HOJE É SEXTA-FEIRA!!! VOCÊ SABE O PORQUÊ?

Todos nós que falamos português logo percebemos os dias úteis da semana em nossa língua têm um nome diferente do que em outras línguas derivadas do latim, faladas na Europa, que também se difundiram principalmente pelas Américas, África e Oceania.

Notamos também, que nas línguas germânicas, tal como o inglês, nenhum dos sete dias da semana é igual ao seu correspondente na língua portuguesa.

Não obstante, e especialmente nas línguas derivadas do latim, sábado e domingo, normalmente o 7º e o 1º dias da semana (sim, em alguns países não é assim), compartilham esse mesmo nome.

Por que somos diferentes?

Essa é uma longa história que começou muito antes dos romanos, os principais responsáveis por esse calendário que hoje usamos.

Inicialmente, a maior parte dos povos antigos não adotava uma divisão do calendário em semanas. Certamente, dentre as primeiras sociedades a fazê-lo estavam os povos do Oriente Médio, notadamente os babilônios. Esses povos usavam um calendário lunar, organizado em função das fases da lua, e eles tentavam sincronizá-las com as estações do ano, que por sua vez eram percebidas em função do movimento do sol, o que intuitivamente induz a uma divisão do ano em meses de 28 dias com quatro semanas de sete dias (eles também usavam, entretanto, calendários astronômicos mais sofisticados).

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(Sofisticado calendário astronômico babilônico)

Por sua vez, a astrologia, difundida entre os babilônios, ligava-se à observação das órbitas dos sete astros visíveis a olho nu, que são: o Sol, a Lua e os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Porém, os primeiros a adotarem a divisão do tempo em uma semana de sete dias (hebdomadário, de “hebdo”, isto é, “sete”) como algo inseparável da sua própria identidade foram os judeus. A narrativa bíblica da criação do mundo em sete dias, incluindo o descanso de Deus no sábado, efetivamente governava a vida dos hebreus.

Já os romanos, inicialmente, e ainda durante a República, dividiam os dias do mês em ciclos de oito dias, cada um correspondendo no calendário a uma letra de “A” a “H”, sendo estes contados de trás para frente a partir de marcos, seja do primeiro dia do mês (calendas), mas também dos Idos, que normalmente caíam no dia 15 no meio do mês, e das Nonas, que podiam cair no entre o quarto e o sétimo dia do mês, tudo dependendo do número de dias do mês, que podia ser de 30, 31 ou 28 dias.

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Reprodução del Calendario de Anzio (Fasti Antiates) del 84-55 a. C., exposto no Museo do Teatro romano de Caesaragusta. O original está en Roma, no Museu Nacional das Termas, e é anterior a la reforma de Julio César. Foto de Bauglir)

Esse ciclo era chamado de “nundinário”, nome que deriva do número 9, pois ele incluía o dia do qual a contagem do ciclo partia.

O calendário romano, como a descrição que fizemos acima torna fácil perceber, era muito complicado e impreciso astronomicamente, não acompanhava o movimento de translação da Terra e, com a passagem dos anos, ele divergia do verdadeiro início e fim das estações do ano.

Por conta disso, periodicamente, o calendário romano tinha que ser corrigido mediante a inclusão de meses “extraordinários”, o que ocorreu até Júlio César assumir o cargo de Ditador e resolver reformar o calendário, adotando um calendário-solar adaptado do egípcio, contendo doze meses e com a inclusão de um dia adicional a cada quatro anos, no mês de fevereiro.

(Calendário egípcio)
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The Roman most people think of instantly – Gaius Julius Caesar. Loads more on him at http://en.wikipedia.org/wiki/Julius_Caesar For more on the Museo della Civiltà Romana, have a look at http://en.museociviltaromana.it/ or http://en.wikipedia.org/wiki/Museum_of_Roman_Civilization

Poucos anos depois da adoção daquele que acabaria sendo chamado de “Calendário Juliano”, a arqueologia e o estudo das fontes mostra que os romanos começaram a adotar também uma semana de sete dias, de onde surgiu, inclusive, pela primeira vez, em latim, com essa acepção, a palavra “septimana”, devirada de “septimus” (sete), que obviamente é a raiz da nossa palavra “semana”.

Por volta do início do século I D.C., as fontes narram que havia uma grande colônia judaica em Roma (alguns estimam que ela remontava 5% da população da cidade, o que representaria 50 mil pessoas), bem como uma grande popularidade de astrólogos caldeus (Babilônia, mas provavelmente também associados a astrólogos egípcios), o que levou até alguns imperadores a expulsarem esses estrangeiros, sob a alegação de corromperem os costumes tradicionais dos romanos (cf. Suetônio e Tácito).

Assim, tudo indica que foram mesmo os judeus que influenciaram a adoção da semana de sete dias em Roma. Da mesma forma, os romanos, influenciados pela Astrologia de origem babilônica-egípcia, adotaram o costume de batizar os dias da semana com o nome dos astros visíveis, associados às divindades do panteão greco-romano, os quais já eram adotados pelos astrólogos helenísticos do Egito Ptolemaico. A primeira evidência arqueológica da adoção de ambos os costumes é uma inscrição (graffiti) encontrada em uma parede de um imóvel em Pompéia, que foi soterrada pelo Vesúvio em 79 D.C.

Assim, seguindo premissas da Astronomia e as características atribuídas a cada divindade:

1) O primeiro dia da semana estava associado ao astro mais importante no firmamento, o Sol (o graffitti de Pompéia fala em “dies Solis” – dia do Sol).

2) O segundo dia foi associado ao segundo astro mais importante, a Lua (dies Lunae ou Lunes dies).

3) O terceiro dia foi associado a Marte, planeta vermelho que remetia a sangue e a guerra ( dies Martis ou Martis dies).

4) O quarto dia, cujo movimento celeste era o mais rápido, foi associado a Mercúrio, o deus-mensageiro do panteão romano (dies Mercuriae ou Mercuriae dies).

5) O quinto dia passou a representar Júpiter (dies Iovis ou Jovis dies),

6) O sexto dia foi associado ao planeta mais brilhante e vistoso no céu, que naturalmente representava a deusa da beleza, Vênus (dies Venus ou Venus dies),

7) O sétimo dia oi associado com Saturno (dies Saturni ou Saturni dies).

Mas os romanos eram famosos pelo conservadorismo e tradicionalismo, e, assim, durante alguns séculos, o calendário nundinário continuou convivendo com o calendário hebdomadário, e, por sua vez, a nomenclatura antiga dos dias da semana, de “A” a “H”, conviveu simultaneamente com os dias batizados com nomes de planetas (zodiacal) que parece ter sido o sistema preferido pela população.

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(Fasti Vallenses, fragmento de calendário romano no Museu Nacional de  Nápoles, © Institute for the Study of the Ancient World / Guido Petruccioli, photographer)

Uma prova arqueológica disso é um famoso fragmento de mármore de um calendário público, hoje desaparecido, que ficava afixado nas paredes das Termas de Trajano, o qual utilizava tanto o sistema nundinário, com a letra do dia dentro do mês, como o sistema zodiacal com o nome do dia de acordo com o planeta (cf. “Rome in Late Antiquity”, Bertrand Lançon).

Ver a imagem de origem
Esse calendário encontrado nas Termas de Trajano mostra já uma fusão entre o calendário romano antigo e o zodiacal. Notem os sete deuses associados aos dias da semana (dois deles estão faltando na primeira imagem, sendo que o primeiro seria Saturno, o segundo Apolo, associado ao Sol, o terceiro  seria alguma divindade associada à Lua, o quarto é obviamente Marte, o quinto seria Mercurío, o sexto, Júpiter e a última, Vênus. Nesse calendário, o primeiro dia da semana é o sábado, assim como era para os Judeus. A segunda imagem é uma reconstituição).

Contudo, após o imperador Constantino I abraçar publicamente o Cristianismo, no início do século IV D.C, a semana de sete dias, que os cristãos seguiam, adaptando-a do Judaísmo, passou a ter a definitiva precedência.

Vale notar que, pelo menos desde a metade do século II D.C., os cristãos passaram a cultuar o “dies Solis”, como primeiro dia da semana, que era o dia em que eles acreditavam que Jesus Cristo ressuscitou, como “Dia do Senhor” (dies Dominicus). Além disso, segundo a Bíblia, o domingo era o primeiro dia da criação do Mundo, já que Deus havia descansado no sétimo dia, o sábado.

Um pouco antes da ascensão de Constantino, em 270 D.C., o Imperador Aureliano, um devoto do deus Mitra, havia instituído o culto ao Sol Invicto (Solis Invictus), associado àquela divindade, como a principal religião do Império Romano. Tudo isto contribuiu para que, em 31 de março de 321 D.C, Constantino editasse uma lei estabelecendo que o “dies Solis” deveria ser devotado ao descanso de todos.

Não obstante, o famoso Calendário de Filócalo, de 354 D.C, que chegou até os nossos dias, mostra um curioso sincretismo entre o calendário romano tradicional e o cristão. No referido calendário são assinaladas tanto datas importantes para os cristãos como datas de festivais pagãos. Embora este calendário em si ainda apresente o vetusto modelo nundinário, com os dias identificados pelas letras A a H, uma das suas páginas traz uma correlação do dia da semana com o planeta correspondente, com o nome dos deuses romanos (Pode ser consultado em http://www.tertullian.org/fathers/chronography_of_354_06_calendar.htm).

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Curiosamente, no Calendário de Filócalo, o primeiro dia da semana, de acordo com a tradição judaica, ainda é o sábado (Pode-se então, inferir que a adoção do domingo como o primeiro dia somente tornou-se praxe com a primazia do Cristianismo sobre as demais religiões, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande). Entre as datas importantes assinaladas no calendário, está o feriado (feriae) do Natalis Solis Invictus (“Nascimento do Sol Invicto”), no dia 8 antes das calendas de Janeiro, que, de acordo com o sistema nundinário, correspondente ao dia 25 de dezembro (Parte 6 do Calendário).

A parte 12 do Calendário de Filócalo traz um anexo relacionando as datas comemorativas do nascimento dos mártires cristãos, apontando o mesmo dia 25 de dezembro com o do nascimento de Jesus Cristo em Belém, Judéia. Aliás, este é o primeiro documento que menciona o nascimento de Jesus nesta data, considerada improvável pelos especialistas (tendo em vista a própria narrativa bíblica) e que poderia ser decorrente da intenção de aproveitar um feriado religioso dos mais importantes para os romanos (Nascimento do Sol Invicto) para comemorar o nascimento de Jesus pelos cristãos.

Importante para a resposta à pergunta que fazemos em nosso artigo é o fato de que os calendários romanos (fasti) sempre previam inúmeros dias de feriados (“feriae”), ou seja, dias consagrados a um festival em honra de alguma divindade, embora não necessariamente feriados no sentido moderno (dias em que não se precisa trabalhar).

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, no final do século IV D.C, durante o reinado do imperador Teodósio I, muitos bispos começaram a se incomodar com o costume de nomear os dias da semana com nomes de deuses pagãos. Afinal, em uma concepção cristã, o tempo pertence a Deus, e, portanto, todos os dias são sagrados e, portanto, podem ser considerados “feriae”, quer dizer, dias consagrados a Deus.

Portanto, sendo para os romanos, sete os dias da semana, e sendo o “Dia dos Senhor” (dies Dominicus) o primeiro e o mais importante deles, uma decorrência lógica para os ciosos prelados católicos era que o segundo dia da semana fosse rebatizado como “secunda feriae” e assim sucessivamente: “tertia feriae”, “quarta feriae”, “quinta feriae” e “sexta feriae”. Mas, com relação ao sábado, este dia já tinha um nome profundamente enraizado na tradição cristã, e mencionado expressamente na Bíblia, herdada dos judeus, o qual continuou sendo observado pelas primeiras gerações de cristãos, motivo pelo qual ele foi preservado, inclusive no latim eclesiástico, como “sabbatum”.

Apesar do propósito religioso da Igreja ao adotar oficialmente a nova nomenclatura, pode-se concluir que esta não se popularizou o suficiente a ponto de substituir o costume popular dos súditos do Império: a grande prova é que praticamente todas as línguas européias derivadas do latim continuam a batizar os dias da semana com os nomes dos deuses associados a planetas, como por exemplo o italiano, o francês e o espanhol, respectivamente, como citado abaixo:

1) 2º dia da semana (Lunes dies): lunedi, lundi e lunes.

2) 3º dia da semana (Martes dies): martedi, mardi e martes.

3) 4º dia da semana (Mercuriae dies): mercoledi, mercredi e miércoles

4) 5º dia da semana (Jovis dies): giovedi, jeudi e jueves.

5) 6º dia da semana (Venus dies): venerdi, vendredi e viernes .

O nome do 7º dia da semana (sabattum), porém, como já vimos, ecoava a influência primitiva do judaísmo na adoção da semana de sete dias e já estava suficientemente arraigado na população romana e, por isso, sobreviveu em todas as línguas latinas (ex: sabato, samedi e sábado).

Para os povos de língua germânica, que também batizavam os planetas com os nomes dos seus deuses, em uma correlação análoga aos dos romanos entre as características da divindade e as do planeta em questão e que também, pelo contato com o Império Romano, passaram a adotar a dividir o calendário em semana de sete dias, foi ainda mais difícil aceitar a nomenclatura cristã, já que eles foram convertidos ao cristianismo, em geral, bem mais tarde do que os romanos (embora os invasores godos tenham se convertido no século IV, à confissão herética chamada de Arianismo, porque pregada pelo bispo Ário).

Com efeito, no caso dos Germanos, mesmo o sábado e o domingo mantiveram os seus nomes associados aos astros. E a designação do domingo como “Dia do Sol” (“Sunday”, “Sonntag”, “Zondag”, “Sondag”, etc.) nas línguas germânicas parece ter sido independente (não se olvidando, porém, que o latim e as línguas germâncias pertencem ao mesmo tronco linguístico, o indo-europeu) e anterior ao decreto de Constantino.

Com relação ao sábado, no inglês e em algumas línguas germânicas, curiosamente, e por algum motivo que ainda não foi suficientemente explicado, este dia manteve o nome dado pelos romanos pagãos no período clássico, associado ao deus Saturno (ex: saturday). No sul da Alemanha, contudo, que foi mais influenciado pelos romanos e pela Igreja Católica, também se adota a palavra alemã “samstag”, que deriva do sabbatum eclesiástico.

