AUGUSTO – O PRIMEIRO

No dia 19 de agosto de 14 D.C , faleceu, em Nola, no sul da Itália, o primeiro imperador de Roma, Augusto, com a avançada idade de 75 anos.

1- Antecedentes Familiares, infância e adolescência

Nascido em 23 de setembro de 63 A.C, em Roma, com o nome de Gaius Otavius (Caio Otávio), em uma pequena propriedade no bairro do Palatino, chamada de “Cabeça de Boi”, ainda em tenra idade ele recebeu o cognome Thurinus, pelo fato de seu pai (que também se chamava Caio Otávio)  ter sufocado uma rebelião de escravos na cidade de Thurii, na região da atual Calábria, em antes de ir assumir o posto de Procônsul da Macedônia, em 60 A.C. Nesta província, as fontes relatam que Otávio pai mostrou-se um administrador justo e capaz, tendo, ainda, obtido uma vitória militar contra a tribo dos Bessi, na Trácia, pela qual foi aclamado “Imperator” (Comandante vitorioso) pelas tropas.

Acredita-se que esta cabeça de estátua retrate Caio Otávio, pai do imperador Augusto (foto: By https://www.flickr.com/photos/carolemage/https://www.flickr.com/photos/carolemage/14464486330/, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=91027203)

O pai de  Caio Otávio Turino (que por enquanto iremos chamar de Otávio) era um “novus homo” (homem novo), isto é, alguém que chegou ao Senado Romano sem ter nenhum ancestral que o tivesse feito, o que significava não pertencer a uma família ilustre. A família dos Otávios (em latim, “Octavius“, inicialmente um prenome, significando que alguém era o oitavo filho nascido de um casal) era originária da cidade de Velitrae (atual Velletri), a cerca de 40 km a sudoeste de Roma, que fazia parte do território dos Volscos, um povo itálico que por volta de 338 A.C foi incorporado pelos Romanos. O primeiro Otávio a ser mencionado na História de Roma foi o questor Gnaeus Octavius Rufus, que ocupou o cargo por volta de 230 A.C. Ele teve dois filhos, sendo que a descendência do primeiro chegou a exercer cargos importantes. Augusto e seu pai, entretanto, descendiam do segundo filho de Octavius Rufus.

A cidade de Velletri, atualmente ( foto: By Deblu68 – Own work, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3883068)

Uma inscrição no Fórum de Augusto sumariza a carreira de Caio Otávio (pai):

Já a mãe de Otávio, Atia Balba, era filha de Marcus Atius Balbus (Balbo), primo do grande general e poderoso político Pompeu, o Grande, e provavelmente graças a esse parentesco, o pai dela foi apontado para o cargo de Pretor, em 62 A.C. Apesar disso, o próprio Pompeu, segundo Cícero, considerava Balbo um homem de pouca importância.

Mais importante, a mãe de Atia era filha de Júlia, a irmã mais nova de Caio Júlio César, político que começava a se tornar uma figura muito influente na política romana.

A carreira do seu pai, somado ao fato deles residirem no bairro do Palatino, um lugar habitado pela elite, ainda que tendo nascido em uma casa não muito grande, demonstra que a família de Otávio gozava de boa situação financeira.

Contudo, Atia ficou viúva do pai de Otávio quando este tinha somente 4 anos, em 59 A.C. O seu novo marido, Lucius Marcius Phillipus já tinha três filhos e, naquele momento, ele estava mais preocupado em se eleger Cônsul apoiado pela facção política dos Optimates, defensores dos privilégios da aristocracia senatorial contra a facção dos Populares, da qual a família dela fazia parte.

Por isso, o menino Otávio foi viver com sua avó Júlia, a irmã de César, que ficou responsável por sua criação até a morte dela, em 51 A.C, após o que ele voltou a morar com sua mãe e padrasto, período em que César concluía a sua brilhante campanha de conquista da Gália e dividia a supremacia política da República com Pompeu, o Grande.

Otaviano menino ([[File:Young Octavian by Edmonia Lewis.jpg|Young_Octavian_by_Edmonia_Lewis]]

Uma grande prova disso foi o fato de que Otávio, com apenas doze anos de idade, ter sido escalado para fazer a oração-fúnebre no velório de sua avó, que era uma cerimônia pública de grande importância para as famílias influentes da nobreza romana, muito embora o chefe do clã fosse César.

