A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO ( OU O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT)

O DESASTRE DE VARO – CLADES VARIANA – VARUSSLACHT

PRÓLOGO

Estamos na Floresta de Teutoburgo, em algum dia de setembro do nono ano depois do, então historicamente irrelevante, nascimento de Jesus Cristo (9 D.C), situada no noroeste da Baixa Saxônia, moderna Alemanha – uma região que fazia parte do território que era conhecido pelos Romanos como Germania Magna (Germânia Maior).

No estreito espaço plano entre uma colina íngreme e um vasto terreno pantanoso, pilhas de corpos inertes ensanguentados jazem em ziguezague …

Observando mais de perto, distinguem-se cadáveres de homens, mulas e cavalos, todos juntos e misturados… A terra encontra-se encharcada da água da chuva que caiu incessantemente nos últimos dias, e poças de sangue fluem lentamente, aqui e ali, na direção dos pântanos. Pouco a pouco, a base dos tufos de caniços das respectivas margens começa a ficar avermelhada…

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Um estranho que testemunhasse a cena, isso, claro, caso ele fosse alfabetizado em latim, descobriria, ao ler os estandartes esfarrapados espalhados pelo solo, que aquelas montanhas de cadáveres, um dia, foram a XVII, a XVIII e a XIX Legiões do Exército Romano do imperador Otávio Augusto

Em seguida, o silêncio sepulcral é interrompido por uma multidão excitada e ruidosa, que, em volta de cada uma das pilhas de corpos, cuidava de arrancar, avidamente, espadas, lanças, escudos, couraças, elmos, sandálias e cinturões das mãos e dos corpos das vítimas, fazendo com que alguns fragmentos caíssem na lama. Alguns, mais minuciosamente, procuram, nas vestes e nos corpos dos caídos, qualquer invólucro que pudesse conter objetos valiosos.

O bando urra extasiado e o clima de júbilo é geral. Pelas suas roupas (muitas feitas de peles), cortes e arranjos de cabelo ,quase sempre louro e pelas suas armas e modo de falar, nota-se que os homens são nativos de várias tribos germânicas: Catos, Cheruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos entre outros (nomes conforme a forma latina registrada pelos Romanos),

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De repente, lancinantes e tenebrosos gritos de dor e terror fazem todos pararem o que estavam fazendo e se voltarem para uma clareira ao pé de um enorme carvalho na colina de onde vinha o terrível som: naquele instante vários soldados, ainda vestindo a túnica vermelha característica das legiões romanas, acabavam de ser atirados em fumegantes caldeirões de cobre enfeitados com estranhas figuras.

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(Caldeirão de Gundestrup, Dinamarca)

Agora, um grupo de homens a cavalo desmonta e começa a subir em um pódio adornado por estacas com cabeças humanas cortadas. No centro do grupo, um jovem homem alto começa a fazer um discurso exaltado em sua língua germânica. Mas, examinando detidamente o homem, percebe-se imediatamente que sua aparência é a de um típico comandante romano, vestindo couraça, elmo, cingulus, pteruges e um fino manto encarnado.

Os milhares de guerreiros respondem com um grito uníssono e ritmado a cada pausa da arenga. Até que um dos guerreiros entrega ao oficial o que parece de longe serem duas varas com suas pontas cobertas por um pano. O oficial retira os panos e exibe, triunfante, duas águias douradas, que, mesmo naquele dia nublado, rebrilham com fulgor, parecendo hipnotizar toda a multidão.

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Aos pés do oficial jaz um corpo decapitado e parcialmente queimado. Mesmo naquele estado, é possível perceber, pela couraça de bronze dourado, ricamente ornamentada, que se trata de um general romano importante. No meio da exortação, o jovem oficial baixa a estaca com a águia dourada e , quando a levanta, exibe a cabeça ensanguentada de um homem já idoso…

Durante os quase 800 anos de existência de Roma, desde a lendária fundação por Rômulo em 753 A.C., os Romanos tinham sofrido várias derrotas militares, as quais apenas interromperam brevemente a sua marcha inexorável para se tornarem senhores do maior império que o Mundo Antigo conhecera. No entanto, o aniquilamento de três legiões inteiras era um raro e terrível revés.

Qual seria o impacto desta catástrofe?

E quem era aquele homem e como ele derrotou as três legiões? Essa é uma história que começou 60 anos antes…

A EXPANSÃO ROMANA NA GERMÂNIA

Em 52 A.C, Caio Júlio César e suas legiões, após cerca de dez anos de cruentas campanhas, conseguiram conquistar a Gália, incorporando-a à República Romana, como uma província que, pelo seu tamanho, fertilidade e recursos, prenunciava grande prosperidade. Ali, nas décadas seguintes, colônias de veteranos soldados italianos foram fundadas e, em pouco tempo, a própria nobreza gaulesa nativa cada vez mais ia assumindo os usos e costumes romanos.

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Ainda durante a Guerra da Gália, Júlio César teve que conter a crescente penetração de tribos germânicas vindas da margem leste do Rio Reno, notadamente dos Suábios, povo que começava a se assentar naquele país, então majoritariamente celta e começouo a interferir militarmente  em conflitos envolvendo as diversas tribos gaulesas.

Com efeito, na grande Batalha de Vosges, travada em 58 A,C, Júlio César derrotou fragorosamente as forças do rei suábio Ariovistus, que foi obrigado a voltar para a margem leste do Reno. Nesta ocasião, cento e vinte mil germânicos morreram. Algum tempo depois, em um ato com nítido propósito dissuasório, mas também de autopromoção, César mandou construir, em apenas 10 dias, uma ponte de madeira em um trecho largo do Rio Reno e atravessou suas legiões para a outra margem, marchando por alguns dias em território germânico, sem encontrar oposição, após o que, ele voltou para a margem ocidental e desmontou a ponte.

Depois desses sucessos romanos, a Gália ficou um tempo livre de invasões germânicas. Nesse intervalo, a nova província romana começou, rapidamente, a prosperar e desenvolver-se economicamente. Todavia, essa prosperidade acabo por atrair, novamente, os Germanos,. Assim, os Suábios, por duas vezes, em 38 A.C. e 29 A.C., cruzaram novamente o Reno com o objetivo de saquear a província, mas foram derrotados pelas legiões romanas que tinham sido estacionadas permanentemente na Gália.

Em 16 A.C., ocorreu uma nova invasão, agora das tribos germânicas dos Sicambri, Usipetes e Tentceri, que foi enfrentada pelo governador romano da Gália, Marco Lólio que, todavia, desta vez foi derrotado, ocasião em que até chegou a ser capturada a águia-estandarte da V Legião.

Consequentemente, o imperador Augusto teve que mandar o seu enteado, o capaz general Tibério Cláudio Nero (que se tornaria o futuro imperador Tibério), para conter essa nova invasão germânica. Porém, com a chegada de Tibério, os bárbaros fugiram para a “sua” margem (oriental) do Reno.

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A partir de então, a política imperial de Augusto passou a incluir a Germânia como uma de suas prioridades. E, ao menos segundo o historiador romano Floro, Augusto planejava transformar a Germânia Maior em província, pelo mesmo motivo que o seu pai adotivo Júlio César, conquistara a Gália: aumentar a glória do nome dele.

Assim, em 12 A.C, o general Druso, irmão de Tibério, iniciou uma série de campanhas que o levariam muito além das margens do Rio Reno, derrotando várias tribos e penetrando profundamente na terra germânica, indo até o Rio Elba e até mesmo ao Mar do Norte (vale esclarecer que Augusto já tinha criado as províncias da Germânia Inferior e da Germânia Superior, a oeste do Reno, correspondendo aproximadamente, a primeira, aos territórios de Luxemburgo, do sul da Holanda e Bélgica, e, a segunda, à parte ocidental da Suíça, à Alsácia e, ambas, compreendendo os territórios da atual Alemanha a oeste do Reno).

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Nessa campanha, que durou até 9 A.C, Druso (avô do futuro imperador Calígula e pai do sucessor deste, o futuro imperador Cláudio) derrotou as tribos germânicas dos Sugambri, dos Frísios, dos Chaucos, dos Catos (Chatti) e dos Queruscos (Cheruschi). Os bárbaros acabaram pedindo a paz e tendo que entregar membros da própria tribo, como reféns, em garantia. Druso também construiu uma série de acampamentos militares permanentes ao leste do Reno, no interior da Germânia, como, por exemplo, em Oberaden, no Rio Lippe, em Rodgen e, provavelmente, também em Hedemünden, às margens do Rio Werra, local que já fica bem mais próximo ao Rio Elba. Infelizmente para os Romanos, Druso, naquele mesmo ano ,morreria devido a uma queda de cavalo. Ficou, assim, a cargo de seu irmão Tibério completar a tarefa: Em 8 A.C, Tibério cruzou o Reno novamente e desta vez, várias tribos germânicas, intimidadas com o avanço romano, enviaram embaixadores para pedir a paz.

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As sucessivas vitórias romanas na campanha de Druso e o estabelecimento de quartéis militares além do Reno levaram os historiadores romanos do período, como Floro e Dião Cássio, a considerar que, depois desses fatos, toda a Germânia tinha sido subjugada. Para o primeiro, ela já era uma província romana. Mas, de acordo com Dião Cássio, embora Roma controlasse apenas parcialmente todo aquele território, os Germanos já estavam até se adaptando aos costumes romanos, reunindo-se em assembleias pacíficas e fazendo negócios em mercados centrais instalados pelos romanos.

Até pouco tempo atrás, os historiadores modernos (ex: Mommsen) consideravam fantasiosas as narrativas de Floro e Dião Cássio  e defendiam que os Romanos jamais teriam tido a intenção de transformar a pouco desenvolvida Germânia em uma província romana, concluindo que as incursões ao leste do Reno ocorridas durante o reinado de Augusto teriam apenas caráter punitivo.

Contudo, a partir de 1993, as escavações arqueológicas em Waldgirmes demonstraram que os romanos, a partir de 4 A.C, construíram naquele sítio uma cidade com planta tipicamente romana, incluindo um fórum, uma basílica, um quartel militar, canalizações para esgoto e uma praça. Nesta praça, encontraram-se fragmentos de uma estátua equestre dourada, (que, naquele tempo, somente poderia tratar-se de uma estátua do próprio Imperador Augusto). Vale a pena ressaltar que, além de artefatos romanos, foram encontradas peças de cerâmica doméstica de origem germânica, em um contexto que denotava que Romanos e Germânicos estavam vivendo, lado a lado, na cidade (ver http://www.roemerforum-lahnau.de/startseite_englisch.htm)

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(Cabeça do cavalo da estátua equestre romana encontrada em Waldgirmes)

Faço aqui um parêntese para prestar um tributo a Dião Cássio, um historiador romano muitas vezes, a meu ver, negligenciado pelos historiadores modernos, mas que, cada vez mais, venho constatando ter escrito relatos coerentes e fidedignos.

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(Reconstituição da cidade romana cujos vestígios foram encontrados em  Waldgirmes)

Prosseguindo, no ano 1 D.C, Lúcio Domício Enobarbo (avô do futuro imperador Nero), que era governador da Germânia, interceptou a tribo dos Hermunduri, que deixara suas terras à procura de novas, assentando-a no território dos Marcomanos, uma tribo que fizera parte da aliança dos Suábios na época de César, e, após a campanha de Druso, fugindo dos romanos, havia migrado para a região do Danúbio. Depois disso, Domicio levou seu exército até o Rio Elba, onde ele ergueu um altar em homenagem a Augusto, chegando, inclusive a cruzar este rio, indo mais a leste do que qualquer outro general romano antes dele (para o leitor se situar, o Rio Elba marcava boa parte da fronteira entre as antigas Alemanhas Ocidental e Oriental, entre 1949 e 1990). Esta campanha terminou com Domício voltando e estabelecendo seu quartel no Reno.

Note-se que, segundo Dião Cássio, naquele mesmo ano de 1 D.C., Domício teria desagradado aos germânicos em uma questão envolvendo a devolução de exilados Queruscos (que, talvez, poderiam até ser os mesmos reféns que esta tribo entregou aos romanos para garantir o tratado de paz durante a vitoriosa campanha de Druso). Esse fato teria influência, como logo veremos, no desenrolar do evento principal dessa nossa história.

Domício foi sucedido por Marcus Vinicius, que comandou as legiões estacionadas na Germânia entre 1 e 4 D.C., tendo também que travar combates contra algumas tribos germânicas. Depois disso, a partir de 4 D.C., o processo de conquista da Germânia voltou a ficar sob a responsabilidade de Tibério, que, em conjunto com o novo governador da província romana da Germânia, Gaius Sentius Saturninus (Saturnino), durante dois anos, subjugaram a tribo dos Cananefates, que viviam onde hoje é o sul da Holanda, a tribo dos Catos, cujo território ficava no alto rio Weser, correspondendo ao centro e ao sul dos atuais Estados Federais alemães de Hesse e da Baixa Saxônia, e a tribo dos Bructeri, que habitavam entre os rios Lippe e Ems, na região que atualmente fica no norte da Renânia e na Westfália, na Alemanha.

Entretanto, no momento em que Tibério iria dar início a planejada ofensiva contra os Marcomanos, combinada com as legiões de Saturnino,  operação essa que devia-se ao fato desse povo germânico, assentando-se na região do Danúbio, a apenas 200 milhas dos Alpes, tornar-se cada vez mais uma ameaça à própria Itália, estourou, em 6 D.C., uma rebelião nas regiões da Panônia e de Illyricum (província romana da Ilíria que correspondia aproximadamente , a uma boa parte do território da antiga Iugoslávia).

Efetivamente, vários povos das referidas províncias tinham-se unido para lutar contra os romanos, pois estavam especialmente ressentidos pelo excesso de tributos e pela captura de suas mulheres e crianças para serem escravizadas. E isso aconteceu justamente quando os contingentes militares estacionados em Illyricum estavam sendo convocados para lutarem na campanha de Tibério em andamento contra os germânicos.

Como os Ilírios eram um notório povo aguerrido e a província fazia fronteira com a Itália, os romanos sentiram-se consideravelmente ameaçados para reunirem 10 legiões, o que correspondia a quase a metade do Exército Romano de então (segundo o historiador romano Veleio Patérculo, que participou em pessoa da campanha, este era o maior exército reunido por Roma desde as Guerras Civis, que tinham ocorrido 40 anos antes, para combater a Revolta, sendo que esta sangrenta guerra de fato duraria quatro anos ( 6 a 9 D.C.).

Dião Cássio escreveu que Tibério teve que assinar uma trégua com os germânicos devido à necessidade do Império Romano lidar com a Grande Revolta Ilíria. Já Veléio Patérculo narra que o exército de Tibério estava a apenas cinco dias de marcha das posições dos Marcomanos e prestes a se juntar com as legiões de Saturnino, mas, segundo o seu relato, as tribos derrotadas por Tibério na Germânia tinham sido subjugadas antes da insurreição ilíria, sem mencionar nenhuma trégua.

Seja como for, a partida de Tibério e Saturnino para combater a Revolta da Ilíria faz entrar em cena o primeiro protagonista do nosso tema principal: Para ocupar o lugar deles, em 6 D.C., Augusto nomeou Públio Quintílio Varo (Publius Quinctilius Varus) para ser o  governador da província da Germânia…

PÚBLIO QUINTÍLIO VARO

Públio Quintílio Varo pertencia a uma família da classe senatorial, que, no entanto, encontrava-se em uma situação decadente no século final da República. Mas, a desfavorável situação familiar logo viria a progredir, pois o avô materno de Varo casou-se, em segundas núpcias, com a irmã de Caio Otávio, o sobrinho-neto de Júlio César que, em alguns anos, tornaria-se o primeiro imperador de Roma, com o nome de Augusto.

Embora o pai de Varo, Sexto Quintílio Varo, tenha escolhido o lado errado na guerra civil entre os partidários de César e a facção do Senado responsável pelo seu assassinato (Optimates), o filho dele, isto é, o nosso personagem Públio Quintílio Varo, quando ainda era bem jovem, tornou-se partidário de Otávio e, paulatinamente, foi ingressando no circulo íntimo de colaboradores do imperador,  e  ele acabou conseguindo casar-se com Vipsânia Marcela Agripina, que era filha de Marco Vipsânio Agrípa, o melhor amigo e o braço-direito de Augusto, e de Claudia Marcella, que, por sua vez, era sobrinha do próprio imperador (ela era filha da irmã mais nova de Augusto, Otávia, a Jovem).

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(Estátua do imperador Augusto)

Assim, não é de espantar, diante dessa estreita conexão familiar com a casa imperial, que a carreira política de Varo tenha decolado. De fato, entre 8 e 7 A.C, ele governou a província da África ( que corresponde a uma boa parte da atual Tunísia e um pequeno pedaço da atual Líbia). Em seguida, Augusto nomeou Varo para governar a rica província da Síria, onde ele ficou de 7 a 4 A.C.

No que se refere à administração de Varo na Síria é importante dois traços que certamente teriam influência sobre os eventos que futuramente iriam ocorrer na Germânia:

Com efeito, na Síria, a conduta de Varo foi caracterizada: a) pela elevada e impiedosa taxação e, b) pela extrema severidade contra qualquer dissidência nativa.

Com relação à ganância de Varo (apesar de, nas províncias romanas admitir-se que o governador ficasse com uma parte dos tributos), é bastante esclarecedor o relato do historiador romano Veleio Patérculo sobre o governo dele na Síria:

“Ele entrou pobre em uma província rica e saiu rico de uma província pobre.”

A província da Síria englobava o reino cliente da Judeia, o qual era governado pelo rei Herodes, o Grande, nomeado pelo Senado Romano, em 37 A.C. Quando  Herodes morreu, em 4 A.C., houve disputas pela sucessão e uma facção judaica hostilizou os romanos.

A brutal resposta de Varo foi queimar algumas cidades, como Emaús, e crucificar dois mil judeus, como narrou Flávio Josefo, em sua obra “Antiguidades Judaicas”.

Curiosidade: Tendo em vista que Varo era o governador da Síria, em 4 A.C. , e que o rei Herodes morreu neste memso ano, é extremamente provável que Jesus Cristo tenha nascido durante a administração dele, pois, segundo a narrativa dos Evangelhos de São Lucas e de São Mateus, Jesus nasceu enquanto Herodes ainda estava vivo. Ocorre que, muito embora o primeiro evangelista citado expressamente afirme que o nascimento de Jesus ocorreu na época do censo ordenado pelo governador da Síria, Quirino, tudo indica que isso deve ser fruto de uma confusão de Lucas, pois Publius Sulpícius Quirinius foi governador da Sìria a partir de 6 D.C, ou seja, dez anos após a morte de Herodes. Por isso, alguns estudiosos realmente acreditam que o referido evangelista teria confundido “Publius Quinctilius”, o nome e sobrenome da gens de Varo, com “Publius Quirinius”. Além do mais, se o nascimento de Jesus tivesse ocorrido em 6 D.C., isto colocaria o ano de sua morte em 39 D.C, isto é, três anos após Pôncio Pilatos ter deixado o governo da Judeia, o que é incompatível com a narrativa evangélica e com as fontes romanas, tais como Tácito, Suetônio e Josefo.

Feita essa observação, o fato é que, em 6 ou 7 D.C., Públio Quintílio Varo assumiu o governo da Gália, tendo também autoridade sobre a Germânia. E os textos sobreviventes dos historiadores romanos que nos contam sobre a conduta de Varo na administração dos assuntos germânicos denotam que ele continuou agindo da mesma forma como na Síria: voraz quanto aos tributos e implacável em relação aos nativos…

Com efeito, os historiadores romanos Veléio Patérculo, Floro e Dião Cássio, em uníssono, relatam que Varo procedia com desprezo pelos Germanos, que, apenas recentemente tinham sido derrotados, mas não inteiramente subjugados, pelos Romanos.

E todos os historiadores citados chamam a atenção para o comportamento de Varo dar a entender que ele acreditava piamente que a Germânia ao Leste do Reno já era uma província romana, uma vez que ele passou a expedir decretos e enviar litores (que eram funcionários que agiam como uma espécie de oficial de justiça, com o poder de compelir os administrados a cumprirem as ordens dos magistrado, poder esse que era expresso por um feixe de varas, para açoitar os recalcitrantes, e um machado) para garantir o seu cumprimento (na foto abaixo, relevo romano retratando um litor).

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Em um ponto muito destacado por Patérculo, Floro e Dião Cássio, Varo também passou a reunir os Germanos em assembleias, onde os conflitos de interesses envolvendo os bárbaros seriam julgados por ele, na condição de autoridade judiciária máxima. Esse foi um fato que desagradou aos Germanos, já que, em muitos casos, de acordo com os costumes deles, as disputas entre homens eram resolvidas em combate, sendo que as penas estabelecidas pelas suas leis orais, eram, em geral, bem mais leves do que as penas romanas. por exemplo, um assassinato entre eles não era punido com a morte, mas sancionado como a  obrigação de pagar uma soma em dinheiro ou bens. Cabia à família da vítima, caso não ficasse satisfeita, , buscar a reparação desafiando o ofensor para uma luta.

Outro elemento de descontentamento, obviamente, foi a cobrança de tributos sobre as tribos germânicas. Se hoje os tributos nos são desagradáveis, o que dirá para um povo que, até então, vivia da agricultura ou pecuária de subsistência, e não em cidades, mas em aldeias? Não podemos afirmar que Varo foi o primeiro governador romano a cobrar tributos dos Germanos, mas, considerando o que foi dito sobre sua passagem pela Síria, é bem provável que ele o tenha feito de modo mais ávido e duro do que o seu predecessor Saturnino...

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Assim, a semente da revolta germânica pode não ter começado a germinar durante o governo de Varo, mas, com certeza, por ele foi regada e se desenvolveu, incentivada, ainda, pelo fato de Augusto ter sido obrigado a transferira algumas legiões para debelar a Grande Revolta Ilíria, deixando Varo com somente três legiões para policiar a Germânia…

Essa era a situação da Germânia, quando, em setembro de 9 D.C, Varo marchava com seu exército de três legiões  e mais 6 coortes de auxiliares (unidades militares contendo cerca de 500 homens), incluindo destacamentos de cavalaria, que deixaram o seu quartel próximo ao Rio Weser, nas vizinhanças do território da tribo germãnica dos Cheruscos.

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Era a rotina dos romanos na Germânia Maior passar o verão nos quartéis ao leste do Reno, que ficavam bem no interior desta “proto-província”. Porém, como nesta região o o clima era mais frio e, considerando que, na Antiguidade,  todas as operações militares normalmente cessavam no inverno, os romanos, quando da chegada desta estação, deslocavam-se para os quartéis situados às margens do Reno, provavelmente em Mogúncia (Mainz), local em que o clima era mais ameno, e a distância para a Itália, menor.

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(Um típico quartel romano do período)

As fontes citam que alguns chefes germânicos recentemente tinham pedido a Varo que pequenos destacamentos de soldados romanos fossem enviados para algumas aldeias, com o objetivo de prender ladrões e guardar rotas de comércio, e que o governador, acreditando na veracidade do motivo, autorizou o envio

Enquanto isso, integrado à comitiva de Varo, estava um jovem germânico, comandante militar de tropas auxiliares romanas, com cerca de 21 anos de idade, filho do chefe querusco Segimerus, ou Segimer (Nota: somente cidadãos romanos poderiam ser legionários, mas os romanos costumavam alistar soldados de vários povos estrangeiros como tropas auxiliares, normalmente empregadas como unidades especializadas, tais como cavaleiros, arqueiros fundibulários, etc.). Não se sabe o seu nome em sua língua nativa, mas ele era chamado de Arminius pelos romanos (e muitos acreditam que este seria uma forma latinizada do nome “Hermann”) e ele é o segundo protagonista do drama que começava a se desenrolar…

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Nenhuma fonte romana afirma isso, mas é quase certo que Arminius deve ter sido um dos reféns queruscos entregues ao general Druso, por volta de 9 A.C (ver a primeira parte dessa nossa história). Arminius teria, então, cerca de doze anos de idade e deve ter sido entregue aos Romanos provavelmente junto com seu irmão, chamado Flavus, para garantir que os Queruscos mantivessem a paz.

Não se sabe em que parte do Império Romano Arminius cresceu, mas o certo é que ele recebeu a oportunidade de prestar serviço militar à Roma, destacando-se a ponto de ter recebido a cidadania romana, bem como a grande distinção de ser arrolado entre a classe dos Cavaleiros (Equestres/ Equites), ascendendo, assim, ao segundo nível da aristocracia romana, em uma posição social somente inferior aos senadores e suas famílias (a classe senatorial era o cume da nova nobreza imperial romana).

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Segundo Veléio Patérculo, antes de 9 D.C, Arminius participou de algumas campanhas militares, que podem muito bem ter sido aquelas promovidas por Tibério e Saturnino, das quais já falamos, depois de 4 D.C, pois, então, ele já teria idade suficiente para ser soldado, e também contra os rebeldes na Grande Revolta Ilíria, que durou de 6 a 9 D.C.

É provável, assim, que Arminius deve ter retornado à Germânia quando Varo já governava a região. Com certeza ele rapidamente conseguiu impressionar o general romano, a ponto de Dião Cássio registrar que Arminius era uma companhia frequente de Varo, chegando até ao ponto deles comerem juntos na mesma mesa.

Enquanto isso, só podemos especular como deve ter sido o reencontro de Armínius com seu pai….

Eles provavelmente não se viam desde que Segimerus entregara o filho aos Romanos, cerca de quinze anos antes. Talvez Arminius esperasse que o pai ficasse orgulhoso de ver como ele havia prosperado em Roma, apresentando-se vestido em trajes de oficial romano. Mas é bem possível que, naquele intervalo de tempo, Segimerus tenha sofrido muitos desaforos por parte de seus compatriotas, pois, ao ter entregado o próprio filho aos romanos, para garantir o tratado de paz, ele praticara um ato humilhante de acordo com os costumes germânicos.  É possível que os líderes rivais tenham se aproveitado disso para diminuir a posição de liderança do velho na tribo. E agora, além de ter entregue o filho como refém, este ainda virara um soldado romano!

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Arminius, garbosamente vestido com sua cota de malha coberta de fáleras (discos de prata com figuras gravadas que podem ser equiparadas as modernas medalhas), elmo emplumado e manto escarlate pode ter percebido no olhar do velho, ao invés do esperado orgulho paterno, a decepção , a vergonha e a tristeza que a surpresa causara; quem sabe, a pungente cena se passara na mesma cabana de madeira e teto de palha onde o próprio Arminius nascera, ele, filho de um antes respeitado chefe.

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Mas, sem dúvida, eles deviam ter muita coisa para conversar. Segimerus deve ter contado como as coisas tinham mudado em quinze anos. Como a orgulhosa tribo tinha sido várias vezes humilhada pelos pretores romanos e seus litores. Deve ter se queixado da obrigação de ter que pagar o pesado tributo, de ter que se inclinar perante a efígie de César Augusto, e até da vez em que eles, como era de costume, iam atacar os vizinhos que haviam roubado o gado, mas foram impedidos pelos tribunos, sendo obrigados a levar o caso ao pretor…

Segimerus pode ter mostrado a Arminius o lugar onde as cinzas de sua mãe haviam sido enterradas com seus pertences mais preciosos, o pântano de turfa onde tantas vezes eles jogaram as armas e os corpos dos inimigos vencidos e até o levou até o ponto onde se descortinava a floresta sagrada onde ficava o grande tronco de carvalho esculpido, Irminsul (talvez uma das explicações para o nome que ele dera ao filho), o lugar dos sacrifícios a Wodan, Zyo e Frea, deuses ancestrais dos germânicos (ilustração abaixo).

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Com o passar dos dias, circulando pela aldeia, Arminius deve ter visto como os orgulhosos oficiais de Varo tratavam com dureza e desdém aos seus compatriotas: a aspereza das ordens gritadas em latim, a arrogância dos gestos autoritários…E assim o prazeroso sentimento inicial de ocupar uma posição privilegiada em algo grandioso deve ter começado a se esvair do peito de Arminius como o ar de um balão…

Após o seu retorno a Germânia, que deve ter  ocorrido provavelmente no início daquele fatídico ano de 9 D.C., Arminius conheceu a bela Thusnelda, filha do nobre Segestes, que era um outro respeitado chefe querusco. Porém, Thusnelda, segundo nos conta o historiador romano Tácito, foi prometida para outro jovem. Como era costume entre os Germanos, as famílias aguardavam a chegada da idade adulta dos noivos para celebrar o casamento e consumar a união. Podemos crer que, neste momento, Armínius, tenha se apaixonado pela linda compatriota, de olhos claros e longos cabelos louros como ele jamais havia visto em todo o tempo que ele passara em Roma, e, ignorando os costumes ancestrais, ele tenha passado a cortejar a moça.

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Segestes, embora fosse ainda um altivo chefe guerreiro, à altura das melhores tradições germânicas, era um partidário dos Romanos, como registram as fontes. Inclusive, Augusto, em reconhecimento a sua amizade, tornou-o cidadão romano!  É possível que Segestes, ainda criança, tenha ouvido as estórias sobre as campanhas de Júlio César na Gália, e da grande matança que ele tinha feito entre os Gauleses e os Germanos que lutaram contra a conquista daquela província. E, de fato, ele mesmo, Segestes, experimentara o poder das legiões de Druso. É bem provável que, depois, ele tenha viajado à Gália para comercia e testemunhado como esta província vinha se desenvolvendo e, sobretudo, como a nobreza gaulesa que havia colaborado com Roma tinha prosperado: Vale lembrar que o próprio César inclusive havia nomeado nobres gauleses para o Senado Romano!

Todavia, embora Segestes se mostrasse solícito com o governador Varo, ele não poderia tolerar a investida de Arminius sobre Thusnelda. Ele a prometera para outro nobre e a sua honra seria seriamente comprometida caso ela não se casasse com o escolhido. Por isso, Segestes, segundo narra Tácito, passou a detestar Arminius.

Arminius, por sua vez, que agora tinha em Thusnelda  outro poderoso imã que o atraía para a sua pátria natal, possivelmente começou a visitar, no início de 9 D.C, outras aldeias e a viajar pela região entre os rios Lippe e Weser, para cumprir várias missões, tais como supervisionar rotas, escoltar suprimentos, distribuir sentinelas, etc. Em poucos meses, ele deve ter conhecido e estabelecido laços com chefes de vários povos vizinhos, notadamente Catos, Queruscos, Bructeros, Chaucos, Marsos e até alguns Suábios. Em todos esses lugares, Arminius perceberia que, embora vivessem separados e vez por outra até guerreassem, falavam todos eles a mesma língua e tinham os mesmos costumes, e, mais importante,  eles compartilhavam o mesmo sentimento de insatisfação com os Romanos.

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Mas como eles poderiam resistir aos Romanos? Varo tinha três legiões e várias coortes, cerca de 20 mil soldados no total. As tribos daquela parte da Germânia, quando muito, depois de tantas derrotas nos últimos anos, conseguiriam no máximo reunir o mesmo número. Desse modo, para vencerem os romanos, que tinham melhores armas e eram imbatíveis em campo aberto, somente através de uma emboscada. Porém, as legiões não dormiam um dia sequer fora do quartel fortificado com paliçadas e torres armadas com as temíveis catapultas e balistas. Já os Germanos não tinham a menor expertise em fazer guerra de cerco.

Voltando ao quartel-general romano, Arminius deve ter percebido como Varo estava seguro e confiante da completa submissão das terras germânicas, naquele início de 9 D.C… A disciplina no quartel de verão parecia estar relaxada e muitas mulheres e até crianças  conviviam entre os soldados. Enquanto isso, Varo  passava o dia no pretório, sentado em sua cadeira curul, resolvendo as disputas legais, rodeado pelos chefes das tribos.

Em algum momento, a ideia deve ter surgido na mente de Arminius. Após servir por cinco anos no Exército Romano e participar de várias campanhas, ele conhecia bem as táticas dos Romanos, as suas forças, mas também as suas fraquezas. Se os romanos pudessem ser atraídos para um terreno desfavorável, onde os soldados não pudessem entrar em formação e as legiões não conseguissem cooperar entre si, elas poderiam ser vencidas. E ele, que já gozava da confiança do governador, dificilmente seria suspeito de ser um rebelde. Assim, Arminius se sentiu encorajado a contar seus planos para o pai, que apoiou entusiasticamente a ideia. Seria a chance de seu povo vingar a humilhação de 15 anos atrás, e, sobretudo, livrar-se dos litores e dos publicanos.

Eles teriam apenas algumas semanas para colocar um plano em prática, pois, no final do outono, Varo voltaria para o quartel de inverno do Reno, onde ele poderia ter o suporte das outras legiões que ficaram ali estacionadas e onde as tribos eram realmente amistosas.

Arminius e Segimerus devem ter começado a falar com os chefes queruscos que eram mais próximos ao velho nobre, encontrando apoio imediato. Depois, nos meses seguintes, eles devem ter encontrado os chefes de outras tribos, em festivais religiosos ou em “things” (assembleias de homens livres ) de várias tribos vizinhas, e a conspiração foi tomando forma…

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(Este desenho de um relevo da Coluna de Marco Aurélio, em Roma, retrata um “thing”, a assembleia de germânicos, no caso, de Marcomanos)

                                                              A ARMADILHA

O plano que Arminius concebeu consistia em atrair Varo para uma região desconhecida dos romanos, mas que ficava dentro das terras de sua tribo. Como pretexto, ele escolheu o único motivo que faria o governador romano marchar com toda o seu exército para um território ainda não desbravado: um levante armado! E para enfraquecer um pouco as legiões de Varo, alguns chefes que ele reputava confiáveis pediriam ao governador que lhes enviasse destacamentos de soldados romanos para garantir a segurança nas suas aldeias. A data da emboscada, concluiu Arminius, teria que ser no final do outono, pois, certamente, os Romanos iriam querer resolver rapidamente a questão para que eles pudessem passar o inverno no conforto de Moguntiacum (Mogúncia), no Reno. Além do mais, dificilmente os Romanos teriam como mandar reforços depois que a neve caísse, sobretudo com os quartéis de verão no interior da Germânia destruídos, como os Germanos pretendiam fazer assim que eles derrotassem Varo

A escolha do local deve ter sido sugestão dos chefes queruscos. De fato, bem ali na terra deles, ficava, em um raio de centenas de quilômetros, a única rota de passagem em terreno seco e plano ligando o leste e o oeste da Germânia, entre as montanhas Wiehengebierge e o grande pântano que se extendia até o Mar do Norte. Em um determinado ponto, a largura da passagem era de apenas 100 metros, entre a montanha e pântano. Aquela era a realmente a melhor opção de trajeto, para alguém que não quisesse ficar com os pés encharcados ou andar em terreno montanhoso dentro da floresta…

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Quando o mês de setembro chegou, os chefes da conspiração resolveram oferecer um festim no quartel de Varo, uma fingida homenagem à iminente partida do governador, em que foram consumidos muito vinho e cerveja, esta oferecida pelos germânicos. Durante a festa, Segestes, que já vinha alertando Varo para não confiar em Arminius, e como chefe que ele era, já tinha ouvido rumores acerca da conspiração, levantou-se e acusou Arminius de traição, chegando inclusive a pedir ao governador que prendesse, não apenas os conspiradores, mas também ele mesmo, Segestes, com o propósito de que Varo pudesse melhor investigar quais eram os chefes leais e quais seriam inimigos de Roma.

Varo, que já tinha notado o ódio que Segestes nutria por Arminius, devido ao romance que este havia iniciado com sua filha Thusnelda, não deu muita importância. Provavelmente, ele mal conseguia entender o arremedo de latim que Segestes falava, e além do mais, o inconsciente de Varo não queria acreditar naquilo, pois tudo o que ele costumava ouvir dos chefes germânicos, até então, eram bajulações e elogios à sua administração,  coisa que ele julgava muito natural diante dos seus evidentes méritos…

No dia seguinte, Arminius chegou galopando rápido à frente de um esquadrão de cavalaria (turmae), trazendo a trepidante notícia de que os Bructeros tinham se revoltado próximo ao território dos Queruscos, os quais pediam a ajuda dos Romanos.

Alvoroçado com a notícia, Varo mandou reunir as três legiões e as seis coortes de auliares que estavam com ele e ordenou que todos marchariam para combater os rebeldes. Entre as ordens, estava a determinação de que Arminius e os chefes germânicos guiassem as legiões até o local da suposta revolta, através do caminho mais rápido.

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Em seguida, Arminius e os chefes queruscos pediram autorização a Varo para que eles deixassem a comitiva e fossem até as aldeias amigas para reunir forças para se aliarem às legiões na repressão à revolta,  sugerindo que batedores germânicos da confiança deles guiassem o exército até o local exato.

Entretanto, isso era apenas um disfarce. Na verdade, Arminius saiu e foi ao encontro do exército germânico combinado composto por guerreiros queruscos, catos, bructeros, chaucos, marsos e até de alguns Suábios,  que aguardava, no local combinado, a chegada das legiões de Varo. Concomitantemente, Arminius despachou mensageiros às aldeias onde estavam estacionados pequenos destacamentos de soldados romanos, a pedido dos chefes envolvidos na conspiração anti-romana. Quando a mensagem de Arminius chegou aos destinatários, todos os soldados romanos espalhados pelas aldeias foram imediatamente mortos.

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(Ilustração de Arminius feita pelo artista Gambargin, http://fav.me/dai0tmm)

Enquanto isso, marchando através de território que eles acreditavam ser amistoso, as legiões não prosseguiam em ordem de batalha, como seria de costume, mas em blocos separados. A longa coluna devia se estender por vários quilômetros de comprimento. Tudo indica que os Romanos acreditavam que estavam indo resolver um assunto fácil: um levante dos Bructeri, os quais tinham sido facilmente derrotados por Tibério e Saturnino, apenas quatro anos antes…Os soldados confiavam que, antes do final de outubro, eles estariam no conforto dos quartéis do Reno. Assim, misturados à tropa, iam mulheres, crianças, escravos domésticos e toda a sua bagagem, transportadas em carros de boi e mulas…

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – PRIMEIRO DIA

O historiador romano Dião Cássio, a partir daí, é que nos dá o relato mais detalhado dos acontecimentos:

Os Romanos foram guiados para uma trilha que passava por dentro da Floresta de Teutoburgo. Os soldados, inclusive, tinham que derrubar árvores e ir aplainando os caminhos para as carroças transitarem. Nesse momento, começou a chover muito forte. Foi então que grupos de guerreiros germânicos escondidos entre as árvores despejaram dardos contra a retaguarda da coluna, matando muitos soldados romanos que tentaram, sem sucesso, defender-se com os seus escudos, os quais, encharcados da água que caía, começaram a ficar muito pesados. Além disso, os Germanos começaram a derrubar algumas árvores para que os troncos caíssem em cima dos Romanos.  Agora, as tropas estavam dispersas ao longo do caminho, já bem escorregadio, que se encontrava atravancado pelas carroças e pela correria desesperada dos civis. Sem dúvida, estava muito difícil organizar uma formação de batalha naquele momento. Assim, cada grupo de soldados combatia em minoria contra um número muito maior de bárbaros. Em pouco tempo, vários legionários já estavam caídos na floresta, mortos ou feridos. Para piorar, as tropas auxiliares começaram a desertar e fugir para o meio da floresta.

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Apesar de tudo, os oficias romanos conseguiram achar um local mais ou menos adequado para fazer um acampamento fortificado com uma paliçada e passar à noite. Eles, com pesar, decidiram queimar as carroças e abandonar tudo o que não fosse necessário para o combate.

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – SEGUNDO E TERCEIRO DIAS

No dia seguinte, os Romanos conseguiram avançar de forma mais ou menos ordenada para o oeste, conseguindo chegar até campo aberto, porém sem deixar de sofrerem contínuas perdas em emboscadas. Talvez Varo e os oficiais romanos ainda acreditassem que, em algum momento, Arminius chegaria com os reforços prometidos e aliviaria a situação. Neste ponto, Dião Cássio conta que as tropas teriam entrado de novo em outro trecho da floresta.

Foi neste dia que os Romanos, segundo Dião Cássio, sofreram as suas perdas mais pesadas. O historiador narra que os soldados tiveram que formar suas linhas em um espaço estreito. A ênfase nesses dois elementos: pesadas perdas e a largura do terreno, apontam para a estreita passagem situada ao pé da colina Kalkriese, 20 km ao norte da atual cidade de Osnabrück, como sendo o ponto focal da Batalha.  Foi ali que os Romanos ficaram imprensados entre o pântano e a floresta.

De fato, durante dois mil anos, o local exato onde ocorreu a Batalha da Floresta de Teutoburgo sumiu da História e da memória dos europeus.

Até que, em 1987, um militar inglês – que nas horas vagas tinha  como hobby ser arqueólogo amador – descobriu uma grande quantidade de moedas romanas, sendo que nenhuma das moedas encontradas era posterior a 9 D.C. Avisadas, as autoridade começaram uma escavação científica., encontrando fragmentos de equipamento militar romano e ossos humanos e de animais, na maior parte das vezes, misturados em buracos cavados propositalmente para enterrá-los.

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(Foto do sítio de Karlkriese. O caminho marca o trajeto provável do deslocamento da tropa romana, conforme os achados arqueológicos)

Os arqueólogos alemães também descobriram, neste sítio, vestígios de um longo muro de turfa encimado por troncos, o qual se estendia em zigue-zague, com passagens em intervalos periódicos. Embaixo de um trecho que parecia ter cedido, eles encontraram um crânio humano, ao lado um suporte de plumagem característico de um elmo romano, e o esqueleto de uma mula. Os arqueólogos calcularam que foram necessárias apenas algumas semanas para construir esse muro, encimado por uma paliçada, que ficava ao pé da montanha. Escavando o terreno, eles verificaram que, ao longo dos séculos, o mesmo foi modificado pelas sucessivas gerações de agricultores, tendo ficado bem diferente do que ele era em 9 D.C. Com efeito, originalmente, o local era uma faixa de terreno seco arenoso de cem metros de largura delimitado, em um lado, pela colina Kalkriese, então, como hoje, coberta de árvores, mas, do outro lado, por um pântano, que foi sendo aterrado ao longo dos séculos.

