administração pública ocidental não conseguiria funcionar sem o concurso da classe senatorial.

Ironicamente, reunificar o Império também era uma opção indesejada pela aristocracia ocidental. Os senadores ocidentais gozavam de  privilégios e isenções muito maiores do que os seus colegas em Constantinopla, onde a autoridade do imperador era exercida de modo muito mais intenso e abrangente.

Assim, Gundobado optou por agir de modo convencional e escolher mais um fantoche para o trono do Império Romano do Ocidente. E, naquele  03 de março de 473 D.C. (uma fonte menciona o dia 05), o escolhido foi Glicério, que, além de ser aceitável para o Senado, como já mencionamos, era, ao menos tecnicamente, até aquele momento, um subordinado do Magister Militum,  ou seja, do próprio Gundobado.

Glicério e Gundobado, de início, tentaram ser conciliadores com Leão I, como foi demonstrado pelo fato de Glicério não haver escolhido, como era de seu direito, o segundo Cônsul para o ano de 474 D.C, deixando que o neto de Leão I, que era ainda uma criança pequena, servisse como único cônsul para aquele ano.

Mesmo assim, Leão I, que em breve morreria, em janeiro de 474 D.C., não reconheceu a escolha de Glicério como imperador pelo Senado Romano, designando Julius Nepos, o comandante do exército oriental na Dalmácia e parente da imperatriz Verina, como seu candidato ao trono do Ocidente, encarregando-o de uma expedição para depor Glicério. Com a morte de Leão I, seu neto, Leão II assumiu o Império Romano do Oriente, o qual  nomeou, como co-imperador, o próprio pai, e, então, o verdadeiro homem-forte em Constantinopla, Zenão I.

Ainda tentando ser reconhecido pelos colegas orientais, Glicério chegou a cunhar moedas com as efígies de Leão II e Zenão I, mas a corte de Constantinopla se manteve inflexível em considerá-lo apenas um usurpador.

A situação do Ocidente só piorava e Glicério, sem muitas alternativas, fez o melhor que podia para lidar com a ameaça de invasão dos Visigodos e dos Ostrogodos à Itália, que, na prática, era a única província que ele ainda governava de fato: Mandou as tropas que ainda restavam combater, com algum sucesso, os Visigodos (na verdade, era apenas um bando desses bárbaros, comandado por um subordinado do rei Eurico), e, após conseguir acumular algum ouro, pagou  2 mil moedas de ouro aos Ostrogodos para que eles fossem para algum outro lugar. Infelizmente, o lugar onde ambos os bandos foram parar foi a Gália, que já estava sendo avassalada por várias invasões.

Enquanto isso, a expedição de Julius Nepos, que estava aguardando o inverno passar para poder zarpar, finalmente, com a chegada da primavera, pôs-se a caminho de Ravena.

Glicério, que durante o seu reino residira em Ravena ou em Milão, foi para Roma, talvez porque essa cidade estivesse mais distante da Dalmácia, ou, também,  porque lá, contando com o apoio do Senado Romano e da população, ele tenha pensado que fosse mais fácil resistir.

Contudo, Julius Nepos certamente tinha ciência da manobra de Glicério, pois navegou em direção ao Mar Tirreno, desembarcou em Portus (porto de Roma, no litoral), sendo que Glicério não esboçou nenhuma resistência, sendo deposto sem esboçar qualquer luta, em junho de 474 D.C.

Ao contrário do desfecho mais corriqueiro na longa lista de imperadores romanos, Glicério não foi executado, mas apenas destituído do trono e nomeado Bispo de Salona, na Dalmácia (lugar onde Julius Nepos decerto tinha mais capacidade de controlar qualquer ação sua).

O Senado Romano imediatamente reconheceu Julius Nepos como o novo imperador do Ocidente.

Não há registro de qualquer medida tomada por Gundobado para defender Glicério ou atacar Julius Nepos. É bem possível que ele estivesse na Gália, lidando com os ataques de outras tribos germânicas ou tentando reunir tropas para  a defesa de Glicério, não se sabe ao certo. Outra possibilidade é que ele tenha ido reclamar a sua parte no reino dos Burgúndios, na Gália Lugdunense (que daria origem à atual região da Borgonha), após a morte de seu pai, Gundioc, e do irmão dele, Chilperico I, esta ocorrida justamente em 474 D.C. De qualquer forma, o seu comando militar na Itália não existia mais e de fato não  consta que ele tenha voltado à península.