Certamente, essa proximidade que Otávio experimentou com a família do seu poderoso tio-avô, Júlio César, fez com que este notasse as qualidades do jovem sobrinho-neto.

Com efeito, após derrotar Pompeu e assumir o título de Ditador, César deu várias demonstrações de estima e consideração por Otávio, e, nos estágios finais da Guerra Civil contra o Senado e os remanescentes dos apoiadores de Pompeu, na Espanha, Otávio esteve com o tio-avô na campanha, apesar de vários episódios de problemas de saúde, algo que se repetiria ao longo de sua longa vida.


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Antes disso, porém, com o falecimento da avó, Otávio voltou a morar com a sua mãe, que se esmerou em lhe fornecer a melhor educação possível para um jovem aristocrata. Desse modo, Otávio recebeu aulas de leitura, escrita, aritmética e de língua grega, sendo ensinado pelo escravo grego chamado Sphaerus, a quem mais tarde ele libertaria e concederia um funeral público, após a morte do tutor. Já adolescente, Otávio teria aulas de Filosofia com os filósofos Areios de Alexandria e Atenodoro de Tarso, de Retórica em Latim com Marcus Epidius, e de Retórica em Grego com Apolodoro de Pérgamo.

Em 48 A.C, formalmente Otávio deixou a infância e ingressou na idade adulta, conforme o costume romano, ao receber a “Toga Virilis“. Nesse período, seu tio-avô Júlio César já havia assumido o poder supremo em Roma, ocupando o cargo de Ditador, muito embora ainda houvesse resistência localizada da oposição no Senado e dos apoiadores de Pompeu. Assim, em mais uma demonstração das intenções de César em promover seu sobrinho-neto, em 47 A.C, Otávio foi eleito para o Colégio de Pontífices, corpo encarregado de celebrar os mais importantes ritos religiosos públicos e destinado aos membros das mais ilustres famílias romanas.

Seguiram-se novas honrarias concedidas por César a Otávio: ele acompanhou o tio-avô no Triunfo celebrado em honra da vitória na Campanha da África, e, em 44 A.C, após ser aclamado Ditador Perpétuo, César nomeou Otávio como Marechal da Cavalaria (Magister Equitum), significando que ele era agora um de seus principais auxiliares.

2- Herdeiro de César

Quando César foi assassinado nos Idos de Março de 44 A.C, Otávio estava estudando e recebendo treinamento militar em Apolônia, na Ilíria, a fim de participar da campanha que César planejava mover contra o Império Parta.

Quando a notícia da morte de César chegou a Apolônia, Otávio decidiu partir para Roma, apesar da oposição de sua mãe e de seu padrasto, tendo sido aconselhado e apoiado nesta decisão por seu amigo de infância, Marco Vipsânio Agripa, que lhe era muito devotado pelo fato de Otávio ter intercedido junto ao tio-avô para que este perdoasse o irmão de Agripa, que havia lutado contra César na Batalha de Tapsos (46 A.C.), na qual ele havia caído prisioneiro.

Ao desembarcar na Itália, Otávio tomou conhecimento de que ele havia sido adotado e nomeado herdeiro de César no recém-aberto testamento do Ditador, que havia sido depositado por este na Casa das Virgens Vestais em 13 de setembro de 45 A.C. Com isso, Otávio passou legalmente a se chamar Caio Júlio César, sendo que a maior parte dos historiadores, seguindo as convenções romanas para os nomes de pessoas adotadas, a partir de então passam a se referir a Otávio como “Caio Júlio César Otaviano”, ou, simplesmente, Otaviano, algo que também faremos a partir daqui, muito embora ele mesmo jamais tenha utilizado esse nome.

Contra o conselho expresso de seu padrasto, Otaviano aceitou os termos do Testamento de César em 8 de maio de 44 A.C, tornando-se formalmente herdeiro do Ditador e, por via de consequência, não só detentor do que era, então, a maior fortuna do Mundo Romano, mas também de um imenso capital político (vale observar que, segundo Cícero, Lucius Marcius Phillipus recusava-se a chamar o enteado pelo nome “César”).

Cabeça de Otaviano, ostentando barba em sinal de luto pela morte de César. Foto; [[File:Head thought to be of Octavian wearing a beard as a sign of mourning after the assassination of Julius Caesar, now said to be of Gaius Caesar, grand-son of Augustus, Musée de l’Arles antique (15158287595).jpg

Entretanto, após o assassinato de César, inicialmente, e por um período muito breve, o poder ficou nas mãos dos assassinos de César, liderados por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino, que em um primeiro momento se compuseram com Marco Antônio, o braço-direito de César. Porém, a indignação popular contra os assassinos obrigou os a fugir de Roma.