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(Foto da reconstituição do solo original no século I D.C., em Kalkriese. Ao fundo, pode-se ver a paliçada reconstruída)

Ali foram encontrados 6 mil itens arqueológicos (moedas, pedaços de sandálias militares, pontas de lança, e de dardos de catapultas, arreios de cavalos e mulas, etc.) relacionados ao Exército Romano. E o maior agrupamento de achados fica justamente no trecho onde foram construídos o muro de turfa e a paliçada pelos germânicos.

O sítio arqueológico de Kalkriese é uma prova irrefutável de que Arminius e os Germânicos planejaram e executaram uma emboscada magistralmente sofisticada. E eles não apenas atraíram os Romanos para um terreno desfavorável, mas ainda prepararam com antecedência este terreno. E eles fizeram isso em apenas algumas semanas.

A maioria dos soldados da XVII, XVIII e XIX Legiões comandadas por Varo deve ter sido morta no trecho murado, tentando, inclusive, tomar de assalto um destes trechos, sem sucesso (essa, inclusive, foi a parte do muro que desabou sobre os soldados); mas alguns grupos devem ter conseguido prosseguir. A trilha dos achados arqueológicos demonstra que, ultrapassada a paliçada germânica, houve uma bifurcação no avanço dos romanos. Um grupo um pouco maior ainda avançou um pouco mais para o norte, e outro, menor, para o sul.

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A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO – ÚLTIMO DIA

De fato, Dião Cássio conta que, quando raiou o quarto dia, o que restava das legiões ainda estava avançando, quando voltou a cair uma tempestade de chuva e vento, impedindo novamente os Romanos de usarem seus escudos e seus arcos (pois as cordas feitas de tendão ficam frouxas quando molhadas). Para piorar, outros bandos de Germanos se sentiram encorajados a se juntar aos que atacavam os Romanos, que ficaram em ainda maior inferioridade numérica.

Estava tudo acabado: Públio Quintílio Varo, que já tinha sido ferido nos dias anteriores, vendo-se na iminência de ser capturado, mostrou a bravura que tradicionalmente era esperada de um general romano e, repetindo o que seu pai e seu avô já tinham feito antes, ele tirou a própria vida, jogando-se sobre a sua espada. Por sua vez o Legado (general) Numonius Vala tentou fugir com suas unidades de cavalaria, mas ele acabou sendo alcançado pelos cavaleiros de Arminius e morto. Os historiadores romanos condenaram este ato como covardia, mas diante da situação, talvez fosse a única alternativa. Dos dois Prefecti Castrorum (Prefeitos do Acampamento), que eram os terceiros em comando na legião), Lucius Eggius pereceu combatendo, mas o outro, Ceionnius, rendeu-se, apenas para morrer torturado pelos bárbaros.

O corpo de Varo, segundo o historiador romano Veléio Patérculo, foi parcialmente cremado e enterrado às pressas, provavelmente pelos seus servos domésticos, mas logo o mesmo seria descoberto, desenterrado (o historiador Floro também narra isso) e decapitado pelos Germanos. Depois, Arminius enviou a cabeça de Varo para o rei dos Marcomanos, Marobóduo (Marbod), no Danúbio, com o objetivo de incentivá-lo a se unir à aliança dos Queruscos e povos vizinhos contra o Império. Contudo, o prudente rei preferiu não tomar partido e, como gesto de boa vontade, enviou de volta a cabeça de Varo para Augusto, em Roma, onde mais tarde ela foi depositada, com honras, no mausoléu da família.

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Dois dos estandartes-águia das legiões foram capturados por Arminius. Porém a terceira águia, segundo, Floro, foi escondida por um soldado porta-estandarte (aquilifer) dentro das próprias vestes,  que com ela mergulhou no pântano.

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O grande historiador Tácito narra que Arminius insultou as águias e os estandartes, discursando para a multidão de guerreiros em cima de uma tribuna improvisada. Os tribunos e oficiais sobreviventes foram sacrificados vivos em altares e tiveram suas cabeças cortadas e penduradas em árvores. Por sua vez, alguns soldados seriam poupados, para serem escravos dos Germanos e deve ter sido algum deles que, anos mais tarde relatou essas cenas. Um pequeno punhado de soldados teve mais sorte e eles conseguiram chegar até as guarnições romanas no Reno.

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CONSEQUÊNCIAS

Logo após a Batalha da Floresta de Teutoburgo, todos os quartéis romanos até o Reno foram atacados pelos Germanos. Somente o forte de Aliso resistiu heroicamente e foi somente essa resistência que impediu os bárbaros de cruzarem o Reno e atacarem a Gália, prosseguindo, quem sabe, até a Itália.

A nascente cidade romana de Waldgirmes, que mencionamos na primeira parte de nossa história, foi prontamente evacuada. Sabemos que ela não foi destruída pelos Germanos, pois não há traços de incêndio, nem esqueletos de vítimas. Na verdade, a cidade foi propositalmente desmantelada pelos Romanos, provavelmente logo que eles receberam a notícia da derrota, naquele mesmo ano de 9 D.C.

Quando a notícia do Desastre de Varo (Clades Variana, como a derrota seria batizada em latim) chegou à Roma, houve uma comoção geral e muitos de fato acreditaram que logo os Germanos atravessariam os Alpes e invadiriam a Itália. O imperador Augusto ficou muito abalado. Segundo o historiador romano Suetônio, o velho imperador, meses após a derrota, repetidas vezes foi visto batendo a cabeça contra uma parede e clamando:

“QUINCTILIUS VARUS, LEGIONES REDE!” (Quintílio Varo, devolva-me minhas legiões!).

Foi de fato a pior derrota que Augusto sofrera em 50 anos à frente do governo de Roma. Ele havia planejado minuciosamente que o número de legiões do Exército Romano, após as guerras civis do Triunvirato, seria de 28…Agora, restavam 25, e os números das legiões massacradas na Batalha da Floresta de Teutoburgo nunca mais seriam utilizados de novo pelos supersticiosos romano: Realmente, jamais houve quaisquer outras Legiões XVII, XVIII e XIX. Viraram números malditos…

Muitos historiadores incluem a Batalha da Floresta Teutoburgo entre as dez batalhas mais decisivas da História. Eu concordo. Hoje, não há dúvidas de que Augusto tinha um projeto de anexação e “romanização” da Germânia, o qual estava em andamento. Se os Romanos tivessem ganho a Batalha ou, mais provável, se Varo tivesse dado ouvidos a Segestes e desarticulado a conspiração, em poucos anos teria havido a fundação de novas cidades e consolidação e aumento das já existentes, como Waldgirmes. Em algumas décadas, a Germânia até o rio Elba ficaria cada vez mais e mais parecida com a Gália. E a leitura das fontes que citamos demonstra que realmente havia uma facção da nobreza germânica que apoiava essa “romanização” (o maior exemplo é o próprio Segestes). Uma derrota de Arminius certamente teria reforçado e promovido esses nobres pró Roma. Isso, obviamente, não quer dizer que as outras tribos germânicas além do rio Elba, incluindo as que viviam na Escandinávia, futuramente não atacariam as fronteiras romanas, e nem que o Império do Ocidente não viesse mais tarde a entrar em colapso. Porém, muito provavelmente, a fronteira linguística e cultural da Europa latinizada e católica seria no rio Elba. Como  disse o historiador militar britãnico J.F.C. Fuller, ainda que com algum exagero:

“Sem Teutoburgo, não haveria Carlos Magno, não haveria Sacro Império Romano-Germânico, não haveria Guerra dos Trinta Anos, não haveria Napoleão, não haveria Alemanha e não haveria Hitler

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Demorou cinco anos para o Império Romano preparar uma revanche. O general Germanicus Julius Caesar (Germânico), que era filho adotivo do sucessor de Augusto, o Imperador Tibério (que conduziu inúmeras campanhas bem sucedidas na Germânia) entrou na Germânia comandando 6 legiões. Ele travou vários combates muito sangrentos, matou milhares de bárbaros, e até conseguiu recuperar uma das águias capturadas na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Germânico engajou vitoriosamente Armínius em combate algumas vezes, mas nunca sem conseguir derrotá-lo definitivamente. Contudo,  Segestes, que tinha sido cercado pelas tribos leais à Arminius, pediu ajuda a Germânico, que prontamente veio em seu socorro e conseguiu derrotá-los, em  15 de maio de 15 D.C. Em agradecimento, Segestes entregou à Germânico a sua própria filha Thusnelda, que então era esposa de Arminius e estava grávida do filho do libertador da Germânia.

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(Estátua romana de mulher germânica cativa, apelidada de “Thusnelda”)

Logo depois, naquele mesmo ano, Germânico e suas legiões alcançaram o local da Batalha da Floresta de Teutoburgo, visitando o campo de batalha em Kalkriese. A sombria , macabra e brilhante descrição que o historiador Tácito faz dessa visita traz à minha mente uma cena parecida com a que assisti no filme “Apocalipse Now”, quando o louco Coronel Kurtz é encontrado no Laos:

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De acordo com Tácito, havia ossos descarnados espalhados por todo local e, das árvores, pendiam crânios dos soldados romanos sacrificados. Tácito conta que o próprio Germânico cuidou de enterrar, juntamente com os soldados, os ossos dos companheiros mortos. E isso é confirmado pelas escavações modernas em Kalkriese, pois foram achadas as mesmas covas que o general romano mandou cavar. Inclusive, na pressa em fazer o sepultamento, já que os romanos estavam em terreno inimigo, foram enterrados ossos humanos junto com os das mulas e cavalos mortos, o que, em circunstâncias normais, jamais ocorreria.

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(Foto real dos ossos encontrados em uma dos oito poços escavados pelos soldados de Germânico, em Kalkriese)

O vívido relato de Tácito e a cena do filme vieram imediatamente à minha mente quando eu estive em Kalkriese, no final de 2008 (http://www.kalkriese-varusschlacht.de/en/).

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Há no sítio uma reconstrução da paliçada germânica e um trecho de terreno que foi escavado e reconstituído para mostrar como eram os alagados. Há também estandartes fincados com rostos humanos para lembrar os soldados romanos caídos, e um museu com os achados, onde se destacam uma máscara cerimonial de cavalaria romana e uma reconstituição facial do crânio de um soldado romano encontrado. Além de um pedaço de armadura do tipo lorica segmentata, que é o mais antigo jamais encontrado. Com efeito, acreditava-se que esse tipo de armadura tinha sido introduzido no reinado de Tibério, Calígula ou Cláudio, mas, graças a descoberta de Kalkriese, sabe-se que deve ter sido no reinado de Augusto.

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EPÍLOGO

Thusnelda foi levada para Roma e lá deu à luz ao filho de Arminius, que foi chamado de Thumelicus. Consta que Arminius lamentou muito a captura de sua esposa e de seu filho. Não se sabe qual foi o destino de Thusnelda, mas Tácito afirma que Thumelicus foi educado em Ravena e, anos mais tarde, ele sofreu uma grande humilhação, que o historiador nos alerta que iria contar em outro capítulo (infelizmente, o livro contendo essa passagem anunciada se perdeu). Alguns acreditam que o termo usado pelo historiador poderia inferir que Thumelicus pode ter virado gladiador, pois essa era considerada uma das mais baixas condições sociais em Roma.

Em 16 D.C, Germânico travou um grande batalha contra a coalizão de tribos liderada por Arminius em pessoa. Os Romanos venceram de forma arrasadora e teriam matado cerca de 20 mil Germanos, porém Arminius conseguiu escapar. Nesta ocasião, Germânico conseguiu recuperar a segunda águia perdida em Teutoburgo. Já a terceira águia, que deve ter sido encontrada escondida no pântano pelos bárbaros logo após a batalha, somente seria recapturada em 41 D.C., no reinado do imperador Cláudio.

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(Cabeça de Germânico)

Em 21 D.C, Arminius foi assassinado por rivais de sua própria tribo que, supostamente, temiam que ele quisesse virar rei (curiosamente, esse foi o mesmo pretexto para o assassinato de Júlio César). Não obstante, Tácito  nos recorda que, 100 anos depois da Batalha da Floresta de Teutoburgo, o nome dele ainda era cantado nas sagas dos Germanos.

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(Lápide do túmulo do 1º centurião da XVIII Legião, Marcus Caelius, a inscrição diz:  “Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito Lemoniano de Bolonha, primeiro centurião da 18ª Legião, 53 anos de idade. Ele morreu na Guerra de Varo.  Podendo também conter os ossos dos seus libertos. O seu irmão, Publius Caelius, filho de Titus, do Distrito Lemoniano, ergueu essa lápide“. Tudo indica que Publius, o irmão do centurião TItus, estava na expedição de Germânico e conseguiu reconhecer e resgatar os ossos do irmão falecido em Teutoburgo, dando-lhes um enterro digno, junto com os libertos que o acompanhavam).

                                                                               FIM

PETRÔNIO MÁXIMO – IMPERADOR DO OCIDENTE POR 11 SEMANAS, OS ANÍCIOS e AÉCIO – O ÚLTIMO DOS ROMANOS

 

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Flavius Anicius Petronius Maximus (Petrônio Máximo) nasceu por volta de 395 D.C. e provavelmente ele era filho de Anicius Probinus, Cônsul para o ano de 395 D.C. e Procônsul da África no ano seguinte, e neto de Sextus Claudius Petronius Probus, que foi Prefeito da Ilíria, Prefeito da Gália, Prefeito da Itália e Cônsul no ano de 371 D.C.

Os Anícios (Anicii) eram uma família rica, poderosa e muito influente da tradicional classe senatorial italiana, e os seus integrantes ocuparam vários cargos públicos importantes a partir do século IV D.C.

A influência dos Anícios perdurou, inclusive, após a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C., pois eles continuaram ocupando várias magistraturas durante o reinado dos Ostrogodos, na Itália. O filósofo Boécio (Anicius Manlius Severinus Boethius), por exemplo, foi  senador e cônsul em 510 D.C. (o senado romano continuou a funcionar durante o reino Ostrogodo na Itália), antes de ser executado por ordens do rei germânico.

Em 523 D.C., Flavius Anicius Maximus celebrou a sua nomeação para o consulado celebrando os últimos jogos a serem realizados no Coliseu de Roma, envolvendo caçadas e lutas contra animais (venationes).

Inclusive, depois da reconquista da Itália pelo imperador romano do Oriente, Justiniano I, um dos membros da família, Anicius Faustus Albinus Basilius, foi o último romano a ocupar o cargo de Cônsul, em 541 D.C., ao lado do referido imperador, após o que o cargo foi incorporado como título exclusivo dos imperadores romanos do Oriente (vide painel de marfim abaixo com a imagem do Cônsul Anicius Albinus Basilius, ladeado pela personificação da cidade de Roma).

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Mais de um século depois da Queda do Império Romano do Ocidente, Gregório, o Grande, canonizado como São Gregório, cujo nome de nascença era Anicius Gregorius , foi Papa da Igreja Católica, de 590 a 604 D.C.

Um dos motivos para a ascensão dos Anícios, a partir do reinado do imperador Teodósio, o Grande, é o fato de que eles eram cristãos, dentro de um Senado Romano ainda marcadamente pagão.

E Petrônio Máximo também seguiu uma carreira pública de sucesso, tendo ocupado sucessivamente os cargos de Pretor, em 411 D.C, de Tribuno, em 415 D.C, de Conde das Riquezas Sagradas (Comes Sacrae Largitionem, cargo equivalente ao de Secretário do Tesouro Imperial), de 416 a 419 D.C, e nos dois anos seguintes, ele foi Prefeito Urbano de Roma. Depois disso, Petrônio foi Prefeito Pretoriano da Itália, por duas vezes, em 435 e 439/441 D.C., culminando a sua carreira com dois consulados, em 433 e 443 D.C.

Assim, a maior parte da carreira de Petrônio desenvolveu-se durante o reinado do Imperador do Ocidente Valentiniano III, que se caracterizou por um paulatino desmembramento do Império Romano, decorrente de uma série de invasões bárbaras. Com efeito, durante esse período, os Vândalos, Suevos e Alanos se instalaram na Espanha e os Visigodos no sul da Gália. Além disso, o noroeste da Gália encontrava-se virtualmente independente, controlado por bandoleiros chamados de bagaudas. Para piorar, os Vândalos deixaram a Espanha e invadiram a rica província da África, que na época era a principal fonte de suprimento de grãos para Roma.

O Exército do Império do Ocidente, durante o reinado de Honório, antecessor de Valentiniano III, praticamente havia desaparecido, e o Imperador dependia de tropas bárbaras, cujos chefes cada vez mais ansiavam o cargo de Comandante Supremo (Magister Utriusque Militiae), visando ter acesso aos ainda vastos recursos do Império.

Roma, apesar de tudo, durante esse período (400 a 450 D.C.), ainda conseguia desdobrar algum poder militar, nas ocasiões em que o exército era comandado por um general de prestígio e de orientação patriótica, como no caso do marechal, meio-romano e meio-vândalo, Estilicão, que foi o Comandante do Exército do Ocidente durante o reinado do imperador Honório. Esses generais, enquanto o tesouro não se exauriu completamente, frequentemente conseguiam reunir tropas bárbaras que serviam ao Império como “federados” (foederati) e as empregavam no interesse de Roma.

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Estilicão (retratado no relevo de marfim acima), contudo, não conseguiu sobreviver à comoção que foi o saque de Roma pelos Godos comandados pelo rei Alarico. Outro fator que contribuiu para a queda de Estilicão foram as intrigas entre as cortes de Honório, em Ravena, e de seu irmão Arcádio, em Constantinopla.

Quando Honório morreu, em 423 D.C., o governo do Império do Ocidente ficou, durante algum tempo, nas mãos da Imperatriz Gala Placídia, filha de Teodósio, o Grande e irmã do falecido imperador, apoiada pelo Imperador do Oriente, Teodósio II, em Constantinopla (como o filho de Placídia, Valentiniano III, tinha apenas 6 anos, ela governou como regente de fato o Império Romano do Ocidente).

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(Alguns acreditam que este medalhão de vidro pintado retrate Gala Placídia, ladeada por Valentiniano III e Honória, mas provavelmente o objeto é mais antigo, do século III).

Vale notar que Gala Placídia foi levada como refém por Alarico, quando do saque de Roma e, depois que o rei bárbaro morreu, naquele mesmo ano (410 D.C.), ela teve que se casar, aparentemente não contra a sua vontade, com Ataulfo, o cunhado e sucessor de Alarico. Gala Placídia somente seria “restituída” ao Império Romano após a morte do marido, em 415 D.C.

Durante o reinado de Valentiniano III, um outro militar da estatura de Estilicão assumiu o comando do que restava do Exército, o general Flávio Aécio, um romano nascido na região do Danúbio.

Flávio Aécio, quando criança, foi entregue como refém aos godos e, por estes, aos hunos, durante a juventude, mas, valendo-se do seu talento de persuasão e de suas habilidades diplomáticas, Aécio conseguiu fazer contatos e ter boas relações com os hunos, que eram os bárbaros mais temidos naqueles tempos.  Efetivamente, durante toda a sua carreira, Aécio se valeria dessa amizade com os hunos, que, em diversas ocasiões, lhe forneceriam as tropas que o Império do Ocidente tanto precisava para fazer frente aos visigodos, suevos, francos, burgúndios e outros bárbaros que, já instalados na Gália e Espanha, ou em reides partindo dos rios Reno e Danúbio, ameaçavam a própria Itália.

Aécio, que alcançara o posto de Comandante militar da Gália, teve que combater Bonifácio, um rival pelo comando supremo do Exército que tinha a predileção de Gala Placídia, e, apesar de ter sido derrotado na Batalha de Rimini, em 432 D.C, conseguiu fugir e chegar aos seus amigos hunos, enquanto que Bonifácio morreu em decorrência dos ferimentos sofridos na luta. Os hunos forneceram a Aécio novas tropas, com as quais ele não teve dificuldade em “convencer” Gala Placídia a nomeá-lo “Magister Utriusque Militae” e Conde (“Comes“).

Infelizmente, os vândalos aproveitaram-se indiretamente desse conflito e invadiram a África, província que era vital como fonte de fornecimento de grãos para o Império do Ocidente (o Egito estava sob a jurisdição de Constantinopla), e onde os senadores romanos possuíam imensas propriedades.

A estratégia seguida por Aécio para lidar com essas ameaças é considerada pelos historiadores militares como inteligente e adequada para a delicadíssima situação em que o Império do Ocidente se encontrava: De fato, Flávio Aécio sempre procurou proteger preferencialmente a Gália, a maior e mais rica província do Ocidente, já bem devastada pelas invasões bárbaras. Ele conseguiu derrotar os burgúndios e conter os bagaudas, na Gália e, após uma sucessão de derrotas e vitórias contra os visigodos, firmar com eles um tratado delimitando a área que seria destinada aos bárbaros. Sem ter tropas suficientes para subjugar todos os bárbaros, Aécio passou a se valer da tática de usar as tribos bárbaras recém-derrotadas e assentadas em áreas selecionadas do Império para conter as outras que fossem julgadas mais perigosas para Roma.

Em decorrência desses sucessos militares, Aécio foi a pessoa mais poderosa do Império do Ocidente entre 433 e 450 D.C.

Porém, em 451 D.C., Átila, que tinha se tornado rei dos Hunos em 435 D.C., resolveu atacar o Império do Ocidente, alegando um pretexto surpreendente: a irmã de Valentiniano III, Honória, que havia sido presa por ter engravidado de um camareiro, conseguiu enviar a Átila um pedido de socorro, junto com um anel, razão pela qual o rei bárbaro considerou que a princesa romana era sua noiva, dando-lhe o direito de exigir o seu dote: Metade do Império do Ocidente!

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Deve ter sido muito embaraçoso para Aécio junto à corte imperial e ao Senado o fato de que seus amigos hunos agora tinham se voltado contra o Império. O irresistível avanço da horda huna, acrescida por várias tribos germânicas súditas de Átila, rapidamente tomou Metz, Reims, Mogúncia, Estrasburgo, Colônia, Worms e Trier que foram tomadas, saqueadas e incendiadas.

Aécio, porém, conseguiu formar uma aliança com os visigodos, francos e alanos, que se uniram a um pequeno contingente de tropas romanas tradicionais. Quando os aliados  aproximaram-se de Orleans, que estava sendo sitiada pelos hunos, Átila teve que abandonar o cerco às muralhas e rumou para o campo aberto em Châlons, na Champanha. Ali, travou-se uma sangrenta batalha onde os visigodos e alanos aguentaram a maior parte da carga dos guerreiros hunos. Os romanos colaboraram ocupando uma importante elevação no terreno. Em posição desfavorável, Átila acabou ordenando uma retirada, sem que houvesse uma perseguição por parte dos aliados romanos. Foi certamente o auge da carreira de Aécio. Muitos historiadores consideram, para outros com algum exagero, que a Batalha de Châlons foi uma das batalhas mais importantes da História e o historiador romano-bizantino Procópio chamou Aécio de “O Último dos Romanos“. É, todavia, difícil chegar a uma conclusão sobre a importância crucial desta batalha, pois Átila morreria dois anos depois e o seu império esfumaçou-se tão rápido como surgira.

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Contudo, também o prestígio político de Aécio não duraria muito. No ano seguinte à Batalha de Châlons, Átila e os seus Hunos invadiriam a Itália. No avanço da horda, a grande cidade de Aquiléia foi varrida do mapa. Valentiniano III, protegido pelos pântanos de Ravenna, foi obrigado a assistir impotente enquanto os hunos dirigiam-se para Roma. Contudo, por razões até hoje misteriosas, mas provavelmente devido à peste que se alastrava pela Península, Átila, após receber uma embaixada do Papa Leão, resolveu se retirar e, no ano seguinte, ele morreria sufocado pelo próprio sangue, após a festa do seu casamento com uma nova esposa, aparentemente devido a uma hemorragia nasal.

Após Chalons, Aécio ainda conseguiu casar o seu filho Gaudentius com a princesa Eudóxia, filha de Valentiniano III, passando, assim, a ser oficialmente membro da família imperial e ainda por tabela colocando Gaudentius como um sério candidato à sucessão do trono. Isso certamente despertou muitos ciúmes no círculo da elite italiana, especialmente em Petrônio Máximo, que naquele momento era o senador mais poderoso e com mais distinções em cargos públicos.

Segundo o historiador romano-bizantino do século VII, João de Antióquia, Petrônio Máximo foi o maior responsável pelas intrigas contra Aécio junto a Valentiniano III, instigando o imperador contra o general. Assim, Petrônio aliou-se ao secretário doméstico do imperador (“Primicerius Sacri Cubiculi“), um eunuco chamado Heraclius, que também era inimigo de Aécio, e os dois conseguiram persuadir Valentiniano III que Aécio planejava matá-lo.

Em seguida, Petrônio e Heraclius sugeriram que Valentiniano convocasse o general para um encontro no Palácio, nos aposentos imperiais, provavelmente uma forma de afastar Aécio de seus guarda-costas hunos, sem despertar a suspeita deles.

Em 21 de setembro de 454 D.C., Aécio compareceu ao encontro e, enquanto apresentava um relatório, ele foi acusado pelo imperador Valentiniano III de traição. Ao tentar se explicar, Aécio foi subitamente atacado por Valentiniano III e Heraclius e acabou sendo morto por um golpe de espada desferido pelo próprio imperador. Não deve ter sido uma luta muito difícil, uma vez que Valentiniano tinha 34 anos e era dado a se exercitar, enquanto que Aécio já tinha a avançada idade, para a época, de 63 anos.

Dias depois, ao comentar que tinha agido corretamente ao matar Aécio, Valentiniano III ouviu de um cortesão:

“Se ele merecia morrer, eu não sei, mas o que eu sei é que Vossa Majestade cortou vossa mão direita com a esquerda”…

Ainda segundo João de Antióquia, Petrônio Máximo tentou convencer Valentiniano III a nomeá-lo para o cargo de Aécio, mas foi convencido por Heraclius a não fazê-lo. Furioso com a recusa, consta que Petrônio conseguiu convencer dois guarda-costas bárbaros de Aécio, chamados Optelas e Thraustelas, a vingarem-se da morte do seu amado chefe, prometendo ainda uma recompensa pela morte de Valentiniano III.

Assim, no dia 16 de março de 455 D.C, os dois bárbaros mataram o imperador e apoderaram-se do seu manto e do diadema imperial, que foi entregue a Petrônio Máximo, que, com o apoio do Senado, imediatamente tomou o controle do Palácio Imperial e forçou Licí­nia Eudóxia, a viúva de Valentiniano III,  casar-se com ele, o que lhe ajudou a reivindicar com sucesso a condição de Imperador Romano do Ocidente, em 17 de março de 455 D.C.

O reinado de Petrônio Máximo, contudo, duraria pouco…As tropas que se mantinham fiéis graças ao prestígio de Aécio desapareceram e, na prática, não existia mais nada na Itália que pudesse ser chamado de exército romano. Geiserico, segundo algumas fontes, atendendo a um pedido da imperatriz-viúva, aproveitou para invadir a Itália e dirigiu-se para Roma, onde instalou-se o pânico.

Quando Petrônio Máximo soube do funesto fato, e encontrando o Palácio deserto, tentou fugir, mas foi ele acabou sendo descoberto e foi capturado por uma multidão furiosa que o linchou e o apedrejou, atirando seu corpo mutilado ao Tibre (segundo uma outra versão, ele teria sido morto por um soldado de nome Ursus). Era o dia 31 de maio de 455 D.C.

VIRGÍLIO

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Em 21 de setembro de 19 A.C. morreu o grande poeta romano Virgílio, na cidade de Brundisium, na Itália, quando ele voltava de uma viagem à  Grécia, o poeta romano mais conhecido em todos os tempos.

A poesia de Virgílio, rica em temas rurais, pastoris e épicos, foi muito bem recebida pelo nascente regime inaugurado pelo imperador Augusto, pois o novo regime procurava exaltar os costumes tradicionais e as virtudes do camponês italiano, o que casava com a propaganda imperial. Por isso, Virgí­lio contou com o patrocí­nio de Caio Mecenas, rico amigo e partidário de Augusto, que, de tanto apoiar escritores, acabou virando o substantivo que significa “patrono das artes”.

As  grandes obras de Virgílio são as Bucólicas, as Geórgicas, e, a mais célebre de todas, a Eneida, um monumental poema épico que  trata da fundação mítica de Roma, cantando a ligação da lendária Tróia com os romanos. A Eneida integrava o currículo básico de formação de todos os romanos e citações do seu texto já foram encontrados em achados arqueológicos desde a África até a Inglaterra, inspirando poetas durante a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento e mesmo até hoje em dia. Dante Alighieri e Luís de Camões, para citar exemplos, foram profundamente influenciados por Virgílio, como podemos observar nas obras “A Divina Comédia” e “Os Lusíadas“.

Publius Vergilius Maro  (Públio Virgílio Marão ) nasceu em 15 de outubro de 70 A.C. (segundo a tradição), próximo à cidade de Mântua, a qual, fundada pelos Etruscos, foi depois controlada pelos Gauleses, até ser conquistada pelos Romanos, na época da Segunda Guerra Púnica.

Depois de aprender a ler e escrever, Virgílio foi estudar nas cidades de Cremona e Milão, que eram as principais cidades da província romana da Gália Cisalpina. Já chegada a mocidade, ele foi para Roma estudar Retórica, Medicina, Astronomia e, finalmente, filosofia. Em Roma, Virgílio estudou e aprendeu grego com o famoso gramático e poeta Parthenius de Niceia. Ele também conviveu e fez parte do círculo de poetas chamados de neotéricos, que procuravam se afastar dos cânones da poesia homérica clássica, e foi discípulo do poeta, historiador, intelectual  e estadista Gaius Asinius Pollio (Asínio Polião). Completando a sua formação, Virgílio foi para Nápoles, estudar com o filósofo epicurista Siro.

Foi no período que se seguiu à morte de Júlio César que Virgílio começou a sua carreira como poeta. Parece que as propriedades rurais de sua família em Mântua foram confiscadas na série de proscrições decretadas pelos sucessores de César, os Triúnviros Marco Antônio e Otaviano, e isso acabou inspirando em parte a sua primeira série de poesias com temas predominantemente pastorais, batizadas de Éclogas (ou Bucólicas), mas, onde, de modo diverso ao formato tradicional desse tipo de poesia, estabelecido pelo poeta grego Teócrito de Siracusa, Virgílio fez alusões ao assassinato de César, aos horrores da guerra civil e o nascimento de uma criança miraculosa, que viria dar fim à “Era de Ferro” (Écloga IV). Esse poema, séculos mais tarde, seria considerado por autores cristãos como tendo profetizado o nascimento de Jesus Cristo, como podemos ver no trecho abaixo (muito embora, os especialistas apontem que se trata de uma referência a Otaviano, o futuro imperador Augusto):

“Sicilianas Musas, nossos cantos, um tanto soergamos:

nem a todos deleitam os arbustos, os tamariscos franzinos,

se é aos bosques que cantamos,

que de um cônsul os bosques sejam dignos!

Eis que na verdade, do oráculo de Cumas vem chegando a derradeira idade:

Dos séculos a grande ordem de novo recomeça;

Eis que volta a Virgem; eis que de Saturno o reino já regressa,

e dos altos céus nova linhagem desce!

Mal nasça o menino com que já fenece

a férrea idade, e de polo a polo

se mostre a áurea estirpe, tu, casta Lucina, o favorece!

Já reina o teu Apolo!

Em teu consulado, ó Polião, e sob a tua guia,

principiará a glória desta nova era,

e dos grandes meses o transcurso, dia a dia.

Se de nosso crime algum vestígio houvera,

írrito será doravante,

e livre quedará do pavor eterno a esfera.

Dos deuses receberá vida o nascituro infante,

e aos deuses juntos os heróis verá;

ver-se-á a si a estes mesclado,

e o mundo regerá,

pela virtude paternal pacificado.

Depois das Éclogas, que foram publicadas por volta de 38 A.C., Virgílio ingressou no círculo de poetas patrocinado por Mecenas, com o objetivo de fazer propaganda das ideais políticos de  Otaviano e que também incluía outro grande poeta romano, Horácio.

Foi Mecenas quem insistiu para que Virgílio escrevesse a sua próxima obra, as Geórgicas, uma ode à vida rural da Itália, versando sobra as lavouras, a avicultura, estocagem e apicultura, com alguns versos laudatórios a Otaviano. A série foi terminada em 29 A.C., mas, segundo consta, antes disso, Mecenas e Virgílio costumavam declamar os poemas para o futuro Augusto.

A leitura de alguns versos da Écloga VI e das Geórgicas mostra que, durante a sua produção, Virgílio já estava elaborando as ideias para a sua próxima obra, que se chamaria Eneida.

Na Eneida, poema épico que é considerado a obra-prima de Virgílio, narra, em versos hexâmetros, a trajetória do mítico herói troiano Enéias, que foge de Troia após a Guerra narrada na Odisseia de Homero, levando o pai, Anquises, e o filho, Ascâneo, e, guiado pelos deuses, passa por Cartago, onde a rainha Dido se apaixona por ele, mas acaba por se suicidar devido a partida do herói, que ouvira dos deuses que ele iria fundar um grande cidade, e  termina por se estabelecer na Itália, onde ele se fixa no Lácio e se apaixona por Lavínia, a filha única do rei Latinus, que estava prometida para Turno. O romance causa uma guerra entre os Troianos e os outros povos italianos, que é vencida pelos primeiros, e termina com Enéias matando Turno.

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Na Eneida, Ascâneo, filho de Enéias, é chamado Iulus,  de quem a gens Julia alegava descender. Assim, explicitamente, o poema associava Augusto, sobrinho-neto e filho adotivo de Júlio César a Enéias e à própria deusa Vênus, que era mãe daquele herói mitológico.

A Eneida compreende doze livros,  e alguns deles foram recitados para Augusto e a família imperial pelo próprio Virgílio, em 23 A.C..

Em 21 de setembro de 19 A.C., quando voltava de uma viagem à Grécia, onde tinha contraído uma febre, Virgílio morreu, quando chegou no porto italiano de Brundisium (atual Brindisi).  Ele ainda não tinha finalizado a Eneida, que ainda carecia de alguns retoques. Inclusive, consta que, com essa finalidade, ele teria retornado à Itália a pedido de Augusto.

Consta que Virgí­lio, antes de morrer, teria determinado que os manuscritos da Eneida fossem queimados, não se sabendo o motivo, mas Augusto, quando soube dessa última vontade do poeta, proibiu a destruição do manuscrito e providenciou a sua publicação, que foi feita por um velho amigo do poeta, Varius.

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(Túmulo de Virgílio, em Nápoles)

 

DOMICIANO, UM BOM “MAU IMPERADOR”…

PRÓLOGO

Em 18 de setembro de 96 D.C., em um suntuoso aposento da recém-completada Domus Flaviae, o grandioso complexo palaciano que os imperadores da dinastia flaviana haviam construído na colina do Palatino, descortinava-se um cenário sangrento: dois cadáveres sem vida jaziam no chão, junto com duas adagas ensanguentadas, em uma poça de sangue, no meio da luxuosa mobília revirada. Eram os corpos do imperador romano Domiciano e do liberto Stephanus, que em vida fora o secretário pessoal de Flávia Domitila, a sobrinha do imperador.

HISTÓRICO FAMILIAR, NASCIMENTO E INFÂNCIA

Nascido em 24 de outubro de 51 D.C., Titus Flavius Domitianus (Domiciano) era o filho mais novo do general Tito Flávio Vespasiano (que se tornaria o imperador Vespasiano) e de Flávia Domitila, a Velha. Os Flávios eram uma família de origem sabina, proveniente da cidade de Reate, os quais, no final da República, ingressaram na classe dos Equestres (ou Cavaleiros), que era o segundo ní­vel hierárquico da nobreza romana.

Com efeito, o primeiro Flávio de que se tem notícia havia sido um mero centurião das tropas de Pompeu, na Batalha de Farsália, durante a guerra civil travada entre este e Júlio César, e que, depois deste conflito, estabeleceu-se como coletor de impostos. O filho dele, chamado Titus Flavius Sabinus, também foi coletor de impostos na Proví­ncia romana da Ásia e além de banqueiro.

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Já a família de Domitila, a Velha, a mãe de Vespasiano, havia se estabelecido na cidade de Sabratha, na colônia romana da África, durante o reinado do imperador Augusto, sendo que o pai dela era um simples secretário de um questor daquela proví­ncia.

Vespasiano, junto com seu irmão, Tito Flávio Sabino, tiveram sucesso no serviço público e no Exército Romano, durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.

Ressalte-se que Vespasiano, inclusive, conseguiu ingressar no círculo mais íntimo da corte de Cláudio, muito em função da sua união amorosa com a liberta Antônia Caenis, que era secretária pessoal da mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem, e da sua amizade com o poderoso liberto Narcissus, que era um dos principais assessores imperiais, com status de ministro.

Assim, durante o reinado de Cláudio, graças a essas privilegiadas ligações,Vespasiano conseguiu alcançar o cume da carreira das magistraturas romanas (Cursus Honorum), ao ser nomeado Cônsul, em 51 D.C, mesmo ano em que nasceu Domiciano, o seu filho caçula.

O primogênito de Vespasiano, Tito, nascido em 39 D.C. (doze anos antes de Domiciano), também se beneficiou da proximidade do pai com o palácio no reinado de Cláudio: ele teve o raro privilégio de ser educado junto com Britânico, o filho natural do referido imperador.

Tito e Domiciano também tinham uma irmã, chamada Flávia Domitila, a Jovem, também nascida em 39 D.C. (Curiosidade: a filha dela, que também se chamava Domitila, seria cristã e, muitos anos mais tarde, ela seria canonizada pela Igreja Católica como Santa Flávia Domitila e as chamadas Catacumbas de Domitila, em Roma, têm este nome porque as terras onde elas foram escavadas pertenceriam a ela, que as legou para a nascente comunidade cristã da Cidade, ainda no século I D.C).

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Apesar dos tempos de fartura e glória vividos pelo pai, as fontes narram que quando Domiciano nasceu, a sua família estava de fato na pobreza. O motivo mais provável para isso, ao que tudo indica, é o fato de que o seu pai Vespasiano teria caí­do em desgraça quando Agripina, a Jovem, a última esposa do imperador Cláudio, foi, pouco a pouco, dominando o velho e influenciável imperador e aproveitou-se disso para afastar os desafetos dela, sobretudo, aqueles que ela julgava que ameaçavam a ascensão de seu filho Nero ao trono. E entre os maiores desafetos da nova imperatriz encontrava-se Narcissus, o amigo e protetor de Vespasiano.

Entretanto, enquanto Domiciano era ainda uma criança pequena, a sua mãe, Domitila, a Velha, morreu. Vespasiano então resolveu assumir o romance com Antônia Caenis e os dois passaram a viver em “Contubérnio“, uma forma de concubinato que era admitida pela lei romana.

Todavia, segundo as fontes, seja por apego à memória da mãe, seja por ciúme do pai, ou por outro motivo qualquer, Domiciano não gostava de Antônia Caenis e o historiador Suetônio, inclusive, relata que, certa vez, quando a “madrasta” tentou saudá-lo com um beijo, Domiciano a impediu, e em vez de oferecer a face, estendeu-lhe a mão…

Assim, quem parece ter cuidado mesmo do menino Domiciano foi Phyllis, a sua ama, que esteve próxima a ele durante toda a sua vida (e mesmo depois, como veremos adiante).

JUVENTUDE E FORMAÇÃO

Finalmente, quando Nero, passados os primeiros anos do seu reinado, conseguiu dar cabo de Agripina, em 59 D.C.,Vespasiano, ainda um general respeitado, voltou a receber comandos importantes. Assim, em 60 ou 63 D.C, ele foi nomeado governador da África. Nesse período, Domiciano ficou aos cuidados de seu tio Sabino, enquanto seu irmão Tito, que já tinha idade militar, fazia carreira no Exército, servindo na Germânia e na Britânia.

Sabemos que Sabino não descurou da educação do sobrinho, pois Suetônio nos conta que, já adolescente, Domiciano estudou Retórica e Literatura, sendo capaz de declamar poetas importantes, como Homero e Virgílio, em público, e de manter uma elegante conversação em eventos sociais. Consta, além disso, que na juventude, Domiciano chegou a publicar poemas e até alguns escritos sobre Direito.

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Suetônio descreve Domiciano como sendo um jovem alto e de boa aparência, mas que, na idade madura, ficaria barrigudo e calvo. Como curiosidade, com relação a este último traço, consta que Domiciano escreveu um “Tratado sobre Cuidados com os Cabelos“, que, infelizmente, não sobreviveu.

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Vespasiano foi nomeado pelo imperador Nero para comandar o grande exército que fora reunido para combater a Grande Revolta Judaica, em 66 D.C., ao qual se juntou, a seguir, Tito, que recebeu o comando da XV Legião.

Em 68 D.C., quando estourou a rebelião do governador Vindex, na Gália o fato que iniciou a cadeia de eventos que resultaria na deposição e no suicídio de Nero Tito foi enviado à Roma por Vespasiano para transmitir o reconhecimento das Legiões na Judéia ao novo imperador, Galba. Porém, antes de chegar à Roma, Tito recebeu a notícia de que Galba havia sido assassinado e de que, agora, Otho (Otão) era o novo imperador. Ele decidiu, então, retornar para a Judéia para ver o que o seu pai decidiria.