Mas, voltando a pergunta do nosso título: Por que os dias da semana para os portugueses têm nomes diferentes dos utilizados pelos seus vizinhos?

Quando o Império Romano do Ocidente caiu, em 476 D.C., as províncias romanas de cada região seguiram uma dinâmica própria. A Península Ibérica foi invadida por bárbaros germânicos Visigodos, Suevos, Alanos e Vândalos, sendo que os últimos logo migraram para o norte da África. Uma parte de Portugal e da Galícia ficou submetida aos Suevos, que estabeleceram sua capital na antiga cidade romana de Bracara Augusta, a moderna Braga. Os Suevos eram cristãos, mas adotavam a doutrina do Arianismo.

Em 569 D.C., Martinho de Dume foi nomeado Bispo de Braga. Ele era um nativo da Panônia, na atual Hungria, que peregrinou pela Terra Santa e havia estudado teologia e grego no Oriente, e, após a sua morte foi canonizado.Valendo-se de seu poder de persuasão e eloquência, São Martinho de Dume (também conhecido como São Martinho de Braga) conseguiu converter o rei suevo Teodomiro (ou Theodomar) ao Catolicismo niceno-trinitariano (na foto abaixo, iluminura medieval retratando São Martinho de Dume).

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São Martinho de Dume era um fervoroso adversário do paganismo e advogou que qualquer terminologia que fosse alusiva aos deuses pagãos deveria ser suprimida. Valendo-se de sua posição privilegiada de Bispo de Braga, o religioso conseguiu suprimir nas igrejas situadas sob a jurisdição da sé bracarense, e também fora delas, a utilização dos antigos nomes pagãos dos dias da semana, que foram substituídos pela nomenclatura eclesiástica em latim, que já mencionamos anteriormente (dominus dies, secunda feriae, tertiae feriae, etc.) . A palavra da língua portuguesa “feira” deriva diretamente do latim “feriae“e a população laica passou a se referir aos dias como “segunda-feira”, “terça-feira”, “quarta-feira”, etc.)

E, assim, caros leitores, graças a São Martinho de Dume, que, em português e galego, hoje é sexta-feira!

O SAQUE DE ROMA

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Em 24 de agosto de 410 D.C., começava o Saque de Roma pelos Visigodos

Foi um evento que chocou os contemporâneos, romanos e bárbaros, e até mesmo estados inimigos, como os persas sassânidas. Enfim, por todo o Mundo Mediterrâneo o fato ecoou  como se prenunciasse o fim dos tempos.

A última vez que invasores estrangeiros haviam andado pelas ruas da  antiga capital do Império Romano havia sido em 390 A.C, ou seja, 800 anos antes! Foram os gauleses, chefiados por Breno, que, naqueles longínquos tempos, queimaram toda Roma, exceto a colina do Capitólio, onde os romanos se refugiaram.

Para os cristãos, o Saque de Roma, em 410 D.C, foi considerado um castigo divino, consequência da impiedade e arrogância da Cidade, que era dominada por uma classe senatorial ainda majoritariamente pagã.

Inspirado pela catástrofe, Santo Agostinho escreveu sua obra fundamental “A Cidade de Deus” (Civitas Dei), uma das pedras angulares da filosofia católica.

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Já para os pagãos, o acontecimento foi uma punição dos deuses pelo fato dos imperadores terem abandonado o culto aos deuses ancestrais..

Aliás, durante o cerco de trinta dias, de fato houve um renascimento do paganismo na cidade, citando-se como exemplo, a permissão imperial para que a estatueta dourada da deusa Vitória fosse reinstalada na Cúria do Senado Romano, no Fórum.

Consta que a má fama do mês de agosto teria começado a partir desses funestos dias…

Prelúdio

Como foi possível que essa tragédia romana ocorresse?

O Império Romano passou por profundas transformações nos 100 anos anteriores ao saque visigodo.

Durante 350 anos, começando com Augusto, o primeiro imperador ( e cujo nome, coincidentemente batiza o mês de agosto), que reinou entre 27 A.C e 14 D.C., a estratégia militar romana consistia na disposição de suas principais forças militares nas fronteiras, organizadas em 28 legiões (esse número se manteve relativamente estável durante esse período). Essas legiões eram, de início, formadas por legionários recrutados entre os cidadãos romanos que fossem italianos ou oriundos de colônias de italianos estabelecidas em territórios conquistados.

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Cada legião tinha cerca de 5 mil homens e ela consistia em uma unidade virtualmente autônoma, com seus quartéis, estábulos, fábricas de armas, corpos de engenheiros, etc. (Note-se que, com o tempo, muitos dos quartéis das legiões dariam origem a várias cidades europeias atuais). E o Exército Romano também recrutava contingentes da população que habitava as localidades nas quais as legiões estavam situadas, os quais formavam regimentos de Auxiliares (Auxilia). Tradicionalmente, havia um corpo de auxiliares para cada legião, com o mesmo número de soldados que os legionários.

Basicamente, esses Auxiliares eram utilizados como tropas de patrulha, empregados em escaramuças, ou então como tropas especializadas, como, por exemplo, arqueiros, fundibulários (fundas), cavalaria ligeira, etc., sempre de acordo com as habilidades guerreiras de cada povo. Após servirem pelo prazo de 20 anos, um Auxiliar ganhava o direito de pleitear a cidadania romana (que era conferida por decreto do próprio imperador – aliás, muitos desses diplomas de bronze sobreviveram e foram encontrados em escavações, os quais, certamente, foram guardados com muito orgulho pelos agraciados).

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Como resultado positivo dessa estratégia, denominada de “defesa estática“, o estabelecimento das legiões nas fronteiras acarretou a “romanização” daquelas populações fronteiriças, Assim, pouco a pouco,  as legiões também começaram a recrutar localmente as suas tropas. Vale lembrar que o recrutamento de soldados sempre foi um problema que afligiu os romanos, já que, desde as reformas de Caio Mário, por volta de 100 A.C, o Exército Romano deixara de ser uma milícia de cidadãos que prestavam serviço militar, para se transformar no primeiro exército verdadeiramente profissional da História.

Entretanto, esse sistema demonstrou ser um fator de instabilidade política: Com efeito, após a derrubada e suicídio de Nero (68 D.C.), quando três generais comandantes de legiões disputaram o trono, tornou-se cada vez mais frequente, em tempos de crise, o surgimento de rebeliões daquelas legiões estacionadas nas fronteiras do Império. Na verdade, o próprio regime do Principado, que substituíra a República, descendia de um longo processo de tomada do poder pela força por políticos que também eram generais. Não é a toa que o título “Imperator” significava, na origem, ‘Comandante”…

Consequentemente, na prática, quase todo general à testa de uma legião era um candidato em potencial a Imperador,  e, ao menor sinal de fraqueza do imperador reinante, poderia ser aclamado como tal por suas tropas. E tal comportamento, sem dúvida, era decorrente do costume de se recompensar regiamente os legionários que serviam na legião, quando o seu comandante conseguia ser vitorioso na disputa (inclusive, houve vários casos em que toda a tropa, ávida pelas polpudas gratificações, aclamava o seu general imperador. mesmo contra a vontade deste! Ironicamente, isso tornava-se caso a rebelião fracassasse, uma sentença de morte para o coitado do general…).

Essa instabilidade militar chegou ao máximo durante o período que se denomina “Crise do Século III“, onde a média de duração de um reinado era pouco mais de um ano, e, algumas vezes, havia vários Imperadores rivais.

A reforma militar de Constantino

Finalmente, em 312 D.C.,, após mais uma dessas incontáveis rebeliões, Constantino, um general romano de origem ilíria, filho de um dos 4 co-imperadores nomeados por Diocleciano, no fracassado projeto de divisão racional do poder que este instituíra, chamado de “Tetrarquia”, derrotou o rival Maxêncio e se tornou Imperador.

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Constantino foi o responsável por  duas mudanças radicais, no campo político-administrativo e militar, que impactariam decisivamente o Império Romano nas décadas seguintes:

1) Reconhecendo que o território romano era grande demais para ser administrado por um imperador somente, instalado em apenas uma capital, resolveu, inspirado no precedente tentado por Diocleciano (tetrarquia), instituir uma divisão político-administrativa do império em duas metades – Ocidental e Oriental (Pars Occidens e Pars Oriens). A capital ocidental, predominantemente de fala latina, a princípio, continuou sendo Roma, mais tarde substituída, sucessivamente, por Milão e Ravena. Porém, para capital da parte oriental, onde se falava majoritariamente o idioma grego, ele escolheu a antiga cidade grega de Bizâncio, notória por suas qualidades defensivas (basicamente um triângulo de terra cercado de água em dois lados), que recebeu o nome oficial de “Nova Roma que é Constantinopolis“,  mais conhecida como Constantinopla;

2) Constantino também resolveu instituir um “Exército Central Móvel“, que ficaria sob o comando direto do Imperador, formado com os melhores contingentes das 28 legiões espalhadas pelo Império Romano. A elite do exército eram as tropas de cavalaria couraçada (Scholae Palatina). E os soldados desse exército central ficariam conhecidos como Comitatenses (literalmente, aqueles que fazem parte da “Comitiva” imperial). Esses soldados receberiam pagamento maior e melhores uniformes e equipamento do que os do restante do Exército Romano. Já as antigas legiões não seriam extintas, mas de certa forma, elas foram rebaixadas. Os seus integrantes passaram a ser denominados de “Limitanei” (isto é, os “fronteiriços”, ou “da fronteira”), que recebiam pagamento menor. Como o tempo demonstraria, essas tropas, paulatinamente, acabaram definhando e virando uma espécie de guarda provincial de fronteira.

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A maior parte dos estudiosos acredita que, mais do que preocupação com a estratégia militar defensiva imperial, o grande objetivo de Constantino era assegurar a estabilidade de seu trono e continuidade da sua própria dinastia., no que, aliás, ele foi bem sucedido, pois ele mesmo reinou 25 anos e a sua dinastia duraria 50 anos.

A criação de um Exército Central Móvel, na forma adotada por Constantino, consagrou a adoção do que se chama, em ciência militar, de estratégia de “defesa em profundidade“, cuja principal característica é o reconhecimento de que os inimigos atacantes não poderão ser detidos nas fronteiras, e, inevitavelmente, eles penetrarão o território do império, devendo as tropas fronteiriças apenas retardar ou atrapalhar o avanço do exército inimigo em solo pátrio, até que o mesmo seja engajado e derrotado pelo exército principal do país, onde for mais recomendável.

O problema é que essa mudança estratégica romana ocorria em meio a dois acontecimentos ocorridos no exterior que teriam consequências gravíssimas: o primeiro, já do conhecimento dos romanos, era o renascimento de um império persa nacionalista e militarmente agressivo, que 40 anos antes, tinha-lhes infligido duras derrotas, inclusive com a captura, pela primeira vez, de um imperador romano em campo de batalha (Valeriano, em 260 D.C.), que havia imprudentemente invadido a Mesopotâmia.

Em 363 D.C., o último integrante da dinastia de Constantino, o Imperador Juliano (denominado de “O Apóstata”, pois ele renunciou à fé cristã e tentou restaurar os deuses pagãos) sofreu nova derrota desastrosa na Pérsia, onde ele morreu após ser ferido em batalha. O sucessor, dele, Joviano, teve que negociar um tratado humilhante para conseguir sair da Pérsia com o que sobrou do exército romano de 90 mil homens, um dos maiores já reunidos em toda história do império. Amiano Marcelino foi um historiador romano que participou dessa campanha como soldado e deixou um relato excepcional da campanha. Sobre Juliano, vale a pena ler o livro homônimo, do escritor americano Gore Vidal, um romance histórico magistralmente escrito).

Mas foi o segundo fato, ocorrido na longínqua China e então desconhecido dos romanos, que causaria uma sucessão de eventos que redundaria, décadas mais tarde, no Saque de Roma: a migração dos Hunos.

Derrotados após uma tentativa de conquistar o Império Chinês, os Hunos se voltaram para o Ocidente. Atravessando a Ásia Central, em hordas invencíveis de milhares de arqueiros montados, os hunos foram empurrando povos e mais povos, em um verdadeiro efeito dominó, em direção ao Oeste, gerando o aumento dos conflitos na fronteira romana do Reno/Danúbio.

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Assim, o cenário militar romano em meados do século IV era aquele que assombra o imaginário de qualquer líder militar: o de uma guerra em dois fronts!

Um dos povos que foram desalojados pelos hunos eram os Godos, um povo germânico de origem escandinava que havia migrado para a região do Danúbio, estabelecendo-se nas proximidades da antiga província romana da Dácia (aproximadamente a Romênia atual).

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Em 376 D.C., uma vasta migração dos Godos Thervingi, liderados pelo chefe Fritigern, totalizando cerca de 200 mil pessoas, pediu autorização ao Imperador Romano do Oriente, Valente, para cruzar o rio Danúbio e se instalar na província romana da Moesia, no que, na verdade, era quase um pedido de asilo. Foi dada a permissão, sob a condição de que eles entrariam desarmados, mas ficariam sujeitos ao serviço militar (os romanos sempre costumavam empregar bárbaros como tropas, e durante a dinastia de Constantino, o emprego de tropas germânicas tinha aumentado bastante, ao ponto de influenciar o equipamento, vestuário e até o grito de guerra dos soldados romanos)

Em geral, a História e os achados arqueológicos demonstram que os povos germânicos, ao longo dos quase 400 anos que separam o ano de 100 A.C, quando as fontes romanas pela primeira vez mencionam a invasão da Itália pelos povos denominados de Cimbros e Teutões ( invasão derrotada por Mário), do aparecimento dos Godos na fronteira do Danúbio, no final do século III, vinham sendo influenciados pelo Império Romano, mas sempre mantendo uma consciência que poderíamos chamar de “étnico-cultural” ou nativista muito forte ( o que ficou demonstrado na resistência comandada por Arminius – ou Herrmann, o Germânico – à penetração romana na Germânia, em 9 D.C, infligindo aos romanos a destruição de três legiões e o abandono definitivo do projeto romano de transformar a região em província romana, com consequências duradouras para a história dos dois povos no futuro).