Vale citar que os senadores conservadores, que dominavam o Senado, temiam e detestavam Antônio, que comandava a maior parte do exército de César.

Porém, com a chegada de Otaviano a Itália e a publicidade acerca dos termos do testamento do Ditador, milhares de veteranos das legiões de César foram ao encontro dele  para oferecer sua lealdade ao seu jovem herdeiro.

Os senadores, liderados pelo prestigiado Marco Túlio Cícero, pensando que poderiam controlar o jovem e inexperiente Otaviano, de apenas 19 anos, e usá-lo para enfraquecer Antônio, rapidamente reconheceram a sua posição e providenciaram fundos para pagar as suas tropas.

Marco Túlio Cícero

Com esse propósito, Cícero passou a elogiar Otaviano publicamente, parecendo mesmo acreditar que o rapaz se guiaria pelos princípios republicanos caros aos Optimates.

Marco Júnio Bruto não concordou com a aproximação de Cícero e Otaviano,  e enviou ao primeiro uma carta, censurando-o por escolher um “tirano gentil” (Otaviano) a um “tirano inimigo” (Antônio).

O propósito de Cícero era enviar Otaviano contra Antônio, que sitiava Décimo Júnio Bruto, um dos conspiradores dos Idos de Março e nomeado governador da Gália, na cidade de Mutina (atual Módena). Assim, Cícero manobrou para que Otaviano fosse elevado ao cargo de Senador, apesar dele estar bem abaixo da idade requerida, e reconhecido oficialmente comandante (Imperator) das suas tropas, legalizando-as como um exército da República.

A chegada do exército de Otaviano, juntamente com as tropas senatoriais lideradas pelos cônsules Hírtio e Pansa, obrigou Antônio a se retirar para a Gália, após combates desfavoráveis nas batalhas de Fórum Gallorum (14 de abril de 43 A.C) e Mutina (21 de abril de 43 A.C), nas quais os dois cônsules morreram. Em consequência, Otaviano assumiu o comando das tropas deles, tornando-se o chefe militar mais poderoso da península italiana naquele momento, controlando oito legiões.

Em seguida, algumas fontes (Apiano e Plutarco) mencionam que Otaviano teria feito uma proposta a Cícero para que este convencesse o Senado a indicá-los para os cargos de Cônsules, em substituição aos falecidos Hírtio e Pansa, instigando assim, astuciosamente, a conhecida vaidade do velho senador, que, animado com a possibilidade de exercer novamente o Consulado, deu andamento à proposta.

As evidências nos mostram que nessa aliança entre Cícero e Otaviano, ambos, a velha raposa política e o jovem herdeiro, estavam tentando aproveitar-se um do outro. Assim, Cícero via Otaviano meramente como um instrumento descartável para neutralizar Antônio. E Otaviano percebeu isso, mas também considerava útil ter o apoio de um dos senadores mais ilustres, o que lhe conferia mais legitimidade.

Com efeito, os dois certamente sabiam que se tratava de uma aliança precária e ao sabor das circunstâncias…Em uma carta de Décimo Bruto a Cícero, que sobreviveu, o primeiro assim escreveu ao grande senador:

Assim, em julho de 43 A.C., Otaviano enviou uma delegação de centuriões ao Senado demandando o cargo de Cônsul. Porém, o Senado respondeu com questionamentos acerca da pouca idade de Otaviano para o cargo. Ele então decidiu marchar em direção a Roma com suas oito legiões, sem encontrar oposição. Segundo Apiano, Cícero ainda conseguiu um encontro com Otaviano, onde enfatizou suas ações no Senado em apoio da candidatura dele, porém o rapaz apenas respondeu com ironia.

Cícero ainda convocou uma sessão noturna no Senado após circular um boato de que duas legiões de Otaviano tinham desertado e se unido à causa senatorial, mas quando a notícia foi desmentida, ele fugiu.

Como resultado, em 19 de agosto de 43 A.C. Otaviano foi eleito Cônsul, tendo apenas 19 anos de idade.