Entretanto, no conturbado ano de 69 D.C, que ficaria conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores“, Otão foi derrotado por Vitélio, que se tornou o novo imperador. Enquanto isso se desenrolava na Itália, Tito teve vital importância e participou diretamente das negociações que levaram Muciano, o Governador da Província da Síria, a jogar a cartada de reconhecer Vespasiano como imperador, desprezando o reconhecimento de Vitélio por Roma.

Assim, Vespasiano partiu para a capital para reclamar o trono e deixou sob o comando de Tito a campanha contra a Grande Revolta Judaica, que ficou com a tarefa de liderar a fase mais difí­cil da guerra: o cerco e captura de Jerusalém. Ao tomarem conhecimento da aclamação na Síria, as legiões do Danúbio, sob o comando de Antônio Primo, também escolheram apoiar Vespasiano e invadiram a Itália, derrotando as tropas de Vitélio na Batalha de Bedríaco, saqueando em seguida a cidade de Cremona.

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A ASCENSÃO DE VESPASIANO E O PAPEL DESEMPENHADO POR DOMICIANO

Enquanto isso, em Roma, Vitélio informou a Tito Flávio Sabino, o irmão de Vespasiano, que ocupava, fazia onze anos, o cargo de Prefeito Urbano de Roma, sua intenção de renunciar. Porém, os soldados de Vitélio e o populacho da cidade, quando souberam disso, protestaram violentamente e cercaram Sabino e a sua famí­lia, incluindo o jovem Domiciano, os quais se refugiaram na colina do Capitólio, que chegou a ser incendiada pelos partidários de Vitélio no conflito. Domiciano conseguiu escapar dos perseguidores, mas Sabino foi capturado e executado.

Dois dias depois, as tropas de Antônio Primo tomaram Roma e depuseram Vitélio, que foi arrastado pelas ruas, torturado e morto. Em seguida, as tropas aclamaram Domiciano como “César” (um tí­tulo que começava a adquirir o significado de “prí­ncipe-herdeiro”).

Em dezembro de 69 D.C., o Senado Romano reconheceu Vespasiano como imperador – embora ele ainda estivesse no Oriente. Assim, o seu correligionário Muciano, que havia chegado à Roma um dia depois da morte de Vitélio, imediatamente assumiu o comando das tropas leais a Vespasiano que tinham tomado a capital e passou a administrar o Império em nome do novo imperador, contando com a ajuda de Domiciano, que, então, tinha apenas 18 anos de idade e foi nomeado pelo Senado para o cargo de Pretor com poderes consulares, de acordo com o historiador Tácito.

Narram as fontes que o jovem Domiciano, mostrando bastante audácia e uma indisfarçável ambição pelo poder, rapidamente nomeou várias pessoas para diversos cargos importantes, tais como governos de províncias, prefeituras e, até mesmo, para o consulado. Por este motivo, segundo o historiador Dião Cássio, o sempre bem-humorado Vespasiano teria chegado a mandar uma carta contendo a seguinte mensagem para o filho:

“Obrigado, meu filho, por me permitir manter o meu cargo e por não ter me destronado“.

Ainda durante o Ano dos Quatro Imperadores, havia estourado na Gália uma grave revolta dos auxiliares batavos, liderada por Gaius Julius Civilis. Domiciano, embora não tivesse nenhuma experiência militar, tentou liderar a reação contra a rebelião, assumindo o comando de uma legião, mas acabou sendo dissuadido por Muciano.

Entretanto, Tito, o filho mais velho de Vespasiano, que conduzia com brilho a guerra contra os judeus, enquanto ainda estava no Oriente foi, em 70 D.C, nomeado Cônsul junto com o pai. Em seguida, em 71 D.C, Tito recebeu o Poder Tribunício, no que era um claro sinal de que ele seria o herdeiro e sucessor do pai e afastando qualquer pretensão que Domiciano pudesse ter).

Certamente, com essas medidas, o sábio Vespasiano quis evitar um dos principais fatores de instabilidade nos reinados dos seus antecessores da dinastia dos Júlios-Cláudios: a pouca clareza quanto à sucessão, pela existência de vários pretendentes dinásticos.

Tito também foi nomeado Prefeito da Guarda Pretoriana e, assim, agindo como comandante da guarnição militar da capital e da Guarda de Honra do Imperador, ele foi implacável na vigilância e repressão a potenciais ameaças ao reinado do pai, tendo de fato executado sumariamente vários supostos conspiradores.

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(Triunfo de Tito, óleo de Sir LawrenceAlma-Tadema 1885, mostrando Vespasiano, seguido por Tito e Domiciano, este de mãos dadas com Domícia Longina, que olha sugestivamente para Tito)

CARREIRA PÚBLICA E CASAMENTO

Durante o reinado de Vespasiano, Domiciano foi designado seis vezes Cônsul Suffectus (um consulado honorário, menos importante do que o ordinário), mas manteve o tí­tulo de César, sendo nomeado sacerdote de vários cultos, além de receber o tí­tulo de “Príncipe da Juventude” (Princeps Juventutis). Mesmo assim, Vespasiano sempre deixou evidente que a precedência era do irmão mais velho.

Contudo, a primazia dada a Tito não quer dizer que Domiciano estivesse sido excluído da sucessão dinástica: Vespasiano tentou casar Domiciano com Júlia Flávia, que era a filha única de Tito, e, portanto, sobrinha dele, quando esta era apenas uma criança, mas a iniciativa não teve sucesso porque, naquela época, Domiciano já estava apaixonado por Domícia Longina, filha do famoso general Cneu Domí­cio Corbulão, que tinha se suicidado a mando de Nero por suspeita de haver participado de uma conspiração.

Domícia Longina era filha de Júnia Lépida, tataraneta do imperador Augusto e, portanto, junto com sua irmã, ela era uma das últimas descendentes da dinastia dos Júlios-Cláudios, que fundaram o Império Romano. Domícia era casada com o senador Lucius Aelius Lamia Plautius Aelianus, de quem ela se divorciou para se casar com Domiciano, por volta de 70 D.C.

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Em 23 de junho de 79 D.C, Vespasiano morreu de causas naturais e Tito foi imediatamente aclamado como novo Imperador Romano, com a idade de 39 anos.

Tito não tinha herdeiros do sexo masculino e sua única filha, Júlia Flávia, tinha 14 anos de idade. Ele havia se divorciado, ainda durante o reinado de Nero, de sua esposa Márcia Furnilla.

Durante a Guerra Judaica, Tito se apaixonou pela rainha Berenice, filha de Herodes Agripa, que logo tornou-se sua amante e, depois da guerra, ela foi viver com ele em Roma. Esta era uma união politicamente inviável para Tito, e qualquer filho advindo desta relação estaria obviamente excluí­do da linha sucessória do trono. Com efeito, devido à pressão da opinião pública, Tito teve que despachar Berenice de volta para o Oriente. Portanto, agora, naquele momento, Domiciano era, de fato, o herdeiro natural do trono imperial.

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Os autores antigos mencionam que a relação entre os irmãos Tito e Domiciano era, no mí­nimo, fria e distante. Isso provavelmente decorria da grande diferença de idade e do pouco contato que eles devem ter tido, já que, enquanto Domiciano crescia, Tito já tinha entrado no Exército, acompanhando Vespasiano em suas campanhas. Deve-se mencionar, todavia, que o historiador Flávio Josefo relata que, durante a Guerra Judaica, Tito comemorou o aniversário de Domiciano em uma cerimônia pública, em Cesaréia.

Em 80 D.C., nasceu o único filho de Domiciano e Domí­cia Longina, cujo nome, entretanto, não foi preservado.

Em 13 de setembro de 81 D.C, Tito morreu de uma febre súbita, após reinar por apenas dois anos. Consta que as suas últimas palavras teriam sido:

“Cometi somente um erro”.

O real significado da frase derradeira de Tito sempre suscitou muita discussão entre os historiadores. Para alguns, ele se referia ao fato de não ter executado o irmão Domiciano, cujo caráter já há tempos já dava mostras de ser tirânico, ou porque ele teria conspirado para derrubar Tito, mas não há qualquer evidência de nenhum desses fatos. Alega-se, também, que Tito nunca reconheceu formalmente Domiciano como sucessor e herdeiro, mas vale notar que Domiciano já era o Cônsul designado para o ano de 80 D.C. e talvez as medidas destinadas a lidar com os efeitos da erupção do Vesúvio, ocorrida ainda em 79 D.C., e que consumiram muito do tempo do primeiro ano do reinado de Tito, tenham-no distraído da questão sucessória, ou então, ante à ausência de qualquer outro rival, a posição de Domiciano tenha parecido óbvia. No plano das fofocas, também cogitou-se que Tito poderia ter tido um caso com a cunhada, Domícia Longina.

ASCENSÃO AO TRONO E REINADO

Consta que no mesmo dia da morte do irmão, Domiciano correu para o quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, onde ele foi aclamado imperador.

No dia seguinte, em 14 de setembro de 81 D.C., o Senado Romano reconheceu Domiciano, conferindo-lhe os títulos de Augusto, Pai da Pátria e Pontifex Maximus, além do Poder Tribuní­cio. Mais do que uma possí­vel demonstração de falta de apreço e de respeito pelo irmão falecido, a conduta de Domiciano de partir imediatamente para o quartel dos pretorianos, ao invés de velar o corpo de Tito, deve ser vista como uma cautela necessária, recomendada pelo histórico das sucessões imperiais.

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Desde os primeiros dias de seu reinado, Domiciano mostrou-se um governante interessado por todos os detalhes da administração pública, que acompanhava de perto como poucas vezes se tinha visto nos reinados anteriores: Ele publicou leis detalhadas sobre vários assuntos e o seu estilo de governo pode ser descrito como “microgerenciamento“. Ele também comparecia em pessoa às audiências no Tribunal do Fórum Romano, que ele mesmo concedia aos que apelavam das decisões das Cortes.

Uma das primeiras medidas econômicas de Domiciano foi promover uma valorização do denário, aumentando o seu teor de prata em 12%. Embora, depois de 85 D.C., ele tenha sido obrigado a promover uma pequena desvalorização devido aos gastos com expedições militares e programas de reconstrução, ainda assim, a moeda ainda continuou mais valorizada do que durante o reinado de Vespasiano. Ele também deu especial atenção à taxação dos impostos, aprimorando a cobrança e aumentando as receitas do Estado.

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Graças a outra medida de Domiciano, pela primeira vez na História de Roma, foi possí­vel ter alguma previsão dos gastos e receitas futuras, estabelecendo-se uma espécie de orçamento público embrionário.

Devido ao grande incêndio no reinado de Nero, às devastações da guerra civil causadas durante o Ano dos Quatro Imperadores e a um outro incêndio, ocorrido em 80 D.C., Domiciano determinou que se executasse um grande projeto de reconstrução dos monumentos destruí­dos, incluindo o vetusto Templo de Júpiter Optimus Maximus, no Capitólio, que foi coberto com um magní­fico telhado de bronze dourado. No total, cerca de 50 edifí­cios importantes seriam reconstruí­dos ou reparados, caracterizando um recorde entre os imperadores romanos.

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Mas novos edifí­cios também foram erguidos, como o Palácio de Domiciano, parte do complexo palaciano da Domus Flaviae, e o enorme Estádio de Domiciano, onde eram disputados os Jogos Agonais (Agone), e que cuja forma sobrevivente daria origem, na Idade Média, à atual Praça Navona (cujo nome vem de “Piazza in Agone“).

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Além de reformar a paisagem urbana de Roma, Domiciano, que se revelou um moralista, também pretendeu reformar os costumes romanos, os quais ele julgava degradados. Em 85 D.C., ele se autoproclamou “Censor Perpetuus“, ou seja, censor vitalí­cio, com a atribuição de supervisionar a moral e os bons costumes. Isso incluí­a velar pela observância dos rituais da religião tradicional de Roma, cuja ortodoxia e pureza ele pretendia restaurar. Assim, Domiciano proibiu a castração de meninos e o comércio de eunucos em todo o Império Romano.

Fontes relatam que Domiciano era particularmente hostil ao Judaí­smo e não é à toa que autores cristãos (religião que, para muitos romanos, aparentava ser apenas uma seita judaica), apontam aquele imperador como um dos grandes perseguidores do Cristianismo. Não há, contudo, nas fontes romanas, evidência de nenhuma perseguição oficial à religião cristã. Com relação aos Judeus, contudo, é certo que eles foram alvo de um aumento nas taxas e impostos cobrados.

Domiciano também estabeleceu os Jogos Capitolinos, em homenagem a Minerva, a deusa da sabedoria, que ele considerava ser a sua divindade protetora, e a Júpiter.

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Uma medida que causou comoção na época (87 D.C.) foi a ressuscitação da arcaica punição às Virgens Vestais que quebrassem o voto de castidade – serem enterradas vivas – o que não ocorria havia séculos, mesmo ainda durante a República.

O imperador também renovou a Lex Iulia de Adulteriis Coercendis, que punia com exílio o adultério, e vários senadores foram processados por condutas consideradas imorais, incluindo homossexualismo.

Não obstante, Suetônio registra que, em 83 D.C., a imperatriz Domícia Longina teve um caso com um ator chamado Páris, que, por causa disso, teria sido morto pelo próprio imperador em pessoa.

Como punição, Domícia Longina foi exilada. Neste mesmo ano, também morreria o único filho do casal. Talvez corroído pelo remorso, Domiciano chamou de volta Longina, e os dois voltaram a viver juntos. Ou quem sabe, talvez a morte do menino tenha sido a causa do exílio e o adultério não tenha ocorrido.

O detalhismo da polí­cia de costumes de Domiciano chegou ao nível de exigência de que os cidadãos romanos usassem togas nos espetáculos públicos, muito embora essa vestimenta tradicional estivesse em desuso, pois era cara para os pobres e desconfortável para todos usarem. A orientação autocrática e moralista do reinado também ficou patente no agravamento da punição aos que escrevessem textos considerados ofensivos ao Imperador e na proibição de sátiras e comédias com teor crítico, chegando à completa proibição da apresentação de Mimes, uma espécie de teatro de comédia vulgar e grosseira, onde frequentemente as figuras públicas eram satirizadas.

No entanto, a corrupção no serviço público foi duramente combatida, havendo muitos casos de punições a juízes acusados de receberem propinas, uma queixa recorrente.

Nas províncias, Domiciano também aprimorou a taxação e majorou impostos, mas, em contrapartida, ele criou o cargo de “Curator” (Curador) para investigar casos de má administração nas cidades do Império. Domiciano também construiu várias estradas na Ásia Menor, Sardenha e Danúbio, e melhorou as instalações defensivas no Norte da África.

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No serviço público, Domiciano privilegiou a nomeação de cidadãos da classe dos Equestres, e até mesmo de libertos, para os cargos mais importantes, em detrimento da classe senatorial. Para alguns autores, as más experiências que Domiciano deve ter tido no Senado, durante os eventos que resultaram na morte de seu tio Sabino e também durante o reinado de Vespasiano e Tito, predispuseram o imperador contra os senadores.

Assim, o imperador, seguindo a tendência inaugurada por Cláudio, administrava o Império auxiliado por um conselho privado que frequentemente se reunia na Vila de Domiciano, na cidade de Alba, a cerca de 20 km de Roma (ou seja, para os padrões antigos, a no mí­nimo uma hora de viagem de Roma, a todo galope ou mais de duas, de carruagem). Esse conselho era composto por amigos (amicii), libertos do imperador e altos funcionários, como os prefeitos urbano e da guarda pretoriana. Domiciano também manteve a política adotada pelo pai e de pelo irmão de reservar o exercí­cio dos consulados majoritariamente para o imperador, seus filhos e parentes.

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(Criptopórtico, ou passagem subterrânea, da Villa de Domiciano, em Alba)

Indubitavelmente, todas as medidas citadas faziam parte de uma guinada para um principado mais absolutista e centralizador. E tudo isso se coadunava com uma ênfase na sacralização da figura do monarca. Não é a toa de que uma das maiores crí­ticas dos autores antigos é a mencionada predileção por parte de Domiciano do tratamento de “Dominus et Deos” (“Senhor e Deus”), o qual, contudo, até onde se averiguou, jamais constou de documentos oficiais.

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(Estátua de bronze dourado de Domiciano, retratado como Hércules)

Como era de se esperar, essa forma de governar adotada por Domiciano em nada contribuiu para melhorar as relações do imperador com o Senado Romano. Os reinados de Tibério, Calí­gula e Nero, sem falar nos eventos que levaram ao assassinato de Júlio César, tinham já mostrado que os senadores viam a si mesmos como uma classe que tinha direito manifesto a prerrogativas, poderes, cargos e influência no Estado, cuja preterição gerava atritos entre o imperador e o Senado. Augusto havia entendido isso o suficiente para criar um sistema em que, ainda que de forma condescendente e não equânime, uma parcela do poder do Estado Romano era dividida entre o Imperador e o Senado, que continuou intitulado a governar certas Províncias, a poder ocupar as mais altas magistraturas e, não menos importante, a ser merecedor de tratamento deferente pelo Príncipe (“Princeps“, tí­tulo que, sintomaticamente, tem em sua origem o significado de “primeiro senador”).

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Com efeito, em várias passagens dos livros de história podemos inferir que, para os senadores, tão importantes quanto o poder de fato eram a deferência e as honrarias…E a personalidade arredia de Domiciano tornou as relações com o trono mais difí­ceis…Ele, segundo as fontes, gostava de solidão, possivelmente um traço adquirido pelo afastamento de seus pais na infância.

Há até uma anedota na qual se conta que, durante o tempo em que Domiciano passava trancado em seu gabinete, nos intervalos de trabalho, ele se distraí­a capturando moscas e traspassando-as com um fino estilete. Então, jocosamente, quando alguém chegava para despachar e perguntava se havia alguém com o Imperador, os porteiros respondiam:

Nem uma mosca…

As fontes descrevem Domiciano como sendo frio, distante, arrogante e, por vezes, insolente e cruel. Esses traços, somados às medidas autocráticas, desgastaram as relações com o Senado e, certamente, não lhe granjearam amizades nesta assembleia. Vale notar que: medidas como a punição dos maus administradores e juízes, o afastamento de homossexuais do Senado, e a execução das Virgens Vestais que violavam a sua castidade, atingiam, precipuamente, os membros da elite senatorial. Entretanto, nos oito primeiros anos do reinado de Domiciano aparentemente não houve conspirações…

Enquanto isso, Domiciano dedicou muita atenção à polí­tica exterior e aos assuntos militares e ele aumentou o pagamento do soldo dos militares de 300 para 400 denários.

Em 82 D.C., as legiões sob o comando de Cneu Júlio Agrí­cola derrotaram as tribos no norte da Britânia, chegando até a costa oposta à Irlanda. Há quem sustente que os romanos chegaram até a fazer uma expedição na referida ilha. Posteriormente, no verão de 84 D.C., Agrí­cola derrotou os Caledônios, os quais se refugiaram nas Terras Altas da atual Escócia (Highlands). Depois, em 85 D.C., apesar do sucesso desta campanha, Agrícola foi chamado de volta à Roma.

Segundo o historiador Tácito, que era genro de Agrí­cola e escreveu uma obra sobre a vida do sogro, o motivo do retorno foi o ciúme de Domiciano de que as conquistas de Agrí­cola ofuscassem o duvidoso triunfo que Domiciano tinha celebrado pela vitória contra a tribo germânica dos Catos, que tinham atacado a Gália.

Porém, mesmo que Domiciano tivesse a intenção de promover uma grande campanha contra os Catos, visando obter uma vitória completa, a mesma foi por água abaixo devido a invasão da Província da Moésia pelos Dácios, em 85 D.C. os quais chegaram a matar o governador romano da proví­ncia.

A campanha contra os Dácios, que no início chegou a contar com a presença de Domiciano, terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, morrendo seu comandante. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Provavelmente devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, devido a guerra contra os Dácios e incursões dos Suevos e Sármatas, somada à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.

O fato é que o Exército Romano não podia mais se dar ao luxo de luxo de se comprometer em uma guerra em dois fronts, sendo que a relação custo-benefício de manter a Caledônia não justificava a manutenção daquele território.

E Domiciano, realmente, deve ter avaliado que a situação estratégica no momento também não recomendava o comprometimento total do exército com uma campanha no Danúbio, pois, logo após a cessação dos combates contra os Dácios ele assinou com eles um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão que foi muito criticada pelos autores antigos.

Desse modo, os Dácios somente seriam conquistados pelos romanos em 106 D.C., pelo imperador Trajano, em uma campanha que de fato revelou-se durí­ssima.

CONSPIRAÇÃO CONTRA DOMICIANO

Como tantas vezes se veria na História do Império Romano, a combinação de insucessos militares com a impopularidade de um imperador entre os Senadores teve como resultado uma conspiração para assassinar o monarca.

Assim, no iní­cio do ano de 89 D.C., o general Lúcio Antônio Saturnino, um senador que comandava duas legiões na Germânia Superior, foi proclamado imperador pelas suas tropas, na cidade de Moguntiacum (atual Mainz, na Alemanha). Saturnino, muito provavelmente, fazia parte de um grupo de senadores insatisfeitos com o reinado de Domiciano. Ele esperava que o governador da Germânia Inferior, o também senador Aulus Lappius Maximus, se juntasse à rebelião, mas este comandante se manteve fiel ao imperador. Para piorar, os esperados reforços de tribos aliadas germânicas foram impedidos de cruzar o rio Reno devido a uma cheia.

Consequentemente, as tropas rebeldes acabaram sendo derrotadas pelos soldados leais ao imperador na Batalha de Castellum, e Saturnino foi executado. Note-se que a conduta de Aulus Lappius de queimar as cartas apreendidas em poder de Saturnino após a derrota deste é um forte indício de que havia outros senadores envolvidos na trama, em Roma.

Todavia, a revolta de Saturnino exacerbou os traços de paranoia que já estavam sendo notados em Domiciano. De fato, embora possa ter havido algumas execuções de senadores anteriores a 89 D.C, considera-se que o “reinado de terror” atribuído a Domiciano efetivamente começou após à referida conspiração.

No ano seguinte, Domiciano dividiu o consulado com o veterano senador Marco Cocceio Nerva (o futuro imperador Nerva), um jurista que, mais de vinte anos antes, havia ajudado Nero a desbaratar a chamada Conspiração Pisoniana.

Entretanto, no chamado “reinado de terror” de Domiciano, cerca de onze senadores foram executados, por motivos variados. Para se ter uma comparação, o imperador Cláudio executou 35 senadores durante o seu reinado, e, mesmo assim, ele foi deificado pelo Senado após a sua morte. E o imperador Adriano, logo no primeiro ano de seu reinado, executou quatro, mas os historiadores não se referem a tais execuções como um período de “terror”, o que mostra a má vontade da elite senatorial em relação a Domiciano.

A propósito, consta que Domiciano, certa vez, teria dito:

“Os imperadores são a gente mais desafortunada, pois, quando eles descobrem uma conspiração, ninguém lhes dá crédito, a não ser que eles sejam assassinados...”

Mas o motivo alegado para essas execuções dos senadores nem sempre foi o envolvimento deles com conspirações: No caso do primo de Domiciano, Tito Flávio Clemente, um ex-Cônsul, a acusação era de sacrilégio contra a religião romana. Os historiadores acreditam que Clemente se converteu ao Judaí­smo ou ao Cristianismo. Devido a essa acusação, a esposa dele, Flávia Domitila, que era sobrinha de Domiciano, foi banida para uma ilha remota. Essa Flávia Domitila, de quem já falamos acima, era filha da irmã de Domiciano e é mencionada na História Eclesiástica, do bispo cristão Eusébio de Cesaréia, escrita no século IV D.C., como sendo uma mártir cristã que morreu no exílio na ilha de Ponza e filha da irmã do cônsul Flávio Clemente.

Curiosidade: Há quem associe Tito Flávio Clemente com o Papa Clemente,que depois passou a ser venerado como São Clemente pela Igreja Católica. De fato, uma inscrição teria sido encontrada, durante o Renascimento, nos subterrâneos da Basí­lica de São Clemente, em Roma, contendo a inscrição “T. Flavius Clemens, vir consularis“. Assim, 60 anos após a execução de Jesus Cristo e o início da pregação pelos seus apóstolos, constata-se que a nascente religião já tinha, ao menos, alguns adeptos nas mais altas esferas da sociedade romana.

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(Entrada lateral da Basílica de São Clemente, em Roma)

ASSASSINATO DE DOMICIANO

Em 96 D.C., até os auxiliares mais próximos de Domiciano estavam apreensivos com o comportamento cada vez mais paranoico do imperador. E a insatisfação do Senado com ele atingiu o limite e, assim, tudo estava pronto para uma nova conspiração com o objetivo de libertar Roma daquele que eles consideravam ser um odiado tirano.

Com efeito, Domiciano tinha mandado executar seu camareiro, Epafrodito e o substituto deste, Partênio, prevendo que não demoraria muito para que ele sofresse o mesmo destino, contatou um liberto do imperador, Maximus e também Stephanus, que era o secretário pessoal da sobrinha do imperador, Flávia Domitila,

Já premeditando a execução do assassinato, Stephanus tinha simulado um ferimento no braço dias antes, com o objetivo de poder esconder embaixo da atadura uma adaga. Para ter um motivo relevante para ser recebido pelo imperador, Stephanus fez circular a informação de que ele tinha descoberto uma trama para assassinar Domiciano, e lhe traria as provas.

Assim, quando Stephanus foi admitido no quarto do imperador, ele aproveitou o momento em que Domiciano estava distraído, lendo o documento que provaria a suposta conspiração, e cravou a adaga na virilha dele. Mesmo ferido, Domiciano conseguiu escapar e apanhar uma adaga. Seguiu-se uma luta feroz, em que Stephanus e Domiciano rolaram pelo chão do aposento. Durante o combate, Stephanus foi ajudado por Maximus e por um colega do camareiro Partênio, Satur, que tinham lhe acompanhado ao quarto imperial. Então, após levar sete golpes de adaga, Domiciano faleceu, mas não sem antes levar consigo o próprio Stephanus, que também havia sido golpeado pelo imperador. Domiciano tinha 44 anos de idade quando morreu.

EPÍLOGO

O Senado Romano imediatamente aclamou o  velho senador Marco Cocceio Nerva como imperador, que, por já ser bem idoso e não ter filhos, parecia o candidato mais capaz de ser aceito por todas as facções senatorias e, principalmente, pelo Exército. Aliás, é bem provável que esta solução já fosse apoiada pelos generais mais influentes, como Marco Úlpio Trajano.

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O Senado também decretou que a memória de Domiciano devia ser banida (procedimento conhecido como “damnatio memoriae” e que implicava em apagar inscrições, destruir estátuas e qualquer referência oficial ao nome do imperador).

O cadáver de Domiciano foi levado embora do seu palácio e cremado por iniciativa de sua ex-babá Phyllis, que, tudo indica, nunca se afastou de Domiciano. As cinzas dele foram depositadas no Templo dos Flávios, na colina do Quirinal, em Roma.

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(O Templo dos Flávios, no Quirinal, foto de Cassius Ahenobarbus)

CONCLUSÃO

Os historiadores modernos tendem a favorecer uma revisão do reinado de Domiciano, que foi um governante aplicado e que adotou várias medidas racionais. A imagem negativa dele hoje é considerada por muitos como fruto da antipatia do Senado Romano, valendo observar que os historiadores que escreveram sobre Domiciano, tais como Suetônio, Tácito e Cássio Dião, ou eram todos senadores, como os dois últimos, ou auxiliares próximos à dinastia que sucedeu Domiciano, como é o caso de Suetônio.

O texto desses historiadores da classe senatorial normalmente divide os imperadores romanos entre “Bons” e “Maus“, sendo que, invariavelmente, os “Bons“são aqueles que mantiveram boas relações com o Senador Romano. Já os ‘Maus” são aqueles que desrespeitaram as prerrogativas dos senadores ou perseguiram os seus integrantes. Com efeito, Tácito e Suetônio foram homens que começaram a sua carreira pública no reinado de Domiciano, mas que escreveram as histórias deles no reinado do sucessor de Nerva, Trajano. Assim, a nova dinastia tinha todo o interesse em se legitimar em contraste com uma imagem necessariamente negativa do reinado de Domiciano, e para isso, ela contou com a pena solícita dos historiadores da classe senatorial.

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FIM

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CALÍGULA – ENLOUQUECIDO PELO PODER

Em 24 de janeiro de 41 D.C (segundo Suetônio), após três dias de exibições dos Jogos Palatinos em homenagem ao divino Augusto, os quais estavam sendo realizados em um teatro montado no próprio palácio imperial, o Imperador Romano Gaius Julius Caesar Germanicus Augustus Germanicus, a quem o povo chamava, carinhosamente, de Calígula, sentiu-se fatigado e foi incentivado por cortesãos a ir tomar um banho.

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Busto de Calígula, Ny Carlsberg Glyptotek. foto de Louis le Grand

Calígula , então, resolveu deixar o teatro e ir para os seus aposentos através de uma passagem subterrânea coberta (criptopórtico), que ligava as referidas áreas e que era privativa para o imperador.

Eram cerca de 15 horas da tarde e o imperador devia estar com fome, pois assistira todas as performances daquele dia sem se ausentar, exibindo-se à vista de todos, rodeado pela sua devotada guarda particular, composta por guerreiros germânicos e que ficou no teatro para vigiar os espectadores.

No caminho, Calígula parou para inspecionar alguns jovens gregos, bailarinos da chamada “dança pírrica”, que se preparavam para se apresentarem no evento, e tinham sido acomodados naquela passagem.

De repente, um velho oficial da guarda pretoriana se aproximou do Imperador…

Era o centurião Cássio Queréa, um veterano e bastante condecorado soldado que inclusive servira sob o comando do pai de Calígula, o adorado general Germânico, 20 anos antes, durante as campanhas romanas na Germânia, ocasião em que Queréa distinguira-se pelos seus atos de bravura, razão pela qual ele conseguiu ingressar e progredir na Guarda Pretoriana, a guarnição militar de Roma e do Palácio Imperial.

Porém, após Calígula ser sagrado imperador e passar a habitar no Palácio, o jovem imperador escolheu Queréa para ser a vítima frequente de suas zombarias e pilhérias:

Neste particular, conta-se que, pelo fato de Queréa ter o timbre de voz fino, Calígula, quando o Centurião estava de sentinela – ocasião em que os escalados deviam, ao iniciar o serviço, perguntar ao Imperador qual seria a senha – escolhia nomes embaraçosos, tal como “Vênus“, só para que Queréa, com seu peculiar timbre feminino, respondesse na frente dos outros, quando a senha fosse exigida.

Uma outra brincadeira que deleitava ao Imperador era quando ele estendia a sua mão para que o veterano centurião beijasse o anel, ocasião em que Calígula, avançava e retirava o punho da boca de Queréa, aludindo a um gesto pornográfico de felação, humilhando o veterano soldado perante os colegas.

Então, naquele dia 24 de janeiro, entretido com os jovens gregos no criptopórtico, Calígula mal olhou para Queréa quando este, como de costume, perguntou-lhe qual seria a senha do dia. Consta que o Imperador respondeu:

“Júpiter”.

Queréa, então, imediantemente respondeu, gritando:

“Assim seja. Toma!”

E, já com o seu gládio em punho, Queréa desfechou um tremendo golpe entre o ombro e pescoço de Calígula, o qual penetrou até o osso do peito, mas sem atravessá-lo.

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Foto do criptopórtico escavado no Palatino. Há grande probabilidade de que este seja o local onde Calígula foi assassinado –  © Photo Ministero dei Beni e delle Attività Culturali

Calígula ficou tão perplexo com o ataque que ele sequer gritou ou esboçou qualquer reação, mas apenas se virou, para receber um novo golpe potente, que, desta vez, praticamente arrancou, de uma só vez, a sua mandíbula inferior, a qual ficou pendendo presa apenas por um fiapo de músculo, deixando o seu rosto com o aspecto de uma máscara grotesca.

Somente então o Imperador começou a correr, somente para ser alcançado por outro conspirador, o tribuno Cornélio Sabino, que lhe acertou um golpe de espada no joelho, levando-o ao chão. A partir daí, Queréa, Sabino, o soldado Áquila e provavelmente outros conspiradores começaram a golpear Calígula, já moribundo, inclusive nos genitais. Assim, ele levou 30 golpes, até morrer. Queréa e os cúmplices conseguiram fugir do Palácio, ironicamente, atravessando a casa de Germânico, o finado pai de Calígula, que tinha sido anexada ao Palácio.

O destacamento de guarda-costas pessoais de Calígula, que, como dito, era composto de bárbaros germânicos, quando percebeu que o imperador tinha sido atacado, tomou-se de um frenesi de vingança e começou a matar todos que viam pela frente no Palácio, inclusive um Senador. Eles logo cercaram o teatro e fizeram menção de massacrar todos os espectadores, até alguém informar que o Imperador estava morto, ocasião os seus líderes devem ter pensado que não havia mais nada o que fazer.

Não satisfeito, Queréa mandou um subordinado, chamado Lupus, de volta ao Palácio, para matar Cesônia e a pequena filha de Calígula, que era ainda apenas um bebê. Assim, Cesônia recebeu, resignadamente, um golpe no pescoço. Já a menina teve a cabeça esmagada contra uma parede.

É difícil achar a explicação para a brutal execução de ambos: Obviamente, não poderia haver pretensão alguma de se ocultar a autoria do assassinato do imperador, cometido à luz do dia e com testemunhas. E não havia a menor chance de Cesônia ou a filha assumirem o governo. Eu posso cogitar de dois motivos: Cesônia saberia de algo que poderia arruinar Queréa, ou, talvez até mesmo ela soubesse o nome de outros conspiradores mais ilustres; como também é possível que a esposa do finado Imperador participasse ativamente das humilhações a que Caligula submetia Queréa.

Muitos, porém, acreditam que Queréa pode ter sido cooptado por senadores que queriam restaurar a República, e por isso, visavam eliminar a descendência de Calígula, para que não houvesse sucessores, porém, para que tal propósito fosse bem sucedido, eles teriam que eliminar também outros integrantes da dinastia Júlio-Cláudia, como o jovem Nero, entre outros…

Com efeito, logo após o assassinato, enquanto o Palácio era vasculhado, um pretoriano chamado Gratus encontrou Cláudio, que era tio de Calígula e irmão do pai dele, Germânico, escondido apavorado atrás de uma cortina do Palácio. Uma facção dos pretorianos saudou Cláudio, que até então era tido como imbecil, como o novo imperador, e levou-o para o quartel da Guarda. Lá, ele foi reconhecido e aclamado como o novo Príncipe pelo Senado.

Um Novo Imperador 41 AD, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema (1871), foto: Lawrence Alma-Tadema, Public domain, via Wikimedia Commons

Nascimento e caminho para o trono

Nascido em  31 de Agosto do ano 12 D.C., em Anzio, Itália, Gaius Julius Caesar Germanicus (Caio Júlio César Germânico), que se tornaria popularmente conhecido como o imperador romano Calígula, era filho de Germanicus Julius Caesar, cognominado “Germânico” e de Vipsânia Agripina (mais conhecida como Agripina, a “Velha”, para distingui-la de sua filha, do mesmo nome, Agripina, a “Jovem”, mãe do futuro imperador Nero).

Portanto, por parte de pai, Calígula era sobrinho-bisneto do Imperador Augusto, pois a sua bisavó paterna era Otávia, a irmã do primeiro imperador que se casou com o triúnviro Marco Antônio, em uma união da qual nasceu Antônia, a Jovem, de cujo casamento com Nero Cláudio Druso, por sua vez, nasceu Germânico. E Calígula também era bisneto de Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto, avó de seu pai, pois Nero Cláudio Druso era o filho mais novo do primeiro casamento dela com Tibério Cláudio Nero, sendo que o caçula desta união foi o imperador Tibério, irmão de Druso, tendo o primeiro sucedido Augusto como seu herdeiro e filho adotivo, sendo aquele também, portanto, tio-avô de Calígula.

Já pela linha materna, Calígula era bisneto de Augusto, pois sua mãe, Agripina, era filha de Marco Vipsânio Agripa, o grande amigo e braço-direito do primeiro imperador, e de Júlia, “a Velha”, a única filha e descendente de Augusto.

Tal “pedigree” colocava Germânico, o pai de Calígula, como um não-desprezível pretendente à sucessão do próprio Augusto. Aliás, vale observar que todos herdeiros-presuntivos inicialmente favorecidos por Augusto eram seus parentes, tais como seu sobrinho, Marcelo, e seus netos Caio César e Lúcio César. Todos eles, porém, morreram antes do velho imperador, que, muito em função das maquinações de sua esposa Lívia, acabou adotando e nomeando como herdeiro o filho natural desta, o seu enteado Tibério.

Augusto, porém, certamente visando garantir alguma continuidade sanguínea entre si e os seus sucessores, ao adotar Tibério, exigiu que este, por sua vez, da mesma forma adotasse Germânico, como herdeiro.

Ocorre que o pai de Calígula tornou-se um grande general, muito querido pelo Exército e pelo povo. Ele se destacou em campanhas na Panônia e na Dalmácia. Aliás, Germânico e Agripina eram uma espécie de família romana modelo: Eles tiveram nove filhos juntos, seis dos quais atingiram a idade adulta, três meninos, sendo Calígula o mais jovem deles, e três meninas, sendo que a mais velha, Agripina, “a Jovem”, seria mãe do futuro imperador Nero.

Quando Augusto morreu, em 14 D.C., sendo sucedido por Tibério, o sobrinho deste, Germânico, recebeu do novo imperador um comando na Germânia, onde ele comandou uma campanha brilhante na qual conseguiu finalmente, em 16 D.C., vingar a grande derrota sofrida por Varo, sete anos antes (foi por esse motivo que ele recebeu o seu apelido, pois dar ao general um cognome derivado dos inimigos vencidos era uma tradicional honraria romana).

Foi durante esse período que Germânico demonstrou que sabia utilizar sua família como uma ferramenta de propaganda pessoal. Ele residia no acampamento militar, em território inimigo, com toda a sua família e costumava vestir o seu filho mais novo Caio, que tinha entre 3 e 4 anos, com um uniforme militar em miniatura.

E entre as peças de vestuário militar que o pequeno Caio usava, estava uma pequena sandália ou bota militar, “caligae“, em latim. O diminutivo de “caligae” é “caligula” e o menino acabou recebendo da soldadesca esse apelido, que pode ser traduzido como “Botinha” (ou “Sandalinha“), um apelido que “pegou” (e consta que o mesmo era abominado por Calígula, depois de se tornar adulto).

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Inclusive, as fontes narram que em certa ocasião, quando uma das legiões comandadas por Germânico se revoltou, a mera sugestão de que o comandante, temendo pela segurança de sua família, estava mandando o adorado “Botinha” para um lugar seguro, longe dos soldados, bastou para acabar espontaneamente com o motim.

Infelizmente, a imensa popularidade de Germânico seria, para muitos, a provável causa de sua morte…

Consta que Lívia, a imperatriz-mãe viúva, muito provavelmente, e não para o desagrado de Tibério, urdiu uma série de intrigas visando afastar Germânico da linha sucessória, a quem percebia como uma ameaça a seu filho. De fato, as fontes do período, como Tácito, apontam Lívia e Tibério como os principais suspeitos pela morte de Germânico, em 19 D.C., acometido de uma misteriosa doença que se assemelhava a um caso de envenenamento, ainda que não haja provas conclusivas disso.

A postura questionadora da mãe de Calígula e viúva de Germânico, Agripina, em relação à morte de seu marido, azedou as relações dela com Tibério e deu início a uma série de desconfiança e intriga entre ambos. Consta que, certa vez, Tibério, notando uma cara de desagrado em Agripina, teria recitado, em grego, para ela o seguinte verso de uma então famosa obra clássica:

Porque não és rainha, eu te fiz algum mal?

Assim, em virtude dessa animosidade, e dos efeitos que isso causou na saúde da sua mãe, Calígula acabou indo morar sua bisavó, Lívia, a principal suspeita pelo assassinato de seu pai.

Em 29 D.C, no mesmo ano em que Lívia morreu, Agripina foi presa e exilada para a remota ilha de Pandatária, acusada de traição junto com seus outros filhos Nero e Druso.

Após sofrer vários maus-tratos e provações, Agripina morreu na ilha, em 33 D.C. Antes disso, os irmãos de Calígula também morreriam em função das acusações: Nero (não confundir com o imperador de mesmo nome) morreu de inanição, enquanto preso e Druso se suicidou. Em todos esses fatos esteve implicado o Prefeito Pretoriano Lúcio Élio Sejano, para alguns como instigador, ou ao menos, como o executor da vontade de Tibério.

Então, em 31 D.C, Calígula, que estava morando junto com sua avó Antônia, foi residir com Tibério, que, deixando os assuntos da administração nas mãos de Sejano, havia abandonado Roma e se mudado para Capri, desde o ano de 26 D.C.

Não temos dúvidas de que a situação deve ter sido aterrorizante para Calígula, pois após morar com Lívia, a suposta algoz de seu pai, agora ele iria viver sob a tutela do filho desta, o imperador responsável pelo sofrimento e morte de sua mãe e de seus irmãos. O que ele podia esperar para si senão o pior?

A julgar pelo relato de Suetônio, em Capri, Calígula habilmente soube fingir ser inofensivo e servil a Tibério. Se os escandalosos relatos do citado historiador forem verdadeiros, na paradisíaca ilha,  Calígula deve ter sofrido a influência maléfica dos inúmeros atos de perversão sexual e crueldade relatados na “Vida de Tibério“, o livro integrante da coletânea de biografias conhecida como “Os doze Césares“, que teriam ocorrido na espetacular Villa Jovis de Tibério, situada em Capri.

No entanto, em 33 D.C, Tibério deu a Calígula seu primeiro cargo público, o de Questor Honorário, e, dois anos mais tarde, Calígula foi nomeado herdeiro do Imperador, juntamente com seu primo, e neto de Tibério, o menino Tibério Gemellus.