A mudança mais importante observada na sociedade germânica ao longo desses séculos de contato com os romanos, foi a tendência à aglutinação das antes isoladas tribos em grandes confederações, como por exemplo, a dos Alamanos, que em sua origem etimológica, quer dizer “All men” (todos os homens), e acabaria dando nome a um futuro país (Alemanha), e a dos Francos (que, curiosamente, daria nome ao maior rival da Alemanha, a França).

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Outra mudança notada entre os povos germânicos, que, para alguns estudiosos, foi consequência do contato com os romanos, foi a crescente sofisticação e especialização militar dos contingentes armados, em contraste com os grupos mais primitivos de guerreiros no início da era cristã. Para saber mais sobre todos esses fenômenos envolvendo as tribos germânicas, recomendamos a leitura do livro “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians“, do historiador Peter Heather).

É certo que essas confederações germânicas cooperavam entre si no embate contra os romanos. Assim, ataques na fronteira do Reno eram combinados com ataques no Danúbio. E sabe-se que, algumas vezes, quando chegava a notícia de uma derrota militar romana na Pérsia, desencadeava-se uma série de ataques germânicos oportunistas.

Por outro lado, ficou evidenciado que, ao longo dos séculos, os germanos passaram a apreciar mercadorias produzidas no Império Romano, como demonstram os achados arqueológicos de sepulturas germânicas do período.

Note-se que, durante muito tempo, inúmeros germanos serviam no exército romano, mas depois eles voltavam para viver junto ao seu povo, trazendo consigo a expertise militar romana (Arminius, inclusive, havia sido um precursor disso, pois ele comandava um contingente de Auxiliares do Exército Romano).

Desde o século IV, os Godos haviam se convertido ao Cristianismo, embora o professassem sob a doutrina denominada de Arianismo, considerada heresia pela Igreja Católica (porque idealizada pelo bispo Ário – nome que nada tem a ver com “raça ariana”, por favor!).

A História conta que, após entrarem no Império Romano, os Godos foram muito maltratados pelos governadores das províncias romanas onde se estabeleceram. Grassava a fome entre eles e os oficiais romanos cobravam preços extorsivos pelos grãos estocados nos celeiros do Estado. Alguns chegaram até a escravizar alguns godos.

Os germanos não podiam mais tolerar isso e se rebelaram. E acabaram derrotando as tropas que inicialmente foram enviadas para reprimi-los.

A Batalha de Adrianópolis

Assim, em 378 D.C, o Imperador Romano do Oriente, Valente, decidiu  marchar e comandar em pessoa o Exército Central e esmagar os Godos. O imperador do Ocidente, Graciano, já havia se comprometido a enviar também o seu Exército, porém, de acordo com a versão mais prevalente, Valente,  querendo os louros da vitória somente para si, resolveu fazer uma marcha forçada e dar combate aos Godos sem esperar os reforços ocidentais.

Fritigern, que era um hábil comandante, sabedor que não poderia enfrentar os 40 mil soldados de Valente em campo aberto, resolveu “entrincheirar-se” e mandou que os carroções em que o seu povo, homens, mulheres e crianças, moravam e viajavam (parecidos com aqueles que os pioneiros americanos usaram na Conquista do Oeste) formassem um círculo protetor (laager) em uma colina, próxima a Adrianópolis, na Trácia. E mandou que a sua cavalaria, que tinha um efetivo estimado entre 10 e 20 mil homens ficasse ao largo. Dentro do laager, talvez estivessem 20 mil guerreiros, além de muitos milhares de mulheres, que talvez ajudassem nos combates. Quando viu os romanos se aproximando, Fritigern mandou atear fogo ao campo na planície em volta da colina e enviou mensageiros para atrasar os romanos e outros para chamar a cavalaria.

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Em 9 de agosto de 378 D.C.,  os romanos chegaram ao campo de batalha após uma marcha forçada de sete horas e, sem descanso, eles preparam-se para atacar os godos.

Amiano Marcelino conta que uma unidade romana, demonstrando falta de disciplina, acabou atacando sem esperar as ordens e precipitando o avanço. Enquanto isso, a cavalaria goda chegou e atacou o flanco direito  dos romanos, prevalecendo sobre a cavalaria romana, que fugiu. A visibilidade era ruim, devido a fumaça e a poeira e o calor do verão era grande. Os romanos não perceberam que sua cavalaria tinha sido dispersada e avançaram colina acima em direção ao laager.

Os guerreiros godos, saindo do círculo de carroções, atacaram o lado esquerdo dos romanos que, por sua vez, foram atacados pela retaguarda pela cavalaria goda que havia dado a volta. Os romanos foram obrigados a avançar para a base da colina.

Valente percebeu o movimento e avançou, porém,  a massa compacta de soldados não conseguia mais manobrar. Os romanos foram completamente envolvidos e acabaram sendo massacrados. O imperador, segundo relatos, morreu lutando, e o seu corpo nunca foi encontrado, perdido entre a massa de 40 mil soldados romanos caídos.

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Amiano Marcelino encerra a sua História com o relato sombrio e emocionante da Batalha de Adrianópolis. É expresso o reconhecimento do desastre: Dois terços do Exército Romano do Oriente foram eliminados em uma tarde. Ele relaciona com tristeza o número imenso de generais e oficiais romanos que morreram na Batalha.

Assim, o Império Romano sofrera duas derrotas humilhantes no espaço de 15 anos. o historiador Arther Ferril (“A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”) compara essa situação ao clima que se abateu sobre o exército americano após a derrota para o Vietnã.

Após a Batalha de Adrianópolis, na prática, não havia mais exército romano no Oriente. Os Godos, imediatamente apos a vitória, tentaram saquear Adrianópolis, mas, desprovidos de máquinas de assédio, e ignorantes da arte da guerra de sítio, não conseguiram. Mas eles pilharam toda a província e, mais importante, saquearam os arsenais do exército.

Durante os próximos 30 anos, os romanos teriam que enfrentar um fato que não acontecia na história romana desde a  Segunda Guerra Púnica, entre 220 a 202 A.C: Um exército estrangeiro armado movendo-se e vivendo em solo romano. Só que agora porém,  era um povo inteiro que demandava um pedaço de território romano para viver!

Após a derrota romana na Batalha de Adrianópolis, com a morte em combate de Valente, o sobrinho deste, Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente. virou, por direito, o soberano das duas metades do Império Romano.

Ocorre que Graciano só tinha 19 anos na ocasião e já estava suficientemente assoberbado com as invasões dos Alamanos e outros povos germânicos na Gália, sendo, portanto, incapaz de lidar com os invasores godos na parte oriental.

Teodósio e a “barbarização” do Exército Romano

Assim, Graciano convidou o prestigiado general espanhol Teodósio para governar o Império Romano do Oriente.

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Para lidar com o problema dos bárbaros, dentro e fora das fronteiras do Império, Teodósio precisava de soldados. Porém, quinze anos de combates, e de várias derrotas, contra germânicos e persas tinham exaurido as fileiras dos exércitos romanos.

Muitos, como eu, creem (embora a questão seja controversa) que o negligenciamento das legiões das fronteiras, em detrimento do exército central móvel, como decorrência das reformas de Constantino, foi uma das causas da decadência da capacidade de recrutamento militar, que era o maior problema nesta área, no final do Império Romano, embora outras causas, tais como o provável decréscimo populacional no século III devido a pestes, a disseminação do instituto do colonato e as próprias perdas em batalhas certamente tiveram grande peso.

As fontes e a arqueologia dão a entender que cada legião era um pólo de romanização das fronteiras onde estavam aquarteladas, e que eram elas que cuidavam de recrutar e preencher as suas fileiras ao longo do tempo. Quando elas foram transformadas em tropas de segunda linha, o recrutamento começou a diminuir, e isso piorou ainda mais quando os bárbaros passaram a devastar as regiões fronteiriças, o que era propiciado pela nova estratégia de defesa em profundidade adotada a partir do século IV.

A solução de Teodósio para o problema foi recrutar os únicos guerreiros que mais facilmente estavam à disposição: os próprios bárbaros germânicos…Teodósio concedeu a várias populações germânicas, inclusive aos próprios Godos Thervingi (Visigodos), o direito de se estabelecerem no Império em áreas pré-determinadas na Dácia e na Trácia na condição de povos confederados do Império Romano (foederati), em troca do alistamento deles no Exército Romano.

Não obstante, em 382 D.C, valendo-se de seus contingentes marcadamente bárbaros, Teodósio conseguiu conter a ameaça resultante da invasão dos Godos. E, para a sorte dele, Fritigern, o chefe visigodo vitorioso em Adrianópolis, morreu naquele mesmo ano de 382. Como resultado, a situação romana parecia estar melhorando…

Com o emprego de seu exército romano barbarizado, Teodósio conseguiu derrotar vários usurpadores nas províncias e, até mesmo, conter outras invasões bárbaras, o que lhe valeu na época o cognome de “O Grande”.

Para muitos historiadores militares, a preferência de Teodósio por tropas germânicas foi a pá de cal no que ainda sobrava dos contingentes romanos tradicionais. Parece que, a partir de então, a única diferença digna de nota entre um exército romano e um germânico seria os estandartes imperiais e os motivos pintados nos escudos. Mesmo que se considere isso um exagero, o fato é que essa preferência pelos germânicos, sem dúvida, deve ter solapado a moral do resquício de tropas genuinamente romanas.

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Teodósio era um cristão devoto e seu reinado foi marcado pelo fortalecimento da igreja Católica e por medidas contra o paganismo. A mais notável foi o Edito de Tessalônica, que institui o Credo Cristão Niceno Trinitariano do Concílio de Niceia (Santíssima Trindade) como a religião oficial do império Romano.

Seguindo essa política, Teodósio extinguiu o Culto das Virgens Vestais, que datava desde o nascimento de Roma, com mais de mil anos de tradição, e proibiu a realização de cerimônias pagãs em público, o que acarretou, inclusive, o fim dos Jogos Olímpicos. Sentindo-se estimulados pelo apoio imperial, multidões de cristãos enfurecidos arrasaram os célebres templos de Serápis, em Alexandria, e de Apolo, em Delfos, este lar do famoso Oráculo, onde profetizava a Pitonisa.

O fato é que o momento pedia união e concórdia entre os romanos, e, certamente, as disputas religiosas não contribuíam para isso…

Entretanto, uma novidade, em 391 D.C, viria abalar a precária estabilidade aparentemente conquistada por Teodósio: os visigodos escolheram como o seu rei, Alarico (alguns consideram que foi em 395). Alarico entendia que os Godos poderiam conseguir arrancar muito mais do que os romanos até então tinham dado e resolveu fazer uma nova excursão fora do território que lhes fora concedido.

Enquanto Teodósio foi vivo, o prestígio desse imperador, de personalidade dominante e hábil estrategista, havia mantido Alarico relativamente obediente.

Todavia, em 395 D.C, Teodósio morreu em Milão (fazia já um século que a cidade substituíra Roma como a capital do Ocidente).

Teodósio foi o último imperador a governar ambas as metades do Império Romano e com a sua morte o seu exército central, que na verdade, em boa parte consistia de tribos de guerreiros bárbaros comandadas por chefes leais a ele, se dispersou.

Antes de morrer, Teodósio legou o Império aos seus dois filhos: Honório, que ficaria com a Parte Ocidental e que tinha apenas 8 anos quando na morte do pai; e Arcádio, de 12 anos, que reinaria sobre a Parte Oriental.

Como tutores dos garotos e verdadeiros regentes do Império, Teodósio nomeou dois homens de sua confiança: para Honório, o marechal Flávio Estilicão (Flavio Stilicho), um militar romano, filho de pai vândalo e mãe romana. E para Arcádio, foi nomeado Rufino, um alto funcionário palaciano e homem de Estado que já ocupara inclusive o cargo de cônsul.

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Ocorre que Rufino odiava Estilicão, E as muitas intrigas e sabotagens que o primeiro urdiria contra o segundo, nos anos vindouros, as quais ocorreram em um quadro de extrema gravidade, quando mais se exigia colaboração estreita entre as duas metades do Império, acabaram contribuindo para a ruína de Roma.

Estilicão era um hábil militar e extremamente devotado à casa de Teodósio. O seu último grande serviço a Teodósio, antes deste morrer, havia sido a derrota do usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono, em 392 D.C., pelo general franco Arbogaste, que era o homem-forte do Império do Ocidente e que só não se auto proclamou imperador, após a morte de Valentiano II (o colega de Teodósio no Ocidente), porque ele era bárbaro e, portanto, um monarca inaceitável para a sociedade romana.

Faremos agora uma pausa para recapitular alguns fatos verificados nos anos que antecederam a morte de Teodósio, importantes para o contexto:

Valentiniano II era um mero fantoche nas mãos de Arbogaste, como demonstra o registro histórico que conta que, certo dia, aquele imperador comunicou ao general franco que o mesmo estava demitido, ao que este teria respondido: “Você não me deu o meu cargo e nem pode tirá~lo“…

Quando Valentiniano II morreu, oficialmente por suicídio, mas provavelmente assassinado a mando de Arbogaste, a relação, já conflituosa, entre o Ocidente e o Oriente piorou, pois Eugênio, o novo imperador-fantoche, e seu “padrinho” Arbogaste passaram a apoiar nitidamente a corrente simpática ao paganismo revitalizado que dominava o Senado de Roma, inclusive reinstalando na Cúria o Altar da Vitória (que tinha sido erigido por Otávio, após derrotar Marco Antônio e Cleópatra, em Actium, em 29 A.C., .e ostentava uma bela estátua alada de ouro da deusa, que tinha sido capturada dos epirotas na Guerra contra Pirro, em 272 A.C.

A Batalha do Rio Frigidus

Isso foi mais do que Teodósio podia suportar. O devoto Imperador Romano do Oriente decidiu acabar com o renascimento pagão e começou a se preparar para invadir o Ocidente e entrar na Itália para derrubar Eugênio e Arbogaste. Ele formou um exército recrutando e treinando romanos de nascença, fato que não ocorria desde a destruição do Exército do Oriente pelos visigodos em Adrianópolis, 15 anos antes.