Ainda no mês de julho, Cícero tinha escrito uma carta a Bruto, tentando explicar os fatos e demonstrando a sua impotência diante deles :

3O Segundo Triunvirato

O fato da disputa entre Otaviano e Antônio não ser bem vista pelos soldados deles, quase todos veteranos de César, bem como a percepção de ambos de que o Senado, na primeira oportunidade, tentaria se livrar de todos, revogar as leis instituídas por César e restaurar a República e os privilégios senatoriais, para o “status quo ante” à Ditadura de César, tudo isso levou Otaviano, Marco Antônio e Marco Emílio Lépido, um importante aliado de César a encontraram-se nos arredores de Bononia (atual Bolonha) e formarem o chamado Segundo Triunvirato, em outubro de 43 A.C., ou, como eles mesmos batizaram: “Triúnviros com Poderes Consulares para Confirmar a República“, tendo o arranjo sido oficializado em 27 de novembro de 43 A.C.

Roman male portrait bust, so-called Marcus Antonius. Fine-grained yellowish marble. Flavian age (69—96 A.D.). Rome, Vatican Museums, Chiaramonti Museum.

Nessa reunião, os Triúnviros dividiram entre si as províncias romanas e, emulando Sila, decidiram fazer uma lista de proscrições abrangendo mais de 200 cidadãos (Apiano fala em cerca de 300 senadores e 2 mil equestres), sujeitos à serem executados e terem suas propriedades confiscadas (afinal, os cofres do tesouro estavam vazios). Porém, antes de publicar os decretos, eles resolveram enviar logo os executores para assassinarem doze ou dezessete (os números variam) desafetos, entre os quais estava Cícero.

De acordo com Plutarco, Antônio queria que o nome de Cícero fosse o primeiro da lista de proscritos, mas Otaviano teria sido contra a execução dele, e resistiu em dar a sua concordância durante dois dias, até que, no terceiro, ele acabou cedendo à vontade do colega. O Cônsul Quintus Pedius acabou, inadvertidamente, publicando a lista dos dezessete no dia seguinte. Cícero tentou fugir, mas foi apanhado e decapitado. A cabeça dele foi enviada para Antônio, em Roma, que a fez pendurar na tribuna chamada “Rostra”, em pleno Fórum Romano.

Enquanto isso, Bruto e Cássio, que haviam fugido para a Grécia, obtiveram apoio das lideranças simpáticas aos senadores e antigos apoiadores de Pompeu e reuniram lá um grande exército.

4- A Batalha de Fílipos

Então, Otaviano e Marco Antônio, no comando de 28 legiões, rumaram para a Grécia, derrotando os exércitos de Bruto e Cássio na Batalha de Fílipos, entre 3 e 23 de outubro de 42 A.C, levando os dois conspiradores a cometeram suicídio. Otaviano teve mais um dos seus muitos episódios de mal-estar durante a campanha, motivo pelo qual foi Antônio que participou e liderou os combates mais significativos. Por este motivo, mais tarde, Antônio reiteradamente atribuiria a Otaviano o rótulo de covarde.

Como já mencionado, os Triúnviros haviam feito uma divisão das províncias romanas entre si: Otaviano ficou a África, a Sardenha e a Sicília, Antônio com as Gálias Cisalpina e Transalpina, e Lépido com a Hispania e a Gália Narbonense. As outras províncias continuaram nominalmente com o Senado ou eram controladas pelos adversários do Triunvirato.

Entretanto, após a Batalha de Fílipos, houve um rearranjo: Antônio passaria a controlar a Grécia e as províncias do Oriente, e tomou as Gálias Narbonense e Transalpina de Lépido, que teve que entregar a Hispania e a Gália Cisalpina a Otaviano. A Itália, embora não fizesse parte da divisão, na prática seria administrada por Otaviano. Na ocasião, longe de representar uma vantagem, esse controle apresentava-se mais como um fardo, pois a Otaviano caberia a espinhosa tarefa de assentar os veteranos de César em terras escassas na península e de assegurar o suprimento de trigo para a população de Roma.

Para assentar os veteranos, Otaviano teve que confiscar terras de vários municípios italianos, o que levou a uma grande insatisfação na península, a qual foi explorada por Lúcio Antônio, irmão de Marco Antônio, e Fúlvia, a diligente e combativa esposa deste triúnviro.