Quando Tibério morreu, em 16 de março de 37 D.C, com a avançada idade de 78 anos, Calígula tornou-se o terceiro imperador romano. Suetônio levanta suspeitas sobre a culpa de Calígula na morte do tio, mas o mais provável é que Tibério tenha morrido de velhice.

A morte de Tibério foi recebida com júbilo pelo povo e pelo Senado. De fato, a austeridade de Tibério, que havia acumulado um grande superávit no Tesouro, muito em função dele ser avesso aos gastos públicos, especialmente para com os jogos e corridas tão amados pela plebe, acabou tornando-o consideravelmente impopular, fato que foi reforçado pela sua responsabilização, real ou presumida, pelas mortes dos queridos Germânico e Agripina.

Calígula imperador

Assim, a aprovação entusiasmada do Senado e do Povo de Roma acompanhou a aclamação de Calígula como imperador: Além de suceder um governante antipático, ele era o belo e jovem filho de um herói popular e membro de uma família muito célebre e muito estimada. Para comparar, o clima deve ter sido parecido com o que o Reino Unido atual experimentará quando o príncipe William tornar-se rei da Inglaterra, sucedendo ao pai Charles.

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Reprodução de um busto original  romano de Calígula, com cores restauradas, obtidas através de processo científico

Parece que, em seus primeiros meses, o reinado de Calígula parecia promissor (aliás, a crônica do seu início pode ser considerada a narrativa-padrão do reinado de todos os “maus” imperadores romanos, tais como Nero, Domiciano e Cômodo). Ele entrou em Roma em 28 de março de 37 D.C, 12 dias após a morte de Tibério, seguindo-se cerca de três meses de verdadeira adoração, em grande parte espontânea, por parte do povo. De fato, inicialmente, Calígula correspondeu mesmo aos anseios dos súditos:

De fato, o novo imperador mandou pagar todos os legados previstos no testamento de Tibério, tanto individuais como coletivos e, mais importante, mandou destruir todos os documentos que estavam nos arquivos imperiais para dar subsídios aos numerosos processos de crime de alta-traição ou de lesa-majestade, que haviam sido tão frequentes no reinado do seu antecessor.

Calígula também inaugurou o costume, que depois se mostraria funesto, de dar um grande donativo à Guarda Pretoriana em comemoração à ascensão de um novo imperador ao trono (prática que estimularia futuros motins dos Guardas visando destronar o monarca reinante, para assim obter recompensas do substituto).

Passados poucos meses, porém, Calígula não titubeou em se livrar de seu primo Gemellus, o neto de Tibério que, com ele, havia recebido em testamento o Império. Na verdade, um dos primeiros atos de Calígula após a sua aclamação oficial havia sido conseguir do Senado a anulação do testamento de Tibério no que se refere à posição de co-herdeiro de Gemellus. Porém, antes que o ano terminasse, Gemellus seria executado sumariamente à mando de Calígula.

As fontes narram que, antes disso, Calígula, em outubro de 37 D.C, ficou seriamente doente, e que foi somente após recuperar-se desta enfermidade que ele começou a praticar os reiterados atos de tirania, crueldade, devassidão e loucura pelos quais tornaria célebre (Suetônio, contudo, aponta que Calígula já demonstrava sua má índole quando adolescente). Infelizmente, os textos antigos não fornecem detalhes precisos sobre a misteriosa doença dele que possam nos dar alguma pista da sua real natureza –  isto é, se tratava-se uma doença infecciosa, congênita, física ou mental.

Gastos exorbitantes e deterioração na situação econômica

Um fato que parece incontestável acerca do reinado de Calígula é a rapidez com que a situação financeira do Império se deteriorou. Com efeito, são várias as afirmações nas fontes de que Tibério havia deixado um gigantesco superávit no Tesouro do Estado, apontando-se até a soma precisa de 2,7 bilhões de sestércios, e, portanto, parece certo que o problema fiscal foi causado pela política (ou falta de) determinada por Calígula. A desorganização econômica acarretou, ainda, episódios, relatados pelas fontes, da ocorrência de fome entre a população, algo que não ocorria há tempos.

Com feito, ,as fontes mencionam vários gastos desmedidos ordenados por Calígula:

Relata-se, por exemplo, que ele ordenou a construção de uma ponte flutuante de mais de 4 km entre Baiae e Puteoli, apenas para contrariar uma profecia. Uma outra despesa enorme descrita por Suetônio foi a construção de dois enormes navios, para serem usados como templo e palácio. Esses barcos, que tinham mais de 70 metros de comprimento, foram recuperados no Lago Nemi, durante o governo de Mussolini na Itália, e colocados em um museu especialmente construído. Infelizmente, durante a 2ª Guerra, os barcos foram destruídos. Recentemente, vale citar, foi restituído a Itália um pedaço do magnífico pavimento de mosaico da referida embarcação, retirado em data incerta do fundo do Lago, e que foi parar em um apartamento em Manhattan, Nova York, EUA, transformado em uma mesa de centro! (vide https://olhardigital.com.br/2021/12/06/ciencia-e-espaco/como-um-mosaico-do-lendario-imperador-romano-caligula-virou-tampo-de-mesa-em-ny/

De qualquer modo, a Arqueologia confirmou, mais uma vez, os relatos dos historiadores antigos.

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(Foto da escavação de um dos navios de Caligula, no Lago Nemi)

Política Externa

Não obstante, no front externo, Calígula reivindicou a realização de campanhas na Britânia e na Germânia, mas estas teriam, sido, na verdade, na opinião dos historiadores, apenas exercícios ou manobras militares, ou pior, segundo as fontes romanas (cf. Suetônio), uma encenação ridícula. Mas talvez seja provável que essas opiniões tenham exageradas, uma vez que, recentemente, descobriu-se, nas escavações de um forte romano na Holanda, chamado de Velsen-2, indícios de que Calígula pode ter estado realmente nesta região durante o seu reinado, e de que a referida fortificação foi efetivamente construída para viabilizar a invasão da Britânia e conter as tribos germânicas da outra margem do Reno.

Ilustração do Forte Romano em Velsen, extraída da matéria do The Guardian, conforme o link no parágrafo seguinte. Foto de Graham Sumner

A descoberta do forte cf. em https://www.theguardian.com/world/2021/dec/26/roman-fort-built-by-caligula-discovered-velsen-near-amsterdam.

Já a decisão de anexar a Mauritânia, um reino-cliente de Roma, foi tomada durante o reinado de Calígula, mas há dúvidas se a execução desta decisão ocorreu quando ele ainda estava vivo ou se foi deixada para o sucessor, Cláudio, que, assim, teria, em seu reinado, na verdade, continuado iniciativas tomadas pelo antecessor.

Desmandos, perversões e crueldades

Vamos aqui deixar a narrativa detalhada dos inúmeros assassinatos, atos de perversão sexual e gestos tresloucados de Calígula para quem se interessar em ler Suetônio. Entre os últimos, podemos citar o desejo manifesto dele nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano…

Aliás, o filme Calígula, de Bob Guccione, dono da Revista Penthouse, foi muito criticado por ser porno-erótico, mas a película não deixa de ser bem fiel ao relato de Suetônio (com a interpretação magistral de Malcolm Mcdowell no papel do imperador)…

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De qualquer forma, a personalidade cada vez mais instável de Calígula inviabilizou politicamente o seu governo. As fontes asseguram que ele efetivamente pensava ser um deus-vivo e exigia o culto que lhe achava devido. O judeu alexandrino Filão deixou um precioso relato da embaixada que ele fez à Roma, onde encontrou pessoalmente Calígula, com o objetivo de tentar demovê-lo do propósito de instalar uma estátua de si mesmo no interior do Templo de Jerusalém. Filão descreve em seu texto que percebeu que o imperador ficava muito agitado em alguns momentos, e ele saiu do encontro com a impressão de que Calígula acreditava que realmente era um ser divino.

Calígula era louco?

Entre os autores antigos há certo consenso de que Calígula era louco, mas, hoje em dia, muitos autores modernos lançam suspeitas sobre esses relatos, atribuindo o tom negativo a uma certa antipatia e animosidade política dos escritores romanos, todos integrantes da classe senatorial, que se julgava preterida e perseguida pelos Césares.

Porém, eu acredito que Calígula era insano mesmo, embora não possamos identificar com precisão que tipo de distúrbio psicológico ele sofria. É quase certo que as provações pelas quais passou na infância e adolescência, como, por exemplo, ter visto a mãe e os irmãos morrerem assassinados e o medo incessante de ser executado por Tibério ou por Sejano, tudo isto deve ter deixado marcas profundas em sua mente e pode ter gerado transtornos de personalidade. Por exemplo, Suetônio narra que Calígula conversava com as estátuas dos deuses, não conseguia dormir à noite e vagava como uma alma penada pelo Palácio. É bem possível, portanto, que ele sofresse de esquizofrenia paranóide.

Dessa forma, ao contrário de outros imperadores que se destacaram pelo comportamento tirânico e bizarro, como Nero, que reinou 14 anos, Domiciano, que reinou 15 anos, e Cômodo, que reinou 13 anos, Calígula, apesar do prestígio quase sacrossanto de sua linhagem entre o Povo e o Exército, foi assassinado antes de completar o quarto ano de seu reinado!

A conspiração

Quando Calígula manifestou a intenção de se mudar para Alexandria, onde poderia ser adorado como Deus, muitos romanos influentes perceberam que havia chegado a hora de se livrar do lunático imperador…

A elite política romana estava farta das insanidades de Calígula. Talvez ela até aguentasse as excentricidades e bizarrices se tais comportamentos não comprometessem a deferência e os privilégios aos quais os senadores se julgavam merecedores, mas esse definitivamente não era o caso, já que Calígula não titubeava em tratar os senadores como súditos e submeter-lhes a inúmeras humilhações.

Assim, somos da opinião de que quando os senadores perceberam que Calígula também não era benquisto por um bom número de seus próprios guarda-costas, a conspiração para se livrarem do perturbado imperador ganhou corpo, e foi posta em prática no dia 24 de janeiro de 41 D.C.,  por elementos da Guarda Pretoriana, como relatamos no início do nosso texto.

Contudo, se os conspiradores alguma vez de fato tiveram alguma esperança de restaurar a República, a realidade tratou de sepultar imediatamente suas aspirações, pois a própria Guarda apresentou ao Senado, o tio de Calígula, Cláudio, como sucessor, demonstrando que, após mais de setenta anos de governo de Augusto e de seus sucessores Júlio-Cláudios haviam colocado a ideia de um regime de uma República governada pelo Senado definitivamente nos livros de História.

FIM

PROBO – IMPERADOR-SOLDADO DA ILÍRIA

Probus_Musei_Capitolini_MC493(Cabeça de Probo)

Em 19 de agosto de 232 D.C., nasceu, na cidade de Sirmium (atual Sremska Mitrovica, na Vojvodina, Sérvia), que, então, ficava na província romana da Panônia Inferior, Marcus Aurelius Probus (Probo), filho de um certo Dalmatius, que seria um simples jardineiro, ou hortelão .

Há uma versão alternativa, segundo a História Augusta, de que o pai de Probo, se chamava Maximus, um comandante que, após deixar o exército, foi morar no Egito com a família. Porém, é quase certo que aqui a História Augusta faz confusão com Tenagino Probus, que foi governador da Numídia e do Egito durante os reinados dos imperadores Cláudio Gótico e Aureliano. Note-se que as inscrições encontradas mencionando Tenagino Probus tornam cronologicamente improvável (embora não impossível), que este  tenha sido o pai de Marco Aurélio Probo (a quem, aliás, a História Augusta também atribui erroneamente alguns feitos de Tenagino Probus, que ocorreram nas referidas províncias).

De qualquer modo, sabe-se que a região da Ilíria, na segunda metade do século III D.C., era o esteio militar do Império Romano (efetivamente, dez imperadores romanos nasceram em Sirmium, quase todos eles militares de carreira). Assim, como tantos de seus compatriotas, Probo entrou no Exército Romano no início da década de 250 D.C.

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(Elmo romano do início do século IV, do tipo “Berkasovo”, assim chamado porque foi achado na cidade do mesmo nome, próxima a Sirmium)

Durante os reinados dos imperadores da dinastia dos Severos, tudo indica que o excesso de privilégios e benesses dados aos soldados comprometeu a disciplina do Exército, justamente quando o ressurgimento do poder persa no Oriente, sob a dinastia dos Sassânidas, começava a colocar Roma no desafio estratégico de enfrentar conflitos em três fronts, já que as fronteiras ocidentais dos rios Reno e Danúbio começavam a ser pressionadas pelo deslocamento de povos germânicos.

Foi de fato um período de frequentes rebeliões e assassinatos de imperadores, muitos, diga-se de passagem, incompetentes para enfrentar aqueles desafios, seguindo-se, assim, repetidas derrotas para os Persas e Germânicos, no período de 238/260 D.C, sendo as mais dignas de nota as catastróficas derrotas na Batalha de Abritus, em 251 D.C., para os Godos, com a morte do imperador Trajano Décio no campo de batalha, onde ocorreu a provável perda de todo o tesouro imperial, e a humilhante captura do imperador Valeriano pelos Persas, em 260 D.C.

Naghsh-e_rostam,_Irán,_2016-09-24,_DD_12.jpg(Relevo do Imperador Sapor I capturando Valeriano, na necrópole persa de Naqsh-e Rustam, foto de Diego Delso)

Enquanto isso, a Gália, o norte da Itália, a Ilíria, a Trácia e a Grécia, entre outras províncias, eram devastadas por invasões bárbaras. Foi nesse contexto dramático que os soldados provenientes da Ilíria foram recrutados e progrediram no Exército Romano, como foram os casos de Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, todos eles Ilírios nativos de Sirmium (Obs: há uma certa dúvida quanto a Cláudio Gótico, que pode também ter nascido em Naissus, na Dardânia, mas com certeza ele era Ilírio).

Todos os três imperadores supracitados serviram durante o reinado do imperador Galieno, o filho e sucessor de Valeriano (260-268 D.C.), sendo que Cláudio Gótico chegou a comandante dos Comitatenses, a cavalaria de elite que Galieno criou (hipparchos).  Por sua vez, Probo, apesar de ser bem mais jovem que os outros dois, chegou a ser mencionado em cartas dos referidos imperadores como sendo responsável por várias façanhas militares, motivo pelo qual ele foi promovido a Tribuno, segundo a História Augusta, .

Gallienus_monochrome(Busto de Galieno)

Apesar dos esforços de Galieno, que venceu algumas batalhas contra os bárbaros, a caótica situação militar entre 251 e 260 D.C., acabou acarretando a secessão da província da Gália, que se autoproclamou “Império Gaulês”, e, posteriormente, a perda da província da Síria que passou a fazer parte do chamado “Império de Palmira”. Estas secessões foram, de fato, um acontecimento devastador, pois a Gália e a Síria eram, juntamente com o Egito, as duas províncias mais ricas do Império. Porém, ao contrário do que possa parecer, a separação destas duas províncias ocorreu muito mais em função da incapacidade de Roma defendê-las dos bárbaros e dos Persas, do que devido a algum sentimento nacionalista anti-romano.

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A gravidade da situação, como não poderia deixar de ser, minou a reputação de Galieno, que acabou sendo assassinado, em 268 D.C., em mais uma conspiração perpetrada pela Guarda Pretoriana, mas que muito provavelmente teve a participação de Cláudio Gótico, que foi proclamado imperador, e de Aureliano, que foi nomeado Comandante da Cavalaria.  Havia chegado, portanto, a vez dos soldados ilírios governarem o Império. Se a História Augusta está correta,com a chegada dos seus dois compatriotas ao poder, Probo foi nomeado comandante de uma legião.

Cláudio Gótico obteve importante vitórias contra os Alamanos e esmagou os Godos, porém, em 270 D.C., ele morreu vítima da Peste que grassava no Império, sendo sucedido por Aureliano, que, sucessivamente,  conseguiu derrotar o Império Gaulês e Palmira e recuperar a Gália e a Síria, reunificando o Império Romano, motivo pelo qual recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo(Restitutor Orbis).

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(Moeda romana. Aureliano “restitui” o mundo (orbis) à deusa Roma”)

Aureliano, apesar desses sucessos retumbantes, acabou sendo assassinado pelas próprias tropas em 275 D.C, segundo consta, pelo motivo dele ser muito severo com os soldados. Então, o Senado Romano, em um arranjo que talvez emulasse o que ocorreu com Nerva, quase dois séculos antes, escolheu, em 25 de setembro daquele ano, o velho senador Tácito, de 75 anos de idade, como novo imperador. Aliás, esta seria a última vez que o Senado elegeria um imperador romano por iniciativa própria.

Tácito (não confundir com o historiador homônimo), segundo consta, teria nomeado Probo, “governador do Oriente”. Em seguida, o referido imperador, apesar de sua já provecta idade, partiu para enfrentar, com sucesso, os mercenários hérulos que devastavam as províncias orientais, acompanhado de seu meio-irmão, Floriano. Todavia, enquanto retornava para lutar contra uma invasão dos Francos e Alamanos, Tácito contraiu uma febre e morreu, em junho de 276 D.C, (vale citar que, segundo uma versão menos aceita, do historiador Zózimo, a morte de Tácito teria sido por assassinato).

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(Busto de Tácito,  Photo © Roby 9 janvier 2005)

Quando a notícia da morte de Tácito circulou, as tropas de Probo o aclamaram imperador, o mesmo ocorrendo com Floriano, que foi reconhecido no Ocidente, mas não no Oriente, que somente apoiou Probo. Assim, os dois imperadores rumaram para decidir a sucessão em uma batalha, perto de Tarso, na atual Turquia. Floriano até tinha superioridade numérica, mas as suas tropas não estavam acostumadas ao calor que fazia na região. Probo, cautelosamente, evitou um engajamento e o relato é de que as tropas de Floriano, impacientes com o sol inclemente, assassinaram o seu imperador, em setembro de 276 D.C. O motivo mais provável, contudo, é que as tropas, certamente compostas por muitos Ilírios, devem ter preferido tomar partido de um compatriota oriundo, como eles, da caserna.

Com o seu trono agora inconteste, uma das primeiras medidas de Probo foi punir os assassinos de Aureliano e de Tácito que ainda estavam impunes.

probus 6nxAX9s9e57GSp38LM3c5gaRw4YE2b.jpgImediatamente após sua ascensão, Probo teve que se deslocar para o Ocidente para enfrentar uma invasão dos Godos na Ilíria, os quais ele derrotou, recebendo o titulo de Gothicus Maximus, em 277 D.C. Nessa altura, Probo já tinha sido reconhecido pelo Senado. Depois disso, Probo rumou para a Gália, onde, em 278 DC., ele obrigou os bárbaros Francos, Longiones e Alamanos a cruzarem de volta o Reno (feito pelo qual ganhou o título de Germanicus Maximus), capturando Semnon, chefe dos Longiones, e o filho deste, que foram poupados. Finalmente, Probo derrotou os Burgúndios, capturando um grande número deles, que foram incorporados ao exército romano.

Probo_-_Foto_Giovanni_Dall'Orto,_25_Giu_2011(Cabeça de uma estátua dourada de Probo, foto de Giovanni Dall’Orto)

Com a derrota dos bárbaros na fronteira renana, Probo adotou a estratégia de construir alguns fortes na margem oriental do rio, nos pontos em que o mesmo podia ser cruzado, além de depósitos de suprimentos.

Em seguida, Probo conseguiu pacificar a província da Récia e, após, ele voltou para a Ilíria, agora para reprimir uma invasão dos Vândalos, em 279 D.C. A persistência dessas invasões mostra que, provavelmente, nenhuma dessas vitórias foi conclusiva, ou, então, que tais incursões bárbaras não eram massivas. Não obstante, esses sucessos mostraram que o Império recuperara a capacidade de defender as fronteiras.

Com a estabilização da situação na Gália e no Danúbio, Probo adotou a benéfica política de utilizar o exército parar plantar vinhedos na Gália e na Panônia, o que era, sem dúvida uma medida inteligente, tendo em vista a devastação que essas províncias tinham sofrido nos últimos 20 anos, causando sua decadência econômica. Nas províncias mais despovoadas pelas seguidas invasões, Probo decidiu assentar algumas das tribos germânicas pacificadas, política que, entretanto, apresentava alguns riscos à segurança do império.

É interessante observar que, dentre os lugares nos quais Probo ordenou que fossem plantados os vinhedos, está a região do antigo Monte Alba, próximo à cidade natal de Probo, Sirmium, onde, segundo a História Augusta, o imperador plantou o primeiro vinhedo com as próprias mãos, sendo que esta região é conhecida atualmente como as montanhas Fruska-Gora, na região sérvia da Vojvodina, e ainda hoje constitui uma conceituada região vinícola!

fruska-vino222.jpg(A região vinícola de Fuska-Gora, onde Probo ordenou o plantio de vinhedos)

Em 280 D.C., Probo enviou os seus generais para comandar uma campanha contra os Blemmyes, um reino tribal de populações da etnia Beja, que viviam na antiga Núbia, correspondendo à região onde hoje é o Sudão, e que vinham atacando a província romana do Egito.

Derrotados os Blemmyes, Probo, seguindo a política de recuperação econômica que adotara no Ocidente, determinou ao Exército a reconstrução de diques, de canais de irrigação e de pontes ao longo do Nilo, medidas que eram relevantes para estimular a produção agrícola de uma província que era a grande fonte de cereais para a Itália.

Lamentavelmente, a praga das rebeliões militares não deixava de assolar o Império e, entre 280 D.C. e 281 D.C., Probo teve que enfrentar as revoltas dos usurpadores Júlio Saturnino, na Síria, e de Próculo e Bonosus, em Lugdunum (atual Lyon) e Colônia, nas províncias da Gália e na Germânia, os quais se declararam co-imperadores. Logo Saturnino acabou sendo morto pelos seus próprios soldados. Já a revolta dos dois últimos citados é um tanto obscura, e tanto pode ter sido fruto de algum resquício do “Império Gaulês”; ou talvez fruto de alguma insatisfação mais generalizada, já que inscrições com o nome de Probo também foram apagadas na Hispânia, na mesma época. Vale citar que Próculo tinha ligações com os Francos. Por sua vez, Bonosus, consta, teria se revoltado por medo de ser punido pelo incêndio da flotilha romana do Reno, pelos bárbaros germanos. O fato é que ambas as rebeliões foram derrotadas, sendo Próculo executado após ser entregue a Probo pelos seus aliados Francos, para onde ele fugira após a chegada do exército do imperador. E Bonosus, se matou após perder o combate com as tropas imperiais. Probo, dando uma prova do seu temperamento moderado, poupou as famílias dos usurpadores.

Somente em 281 D.C., Probo conseguiu celebrar em Roma o seu merecido Triunfo pelas vitórias contra os bárbaros. Nessa estadia na capital, ele aproveitou para completar as imponentes muralhas iniciadas por seu antecessor Aureliano (e que por isso são chamadas de Muralhas Aurelianas, as quais ainda existem).

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Segundo a História Augusta, Probo tentou devolver alguns privilégios ao Senado Romano, como o de ser a instância máxima para julgar as apelações das decisões dos tribunais superiores, o de designar os Procônsules e os Legados dos Procônsules e o de conferir aos governadores as prerrogativas e os poderes dos Pretores. Isso é considerado duvidoso por alguns historiadores, mas, se for verdade, pode bem ser uma das causas da crescente insatisfação do Exército, que havia se tornado a principal instância de poder.

Em 282 D.C., Probo partiu para a sua cidade natal de Sirmium, que, segundo parece, iria servir como ponto de partida para uma futura campanha contra a Pérsia. Há o relato de que ele teria, mais uma vez, determinado aos soldados que trabalhassem em obras públicas para o benefício da província, fato que acabou causando uma rebelião. Acuado, Probo teve que se refugiar em uma fortificação chamada de “Torre de Ferro”, onde ele acabou sendo morto. Em outra versão, de acordo com o relato de Zózimo,  o qual muitos estudiosos acham mais crível, as tropas proclamaram imperador Marco Numério Caro (Caro), o Prefeito Pretoriano de Probo, ocasião em que o contingente enviado por Probo para reprimir o levante aderiu à revolta, e os próprios soldados remanescentes de Probo mataram o imperador, em setembro de 282 D.C.

CONCLUSÃO

Os combativos imperadores-ilírios Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, no período entre 268 D.C e 282 D.C contribuíram decisivamente para conter as ameaças dos Germanos e dos Persas, nos fronts ocidental e oriental do Império Romano. Contudo, persistiram os graves problemas da instabilidade política e econômica e da insubordinação militar a comprometerem a sobrevivência do Império, problemas que seriam mais bem enfrentados pelos seus sucessores Ilírios, Diocleciano e Constantino.

CLEÓPATRA – RAINHA DE REIS

A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados. Apenas escutar o som da voz dela já era um prazer, e a sua língua, como se fosse um instrumento de muitas cordas, podia passar de um idioma para outro, conforme ela desejasse, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete, respondendo-lhes pessoalmente e sem auxílio.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,2

Genealogia, infância e juventude

Kleopatra VII Thea Philopator (Cleópatra) nasceu no início do ano de 69 A.C., em Alexandria, a capital do Egito. Ela era filha do faraó Ptolomeu XII Auletes e, provavelmente, não se tem uma certeza exata, da rainha Cleópatra V Triphaena. Kleopatra quer dizer, em grego: “A glória do pai“, e  “Thea Philopator ” significa: “Deusa que ama o pai“.

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Busto de Cleopatra VII – Altes Museum – Berlin – Germany 2017.jpg

Cleópatra e sua família eram descendentes diretos do nobre macedônio Ptolomeu,  um general que foi um dos auxiliares mais próximos do rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.

(Busto de Ptolomeu I Soter, foto de Marie-Lan Nguyen )

Quando Alexandre morreu, em 323 A.C, os generais mais próximos de Alexandre estabeleceram-se, inicialmente, como “sátrapas” (governadores) das terras que tinham sido anexadas pelo rei macedônio, e a Ptolomeu coube governar o Egito. Em 305 A.C., Ptolomeu, da mesma forma que os outros sátrapas, após uma série de conflitos entre os sátrapas e diversos pretendentes à sucessão de Alexandre, denominada de Guerra dos Diádocos, autoproclamou-se rei do Egito, com o nome de Ptolomeu I Soter.

Mapa dos territórios controlados pelos sucessores de Alexandre, foto Fabienkhan, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

No Egito, os sucessores e descendentes de Ptolomeu rapidamente assumiram os títulos e ornamentos milenares dos faraós, e, para se legitimarem perante os súditos nativos, adotaram também muitos dos costumes da realeza nativa, entre os quais estavam os casamentos endogâmicos, entre irmão e irmã, que tinham o objetivo de preservar o caráter divino da linhagem sanguínea dos faraós.

Ptolomeu XII Auletes, pai de Cleópatra, retratado em um relevo no templo de Kom Ombo, foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

Por outro lado, culturalmente e em suas relações com o mundo mediterrâneo, a corte ptolomaica reconhecia a si mesma e comportava-se como os outros reinos helenísticos surgidos a partir do falecimento de Alexandre, o Grande. A língua da corte era o grego koine e em Alexandria foram erguidos templos, monumentos e palácios em estilo arquitetônico clássico. Entretanto, os ptolomaicos continuaram construindo templos e monumentos no estilo egípcio, inclusive ostentando inscrições em hieróglifos e participando do culto às divindades egípcias tradicionais.

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Farol de Alexadnria, por Stella maris, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O Egito Ptolomaico experimentou tempos prósperos e chegou mesmo a ser um reino muito poderoso; porém, quando Cleópatra nasceu, o país estava em franca decadência política, em boa parte devido a disputas sucessórias e incompetência dos governantes, tornando-se praticamente um protetorado da grande potência do mundo mediterrâneo, Roma, que vinha paulatinamente anexando todos os reinos helenísticos. Na verdade, então, o único estado digno de nota no Mediterrâneo, além da República Romana, era o Egito, que, apesar de conflagrado e desorganizado, era bastante rico, graças aos abundantes excedentes de trigo gerados produzidos pela fertilidade oriunda do ciclo das enchentes do rio Nilo e ao comércio com a Índia.

Cleópatra recebeu uma educação clássica esmerada. O seu tutor foi Philostratos, provavelmente um filósofo, com o qual aprendeu Filosofia e Oratória. De fato, desde ja infância, a jovem princesa deve ter demonstrado uma notável inteligência, pois ela aprendeu a falar nove línguas: grego, egípcio, latim, persa, etíope (amárico), aramaico, siríaco, troglodita e a língua dos Medos. Segundo nos conta o historiador antigo Plutarco:

“Era um prazer somente escutar o som da voz dela, com a qual, como se fosse um instrumento de muitas cordas, ela podia passar de uma língua para outra, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete para responder.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,3

O reinado do pai de Cleópatra foi marcado pelo aumento da dependência política e econômica do Egito para com Roma. Muitas dívidas foram contraídas junto aos banqueiros romanos e o Senado Romano chegou a cogitar a anexação do reino, acarretando que humilhantes concessões aos romanos tivessem que ser feitas. Obviamente, que isso desagradou à população egípcia e aos influentes sacerdotes.

Assim, em 58 A.C., as tensões políticas internas do Egito levaram a uma revolta popular que resultou no exílio de Ptolomeu XII, após a anexação da ilha de Chipre, que era domínio ptolemaico, pelos romanos. O faraó acabou indo morar na Villa do triúnviro Pompeu, na colinas albanas, próximo à cidade de Roma, levando consigo a sua filha Cleópatra, que tinha onze anos de idade (os dois filhos homens de  Ptolomeu XII: Ptolomeu XIII Theos Philopator e Ptolomeu XIV, ainda tinham somente quatro e dois anos de idade).

Contudo, o levante nacionalista, que colocou como governante do Egito a irmã mais velha de Cleópatra, Berenice IV, em conjunto com rainha Cleópatra VI Triphaena, (que não se tem certeza se era outra irmã das duas ou a esposa de Ptolomeu XII), teria vida curta. Os banqueiros romanos,  grandes credores de Ptolomeu XII, tinham todo interesse em sua restauração. Assim, Pompeu ofereceu uma grande soma em dinheiro ao governador romano da Síria, Aulus Gabinius, para ele invadir o Egito e recolocar Ptolomeu XII  no trono.

No início de 55 A.C., Gabinius invadiu o Egito e Ptolomeu XII e Cleópatra acompanharam a expedição. Entre os oficiais de Gabinius, estava o jovem Marco Antônio, que inclusive impediu um massacre de civis na cidade greco-egípcia de Pelousium. Anos mais tarde, Marco Antônio contaria que foi durante a invasão que ele conheceu, e se apaixonou, pela jovem princesa egípcia de apenas 14 anos de idade…

Em pouco tempo, apoiado pela vitoriosa expedição, Ptolomeu XII já reinava de novo sobre o Egito. Ele executou a sua filha Berenice IV e vários de seus apoiadores, apoiado por dois mil soldados e mercenários romanos, que foram apelidados de “Gabinianos“. Percebendo a aptidão de Cleópatra para governar, e provavelmente já percebendo os primeiros sinais de doença, Ptolomeu XII, em 31 de maio de 52 A.C, a nomeou Regente do Egito, como atesta uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera.

Rainha do Egito

Nos primeiros meses de 51 A.C., Ptolomeu XII morreu, nomeando como herdeiros e sucessores, em seu testamento, a sua filha Cleópatra e o seu filho Ptolomeu XIII, que deveriam reinar em conjunto. Para serem os executores deste testamento, Ptolomeu encarregou, expressamente, o  “Senado e Povo Romanos”…

Rainha aos dezoito anos de idade, Cléopatra casou-se, como impunha o costume real egípcio, com seu irmão e agora colega Ptolomeu XIII, que tinha somente doze anos. Ele foi reconhecido oficialmente como governante, mas, na prática, quem atuava como o seu regente era o eunuco Pothinus (ou Potheinos).

(Dracma de Cléopatra VII. Podemos ver  nesta moeda, que foi cunhada no reinado dela, todos os elementos convencionais da iconografia da rainha: O diadema real dos Ptolomeus, o cabelo fatiado no estilo “melão”, o coque, o nariz ligeiramente aquilino ou adunco e o queixo proeminente Foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

O fato é que, sendo mais velha e muito mais preparada do que o irmão, Cléopatra governava como se fosse a única soberana. A partir de agosto de 51 A.C, ela começou a cunhar moedas apenas com a sua efígie como rainha, e os documentos oficiais não mencionavam mais Ptolomeu XIII. A situação econômica, porém, continuava difícil, pois ela herdara a grande dívida que o pai contraíra junto aos romanos.

Pothinus e outros conselheiros de Ptolomeu XIII persuadiram-no a reagir contra a predominância da irmã no reino. Eles urdiram uma conspiração que foi bem sucedida e que foi ganhando o apoio de pessoas importantes, pois tudo indica que, antes do final de 50 A.C., Ptolomeu passou a controlar o governo, já que os documentos oficiais, a partir de então, ostentam o nome dele antes do nome da irmã.

Havia uma guerra surda não-declarada dentro de Alexandria entre as cortes de Ptolomeu XIII e Cleópatra quando, no verão de 49 A.C., chegou à cidade Gnaeus Pompeius, o filho de Pompeu, o Grande, que tinha sido obrigado a fugir para a Grécia após Júlio César invadir a Itália e tomar Roma, dando início à Grande Guerra Civil. Pompeu pedia ao Egito auxílio financeiro e tropas para ajudar as forças leais aos Optimates na guerra contra César e os Populares.

Cleópatra e Ptolomeu XIII concordaram e assinaram um último decreto conjunto enviando a Pompeu 60 navios de guerra e 500 soldados egípcios, além dos Gabinianos“.

Deposição e  luta pelo poder

Nesse meio tempo, os partidários de Ptolomeu conseguiram prevalecer sobre a facção que apoiava Cleópatra e ela foi obrigada a fugir do palácio, indo se refugiar em Tebas, mais ao sul, subindo o Nilo.

Agora, o Egito também estava vivendo uma guerra civil aberta. Assim, Cleópatra, acompanhada de sua meia-irmã Arsinoe IV, viajou para a Síria, e lá ela conseguiu reunir um exército para tentar recuperar Alexandria, porém, o avanço do seu exército foi barrado nas cercanias de Pelousium.

Em 9 de agosto de 48 A.C.,  Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsália, e, com o remanescente de seu exército, ele fugiu para a cidade de Tiro, no atual Líbano. Lá, Pompeu decidiu que valia a pena ele viajar até o Egito, tendo em vista as boas relações que ele sempre manteve com Ptolomeu XII, pai dos atuais governantes do país, os quais, inclusive, haviam atendido o seu pedido anterior de ajuda, e onde ele esperava obter um valioso apoio para continuar a luta contra César.

Quando o navio de Pompeu chegou próximo a Pelousium, ele foi abordado por galeras da frota egípcia, que aderira a Ptolomeu XIII. O jovem rei foi aconselhado por Pothinus a não ajudar Pompeu, e, em uma armadilha idealizada pelo seu auxiliar Theodotus, Pompeu foi atraído para desembarcar e morto no próprio bote em que ele estava sendo transportado, tendo a sua cabeça sido cortada, fato ocorrido em 29 de setembro de 48 A.C.. Este assassinato ocorreu porque Ptolomeu e Pothinus acreditavam que, assim, eles estariam agradando a César, o qual poderia seria ser simpático à causa do primeiro na disputa contra a irmã.

Porém, ao contrário do que os egípcios esperavam, César ficou consternado e enfurecido com o assassinato de Pompeu. Além da afronta que representava o assassinato de um cônsul ao prestígio romano, ele certamente pretendia utilizara captura de Pompeu politicamente, talvez perdoando-o, como era do seu costume, para angariar simpatia perante a opinião pública. Assim, César ordenou que Ptolomeu XIII e Cleópatra desmobilizassem os seus exércitos e fossem encontrá-lo em Alexandria, onde ele resolveria a disputa entre os irmãos à luz dos interesses de Roma.

Julius Caesar Aghast at Soldier Holding Pompey's Head
1820 — Theodatus, the rhetorician, shows Caesar the head of Pompey. Etching, 1820. — Image by © Bettmann/CORBIS

Todavia, Ptolomeu XIII não obedeceu a ordem de César e chegou a Alexandria à testa de seu exército, que ficou acampado nas cercanias da cidade, enquanto ele e seus auxiliares mais diretos, instalados na mesma,  aguardavam a audiência como o líder romano.  Já César ficou  instalado no palácio real, situado em uma península.

Amante de Júlio César, restauração do trono e maternidade

Para a surpresa de Ptolomeu XIII, a sua irmã/esposa e rival dele conseguiu furar o cerco que o exército dele fazia à cidade e penetrar no palácio, chegando até os aposentos de César. A ser verdadeiro o célebre relato de Plutarco, foi uma aparição espetacular: Cleópatra entrou no palácio escondida dentro de um tapete enrolado, que estava sendo levado como presente para César!

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Cleópatra ante César, óleo de Jean-Léon Gérôme, 1866, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Acho altamente provável que, já naquela noite, César tenha dormido com Cleópatra, conforme o relato de Plutarco deixa transparecer. Ela tinha entre 20 e 21 anos e era bonita, inteligente e sedutora. Ele tinha 52 e era famoso por ter casos com mulheres ilustres, incluindo algumas rainhas. E é até possível que César tenha sido o primeiro homem na vida de Cleópatra. Ela certamente não deve ter tido relações sexuais com o irmão bem mais novo.

(Busto de Tusculum, considerado o único que foi feito enquanto César era vivo, por volta dos 50 anos de idade, mostrando a aparência que ele deveria ter quando conheceu Cleópatra, Museum of antiquities, Public domain, via Wikimedia Commons)

A versão do historiador romano Dião Cássio, embora um pouco diferente nos detalhes, e sem mencionar a rocambolesca entrada em um tapete, é no mesmo sentido:

“Cleópatra, ao que parece, tinha, inicialmente, exposto a César o seu pleito contra o irmão por meio de emissários, porém, assim que ela descobriu as inclinações dele (que era muito suscetível, a tal ponto de ter tido casos com tantas outras mulheres –  indubitavelmente, com todas que por acaso tivessem passado pelo seu caminho), ela o avisou de que estava sendo traída pelos amigos dela, e pediu permissão para defender a sua causa em pessoa. Pois ela era uma mulher de beleza transcendente, e, naquela época, quando ela estava na flor da sua idade, ela estava ainda mais impactante; ela também possuía uma voz muito charmosa, e sabia como se fazer ainda mais agradável a todos. Sendo deslumbrante tanto para ser vista como para ser ouvida, e com o poder de conquistar a qualquer um, e até mesmo um homem saciado de amor que já tinha ultrapassado o auge da idade, ela achou que era o seu papel encontrar César e escorar em sua beleza todas as suas reivindicações ao trono. Ela, consequentemente, pediu para ser admitida à presença dele, e, obtendo essa permissão, ela se enfeitou e se arrumou de modo a aparecer perante ele com a aparência mais majestosa, e, ao mesmo tempo, inspiradora de pena. Quando ela aprontou esse esquema, ela entrou na cidade (pois ela estava vivendo fora dela) e, à noite, sem o conhecimento de Ptolomeu, entrou no Palácio. César, ao vê-la e ouvi-la dizer algumas palavras,  imediatamente ficou tão cativado por ela que, antes da alvorada, mandou buscar Ptolomeu e tentou reconciliá-los, agindo assim como advogado daquela mesma mulher da qual ele tinha decidido ser o juiz.”

Cássio Dião, História de Roma, Livro LII, 34, 4 – 35, 1

Furiosos com a intimidade que agora César e Cleópatra demonstravam ter, há até quem diga que ele, ao chegar no palácio para falar com César, encontrou a irmã no quarto do romano,  Ptolomeu XIII e  os seus partidários resolveram partir para o confronto direto com o futuro Ditador romano. Eles correram até a multidão, denunciando que Cleópatra iria entregar o Egito aos romanos e a turba, revoltada, cercou o palácio. Entretanto, embora César tivesse entrado em Alexandria com poucas soldados, o número era suficiente para conter a multidão e ele não se abalou: o líder romano mandou ler em público o testamento de Ptolomeu XII e afirmou que a vontade do falecido rei seria respeitada, devendo Ptolomeu XIII e Cleópatra governarem o Egito juntos.

O eunuco Potheinus não se conformou com a decisão de César e secretamente mandou uma mensagem para o general egípcio Achillas, o assassino de Pompeu e comandante militar de Ptolomeu XIII, instando-o a ordenar um ataque aos romanos em Alexandria. Ele estava confiante que César, contando com apenas quatro mil soldados, não conseguiria resistir ao exército do faraó, que era muito maior, de cerca de vinte mil homens. Mas, após o envio do recado, o ardil de Pothinus foi descoberto e ele acabou sendo executado por ordem de César. Diante da situação, o líder romano até tentou negociar um acordo com Achillas, mas este executou os emissários romanos, e, em seguida, marchou contra Alexandria, sitiando César e Cleópatra no palácio.

Arsinoe IV, a jovem e ambiciosa irmã de Cleópatra,  que tinha  entre cerca de 15 ou 20 anos de idade (não se sabe exatamente quando ela nasceu), aproveitou para fugir do palácio, auxiliada pelo eunuco Ganymedes, e se juntou a Achillas, proclamando-se rainha do Egito, já que o seu irmão Ptolomeu XIII encontrava-se sob a custódia de César. Em seguida, Arsinoe ordenou a execução de Achillas e nomeou Ganymedes no lugar dele, como comandante do exército.

Em 23 de junho de 47 A.C., Cleópatra deu a luz a seu primeiro filho, que se chamou Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar. Ela anunciou que o menino, que receberia o apelido de Caesarion (Cesárion ou Cesarião), era fruto do seu relacionamento com Júlio César, que, aliás, nunca negou publicamente a paternidade, apesar de, igualmente, jamais ter reconhecido oficialmente a criança. A cronologia do nascimento de Caesarion, estimando-se que ele tenha nascido com 9 meses, aponta para uma concepção por volta de outubro de 48 A.C., mais ou menos a data em que deve ter ocorrido o primeiro encontro entre Júlio César e Cleópatra, ou, então, somente um punhado de dias depois.