Em 394 D.C,, o novo exército romano do Oriente estava pronto e deixou Constantinopla rumo à fronteira com o Ocidente (em Ilyricum – o território ocidental começava no que hoje é a Sérvia).

Alarico recebeu ordens para que os visigodos também participassem da ofensiva, devendo juntarem-se ao exército comandado em pessoa pelo Imperador Teodósio, que teria, sob suas ordens, o general Estilicão e o próprio Alarico.

O avanço pelas províncias limítrofes foi fácil, assim como a passagem pelos Alpes Julianos (que separam o que hoje é a Itália da Eslovênia), pois Arbogaste decidiu esperar o ataque próximo à cidade de Aquileia, no norte da península.

Quando, em setembro de 394, chegou no Rio Frigidus e viu as tropas ocidentais aquarteladas, Teodósio mandou os visigodos atacarem. O terreno era desfavorável e metade dos soldados visigodos morreu neste ataque (cerca de 10 mil homens). Inclusive, muitos acreditam que Teodósio intencionalmente quis enfraquecer os bárbaros, para diminuir a eterna ameaça que eles representavam ao Império, apesar deles, momentaneamente ,estarem do seu lado.

Porém, no dia seguinte, quando Arbogaste, achando que o exército de Teodósio não se recuperaria do revés sofrido, mandou uns destacamentos atacarem o acampamento oriental, Porém, o matreiro imperador subornou os soldados inimigos e acabou ganhando esse inesperado reforço. Em seguida, quando Tedoósio deslocava o exército por uma passagem estreita, Arbogaste ordenou novo ataque de emboscada Porém, no exato momento em que eles iriam atacar, soprou com força de tempestade o característico vento daquela região, chamado até hoje de Bora, jogando grande quantidade de poeira nos olhos dos atacantes, atrapalhando-os de tal forma que foram desbaratados pelos soldados orientais.

Após a derrota, Eugênio, foi exibido em várias cidades como troféu de guerra, e, em seguida, ele foi decapitado; Arbogaste, após fugir e vagar uns dias pelos Alpes, cometeu suicídio.

Voltou, assim, Teodósio, como já observado, a reinar sobre as duas metades do Império, porém não por longo tempo, pois morreria no ano seguinte, em 395 D.C.

Alarico, convicto de que os godos eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio na Batalha do Rio Frígido, após a morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, mas não obteve o reconhecimento pretendido.

O rei Alarico x Estilicão

Desapontado, ainda em 395 D.C, Alarico foi eleito formalmente Rei pelos Visigodos (alguns historiadores consideram que isso ocorreu em 391) e liderou uma revolta do seu povo contra o Império, chegando, inicialmente, a se dirigira aos muros de Constantinopla, desistindo apenas em função da solidez dos muros da capital. Em seguida, os Visigodos devastam a Macedônia e a Grécia, saqueando e destruindo as históricas cidades de Corinto, Mégara. Argos e Esparta, porém poupando Atenas.

Enquanto isso, o exército do Oriente estava ocupado com uma incursão dos primeiros grupos de Hunos que começavam a chegar às fronteiras do Império e que, décadas mais tarde, assolariam Roma, unidos sob o comando de Átila.

Por isso, Rufino, o prefeito pretoriano do Leste e regente do Império do Oriente, tentou negociar em pessoa com Alarico. E. concomitantemente, Estilicão dirigia-se, através da Ilíria em direção à Grécia, para dar combate aos Visigodos. Porém, manipulado pelo seu rival Rufino, o jovem imperador Arcádio ordenou que Estilicão desse meia-volta e abandonasse o território do Oriente, que era tudo o que Alarico precisava no momento, já que o exército de Estilicão no momento era mais poderosos do que o dos Visigodos.

O comportamento traiçoeiro de Rufino foi tão mal recebido pelos romanos, que os próprios soldados da sua escolta o assassinaram. Livre, assim, da má influência de Rufino, Arcádio chamou Estilicão de volta.

O leal e patriota general acedeu prontamente e, entrando na Grécia com seu exército, conseguiu, em 397 D.C., cercar Alarico nas montanhas do Peloponeso, de ele onde somente conseguiram escapar com muita dificuldade. Na verdade, naquele momento, os Visigodos ficaram numa posição tão difícil que Estilicão, na época, foi acusado de ter deixado intencionalmente eles escaparem e tal acusação é objeto de debates até hoje. Para alguns, Estilicão teria recebido, novamente ,ordens de partir e por isso não liquidou Alarico; para Zózimo, historiador romano do período, o general romano seria confiante em excesso, além de gostar demasiadamente de luxo e mulheres. Outros acreditam que as tropas de Estilicão, de contingentes majoritariamente germânicos, não eram confiáveis e relutaram em dar cabo dos seus “primos”. E há quem diga que Estilicão teve que lidar com a revolta de Gildo, na África, que estourou no mesmo ano.

O fato é que Alarico e seus visigodos conseguiram escapar em direção ao norte, cruzando e pilhando o Épiro e chegando à Ilíria, e ainda levando consigo o produto do saque à Grécia.

Mais grave, para os romanos contudo, foi o fato de Alarico, no final dessa campanha, ter conseguido fazer o fraco Arcádio nomeá-lo Marechal das Forças Armadas (Magister Utriusque Militiae) do Oriente, o que permitiu aos visigodos ter acesso aos arsenais e fábricas militares do Estado Romano em Ilyricum.

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Nesse meio tempo, Estílicão, além de ter de lidar com a revolta na África, ainda teve que combater uma guerra na Britânia.

Percebendo a fraqueza da parte ocidental, o insaciável Alarico voltou a sua cobiça para a Itália, cujas regiões central e sul, intocadas por invasores estrangeiros fazia mais de 600 anos, ofereciam a perspectiva de polpudos saques…

Em 402 D.C, Alarico conduziu seu exército para Milão, a então já centenária capital do Império Romano do Ocidente, e, desafiadoramente, sitia o próprio imperador Honório.

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Contudo, mesmo após se armar nos arsenais imperiais da Ilíria, aos bárbaros ainda faltava o necessário  “know-how” para o assédio às poderosas muralhas de Milão.

Mais uma vez, a situação foi salva por Estilicão, que derrotou Alarico em Polentia, no Piemonte, capturando, inclusive a esposa do rei bárbaro. Alarico, foi obrigado a abandonara a região, e, em 403 D.C., ele foi novamente derrotado por Estilicão nas cercanias de Verona, decidindo voltar para a Ilíria.

Ravena, a nova capital do Império

A grande consequência dessa incursão de Alarico foi convencer o imperador Honório a deixar Milão e estabelecer a Corte em Ravena. O motivo da escolha é que Ravena era uma cidade cujo acesso por terra somente poderia ser feito cruzando-se extensos pântanos que faziam parte de uma laguna e, portanto, ela era muito difícil de ser invadida pelos bárbaros. Além disso, a cidade poderia se comunicar por mar com todo o império, valendo-se do porto militar fortificado de Classe.

Ravena seria a capital do Império Romano do Ocidente até a queda deste, em 476 D.C e , posteriormente, seria o centro da Itália bizantina, de 540 a 751 D.C. Pretendo, um dia, conhecer essa cidade, onde ficam várias igrejas e construções que guardam os mais belos mosaicos da arte bizantina.

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E a mudança da capital do Império para Ravena teria influência decisiva na estratégia imperial que seria adotada  nos cercos  que Alarico viria a submeter Roma…

A invasão da Gália – a queda da fronteira do Reno

Infelizmente, para os romanos, o inverno rigorosíssimo do ano de 406 D.C contribuiria para um fato desastroso, que, para boa parte dos estudiosos, teve consequências irreversíveis que levaram o declínio do Império Romano do Ocidente a um “ponto-de-não-retorno” :

O rio Reno marcava, desde a Conquista de Gália, por Júlio César, em 52 A.C., a fronteira entre a civilização mediterrânea e o mundo dito bárbaro germânico.

Essa fronteira não era protegida por muros de pedra, como a Muralha de Adriano, na Grã-Bretanha, que separava a província romana de Britânia das terras habitadas pelos bárbaros pictos e escotos – De fato, a fronteira da Gália com a Germânia era guardada por uma série de torres de vigia fortificadas e quartéis situados em pontos estratégicos. Em algumas partes mais vulneráveis, onde o Rio Reno poderia ser mais facilmente atravessado, os romanos construíram também longas paliçadas de troncos.

Mas a grande proteção contra invasores era fornecida em si mesma pela largura do Reno.

Entretanto, naquele rigoroso inverno, aconteceu do Reno congelar. E isso foi aproveitado por um grande número de tribos bárbaras que tinham migrado para a margem oposta do Rio fugindo dos hunos. Eram sobretudo Vândalos, Suevos e Alanos. Para piorar a situação, quando essa horda passou o lado romano, não havia nenhuma tropa romana suficiente para resistir, pois, justamente naquele mês, Estílicão necessitara deslocar as tropas romanas na Gália para enfrentar a segunda invasão de Alarico à Itália.

A Gália foi, em seguida, devastada pelos invasores, que, desta vez, tinham vindo para ficar. Era a província mais rica do Ocidente e ela nunca mais se recuperaria; não muito tempo depois, viriam os Francos, os Alamanos e os Burgúndios. Aliás,, seguindo-se à invasão de 406 D.C., os Suevos e Alanos só foram parar em Portugal, onde os primeiros se estabeleceram até o século VI, quando seriam derrotados e incorporados pelos Visigodos.

Por incrível que possa parecer, em meio a esse caos, os generais romanos ainda gastavam seus parcos recursos para disputar o trono. De fato, logo após a invasão da Gália e o desaparecimento do exército local, o comandante da ultima legião da Britânia vislumbrou uma oportunidade e se proclamou imperador romano do Ocidente. Adotando o nome de Constantino III, ele deixou a ilha e desembarcou na Gália para tentar conquistar essa importante província.

O “reinado” dele consistiria em vagar pela Gália e pela Hispânia, lutar algumas pequenas batalhas e, finalmente, ser reconhecido por Honório como co-imperador, pelo simples fato dele ser, no final de 408 D.C., o único romano que comandava alguma tropa no Ocidente, após o triste fim de Estilicão, que veremos adiante. Constantino III somente seria morto em 411 D.C.

O caos resultante da travessia do Reno pelos bárbaros era uma oportunidade que Alarico não poderia desperdiçar e ele intensificou a ofensiva contra Honório. Estilicão, dessa vez, premido pelas circunstâncias, concordou em pagar 4 mil libras de ouro a Alarico e o Visigodo, aceitando, deu meia-volta e retirou as suas tropas da Itália.

Para a surpresa geral, o Senado Romano sentiu-se ultrajado pelo pagamento do “resgate” do Ocidente a Alarico, tendo um senador inclusive assinalado, em um discurso indignado: “Isso não é um tratado de paz, mas um pacto de servidão!“. Talvez ele tenha se iludido de que os romanos ainda viviam os tempos gloriosos dos Cipiões, César ou Trajano.

Esse fato, mais a invasão da Gália e a revolta de Constantino III, minaram o prestígio de Estilicão na Corte de Honório, E o general ainda continuava enredado nas intrigas da Corte e concentrado nas disputas entre Oriente e Ocidente.

Em 408 D.C., Estilicão conseguira casar a sua filha, Thermantia, com o próprio Imperador Honório, que recém tinha ficado viúvo, tornando-se, assim, um membro da família imperial. Cresceram as suspeitas que o romano metade vândalo aspirava o trono para si. As suspeitas cresceram quando Arcádio, o imperador do Oriente, morreu. Honório, como imperador romano, planejou ir à Constantinopla tratar da sucessão do irmão falecido, mas foi aconselhado a não ir por Estilicão, que se ofereceu para ir no lugar dele.

No início de agosto de 408 D.C., algumas tropas se rebelaram na Itália, provavelmente instigadas pelos adversários políticos de Estilicão. O general se refugiou em Ravena.

Olímpio, um ministro da corte de Honório, convenceu o jovem imperador que Estilicão planejava usurpar o trono do Oriente. Honório, indignado, ordenou a morte do fiel e valoroso general. Consta que Estílicão poderia ter facilmente resistido à sua sentença de morte, pois eram muitos os soldados fiéis a ele, mas o relato é que ele aceitou, resignada e obedientemente, o seu fim. Ele foi executado em 22 de agosto de 408 D.C. Pouco depois, o seu filho, Euquério, também seria executado.

A execução de Estilicão foi uma flechada que Honório deu no próprio peito. Logo após a execução do infeliz general, alguns populares romanos atacaram as famílias de soldados bárbaros federados que formavam o exército de Estilicão e cerca de 30.000 soldados desse exército desertaram e fugiram, juntando-se a ninguém menos do que…Alarico!

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O primeiro cerco de Roma

Em setembro de 408 D.C., um mês após a morte do seu maior adversário, Alarico e seu exército, agora reforçado, já estavam às portas de Roma. Começava o Primeiro Cerco de Roma.

Alarico esperava subjugar a Cidade pela fome, já que tentar invadi-la sem máquinas de assédio seria muito difícil e arriscado. Ela era protegida por imponentes muralhas e a sua população, para a época,  é estimada entre 600 mil a 800 mil habitantes. De qualquer modo, o pânico se instalou em Roma. Havia 800 anos desde a última vez que algo assim tinha ocorrido. Mesmo o temível Aníbal não chegara a sitiar Roma. Os que professavam o paganismo pediram autorização para celebrar os ritos pagãos pedindo proteção aos antigos deuses. Consultado, o Papa Inocêncio concordou, sob a condição de que as cerimônias fossem celebradas em particular.  Contudo, os sacerdotes pagãos desistiram, pois os ritos tinham que ser celebrados no Fórum Romano.

Uma delegação do Senado foi negociar com o rei visigodo. Os senadores perguntaram quais eram as exigências de Alarico. Este exigiu que os romanos entregassem “todo o ouro, toda a prata, todos os utensílios domésticos e todos os escravos germânicos que existiam na Cidade“. Os senadores, sarcasticamente, replicaram: ” E o que você pretende deixar conosco? Alarico respondeu:

“Vossas vidas”.