Um dos motivos que teriam incentivado Fúlvia a agir foi o fato de Otaviano haver se divorciado da filha dela, Cláudia. Assim, aproveitando-se da crise gerada pelos confiscos de terras, os dois reuniram um exército de oito legiões para combater Otaviano, mas foram derrotados na chamada Guerra de Perusia, iniciada no inverno de 41 A.C , e que culminou no cerco à cidade de Perúgia, em 40 A.C. Ambos foram poupados por Otaviano, como gesto de boa vontade, e Fúlvia, que aparentemente agira sem o consentimento do marido, foi exilada por ordem de Antônio. Fúlvia acabaria morrendo no mesmo ano de 40 A.C, o que acabou sendo providencial para possibilitar uma reconciliação entre Otaviano e Marco Antônio.

Porém, com exceção do irmão e da esposa de Antônio, os demais apoiadores do partido de Antônio na Guerra Perusina seriam alvo de implacável punição por Otaviano e cerca de 300 senadores e equestres foram executados.

Antônio, quando estourou a Guerra de Perusia,  estava envolvido amorosamente com a rainha do Egito, Cleópatra, que já estava grávida dos gêmeos Alexandre Helios e Cleópatra Selene, que nasceriam no mesmo ano de 40 A.C., quando ele estava se preparando para lançar uma grande invasão ao Império Parta.

Busto de Cleópatra

Porém, sentindo sua posição na Itália enfraquecida com o desfecho da Guerra de Perusia, Antônio partiu para a Itália para combater Otaviano, sitiando a cidade de Brindisi (Brundisium).

5- O Tratado de Brundisium

Mais uma vez contudo, falou mais alto a camaradagem dos soldados e oficiais que tinham servido com Júlio César, que integravam os exércitos dos dois Triúnviros, os quais se recusaram a lutar contra seus velhos camaradas. Assim, Otaviano e Antônio foram obrigados a celebrar um novo acordo, instituído pelo Tratado de Brundisium, renovando o Triunvirato e consagrando a divisão do Mundo Romano: Desse modo, Marco Antônio ficou com as províncias do Oriente, Otaviano com as do Ocidente, restando apenas a África para Lépido. Como símbolo da renovada aliança, Marco Antônio casou-se com Otávia, a Jovem, que apesar do nome, era a irmã mais velha de Otaviano.

A divisão do Mundo Romano após o Tratado de Brundisium. (Foto: By Tobias1983 (talk · contribs) – This file was derived from: Roman-Empire-39BC-bg.png:, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=34775285)

Otaviano tentara atrair Sexto Pompeu para o seu lado durante o conflito contra Fúlvia e Lúcio Antônio. Muito provavelmente tentando cimentar essa aliança, Otaviano casou-se com Escribônia, que, acredita-se, era cunhada de Sexto. Esta união, que seria breve, deu a Otaviano aquela que seria sua única filha e descendente em 1º grau, Júlia, cognominada “Maioris” (isto é, a “Velha”). Aliás, no dia em que Júlia nasceu, 30 de outubro de 39 A.C, Otaviano divorciou-se de Escribônia.

O principal motivo do divórcio foi que, naquele momento, Otaviano estava apaixonado pela jovem Lívia Drusila, esposa de Tibério Cláudio Nero, de quem ela já tinha tido um filho (a quem foi dado o mesmo nome do pai), e grávida do segundo, Druso. Vale mencionar que Tibério Cláudio Nero era primo de Lívia, e, apesar de ter feito parte do governo de Júlio César, depois da morte do Ditador, ele passou a apoiar os seus assassinos, e, após a derrota deles, tomou partido de Marco Antônio. Em 17 de janeiro de 38 A.C, Otaviano e Lívia se casaram, três dias após ela dar à luz ao seu segundo filho do primeiro casamento e duas semanas antes dela completar 21 anos e tendo ele, apesar do imenso poder, ainda apenas 24.

Estátua de Lívia

Enquanto isso, Otaviano e Marco Antônio consentiram que Sexto Pompeu controlasse a Sicília, a Sardenha e a Córsega. O interesse de Otaviano era garantir os suprimentos de trigo para a Itália, ameaçados pelos bloqueios navais realizados pela frota de Sexto. E Antônio precisava de reforços que Otaviano se comprometera enviar para a sua campanha contra o Império Parta no Oriente.

Porém, quando Otaviano divorciou-se de Escribônia, o insatisfeito Sexto voltou a atacar os navios que levavam grãos para Roma. 