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(Cabeça que se acredita retratar Caesarion como Faraó. Os traços faciais lembram muito os das imagens de Cleópatra; Sdwelch1031, CC0, via Wikimedia Commons

Com muita dificuldade, César conseguiu resistir ao cerco até que reforços chegassem, em março de 47 A.C. O exército egípcio, agora comandado por Arsinoe IV e Ptolomeu XIII, que tinha conseguido autorização de César para sair de Alexandria, para servir de negociador, recuou para o Nilo, onde foram derrotados por César, na chamada Batalha do Nilo. O barco de Ptolomeu XIII, na fuga, virou, e ele acabou se afogando no rio, em janeiro ou fevereiro de 47 A.C., morrendo com 15 anos de idade, aproximadamente. Arsinoe foi capturada e, mais tarde, seria exibida na procissão triunfal de César pelas ruas de Roma.

Em seguida, César designou o irmão mais novo de Cleópatra, Ptolomeu XIV, que tinha doze anos de idade, para reinar ao lado dela, como faraó, e, como previa o costume, irmão e irmã se casaram. Não obstante, Cleópatra e César continuaram morando juntos, no palácio, em Alexandria. Como presente, César também devolveu ao Egito o governo da ilha de Chipre, que tinha sido tomada pelos romanos em 58 A.C.

Se a posição de Cleópatra no Egito parecia assegurada., no entanto, a de César, na República Roman, certamente estava longe disso, pois ainda havia consideráveis forças dos Optimates na África e na Espanha, onde os seus adversários estavam firmes e resolutos no prosseguimento da guerra civil. Além disso, havia assuntos políticos urgentes a decidir em Roma, já que ele havia sido, recentemente, nomeado Ditador.

Por isso mesmo, até hoje é motivo de espanto entre os analistas o fato de César, deixando de lado a sua premente situação, ter ficado até abril de 47 A.C. no Egito, ou seja, mais de dois meses. E, segundo a narrativa de Suetônio, os amantes aproveitaram esse tempo para fazer um idílico cruzeiro romântico e turístico pelo Nilo, visitando os antigos monumentos da milenar civilização egípcia na barcaça real de Cleópatra, que se chamava Thalamegos e tinha remos de prata. Este inusitado interlúdio amoroso somente foi interrompido pelo fato dos soldados romanos que acompanhavam César terem se recusado a continuar até a Etiópia:

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem, e também ao marido, ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; Mas, acima de todas, com Cleópatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer, e com quem ele teria ido até a Etiópia, atravessando o Egito, na barcaça real dela, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele chamou-a para Roma, e não deixou-a ir até que ele a cobrisse de honrarias e de ricos presentes; E ele até permitiu que ela desse o seu nome à criança que ela carregava. De fato, de acordo com certos autores gregos, essa criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino, e que Gaius Matius, Gaius Oppius, e outros amigos de César, sabiam disso”.

Suetônio, Vida de Júlio César, 52, 1-2
Barcaça de Cleópatra, de Henri Pierre Picou, 1891, foto Internet Archive Book Images, No restrictions, via Wikimedia Commons
Detalhe do famoso mosaico romano retratando cenas do rio Nilo, no Museu Nacional de Palestrina, por amelia.boban, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Em abril de 47 A.C., César foi para a Capadócia lutar contra o rei Farnaces II, que havia se aproveitado da guerra civil romana para invadir a região e tentar retomar o antigo reino de seu pai, o Ponto, deixando no Egito quatro legiões para apoiar Cleópatra e vigiar eventuais ações contra os interesses romanos. Em 2 de agosto de 47 A.C., essa guerra na Ásia já estava terminada, com a vitória romana na Batalha de Zela. A campanha foi tão rápida, que levou César a dizer uma de suas frases célebres: “Veni, vidi, vinci” (Vim, vi e venci).

De fato, o tempo ocioso passado no Egito dera tempo às forças remanescentes do falecido Pompeu e do Senado de se reorganizarem na Áfric, obrigando César a ter que se deslocar para lá, mas, mesmo assim, ele conseguiu vencer as Batalhas de Ruspina, em 04 de janeiro de 46 A.C. e de Tapsos, em 6 de abril de 46 A.C., na qual foram eliminados seus grandes opositores, Catão, o Jovem, e Metelo Cipião.

A Guerra Civil  ainda não estava terminada, já que restava um importante foco de resistência na  Hispânia, centrado em Córdoba, que era liderado pelos filhos de Pompeu. Por sua vez,  nessa campanha, os exércitos de César  eram comandados pelos seus lugar-tenentes, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio. Não obstante, Cleópatra e César julgaram a situação suficientemente segura para que a rainha fizesse uma espetacular visita à Roma, no final de 46 A.C, acompanhada de Ptolomeu XIV, para assistirem ao Triunfo de César.

Cleópatra em Roma. Grandes esperanças e decepções.

Em Roma, Cleópatra foi recebida por César com toda a pompa que os monarcas helenísticos estavam acostumados a ter. Mas, para manter as aparências, uma vez que ele era casado com a sua esposa romana Calpúrnia, a rainha e o seu irmão-consorte ficaram hospedados nos Horti Caesaris, a propriedade com grandes jardins que o Ditador possuía do lado de fora das muralhas de Roma, às margens do rio Tibre. Lá, ela era visitada pelos mais ilustres membros da sociedade romana, incluindo Cícero, que se queixou da rainha egípcia em uma carta. a seu amigo Atticus. Nesta missiva, o célebre político e orador romano confessa que detestava Cleópatra, de quem não suportava a arrogância, e se queixa de que a rainha não teria cumprido uma promessa relativa a “assuntos literários” (talvez, quem sabe, algum livro raro da Biblioteca de Alexandria no qual Cícero estaria interessado?).

Dião Cássio afirma que essa recepção à Cleópatra comprometeu a imagem de César perante a opinião pública, o que tanto pode se referir apenas à classe senatorial, como à população em geral. Ciente, ou não disso, durante a estadia de Cleópatra e Ptolomeu, César providenciou para que eles recebessem o título de “Amigos e Aliados do Povo Romano“.

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Estátua de Cleópatra, no Museo Pio Clementino, parte dos chamados Musei Vaticani. A imagem possui o diadema real, o penteado “melão”, o nariz adunco e outros traços faciais correspondentes às de outros retratos identificados como o da rainha. É, indiscutivelmente, uma estátua de Cleópatra. Foto:.Vatican Museums, Public domain, via Wikimedia Commons

Em setembro de 46 A.C., César celebrou o seu grande triunfo pelas ruas de Roma, celebrando suas vitórias desde a Gália até o Egito, e que durou espantosos dez dias. Nessas procissões triunfais, foram exibidos, como cativos, o chefe gaulês Vercingetórix, e Arsinoe IV,  a irmã de Cleópatra. Porém, Dião Cássio menciona que a visão da jovem Arsinoe sendo levada acorrentada em um carro inspirou compaixão na multidão, que ficou com pena da menina de apenas 17 anos de idade (estimativa mais baixa). Essa inesperada reação do público forçou César a poupar a vida de Arsinoe, contrariamente á tradição de executar o líder inimigo cativo após o evento, e então ela foi enviada para residir no Templo de Artémis, em Éfeso, um tradicional santuário para perseguidos políticos e fugitivos da justiça.

No dia 26 de setembro, último dia de seu triunfo, César inaugurou o chamado Fórum de César, próximo ao Fórum Romano, cujo espaço já estava ficando insuficiente para abrigar o público. E dentro do Fórum de César foi erguido o Templo de Vênus Genitrix (Vênus Genitora), divindade que ele associava ao culto da sua  própria genealogia, pois os Júlios alegavam ser descendentes de Enéas, que, segundo a mitologia romana, era filho da deusa. E, no precinto do templo, César mandou colocar várias obras de arte, incluindo uma estátua de ouro de Cleópatra, caracterizada como se fosse a deusa egípcia Ísis.

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(Fórum de César, com o Templo de Vênus Genitrix, onde ficava a estátua de Cleópatra

Porém, no início de 45 A.C., Fábio Máximo e Quinto Pédio pediram a intervenção de César, pois eles estavam em situação difícil na Espanha, sitiados pelos exércitos dos Optimates, liderados por Cneu e Sexto Pompeu, além de Labieno, um general ex-partidário de César. Assim, César deixou Roma às pressas e foi para a Espanha. Não sabemos se Cleópatra e o irmão voltaram para o Egito, mas após derrotar definitivamente os adversários na Batalha de Munda, em 17 de março de 45 A.C., o último conflito da Guerra Civil, César retornou para Roma.

Em fevereiro de 44 A.C., na celebração do festival das Lupercais, Marco Antônio tentou, por 3 vezes, colocar um diadema de ouro na cabeça de César. O diadema era um tipo de coroa em forma de aro que simbolizava a realeza nos reinos helenísticos, como era o caso do Egito. Com efeito, Cleópatra, inclusive, assim como os seus antepassados ptolomaicos e os seus congêneres macedônios, selêucidas, atálidas, etc., era quase sempre retratada usando um diadema.

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Portanto, além de parecer uma óbvia manifestação de um projeto monárquico, seja de César ou de seus partidários, o gesto de Antônio, ao menos indiretamente, pode muito bem ter sido associado à relação de César com Cleópatra: Tencionariam ambos reinar sobre o mundo como um casal real? Seria aquela união uma repetição da política de Alexandre, o Grande, que costumava casar-se com as rainhas dos países que ele conquistava? Sintomaticamente, Cícero, que estava presente na ocasião, desconfiado, chegou a perguntar “de onde teria vindo aquele diadema”…

O fato é que o incidente com o diadema nas Lupercais sem dúvida desencadeou, ou ao menos apressou, a execução da conspiração para assassinar César.

Quando, em 15 de março de 44 A.C., César foi assassinado na Cúria de Pompeu, por um grupo 60 senadores, Cleópatra e seu filho Caesarion ainda estavam em Roma. E, certamente, no grande caos que se seguiu ao assassinato, a rainha egípcia deve ter temido pela segurança de ambos, mas, mesmo assim, ela ainda ficaria em Roma até meados de abril.

Teria sido esse período de aproximadamente um mês que Cleópatra ficou em Roma após o assassinato de César decorrente da sua esperança de que Caesarion obtivesse algo de grande monta no testamento do Ditador falecido? Quem sabe o esperado reconhecimento póstumo da paternidade do menino, ou, ao menos, quem sabe, algum grande legado. Porém, segundo as fontes, o testamento não continha nenhuma menção a Caesarion, mas, ao contrário, a última vontade de César oficializava a adoção do sobrinho-neto dele, Gaius Octavius Thurinus (ou Otaviano, como ele passou a ser chamado, que mais tarde se tornaria o futuro imperador Augusto), que, além de filho adotivo, tornou-se o herdeiro político de César e, além disso, recebeu dois terços da imensa fortuna do tio-avô.

De volta ao Egito e reinado “junto “com Caesarion.

Otaviano, que estava na Ilíria recebendo treinamento militar para participar, junto com César, na planejada campanha contra a Pártia, chegou à Roma em 06 de maio de 44 A.C., ocasião em que Cleópatra já tinha voltado para o Egito. Aliás, essa missão de Otaviano, juntamente com outras ações do Ditador em favor do sobrinho neto, não deixam muitas dúvidas de que César jamais planejou tornar o filho de Cleópatra seu herdeiro.

De volta ao Egito, Cleópatra passou a reinar sozinha, e o seu irmão e marido oficial, Ptolomeu XIV, era faraó apenas no papel. Mas, em algum momento, entre o final de julho e o final de agosto de 44 A.C., Ptolomeu XIV morreu. Suspeita-se, com boa dose de probabilidade, que ele tenha sido assassinado por ordem de sua irmã e consorte.

Assim, em 02 de setembro de 44 A.C., com a tenra idade de três anos Caesarion foi coroado Faraó do Egito, com o nome oficial de Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar, passando a reinar oficialmente ao lado da mãe, que, obviamente, era quem detinha todo o poder.

Relevo no Templo de Dendera, retratando Cleópatra, personificada como Ísis., e Caesarion, como faraó. Foto de Olaf Tausch, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons

Cleópatra iniciou a construção de um templo em honra de César, o Caesareum, em Alexandria. Ela mandou retirar quatro imensos obeliscos erguidos por faraós das 18ª e 19ª dinastias do Antigo Egito para decorar o templo. Aliás, um destes obeliscos, conhecido como a “Agulha de Cleópatra“, foi doado pelo Quediva do Egito aos Estados Unidos, no século XIX e encontra-se no Central Park, em Nova York. Cleópatra construiu também outros templos e até uma sinagoga para os judeus, em Alexandria (estima-se que mais de 100 mil habitantes da cidade eram judeus).

Reconstituição do Caesareum de Alexandria, com o obelisco ao fundo, por Franck devedjian, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, a situação política em Roma permanecia confusa: Marco Antônio e Otaviano apresentavam-se como herdeiros políticos de César, cada um tendo seus partidários e exércitos. No início, houve confronto entre ambos, e o Senado tentou se aproveitar disso para reassumir o controle do Estado, aliando-se aos assassinos de César. Todavia, os numerosos veteranos de Júlio César não gostaram nem um pouco disto. Assim, Antônio e Otaviano se associaram a outro correligionário de César, o general Marco Emílio Lépido e os três assumiram o governo, formando o chamado “Segundo Triunvirato“, em 43 A.C.. O Senado, acuado, assentiu com o governo dos três pelo prazo de cinco anos, mas, neste ínterim, os assassinos de César, que se autoentitulavam Liberatores (“Os Libertadores”), tinham conseguido fugir da Itália e levantar alguns exércitos, encontrando apoio entre alguns governadores simpáticos à causa deles, conseguindo, com isso, controlar a Grécia a Macedônia e a Síria.

Começava, assim, uma nova guerra civil romana e, como não era de surpreender, em pouco tempo chegaram ao Egito duas mensagens pedindo o apoio militar de Cleópatra: uma delas enviada pelo governador da Síria, Públio Cornélio Dolabela, um ex-partidário de César, que, tendo inicialmente aderido à causa dos Liberatores, e assim obtido a sua nomeação, resolveu mudar de lado novamente e apoiar o Segundo Triunvirato; a outra, de Caio Cássio Longino (Cássio), o principal líder, juntamente com Bruto, da conspiração que assassinara César. Inclusive Cássio, que conseguira apoio na Síria, tinha sido designado pelo Senado para substituir Dolabela, em uma decisão tomada antes do reconhecimento do Segundo Triunvirato. Agora, ambos lutavam pelo controle da Síria.

Cleópatra respondeu a Cássio que o seu reino estava mergulhado em problemas internos. Porém, ela permitiu que as quatro legiões que César tinha deixado no Egito se juntassem à Dolabela, além de lhe fornecer alguns navios. Em troca, Dolabela conseguiu que o Senado, agora controlado pelos Triúnviros, reconhecesse Caesarion como rei do Egito.  Entretanto, não só as legiões que Cleópatra enviou do Egito foram capturadas por Cássio, como Serapion, o governador que Cleópatra havia nomeado para o Chipre, resolveu se juntar a ele, fornecendo-lhe vários navios. Este último fato talvez seja um indício de que a estratégia de Cleópatra era a de tentar ficar bem com os dois lados, e esperar para ver quem iria prevalecer.

Então, na Batalha de Fílipos, travada em duas etapas, em 03 e 23 de outubro de 42 A.C., Marco Antônio e Otaviano derrotaram os exércitos de  Bruto e Cássio, que se suicidaram.

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(Mapa do mundo romano, após a Batalha de Fílipos, por ColdEel)

Romance com Marco Antônio

Após a Batalha de Fílipos, Antônio passou a controlar a maior parte das províncias orientais da República Romana, enquanto Otaviano passou a mandar no Ocidente. Porém, dentre as suas primeiras medidas, Antônio resolveu apurar as responsabilidades daqueles que tinham apoiado Bruto e Cássio contra o Segundo Triunvirato. Assim, de acordo com o relato de PlutarcoAntônio mandou convidar Cleópatra para uma audiência em Tarsos, na Cilícia, parte da atual Turquia, onde ele estava aquartelado, no verão de 41 A.C.,  já que ela tinha sido acusada de ter fornecido dinheiro e navios a Cássio. Como a rainha não respondeu às várias cartas remetidas, Antônio enviou um assessor, Quintus Dellius,  para tentar convencer Cleópatra a se encontrar com ele em Tarsos. Então, segundo, Plutarco:

“Ela foi  convencida por Dellius, e, levando em consideração as evidências que, antes disso, ela tinha percebido acerca do efeito que a beleza dela teve sobre Júlio César e Cneu, o filho de Pompeu, ela esperava que Antônio cairia mais facilmente aos pés dela. Pois, César e Pompeu a tinham conhecido quando ela ainda era uma garota inexperiente nas coisas, mas agora ela iria visitar Antônio exatamente na idade em que a beleza das mulheres é mais brilhante e elas estão no pico da sua capacidade intelectual. Consequentemente, ela levou consigo muitos presentes, dinheiro e ornamentos que, naturalmente, a sua alta posição e o seu reino próspero tornavam possível, porém, ela partiu colocando a maior confiança em si mesma, e no charme e no feitiço de de sua própria pessoa.”

Plutarco, Vida de Antônio, 25, 3

E Cleópatra não estava errada.  Ela chegou a Tarsos de forma arrasadora e deslumbrante, na sua barcaça-real Thalamegos, a mesma embarcação que a levara junto com César no cruzeiro romântico pelo Nilo. Plutarco descreve a cena:

“Ela muito  menosprezou e se riu daquele homem, ao ponto de subir o rio Cydnus em uma barcaça de proa dourada, cujas velas abertas tinham cor púrpura e cujos remadores remavam com remos de prata. ao som de flautas misturados com órgãos de tubo e alaúdes. Ela própria ia reclinada sob um toldo salpicado de ouro, adornada como Vênus em uma pintura, enquanto meninos, também como Amores em uma pintura, ficavam de cada lado abanando-a. Da mesma forma, as mais belas criadas, vestidas como Nereidas e Graças, estavam a postos, algumas nas voltas dos lemes, e o outras nas cordas esticadas. Maravilhosos odores de incontáveis incensários se espalhavam ao longo das margens do rio. Alguns dos habitantes acompanhavam-na em cada margem do rio desde a embocadura, enquanto outros desceram da cidade para observar aquela cena. Então, a multidão no mercado gradualmente foi se dispersando, até que o próprio Antônio, sentando no seu tribunal,  ficou sozinho. E um rumor se espalhou por toda parte de que Vênus tinha vindo para se divertir com Baco pelo bem da Ásia.”

Plutarco, Vida de Antônio, 26,1-3
Cleópatra navegando pelo rio Cygnus para encontrar Marco Antõnio, 1892, Óleo de Henryk Siemiradzki, Public domain, via Wikimedia Commons

Antônio foi jantar na barcaça de Cleópatra, toda iluminada, e foi recebido com todo o luxo e sofisticação decorrentes de  séculos de refinamento egípcio e grego, os quais faziam os romanos parecerem rudes camponeses. No dia seguinte, o triúnviro tentou retribuir, em terra, o banquete, mas, segundo Plutarco, ele não conseguiu nem chegar perto. Vale a pena, contudo, transcrever, nesse episódio, mais uma descrição da rainha:

“Cleópatra via nos gracejos de Antônio muito de soldado e de plebeu, e ela também adotou esses modos com ele, sem hesitar e audaciosamente. A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de  sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27, 1

Não surpreende, assim, que a acusação contra Cleópatra tenha sido descartada; Antônio, inclusive, entregou-lhe Serapion, o ex-governador egípcio de Chipre que ajudara Cássio, e a rainha mandou imediatamente executá-lo. Mas Antônio também atendeu a um outro pedido de Cleópatra, este muito mais sombrio: Ele mandou executar a irmã dela, Arsinoe IV, que, como vimos, estava custodiada no Templo de Artémis, em Éfeso, apesar de este ser um santuário reconhecido por todo o mundo helenístico (e listado entre as Sete Maravilhas). Com efeito, a execução da jovem, de apenas 22 anos de idade, morta nas próprias escadarias do templo, em desrespeito à santidade do santuário, foi considerada um grande escândalo em Roma, e este fato mancharia as reputações de Antônio e Cleópatra.

Temple of Artemis at Ephesus
Reconstrução do Templo de Artémis, em Éfeso, uma das 7 maravilhas do mundo antigo e local da execução de Arsinoe. Por Zee Prime at cs.wikipedia, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Nota: Hilke Thür, uma arqueóloga austríaca, afirmou que os vestígios de uma tumba descoberta há várias décadas, em Éfeso, continham restos mortais que poderiam ser de Arsinoe. A tese decorre do fato da tumba ser octogonal, lembrando o formato do célebre Farol de Alexandria, e da data estimada da construção bater com o período em que Arsinoe viveu em Éfeso. Todavia, a análise do esqueleto mostrou que tratava-se de uma jovem cuja idade estava entre 15 e 18 anos na data da morte, um tanto jovem demais para ser Arsinoe, de acordo com os historiadores (ver https://www.livescience.com/27459-cleopatra-sister-discovery-controversy.html).

Os “Inimitáveis Viventes

Em novembro de 41 A.C., Antônio visitou Alexandria, a convite de Cleópatra, e o caso entre os dois não era mais segredo para ninguém. Eles passavam o tempo em fantásticos banquetes, rindo e se divertindo, entre eles e com amigos. Plutarco conta que os dois amantes fundaram uma espécie de sociedade, que eles batizaram de “Os Inimitáveis Viventes“, o que por si só dá uma ideia do prazer que ambos estavam tendo na companhia um do outro (É interessante observar que, em sua “Vida de Antônio“, Plutarco menciona que ouviu esses relatos de seu próprio avô, que conviveu com uma testemunha ocular).

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Cleópatra e Antônio passavam o dia e a noite inteira juntos, e nem mesmo as brincadeiras e arruaças que eles costumavam cometer pelas ruas de Alexandria pareciam deixá-los mal com a população da cidade. Plutarco:

“Ela jogava dados com ele, bebia com ele, caçava com ele e o assistia enquanto ele treinava com armas; e, quando à noite, ele se postava nas portas ou janelas da gente comum da cidade e zombava daqueles que se encontravam dentro das casas, ela ia junto, nessas suas sessões de maluquices, vestindo um traje de serva, porque Antônio também tentava se disfarçar de servo. Por conta disso, ele sempre recebia uma batelada de insultos, e, frequentemente, de pancadas, antes de voltar para casa, embora a maioria das pessoas suspeitasse quem ele era. Entretanto, os alexandrinos adoravam os modos  engraçados e civilizados deles; Eles gostavam dele, e diziam que ele usava uma máscara de teatro trágica com os romanos, porém,  quando estava com eles, ele punha uma máscara de comédia“.

Afresco da Casa dos Amantes Castos, em Pompéia, por WolfgangRieger, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as estórias deliciosas do romance entre os dois, Plutarco conta que Antônio, incomodado pelo fato de Cleópatra estar assistindo uma pescaria na qual ele não havia conseguido pescar nada, certa vez mandou que um pescador mergulhasse e prendesse um peixe enorme, mas já pescado, na linha dele para impressionar a amante. Cleópatra percebeu a trapaça, mas não deu recibo, fingindo ficar admirada com a destreza de Antônio. Na pescaria seguinte, ela convidou todos os amigos do casal e mandou que outro mergulhador prendesse um arenque defumado no anzol de Antônio, e quando ele puxou a linha, todos caíram na gargalhada.

Mas toda essa diversão não significa que Cleópatra descurasse dos assuntos de governo. No início do reinado dela, por exemplo, ela ordenou que os grãos armazenados nos celeiros reais fossem distribuídos para aliviar os efeitos da seca. E, no decorrer de seu governo, ela decretou uma reforma monetária e promulgou leis instituindo monopólios e de controle de preços, pois o Egito vivia em duradoura crise econômica decorrente de problemas climáticos e do pagamento das dívidas com Roma.

Inclusive, chegou até os nossos dias um papiro, datado de 33 A.C., registrando uma isenção de impostos dada a um romano relacionado a Antônio, assinado pela própria Cleópatra, que constitui um dos raríssimos casos de escrita manuscrita de um governante da antiguidade. O texto com a parte dispositiva do papiro foi produzido por um escriba, mas, no final do documento, a rainha escreveu, de próprio punho: “Faça-se com que aconteça“.

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Ancient Ptolemaic-period scribe(s) as well as Cleopatra VII of Egypt who offered her signature on the document, Public domain, via Wikimedia Commons

Todavia, Marco Antônio era casado com a rica e poderosa Fúlvia, que naquele momento não apenas representava os interesses do marido em Roma, mas agia e dava as cartas na política romana por conta própria, pois herdara as conexões políticas de seu ex-marido, o populista e demagogo Clódio. Inclusive, para selar a aliança do Segundo Triunvirato, Otaviano casou-se com Clódia, filha de Clódio e de Fúlvia. Mesmo assim, Fúlvia se opôs a algumas medidas de Otaviano e conseguiu reunir oito legiões para defender os interesses de Antônio. Então, houve um conflito armado na Itália, no final de 41 A.C, entre as tropas de Otaviano e essas legiões reunidas por Fúlvia, comandadas por Lúcio Antônio, irmão caçula de seu marido, que acabaram sendo sitiadas na cidade de Perugia. Mas, em fevereiro do ano seguinte, Lúcio Antônio acabou se rendendo e Fúlvia foi obrigada a fugir da Itália para a Grécia, levando junto os seus filhos. Por isso, Antônio, já no ano seguinte, foi encontra-la em Atenas, onde ele censurou a esposa por ter desencadeado o conflito.

Segundo o historiador Apiano, o motivo principal para Fúlvia ter provocado a guerra contra Otaviano teria sido o desejo dela de obrigar Marco Antônio a deixar Cleópatra e voltar para a Itália. Esse motivo, entre outros, também é mencionado por Plutarco, mas o mais provável é que a motivação tenha sido política.

Entretanto, ainda em 40 A.C., Fúlvia morreu, próximo a Corinto, aparentemente de alguma doença, e isso foi um pretexto para Antônio e Otaviano reconciliarem-se publicamente, na Itália, alegando que as suas desavenças tinham sido provocadas pela falecida. Então, para selar essa reconciliação, Antônio casou-se, em outubro de 40 A.C, com Otávia, a Jovem, a bela irmã mais velha de Otaviano (ela, aliás, nasceu no mesmo ano que Cleópatra). Pouco depois, em Brundisium (Brindisi), os Triúnviros dividiram formalmente entre eles o território romano, celebrando o chamado Tratado de Brundisium.

Sintomaticamente, Dião Cássio faz questão de observar que, durante as negociações, em que as partes se ofereceram banquetes, Otaviano se apresentava vestido com uniforme romano de general, enquanto que Antônio  vestia trajes egípcios e orientais, mas, segundo Plutarco, embora, nessa época, Antônio estivesse apaixonado pela rainha egípcia, ele ainda não admitia a possibilidade de tê-la como esposa, mostrando que, ao menos politicamente, a sua razão continuava a prevalecer sobre a emoção. 

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Busto de Otávia, a Jovem, irmã de Otaviano, foto de Giovanni Dall’Orto

No final de 40 A.C., Cleópatra deu a luz a um casal de gêmeos, que receberam os nomes de Alexandre e Cleópatra. As crianças eram filhas naturais de Antônio, mas, legalmente para os romanos, era preciso que Antônio reconhecesse as crianças, para que o fato gerasse efeitos jurídicos relevantes.

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Busto de Cleópatra |Selene II, filha de Cleópatra e Marco Antônio, no Museu de Cherchell, Argélia. Por PericlesofAthens, CC0, via Wikimedia Commons

Nessa período, Antônio estava envolvido com assuntos importantes: primeiro com o conflito de Fúlvia contra Otaviano e, em seguida, com a invasão da Síria pelos Partos, liderados por Pacorus, filho do rei Orodes. Contudo, sabe-se que, no intervalo dessas guerras, Antônio passou o início do ano de 40 A.C. em Alexandria, que deve ter sido quando Cleópatra engravidou dos gêmeos.

De qualquer forma, pouco tempo antes ou depois dos gêmeos de Cleópatra nascerem, conforme já mencionamos, Antônio já estava morando com sua nova esposa, Otávia em Atenas, cidade em que o casal foi residir depois da celebração do Tratado de Brundisium. Sabemos que, em agosto ou setembro de 39 A.C., nasceu a primeira filha do casal, Antônia, a Velha. Sem dúvida, Antônio não negligenciava os deveres de amante, e muito menos os de marido…O seu comportamento, contudo, continuava a escandalizar os romanos: ele se autodenominou “Dionísio” e promovia festas em que se apresentava vestido como este deus.

Como não deve causar espanto, tudo indica que a relação entre Cleópatra e Antônio esfriou a partir do nascimento da filha dele com Otávia. O romano, agora, governava a partir do lar conjugal deles, em Atenas, o que, sem dúvida, enfraquecia os projetos mais ambiciosos de Cleópatra, pois, desse modo, Alexandria deixava de ser o centro do Mundo Helenístico.

Não obstante, o fato das atenções de Antônio, e de Roma, no Oriente estarem totalmente voltadas para a guerra contra os Partas, enquanto que Otaviano tinha que lidar com a oposição armada de Sexto Pompeu, o filho de Pompeu, o Grande, que controlava a Sicília, ao Segundo Triunvirato, deixava a rainha com considerável margem de atuação política.

Com efeito, Cleópatra já podia se orgulhar dela não só ter mantido a independência do Egito ante Pompeu e César, durante a Guerra Civil romana, mas também de ter persuadido Antônio de restaurar vários territórios que historicamente fizeram parte do império ptolomaico, tais como Chipre e a Cilícia.

Também sob Cleópatra, o Egito havia voltado a ser um ator influente na política do mediterrâneo oriental: De fato, em dezembro de 40 A.C., ela recebeu como refugiado o tetrarca e futuro rei Herodes, o Grande, da Judéia, um aliado de Antônio, mas que tinha sido obrigado a se exilar pelo rival Antigonos II Mattathias, que tomou o trono apoiado pelos Partas. Mas Cleópatra nunca escondeu que o seu desejo era restaurar o império ptolomaico em sua máxima extensão, o que incluía a Judéia. Assim, Herodes acabou indo procurar ajuda em Roma.

Por outro lado, quando a relação entre Antônio e Otaviano voltou a ficar conflituosa, Otávia foi fundamental para apaziguar o marido e o irmão. e até conseguiu convencer este a ceder tropas para a campanha de Antônio contra os Partas. Esta campanha estava sendo bem conduzida pelo lugar-tenente de Antônio, que, entre 39 e 38 A.C., obteve várias vitórias, culminando com a derrota e morte de Pacorus. E a morte do príncipe parta causou muita instabilidade na Pártia, resultando que o rei Orodes acabasse sendo assassinado, junto com boa parte da sua família, pelo próprio filho, Fraates IV, que assumiu o trono. Este era um nítido sinal de fraqueza que estimularia Antônio a buscar a glória de anexar o Império dos Partas, que, menos de duas décadas antes, tinha infligido dura derrota aos romanos, aniquilando as legiões de Crasso, em Carras.

Ao mesmo tempo, estava chegando ao fim o mandato de cinco anos que o Senado dera aos Triúnviros para governar a República, que ia até 31 de dezembro de 38 A.C.. Em um encontro intermediado por Otávia, Otaviano e Marco Antônio se encontraram em Tarento, já em 37 A.C., e concordaram em impor a renovação da aliança até 33 A.C. Entre as cláusulas do chamado Tratado de Tarento estava o fornecimento por parte de Otaviano de duas legiões completas, mais auxiliares, cerca de 20 mil homens, para a planejada campanha de Antônio contra os Partas.

Antônio voltou para o Oriente ainda em 37 A.C., deixando, na Itália, Otávia, grávida da segunda filha deles, Antônia, a Jovem, que nasceria em 31 de janeiro de 36 A.C. Na narrativa sobre o Tratado de Tarento, Plutarco menciona passagens que denotam que Otávia de fato amava o marido.

Porém, Otaviano deixou de cumprir o compromisso de fornecer as prometidas tropas a Antônio para a campanha contra os Partas. Em vez de 20 mil, só foram enviados 2 mil, dez por cento do prometido e que não representavam grande ajuda.

Busto de Antônia, a Jovem, na Ny Carlsberg Glyptotek, Public domain, via Wikimedia Commons

Consequentemente, precisando de soldados, e também de dinheiro, Antônio, por conveniência ou não, lembrou-se de sua rica e poderosa amante em Alexandria. Instalado em Antioquia, quartel-general das operações, Antônio mandou chamar Cleópatra para uma conferência. A rainha chegou, como sempre, em grande estilo, e desta vez trazendo os gêmeos Alexandre Helios (Sol) e Cleópatra Selene (Lua), que, pela primeira vez, iriam ser apresentados ao pai. As crianças estavam com três anos de idade e, provavelmente, foi nesta ocasião que elas receberam os seus segundos nomes e foram reconhecidas oficialmente por Antônio. E esses nomes denotam, sem dúvida, que os pais delas tinham planos bem elevados para o futuro deles…

Em Antioquia, Cleópatra obteve de Antônio importantes concessões: O Egito receberia todo o território da Fenícia, exceto Tiro e Sidon, e a cidade de Ptolemais Akko, fundada pelo seu antepassado Ptolomeu II. Cleópatra também recebeu a região da Síria-Coele, uma parte do reino dos Nabateus (parte da atual Jordânia), a cidade de Cyrene, na atual Líbia e duas cidades na ilha de Creta. Em troca, Cleópatra financiaria à campanha de Antônio na Pártia, além de fornecer boa parte do exército egípcio. Isso possibilitou a Antônio armar o que talvez fosse o maior exército jamais reunido pelos romanos, que alguns estimam, provavelmente com algum exagero, em 200 mil homens.

Fazer tantas concessões à Cleópatra, sendo cristalino que elas seriam repudiadas pela opinião pública romana, foi uma aposta muito arriscada de Antônio (e outras concessões ainda maiores seriam feitas no futuro!): Em uma justificativa racional dessa cartada, Antônio deve ter ficado impressionado com os recursos materiais e financeiros que o Egito podia lhe proporcionar e pensou que, com os mesmos, se ele derrotasse o Império Parta, o caminho de eliminar Otaviano e assumir o poder unipessoal em Roma estaria pavimentado. Sem dúvida, Antônio deve ter se sentido próximo de emular a carreira quase mitológica de Alexandre, o Grande, e tanto mais próximo disso ele não estaria, quem sabe, unindo-se matrimonialmente à última remanescente do império macedônio que aquele fundara?

Seja como for, os relatos das principais fontes, notadamente Plutarco e Dião Cássio, dão conta de que, em Antioquia, Cleópatra e Antônio reataram a sua união amorosa. E, dali em diante, eles não se separaram mais, exceto quando chegou o crepúsculo de suas vidas.

Cleópatra chegou a acompanhar Antônio no início da campanha, que começou pela invasão da Armênia, em 36 A.C., mas voltou para Alexandria, já que agora ela estava grávida do seu terceiro filho com Antônio, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus.

A campanha de Antônio contra os Partas estava enfrentando altos e baixos. Os romanos até ganharam alguns confrontos, mas sofreram várias emboscadas e foram cercados algumas vezes. Mas a maior causa de baixas foram doenças e o frio do inverno que chegava. As perdas já alcançavam cerca de 30 mil homens, quando Antônio resolveu suspendê-la e retirar-se para a cidade de Leukokome, próximo à Beirute, no atual Líbano.

Quando a notícia da volta de Antônio e do insucesso da sua expedição chegou em Alexandria, Cleópatra partiu para o Líbano, levando mantimentos e dinheiro para pagar as tropas, e lá encontrou Antônio abatido e entregue à bebida., em dezembro de 36 A.C. Em seguida,ambos voltaram para Alexandria, onde ele finalmente pode conhecer o seu segundo filho homem, Ptolomeu Philadelphus.

As Doações de Alexandria

O ano de 35 A.C., começou com Antônio planejando retomar a campanha na Armênia. Otávia, que soube do insucesso da expedição do marido, se propôs a viajar para Atenas levando os dois mil soldados para ajudá-lo na continuação da guerra. Segundo as fontes, esta foi uma tentativa da esposa romana de tentar contrabalançar a influência de Cleópatra e afastar o marido da presença da amante. Consta que seu irmão, Otaviano, permitiu a viagem da irmã e forneceu os soldados, já prevendo que poderia utilizar o episódio como propaganda contra Antônio.

E Otaviano estava certo: Antônio não só não foi ao encontro da sua fiel e dedicada esposa, como ainda lhe deu ordens para que não deixasse Atenas para encontrá-lo no meio trajeto da expedição; todavia, sem demonstrar nenhum constrangimento, Antônio aceitou os soldados que Otávia lhe trouxera. Foi um ultraje para a distinta Otávia, uma ofensa que até justificaria, aos olhos da opinião pública romana,  uma resposta de Otaviano.

Segundo Plutarco, sentindo a ameaça que a volta de Otávia a Atenas e a aparente determinação dela em reconquistar Antônio representavam, Cleópatra valeu-se de vários artifícios românticos e dramáticos para seduzi-lo e mantê-lo preso a ela. O autor narra, entre outros exemplos, que a rainha chegou a fazer um regime para emagrecer, além de passar a usar roupas sensuais e a simular choros. Fantasioso ou não o relato, o fato é que Antônio  adiou por algum tempo a expedição à Armênia e continuou em Alexandria.

Enquanto isso, a quase repudiada Otávia retornou para Roma. Otaviano, como se esperava, utilizou a humilhação da irmã o máximo possível contra a reputação de Antônio. Ele chamou Otávia para morar em sua casa, como uma mostra de que sua irmã não podia mais contar com a proteção do marido. Porém, para a surpresa de muitos. Otávia recusou e foi morar na residência de Antônio, em Roma. Lá, ela continuou cuidando não só das filhas que tinha com ele, mas também dos filhos de Antônio e Fúlvia, demonstrando publicamente que ainda se considerava a legítima esposa do marido. Não é impossível, contudo, que tudo isso também tenha sido combinado com Otaviano, para vitimizá-la ainda mais perante o público romano.

Mas foi o próprio Antônio, estimulado por Cleópatra, quem daria o maior golpe na própria reputação, dando a Otaviano um trunfo gigantesco na disputa entre ambos pelo poder supremo:

No outono de 34 A.C., retornando de uma, enfim, moderadamente bem sucedida campanha na Armênia, Antônio e Cleópatra organizaram em Alexandria uma parada triunfal, sendo que Antônio conduzia o carro vestido de deus Dionísio-Osíris, e na qual a família real armênia foi exibida pelas ruas da cidade, até dois tronos dourados, um para Antônio, outro para Cleópatra. Em seguida, ao povo reunido no Gymnasium , Antônio proclamou solenemente que Cleópatra, que na ocasião  estava vestida como a deusa Ísis, era a “Rainha dos Reis” e “Rainha do Egito, Chipre, Líbia e Sìria-Coele“, junto com seu filho, Caesarion, o “Rei dos Reis“. Alexandre Helios foi nomeado “Rei da Armênia, da Média e da Pártia“. Já Ptolomeu Philadelphus foi designado “Rei da Cilícia e da Síria”, e Cleópatra Selene, por sua vez, a “Rainha de Creta e de Cyrene“. Na cerimônia, Antônio também fez questão de proclamar que Cleópatra tinha sido esposa de Júlio César,  e que o seu filho Caesarion, era o filho legítimo de César.

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Tudo aquilo representava, sem dúvida nenhuma, uma declaração de rompimento com Otaviano e com o próprio Senado Romano. Na verdade, aquela era uma iniciativa que  seria recebida em Roma quase que como uma declaração de guerra, pois, doando-os à amante e aos filhos, abria mão de territórios que faziam parte da esfera de influência de Roma, alguns até já controlados diretamente, ainda que não formalmente anexados.

Essa distribuição de territórios feita por Antônio à Cleópatra e aos seus filhos, um ato que, já naquele tempo, recebeu o nome de “As Doações de Alexandria“, era tão impactante e inacreditável, que, quando a mensagem que Antônio enviara comunicando o decreto ao Senado Romano chegou à Roma, já no ano seguinte, os futuros cônsules Gnaeus Domitius Aehonabarbus e Gaius Sosius, que eram partidários de Antônio, recusaram-se a tornar o documento público, resistindo aos insistentes pedidos de Otaviano!

A “Guerra Fria” entre Antônio e Otaviano

O prazo renovado do Segundo Triunvirato expirou em 31 de dezembro de 33 A.C, não havendo interesse em nova prorrogação. Otaviano e Antônio, então, começaram uma guerra aberta de propaganda, cada um expondo episódios de má conduta, traições, ultrajes, etc., contra o outro, pois já anteviam o conflito que estava por vir e, por antecipação, ambos queriam justificar perante a opinião pública o motivo da  iminente guerra civil, colocando a culpa pelo início da mesma no adversário. E não causou espécie a ninguém que o motivo mais grave alegado por Otaviano foi o fato de Antônio ter reconhecido oficialmente Caesarion como o filho legítimo e herdeiro de Júlio César

Por sua vez, Cleópatra também foi apontada pelos propagandistas de Otaviano como a principal responsável pelas causas do conflito, acusando-se a egípcia ter seduzido Antônio para satisfazer as suas ambições dinásticas. De modo muito parecido com o que acontece hoje, políticos, poetas e escritores divulgavam verdadeiras “fake news“, como por exemplo a de que Cleópatra teria usado de bruxaria para enfeitiçar Antônio. Este também foi acusado de ter doado à amante todos os livros da biblioteca de Éfeso, uma acusação que, posteriormente, mostrou-se inverídica. Da sua parte, Antônio chegou a afirmar que Otaviano somente teria sido adotado por César porque este costumava possuir sexualmente o sobrinho-neto…

Denário de prata de Cleópatra e Antônia, c. 32 A.C. por Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Havia outras acusações tão ou mais sérias, segundo a lei romana, que incluíam o fato de Antônio ter iniciado a guerra contra a Armênia e a Pártia sem a necessária autorização do Senado (não ficando claro, contudo, se o mandato como Triúnviro lhe dava poderes para tanto) e ter executado Sexto Pompeu sem julgamento. Por sua vez, Antônio acusou Otaviano de ter removido ilegalmente Lépido da posição de Triunviro (o que ele realmente fez) e se apossado do território que este controlava, a Sicília.