A última notícia que se tem de Glicério data do ano de 480 D.C., quando ele ainda era Bispo de Salona e, segundo um autor antigo, teria participado de uma conspiração para assassinar, ironicamente,  ninguém menos do que o próprio Julius Nepos, que, após ser deposto pelo novo Magister Militum do Ocidente, Orestes, em 29 de agosto de 475 D.C., havia fugido para a Dalmácia.

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

JUSTINO I – DE CRIADOR DE PORCOS A IMPERADOR

Em 02 de fevereiro de 450 D.C, na Prefeitura romana de Illyricum, então sob a égide do Império Romano do Oriente , nasceu,  na região chamada de Dardania , um menino chamado Istok, um nome de origem trácia ou ilíria, que foi latinizado  como Justino. A criança nasceu em um vilarejo vizinho à fortaleza de Bederiana, provavelmente o vilarejo de Tauresium, por sua vez situado próximo à cidade de Scupi.

A cidade de Scupi, atual Skopje, capital da moderna República da Macedônia. foi fundada no reinado do imperador Domiciano (81-96 D.C) como uma colônia de veteranos militares. Apesar de estar em uma região sob influência cultural grega, o estabelecimento da colônia de soldados romanos veteranos naquela região contribuiu sobremaneira para a romanização da população local de etnicidade ilíria e trácia, cujo idioma predominante passou a ser o latim.

(Ponte Romana, em Skopje e vista atual da cidade)

 

Após a formalização da divisão do Império Romano em 2 metades, Ocidental e Oriental, esta com capital em Constantinopla, por Constantino I, no início do século IV, a região, devido ao paulatino enfraquecimento do Império Romano do Ocidente ocorrido no século seguinte, passou a ser governada por Constantinopla,  onde o grego era o idioma predominante.

Devido às devastações causadas pelos bárbaros hunos e ostrogodos na península dos Balcãs, entre 450 e 460 D.C, o humilde criador de porcos Justino, junto com seus parentes Zimarchus e Ditivistus, todos reduzidos à extrema pobreza, foi obrigado a abandonar o vilarejo e migrar para a capital Constantinopla. Consta que, em sua bagagem, os jovens levavam apenas roupas esfarrapadas e um saco contendo pedaços de pão, para se alimentarem durante a viagem.

Uns dez anos antes de Justino chegar à Constantinopla, o imperador Leão I criara uma guarda imperial de 300 homens, chamada de “Excubitores”, formada, majoritariamente por vigorosos camponeses da região da Isaúria,  com o objetivo de contrabalançar o poder do comandante do exército (Magister Militum), Áspar,  um chefe militar bárbaro, e de seus soldados Godos.

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(Os Excubitores deveriam se parecer com estes soldados na frente do imperador, em trajes cerimoniais e de campanha)

 

Leão conseguu se livrar de Áspar e seus Godos e, sem filhos, foi sucedido pelo comandante dos Excubitores, o Isáurio Tarasis Kodissa, marido de sua filha Ariadne, e o qual adotou o nome de Zeno, em 474 D.C. Após 17 anos de um reinado conturbado, Zeno foi sucedido por Anastácio, que também não tinha herdeiro vivo, e foi indicado por Ariadne, a imperatriz-viúva, com quem se casou.

Ainda durante o reinado de Leão I, a guarda dos Excubitores precisou de novos recrutas. Justino, que tinha um bom físico e provinha de uma região (Dardania), e de uma gente (Ilírios e Trácios), que durante muito tempo vinha fornecendo soldados para o Império, viu a oportunidade e se alistou,  e, junto com seus companheiros Zimarchus e Ditivistus,  conseguiu entrar para os Excubitores.

Justino foi subindo de posto na guarda imperial e , com o seu sucesso na carreira militar, sua irmã Vigilantia deixou a Dardania e veio morar em Constantinopla, acompanhada de outros parentes e conterrâneos, incluindo seu marido Sabbatius, com quem tinha dois filhos: Petrus Sabbatius (o futuro imperador Justiniano I) e Vigilantia Dulcissima (Sabemos que Justiniano nasceu por volta de 482 D.C, em Tauresium, na Dardânia, pois, quando sua cidade natal foi destruída por um terremoto, ele mandou reconstruir a cidade com o nome de Justiniana Prima).