A lei senatorial previa que o mandato de cinco anos de Triunvirato expiraria em 31 de dezembro de 38 A.C. Então, Otaviano, com a intervenção de Otávia, sua irmã e esposa de Antônio,  que viajou junto com o marido para a Itália, concordaram em impor a renovação da aliança até 33 A.C., estipulando, ainda que Antônio forneceria 120 navios para a campanha contra Sexto Pompeu, comprometendo-se em troca a fornecer 20 mil soldados a Antônio. Porém, Otaviano somente enviaria a Antônio um décimo das tropas prometidas, fato que azedaria novamente a relação entre os dois Triúnviros. Todavia, com o auxílio dos navios fornecidos, Otaviano conseguiu recuperar a Córsega e a Sardenha.

Na campanha contra Sexto Pompeu, Otaviano também recebeu o apoio de Lépido e a sua frota, comandada pelo seu fiel amigo Marcos Agripa, que se revelou ser um talentoso almirante, conseguiu destruir a frota inimiga, em 3 de setembro de 36 A.C. Derrotado, Sexto Pompeu fugiu para a cidade grega de Mileto, onde, no ano seguinte, ele seria executado por Antônio.

Em seguida, Lépido tentou ocupar a Sicília, reivindicando a ilha para si, porém, o seu exército desertou para Otaviano. Sem alternativas, a sorte de Lépido repousava nas mãos de Otaviano, que, apesar de destitui-lo do posto de Triúnviro, resolveu mostrar clemência e indicou-o para o cargo de Sumo Pontífice (Pontifex Maximus).

Enquanto isso, no Oriente, a campanha de Marco Antônio contra os Partas enfrentava dificuldades. Isso levou Antônio a ficar cada vez mais dependente de Cleópatra, não só materialmente, como emocionalmente. Assim, a rainha egípcia, cada vez mais, passou a influenciar as decisões do amante, e a união entre os dois era publicamente exibida, para a humilhação de sua esposa legítima, Otávia.

Busto de Otávia. Foto: G.dallorto, Attribution, via Wikimedia Commons

Em Antioquia, onde Antônio se estabelecera para coordenar as operações, ele recebeu a visita de Cleópatra, que obteve dele importantes concessões: O Egito receberia todo o território da Fenícia, exceto Tiro e Sidon, e a cidade de Ptolemais Akko, fundada pelo seu antepassado Ptolomeu II. Cleópatra também recebeu a região da Síria-Coele, uma parte do reino dos Nabateus (parte da atual Jordânia), a cidade de Cyrene, na atual Líbia e duas cidades na ilha de Creta. Em troca, Cleópatra financiaria à campanha de Antônio na Pártia, além de fornecer a ele boa parte do exército egípcio. Isso possibilitou que Antônio armasse o que talvez fosse o maior exército jamais reunido pelos romanos, que alguns estimaram, provavelmente com algum exagero, em 200 mil homens.

Fazer tantas concessões à Cleópatra, sendo cristalino que elas seriam repudiadas pela opinião pública romana, foi uma aposta muito arriscada de Antônio, e uma oportunidade para propaganda negativa que não seria ignorada pelos partidários de Otaviano.

Cleópatra chegou a acompanhar Antônio no início da campanha, que começou pela invasão da Armênia, em 36 A.C., mas voltou para Alexandria, já que agora ela estava grávida do seu terceiro filho com Antônio, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus.

Todavia, a campanha contra os Partas foi praticamente um desastre e Antônio, regressando cabisbaixo, teve que afogar as suas mágoas com Cleópatra, em Alexandria.

Aproveitando a oportunidade, Otaviano enviou Otávia de volta para o marido, em Atenas (onde ficava a residência oficial do casal), levando os dois mil soldados que haviam sido prometidos, mas nunca enviados. Ocorre que Antônio, embora tenha aceitado o contingente, não só continuou em Alexandria com Cleópatra, como proibiu que Otávia deixasse Atenas para vir ao seu encontro.

Na prática, isso foi visto publicamente como se Antônio estivesse repudiando a nobre romana Otávia, sua esposa legítima, em favor de sua amante egípcia, e a comoção no seio da opinião pública romana só aumentou quando Otávia recusou o convite do irmão para abrigar-se na casa dele, continuando a residir na residência de Antônio, em Roma, ainda por cima continuando a cuidar não só dos filhos do casal, como também dos filhos que Antônio teve com a falecida Fúlvia, no que pode ter sido um gesto politicamente calculado com o irmão para estimular a compaixão do povo romano por ela e antipatizar Antônio.