A versão de Otaviano, obviamente, foi aquela que, mais tarde, prevaleceria. Mas o fato é que, naquele momento, Antônio ainda tinha muitos simpatizantes em Roma, inclusive no Senado. De acordo com Dião Cássio, em 1º de janeiro de 32 A.C., primeiro dia de sessão do ano, por exemplo, o cônsul e aliado de Antônio, Gaius Sosius, proferiu um discurso no Senado atacando violentamente Otaviano e propondo a aprovação de uma legislação contrária aos interesses deste.

Otaviano resolveu, então, abandonar os escrúpulos de legalidade e, na sessão seguinte do Senado, no outro dia, compareceu à Cúria acompanhado de sua guarda pessoal e de partidários armados com adagas escondidas sob as togas. Como Otaviano controlava as legiões da Itália, bem como do Ocidente em geral, nos dias seguintes os cônsules Gaius Sosius e Domitius Ahenobarbus, intimidados, abandonaram Roma e partiram para se unir a Antônio na Grécia, sendo acompanhados por mais de duzentos senadores que também apoiavam Antônio.

Fachada da Curia Julia, no Fórum Romano,em Roma, onde o funcionava o Senado Romano. Foto de Thorvaldsson, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

A situação era um tanto parecida com a que deflagrara a Primeira Guerra Civil, de César contra Pompeu. Este fugiu para o Oriente, junto com os senadores partidários dos Optimates. Agora, eram os partidários de Antônio que fugiam para encontrá-lo no Leste. E, assim como os historiadores militares consideram que abandonar a Itália foi um grande erro de Pompeu, eu, igualmente, acredito que também foi um grande erro de Antônio ter deixado Otaviano ter o controle total da Itália.  A Itália ainda era o esteio militar do mundo romano, mesmo que o oriente helenístico fosse mais rico e mais populosos, e isso seria mais uma vez demonstrado na nova guerra civil que estava por vir.

Já preparando-se para a guerra, Cleópatra providenciou duzentos navios de guerra para a frota de oitocentas naves que Antônio estava reunindo, além, naturalmente, de muito dinheiro para o esforço bélico. O casal reuniu-se em Éfeso para organizar a campanha contra Otaviano. Segundo as fontes, alguns senadores correligionários de Antônio, sobretudos os amigos dele, Titius e Munatius Plancus, mostraram-se contrariados pela proeminência que Cleópatra demonstrava ter em todas as decisões, e, por sua vez, resolveram partir e aderir a Otaviano.

De acordo com Plutarco, Titius e Lucius Munatius Plancus conheciam os termos do testamento de Antônio, que, conforme o costume, havia sido depositado lacrado em poder das Virgens Vestais, e contaram tudo para Otaviano. Ciente, assim, dos termos da última vontade do rival, Otaviano, ilegalmente, conseguiu se apossar do testamento, que foi aberto e lido por ele em uma sessão do Senado. Entre suas cláusulas, segundo consta, havia a recomendação de Antônio para que o seu corpo fosse entregue à Cleópatra e sepultado em Alexandria. Essa disposição muito convenientemente ia de encontro ao boato que os partidários de Otaviano andavam espalhando por Roma: a de que Antônio, caso vencedor,  pretendia transformar Alexandria na capital do território romano!

A “Guerra contra Cleópatra”

Engenhosamente, o Senado Romano, agora controlado por Otaviano, não declarou guerra a Antônio, apesar dele ser o alvo principal da medida – Preocupados com a opinião pública, e com a posteridade, os senadores formalmente votaram pela declaração de guerra contra Cleópatra, a rainha do Egito, e, assim, todos os tradicionais ritos previstos para uma guerra contra inimigos estrangeiros puderam ser celebrados. Além disso, tal circunstância impedia que os senadores partidários de Antônio fossem considerados desertores ou criminosos, deixando uma porta aberta para o seu retorno. Não obstante, foi decretada expressamente a retirada de todos os poderes que Antônio ainda detinha. Essa preocupação com as aparências, e a necessidade de justificar a guerra pelo poder como um conflito contra uma governante estrangeira, mostra também que o povo devia estar indeciso sobre quem tinha razão no conflito entre os dois líderes romanos.

Se ainda havia alguma dúvida de que o rompimento era definitivo, ainda em 32 A.C, Antônio divorciou-se de Otávia. A partir daquele momento, Cleópatra não precisaria mais temer a rival e, aparentemente, a opinião dela prevaleceria em todos os aspectos, incluindo a estratégia que seria adotada para a guerra…

Contrariando os conselhos dos seus assessores militares mais próximos, que defendiam uma guerra terrestre, já que, nominalmente, eles possuíam mais tropas do que Otaviano (aproximadamente cerca de 100 mil homens, contra 80 mil de Otaviano), Antônio seguiu a vontade de Cleópatra, que defendia que Otaviano deveria ser derrotado no mar, pela frota composta, em parte apreciável, pelos navios egípcios. E os navios da frota de Antônio, de fato, eram mais numerosos e maiores do que os de Otaviano.

Mas o motivo principal da estratégia proposta por Cleópatra, na visão de muitos historiadores, era o fato de que uma vitória no mar, travada na Grécia ou na Turquia, protegeria melhor o Egito de um ataque romano, pois nesta batalha, boa parte da frota romana seria destruída. De todo modo, ainda que mais numerosos, os navios de Antônio e Cleópatra tinham um considerável déficit em suas tripulações, em alguns casos havendo menos da metade dos remadores previstos. Além disso, em virtude dessa deficiência, muitos deles não eram remadores experientes, e sim tropeiros, fazendeiros e até meninos.

Os historiadores antigos criticam Antônio por ter cedido às intenções de Cleópatra, mas o mais provável é que ele conhecesse as deficiências do seu efetivo militar. De fato, as próprias fontes dão a entender que o exército de Otaviano era melhor treinado. Não que Antônio não tivesse um núcleo de tropas romanas experimentadas com ele, mas o número de legiões essencialmente romanas de Otaviano parece que era maior. Por outro lado, os recursos financeiros à disposição de Antônio parecem ser ter sido bem maiores, pois as fontes relatam que ele chegou a enviar dinheiro para a Itália para tentar subornar partidários de Otaviano, que realmente ficou bem preocupado com essa possibilidade.

A Batalha de Actium

Consta que Antônio chegou a tentar um avanço naval até Corcyra, atual Corfu, na fronteira da atual Grécia com a Albânia, o que o colocaria bem próximo de poder atacar a costa italiana, mas, ao encontrar unidades navais da frota de Otaviano, ele desistiu e voltou para o Golfo Ambraciano, ou Golfo de Actium, na costa setentrional da Grécia, no final de 32 A.C.. Assim, quem tomou a iniciativa foi Otaviano. Ele zarpou para a Grécia e se dirigiu para Actium, local onde, agora, Antônio e Cleópatra tinham estabelecido o seu quartel-general das operações e reunido sua imensa frota. Enquanto isso, seu almirante, Marcus Vipsanius Agrippa (Agripa), tomou Corcyra e lá instalou uma base para as operações contra Antônio.

Otaviano desembarcou suas tropas no lado oposto do Golfo Ambraciano e enviou emissários aos comandantes de Antônio propondo uma negociação, proposta esta que foi recusada. Porém, nas escaramuças que se seguiram com as tropas de Antônio, estacionadas ao longo de Actium, as forças de Otaviano levaram a melhor. Começaram, então, a pipocar deserções entre os aliados de Antônio, que incluíam quase todos os reinos-clientes de Roma no Oriente, tais como Amynthas, da Galatia, e Deiotarus, da Paflagônia, além de amigos romanos de longa data, como Quintus Dellius, que fugiu e foi se juntar a Otaviano, fornecendo a este informações valiosas sobra o estado da frota e os preparativos de Antônio.

De acordo com o relato de Dião Cássio, nessa fase da campanha, Cleópatra fez prevalecer a opinião dela de que as posições mais defensáveis deveriam ser ocupadas por guarnições militares, mas que ela e Antônio, juntamente com o grosso das tropas, deveriam rumar para o Egito. Assim, parece realmente que o que importava mesmo para a rainha era a defesa do Egito e, para Antônio, que ele pudesse continuar contando com o suporte financeiro e militar de Cleópatra, dinheiro que, cada vez mais, aparentava ser o elemento fundamental para a coesão do seu exército.

Tendo em vista que o número de marinheiros era insuficiente para tripular adequadamente todos os navios da sua frota, Antônio ordenou que aqueles em mau estado fossem queimados, e selecionou os melhores. Ele e Cleópatra também ordenaram que, secretamente, todo o tesouro fosse embarcado neles.

No dia 02 de setembro de 31 A.C, Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual suas sete legiões estavam acampadas, e de onde podiam assistir às manobras. Sua frota agora era composta de 230 grandes galeras.

Segundo os relatos, a nau-capitânia de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita entre alguns historiadores de que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava a seu favor, fugir em direção à Alexandria. Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o tesouro e dos navios que escoltavam Cleópatraque seguia, atrás, embarcada em sua nau-capitânia, batizada de “Antonias“.

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(Mapa de Future Perfect at Sunrise, on the basis of work by User:Lencer and User:Leo2004)

Comandada por Agripa, a frota de Otaviano tinha 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio. Graças às informações fornecidas por Quintus Dellius, entretanto,  Otaviano e Agripa tinham ciência dos planos de Antônio, e estavam preparados, esperando a frota inimiga.

Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. Sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito, porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem e se dirigindo à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

Relevos retratando a Batalha de Actium descobertos em Avellino. Por Carole Raddato, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio, e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabe com exatidão os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão. Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro da linha deles e rumado para o norte. De fato, a rainha pode ter perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado, capturado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando para trás o restante da frota, que ficou lutando acéfala, exceto por cerca de 60 navios egípcios que conseguiram acompanhar a fuga deles. Mesmo assim, os combates duraram até a madrugada do dia seguinte, mas, no final, toda a frota remanescente de Antônio acabou sendo destruída por Otaviano. A grande duração dos combates ao nosso ver mostra que, sem a fuga de Antônio e Cleópatra, o resultado da Batalha de Actium poderia ter sido outro.

Nesse sentido, vale notar que, mesmo após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros mantiveram-se aquartelados por uma semana, esperando o aparecimento de Antônio, mas, passado esse tempo, os soldados desistiram e se renderam. Com isso, todos os reis aliados abandonaram a causa de Antônio e entraram em acordo com Otaviano, sendo um destes o rei Herodes, o Grande, da Judéia.

Embora, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandassem, ao menos no papel, um numeroso exército, o fato é que o custo moral da derrota foi muito alto.

Assim, Cleópatra e Antônio e seus navios remanescentes navegaram até o Peloponeso, conseguindo se evadir à breve perseguição dos navios de Otaviano. Consta que durante a viagem, que durou três dias, ambos não se falaram. De lá, Cleópatra resolveu partir o mais rápido possível para o Egito, temendo que a notícia da derrota chegasse à Alexandria primeiro do que ela, o que poderia desencadear uma rebelião. Por isso, ela mandou decorar as proas dos seus navios de modo a que parecessem estar chegando ao porto em triunfo pela vitória inexistente.

Antônio foi para a Líbia, pensando em trazer as legiões que ele tinha deixado ali para a defesa da fronteira ocidental do Egito. Porém, o governador de Cyrene e comandante daquelas legiões, Lucius Pinarius Scarpus, que tinha sido apontado por ele, mas também era primo de Otaviano, recusou-se a entregá-las. Percebendo que tudo estava desmoronando, Plutarco conta que Antônio tentou  o suicídio, mas foi impedido pelos amigos. Ele então partiu para o Egito, para reencontrar Cleópatra.

Chegando no Egito, Antônio encontrou Cleópatra organizando um plano ousado: transportar por terra os trezentos navios da frota egípcia para o Mar Vermelho, através da península do Sinai, com o objetivo de colocá-los à salvo da frota de Otaviano. Contudo, este plano foi por água baixo quando os primeiros navios que chegaram próximo à cidade de Petra foram queimados pelos Nabateus, instigados pelo governador da Síria, Quintus Didius, partidário de Otaviano. Este é mais um exemplo de que a linha mestra da rainha egípcia sempre fora a manutenção da independência do Egito e a sobrevivência da dinastia ptolomaica.

Os “Parceiros na Morte”

Inicialmente, Cleópatra e Antônio mantiveram-se afastados em Alexandria, ele vivendo em uma mansão à beira-mar, e ela no palácio. Porém, quando chegou a idade de inscrever Caesarion na lista dos efebos (evento que marcava o fim da infância no mundo grego) e de Anthilyus, o filho de Antônio e Fúlvia, vestir a toga virilisAntônio passou os dias na companhia de Cleópatra, comendo e bebendo nos suntuosos banquetes comemorativos do evento.

Le repas de Cléopâtre et de Marc-Antoine, 1754, por Charles-Joseph Natoire, Public domain, via Wikimedia Commons

Foi durante esses eventos que, segundo Plutarco, Cleópatra e Antônio resolveram dissolver a sociedade dos “Inimitáveis Viventes” e fundar outra em seu lugar, a qual batizaram de “Sociedade dos Parceiros na Morte“, nome que certamente demonstra a consciência que os dois tinham de que a cortina estava se fechando para eles e de que estava chegando ao fim a brilhante trajetória que tinham percorrido juntos…

Os autores antigos afirmam que, nessa época, Cleópatra começou a testar venenos em prisioneiros condenados, inclusive submetendo-os a picadas de serpentes, com o objetivo de encontrar algum que causasse a morte mais rápida e indolor possível.

Cleópatra e Marco Antônio supervisionando a morte de conspiradores, 1866, quadro de Antoine Van Hammée, Public domain, via Wikimedia Commons

Parece que a sobrevivência da dinastia dos Ptolomeus agora era a única preocupação de Cléopatra: Segundo Dião Cássio, ela enviou uma correspondência secreta para Otaviano, contendo uma coroa e um cetro, que foram aceitos por ele. Assim, em público, Otaviano teria continuado a dar ultimatos para que ela abandonasse as armas e renunciasse ao trono, mas, secretamente, mandou mensagens prometendo que, se Cleópatra mandasse matar Antônio, ela seria perdoada e mantida como soberana.

Enquanto isso, Antônio também enviou correspondências a Otaviano, acompanhadas de muito ouro,  afirmando que ele concordava em largar tudo e ir viver como particular. Já em outra versão, ele propôs a Otaviano que ele se mataria, desde que o rival deixasse Cleópatra viver. Em todo o caso, as fontes concordam que Otaviano somente respondia às mensagens de Cleópatra, ignorando as de Antônio.

As fontes antigas enfatizam que as respostas de Otaviano à Cleópatra visavam três objetivos: incentivá-la a eliminar Antônio, o que encerraria logo a guerra e lhe daria o poder absoluto em Roma; dissuadir que Cleópatra dispersasse ou destruísse o imenso tesouro egípcio, preservando-o para os romanos; e desestimular que a rainha se matasse, para que não lhe fosse roubada a incomensurável glória de exibi-la em triunfo pelas ruas de Roma. Mas parece que os dois primeiros motivos eram os mais prementes para Otaviano, pois, quando ele soube que Cleópatra pretendia levar todo o tesouro do Egito para a tumba que ela estava construindo para si mesma nos jardins do palácio, onde tudo seria queimado, Otaviano mandou Thyrsus, que era seu liberto, levar para Cleópatra cartas na qual ele dizia que estava apaixonado por ela, ao menos segundo a versão de Dião Cássio, na esperança de que a rainha, que se consideraria irresistível, acreditaria nisso e daria cabo de Antônio, mantendo-se viva, e o tesouro, intacto.

O cerco se fecha

Na primavera de 30 A.C., As forças de Otaviano tomaram Pelousium, que, de acordo com Dião Cássio, teria sido entregue sem luta, seguindo ordens de Cleópatra. Porém, segundo Plutarco, essa suspeita parece infundada, pois ela concordou com a execução da esposa e dos filhos de Seleucus, o governador que se rendeu a Otaviano.

O exército de Otaviano, aproximava-se dos muros de Alexandria., na vizinhança do Hipódromo, Antônio comandou um ataque à vanguarda do exército inimigo e conseguiu derrotar a cavalaria de Otaviano, que, já cansada da marcha até a cidade,  foi perseguida até o acampamento. Porém, a inferioridade numérica impediu qualquer exploração desse sucesso, e Antônio retornou ao palácio, onde, vestido de uniforme e couraça, ele beijou Cleópatra e contou sobre a pequena vitória que eles tinham obtido. Ela deu caros presentes para um soldado que havia se destacado na batalha, mas, como um emblema da situação desesperadora em que eles se encontravam, naquela mesma noite o soldado fugiu e desertou para Otaviano, levando consigo os presentes…

No dia seguinte, Antônio tentou um ataque combinado por terra e por mar. Ele próprio cavalgou até próximo das tropas inimigas e desafiou Otaviano para um combate singular, corpo a corpo, entre os dois, um desafio que ele já havia feito anteriormente. Otaviano ignorou e mandou responder que “havia muitos maneiras pelas quais Antônio poderia morrer“.

Quando Antônio ordenou que a frota avançasse, para a sua consternação, os remadores levantaram os remos em sinal de rendição e ele soube que eles tinham aderido à Otaviano, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido por ordens de Cleópatra, que talvez tivesse resolvido traí-lo para cair nas boas graças de Otaviano, ou, poderia também estar com medo de que Antônio tentasse fugir para a Espanha. É de se notar, contudo, que a cavalaria dele também desertou. Antônio ainda tentou combater com a infantaria que lhe restara, mas foi facilmente derrotado. Naquele momento, então, Antônio não teve dúvidas de que estava tudo acabado. Ele deixou o campo de batalha e correu para o palácio.

Cléopatra foi se esconder no interior do mausoléu que ela havia mandado construir, acompanhada de um eunuco e duas escravas. Quando Antônio chegou, ele foi informado de que Cleópatra havia se matado e estava enterrada na tumba, que havia sido lacrada. Desesperado, Antônio, segundo Plutarco, proferiu as seguintes palavras:

“Por que tu demorastes tanto, Antônio? O Destino levou a tua única desculpa para te agarrares à vida!”

Antônio, então, entrou na antecâmera da tumba, tirou a couraça e, deixando-a de lado, continuou:

“Oh, Cleópatra! Eu não lamento que tu tenhas sido arrancada de mim, pois logo eu me juntarei a ti, mas eu lamento que um comandante tão grande como eu tenha se mostrado menos corajoso do que uma mulher”

Em seguida, Antônio implorou ao seu escravo doméstico, Eros, que o matasse, como ele já o havia anteriormente instruído. Porém, o devotado Eros, ao invés de matar o seu amo, pegou a espada e matou a si mesmo, para não ter que cumprir essa dolorosa ordem. Desesperado, Antônio, então, jogou-se sobre a própria espada apoiada no chão, que penetrou em sua barriga. Porém, esta ferida não foi suficiente para matá-lo imediatamente e, assim, Antônio ficou agonizando na cama, pedindo para que algum dos presentes se dignasse a apressar a sua morte.

Os ruídos e lamentos do agonizante Antônio acabaram sendo ouvidos por Cleópatra, que, observando a cena de dentro da tumba, por uma janela, mandou seu secretário Diomedes trazer Antônio para dentro. Quando Antônio percebeu que Cleópatra estava viva, ele mandou que os servos dele o colocassem de pé. Mas, como a porta do mausoléu estava selada, Antônio teve que ser erguido por cordas até a janela, puxadas pelas escravas de Cleópatra que estavam lá dentro, além da própria rainha, que também ajudava. Segundo o próprio Plutarco, enquanto Antônio era puxado, coberto de sangue, ele estendia os braços e as mãos em direção à Cleópatra, e para o historiador, de acordo com as testemunhas presentes que descreveram a cena, jamais houve cena mais pungente:

E quando Cleópatra dessa forma conseguiu pegá-lo e deitá-lo, ela rasgou suas roupas sobre ele, puxou e socou os seios com as próprias mãos, esfregou um tanto do sangue dele no rosto dela, e o chamou de amo, marido e imperador; De fato, em sua compaixão por ele, ela quase esqueceu a sua própria desgraça. Mas Antônio fez cessar os lamentos dela e pediu uma taça de vinho, tanto por ele estar com sede, como para lhe dar mais rapidamente um alívio. Depois de ter bebido, ele aconselhou-a buscar a sua própria segurança, se ela pudesse fazer isso sem desonra; que, dentre todos os amigos de César (Otaviano), ela deveria confiar em Proculeius; e que ela não lamentasse as últimas adversidades que ele tinha sofrido, mas que o considerasse feliz pelas boas coisas que ele tinha conseguido, uma vez que ele tinha se tornado o mais ilustre dos homens, tinha conquistado o poder supremo; e que, naquele momento, ele não tinha sido derrotado de modo ignóbil, mas em uma luta de romano contra romano“.

Plutarco, Vida de Antônio, 77, 1
Antoine rapporté mourant à Cléopâtre d’Eugène-Ernest Hillemacher (1863), Museu de Grenoble, Eugène Ernest Hillemacher, Public domain, via Wikimedia Commons

Em poucas horas, Antônio morreu nos braços de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C. Ele tinha 53 anos de idade. Um dos seus guarda-costas, Dercetaeus, escondeu a espada com a qual ele tinha se suicidado, fugiu do palácio e entregá-la a Otaviano, que, fingidamente ou não, mostrou-se consternado pela morte do rival.

Prisioneira de Otaviano

Verdadeiro ou não o seu lamento, agora a maior preocupação de Otaviano era evitar que Cleópatra cumprisse as ameaças de se suicidar, impedindo-o de exibi-la em seu almejado triunfo pelas ruas de Roma, e de levar consigo todo o tesouro do Egito, para ser incinerado junto com o cadáver dela na tumba real. Assim, ele enviou o seu auxiliar Proculeius para conversar com Cleópatra, que ainda estava encerrada no mausoléu, cujas pesadas portas eram fechadas com poderosos ferrolhos e trancas. Na conversa com Proculeius, do lado de dentro da tumba, Cléopatra fez o pedido para que os filhos dela herdassem o seu trono, enquanto o enviado tentava tranquilizar a rainha, dizendo-lhe que ela podia confiar em Otaviano.

Tumba nas Catacumbas de Kom Al Shuqafa, em Alexandria. Foto Roland Unger, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Na verdade, Proculeius, agindo bem ao contrário do que o finado Antônio havia mencionado a seu respeito, tinha aproveitado a conversa para fazer um reconhecimento do mausoléu e voltou para contar a Otaviano o que ele tinha visto. Em decorrência, Otaviano mandou Gallus, com o pretexto de fazer uma nova entrevista com Cleópatra. E, então, enquanto Gallus e a rainha conversavam, Proculeius, valendo-se de uma escada, conseguiu entrar na tumba pela janela. Quando notou a invasão, Cleópatra tentou se matar com uma faca, mas Proculeius conseguiu impedir que ela se ferisse, e disse:

Oh, Cleópatra! Você está enganando a si mesma e a César (Otaviano), tentando roubar dele uma oportunidade de mostrar a maior bondade, e pregando nele o estigma de ser implacável e não-confiável“.

Dito isso, ele retirou a faca dela e revistou-a, para certiricar-se de que ela não tinha outra arma escondida. Otaviano, ao saber do que havia sucedido, ordenou que Cleópatra fosse mantida sob estrita vigilância, mas que a rainha deveria ter tudo que fosse necessário para o seu conforto e lazer. A verdade é que, na prática, Cleópatra, agora estava sob prisão domiciliar…

Antes disso, enquanto Otaviano ainda não havia conquistado Alexandria, Cleópatra havia mandado seu filho Caesarion para a Etiópia, junto com um tesouro bem substancial, como ponto de partida para a viagem dele para a Índia, onde o rapaz poderia ficar a salvo da perseguição romana. Era um plano inteligente, mas, que deveria ter sido posto em prática com mais antecedência, pois, tudo indica, Otaviano não demorou a saber disso, e, mais tarde, Caesarion acabaria sendo capturado e morto. Na versão de Plutarco, foram os próprios tutores de Caesarion, Rhodon e Theodorus, certamente a mando de algum emissário de Otaviano, que convenceram o rapaz a voltar para Alexandria, sob o falso pretexto de que Otaviano deixaria que ele continuasse reinando no lugar da mãe. Já segundo Dião Cássio, a caravana de Caesarion foi interceptada ainda na estrada para a Etiópia e o rapaz foi morto ali mesmo, mas, em qualquer caso, isso somente ocorreu após a morte de Cleópatra. A morte de Caesarion teria sido decidida após o filósofo Areius assim ter advertido Otaviano:

“Boa coisa não é que haja muitos Césares!”

Após a morte de Antônio, Otaviano consentiu que Cleópatra sepultasse o corpo de Antônio no mausoléu, em uma cerimônia suntuosa, típica da realeza. Devido ao pesar que ela sentia pela morte de Antônio e pelas dores que ela sentia devido aos golpes que ela mesmo desferira contra os próprios seios, Cleópatra acabou ficando doente após o funeral, e até deixou de comer. Ela ficou aos cuidados do médico Olympus, a quem ela pediu conselhos sobre a melhor forma de cometer suicídio, como o próprio Olympus escreveria mais tarde em um livro, que deve ter sido consultado por Plutarco.

Temendo a morte de Cleópatra, o que esvaziaria o seu triunfo, Otaviano ameaçou-a com relação ao bem-estar dos filhos dela, e, assim, preocupada com o destino deles, a rainha acabou consentindo em receber cuidados médicos.

Mesmo assim, o próprio Otaviano resolveu visitar Cleópatra em pessoa, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido a pedido dela. Na narrativa deste historiador, Cleópatra mandou arrumar o quarto da forma mais esplêndida e luxuosa, onde foram espalhadas imagens de seu antigo amante Júlio César, o pai adotivo de Otaviano. E Cleópatra também colocou a seu lado, as várias cartas de amor que ela recebera de César. Então, quando Otaviano entrou, ela teria se jogado aos pés dele, em sinal de submissão, e, depois de ter lido trechos ardentes da carta, Cleópatra tentou seduzir Otaviano com olhares lânguidos e voz melosa, terminando por dizer a ele que, se ela o tivesse, seria como se ela tivesse César, e que César viveria nele.

Sobre esse episódio, eu prefiro a narrativa de Plutarco:

“Após alguns dias,o próprio César (Otaviano) veio conversar com ela e confortá-la. Ela estava deitada numa cama simples de estrado, vestida apenas com a sua túnica, mas saltou da cama quando ele entrou e se jogou aos pés dele; o cabelo e o rosto dela estavam terrivelmente desarrumados, sua voz tremia, e os seus olhos tinham olheiras. Havia também muitas marcas visíveis das cruéis pancadas no peito dela: em uma palavra, o corpo dela parecia não estar em melhor estado do que o seu espírito. Apesar disso, o charme pelo qual ela era famosa, e o impacto da sua beleza, não estavam de todo extintos, ao contrário, apesar dela estar naquela situação lamentável, eles resplandeciam e se manifestavam nas expressões dela. Após César (Otaviano) ter rogado para que ela se deitasse e ele próprio  ter se sentado próximo a ela, ela começou a fazer uma espécie de justificativa das suas ações, atribuindo-as à necessidade e ao medo que sentia de Antônio; Contudo, enquanto César (Otaviano) discordava dela e a refutava em cada ponto, ela rapidamente mudou de tom e buscou sensibilizá-lo com as suas preces, como se ela fosse alguém que, acima de todas as coisas, agarrava-se à vida. E, finalmente, ela lhe deu uma lista de todos os tesouros que ela possuía; Nesse momento, quando Seleucus, um dos camareiros dela, demonstrou, conclusivamente, que ela estava escamoteando e escondendo alguns deles, ela saltou da cama, agarrou-o pelos cabelos e despejou uma saraivada de golpes no rosto dele.  E quando César (Otaviano), com um sorriso, fez com que ela parasse, ela disse: “Mas não é uma coisa horrível, Oh, César, que quando tu te dignaste a vir e falar comigo, embora eu esteja nesta situação miserável, os meus escravos me denunciem por separar alguns adornos femininos – não para mim mesma, é claro, mulher infeliz que sou – mas para que eu possa dar alguns presentes insignificantes para Otávia e para tua Lívia, e, mediante a intercessão delas, te fazer mais piedoso e gentil?” Então César (Otaviano) ficou satisfeito com este discurso dela, restando totalmente convencido de que ela queria continuar viva. Consequentemente, ele disse que ele deixaria esses assuntos por conta dela, e que, em todos os outros aspectos, ele lhe daria o tratamento mais esplêndido que ela poderia esperar. Ele, então, saiu do quarto, supondo que a tinha enganado, mas ele é quem seria enganado por ela”.

Uma vitória na morte

Plutarco narra, ainda, que um dos companheiros de Otaviano, chamado Cornelius Dolabella, que tinha uma certa queda por Cleópatra, conseguiu avisá-la de que Otaviano havia mandado as legiões se aprontarem para marchar pela Síria, e que, dentro de três dias, ele iria envia-la para Roma junto com os filhos. Cleópatra agora tinha certeza de que a intenção de Otaviano era exibi-la acorrentada em carro aberto em seu triunfo pelas ruas de Roma, perante o populacho da cidade.

Então, no dia 12 de agosto de 30 A.C. (alguns defendem que foi no dia 10), Cleópatra pediu aos seus captores para que lhe fosse permitido entrar no mausoléu para proceder alguns ritos religiosos em honra de Antônio. Obtida a permissão dos romanos, Cleópatra tomou banho, fez uma suntuosa refeição e mandou as suas duas servas de maior confiança, que se chamavam Charmion e Iras, vestirem-na com os trajes de gala da realeza ptolomaica.

Enquanto isso, chegou na antessala dos aposentos de Cleópatra, um camponês trazendo um cesto. Os guardas perguntaram o que havia dentro dele e o camponês respondeu que eram figos para a rainha, abrindo a tampa. Os guardas olharam e o camponês, sorrindo, disse que eles poderiam ficar com alguns.  Acreditando que não havia motivo para desconfiarem, os guardas deixaram o homem entrar e deixar o cesto no quarto.

Após o banho, Cleópatra chamou um mensageiro e entregou uma mensagem em uma tabuleta selada para que fosse entregue a Otaviano. Depois que o mensageiro saiu, Iras e Charmion trancaram as portas do aposento.

Quando Otaviano abriu a carta e leu o seu conteúdo, o seu rosto deve ter ficado lívido: entre várias lamentações e pedidos, Cleópatra implorava para que ele a enterrasse junto com Antônio. O futuro imperador percebeu imediatamente do que se tratava e mandou que alguns dos seus auxiliares fossem o mais rápido possível até os aposentos de Cleópatra. Todavia, quando os guardas romanos, que ainda não sabiam de nada, abriram as portas, encontraram Cleópatra já sem vida, deitada sobre uma colcha de ouro, vestida com os trajes reais. Eles ainda puderam ver que Iras agonizava,  já sem sentidos, aos pés da sua rainha, e, por sua vez,  Charmion,  também já quase desfalecendo, arrumava o diadema sobre a testa de Cleópatra. Plutarco conta que alguém, indignado, chegou a dizer, em tom de repreensão: “Bela ação, Charmion!“, tendo a serva respondido, antes de também cair morta:

“Sem dúvida, é a mais bela, e condizente com a descendente de tantos reis”

Uma das muitas representações artísticas da morte de Cleópatra está no Museu dde Belas Artes de Toulouse, por Jean-André Rixens (1874), Public domain, via Wikimedia Commons

Tanto Plutarco quanto Dião Cássio afirmam que ninguém soube a causa exata da morte de Cleópatra, mas que havia duas picadas no braço. O primeiro menciona os comentários de que ela foi mordida por uma áspide (serpente) a qual estaria escondida no cesto de figos, e o segundo, que o réptil estaria dentro de um jarro d’água. Mas os dois historiadores também citam que havia quem afirmasse que Cleópatra teria usado um palito ou prendedor de cabelo oco, contendo veneno, para se espetar. Provavelmente, segundo Plutarco, a versão da picada da cobra também era a que Otaviano acreditava, pois, no triunfo que ele celebrou pela vitória sobre Cleópatra, uma imagem da rainha egípcia com uma serpente agarrada nela foi carregada junto com a  procissão. (Nota: falaremos dessa imagem, e da aparência de Cleópatra, em nosso próximo artigo: “O Retrato Perdido de Cleópatra“. Vide https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/S0068246200000404).

Ao receber a notícia da morte de Cleópatra, Otaviano ficou consternado, tanto pela grandeza de  espírito  que ela demonstrara, quanto pelo fato de ele ter sentido que ela lhe roubara a glória do seu tão desejado triunfo. Se verdadeiro o relato de Dião Cássio, Otaviano chegou a mandar que fossem administradas drogas e sugado o sangue de Cleópatra por um membro da tribo dos Psylli, especialistas em serpentes, em uma vã tentativa de ressuscitá-la.. Seja como for, ele deu ordens para que o corpo dela fosse sepultado ao lado do de Marco Antônio, com a pompa da realeza. E até Charmion e Iras também tiveram direito a um enterro solene.

EpílogoVitória na “Batalha dos Genes”

Quando morreu, Cleópatra tinha 39 anos de idade. Com a morte dela, o Egito foi incorporado como uma província de Roma (o Império Romano começaria oficialmente em 27 A.C., com Otaviano recebendo o título de “Princeps” e o cognome de Augusto, tornando-se o primeiro imperador).

Os três filhos que  Cleópatra teve com Marco Antônio  foram poupados por Otaviano e, depois deles serem exibidos na procissão triunfal pelas ruas de Roma, foram entregues para serem criados pela irmã dele, Otávia.

Os meninos não atingiriam a idade adulta e não se sabe ao certo o que aconteceu com eles.

Contudo, a menina, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II, da Numídia, tornando-se rainha da Mauritânia, e boa parte dos estudiosos acredita que o filho dela, Ptolomeu da Mauritânia, através do casamento com Júlia Urania, teve como filha Drusilla da Mauritânia, que, por sua vez, casou-se, em segundas núpcias, com Gaius Julius Sohaemus Philocaesar Philorhomaeus, membro da família real da cidade síria de Emesa (os Sempseramidas, que também eram sumo-sacerdotes do deus El-Gabal), o qual reinou, como rei-sacerdote, entre 54 e 73 D.C..

Busto de Ptolomdu da Mauritânia, Museu do Louvre, foto de Marie-Lan Nguyen 

Sohaemus e Drusilla tiveram um filho, de nome Gaius Julius Alexion, que também reinou em Emesa, entre 73 e 78 D.C (após o que o reino foi incorporado à Província Romana da Síria) e é mencionado em uma inscrição tumular em Emesa como sendo pai de Gaius Julius Sampsiceramus, que, por sua vez, é considerado por alguns prosopografistas como antepassado de Gaius Julius Bassianus, sumo-sacerdote de El-Gabal.

O motivo pelo qual estamos traçando para o leitor esta talvez tediosa genealogia é porque Gaius Julius Bassianus foi o pai de Júlia Domna, uma integrante da família real de Emesa que casou com o futuro imperador romano Septímio Severo (193-211 D.C.), e foi mãe dos imperadores Geta (209-211 D.C) e Caracala (198-217 D.C). Por sua vez, Júlia Maesa, a outra filha de Bassianus, teve duas filhas, Julia Soemias Bassiana, que foi a mãe do imperador romano Elagábalo (Heliogabalus 218-222 D.C). e Julia Avita Mamea, mãe do imperador romano Severo Alexandre (222-235 D.C).

Busto da imperatriz Julia Domna
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Domna_(Julia_Pia),inv._2210,_RomanBraccio_Nuovo,_Museo_ChiaramontiVatican_Museums-_DSC00897.jpgna, no Museu Chiaramonti, Vaticano,

Portanto, temos como uma grande ironia do destino o fato de que é altamente provável que Cleópatra seja antepassada direta de quatro imperadores romanos, enquanto que Augusto, o seu algoz, somente teve dois descendentes diretos como imperadores: Calígula e Nero

Vale também citar que, entre os presumidos descendentes de Cleópatra está a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que alegava ser descendente da rainha egípcia, e que, no final do século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito, ameaçando a própria sobrevivência do Império Romano. Segundo relata a História Augusta, depois de derrotada e levada para Roma, em triunfo, Zenóbia teria se casado com um senador romano e com ele teve filhos. De fato, a efígie da rainha até mostra alguns traços de semelhança com as imagens convencionais de Cleópatra, notadamente o penteado ao estilo “melão. Porém, essa ascendência de Zenóbia é considerada por muitos estudiosos como bem menos provável.

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A rainha Zenóbia, de Palmira, uma possível descendente de Cleópatra, foto Classical Numismatic Group, Inc

CONCLUSÃO

Foi somente graças à Cleópatra que o Egito conseguiu ficar independente por mais 20 anos, depois da grande guerra civil de Roma. Valendo-se apenas de sua inteligência, ela influenciou os dois homens mais poderosos do Império mais poderoso que o Mundo Clássico até então havia conhecido, e, mais do que isso, manobrou-os para conseguir os seus objetivos políticos. E, por pouco, ela não conseguiu, ainda que isso pudesse ter durado apenas alguns anos, tornar Alexandria a capital do mundo romano e governá-lo junto com Marco Antônio, chegando próxima de criar uma dinastia “Júlio-ptolomaica”. Enfim, Cleópatra mostrou ao mundo que uma grande mulher não era inferior aos grandes homens do seu tempo.

Dificilmente um escritor ou roteirista conseguiria imaginar eventos de tamanha dramaticidade como a história de Cleópatra. Episódios como a entrada no palácio enrolada no tapete, o cruzeiro junto com César pelo Nilo, a morte trágica de Antônio e o próprio suicídio dela, caso fossem escritos como ficção, certamente seriam tachados de mirabolantes e até poderiam causar rubor ao seu autor. E, no entanto, tudo isso aconteceu de verdade!

Sem dúvida, Cleópatra foi…uma inimitável vivente!

FIM

©EduardoAndré

A BATALHA DE ADRIANÓPOLIS

“Então, os bárbaros, com olhos chispando de ódio, perseguiram os nossos, soldados, que se sentiam sem forças e sem sangue nas veias. Alguns caíram sem saber quem lhe golpeava, outros se viram sepultados pelos perseguidores, e alguns pereceram por ferimentos causados pelos próprios companheiros. E, apesar da debandada, nenhum bárbaro se condoía ou se apiedava dos que fugiam. Ademais, a fuga se via obstaculizada pelo grande número de oribundos que se queixavam do tormento das suas feridas. E a isso também se somava também o montão de cavalos feridos que cubriram os campos de cadáveres. A escuridão desta noite, na qual a lua não brilhava, terminou com este desastre irreparável, que representava uma grande calamidade para os romanos. Parece que nos primeiros momentos de escuridão, ainda que ninguém afirme tê-lo visto ou estado próximo, o imperador, quando se encontrava no meio dos soldados rasos, caiu ferido de morte por uma flecha, após o que lançou um último suspiro e morreu, ainda que seu corpo nãõ tenha sido achado em parte alguma.(…) Outros dizem que Valente não morreu imediatamente, mas sim foi conduzido junto com alguns poucos guardacostas e eunucos até uma cabana, que contava com um segundo andar bem protegido. E ali, enquanto era atendido por mãos inexperientes, rodeados de inimigos que ignoravam quem ele era, livrou-se da desonra do cativeiro. Porque, quando aqueles que o perseguiam tentaram arrombar as portas, fechadas a sete chaves, foram atacados com flechas disparadas da varanda da casa, Então, para que este obstáculo não lhes fizesse perder um minuto do seu pretendido saque, juntaram tochas e lenha, as amontoaram junto a casa, tocaram fogo e assim queimaram tanto o imóvel como aqueles que estavam dentro dele. Entretanto, um dos guardacostas conseguiu sair dali por uma janela e, quando foi capturado pelos bárbaros, contou-lhes o que haviam feito, dando-lhes um grande desgosto ao informá-los de que tinham acabado de perder uma ocasião de glória, porque podiam ter capturado um imperador romano vivo. Este mesmo jovem  depois conseguiu regressar para nossos soldados e lhes contou o que aconteceu. (…) Nesta perda de tantos homens ilustres, destacam-se as mortes de Trajano e Sebastianus, com quem caíram trinta e cinco tribunos, alguns sem comissão específica e outros comandando tropas. Também Valeriano e Equício, un dos quais era responsável pelos estábulos e outro pelo palácio. Entre eles podemos destacar também Potencio, tribuno dos veteranos, que caiu quando estava em plena flor da vida e era respeitado por toda a gente de bem, devido tanto a seus próprios méritos como aos de seu pai Ursicino, general no comando do exército no passado. O certo é que somente um terço do exército sobreviveu. Ainda que nos anais nunca tenha se lido acerca de alguma derrota romana que pudesse ser comparável a este massacre, com exceção da Batalha de Canas, em algumas ocasiões os romanos, prejudicados pela sorte, sofreram derrotas pontuais nas guerras. E também os relatos fabulosos dos gregos mostraram sua dor por muitas derrotas” .