Insistindo, os senadores, tentaram blefar e afirmaram que as centenas de milhares de cidadãos de Roma tinham recebido treinamento militar e estavam preparados para luta. O bárbaro riu e afirmou:

Quanto mais grossa é a grama, mais fácil cortá-la…”

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Quando a fome começou a incomodar demais (Roma dependia dos suprimentos de grãos que subiam o Rio Tibre, agora bloqueado pelos godos, que vinham transportados do Egito e do Norte da África, via Mediterrâneo), Roma finalmente cedeu e entregou a Alarico 5,000 libras de ouro, 30,000 libras de prata, 4,000 túnicas de seda, 3,000 peles tingidas de escarlate e 3,000 libras de pimenta. Milhares de escravos fugiram da cidade e se juntaram a Alarico, estimando-se que isso aumentou as suas fileiras para 40 mil homens. Momentaneamente saciado, Alarico levantou o sítio e foi para o norte, na região da Etrúria, em dezembro de 408 D.C.

Convém ressaltar que, embora possa parecer que assistir imóvel o cerco a Roma fosse uma covardia, ou algo inaceitável, o comportamento de Honório nesse episódio tinha bastante racionalidade: O Imperador e sua Corte estavam seguros em Ravena, onde os Visigodos não se atreveriam a atacá-los. Ele, de fato, não tinha mais um exército, mas havia uma chance de receber alguma ajuda de Constantinopla. Honório poderia esperar que Alarico e suas forças fossem diminuídas pela peste ou até mesmo pela fome, já que os bárbaros não eram muito versados em logística. Enquanto isso, ele tinha a frota romana no Porto de Classe e podia controlar o suprimento de grãos africanos.

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O segundo cerco de Roma

E foi isso que aconteceu quando Alarico sitiou Roma pela segunda vez.

Em 409 D.C, os senadores romanos mandaram duas delegações à Ravena para pedir a Honório para assinar um tratado de paz com Alarico. Nesta segunda vez, até o Papa Inocêncio foi junto! Nesse ínterim, Ataulfo, o cunhado de Alarico, comandando um grande contingente de Godos, cruzou os Alpes Julianos com o objetivo de se juntar ao último. Honório ordenou que Olímpio e 300 soldados hunos da guarda imperial interceptassem Ataulfo. Eles teriam conseguido matar mais de mil godos, mas acabaram sendo forçados a se retirar para Ravena. Olímpio caiu em desgraça, foi demitido e fugiu para não ser executado. Foi substituído por Jovius, que tinha boas relações com Alarico.

Jovius se encontrou com Alarico e este lhe passou suas novas exigências: um pagamento anual em ouro e mais terras para os Godos, em várias províncias. Jovius transmitiu tudo ao imperador e sugeriu que fosse dado a Alarico o cargo de Comandante das Forças Armadas do Ocidente (Magister Utriusque Militae). Honório não só recusou, como ainda enviou uma carta a Alarico, cujos termos foram considerados por ele insultuosos.

Furioso, Alarico rompeu com as negociações. Parece que a súbita coragem de Honório devia-se ao fato de ter em perspectiva receber o reforço de 10 mil mercenários hunos. Honório, inclusive, exigiu que Jovius e o seu staff jurassem pela saúde do imperador que eles fariam guerra aos Godos. Quando soube desse rumor, Alarico “baixou a bola” e reduziu suas exigências. agora propondo que os godos recebessem terras na Nórica e um suprimento anual de trigo, o que chegou a ser considerado uma demanda razoável pelos contemporâneos. Mas mesmo esses termos mais suaves foram negados pelo Imperador.

Com isso, Alarico resolveu sitiar Roma novamente pela segunda vez, no final de 409 D.C. Temendo a volta da fome, o Senado foi negociar com Alarico. Desta vez, o rei visigodo procurou obter concessões que lhe dessem poder político e enfraquecessem Honório. Ele exigiu que o Senado apontasse um senador das suas fileiras e o proclamassem imperador. Mesmo depois de quatro séculos e meio do fim da República, o reconhecimento pelo Senado era uma formalidade essencial para a legitimação de um pretendente ao trono imperial. O Senado acedeu e escolheu Prisco Átalo, que, prontamente, nomeou Alarico Magister Utriusque Militae, e Ataulfo, Comes Domesticorum Equitum (Conde da Cavalaria da Guarda do Imperador). Obtidas essas concessões, o cerco, mais uma vez, foi levantado.

O “reinado” de Prisco Átalo durou só alguns meses, sendo ele dispensado pelo próprio Alarico, pois, esse usurpador fantoche estava atrapalhando as possibilidades de um acordo com Honório. Com efeito, a situação deste tinha ficado bem difícil porque o primeiro vinha assediando o governador da África, Heracliano, para que este abandonasse a Honório, inclusive enviando uma expedição para lá para forçá-lo. Por sua vez, Jovius havia desertado e se juntado a Prisco Átalo. Tudo isso fazia parecer bem provável que Honório acabaria cedendo às exigências de Alarico.

Na verdade,  Honório, em pânico, já fazia planos para fugir de Ravena e se abrigar em Constantinopla. Foi quando chegaram nas docas 4 mil soldados enviados pelo Imperador Romano do Oriente, Teodósio II, sucessor de Arcádio, com o objetivo de defender Ravena das forças de Alarico. Agora, realmente, a sorte de Honório parecia estar mudando, pois também chegou a notícia de que Heracliano havia derrotado as forças enviadas por Prisco Átalo e se mantinha fiel ao Imperador, inclusive mandando cortar o envio de grãos à Roma, devido à traição do Senado em dar suporte ao último.

Alarico tentou mais uma vez um acordo e acertou um encontro em pessoa com Honório, a 12 km de Ravena. O imperador mandou dizer que concordava. Na data marcada, enquanto esperava a chegada de Honório, Alarico foi atacado por Sarus, um chefe militar godo, que era um grande rival e inimigo de Alarico e de Ataulfo, e estava a serviço da corte imperial, mas eles conseguiram escapar. Em suma: o encontro tinha sido uma armadilha tramada pelo Imperador.

O terceiro cerco – O Saque de Roma

Alarico, cansado das trapaças romanas, marchou em direção à Roma, já que Ravena era inexpugnável. Começava o terceiro cerco.

O cerco durou cerca de um mês. Honório confiava que a Cidade resistiria por um tempo suficiente para enfraquecer os sitiantes godos. Então, o seu pequeno, porém renovado exército teria uma chance de derrotar os bárbaros. Porém, a verdade é que Roma já estava bem enfraquecida pelos dois cercos anteriores. Restava agora confiar nas Muralhas Aurelianas.

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Quem já visitou Roma certamente passou pelas suas bem preservadas muralhas, erguidas pelo Imperador Aureliano, entre 271 e 275 D.C, como resposta à grave crise militar do final da 2ª metade do século III. Ainda hoje, elas são bem imponentes e, há 1600 anos atrás, elas deveriam ser mais impressionantes ainda.

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Contudo, não há muralha nem fortificação que resista se quem abre o portão está do lado de dentro…

E, no dia 24 de agosto de 410 D.C.,  alguém, nunca se saberá quem, abriu a Porta Salaria, um dos inúmeros portões de acesso à cidade,  no caso um portão secundário, para que os Godos entrassem.

Os Godos permaneceram apenas três dias dentro da Cidade Eterna. Eles não tiveram nem tempo suficiente para promover uma destruição geral. Mas eles queimaram as Basílicas Emília e Júlia, esta erguida por Júlio César, que eram grandes salas de tribunais judiciários no Fórum Romano. O incêndio foi tão intenso que, até hoje, se vêem grudadas no piso moedas romanas, que derreteram pelo forte calor. As moedas são do reinado de Honório.

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Os Jardins de Salústio também foram destruídos. Os Godos saquearam alguns monumentos públicos e mausoléus, como os de Augusto e de Adriano. As cinzas desses grandes imperadores ali guardadas foram dispersadas.

Quem sofreu bastante foram os moradores ricos de Roma. Aqueles que não mostrassem onde estavam os seus bens valiosos eram torturados. Muitos morreram.

Alarico era cristão, embora do credo Ariano, e poupou as Igrejas, mas do Palácio Laterano, a residência do Papa, ele roubou um grande vaso cerimonial de prata, pesando 2.200 libras.

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Mas talvez a maior presa de Alarico tenha sido Galla Placidia, a filha do grande Teodósio I, e irmã do Imperador Honório, na flor dos seus 20 anos, uma das personagens femininas mais fascinantes da história romana.

Após três dias, Alarico, sabiamente deixou Roma rapidamente, provavelmente para poupar seu exército do risco de contrair doenças ou, com menor probabilidade, de ser apanhado por Honório dentro de Roma.

O rei visigodo dirigiu-se, em seguida, para o Sul, em direção as ricas e antigas cidades da Campânia, que por também estarem a 800 anos livres de invasores, ofereciam a perspectiva de generosas pilhagens.

Todavia, ainda no final daquele ano de 410 D.C, Alarico ficou doente e morreu. Consta que os Visigodos o enterraram no leito do rio Busento, próximo à cidade de Cosenza. Para tanto, eles teriam desviado o curso do rio, cavado a tumba e sepultado o rei com o seu tesouro, e, depois, restituído o rio ao seu curso normal. Os escravos que fizeram o trabalho foram mortos, para que o local exato nunca fosse revelado.

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Se isso for mesmo verdade e, um dia, esse tesouro, que deve conter muitos objetos romanos de ouro e prata saqueados, for achado, de certa forma, Alarico, ironicamente, terá dado uma grande contribuição para a preservação da arte romana…

Após a morte de Alarico, o seu irmão Ataulfo foi escolhido Rei dos Visigodos. A história conta que ele se apaixonou profundamente por Galla Placidia, casando-se com ela.

O saque de Roma ecoou pelo mundo com uma intensidade que somente podemos avaliar comparando-o com o ataque de 11/9 ao World Trade Center!

                                                                                    FIM

PORTUNALIA

PORTUNALIA

No dia 17 de agosto, o décimo-sexto dia antes das calendas de setembro, os romanos comemoravam a Portunalia, o festival em honra do deus Portunus, a divindade que, originalmente velava pelas criações de gado e pelas chaves, portas e portos.

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(Considera-se que a divindade retratada no canto superior esquerdo do relevo acima, existente no Arco de Trajano, em Benevento, seja uma personificação de Portunus)

Acredita-se que Portunus originalmente protegia os estábulos e as cercas de gado, mas o deus acabou sendo associado com os portões dos mesmos e, mais tarde, com os portos, seja em função da raiz de ambas as palavras, ou talvez porque os portos, de certo modo, seriam as “portas” de entrada para o Mar.

No dia da Portunalia, chaves eram jogadas em uma fogueira para obter boa sorte. O Templo de Portunus ainda existe no local onde ficava o Forum Boarium, na cidade de Roma, e ele é o templo romano mais bem conservado depois do Pantheon, sendo datado dentre o final do século II A.C e início do século I A.C, sendo, também, é um dos dois templos intactos da Roma Republicana sobreviventes na cidade.  A sua arquitetura classicamente sóbria e singela, com um frontão contendo 4 colunas jônicas, é um bom exemplo de templo de estilo itálico, erguido sobre um pódio, com escadaria frontal.

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(Templo de Portunus, foto em https://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=9008801)

Até o século XX, o Templo de Portunus era conhecido, erroneamente, como “Templo da Fortuna Viril”, pois a inscrição incompleta que se podia ler na sua fachada era “…ORTUN…”. Porém, a localização do templo no Forum Boarium (antigo mercado romano de gado), em localização contígua ao rio Tibre e posicionada de frente para o antigo cais e para as barcaças que chegavam subindo o rio, vindas dos portos de Óstia e Portus, torna muito mais plausível a sua associação com Portunus.

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TRAJANO DÉCIO E A BATALHA DE ABRITUS

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(Busto de Trajano Décio, foto de José Luiz Bernardes Ribeiro)

Gaius Messius Quintus Decius (Trajano Décio) nasceu por volta do ano 200 D.C., ou talvez um pouco antes disso, na cidadezinha romana de Budalia (atual Martinci, na Sérvia), que ficava próxima à importante cidade de Sirmium, a capital da província romana da Panônia Inferior. Assim, considerando que, na segunda metade do século III D.C, muitos imperadores romanos nasceram em Sirmium e na região da Ilíria, alguns historiadores consideram que Décio teria sido o primeiro da longa lista de imperadores-soldados ilírios.

Contudo, a carreira de Décio aponta para uma origem senatorial provincial, e, provavelmente, a sua família era proveniente da aristocracia italiana que se mudou para a região para governar a província da Panônia, onde eles tornaram-se grandes proprietários de terras.

Em verdade, inscrições em monumentos apontam para alguns importantes funcionários de sobrenome “Messius” durante o século II D.C, embora não possamos afirmar com certeza que se tratem de antepassados de Décio.

Por volta de 227 D.C., Décio casou-se com Annia Cupressenia Herennia Etruscilla, que era integrante de uma ilustre família senatorial de antiga origem etrusca (como o seu cognome sugere), e que, tudo indica, tinha mais prestígio do que a família dos Messius, uma vez que o filho do casal, nascido em 227 D.C., recebeu o nome de Quintus Herennius Etruscus Messius Decius (Herênio Etrusco).

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(Moeda com a efígie de Herennia Etruscilla, foto de Rasiel)

Em 232 D.C., Décio foi nomeado Cônsul Suffectus, distinção que, dificilmente, teve relação com a carreira militar, tendo em vista a  idade que ele devia ter, de pouco mais de trinta anos.. Ele já deveria ser, então, Senador. Portanto, este é mais um indício de que a sua carreira não seguiu o curso que mais tarde todos imperadores ilírios percorreriam (de patentes no Exército para cargos de prestígio na administração imperial), desenvolvendo-se, ainda, no âmbito da tradicional política romana, onde os membros da classe senatorial eram nomeados para postos de comando no exército.

Posteriormente, Décio ocupou os cargos de governador das províncias da Moésia, da Germania Inferior e da Hispania Tarraconense. Essas indicações, ressaltamos, coadunam-se com uma carreira senatorial, dentro da divisão administrativa ainda em vigor iniciada por Augusto, como é o caso de outro cargo que Décio exerceu, o de Prefeito Urbano de Roma, no reinado do imperador Filipe, o Árabe (244-249 D.C.).