6- As Doações da Alexandria e o rompimento com Antônio

Mas foi o próprio Antônio, estimulado por Cleópatra, quem daria o maior golpe na própria reputação, dando a Otaviano um trunfo gigantesco na disputa entre ambos pelo poder supremo:

Com efeito, no outono de 34 A.C., retornando de uma, enfim, moderadamente bem sucedida campanha na Armênia, Antônio e Cleópatra organizaram em Alexandria uma parada triunfal, sendo que Antônio conduzia o carro vestido de deus Dionísio-Osíris, e na qual a família real armênia foi exibida pelas ruas da cidade e conduzida até dois tronos dourados, um para Antônio, outro para Cleópatra.

Chegando ao palanque, Antônio proclamou solenemente ao povo reunido no Gymnasium, que Cleópatra, que na ocasião  estava vestida como a deusa Ísis, era a “Rainha dos Reis” e “Rainha do Egito, Chipre, Líbia e Sìria-Coele“, junto com seu filho, Caesarion, o “Rei dos Reis“. Alexandre Helios foi nomeado “Rei da Armênia, da Média e da Pártia“. Já Ptolomeu Philadelphus foi designado “Rei da Cilícia e da Síria”, e Cleópatra Selene, por sua vez, a “Rainha de Creta e de Cyrene“. Na cerimônia, Antônio também fez questão de proclamar que Cleópatra tinha sido esposa de Júlio César,  e que o filho que eles tiveram, Caesarion, era o filho legítimo de César. O episódio ficou conhecido como “As Doações de Alexandria“.

O prazo renovado do Segundo Triunvirato expirou em 31 de dezembro de 33 A.C, e os episódios recentes deixavam claro que nenhuma das partes teria interesse em uma nova prorrogação. Otaviano e Antônio, então, começaram uma guerra aberta de propaganda, cada um expondo episódios de má conduta, traições, ultrajes, etc., contra o outro, pois já anteviam o conflito que estava por vir e, por antecipação, ambos queriam justificar perante a opinião pública o motivo da  iminente guerra civil, colocando a culpa pelo início da mesma no adversário.

E não causou espécie a ninguém que o motivo mais grave alegado por Otaviano tenha sido o fato de Antônio ter reconhecido oficialmente Caesarion como o filho legítimo e herdeiro de Júlio César

Acredita-se que essa cabeça, encontrada submersa na Baía de Alexandria, retrate Cesárion, filho de Júlio César e Cleópatra

Mas o fato é que, naquele momento, Antônio ainda tinha muitos simpatizantes em Roma, inclusive no Senado. De acordo com o historiador romano Dião Cássio, em 1º de janeiro de 32 A.C., primeiro dia de sessão do Senado no ano, por exemplo, o cônsul e aliado de Antônio, Gaius Sosius, proferiu um discurso atacando violentamente Otaviano, e propondo a aprovação de uma legislação contrária aos interesses deste.

Otaviano resolveu, então, abandonar os escrúpulos de legalidade e, na sessão seguinte do Senado, no outro dia, compareceu à Cúria acompanhado de sua guarda pessoal e de vários correligionários armados com adagas escondidas sob as togas. Considerando que Otaviano controlava as legiões da Itália, bem como as do Ocidente em geral, nos dias seguintes, os cônsules Gaius Sosius e Domitius Ahenobarbus, intimidados, abandonaram Roma e partiram para se unir a Antônio, na Grécia, sendo acompanhados por mais de duzentos senadores que também apoiavam Antônio.

Já preparando-se para a guerra iminente, Cleópatra providenciou duzentos navios de guerra para a frota de oitocentas naves que Antônio estava reunindo, além de, naturalmente, muito dinheiro para o esforço bélico. Em seguida, o casal reuniu-se em Éfeso para organizar a campanha contra Otaviano.

De acordo com o historiador Plutarco, os aristocratas Titius e Lucius Munatius Plancus conheciam os termos do testamento de Antônio, que, conforme o costume, havia sido depositado lacrado em poder das Virgens Vestais, e contaram tudo para Otaviano. Ciente, assim, dos termos da última vontade do rival, Otaviano, ilegalmente, conseguiu se apossar do documento, que foi aberto e lido por ele em uma sessão do Senado. Entre suas cláusulas, segundo consta, havia a recomendação de Antônio para que , caso morresse no decorrer da guerra, o seu corpo fosse entregue à Cleópatra, para ser sepultado em Alexandria. Essa disposição muito convenientemente ia de encontro ao boato que os partidários de Otaviano andavam espalhando por Roma: a de que Antônio, caso vencedor, pretendia transformar Alexandria na capital do “Imperium” romano!