Amiano Marcelino, “História”, Livro XXXI, 13,10

O texto acima foi escrito pelo historiador romano Amiano Marcelino,  relatando a catástrofe sofrida pelo Exército Romano e o desfecho da Batalha de Adrianópolis, ocorrida em  9 de agosto de 378 D.C., culminando com a morte do imperador romano do Oriente, Valente.

Como foi possível que essa tragédia romana ocorresse?

1- Prelúdio

O Império Romano passou por profundas transformações nos 100 anos anteriores ao saque visigodo.

Durante 350 anos, começando com Augusto, o primeiro imperador (e cujo nome, coincidentemente batiza o mês de agosto), que reinou entre 27 A.C e 14 D.C., a estratégia militar romana consistia na disposição de suas principais forças militares nas fronteiras, organizadas em 28 legiões (esse número se manteve relativamente estável durante esse período). Essas legiões eram, de início, formadas por legionários recrutados entre os cidadãos romanos que fossem italianos ou oriundos de colônias de italianos estabelecidas em territórios conquistados.

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Cada legião tinha cerca de 5 mil homens e ela consistia em uma unidade virtualmente autônoma, com seus quartéis, estábulos, fábricas de armas, corpos de engenheiros, etc. (Note-se que, com o tempo, muitos dos quartéis das legiões dariam origem a várias cidades europeias atuais). E o Exército Romano também recrutava contingentes da população que habitava as localidades nas quais as legiões estavam situadas, os quais formavam regimentos de Auxiliares (Auxilia). Tradicionalmente, havia um corpo de auxiliares para cada legião, com o mesmo número de soldados que os legionários.

Basicamente, esses Auxiliares eram utilizados como tropas de patrulha, empregados em escaramuças, ou então como tropas especializadas, como, por exemplo, arqueiros, fundibulários (fundas), cavalaria ligeira, etc., sempre de acordo com as habilidades guerreiras de cada povo. Após servirem pelo prazo de 20 anos, um Auxiliar ganhava o direito de pleitear a cidadania romana (que era conferida por decreto do próprio imperador – aliás, muitos desses diplomas de bronze sobreviveram e foram encontrados em escavações, os quais, certamente, foram guardados com muito orgulho pelos agraciados, vide foto abaixo).

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Como resultado positivo dessa estratégia, denominada de “defesa estática“, o estabelecimento das legiões nas fronteiras acarretou a “romanização” daquelas populações fronteiriças, Assim, pouco a pouco,  as legiões também começaram a recrutar localmente as suas tropas. Vale lembrar que o recrutamento de soldados sempre foi um problema que afligiu os romanos, já que, desde as reformas de Caio Mário, por volta de 100 A.C, o Exército Romano deixara de ser uma milícia de cidadãos que prestavam serviço militar, para se transformar no primeiro exército verdadeiramente profissional da História.

Entretanto, esse sistema demonstrou ser um fator de instabilidade política: Com efeito, após a derrubada e suicídio de Nero (68 D.C.), quando três generais comandantes de legiões disputaram o trono, tornou-se cada vez mais frequente, em tempos de crise, o surgimento de rebeliões daquelas legiões estacionadas nas fronteiras do Império. Na verdade, o próprio regime do Principado, que substituíra a República, descendia de um longo processo de tomada do poder pela força por políticos que também eram generais. Não é a toa que o título “Imperator” significava, na origem, ‘Comandante”…

Consequentemente, na prática, quase todo general à testa de uma legião era um candidato em potencial a Imperador,  e, ao menor sinal de fraqueza do imperador reinante, poderia ser aclamado como tal por suas tropas. E tal comportamento, sem dúvida, era decorrente do costume de se recompensar regiamente os legionários que serviam na legião, quando o seu comandante conseguia ser vitorioso na disputa (inclusive, houve vários casos em que toda a tropa, ávida pelas polpudas gratificações, aclamava o seu general imperador. mesmo contra a vontade deste! Ironicamente, isso tornava-se caso a rebelião fracassasse, uma sentença de morte para o coitado do general…).

Essa instabilidade militar chegou ao máximo durante o período que se denomina “Crise do Século III“, onde a média de duração de um reinado era pouco mais de um ano, e, algumas vezes, havia vários Imperadores rivais.

2- A reforma militar de Constantino

Finalmente, em 312 D.C.,, após mais uma dessas incontáveis rebeliões, Constantino, um general romano de origem ilíria, filho de um dos 4 co-imperadores nomeados por Diocleciano, no fracassado projeto de divisão racional do poder que este instituíra, chamado de “Tetrarquia”, derrotou o rival Maxêncio e se tornou Imperador.

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Constantino foi o responsável por  duas mudanças radicais, no campo político-administrativo e militar, que impactariam decisivamente o Império Romano nas décadas seguintes:

1) Reconhecendo que o território romano era grande demais para ser administrado por um imperador somente, instalado em apenas uma capital, resolveu, inspirado no precedente tentado por Diocleciano (tetrarquia), instituir uma divisão político-administrativa do império em duas metades – Ocidental e Oriental (Pars Occidens e Pars Oriens). A capital ocidental, predominantemente de fala latina, a princípio, continuou sendo Roma, mais tarde substituída, sucessivamente, por Milão e Ravena. Porém, para capital da parte oriental, onde se falava majoritariamente o idioma grego, ele escolheu a antiga cidade grega de Bizâncio, notória por suas qualidades defensivas (basicamente um triângulo de terra cercado de água em dois lados), que recebeu o nome oficial de “Nova Roma que é Constantinopolis“,  mais conhecida como Constantinopla;

2) Constantino também resolveu instituir um “Exército Central Móvel“, que ficaria sob o comando direto do Imperador, formado com os melhores contingentes das 28 legiões espalhadas pelo Império Romano. A elite do exército eram as tropas de cavalaria couraçada (Scholae Palatina). E os soldados desse exército central ficariam conhecidos como Comitatenses (literalmente, aqueles que fazem parte da “Comitiva” imperial). Esses soldados receberiam pagamento maior e melhores uniformes e equipamento do que os do restante do Exército Romano. Já as antigas legiões não seriam extintas, mas de certa forma, elas foram rebaixadas. Os seus integrantes passaram a ser denominados de “Limitanei” (isto é, os “fronteiriços”, ou “da fronteira”), que recebiam pagamento menor. Como o tempo demonstraria, essas tropas, paulatinamente, acabaram definhando e virando uma espécie de guarda provincial de fronteira.

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A maior parte dos estudiosos acredita que, mais do que preocupação com a estratégia militar defensiva imperial, o grande objetivo de Constantino era assegurar a estabilidade de seu trono e continuidade da sua própria dinastia., no que, aliás, ele foi bem sucedido, pois ele mesmo reinou 25 anos e a sua dinastia duraria 50 anos.

A criação de um Exército Central Móvel, na forma adotada por Constantino, consagrou a adoção do que se chama, em ciência militar, de estratégia de “defesa em profundidade“, cuja principal característica é o reconhecimento de que os inimigos atacantes não poderão ser detidos nas fronteiras, e, inevitavelmente, eles penetrarão o território do império, devendo as tropas fronteiriças apenas retardar ou atrapalhar o avanço do exército inimigo em solo pátrio, até que o mesmo seja engajado e derrotado pelo exército principal do país, onde for mais recomendável.

3- A ameaça nas fronteiras

O problema é que essa mudança estratégica romana ocorria em meio a dois acontecimentos ocorridos no exterior que teriam consequências gravíssimas: o primeiro, já do conhecimento dos romanos, era o renascimento de um império persa nacionalista e militarmente agressivo, que 40 anos antes, tinha-lhes infligido duras derrotas, inclusive com a captura, pela primeira vez, de um imperador romano em campo de batalha (Valeriano, em 260 D.C.), que havia imprudentemente invadido a Mesopotâmia.

Em 363 D.C., o último integrante da dinastia de Constantino, o Imperador Juliano (denominado de “O Apóstata”, pois ele renunciou à fé cristã e tentou restaurar os deuses pagãos) sofreu nova derrota desastrosa na Pérsia, onde ele morreu após ser ferido em batalha. O sucessor, dele, Joviano, teve que negociar um tratado humilhante para conseguir sair da Pérsia com o que sobrou do exército romano de 90 mil homens, um dos maiores já reunidos em toda história do império. Amiano Marcelino foi um historiador romano que participou dessa campanha como soldado e deixou um relato excepcional da campanha. Sobre Juliano, vale a pena ler o livro homônimo, do escritor americano Gore Vidal, um romance histórico magistralmente escrito).

Mas foi o segundo fato, ocorrido na longínqua China e então desconhecido dos romanos, que causaria uma sucessão de eventos que redundaria, décadas mais tarde, no Saque de Roma: a migração dos Hunos.

Derrotados após uma tentativa de conquistar o Império Chinês, os Hunos se voltaram para o Ocidente. Atravessando a Ásia Central, em hordas invencíveis de milhares de arqueiros montados, os hunos foram empurrando povos e mais povos, em um verdadeiro efeito dominó, em direção ao Oeste, gerando o aumento dos conflitos na fronteira romana do Reno/Danúbio.

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Assim, o cenário militar romano em meados do século IV era aquele que assombra o imaginário de qualquer líder militar: o de uma guerra em dois fronts!

Um dos povos que foram desalojados pelos hunos eram os Godos, um povo germânico de origem escandinava que havia migrado para a região do Danúbio, estabelecendo-se nas proximidades da antiga província romana da Dácia (aproximadamente a Romênia atual).

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Em 376 D.C., uma vasta migração dos Godos Thervingi, liderados pelo chefe Fritigern, totalizando cerca de 200 mil pessoas, pediu autorização ao Imperador Romano do Oriente, Valente, para cruzar o rio Danúbio e se instalar na província romana da Moesia, no que, na verdade, era quase um pedido de asilo. Foi dada a permissão, sob a condição de que eles entrariam desarmados, mas ficariam sujeitos ao serviço militar (os romanos sempre costumavam empregar bárbaros como tropas, e durante a dinastia de Constantino, o emprego de tropas germânicas tinha aumentado bastante, ao ponto de influenciar o equipamento, vestuário e até o grito de guerra dos soldados romanos)

Em geral, a História e os achados arqueológicos demonstram que os povos germânicos, ao longo dos quase 400 anos que separam o ano de 100 A.C, quando as fontes romanas pela primeira vez mencionam a invasão da Itália pelos povos denominados de Cimbros e Teutões ([invasão derrotada por Mário), do aparecimento dos Godos na fronteira do Danúbio, no final do século III, vinham sendo influenciados pelo Império Romano, mas sempre mantendo uma consciência que poderíamos chamar de “étnico-cultural” ou nativista muito forte (o que ficou demonstrado na resistência comandada por Arminius – ou Herrmann, o Germânico – à penetração romana na Germânia, em 9 D.C, infligindo aos romanos a destruição de três legiões e o abandono definitivo do projeto romano de transformar a região em província romana, com consequências duradouras para a história dos dois povos no futuro).

A mudança mais importante observada na sociedade germânica ao longo desses séculos de contato com os romanos, foi a tendência à aglutinação das antes isoladas tribos em grandes confederações, como por exemplo, a dos Alamanos, que em sua origem etimológica, quer dizer “All men” (todos os homens), e acabaria dando nome a um futuro país (Alemanha), e a dos Francos (que, curiosamente, daria nome ao maior rival da Alemanha, a França).

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Outra mudança notada entre os povos germânicos, que, para alguns estudiosos, foi consequência do contato com os romanos, foi a crescente sofisticação e especialização militar dos contingentes armados, em contraste com os grupos mais primitivos de guerreiros no início da era cristã. Para saber mais sobre todos esses fenômenos envolvendo as tribos germânicas, recomendamos a leitura do livro “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians“, do historiador Peter Heather).

É certo que essas confederações germânicas cooperavam entre si no embate contra os romanos. Assim, ataques na fronteira do Reno eram combinados com ataques no Danúbio. E sabe-se que, algumas vezes, quando chegava a notícia de uma derrota militar romana na Pérsia, desencadeava-se uma série de ataques germânicos oportunistas.

Por outro lado, ficou evidenciado que, ao longo dos séculos, os germanos passaram a apreciar mercadorias produzidas no Império Romano, como demonstram os achados arqueológicos de sepulturas germânicas do período.

Note-se que, durante muito tempo, inúmeros germanos serviam no exército romano, mas depois eles voltavam para viver junto ao seu povo, trazendo consigo a expertise militar romana (Arminius, inclusive, havia sido um precursor disso, pois ele comandava um contingente de Auxiliares do Exército Romano).

Desde o século IV, os Godos haviam se convertido ao Cristianismo, embora o professassem sob a doutrina denominada de Arianismo, considerada heresia pela Igreja Católica (porque idealizada pelo bispo Ário – nome que nada tem a ver com “raça ariana”, por favor!).

A História conta que, após entrarem no Império Romano, os Godos foram muito maltratados pelos governadores das províncias romanas onde se estabeleceram. Grassava a fome entre eles e os oficiais romanos cobravam preços extorsivos pelos grãos estocados nos celeiros do Estado. Alguns chegaram até a escravizar alguns godos.

Os germanos não conseguiram suportar as injustiças e arbitrariedades dos romanos por muito tempo e eles rebelaram-se. As autoridades romanas, não percebendo a gravidade da ameaça, mandaram um contingente militar insuficiente para reprimir a rebelião, e essas tropas romanas foram derrotadas. Assim, por dois anos, os Godos conseguiram assolar a região.

4- A Batalha de Adrianópolis

Assim, em 378 D.C, o Imperador Romano do Oriente, Valente, decidiu  marchar e comandar em pessoa o Exército Central e esmagar os Godos. O imperador do Ocidente, Graciano, já havia se comprometido a enviar também o seu Exército, porém, de acordo com a versão mais prevalente, Valente,  querendo os louros da vitória somente para si, resolveu fazer uma marcha forçada e dar combate aos Godos sem esperar os reforços ocidentais.

Fritigern, que era um hábil comandante, sabedor que não poderia enfrentar os 40 mil soldados de Valente em campo aberto, resolveu “entrincheirar-se” e mandou que os carroções em que o seu povo, homens, mulheres e crianças, moravam e viajavam (parecidos com aqueles que os pioneiros americanos usaram na Conquista do Oeste) formassem um círculo protetor (laager) em uma colina, próxima a Adrianópolis, na Trácia. E mandou que a sua cavalaria, que tinha um efetivo estimado entre 10 e 20 mil homens ficasse ao largo. Dentro do laager, talvez estivessem 20 mil guerreiros, além de muitos milhares de mulheres, que talvez ajudassem nos combates. Quando viu os romanos se aproximando, Fritigern mandou atear fogo ao campo na planície em volta da colina e enviou mensageiros para atrasar os romanos e outros para chamar a cavalaria.

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Em 9 de agosto de 378 D.C.,  os romanos chegaram ao campo de batalha após uma marcha forçada de sete horas e, sem descanso, eles preparam-se para atacar os godos.

Amiano Marcelino conta que uma unidade romana, demonstrando falta de disciplina, acabou atacando sem esperar as ordens e precipitando o avanço. Enquanto isso, a cavalaria goda chegou e atacou o flanco direito  dos romanos, prevalecendo sobre a cavalaria romana, que fugiu. A visibilidade era ruim, devido a fumaça e a poeira e o sol e ocalor do verão eram intensos, o que afetava mais os soldados romanos fatigados pela marcha. Os romanos não perceberam que sua cavalaria tinha sido dispersada e avançaram colina acima em direção ao laager.

Então, os guerreiros godos, saindo do círculo de carroções, atacaram o lado esquerdo dos romanos que, por sua vez, foram atacados pela retaguarda pela cavalaria goda que havia dado a volta. Os romanos foram obrigados a avançar para a base da colina.

Valente percebeu o movimento e avançou, porém, a massa compacta de soldados não conseguia mais manobrar. Os romanos foram completamente envolvidos e acabaram sendo massacrados. O imperador, segundo relatos, morreu lutando, e o seu corpo nunca foi encontrado, perdido entre a massa de 40 mil soldados romanos caídos.

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5- Conclusão

Amiano Marcelino encerra a sua História com o relato sombrio e emocionante da Batalha de Adrianópolis. É expresso o reconhecimento do desastre: Dois terços do Exército Romano do Oriente foram eliminados em uma tarde. Ele relaciona com tristeza o número imenso de generais e oficiais romanos que morreram na Batalha.

Assim, o Império Romano sofrera duas derrotas humilhantes no espaço de 15 anos. o historiador Arther Ferril (“A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”) compara essa situação ao clima que se abateu sobre o exército americano após a derrota para o Vietnã.

Após a Batalha de Adrianópolis, na prática, não havia mais exército romano no Oriente. Os Godos, imediatamente apos a vitória, tentaram saquear Adrianópolis, mas, desprovidos de máquinas de assédio, e ignorantes da arte da guerra de sítio, não conseguiram. Mas eles pilharam toda a província e, mais importante, saquearam os arsenais do exército.

Durante os próximos 30 anos, os romanos teriam que enfrentar um fato que não acontecia na história romana desde a  Segunda Guerra Púnica, entre 220 a 202 A.C: Um exército estrangeiro armado movendo-se e vivendo em solo romano. Só que agora porém, era um povo inteiro que demandava um pedaço de território romano para viver!

Após a derrota romana na Batalha de Adrianópolis, com a morte em combate de Valente, o sobrinho deste, Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente. virou, por direito, o soberano das duas metades do Império Romano.

Ocorre que Graciano só tinha 19 anos na ocasião e ele já estava suficientemente assoberbado com as invasões dos Alamanos e outros povos germânicos na Gália, sendo, portanto, incapaz de lidar com os invasores godos na parte oriental. O jovem imperador acabou por ver se obrigado a escolher um colega mais experiente para governar a parte oriental do Império Romano e a escolha recaiu sobre o prestigiado general espanhol Teodósio. Este, basicamente mediante a diplomacia, conseguiria manter momentaneamente os Godos sob controle. Porém, o fato é que os bárbaros germânicos agora tinham vindo para ficar e eles permaneceriam no seio do Império até a sua Queda em 476 D.C., e além….

FIM

Fontes:

1- Amiano Marcelino, “História”

2-Arther Ferril, “A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”

3- Peter Heather, “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians”

ELE, CLÁUDIO, IMPERADOR

Em 1º de agosto de 10 A.C., nasceu, em Lugdunum, na Gália (atual Lyon),  Tiberius Claudius Nero Germanicus (Cláudio), filho de Nero Claudius Drusus (Druso) e de Antônia, a Jovem, filha do casamento do triúnviro Marco Antônio com Otávia, a irmã de Augusto.

Assim, pela linha materna, Cláudio era parente de Júlio César, uma vez que a sua mãe era neta de Júlia, a Jovem, irmã de César e sobrinho-neto do imperador Augusto.

Por sua vez, pela linha paterna, Cláudio era neto da imperatriz Lívia Drusila (Júlia Augusta), a esposa do primeiro imperador romano, Augusto, pois seu pai era o segundo filho do primeiro casamento de Lívia com Tibério Cláudio Nero, de quem ela se separou já grávida do caçula para se casar com Otaviano, antes deste tornar-se imperador e passar a ser chamado de Augusto.

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O Pai de Cláudio, Druso, devido às suas importantes vitórias contra os bárbaros germânicos, recebeu o cognome “Germanicus”, e ele era também o irmão mais novo de Tibério, que seria o sucessor de Augusto no trono.

Antes de Cláudio nascer, Druso e Antônia já haviam concebido Germanicus Julius Caesar (Germânico), que se tornaria um célebre general e cairia nas graças de Augusto (e também da plebe romana). E quando o velho imperador adotou Tibério como herdeiro, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse Germânico, pelo fato de que, tirando o rapaz, Augusto não tinha mais nenhum outro parente consanguíneo do sexo masculino capaz de dar continuidade à linhagem dos Júlios.

Porém, ao contrário do seu irmão mais velho, Cláudio passaria a sua infância, adolescência e toda a juventude em completa obscuridade, expressamente por determinação de Augusto e de Lívia, com os quais ele viveu durante um bom tempo, e, depois deles, pela vontade de seu tio Tibério, ficando, assim, afastado das aparições públicas da família imperial e sem ter qualquer papel público, ainda que cerimonial, a desempenhar.

Os motivos do ostracismo a que Cláudio foi relegado no seio da família imperial, segundo os autores antigos, seriam os distúrbios físicos e mentais que ele manifestava desde menino, considerados por Augusto e Lívia como comprometedores da dignidade da dinastia dos Júlio-Cláudios. E a própria mãe de Cláudio, segundo  Suetônio, referia-se ao filho como sendo “um monstro“.

O diagnóstico da doença de Cláudio não é preciso nas fontes, mas elas mencionam o fato dele mancar, gaguejar, ser acometido por tremores e ter corrimentos no nariz. Por isso, alguns acreditam que Cláudio pode ter contraído poliomielite, ou, o que parece mais provável, dele ter sofrido algum tipo de paralisia cerebral na infância. Alguns defendem, ainda, que a doença dele seria a Síndrome de Tourette, uma desordem neuropsiquiátrica que causa tiques nervosos.

No entanto, o próprio Augusto, em uma carta à Lívia, citada por Suetônio, certa vez observou que Cláudio era mais inteligente do que ele aparentava, tendo ficado impressionado com a sua boa declamação. Não obstante, Cláudio seria mantido afastado de qualquer cargo ou função oficial durante todo o reinado do tio, ao contrário do irmão dele, Germânico.

A sociedade romana, como a maior parte das civilizações da Antiguidade, não tinha muita compaixão pelos deficientes físicos, e a família entendia que os sintomas da enfermidade de Cláudio eram desvios de caráter e deveriam ser corrigidos pela disciplina e castigos.

O próprio Cláudio, na autobiografia que ele escreveria anos mais tarde, e que não chegou até os nossos dias, contou que a sua família contratou um bárbaro que era condutor de mulas para ser o seu tutor, com o objetivo de que este se valesse da mais férrea disciplina e castigos severos para tentar melhorar a sua condição.

Assim, até mesmo em sua cerimônia da assunção da toga virilis (que simbolizava a passagem da infância para a idade adulta para os rapazes romanos, normalmente aos 14 anos de idade), que era um evento público marcante para  os jovens da família imperial, Cláudio foi escondido dos olhares do público, pois ela ocorreu durante a noite, com ele sendo carregado oculto no interior de uma liteira.

Como não tinha um papel público a desempenhar, Cláudio então tomou interesse pelo estudo de História e pela Literatura. O grande historiador romano Tito Lívio foi contratado para ser seu professor e ele também foi aluno do filósofo estoico Atenodoro.

E tudo indica que Cláudio se tornou um leitor voraz. Ainda muito jovem ele estudaria obras históricas sobre vários povos e, segundo as fontes antigas, ele foi a última pessoa capaz de ler a língua escrita etrusca em Roma, idioma que até hoje não foi completamente decifrado.

Começando ainda na juventude, ao longo da vida, Cláudio escreveria 43 livros sobre a História de Roma, a Thyrrenica, contendo 21 livros sobre a História dos Etruscos, além da Carthagenica, uma História de Cartago contendo 8 livros, um livro sobre filologia e uma defesa das acusações de Asinio Polião contra Cicero, além da sua própria autobiografia em 8 volumes. Infelizmente, nenhuma destas obras sobreviveu, mas algumas foram citadas por autores antigos.

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(Tabula Cortonensis, contendo um texto em etrusco)

Outra obra que é mencionada pelas fontes é um tratado sobre jogos de dados. Segundo as fontes, Cláudio era fanático por este tipo de jogos, o que seria motivo de alfinetadas dos historiadores e objeto de muitas sátiras.

Cláudio também era interessado em linguística e escreveu um livro defendendo a introdução de três novas letras no latim, “A Claudian letter“, “” e “A Claudian letter“, duas delas equivalentes ao Y e ao W. Mais tarde, após se tornar imperador, ele, no exercício do cargo de Censor, determinou que essas letras fossem adotadas oficialmente, mas isso não perdurou por muito tempo (na foto abaixo, uma raríssima inscrição contendo uma delas).

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Quando Augusto morreu, em 19 de agosto de 14 D.C., Cláudio, que já tinha 23 anos de idade, sentiu-se confiante em pedir ao sucessor, o seu tio, Tibério, que lhe fosse permitido começar a trilhar o cursus honorum, a carreira pública das magistraturas. Contudo, Tibério preferiu dar apenas a Cláudio os ornamentos consulares, o que podemos considerar como uma mera consolação, já que isso significava na prática apenas uma condecoração honorífica, permanecendo Cláudio afastado de qualquer cargo ou função pública.

Eu creio que o motivo de Tibério continuar negando ao sobrinho qualquer papel público tinha a ver com o fato da família de Cláudio estar no centro das intrigas dinásticas dos Júlio-Cláudios referentes à posição de herdeiro de Tibério. Com efeito, o seu irmão, Germânico, era visto como potencial rival de Tibério ao trono. E sua irmã, Livilla, que, reportadamente, desprezava Cláudio, era esposa do filho de Tibério, Druso, o Jovem.

Não obstante, as fontes relatam que, durante o reinado de Tibério, com o passar do tempo, o público passou a ter uma boa impressão de Cláudio, que começou a receber algum reconhecimento.

Por exemplo, a classe dos Equestres escolheu-o duas vezes para liderar uma delegação para apresentar uma petição ao imperador. O Senado Romano também votou que  Cláudio fosse nomeado como membro especial dos sacerdotes do culto a Augusto, e, mais importante, os senadores pediram a Tibério que Cláudio pudesse participar das sessões do Senado, o que, entretanto foi negado.

Tudo isso mostra que a exclusão de Cláudio da carreira política decorria de decisão direta do trono, e não de alguma incapacidade física ou mental dele ou do repúdio por parte da população.

Em 19 D.C., Germânico morreu em Antioquia, em circunstâncias suspeitas. Historiadores antigos, como Tácito, dão crédito à tese de que ele foi envenenado a mando de Lívia e Tibério.

Na época em que Germânico morreu, já se notava o grande poder que o comandante da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano exercia em Roma. Ele expandira a guarnição dos pretorianos, que foi centralizada em um grande quartel fortificado, adjunto às muralhas da cidade.

O poder de Sejano era tanto que Tibério, certa vez referiu-se a ele como “meu sócio-trabalhador“. E Sejano, de fato, tinha altas pretensões…

Em 20 D.C., Sejano  arranjou o casamento de sua filha, Junilla, com o filho de Cláudio, Claudius Drusus, ocasião em que as duas crianças tinham apenas quatro anos de idade. Porém, os planos de Sejano foram por água baixo, porque, poucos dias depois deste arranjo, o menino morreu engasgado com uma pera.

Claudius Drusus era o filho mais velho de Cláudio com sua primeira esposa, Plautia Urgulanilla, filha de Marcus Plautius Silvanus, um grande amigo da imperatriz Lívia e que era de origem etrusca. É bem possível que daí tenha vindo o interesse de Cláudio pela civilização etrusca. Cláudio e Urgulanilla se casaram por volta do ano 9 D.C., quando ele tinha dezoito anos de idade.

Contudo, o primeiro casamento de Cláudio já ficaria marcado pela suspeita de má conduta da esposa, algo que se repetiria nas suas uniões posteriores. Ele, assim, divorciou-se de Urgulanilla, que, cinco meses depois, deu a luz a uma filha, chamada de Cláudia. Suspeitava-se até que a menina fosse filha do liberto Boter. Por isso, Cláudio repudiou também a criança e mandou depositá-la, nua, na soleira da porta da casa onde a ex-mulher fora morar.

Passado esse escândalo, Cláudio deve ter se sentido muito ameaçado quando Druso, o Jovem, o filho e herdeiro oficial de Tibério, morreu, em 14 de setembro de 23 D.C., de uma misteriosa enfermidade, fato que ocorreu pouco tempo após uma séria desavença dele com Sejano. Para alguns historiadores antigos, como Tácito e Dião CássioSejano foi o responsável pela morte de Druso por envenenamento, empresa na qual ele teria sido auxiliado pela esposa do falecido e irmã de Cláudio, Livilla, que teria sido seduzida pelo Prefeito Pretoriano e dele se tornara amante.

Em 25 D.C., Sejano pediu formalmente a Tibério permissão para se casar com Livilla, o que foi recusado pelo velho imperador, que, após exaltar os méritos do subordinado, observou, candidamente, que Sejano, tendo nascido na classe Equestre, estava abaixo da posição social de Livilla, uma integrante da família imperial.

Mesmo assim, no ano seguinte, Tibério foi viver na ilha de Capri, em um auto-exílio voluntário que duraria onze anos, deixando, informalmente, o governo nas mãos de Sejano.

Em 28 D.C., Cláudio casou-se com  Aelia Petina, que era irmã de criação de Sejano, pois havia sido cirada pelo pai dele, Lucius Seius Strabo, um dos primeiros comandantes da Guarda Pretoriana, e antecessor do filho neste comando.

O casamento de Cláudio e Aelia Petina certamente deve ter sido por influência de Sejano. Um indício é o fato de que, assim que assim que este foi demitido do cargo e executado por ordens de Tibério, em 31 D.C., Cláudio imediatamente divorciou-se de sua segundo esposa, alegando motivos insignificantes. Mesmo assim, eles tiveram uma filha, Claudia Antonia, que seria criada pela mãe de Cláudio, Antônia, a Jovem.

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(Estátua de Cláudia Antònia, filha de Cláudio.

Antes da queda, contudo, Sejano, que controlava toda informação entre Roma e Capri e agia como virtual governante de Roma, começara a eliminar os seus desafetos e adversários políticos. E seu alvo preferencial foi Agripina, a Velha, a esposa do falecido Germânico, irmão de Cláudio, que foi exilada em 30 D.C. Ela vinha acusando publicamente Tibério e Lívia de serem os mandantes da morte do esposo. O filho de AgripinaNero Julius Caesar Germanicus (não confundir com o futuro imperador Nero) também foi exilado e morreria no ano seguinte.

Já o filho homem mais novo de Agripina e sobrinho de Cláudio, Gaius Caesar, de 18 anos, que tinha o apelido de Calígula, foi poupado, mas passou a morar com Tibério, em Capri.

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(Busto de Agripina, a Velha)

Anos mais tarde, Cláudio mencionaria, em uma ocasião, que, durante esses anos de intrigas palacianas e de terror pela eliminação dos seus parentes, ele costumava exagerar os seus problemas físicos e passou a fingir ser um completo idiota, com o objetivo de parecer inofensivo a todos, tentando manter-se vivo.

Enquanto isso, após a queda de Sejano, como vimos, Cláudio divorciou-se da irmã de criação do Prefeito Pretoriano caído em desgraça e continuou vivendo na obscuridade até a morte de Tibério, que faleceu com 77 anos de idade, em Capri, em 16 de março de 37 D.C..

Dois dias depois, Tibério foi oficialmente sucedido por Calígula, que era sobrinho de Cláudio. E foi Calígula quem deu a Cláudio o primeiro cargo público que ele ocuparia na vida, o de Cônsul Suffectus, em 37 D.C, com 46 anos de idade!

Apesar da nomeação para o cargo de Cônsul, a condição de Cláudio não melhorou muito, pois Calígula logo mostrou-se um monarca cruel e incontrolável, e o seu tio Cláudio era um dos alvos preferidos de suas pilhérias e deboches, inclusive infligidos algumas vezes perante o Senado Romano.

Em 38 D.C., Cláudio casou-se, pela terceira vez, com Valeria Messalina, integrante de uma ilustre família senatorial, e também sua prima em 2º grau, pois ela era neta da irmã de sua mãe, Antônia, a Velha. No ano seguinte, Messalina deu a Cláudio mais uma filha, que recebeu o nome de Claudia Octavia.

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(Cabeça de Claudia Octavia, filha de Cláudio)

No entanto, o reinado de Calígula seria curto. Fartos de seus desmandos e desacatos, alguns senadores e membros da Guarda Pretoriana, estes liderados pelo tribuno Cássio Queréa, urdiram uma conspiração e assassinaram Calígula, durante uns jogos que eram celebrados no Palatino, em 24 de janeiro de 41 D.C.

A conspiração parece, à primeira vista, ter sido motivada primordialmente pelo desejo de alguns de se livrar de um governante ensandecido, que ameaçava os que estavam próximos do poder, e executada por pretorianos humilhados pelo imperador. Se o assassinato de Calígula fazia parte de um plano maior, de restaurar a República, nós não sabemos, mas as fontes relatam que, inicialmente, alguns senadores perceberam essa oportunidade.

Segundo os relatos das fontes, após o assassinato, os guarda-costas germânicos de Calígula entraram em um frenesi de violência e começaram a massacrar quem encontravam pela frente. Cláudio fugiu para o Palácio (ou para a sua casa, a narrativa variam em função da fonte).

Enquanto isso, os guardas pretorianos, também fora de controle, invadiram os aposentos imperiais para saqueá-los. Foi durante essa invasão que um dos guardas, que se chamava Gratus, notou alguém escondido atrás de uma cortina. Ao puxá-la,  ele encontrou Cláudio e arrancou-o do seu esconderijo, ocasião em que perceberam que aquele homem era o tio do imperador. Ato contínuo, os soldados aclamaram Cláudio,Princeps“, e o levaram até o quartel da Guarda Pretoriana.

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Grato proclama Cláudio imperador. Tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871

Dião Cássio e Flávio Josefo narram que Cláudio, sincera ou fingidamente, tentou recusar a púrpura imperial, mas acabou cedendo à pressão dos guardas para que ele assumisse o trono. Eles também mencionam que chegou a haver alguns senadores, especialmente Sentius Saturninus (que fez no Senado um discurso neste sentido), e, até mesmo, alguns pretorianos, que cogitaram de acabar com o Principado e restaurar a República Romana, tal como ela era nos tempos anteriores aos Césares.

E de fato, consta que o Senado, cogitando enfrentar os partidários de Cláudio, chegou a mobilizar na oportunidade os parcos recursos armados que a cidade de Roma dispunha. Porém, este contingente, composto apenas por alguns soldados, vigiles (espécie de bombeiros), gladiadores e até escravos libertos dos senadores, logo debandou para o lado dos Pretorianos que apoiavam Cláudio.

Esse estado de indefinição entre a aclamação de Cláudio e a restauração da democracia, segundo Suetônio, durou dois dias, ao final dos quais o historiador narra  que teria ocorrido uma crucial intervenção de uma massa de populares gritando pela elevação de Cláudio, que também teria prometido quinze mil sestércios como donativo aos soldados que o aclamaram imperador.

Realmente, não há como ter certeza se Cláudio foi um mero espectador da conspiração que assassinou Calígula, ou se ele sabia e concordou com o plano. Não obstante, os guardas liderados por Lupus, seguindo ordens de Queréa, após finalizarem Calígula, e, ao que parece isto não teria ocorrido imediatamente, dirigiram-se até o Palácio e executaram a imperatriz Cesônia e a filha de Calígula , de apenas dois anos de idade, que teve a cabeça esmagada contra uma parede. Eu acredito que dificilmente os militares ousariam fazer isso se não tivessem a aprovação de alguém poderoso, talvez algum senador disposto a restaurar a República ou algum pretendente ao trono…

Aos cinquenta anos de idade, Cláudio foi oficialmente aclamado pelo Senado, com o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e ele perdoou oficialmente todos os senadores e pretorianos que tinham conspirado para assassinar o seu antecessor, bem como aqueles que haviam se manifestado pelo fim do Principado. (considera-se que o seu reinado começou no dia da morte de Calígula, 24 de janeiro de 41 D.C., quando ele foi aclamado imperador pelos soldados que o encontraram no esconderijo).

Sintomaticamente, contudo, Queréa e Lupus foram imediatamente executados…

Nota: Cláudio, ao incorporar o nome “Caesar“, apesar de ele não ter sido adotado como herdeiro por Calígula (havia uma linha de adoção formal ligando respectivamente cada um dos imperadores romanos a Júlio César, desde Augusto até Calígula), iniciou a transformação do nome do antigo Ditador em um título imperial.

Poucas semanas depois da aclamação de Cláudio, Messalina deu à luz ao seu primeiro herdeiro, que se chamou Tibério Cláudio Germânico.

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A imperatriz (Messalina, com o filho Britânico em seu colo)

O nascimento do filho foi muito comemorado por Cláudio, que com orgulho passou a levar o bebê para exibi-lo em  cerimônias e espetáculos públicos. Moedas foram cunhadas para comemorar o nascimento, com a inscrição “esperança augusta” (spes augusta – vide foto abaixo).

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No ano seguinte, 42 D.C., ocorreu a única revolta séria contra o governo de Cláudio: uma rebelião liderada pelos senadores Lucius Arruntius Camillus Scribonianus, Governador da Dalmácia, e Lucius Annius Vinicianus, um participante do complô que assassinou Calígula, sendo que ambos chegaram a ser cogitados para suceder o finado imperador, durante o impasse que antecedeu a aclamação de Cláudio. Consta que ambos os líderes rebeldes informaram aos senadores em Roma que o motivo da revolta era devolver o poder ao Senado, mas depois de cinco dias, as tropas deles se recusaram a segui-los e eles acabaram cometendo suicídio.

Dião Cássio narra que Cláudio ficou tão assustado quando soube dessa rebelião que ele cogitou abdicar em favor de Camillus, mas acabou afinal recobrando a coragem e se preparou para enfrentar os rebeldes, o que, como visto, acabou não sendo necessário.

Aparentemente tentando trazer o Senado para o seu lado, Cláudio tentou, ao menos no início do reinado, prestigiar esta assembleia. Ele devolveu ao controle dos senadores as provínicias da Macedônia e da Acaia, que tinham sido retiradas da relação de províncias administradas pelo Senado pelo imperador Tibério (Nota: Augusto dividiu as províncias romanas em imperiais, cujo governador era apontado pelo imperador entre os integrantes da classe equestre, e senatoriais, cujo governador era apontado pelo Senado dentre os pares).

Outra exemplo disso, foi a postura que Cláudio adotou de se sentar entre os senadores, aguardando a sua vez de falar nos debates  (de certa forma, era uma retomada da acepção inicial do termo Princeps (Príncipe), que, originalmente era o senador mais velho que tinha a prerrogativa de falar primeiro, e fora adotada por Augusto para manter as aparências de que a República permanecia).

Não obstante, a forma como Cláudio ascendeu ao trono, elevado pelos soldados da Guarda Pretoriana, expôs escancaradamente o que já se percebia desde o início da crise que levou às guerras civis dos Triunviratos, cem anos antes: que a real fonte de poder residia nas forças militares, cabendo ao Senado apenas legitimar o nome que fosse escolhido pelas tropas.

Por isso, Cláudio, logo no início do reinado, saiu a procura de glórias militares que reforçassem a sua posição de líder militar, aumentando o seu prestígio junto às legiões, as quais, caso  lideradas por algum general de renome, poderiam muito bem abraçar a sua “candidatura” e facilmente derrotar os Pretorianos.

E, de fato, no plano militar, o reinado de Cláudio começou bem: O general Gabinius Secundus, comandante das legiões da Germânia Inferior moveu uma guerra bem sucedida contra a tribo germânica dos Chauci, hostil aos romanos desde os tempos em que aqueles bárbaros lutaram ao lado do líder germânico Arminius, na emboscada que resultou no Desastre de Varo, na Batalha de Teutoburgo, em 9 D.C., com a destruição de três legiões romanas e a captura dos seus estandartes-águia (aquila), símbolos que eram religiosamente cultuados pelos romanos e cuja perda em batalha era considerada uma grande humilhação.

Gabinius conseguiu derrotar os Chauci e recuperar a terceira águia das legiões de Varo, que estava em poder deles (As duas outras haviam sido recuperadas por Germânico, irmão de Cláudio, em 16 D.C.). Certamente, este deve ter sido um momento de exultação para Cláudio, não apenas por ter recebido o título de Imperator pela vitória de seu general, mas por ter, de certa forma, igualado o feito de seu falecido irmão, que foi tão admirado pelos romanos.

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(moeda mostrando um estandarte-águia no templo de Marte Vingador, talvez  uma das perdidas por Crasso em Carras contra os Partas, recuperada por Augusto)

Escolheu-se, em seguida, a Britânia como o alvo de uma grande expedição. Esta ilha já havia, quase cem anos antes, sofrido a invasão de Júlio César, que, com apenas o objetivo de fazer propaganda pessoal, ficou ali alguns dias em campanha e retornou para o continente. Vale observar que aquele território era, notadamente,  um objetivo militar muito mais fácil que a Germânia ou a Pártia, adversários muito mais poderosos e aguerridos que, de vez em quando, infligiam pesadas derrotas aos exércitos romanos.

Assim, no verão de 43 D.C., quatro legiões desembarcaram na Britânia, comandadas pelo general Aulus Plautius, e avançaram pela maior parte da ilha. O pretexto da invasão, como em muitas outras guerras travadas pelos Romanos, foi o pedido de auxílio de um rei cliente de Roma, da tribo bretã dos Atrebates, de nome Verica, que havia sido expulso por adversários. O próprio Cláudio participou da campanha, ficando na Britânia por cerca de duas semanas, promovendo, no final, uma grande parada em Camulodunum (atual Colchester, na Inglaterra), onde começou a ser construído um grande templo dedicado ao seu “gênio”.

A Britânia foi anexada e permaneceria uma província romana até o início do século V. A vitória rendeu a Cláudio o título de Britannicus, que foi estendido a seu filho, que passou a se chamar Tiberius Claudius Caesar Britannicus. O menino passaria, então, a ser conhecido como “Britânico“.