Décio, durante o reinado de Filipe, o Árabe, ganhou a confiança do imperador ao ser o único senador que, durante uma sessão do Senado, tentou convencê-lo a não abdicar em virtude de uma rebelião nas províncias da Moésia e da Panônia, liderada por Marinus Pacatianus, concomitante com uma outra revolta na Síria. Pacatianus chegou até a cunhar moedas como imperador, sendo por isso classificado como “usurpador” pelos historiadores).

Como resultado desse apoio, Décio, segundo consta, contra a sua própria vontade, segundo o relato do historiador Zózimo, foi designado por Filipe, o Árabe  para assumir o comando das legiões das províncias rebeldes no Danúbio em 248 D.C. Para essa designação certamente contribuiu o fato de Décio ser radicado na Panônia, onde ele devia ter muita influência e contatos. Assim, é bem possível que Décio, ao contrário do relato preservado por Zózimo,  tenha manobrado nesse sentido.

Uma das causas da revolta na Panônia foi o fato da disciplina das legiões do Danúbio estar em mau estado, em decorrência das frequentes incursões dos bárbaros chamados de “Carpi”.

Todavia, quando Décio chegou ao Danúbio, acompanhado do filho Herênio, as tropas já tinham assassinado Pacatianus,. O novo comandante causou boa impressão nas tropas, tanto por ser originário da região, como pelos cargos que até então ocupara e pelo seu “pedigree” senatorial.

Imediatamente, os soldados revoltosos perceberam que Décio era um nome bem plausível de ser aceito como imperador pelo Senado, sendo que, caso a insurreição fosse bem sucedida, a expectativa deles era a de receber gordos donativos).

Desse modo, as legiões da Panônia aclamaram Décio Imperador, vestindo-o com um manto púrpura.

Décio, inicialmente, hesitou , porém Filipe, o Árabe, assim que soube da aclamação, marchou com seu exército para confrontar a nova rebelião, em junho de 249 D.C..

Os exércitos rivais encontraram-se no norte da Itália, talvez nas cercanias de Verona, em setembro de 249 D.C., e as tropas lideradas por Décio, embora em menor número, levaram a melhor.

Filipe, o Árabe foi morto durante os combates, provavelmente por seus próprios soldados. A Guarda Pretoriana, em Roma, quando soube do resultado da batalha, assassinou o filho e herdeiro de Filipe, que então era apenas um menino.

As fontes do período são esparsas, mas podemos inferir que a ascensão de Décio foi bem vista pelo Senado Romano. Ele adotou o nome de Caesar Gaius Messius Quintus Trajanus Decius Augustus (ele ficaria conhecido como Trajano Décio), referendado pelo Senado.

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Certamente a adoção do nome “Trajano” soava como uma declaração de princípios, pois Marco Úlpio Trajano havia sido um imperador bem sucedido, tanto nos empreendimentos militares, como nas relações amistosas e respeitosas para com o Senado Roman (motivo pelo qual esta assembleia agraciou-o com o título de “Optimus Princeps”).

A política traçada por Trajano Décio visou restaurar as tradições e instituições do “Século de Ouro” do Império, o século II D.C, durante a dinastia dos Nerva-Antoninos, a qual o finado Trajano pertencia.

De fato, Décio e os seus contemporâneos eram romanos que tinham crescido e iniciado suas carreiras nos reinados dos sucessores de Septímio Severo, onde se verificou uma grande orientalização da política e da religião romana, sendo que até mesmo um deles, Heliogábalo (ou Elagábalo) foi sumo-sacerdote de um deus sírio, cujo culto ele chegou a trasladar para Roma.

Portanto, era natural que esses homens atribuíssem a crise do Império ao abandono da religião e do modo de vida tradicional romanos.

Assim, Trajano Décio promulgou um Édito, cujo teor literal, é o seguinte:

Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício”.

Embora a lei não fosse dirigida a nenhuma religião em particular, os fiéis do Cristianismo sentiram-se os mais atingidos pela medida, e os autores cristãos posteriores registrariam o decreto de Décio como uma das várias perseguições que os imperadores moveram contra sua fé.

Na verdade, a medida em questão era mais um exemplo de um programa conservador de governo, como se constata de outra medida de Décio, que foi a recriação do cargo de Censor, que, durante a República era uma das mais importantes magistraturas, encarregada não apenas de recensear os cidadãos, mas de catalogá-los de acordo com a sua ancestralidade, estirpe e classe social, inscrevendo-os nas listas de cidadãos de acordo com a sua dignidade, do que resultava a elegibilidade para os diversos cargos e funções públicas.

Além disso, os Censores eram responsáveis por fiscalizar os costumes e a moralidade públicas. Provavelmente, a reinstituição da Censura era uma tentativa de reorganizar a nobreza romana no interesse do Estado. Porém, a medida não seria implementada, pois o primeiro escolhido, o futuro imperador Valeriano, declinou, e logo a situação militar atraíria a atenção total de Décio.

Em outra manifestação da sua política de restauração dos tempos de glória, Trajano Décio iniciou a construção de suas Termas, ou Banhos de Décio, no bairro romano do Aventino, além do Pórtico de Décio e da restauração do Coliseu. Vale citar que antes disso fazia 20 anos que a cidade de Roma não via uma obra de vulto.

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A revolta de Jotapiano, na Síria, iniciada durante o reinado de Filipe, o Árabe, foi rapidamente debelada pelos próprios soldados revoltosos, bem no início do reinado de Décio.

Infelizmente, durante o reinado de Décio, grassou uma nova epidemia da Peste Antoniniana, que surgira durante o reinado de Marco Aurélio, ceifando milhares de vidas em Roma.

Porém, o grande problema que Décio enfrentaria seria a primeira incursão dos Godos em território romano, cruzando o rio Danúbio.

Em 250 D.C., os Godos, liderados pelo seu rei, Cniva, liderando uma provável coalizão de tribos bárbaras  (as fontes falam em “Citas”, mas estudos demonstram que se tratavam majoritariamente de Godos, além de, provavelmente, Vândalos e outros povos), atacaram as províncias da Moésia e da Trácia, aproveitando que Décio estava ocupado combatendo os Carpi, os quais ele acabou expulsando da Dácia.

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Ainda durante o ano de 250 D.C., os Godos sitiaram as cidades de Marcianópolis (atual Devnya, na Bulgária), de Novae (de onde eles foram repelidos pelo governador e futuro imperador, Treboniano Galo), e de Nicópolis, no Danúbio (no norte da atual Bulgária). Porém,  a chegada do grande exército comandado por Décio obrigou os bárbaros a fugirem para o sul e eles foram perseguidos até a cidade de Augusta Traiana (Beroe, atual Stara Zagora, na Bulgária). Neste local, os Godos conseguiram atacar com sucesso o acampamento romano, dispersando o exército.

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(Anfiteatro de Augusta Traiana, atual Stara Zagora, foto de Benutzer:DALIBRI)

Em maio de 251 D.C., durante essa campanha, Décio conferiu a seu filho Herênio Etrusco o título de Augusto, nomeando-o, assim, co-imperador.

Após derrotar os romanos na Batalha de Beroe, Cniva comandou os bárbaros na tomada e no saque da importante cidade de Philipopolis, na Trácia (atual Plodviv, na Bulgária), também em  251 D.C..

Esse desastre, inclusive, incentivou o governador da Trácia, Titus Julius Priscus, a autoproclama-se “imperador, sob a “proteção” dos Godos”, mas o Senado  Romano imediatamente declarou-o como “Inimigo Público” e Priscus foi morto pelos próprios soldados.

Enquanto isso, Décio e Herênio conseguiram reagrupar o Exército e alcançaram Cniva nas cercanias de Philipopolis, onde houve um combate que terminou com a trágica morte de Herênio, que foi atingido por uma flecha, em junho de 251 D.C.

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(Moeda de Herennius, foto de Gfawkes05 )

Nesse trágico episódio, Décio, após ser informado da morte do filho, tentando mostrar determinação para os seus comandados, disse a célebre frase:

“Que ninguém lamente. A morte de somente um soldado não é uma grande perda para o Império!”

Cniva e os Godos decidiram se retirar do território romano e voltar para a sua base territorial ( que ficava provavelmente entre a Polônia e a Ucrânia), levando o produto do saque e vários prisioneiros ilustres (para os quais certamente eles  pediriam um alto resgate).

Todavia, Décio resolveu perseguir os bárbaros e derrotá-los antes que deixassem o Império.

A BATALHA DE ABRITUS

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(Mapa das invasões bárbaras combatidas por Décio, de Dipa1965 )

Décio perseguiu os Godos até 100 km ao norte de Nicópolis, quando os mesmos já estavam aproximando-se da fronteira do Império Romano.

Informando da aproximação do exército romano, próximo à cidade romana de Abritus (situada nas cercanias da moderna Razgrad, na Bulgária), Cniva, que conhecia bem aquele terreno, dividiu as suas forças em três linhas, colocando a última atrás de um pântano.

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(Achados arqueológicos sugerem que a Batalha de Abritus teria ocorrido no local que hoje é esse campo. Foto extraída da página https://brewminate.com/roman-goth-battle-of-abritus-251-ce-battlefield-identified-near-bulgarias-dryanovets/)

Em 1º de julho de 251 D.C. (data mencionada por algumas fontes), Trajano Décio conseguiu repelir as primeiras linhas do exército bárbaro, mas ao entrar no pântano, ele foi emboscado pelos Godos de Cniva que, fazendo jorrar lanças e flechas sobre os legionários, massacraram os romanos. O corpo do imperador, que morreu combatendo bravamente até o fim, jamais seria encontrado. Anos depois, um altar em honra de Trajano Décio seria erguido no local de sua morte.

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(Alguns acreditam que esse relevo, que faz parte do sarcófago Ludovisi, exposto no Palazzo Altemps, em Roma, retrate Trajano Décio e Herênio em luta contra os Godos).

Segundo o historiador Zózimo, no epísódio os Godos teriam tido algum auxílio do governador da Moésia, Treboniano Galo, mas o relato não parece crível, pois os as tropas sobreviventes da catástrofe de Abritus aclamaram Treboniano imperador (o que dificilmente se enquadraria no código de conduta dos soldados romanos de qualquer época) e Treboniano reconheceu como coimperador Hostiliano, o filho sobrevivente de Trajano Décio, que tinha cerca de 20 anos de idade e havia ficado em Roma, onde tinha sido nomeado ‘César” por Décio (título equivalente a príncipe-herdeiro). Treboniano também manteve o status de imperatriz de Herennia Etruscilla, a viúva de Décio.

Contudo, ainda naquele sombrio ano de 251 D.C., Hostiliano faleceria em virtude da epidemia de peste, em novembro.

CONSEQUÊNCIAS

A Batalha de Abritus foi um dos maiores desastres militares da História de Roma. Apesar disso, ela  é quase desconhecida do público e sequer aparece nas listas das batalha romanas mais importantes, como é o caso das Batalhas de Canas, Teutoburgo ou Adrianópolis. Entretanto, foi a primeira vez que um imperador romano morreu em combate (tecnicamente, Herênio, que tinha sido nomeado Augusto por Décio, e foi morto em combate alguns dias antes do pai foi o primeiro), o que abateu o moral romano e turbinou o dos bárbaros.

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Outra consequência desastrosa para o Império, que estudos recentes parecem demonstrar, foi o fato de que Trajano Décio muito provavelmente levava com ele todo o tesouro do Estado Romano, que foi  inteiramente capturado pelos bárbaros!

Segundo o arqueólogo e numismata polonês Aleksander Bursche, a grande quantidade de achados de moedas de ouro (aurei) novas, cunhadas por Décio e seus antecessores imediatos, com características de nunca terem entrado em circulação e terem sido cortadas e perfuradas cerimonialmente (com a destruição do retrato do imperador inimigo), procedimento que era costume dos bárbaros germânicos para com os despojos ganhos em batalha e encontradas na Polônia e na Ucrânia, em regiões nas quais a arqueologia identificou vestígios das culturas associadas com os Godos no século III D.C, tudo isso aponta para um grande butim que pode ser estimado em várias toneladas de ouro.

(acessível no link https://www.academia.edu/1321300/The_Battle_of_Abrittus_the_Imperial_Treasury_and_Aurei_in_Barbaricum_Numismatic_Chronicle_173_2013_s._151-170

Para Bursche, a perda de tamanha quantidade de ouro seria a causa direta da deterioração da qualidade do “aureus”, nos reinados dos sucessores de Décio, inclusive seu filho Hostiliano, que, embora estivesse em Roma, não cunhou nenhuma moeda de ouro, como seria tradicionalmente esperado quando da ascensão de um imperador, muito provavelmente pela falta de ouro no Tesouro Imperial. E, ainda de acordo com Bursche, os “aurei” cunhados pelos imperadores Treboniano Galo, Valeriano e Galieno, que reinaram logo depois, apresentavam um percentual de ouro muito menor do que o  das moedas cunhadas por Décio.

Portanto, a derrota na Batalha de Abritus e a morte de Décio foi um fator fundamental no aprofundamento da chamada Crise do Século III do Império Romano, iniciada após a dinastia dos Severos.

CONCLUSÃO

Trajano Décio parece ter sido um imperador patriota e bem-intencionado. Podemos criticar, com o distanciamento de quase dois milênios, as suas medidas como sendo ingênuas ou inócuas, tais como o decreto impondo o sacrifício obrigatório aos deuses ancestrais ou a recriação da Censura, mas essas eram tentativas sinceras de interpretar as causas e procurar soluções para a decadência do Império em contraste com as glórias do passado. De fato, não se pode acusar Décio de omissão ou absenteísmo no exercício do governo, e mesmo a decisão taticamente equivocada de perseguir os Godos até a fronteira, seja para manter o prestígio romano, seja para vingar a morte do filho, diz mais favoravelmente sobre a nobreza do seu caráter do que sobre a sua eventual incompetência.

Com efeito, os bustos de Décio que sobreviveram representam o semblante de um homem preocupado e angustiado e eles são a melhor imagem da crise romana do século III D.C.