No tempo em que seu sobrinho Justiniano ainda era criança, Justino já devia ocupar um posto importante na Guarda Imperial. Ele se casou com uma mulher chamada Lupicina. Segundo o historiador Procópio, em sua “História Secreta”, Lupicina seria uma escrava de origem bárbara e ex-concubina do antigo dono dela. Muitos historiadores, porém, veem com suspeita as informações depreciativas de Procópio relativas à origem da dinastia justiniana contidas na História Secreta, obra que, por vezes, parece mais um panfleto contra Justiniano.

Justino e Lupicina não tinham filhos.  Portanto, este foi o principal motivo pelo qual Justino, provavelmente antes de se tornar imperador, resolveu adotar seu sobrinho, Petrus Sabbatius, qu, então, passou a se chamar Flavius Petrus Sabbatius Justinianus. Isso pode ter acontecido até mesmo quando Justiniano ainda era adolescente, pois sabemos que ele foi educado com esmero em Constantinopla, recebendo ensinamentos de jurisprudência, história e teologia.

Durante o reinado de Anastácio, Justino foi nomeado Comandante dos Excubitores (Comes Excubitorum), sendo que o seu sobrinho Justiniano também começou sua carreira servindo nesta unidade da guarda imperial

Em 518 D.C,  o imperador Anastácio morreu,  também sem deixar filhos. Ele tinha sobrinhos, sendo que um destes era um provável pretendente. Os ministros do falecido imperador e o clero estavam indecisos e o povo demandava a escolha de um novo imperador, sem que houvesse uma definição. O fato, porém, é que Justino era o comandante da guarnição da capital e, provavelmente não precisou de muito esforço para se impor ou ser escolhido como o sucessor pelo Senado de Constantinopla, em 9 de julho de 518 D.C., com o nome de Flavius Justinus Augustus, aos 68 anos de idade. Sua esposa Lupicina foi coroada como imperatriz, adotando o nome Eufêmia.

 

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(Tremissis, moeda de ouro, de Justino I)

 

Segundo Procópio, Justino I era analfabeto e falava apenas um grego rudimentar (talvez ele fosse apenas incapaz de ler e escrever em grego). O historiador narra que, em decorrência, seus ministros foram obrigados a mandar fazer placas de madeira com o desenho das palavras habitualmente utilizadas para os despachos do imperador, para que Justino, segurando o estilete, apenas seguisse o contorno das letras pré traçadas com a sua mão, citando-se como exemplo o caso da palavra latina “Fiat” (cumpra-se)!

Entretanto, pouco a pouco, Justiniano, o ambicioso e preparado sobrinho e filho adotivo de Justino, foi se tornando o governante de fato do Império Romano. (O Império do Ocidente havia terminado em 476 D.C, durante o reinado de Zeno). Em 521 D.C, Justiniano foi nomeado Cônsul. Observe-se que Justino tinha outro sobrinho, chamado Germanus, que até se destacou como general, mas parece que este não tinha propensão ou vontade de entrar na política.

O reinado de Justino teve como fato marcante o retorno à ortodoxia do concílio católico de Calcedônia, o que por sua vez, teve consequências nas relações com o reino ostrogodo de Teodorico, na Itália, que então formalmente reinava na Itália em nome do Imperador. Conflitos com a Pérsia e o terremoto que destruiu Antióquia também são dignos de nota.

Porém, indubitavelmente, o maior significado do reinado de Justino foi o fato de ele ter sido sucedido por seu sobrinho Justiniano, cujo reinado foi um divisor de águas na História do Mundo Mediterrâneo, com repercussões até no presente, seja pela reconquista da Itália, do norte da África e do extremo sul da Espanha para o Império, seja pela promulgação do Corpus Juris Civilis, codificação de toda a legislação romana que influenciaria o Direito até os nossos dias.

Justino ficou doente em 527 D.C e o Senado pediu que ele nomeasse Justiniano como co-imperador, o que foi feito em 04 de abril de 527 D.C.

 

Justiniano.

(Justiniano I, mosaico da Igreja de San Vitale, em Ravenna)

 

Em 1º de agosto de 527 D.C, Justino morreu aos 77 anos de idade. Ele foi enterrado ao lado de Eufêmia, que falecera poucos anos antes.