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(Cabeça de bronze de uma estátua de Cláudio encontrada no rio Alde, na Inglaterra)

Talvez , pelo motivo de Cláudio perceber que tinha poucos aliados no Senado, ou, ainda, porque ele nunca tinha exercido algum cargo público, exceto o breve consulado extraordinário, ou também devido ao fato da sua pessoa ter sido imposta ao Senado pelos Pretorianos, ou, finalmente, talvez  porque ele possa ter assim concluído dos seus estudos aprofundados sobre o governo de Júlio César, o período das guerras civis e sobre o reinado de Augusto, o principado de Cláudio notabilizou-se pela implantação de um corpo de funcionários do Palácio encarregado da administração de funções governamentais que, anteriormente, eram exercidas pelos magistrados tradicionais da República, cargos ocupados primordialmente por senadores, magistraturas essas que foram em grande parte mantidas pelos seus antecessores no trono com suas funções executivas.

Já os funcionários palacianos eram diretamente indicados pelo imperador, sem mediação do Senado, e, quase sempre, ainda que extremamente preparados, eles eram escravos libertos que pertenciam ao próprio Imperador.

No reinado de Cláudio, esse secretariado foi dividido em escritórios que funcionavam como verdadeiros ministérios. Assim, o liberto Narcissus foi escolhido como Secretário da Correspondência Imperial (cargo importante, pois controlava toda a comunicação oficial do imperador, seja como emitente ou destinatário, redigindo e enviando despachos, comunicados ou correspondências e recebendo petições, denúncias, notícias de fatos,  etc.  O liberto Pallas* foi nomeado Secretário do Tesouro Imperial (fiscus) e o liberto Callistus, um influente ex-escravo de Calígula que havia participado da conspiração para assassiná-lo, foi escolhido para ser Secretário de Justiça, responsável, inicialmente, pelos recursos das decisões dos tribunais que eram dirigidos ao imperador.

Podemos, então, considerar que, embora os seus antecessores já utilizassem os seus libertos como auxiliares, Cláudio foi o primeiro organizador sistemático da burocracia imperial, esboçando uma forma que perduraria por muitos séculos.

*Como curiosidade, mas também como uma mostra do prestígio que os funcionários libertos gozaram a partir do governo de Cláudio, observamos que o irmão de Pallas, Marcus Antonius Felix, foi nomeado para ser o Procurador da Judeia, um cargo formalmente reservado aos integrantes da classe Equestre. Foi este Felix que procedeu ao julgamento do apóstolo Paulo, em Cesareia, sendo nominalmente citado em Atos, 24.

Não surpreende, assim, que Cláudio tenha sido visto com antipatia  pelos Senadores, que, além de deixarem de ter voz em setores importantes da administração pública, ainda tinham que tratar em pé de igualdade com ex-escravos, o que afetava o sabidamente delicado senso de dignidade da classe senatorial… E essa antipatia da classe senatorial de Roma por Cláudio transborda abundante nas narrativas do seu governo, feitas por historiadores oriundos do Senado, tais como TácitoDião Cássio, ou então equestres ligados aos senadores, como Suetônio. Além disso, como resultado do grande poder que eles agora detinham, todos esses secretários libertos tornaram-se imensamente ricos, rivalizando em fortuna com os próprios senadores…

Claramente, a tentativa de aproximação que ele tentou no início do governo falhou e, diante desse quadro, Cláudio acabaria exilando ou mandando executar vários senadores, embora não se possa dizer que todos as citados tenham de fato conspirado para derrubá-lo – e alguns dos supostos conspiradores talvez nem tenham sido de fato executados por ordens dele. Não obstante, consta que, durante o seu reinado, Cláudio mandou executar 35 senadores e centenas de membros da classe Equestre.

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Por exemplo, em 46 D.C., o senador Lucius Asinius Gallus foi acusado de conspirar contra Cláudio e foi exilado, sendo que o imperador chegou até a ser elogiado pela moderação quanto à pena aplicada. Em 47 D.C., o senador de antiga origem gaulesa, Decimus Valerius Asiaticus, por sua vez, foi alvo de acusações vagas de traição (e também de cometer adultério com uma aristocrata) e ele foi julgado, nos aposentos do Palácio (in camera), em julgamento fechado, pelo imperador e seu conselho privado, e não perante um tribunal público, um procedimento que se tornou costumeiro durante o principado de Cláudio. Segundo uma fonte, o verdadeiro motivo desta inquisição foi a cobiça que a imperatriz Messalina nutria pelos belos Jardins de Lúculo, em Roma,  que pertenciam a Asiaticus, que acabou compelido a se suicidar. Outra fonte alude ao fato de Asiaticus possivelmente ter participado da conspiração contra Calígula e ter insinuado a pretensão de suceder o falecido imperador. De qualquer forma, existiu algum pretexto sério, verdadeiro ou fictício, para Cláudio não gostar de Asiaticus, já que o imperador, no ano seguinte, fez questão de se referir a ele como “um gaulês bandido e patife cujo nome eu não devo sequer mencionar neste discurso“, em uma sessão do Senado cujos debates foram preservados na Tábua de Lyon,  à qual mais tarde aludiremos.

Outro senador executado foi Gnaeus Pompeius Magnus, um descendente do Triúnviro Pompeu, o Grande, e que era casado com Claudia Antonia, a filha mais velha do próprio Cláudio, que teria participado de uma conspiração contra o imperador.

Muitas dessas perseguições são atribuídas às maquinações da imperatriz Messalina, acerca de quem há relatos de que ela se aproveitava de uma certa credulidade e ingenuidade que Cláudio repetidamente demonstrou ter em relação a todas as mulheres que ele teve em sua vida.

Aliás, a se acreditar nos relatos dos historiadores antigos, Messalina seria uma verdadeira ninfomaníaca, que não apenas teria tido inúmeros amantes enquanto esteve casada com Cláudio, mas, entre outras coisas, teria chegado até a participar de uma competição contra uma prostituta, em que aquela que tivesse mais parceiros sexuais na mesma noite ganharia (sendo que Messalina teria ganho a aposta, com um total de 25 parceiros, um caso citado por Plínio, o Velho, em sua “História Natural”)…Ela teria, ainda, segundo o poeta Juvenal, trabalhado, enquanto imperatriz, em um bordel, sob o pseudônimo de “Loba”.

Os historiadores antigos afirmam que Cláudio desconhecia as infidelidades de Messalina, seja por ele se dedicar às questões administrativas e jurídicas do Império, seja por confiar demais na esposa, muito embora as fofocas sobre o assunto circulassem pela cidade de Roma, até o dia em que  seu liberto Narcissus lhe contou que Messalina, enquanto Cláudio estava em Óstia, organizou uma festa no Palácio, e, durante a mesma, ela teria se casado, em uma cerimônia, real ou encenada, com seu amante Gaius Silius, um belo jovem que tinha sido designado para ser Cônsul em 48 D.C.. Poderia até ser uma brincadeira infeliz, mas, para piorar, a versão que chegou a Cláudio é a de que o casamento fazia parte de um plano de Messalina e Silius para assassiná-lo.

Messalina acabou sendo executada em 48 D.C., apesar de constar que Cláudio, cujo coração já estava amolecendo em favor da esposa, não se resolvia a dar a ordem expressa, tendo a decisão fatal sido ordenada por Narcissus, à revelia do imperador.

Em 47 D.C., Cláudio assumiu o cargo de Censor,  que andava sendo relegado a uma certa insignificância, junto com Lucius Vitellius, um dos poucos amigos de sua infância, pois conviveram juntos na casa de sua mãe, Antônia, a Jovem, a volta de quem havia um círculo de nobres orientais, devido ao fato dela ter herdado do seu pai, Marco Antônio, as conexões políticas e numerosas propriedades no Oriente. Outra amizade desses tempos de juventude era o príncipe judeu conhecido como Herodes Agripa, que ajudou Cláudio durante o impasse da sucessão de Calígula.

Nota: Vitellius havia sido Cônsul e governador da Síria durante o final do reinado de Tibério. Foi ele, inclusive quem demitiu Pôncio Pilatos do cargo de Prefeito da Judeia. Durante o reinado de Cláudio, ele seria Cônsul outras duas vezes, um fato incomum para quem não fosse da família imperial, durante o Império Romano). Ele era pai do futuro imperador Vitélio.

Talvez como um agrado a Herodes Agripa, Cláudio deu ao amigo o título de Rei da Judeia, restaurado como reino-cliente de Roma, dando-lhe o governo do respectivo território, que tinha sido incorporado ao Império Romano (Herodes já governava a Galileia). Cláudio também reconheceu o direito de liberdade de culto dos Judeus no Império Romano. Um exemplo dessa política está registrado na “Carta aos Alexandrinos”, onde Cláudio ordena aos habitantes gregos de Alexandria que respeitem os direitos da grande colônia judaica que existia na cidade, fonte frequente de diversos conflitos étnicos e religiosos.

Porém, quando Herodes Agripa morreu, em 44 D.C., todo o seu reino foi reincorporado ao Império Romano.  Nessa mesmo período, outros reinos-clientes de Roma foram anexados formalmente, tais como a Trácia, Noricum, Panfília e a Lícia, que se tornaram províncias. A Mauritânia, cujo processo de anexação fora iniciado por Calígula, teve a anexação concluída sob Cláudio, em 44 D.C., cujas tropas derrotaram os últimos focos de resistência armada. Essas medidas estão de acordo com a tônica geral de seu reinado em direção à centralização de poder e expansão da burocracia imperial.

Seguindo a linha geral de seu governo, Cláudio utilizou o cargo de Censor para intervir na composição das classes senatorial e equestre, pois o Censor tinha o poder de verificar os requisitos para a inscrição dos cidadãos nas respectivas listas. Assim, Cláudio mandou excluir o nome de vários senadores e equestres cuja renda não mais atendia o requisito mínimo estipulado pela lei para integrar a classe.

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Constatando que havia muitos assentos vagos no Senado, devido a décadas de execuções e proscrições pelos imperadores que o antecederam, além da diminuição do número de famílias da classe senatorial, Cláudio, seguindo o exemplo de Júlio César, antepassado que ele muito admirava, e aproveitando o cargo de Censor, mandou arrolar novas famílias nas listas de patrícios e abriu o Senado para nobres e pessoas ilustres nascidas nas províncias, especialmente da Gália,  fato que ficou registrado na chamada Tábua de Lyon, que contém a interessante transcrição do discurso do imperador na sessão do Senado Romano, ocorrida em 48 D.C.,  na qual Cláudio propõe a admissão ao Senado de homens ilustres de origem gaulesa, habitantes da Gália Lugdunense (centrada em Lugdunum, atual Lyon, cidade natal do próprio Cláudio).

A Tábua de Lyon, em bronze, que foi encontrada em um vinhedo nos arredores de Lyon, provavelmente foi feita a mando desses mesmos senadores gauleses agradecidos, beneficiados pela aprovação da proposta de Cláudio. Além de confirmar o relato desse fato histórico, citado por Tácito, a Tábua de Lyon contém, tudo indica, a transcrição literal do discurso do imperador no Senado, inclusive transcrevendo as interrupções questionadoras de alguns senadores contrários à medida. E o discurso de Cláudio, cheio de digressões históricas e certo pedantismo, combina perfeitamente com a descrição de sua personalidade feita pelos historiadores antigos.

Tanto isso é verdade, que a sessão preservada na Tábua de Lyon, com notável fidelidade, transcreve até o apelo de um senador para que Cláudio fosse direto ao ponto! (vide:  https://sourcebooks.fordham.edu/ancient/48claudius.asp)

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( A Tábua de Lyon)

Neste mesmo ano de 48 D.C., realizou-se por ordens de Cláudio um grande Censo da população de todo Império Romano, que contou o número de 5.984.072 cidadãos romanos, ou seja, homens livres que gozavam do direito de cidadania romana, excluindo, portanto, mulheres, crianças, escravos e habitantes que não tinham cidadania. Isso aponta para uma população que se estima estivesse entre 50 e 70 milhões de habitantes.

Após a execução de Messalina,  os seus libertos, visando cada um a aumentar a sua influência sobre o imperador, se revezaram em apresentar candidatas a se tornarem a nova imperatriz, sendo que Lollia Paulina, que havia sido esposa de Calígula, e a ex-esposa de Cláudio, Aelia Petina, chegaram a ser cogitadas.

A pretendente cuja “candidatura” era defendida pelo secretário Pallas acabou sendo a escolhida: Agripina, A Jovem, que, sendo filha de Germânico, era nada menos do que a sobrinha do próprio Cláudio. Além disso, Agripina também era irmã do antecessor dele, Calígula.

Segundo as leis romanas, essa união era considerada incesto, mas, em tempos de Principado, obviamente que mudar a lei não foi difícil…

Há relatos de que Agripina teria seduzido o tio Cláudio, mas, provavelmente, o que pesou mesmo na sua escolha foram considerações políticas: Cláudio já estava com 58 anos de idade, sendo que seu, Britânico, tinha apenas sete. Caso Cláudio, que nunca havia sido uma pessoa  muito saudável, morresse, ou ficasse incapacitado, era grande o perigo de que a dinastia dos Júlio-Cláudios terminasse, pois Britânico ainda estava longe de despir a toga pretexta e tornar-se maior de idade, quando poderia assumir cargos públicos.

O Principado ainda estava nas primeiras décadas e, ainda que apenas no aspecto formal, o imperador era considerado o primeiro-magistrado. A transição legal e cultural para uma monarquia ainda não havia sido feita, e a sucessão de Calígula mostrara que ainda havia anseios republicanos no Senado…

Assim, Cláudio precisava de um arranjo que lhe permitisse garantir, na sua falta, a continuidade da dinastia no governo,  esperançosamente, até que seu filho estivesse apto a governar. Esta era, inclusive, uma situação pela qual Augusto já tinha passado (Com efeito, já idoso, e após o falecimento de vários herdeiros de sangue, sobrinhos e netos, tais como Marcelo, Lúcio e Caio César, ele havia sido obrigado a adotar Tibério, filho de sua esposa Lívia).

Em 1º de janeiro de 49 D.C., Cláudio e Agripina se casaram. No ano seguinte, em 25 de fevereiro de 50 D.C., Cláudio a adotou o filho dela, Lucius Domitius Ahenobarbus, que passou a se chamar “Nero Claudius Caesar Drusus Germanicus” (Nero).

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(Busto de Agripina, a Jovem)

Ainda em 50 D.C.., Agripina conseguiu que Cláudio persuadisse o Senado a dar-lhe o título de Augusta, honraria que somente Lívia Drusila, a esposa de augusto, havia recebido em vida, e, mesmo assim, somente após a morte do marido.

Todos logo perceberam o tamanho da influência de Agripina sobre Cláudio e, pouco a pouco, o nome dela começou  a aparecer em inscrições em monumentos, moedas e documentos. Consta que ela recebia embaixadores estrangeiros sentada em seu próprio tribunal e vestia um manto militar com bordados de ouro em cerimônias oficiais. O prestígio dela era tanto que o povoado em que ela nasceu, na Germânia, às margens do rio Reno, onde seu pai estava aquartelado, recebeu, em 50 D.C., o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium, que é a atual cidade de Colônia, na Alemanha.

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(Reconstrução da Colonia Claudia Ara Agrippinensium – atual Colônia, no século I D.C.)

Em 51 D.C., Nero vestiu a toga virilis, alguns meses antes da idade costumeira, pouco antes de completar 14 anos. No mesmo ano ele recebeu o título de Princeps Iuventutis, um título que surgira no reinado de Augusto para honrar os jovens considerados como potenciais herdeiros do trono.

Para a surpresa geral, parecia que Nero estava tomando a preferência de Cláudio para ser o seu sucessor. E Agripina começou a eliminar todos que representassem uma ameaça à trajetória de seu filho rumo ao trono. Em 51 D.C, ela ordenou  a execução de Sosibius, o tutor de Britânico, que andava reclamando da preferência que vinha sendo dada ao filho de Agripina.

Em 9 de junho de 53 D.C, certamente com a intermediação de Agripina, Cláudio concordou com o casamento entre Nero e sua filha, Claudia Octavia.

Britânico agora já tinha doze anos e o motivo de Cláudio continuar tomando medidas que favoreciam a posição de seu enteado Nero como herdeiro preferido, em detrimento do próprio filho natural, continua sendo algo que intriga os historiadores.

Porém, a maioria das fontes narra que, nos meses que se seguiram, Cláudio, um tanto descuidadamente, começou a fazer comentários, aqui e ali, lamentando o fato dele ter casado com Agripina e adotado Nero.

Em meados de 54 D.C., faltava menos de um ano para Britânico atingir a idade em que poderia vestir a toga virilis e ser considerado adulto. Suetônio cita que Cláudio mencionou publicamente em algum evento a intenção de antecipar a cerimônia,  devido à altura de Britânico, chegando a dizer, na ocasião:

Para que o Povo de Roma finalmente possa ter um genuíno César“.

Era uma clara advertência de que ele não considerava mais Nero como sucessor. Agora, o ano  de 54 D.C. entrava em seus últimos meses e, pela primeira vez, em um discurso no Senado, Cláudio se referiu a Nero e Britânico como iguais em precedência.

Em 13 de outubro de 54 D.C., pela manhã, foi anunciado que Cláudio morreu, após um banquete. Nas fontes antigas há um quase consenso de que ele foi envenenado a mando de Agripina, ou até mesmo por ela pessoalmente. Agripina, teria se aproveitado do fato do onipresente  Narcissus, partidário de Britânico,  estar descansando em sua villa na Campânia, e contratou a célebre envenenadora Locusta, para preparar o veneno, o qual teria sido administrado em um prato de cogumelos, iguaria muito apreciada por Cláudio. Os detalhes variam. Segundo uma versão, Cláudio ao comer os cogumelos, acabou vomitando, e uma segunda dose lhe foi administrada, agonizando durante um tempo, e, após ele ter morrido, o seu falecimento ainda foi escondido por um curto período de tempo, durante o qual todos preparativos necessários foram feitos para assegurar a sucessão em favor de Nero, inclusive a destruição do último testamento de Cláudio, no qual ele teria reconhecido Britânico como sucessor.

A aclamação de Nero foi tranquila: O Senado sabidamente odiava Cláudio e, ainda em 51 D.C., Agripina  havia indicado o nome de Sextus Afranius Burrus (Burro) para ser o novo Prefeito da Guarda Pretoriana, e com cuja lealdade ela pôde contar na hora da sucessão.

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(Relevo de Agripina coroando seu filho Nero. A cena não deixa margem a dúvidas…)

Nero fez a eulogia (oração fúnebre) em honra de Cláudio, que depois foi “deificado” pelo Senado, isto é, após a sua morte, decretou-se que ele tinha sido elevado ao panteão dos deuses a serem cultuados pelos romanos (apotheosis).

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(Camafeu do século I, retratando a apoteose de Cláudio. Uma águia o leva até os céus)

A deificação, ou apoteose, de Cláudio, embora oficial, foi objeto de sátiras e pilhérias pelos integrantes da classe senatorial. Um deles, o filósofo e escritor Sêneca, o Jovem, escreveu uma célebre sátira chamada de “Apocolocyntosis” (literalmente, “aboborificação”, processo no qual Cláudio, na narrativa, tranformaria-se em uma abóbora após a morte), ridicularizando a apoteose do imperador. Na obra, a deificação dele é  julgada em um tribunal do deuses no Monte Olimpo, e o próprio imperador falecido Augusto discursa aos deuses enumerando os defeitos físicos, as idiossincrasias, gafes, assassinatos de Cláudio, cuja sentença é ser enviado a penar nas profundezas do Hades, condenado pela eternidade a trabalhar como funcionário de um tribunal, e, ironicamente, sendo dado como escravo a um liberto…

O destino no Hades ao qual Cláudio foi condenado na Apocolocyntosis é claramente uma crítica mordaz a uma das atividades a que o imperador mais se dedicou durante o reinado: os processos judiciários (Ele, de fato, costumava comparecer quase que diariamente ao tribunal, julgando processos). Além disso, é uma crítica à preferência que ele deu aos libertos durante o seu governo.

Embora Cláudio fosse diligente e dedicado no exame da maior parte dos casos judiciais que lhe eram submetidos, ele, às vezes, costumava desprezar os princípios processuais estabelecidos no Direito Romano, proferindo sentenças sem ouvir a parte contrária, violando o princípio do contraditório, ou, como já apontamos, realizando sessões fechadas no palácio, o que era contrário ao princípio da publicidade dos julgamentos, muito caro aos Romanos.

Por exemplo, as fontes citam que Cláudio, certa vez, agiu como um verdadeiro rei Salomão, da Bíblia judaica, julgando um processo no qual uma mãe se negava a reconhecer o filho, decretando que ela se casasse com o rapaz, para forçá-la a confessar a maternidade.

E a estupefação dos litigantes com essas bizarrices de Cláudio era tanta, que Suetônio narra, observando que o fato era de conhecimento geral, um caso em que um réu, falsamente acusado de conduta imprópria contra uma mulher, ao ver que Cláudio decidira, contrariamente à praxe processual romana, ouvir algumas prostitutas como testemunhas, exasperou-se e  atirou a tábua e o estilete de escrita em cima do imperador, conseguindo até ferir a bochecha de Cláudio!

Outra faceta de Cláudio era o amor que ele tinha pelos espetáculos públicos, especialmente os combates de gladiadores e contra feras. Durante seu reinado ele promovou várias exibições, culminando com um combate naval simulado, no qual Suetônio registrou que os combatentes saudaram Cláudio com a frase: “Ave,  Imperador, Aqueles que irão morrer te saúdam“. É a única vez que a História registra essa frase, que não sabemos se ela era padrão nos jogos de gladiadores ou se somente foi utilizada naquela ocasião (Cássio Dião também a menciona no mesmo episódio, mas a narrativa deve ter sido obtida na obra de Suetônio). A nota satírica, frequentemente presente nas estórias sobre Cláudio, marcando um tom depreciativo sobre a sua suposta estupidez, é que, àquela saudação, o imperador teria respondido: “Ou não…!“, ao que os combatentes entenderam, induzidos a erro, que eles tinham sido perdoados e assim se recusaram, inicialmente, a lutar, para desespero do próprio Cláudio, preocupado com a reação dos espectadores frustrados.

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O amor pelos jogos de gladiadores e combates na arena parece combinar com uma outra faceta sombria da personalidade de Cláudio: a curiosidade excessiva, ou mesmo o prazer mórbido, que ele tinha de assistir pessoalmente as execuções de condenados, à tortura de testemunhas ou à morte dos gladiadores.

A política religiosa de Cláudio caracterizou-se pela tentativa de revitalizar as tradições e reviver aspectos antigos dos cultos romanos, como era de se esperar de um amante da história antiga e dos etruscos. Um episódio interessante que ocorreu em seu governo foi a expulsão dos judeus, narrada por Suetônio, que teria sido motivada por tumultos causados “por instigação de Chrestus“.

Muitos especialistas acreditam que essa passagem reflete a chegada dos primeiros pregadores cristãos a Roma, que entraram em conflito com a numerosa comunidade judaica lá instalada, ao pregarem o Evangelho. Obviamente que os romanos ainda não deviam distinguir os cristãos dos judeus ( e  note-se que essa divisão ainda não estava pacífica entre os próprios cristãos), e a expulsão não parece ter tido motivos religiosos, mas de manutenção da ordem pública. Não deve, contudo, ter sido uma expulsão em massa. Acredita-se que o episódio narrado por Suetônio é o mesmo que aparece em Atos, 18, 2., quando São Paulo encontra em Corinto um judeu chamado Aquila, que tinha sido expulso de Roma por Cláudio. Estima-se que essa expulsão narrada por Suetônio e em Atos tenha ocorrido por volta de 50 D.C.

Um campo onde Cláudio se destacou como imperador foi no das obras publicas, construindo várias de grande utilidade, como por exemplo dois importantes aquedutos: o Aqua Claudia, cuja construção havia sido iniciada por Caligula, e o Anio Novus, completados em 52 D.C.. Cláudio financiou a construção de ambos com recursos oriundos do tesouro privado do imperador (fiscus).

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(A Porta Maggiore, era uma porta monumental no trajeto  da junção dos aquedutos da Aqua Claudia e da Aqua Novis, construída por Cláudio)

Fora de Roma, no reinado de Cláudio foram construídos um canal ligando o Reno ao mar, um canal ligando o rio Tibre a Portus, o porto marítimo que ele mandou construir ao norte de Óstia. Além de possibilitar o aumento do volume de transporte de grãos e outras mercadorias para Roma, essa obra útil reduziu as enchentes do rio Tibre.

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Ao menos como construtor de grandes obras de utilidade pública, o sempre crítico Suetônio fez justiça a Cláudio, reconhecendo:

“Suas obras públicas foram mais grandiosas e necessárias do que numerosas”.

Conclusão

Assim, o imperador Cláudio é uma figura ambígua para a História de Roma. Se formos considerar apenas a opinião dos Senadores, classe de onde saíram aqueles que registraram o seu reinado na História, ele teria sido um idiota que lhes foi imposto pela guarda pretoriana, e, durante o seu reinado, mostrou-se um governante  tirânico, porém medroso e manipulável pelas suas esposas e seus libertos. Porém, mesmos nesses textos críticos, transparece que Cláudio era um monarca dedicado ao ofício de governar e que ele tomou uma série de medidas úteis e sensatas.

A figura de Cláudio é muito bem retratada no best-sellerEu, Claudius, Imperador“, do escritor inglês Robert Graves, que foi escrito como se fosse a autobiografia perdida do imperador.

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CONSTÂNCIO CLORO

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Em 31 de março de 250 D.C., na Dardânia, região da Província da Moésia,  nasceu Marco Flávio Valério Constâncio (Constâncio Cloro), filho de um certo Eutrópio, que, segundo a História Augusta, seria um “nobre” daquela região, e de Cláudia, que, supostamente, seria sobrinha do imperador romano Cláudio II Gótico (vale notar que a maior parte dos historiadores modernos acredita que esse suposto parentesco foi inventado pelo escritor da “História Augusta”, com o objetivo de melhorar o “pedigree” da dinastia constantiniana).

Observe-se que na Dardânia,  desde a sua conquista pelos romanos, em 73 A.C, foi estabelecido um acampamento de legionários que deu origem à cidade de Naissus (atual Nîs, na Sérvia) e a região tornou-se um dos principais centros de recrutamento de tropas para o exército romano no século III D.C.

Como outros conterrâneos seus da 2ª metade do século III D.C., Constâncio ingressou no exército e foi galgando postos. Neste progresso, ele recebeu a prestigiosa patente de “Protector Augusti Nostri”, dada a soldados de elite que se destacavam no serviço ao imperador, no reinado do imperador Aureliano, e depois foi promovido a Tribuno, após os Protectori Augusti Nostri se tornarem um corpo de elite do Exército Romano. Nesta condição, ele deve ter conhecido o futuro imperador Diocleciano, que mais tarde comandaria o referido corpo de elite, já no reinado do imperador Caro, em 282 D.C.

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(As tropas que serviam próximo ao Imperador durante a carreira de Constâncio Cloro deviam ter essa aparência)

Deve ter sido no Exército que Constâncio recebeu o apelido de Cloro (Chlorus), que em latim significa “pálido”, devido a sua pele excessivamente clara.

Como Protector Augusti Nostri, Constâncio Cloro participou da campanha de Aureliano contra o Império de Palmira, que tinha se formado a partir da secessão das províncias romanas da Síria, Arábia Pétrea e Egito, além de outras partes da Ásia Menor, entre 272 e 273 D.C, e era governado pela grande rainha Zenóbia.

Foi nessa campanha que Constâncio Cloro conheceu Helena, uma jovem bitínia, nativa da cidade de Drepanus, que trabalhava numa estalagem ao longo da estrada pela qual o exército marchava para dar combate aos rebeldes palmirenos.

Consta que Constâncio Cloro notou que a jovem usava um bracelete de prata idêntico ao que ele estava usando no momento, o que lhe teria dado a certeza de que ela era a sua alma-gêmea enviada por Deus.

Verdadeira ou não a história, o fato é que, finda a sua participação na campanha, Constâncio Cloro, levou Helena consigo para sua terra natal na Dardânia, onde, na cidade de Naissus, ela deu a luz ao seu primeiro filho, que recebeu o nome de Constantino (o futuro imperador Constantino I, o Grande), em 27 de fevereiro de 272 D.C. (considerado o ano mais provável).

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(Estátua de Helena. A obra é do período clássico, mas a cabeça foi alterada  por escultores durante o reinado de seu filho Constantino para retratá-la)

A Bitínia era uma das regiões onde o Cristianismo mais cedo se enraizara no Império. Por exemplo, o apóstolo Pedro já menciona a existência de uma comunidade cristã na Bitínia por volta do ano 60 D.C.. E, no início do século II D.C., Plínio,o Jovem, quando ocupou o cargo de governador da província, chegou a consultar, por meio de uma carta, o imperador Trajano acerca de como ele deveria proceder com os cristãos locais, os quais se encontravam não apenas nas cidades, mas espalhados pelos campos.

E de fato, jovem bitínia Helena se mostraria, anos mais tarde, uma das cristãs mais devotas. Podemos, assim, considerar, com um bom grau de probabilidade, que o filho de Constâncio, o menino Constantino, desde a mais tenra infância sofreu as influências da devoção de sua mãe (Como todos sabem, Constantino, depois de se tornar imperador, favoreceu muito o Cristianismo e a sua conversão mudou a História Mundial).

Até hoje se discute se Constâncio Cloro e Helena se casaram ou se eles viveram em concubinato. Sabemos que Maxêncio, o principal rival de Constantino, o acusaria de ser filho de uma prostituta, mas essa acusação pode  também ser vista como propaganda política negativa. Não obstante, sabe-se que, na Antiguidade, e mesmo na Idade Média, não era prática incomum que mulheres que trabalhassem em estalagens ou pensões tivessem também que dormir com os hóspedes…

Após a união com Helena, Constâncio continuou ascendendo na carreira militar e, no reinado do imperador Caro, ele foi nomeado “Praeses” (governador) da província da Dalmácia, entre 282 e 283 D.C. No mesmo período, Caro nomeou Diocleciano como Comandante dos Protectori Augusti Nostri, que, neste posto, acompanhou o imperador na invasão da Mesopotâmia, coração do império Sassânida.

Não há menção nas fontes se Constâncio participou da bem sucedida campanha de Caro contra os Persas, na qual este imperador acabaria falecendo, em 283 D.C., segundo consta atingido por um raio durante uma tempestade. Caro foi, então, sucedido pelos  seus filhos, Carino e Numeriano.

Porém, em novembro de 284 D.C., Numeriano morreu na Bitínia, em circunstâncias misteriosas, quando voltava para Roma, aparentemente devido a uma doença caracterizada por inflamação nos olhos.

Então, um conselho de generais escolheu Diocleciano como sucessor de Carino e ele foi aclamado imperador pelas tropas em Nicomédia. Assim, Diocleciano, desde o início, se apresentou como adversário de Carino, deslocando-se para dar combate ao rival, cujo exército  ele encontrou na Moésia, na Batalha do rio Margus ( local próximo à atual Belgrado, na Sérvia), em julho de 285 D.C., ocasião em que os principais generais de Carino se passaram para o lado de Diocleciano. Carino foi, em seguida, morto pelos seus próprios homens.

Alguns historiadores acreditam que, durante o avanço de Diocleciano pelos Bálcãs para engajar Carino, Constâncio também teria aderido ao seu velho conterrâneo e camarada dos Protectori Augusti Nostri.

Um dos primeiros atos de Diocleciano no trono foi escolher um colega para governar em conjunto com ele e o escolhido foi seu velho amigo e companheiro de armas, o general e conterrâneo de origem ilíria, Maximiano. Embora ambos compartilhassem a origem humilde, Maximiano, era muito mais áspero e implacável do que Diocleciano, que, no entanto, tinha sobre ele uma considerável ascendência moral e intelectual.  Assim, em 1º de abril de 286 D.C, Maximiano, foi elevado de “César” para “Augusto”.

Sintomaticamente, os dois Augustos se concederam os títulos de “Júpiter” (Diocleciano) e de “Hércules”(Maximiano), em uma espécie de alusão ao papel de ambos no Império, no qual Diocleciano figurava como o “sábio pai dos deuses e chefe do Olimpo” e Maximiano,  como o guerreiro encarregado das tarefas militares.

Entre 287 e 288D.C., Constâncio Cloro já era um dos principais auxiliares, senão o mais importante, de Maximiano, e, nesta condição, liderou a campanha contra os bárbaros Alamanos, chegando a cruzar o Reno para atacá-los, fato que sinalizou o reerguimento do poder romano na região, após vários anos de invasões e rebeliões durante a crise da segunda metade do século III D.C.

Provavelmente por volta de 288 D.C., Maximiano designou Constâncio Cloro para o cargo de Prefeito Pretoriano do Ocidente, cargo que havia sido reformulado dentro das extensas e fundamentais reformas administrativas e militares promovidas por Diocleciano, e que passava a ser uma espécie de Chefe de Gabinete e Chefe do Estado-Maior do Imperador.

Os laços entre o imperador Maximiano e seu subordinado Constâncio Cloro foram ainda mais reforçados com o casamento de Constâncio com Flávia Maximiana Teodora, a filha (ou para alguns, enteada) de Maximiano, união que, segundo um dos Panegíricos Latinos, teria ocorrido em 289 D.C. Assim, Constâncio teve que se divorciar (ou separar-se, caso proceda a versão de que a relação era de concubinato) de Helena, a mãe de seu primogênito, Constantino.

Ainda que motivado por razões políticas, o casamento de Constâncio Cloro com Teodora seria prolífico, gerando 6 filhos (3 homens), nenhum dos quais, contudo, chegaria a ocupar o trono.

Enquanto isso, Maximiano tinha que lidar com os camponeses fora-da-lei chamados de bagaudas, no norte da Gália. Submetida essa insurreição, Constâncio Cloro foi encarregado de combater a insurreição de Caráusio, o comandante da frota do Mar do Norte, a quem Maximiano havia condenado à morte, devido a uma acusação de peculato. Por este motivo, Caráusio, que estava firmemente estabelecido na Grã-Bretanha, e controlava, ainda, o noroeste da Gália, autoproclamou-se “Imperador da Britânia”.

Maximiano e Constâncio Cloro, se preparam para combater o usurpador Caráusio, mas as  fontes sugerem que houve algum incidente com a frota que eles estavam construindo para invadir a Britânia, por volta de 289 D.C., e, assim, Caráusio conseguiria resistir ainda por sete anos, cunhando moedas em que ostentava o título de Imperador e “irmão” de Diocleciano e Maximiano e nas quais louvava a suposta concórdia (paz) entre eles.

A experiência da eclosão de crises simultâneas em diferentes partes do Império Romano certamente contribuiu para inspirar Diocleciano a idealizar a medida mais revolucionária do seu reinado: a chamada Tetrarquia, em 293 D.C., caracterizada pela divisão administrativa do poder imperial,  que antes era centralizado na pessoa de um monarca que governava o Império a partir da cidade de Roma,  e agora seria repartido entre quatro governantes:  dois mais graduados, que teriam o título de “Augusto”, tendo as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e dois, em plano um pouco inferior e subordinados a eles, chamados de “Césares”, instalados em Augusta Treverorum (Trier) e Sirmium. A idéia é que quando os “Augustos” se retirassem ou morressem, fossem substituídos automaticamente pelos “Césares”.

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(Os Tetrarcas, escultura da época imperial, hoje na lateral da Catedral de São Marco, em Veneza)

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

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(Cabeça de Galério)

Constâncio Cloro, em decorrência da sua nomeação,  foi obrigado a enviar seu filho Constantino, então um rapaz já no começo dos seus 20 anos, para ir viver na corte de Diocleciano, na cidade de Nicomédia, na Bitínia, acompanhado de sua mãe, Helena, que assim retornava à sua terra natal.

Embora Constantino tenha recebido a melhor educação clássica em Nicomédia (onde certamente teve contato com Lactâncio, professor de retórica latina na Corte, que, posteriormente, se tornaria um dos intelectuais cristãos mais influentes), e iniciado sua carreira serviço público e militar, considera-se que ele,  na verdade, era sobretudo um refém sob a custódia de Diocleciano, visando assegurar a lealdade de seu pai, Constâncio Cloro.

Enquanto isso, na Britânia, o usurpador Caráusio foi assassinado e substituído por seu lugar-tenente Alecto (Allectus), que era apoiado pelos Francos.

Constâncio Cloro teve muito trabalho para conter os Francos e lutar contra os Alamanos, que ameaçavam a fronteira do Reno. Ele ficou baseado em Trier, que, nesse período, começou a ser embelezada com monumentos dignos de uma capital imperial.

Quando Maximiano chegou para reforçar a defesa do Reno, Constâncio Cloro conseguiu expulsar Alecto do norte da Gália, e, com a ajuda de seu prefeito pretoriano, Asclepiodoto, reuniram duas frotas para a invasão da Grã-Bretanha. A frota comandada por Asclepiodoto desembarcou perto da atual Ilha de Wight e derrotou e executou o rebelde, enquanto Constâncio capturou e ocupou a capital da Britânia, Londinium (atual Londres). A entrada de Constâncio em Londres aparece em um medalhão de ouro que seu filho Constantino, mandou cunhar quando já era imperador, e que foi encontrado em Arras, na França).

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(Aureum mostrando Londinium se rendendo a Constâncio Cloro)

Derrotado Alecto, Constâncio Cloro dedicou-se a reorganizar a província da Britânia e e reparar suas fortificações, incluindo a famosa Muralha de Adriano. Em 298, D.C., contudo, ele já estava na Germânia lutando novamente contra os Alamanos, a quem conseguiu derrotar após ser cercado por eles na cidade de Vindonissa (na atual Suíça).

No ano de 303 D.C., Diocleciano decretou a repressão ao Cristianismo, que pelos cristãos seria chamada de “A Grande Perseguição”. Dos quatro tetrarcas, Constâncio Cloro seria o mais que foi mais brando na execução da política de Diocleciano,  limitando-se a demolir algumas igrejas. Talvez a moderação de Constâncio Cloro tivesse alguma influência de sua relacionamento com Helena, mas pode ser também que Lactâncio tenha tido a intenção de fazer média com o pai de Constantino, o futuro primeiro imperador cristão, abrandando o papel que ele desempenhou.

Porém, em 305 D.C, Diocleciano, doente e cansado aos 60 anos de idade, resolveu se aposentar, abdicando em favor de Galério. Foi a primeira vez, durante mais de três séculos de Império, que um Imperador voluntariamente abdicou do trono. Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza na cidade de Salona, em sua terra natal ( a atual cidade de Split, na Croácia). Seguindo, naquela oportunidade, a política traçada por Diocleciano, Maximiano também abdicou voluntariamente em prol de Constâncio Cloro.

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(Palácio de Diocleciano em Split)

Em 1º de maio de 305 D.C., em uma cerimônia militar em Milão, Maximiano proclamou Constâncio Cloro o novo Imperador (Augusto), do Ocidente, que passou a se chamar Imperator Caesar Marcus Flavius Valerius Constantius Herculius Augustus .

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Porém, para a surpresa geral, Maximiano, quando foi anunciar o nome do novo “César” do Ocidente,entregou o seu manto púrpura para Severo, um velho amigo e colega de armas de Galério,  o Imperador Romano do Oriente.

Ocorre que todos pensavam que Maxêncio, filho de Maximiano, e Constantino, filho de Constâncio Cloro, naturalmente seriam os novos Césares…

Embora o sistema da Tetrarquia não exigisse o princípio dinástico, obviamente que os filhos dos Augustos eram os candidatos naturais. E, obviamente, a circunstância de um imperador ter herdeiros naturais adultos, já seguindo a carreira militar, preteridos em favor de outros só poderia ser um fator de instabilidade.

Constâncio Cloro e Constantino logo perceberam que não apenas as ambições, mas a própria vida do segundo estariam ameaçadas na corte de Galério, em Nicomédia. Por isso, Constâncio enviou um pedido formal ao colega Galério pedindo que o filho fosse liberado para lhe ajudar na campanha contra os Pictos, que estavam causando problemas no norte da Britânia.

Consta que Galério, quando recebeu a carta de Constâncio Cloro, estava participando de um banquete e, na presença de Constantino, deu o seu consentimento. Naquela mesma noite, Constantino abandonou o palácio a toda velocidade e partiu para encontrar o pai, antes que Galério mudasse de idéia. Assim, quando o imperador acordou, no dia seguinte, Constantino já estava a léguas de distância da corte.

Constantino se juntou ao pai na costa da Gália e ambos cruzaram o canal para comandar uma expedição militar contra os Pictos. Em 7 de janeiro de 306 D.C., Constâncio Cloro recebeu o título de “Britannicus Maximus“. após algumas vitórias contra os bárbaros.

Porém, antes que a campanha fosse completada, a saúde de Constâncio Cloro piorou e ele teve que se retirar para a cidade de Eburacum (York) para passar o inverno. Sentindo que ia morrer, Constâncio resolveu abandonar as regras da Tetrarquia, mandou reunir as tropas e recomendou o seu filho ao Exército como seu sucessor.

Roman_Fortifications_in_Museum_Gardens_York

(Restos da muralha romana de Eboracum, foto de Kaly99

Em 25 de julho de 306 D.C., Constâncio Cloro faleceu, em Eboracum. O primeiro a tomar a iniciativa de aclamar Constantino foi o chefe Alamano Chrocus, um bárbaro a serviço de Roma, que, à maneira dos Germanos, mandou seus homens erguerem Constantino de pé em cima de um escudo.

Galério, apesar de ter ficado enfurecido, premido pelas circunstâncias, reconheceu a aclamação de Constantino, mas conferindo-lhe o posto menor de “César“.

Para suceder o falecido Constâncio Cloro, Galério nomeou o seu velho amigo Severo, que afinal era o César do Ocidente, como Augusto, tornando-o, assim, oficialmente coimperador, ainda durante o verão daquele ano de 306 D.C.

Em uma inusitada consequência da importância do papel de Constâncio Cloro na História e de seus feitos militares na Britânia, a sua figura acabaria sendo também lembrada nas lendas galesas e seu nome mencionado pelos proto-historiadores ingleses medievais.