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SÃO HERMIAS

 

Hérmias foi um soldado romano de Comana, no Ponto (atual Gumenek, na Turquia), que serviu durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Escavações em Gumenek, antiga Comana Pôntica, foto http://www.yapi.com.tr/haberler/komanada-antik-kilise_123346.html)

Segundo a tradição católica, Hérmias, ao dar baixa em serviço no Exército Romano, confessou que era cristão, motivo pelo qual ele foi preso e levado à presença de Sebastião, o Proconsul daquela província. O governador ordenou que Hérmias demonstrasse a sua lealdade ao imperador e ao Estado praticando o ritual de costume (normalmente, queimar incenso em um altar perante a efígie do imperador), o que foi recusado por Hérmias. Sebastião então ordenou que o soldado fosse torturado, suplício no qual a sua mandíbula foi quebrada e sua pele arrancada de sua face. Depois, Hérmias foi atirado em uma fornalha e, mesmo assim, após três dias desses terríveis tormentos, ele teria sobrevivido ileso às chamas.

Sebastião resolveu então convocar um mago, chamado Marus, para que envenenasse Hérmias. Porém, antes de tomar o veneno, Hérmias abençoou o recipiente com o sinal da cruz e bebeu, sem que nada lhe acontecesse. Vendo isso, o próprio Marus teria reconhecido o poder de Jesus Cristo e ele mesmo se converteu à fé cristã, sendo imediatamente decapitado por isso.

Inconformado, Sebastião ordenou que Hérmias fosse submetido a novo suplício, onde os seus olhos teriam sido arrancados, e, depois, ele foi atirado em um caldeirão de óleo fervente. Ainda  vivo segundo o incrível relato, Hérmias depois foi crucificado por três dias, durante os quais ele continuou dando graças a Jesus Cristo.

Furioso, Sebastião, então,  decapitou Hérmias com sua própria espada,  matando-o em 31 de maio de 160 D.C.

A fantástica estória de Hérmias parece prenunciar a de muitos outros soldados romanos cristãos que virariam santos católicos, tais como São Sebastião e São Jorge.

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AS INSÍGNIAS IMPERIAIS DO IMPERADOR MAXÊNCIO

Em 2006, arqueólogos italianos anunciaram uma notável descoberta em uma vala escavada em um pequeno templo na colina do Palatino, em Roma, onde, durante o período imperial romano, foram construídos as moradias dos imperadores romanos (em verdade, devido a este fato, “palácio” é uma palavra derivada do nome da colina do Palatino).

Vide o link da notícia: http://www.nbcnews.com/id/16031991/ns/technology_and_science-science/t/rare-insignia-constantines-foe-found/

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Foram encontrados, no interior dos restos de caixas de madeira, aparentemente envolvidas em fragmentos de seda, objetos parecidos com 3 lanças , 4 dardos, os quais aparentemente serviriam como base para algum objeto, 3 esferas coloridas de vidro e calcedônia, além de uma haste com aparência de ser um cetro, em cuja ponta havia uma flor estilizada segurando um globo verde-azulado (caracterizando uma representação bem acurada da forma e da cor verdadeira do globo terrestre).

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( A foto 1 mostra as lanças e a reprodução da sua aparência original. A foto 2 mostra a ponta do cetro com o globo de calcedônia)

Os arqueólogos estimaram que a camada onde os objetos foram encontrados remetia ao fim do século III D.C. e o início do século IV D.C., o que foi confirmado pela datação de carbono 14 dos restos de linho.

Concluiu-se. portanto, que efetivamente os objetos eram um cetro e lanças porta-estandarte imperiais, sendo que a data e o contexto em que os artefatos foram encontrados permitem também considerar que se tratam das insígnias imperiais do imperador romano Maxêncio, filho do imperador Maximiano, e que, após a abdicação do imperador Diocleciano e de seu pai, disputou o trono contra outros imperadores, culminando com a sua morte na Batalha da Ponte Mílvio, em Roma, conflito no qual ele foi derrotado por Constantino, o Grande, em 312 D.C.

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(Ponte Mílvio, em Roma, foto de Anthony Majanlahti )

Assim, as insígnias de Maxêncio deven ter sido escondidas por algum partidário fiel para evitar que fossem capturadas por Constantino.

Moedas do período em questão mostram insígnias imperiais muito semelhantes as encontradas no Palatino, sendo estas os únicos itens da regalia imperial romana a chegarem até os nossos dias, motivo pela qual devem as mesmas serem admiradas com reverência, e quem quiser pode visitá-las no Museu Nacional Romano, no Palácio Massimo, em Roma, onde hoje elas se encontram expostas.

 

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(Relevo da Apoteose de Antonino e Faustina. A imperatriz segura um cetro parecido com o encontrado no Palatino – Römisch-Germanisches Zentralmuseum, Mainz)

 

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(Moeda cunhada por Maxêncio

 

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UM BANQUETE ROMANO

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O mosaico da foto acima, que hoje faz parte do acervo do museu do Chateau de Boudry (foto copiada do site “http://www.chateaudeboudry.ch”) é um dos mais extraordinários mosaicos romanos que sobreviveram. Ele data do século V D.C. e acredita-se que seja originário da Síria.

Trata-se, provavelmente, de uma das melhores representações de como era um banquete da elite romana. Nele podemos ver a disposição do triclinium, aposento equivalente à sala de jantar das grandes residências modernas. Este nome é devido aos três leitos dispostos em forma de “U”, onde os convivas comiam reclinados. O aposento tem uma porta de madeira, que deve dar para a cozinha, e uma entrada maior, com cortinas, que deve dar para um peristilo, pátio rodeado de colunas com um agradável jardim, geralmente com fontes, no centro, como era padrão em uma domus romana.

O normal é que cada sofá ou dossel do triclinium acomodasse três pessoas, perfazendo um evento para nove pessoas, mas grandes triclinia já foram encontrados em escavações, os quais, certamente, poderiam acomodar muito mais conjuntos de três leitos,  e portanto, os seus proprietários poderiam receber um número maior de convivas.

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No mosaico, os convivas são servidos de vinho pelos escravos, os quais, exceto o que está em primeiro plano, usam um corte de cabelo rapado com uma espécie de mecha ou rabo-de-cavalo comprido). A comida é servida em três banquetas trípodas, do tipo das que já foram recuperadas em Pompéia e Herculano. Alguns comensais estão bem à vontade, dando a entender que já beberam bastante…

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Também na cena retratada, os serviçais estão preparando vinho quente (vin chaud), ainda hoje consumido no inverno na Europa, o que pode ser constatado pela imagem do escravo enchendo a jarra em uma espécie de samovar, bem no canto direito do mosaico. Mas pode ser também que o líquido seja água quente, pois sabemos que também se costumava adicioná-la ao vinho (porém, os romanos no verão também apreciavam o oposto: beber vinho misturado com neve trazida dos picos das montanhas).

O primeiro prato ou prato principal acaba de ser servido: frangos inteiros assados (e provavelmente estufados com os recheios mais surpreendentes, provavelmente bem picantes) e podemos ver que o convidado de cabelo e barba grisalha já se apressou em pegar uma coxa…

A cena mais chamativa do mosaico, entretanto, é o chão salpicado de restos do que devem ter sido pratos de entrada: Folhas de verduras, peixes, camarões, lulas, conchas de moluscos, etc. E, aproveitando a fartura dos restos no piso, um gato e um camundongo aproveitam para garantir a sua parte…

Esse tema do nosso mosaico de maneira nenhuma é original. Ele faz parte de um estilo comum no Mundo Helenístico, que foi apelidado de asarotos oikos (“chão não varrido”),  e do qual sobraram vários exemplos, como o da foto abaixo. Em nossa opinião, o propósito dessas representações era retratar a fartura das recepções dadas e lembrar aos observadores que o sucesso do banquete retratado no piso estava a se repetir novamente, como os comensais perceberiam ao olharem para o chão. Ou, quem sabe, o tema fosse uma forma bem-humorada de pedir que os convivas não fizessem tanta sujeira…

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Parece que a quantidade dos restos no chão e a presença dos camundongos de maneira nenhuma chocavam os romanos. Certamente, um anfitrião próspero teria que ter um time de escravos suficiente para deixar tudo limpo ao fim do banquete. Mas é possível que alguma obra literária antiga forneça mais alguma explicação para a recorrência do tema (era também comum que os mosaicos trouxessem temas de obras literárias famosas ou do cotidiano, tais como jogos de gladiadores, corridas, caçadas, etc.).

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Os encontros onde ocorriam os banquetes recebiam o nome genérico de convivium (palavra latina que originou a palavra convívio, em português, e com o mesmo sentido).

Os banquetes públicos eram chamados de epulum e costumavam ser oferecidos pelo Estado ou por políticos, normalmente para marcar alguma festividade religiosa ou celebrar vitórias. Júlio César, por exemplo, ficou célebre pela suntuosidade e grandiosidade dos banquetes públicos que ele patrocinou. A História, inclusive, registra que César ofereceu o primeiro banquete público em Roma no qual foram servidos quatro tipos de vinhos diferentes.

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Os banquetes privados eram oferecidos nas residências, normalmente jantares (Cena) onde o anfitrião se esmerava em impressionar os convidados com pratos exóticos e o serviço de mesa mais rico que ele pudesse adquirir. Nos arredores de Pompéia, foi encontrado o magnífico “Tesouro de Boscoreale” (nome da vila onde ele foi escavado), um serviço de mesa completo com baixelas e taças de prata ricamente decoradas.

Mas, mesmo nas mais longínquas regiões do antigo Império Romano, foram descobertos também serviços de mesa tão fabulosos quanto os de Boscoreale (como por exemplo, o “Tesouro de Middenhall“, na Inglaterra), que, na época do Baixo Império Romano, foram propositalmente enterrados pelos proprietários para que não fossem saqueados pelos bárbaros .

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Não menos espetaculares que os serviços de mesa de prata são os fabulosos recipientes de vidro, produzidos com uma técnica requintada que faria inveja aos artesãos da atual Murano. Confira os exemplos abaixo:

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Muito provavelmente, todo esse aparato era guardado para ser utilizado nos banquetes, pois, para as refeições cotidianas, os romanos costumavam usar as peças feitas de cerâmica do tipo “terra sigilata“, como, por exemplo, a taça do tipo scyphus abaixo.

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Note-se que o talher mais usado eram as colheres. Facas e garfos raramente são encontrados em escavações e parece que não eram comuns. Provavelmente. os alimentos ou porções eram servidos para serem consumidos com as mãos, sendo as colheres utilizadas apenas para alguns alimentos, como papas, pastas, cremes, ovos, ostras, sopas, molhos, etc.

Note-se que as mesas trípodas encontradas nas escavações e retratadas nos afrescos e mosaicos parecem pequenas para acomodar tantas travessas com comida. Provavelmente, os escravos ficavam levando as baixelas até os convivas, que pegavam o que queriam.

Ao contrário do que acontecia nos symposia gregos, nos banquetes romanos, as mulheres também eram comensais (no symposium, elas somente podiam participar como cantoras, músicas ou dançarinas, entretendo os convivas, ou, no máximo, como hetairas, que eram cortesãs algo similares às gueixas japonesas). Já as romanas participavam dos banquetes em igualdade com os homens, reclinando-se ao lado deles e conversando animadamente).

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Durante o banquete

As refeições romanos incluíam normalmente três pratos: a entrada (gustatio),  o prato principal (mensae primae) e a sobremesa (mensae secundae), que podiam conter várias opções de cardápio. Um anfitrião abastado certamente procuraria que os três impressionassem os convidados.

As entradas mais comuns consistiam em mariscos, ostras, mexilhões, pequenos aves e peixes, assados ou fritos, acompanhados de pão, queijo, folhas, frutas e sementes, tais como  nozes e castanhas.  Em qualquer caso, e também na mensae primae, os romanos adoravam temperar os pratos com o onipresente garum, um molho feito com miúdos de peixe salgados, deixados a fermentar, cujos principais centros de produção ficavam na península ibérica, especialmente no Algarve. A popularidade do garum pode ser comparada a do atual ketchup e, de fato, sabe-se que o ketchup, originalmente, era um molho feito das entranhas de peixe.

Depois vinham as saladas e os pratos de carne, normalmente aves, peixes ou moluscos, porco ou carne de caça. Os romanos não consumiam muita carne bovina, porque, além dos bois serem valiosos para o trabalho rural e o transporte, a conservação da sua carne era mais complicada (peixes eram fáceis de serem salgados no local em que eram pescados, mas a quantidade de sal necessária para salgar a carne bovina era maior e o sal era caro e nem sempre era abundante nas zonas de pecuária, mais distantes das cidades).

Uma carne muito apreciada era a de arganaz, uma espécie de roedor europeu parecida com o esquilo.

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Anfitriões abastados gostavam de impressionar os convidados com pratos exóticos, tanto pelo tipo de animal servido, como pela apresentação do prato. Línguas de pavões, tetas de porca confeitadas recheados com ouriços-do-mar salgados (aperitivo), papagaios assados, flamingo cozido com passas, arganaz recheado com porco e pinhões, são pratos citados na literatura antiga

Como curiosidade, transcrevemos duas receitas romanas extraídas de dois famosos compêndios da Antiguidade:

1 –Salada “Columella“: Coloque no moedor menta, arruda, coentro, salsinha, alho-poró fatiado, ou, caso não tenha, cebola, folhas de alface e de rúcula, tomilho verde, ou hortelã. E também poejo e queijo feta fresco. Amasse tudo junto, despeje vinagre condimentado e agite. Coloque a mistura em um prato e despeje azeite (Columella, Re Rustica, XII, LIX)

2 – Avestruz Cozido: Ingredientes: Pimenta, menta, cominho frito, semente de aipo, passas ou tâmaras, mel, vinagre, vinho passificado, garum, azeite. Coloque tudo na panela e cozinhe. Envolva com farinha de espelta, despeje sobre as peças de avestruz (já cozidas) em uma travessa com pitadas de pimenta. Se desejar cozinhar o avestruz no molho, adicione trigo selvagem (Apicius, De Re Coquinaria, 212).

Coquetel depois do jantar

Depois da sobremesa, um banquete que se pretendesse longo evoluiria para uma fase de degustação de vinhos, em variadas formas, chamada de comissatio (valendo observar que nos banquetes romanos, ao contrário dos symposia gregos, o vinho era servido já durante a refeição).

O vinho normalmente era misturado com água ao gosto do convidado, em sua própria taça, para o qual ele se valia de uma concha, chamada de simpulum. Isso era necessário porque o processo de fermentação utilizado pelos romanos resultava em um vinho de teor alcoólico muito elevado.

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Entre os tipos de vinhos mais consumidos estava o passum, um vinho doce de uvas passificadas, o muslum, que era uma mistura de vinho e mel, de origem cartaginesa, e o conditum, que era uma mistura de vinho, mel e especiarias,  envelhecida em recipientes. Segundo as recomendações, as mulheres somente deveriam consumir o passum. Uma outra forma de adoçar o vinho, relatada pelos autores antigos mas que para nós parece inacreditável, era adicionar suco de uva concentrado, aquecido em recipientes de chumbo, que adocicavam a mistura devido ao acetato presente no referido elemento.

Havia taças de vários tipos, as mais comuns sendo o scyphus e o cantharus,  de inspiração grega, que tinham duas asas para segurar.

Entretenimento

Um banquete romano suntuoso certamente terminaria com uma apresentação de músicos, flautistas, tocadores de lira e até mesmo um órgão hidráulico, que podiam acompanhar ou ser seguidos de dança, acrobacia, teatro e, em alguns casos mais extremos, uma luta de gladiadores ou exibição de feras.

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Talvez o banquete mais célebre da literatura latina seja o do fictício liberto Trimalquião, personagem da obra Satyricon, uma sátira escrita pelo autor romano Petrônio, durante o reinado de Nero, que retratava as extravagâncias de um ex-escravo novo rico.

Mito

Ao contrário da crença popular, provocar o vômito durante as refeições não era um costume romano. Na verdade, a História conta que o imperador Vitélio, um notório glutão, costumava tomar remédios para vomitar durante as refeições para que ele pudesse comer mais, mas a prática é relatada como um traço patológico de glutonaria do monarca em questão.

Na verdade, acredita-se que esse equivocado mito moderno seja derivado da palavra latina “vomitorium“, que era o nome dado aos portões de saída dos anfiteatros e estádios.

Finalizamos nosso artigo com a citação desse belíssimo texto do historiador francês Paul Veyne:

O muro é penhor de civilidade; o banquete é cerimônia de civilidade. Assim que se vê em suas terras, em seu caro retiro, Horácio convida uma amiga para jantar, sem dúvida uma liberta, cantora ou atriz conhecida. Pois o banquete, para todos os usos, é a circunstância em que o homem privado desfruta do que ele de fato é e o mostra veridicamente a seus pares. O banquete tinha tanta importância quanto a vida dos salões no século XVIII e mesmo quanto a corte no Ancien Regime. Os imperadores não tinham corte; viviam em seu “palácio” na colina do Palatino, à maneira dos nobres de Roma em suas mansões. Cercados de escravos e libertos (tanto que o palácio abrigava os diferentes serviços ministeriais); mas, caída a noite, jantavam com seus convidados, que eram senadores ou simples cidadãos cuja companhia apreciavam. Acabavam-se as honras “públicas” e o “governo” do patrimônio: à noite o homem privado desabrochava no banquete; até os pobres (hoi penêtes) — ou seja, nove décimos da população — tinham suas noites de festim. O homem privado esquecia tudo durante o banquete, menos sua eventual “profissão”; um indivíduo que fez voto de consagrar a vida à busca da sabedoria não festejava da mesma forma que o profano vulgo, e sim como filósofo.

O banquete constituía uma arte. A etiqueta parece ter sido menos elaborada e rigorosa que a nossa. Em compensação, jantava-se com clientes e amigos de toda posição, tanto que a ordem de precedência era rigorosamente observada na distribuição dos leitos ao redor da mesa onde ficavam os pratos. Não havia verdadeiro festim sem leito, mesmo entre os pobres: só se comia sentado nas refeições comuns (nas casas simples a mãe de família, de pé, servia o pai à mesa). A comida nos pareceria ora oriental, ora medieval. Contém muitos temperos e molhos complicados. A carne é fervida antes de cozinhar ou assar — tanto que perde o sangue — e adoçada. A gama dos sabores favoritos situa-se no agridoce. Para beber, poderíamos escolher entre um vinho com gosto de marsala e um resinado, como hoje em dia na Grécia, todos cortados com água. “Reforça a dose”, ordena a um escanção um poeta erótico de coração partido. Pois a melhor parte do jantar, a mais longa, é aquela em que se bebe; durante a primeira metade do jantar nada se faz senão comer sem beber; a segunda parte, em que se bebe sem comer, constitui o banquete propriamente dito (comissatio). É mais que um festim: uma pequena festa, onde cada qual deve manter seu personagem. Em sinal de festa, os convivas portam chapéus de flores ou “coroas” e usam perfume, quer dizer, estão untados de óleo perfumado (desconhecendo-se o álcool, o óleo era o solvente dos perfumes): os banquetes eram suntuosos e brilhantes, assim como as noites de amor. 

O banquete era muito mais que um banquete, e esperavam–se considerações gerais, temas elevados, recapitulações de atos pessoais; se o dono da casa tem um filósofo doméstico ou um preceptor dos filhos, ordena-lhe que tome a palavra; os interlúdios musicais (com danças e cantos), executados por profissionais contratados para a ocasião, podem dar mais vida à festa. O banquete constitui uma manifestação social equivalente ao prazer de beber — ou até maior — e por isso inspirou um gênero literário, o do “banquete”, em que os homens de cultura, filósofos ou eruditos (grammatici), abordam temas elevados. Quando a sala de festim oferece desse modo um espetáculo mais de salão que de refeitório, o ideal do banquete se realiza e a confusão com um festejo popular já não é possível. “Beber” designava então os prazeres da mundanidade, da cultura, e às vezes os encantos da amizade; pensadores e poetas também podiam filosofar sobre o vinho.

(Paul Veyne, História da Vida Privada, do Império Romano ao Ano Mil, 1990. p. 181-184, Ed. Companhia das Letras)
FIM

A APOSENTADORIA EM ROMA

A APOSENTADORIA EM ROMA

É natural que o ser humano envelheça. E a velhice diminui a disposição física e traz consigo doenças e incapacidades variadas.

A paleontologia mostra que já nossos ancestrais costumavam cuidar dos indivíduos idosos, provendo-lhes alimento e abrigo. Com efeito, foram encontrados fósseis de nossos primos evolutivos Neanderthais nos quais se constatou que aqueles indivíduos não tinham capacidade sequer de mastigar o alimento, condição esta adquirida vários anos antes da morte do espécime considerado, o que tornou evidente para os cientistas que os parentes mastigavam a comida para ele.

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Nas sociedades atuais, essa característica ancestral certamente é a causa primordial da maior parte dos sistemas de aposentadoria modernos, normalmente deslocando para o Estado, mediante contribuições arrecadas da coletividade, o dever de assegurar não apenas a subsistência, mas o acesso a um padrão mínimo de consumo, aos seres humanos que não podem mais trabalhar ou já trabalharam tempo demasiado. Estando em voga atualmente no Brasil devido à Reforma da Previdência, trata-se, não obstante, de um problema bem antigo.

Em Roma, podemos perceber que o direito social à aposentadoria legalmente surge, ainda em caráter embrionário, no início do período imperial, reconhecido à classe militar.

Com efeito, o imperador Augusto instituiu o “Aerarium Militari”, como uma fonte permanente de proventos para os veteranos do Exército Romano, mediante o pagamento de pensões (praemia) aos militares que encerravam o seu tempo de serviço. (Durante a República, o usual era distribuir terras aos veteranos e assentá-los em colônias, onde, obviamente, eles continuariam trabalhando para obter o seu sustento).

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Assim, após 20 anos de serviço, o soldado romano recebia uma pensão de 12.000 sestércios, equivalente a doze anos de pagamento, valor que permaneceu estável até o reinado de Caracala, ou seja, por mais de 200 anos, quando foi aumentado para 20.000 sestércios.

Augusto também capitalizou, utilizando recursos de seu patrimônio privado (fiscus), um fundo de pensão militar no valor de 170 milhões de sestércios, o qual também recebia contribuições de reinos aliados e de cidades do Império. Logo, porém, o imperador percebeu que aquele montante era insuficiente, e foi necessário destinar um percentual de 5% do imposto sobre herança, e de 1% do imposto sobre os bens vendidos em leilão, para financiar as aposentadorias dos soldados. O fundo era administrado por 3 Prefeitos (Prefecti Aerarii militaris).

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Além da previdência pública, havia em Roma um sistema de fundos mútuos privados para aposentadorias, instituídos por indivíduos e também por várias corporações profissionais, para pagamento de aposentadorias anuais (annua) a seus beneficiários, administrados por corretores ou financistas. O célebre jurista romano Cneu Domício Ânio Ulpiano (Ulpiano) atuou como gestor de um desses fundos e é considerado o criador da primeira tabela de cálculo atuarial em função dos anos de vida dos beneficiários.

Podemos constatar, assim, que dois mil anos atrás os romanos já tinham percebido que a previdência social é uma questão que deve conjugar esforços públicos e privados.

UM ESCRITOR ROMANO ESCREVEU O PRIMEIRO LIVRO DE FICÇÃO CIENTÍFICA

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Luciano de Samosata, um escritor romano de origem síria e fala grega, escreveu o que podemos considerar a primeira novela de ficção científica, com o título de “A História Verdadeira”.

Luciano nasceu na cidade de Samosata; antiga capital do reino da Comagena, anexado pelos romanos em 72 D.C.  Pouco é conhecido sobre a sua vida,  mas ele deixou cerca de 80 obras literarias, a maioria sátiras sobre os costumes e a sociedade do seu tempo. Acredita-se que ele morreu por volta de 180 D.C., em Alexandria.

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No livro, escrito durante o reinado do imperador Marco Aurélio (161-180 D.C), Luciano narra uma expedição para além do estreito de Gibraltar, na qual o navio em que ele e seus amigos viajavam foi jogado ao espaço por um ciclone, levando-os, em uma viagem de sete dias, até a Lua!

Na inovadora obra, Luciano descreve as paisagens e os seres que viviam no satélite, inclusive uma raça somente de indivíduos do sexo masculino, cujas crias nasciam das próprias pernas deles. Esses habitantes da Lua encontravam-se em guerra contra uma raça que habitava o Sol, e o motivo do conflito foi a disputa pela colonização do planeta Vênus, então chamado de “Estrela Matinal”.

Luciano, após visitar também aqueles corpos celestes, descreve em detalhe as suas paisagens, numa visão  bem diferente da crença tradicional dos antigos; que os identificavam  como deuses…

 

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A TOCANTE CARTA ESCRITA POR UM LEGIONÁRIO ROMANO LONGE DE CASA À SUA FAMÍLIA

Aurelius Polion era um legionário romano que servia na Legião II Auditrix, estacionada na província da Panônia. A família de Aurelius morava na cidade egípcia de Tebtunis  (atual Umm el-Baragat), que floresceu no período ptolomaico. Portanto, assim como muitos outros habitantes da cidade, Aurelius e seus familiares deviam ser de origem grega, ou então, egípcios helenizados.

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(Ruínas de Tebtunis, Egito. A cidade era um centro do culto ao deus-crocodilo Sobek)

O nome de Aurelius, bem como a unidade e o local onde esta estava estacionada, indicam que Aurélio ou seus pais devem ter recebido a cidadania romana no reinado de Caracala, que, em sua “Constitutio Antoniniana“, estendeu a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império Romano.

Uma carta enviada por Aurelius à sua família, escrita em grego, foi encontrada, há 115 anos, em Tebtunis, mas ela somente foi traduzida em 2012, por Grant Adamson, doutorando da Rice University.

Infelizmente, faltam alguns pedaços do papiro em que a referida missiva foi escrita, causando algumas lacunas no texto, que vamos traduzir do italiano, mantendo as mesmas (vide https://amantidellastoria.wordpress.com/2015/02/15/lincredibile-lettera-di-un-soldato-romano-alla-famiglia/):

Aurelius Polion, soldado da Legião II Auditrix, ao seu irmão Heron, à sua irmã Ploutou, à sua mãe Seinouphis, a padeira e senhora (?) e a tantos parentes, saudações! Rezo dia e noite para que vocês gozem de boa saúde, e ofereço sempre a todos os deuses em vosso nome. Não paro de vos escrever, mas vocês não pensam em mim. Mas eu faço a minha parte vos escrevendo sempre e não deixando de estar próximo de vocês com a mente e com o coração. No entanto, vocês não me escrevem mais para me contarem acerca da vossa saúde e de como vocês estão.. Estou preocupado com vocês, porque, tendo recebido muitas cartas minhas, não me responderam mais, assim, não posso saber como vocês (…) enquanto estava na Panônia, eu vos mandei (uma carta), mas me trataram como a um estranho (…) Fui embora (…) e vocês estão felizes? (…) o Exército eu não (…) vocês (…) para o Exército, mas eu (…) deixei vocês. vos mandei cartas (…) tentarei conseguir uma permissão do comandante e e irei até ti a fim de que tu possas entender que eu sou teu irmão (… )Não pedi nada a vocês para o Exército, mas eu os decepcionei porque embora eu vos tenha escrito, nenhum de vocês (?) (…) teve consideração(…) Vejam, vosso (?). Próximo (…) sou teu irmão. Vocês, também, respondam-me (…) escrevam-me. Cada um de vocês, mandem-me o seu (…) para mim. Saúdem a meu pai Aphrodisios e meu (?) tio (?) Atesios (…) sua filha (…) seu marido e Orsinouphis e os filhos da irmã de sua mãe, Xenphon e Ouenophis, conhecido também como Protas (…) os Aurélios (…) a carta (…) para os filhos e para Seinouphis , a padeira (…) da (?) Aurelius (?)Polion, da Legião II Adiutrix (…) da(?) Pannonia Inferior (?) (…)entregue a Acutius(?) Leon(?), veterano da legião (…) Da parte de Aurelius Polion, soldado da legião II Adiutrix, a fim de que possa enviá-la para casa.

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Como podemos ver, o veterano Acutius Leon cumpriu fielmente o seu encargo e a carta foi entregue à família de Aurelius Polion, atravessando os milhares de quilômetros que separam a Panônia do Egito.

Nós, aqui do blog “Histórias de Roma”, gostaríamos de acreditar que Aurelius tenha se reconciliado com seus familiares e que tenha podido, um dia, reencontrar seus entes queridos.

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