Engenhosamente, o Senado Romano, agora controlado por Otaviano, não declarou guerra a Antônio, apesar dele ser o alvo principal da medida. Preocupados com a opinião pública, e com a posteridade, os senadores formalmente votaram pela declaração de guerra contra Cleópatra, a rainha do Egito, e, dessa forma, todos os tradicionais ritos previstos para uma guerra contra inimigos estrangeiros puderam ser celebrados. Além disso, tal circunstância impedia que os senadores partidários de Antônio fossem considerados desertores ou criminosos, deixando uma porta aberta para o seu retorno e perdão. Não obstante, foi decretada expressamente a retirada de todos os poderes de Triúnviro que Antônio ainda detinha.

Se ainda havia alguma dúvida de que o rompimento era definitivo, ainda em 32 A.C, Antônio divorciou-se de Otávia. A partir daquele momento, Cleópatra não precisaria mais temer a rival e, aparentemente, a opinião dela prevaleceria em todos os aspectos, incluindo a estratégia que seria adotada para a guerra…

Embora o exército de Antônio fosse, nominalmente, maior que o de Otaviano (100 mil x 80  mil), ele e Cleópatra optaram por uma estratégia na qual a guerra seria decidida em um confronto naval, já que a frota deles era não apenas mais numerosa, mas também era composta por navios maiores. Acredita-se que, neste particular, teria prevalecido a opinião de Cleópatra, que, secretamente, tencionaria que a frota romana, pertencente a ambos os adversários fosse destruída ou ficasse bem enfraquecida, fato que beneficiaria o Egito em caso de uma futura tentativa de invasão de Roma. 

7- Começa a Guerra Civil

Mas quem tomaria a iniciativa seria Otaviano. Ele zarpou para a Grécia e se dirigiu para Actium, cidade localizada na entrada do Golfo Ambraciano, onde Antônio e Cleópatra tinham estabelecido o seu quartel-general das operações e reunido sua imensa frota. Enquanto isso, seu almirante, o fiel Marcus Vipsanius Agrippa (Agripa), tomou Corcyra e lá instalou uma base para as operações contra Antônio.

Por sua vez, Otaviano desembarcou suas tropas no lado oposto do Golfo Ambraciano e enviou emissários aos comandantes de Antônio propondo uma negociação, proposta esta que foi recusada. Porém, nas escaramuças que se seguiram com as tropas de Antônio, estacionadas ao longo de Actium, as forças de Otaviano levaram a melhor. Começaram, então, a pipocar deserções entre os aliados de Antônio, que incluíam quase todos os reinos-clientes de Roma no Oriente, além de amigos romanos de longa data, como Quintus Dellius, que fugiu e foi se juntar a Otaviano, fornecendo a este informações valiosas sobra o estado da frota e os preparativos de Antônio.

De acordo com o relato de Cássio Dião, nessa fase da campanha, Cleópatra fez prevalecer a opinião dela de que as posições mais defensáveis deveriam ser ocupadas por guarnições militares, mas que ela e Antônio, juntamente com o grosso das tropas, deveriam rumar para o Egito. Assim, parece realmente que o que importava mesmo para a rainha era a defesa do Egito e, para Antônio, que ele pudesse continuar contando com o suporte financeiro e militar de Cleópatra, dinheiro que, cada vez mais, aparentava ser o elemento crucial para a coesão do seu exército.

Tendo em vista que o número de marinheiros era insuficiente para tripular adequadamente todos os navios da sua frota, Antônio ordenou que aqueles em mau estado fossem queimados, mantendo apenas os melhores. Ele e Cleópatra também ordenaram que, secretamente, todo o tesouro fosse embarcado neles.

8- A Batalha de Actium

No dia 02 de setembro de 31 A.C, Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual suas sete legiões estavam acampadas, e de onde podiam assistir às manobras. Sua frota agora era composta de 230 grandes galeras.

Comandada por Agripa, a frota de Otaviano tinha 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio. Graças às informações fornecidas por Quintus Dellius, entretanto, Otaviano e Agripa tinham ciência dos planos de Antônio, e estavam preparados, esperando a frota inimiga.

Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. A ala esquerda da sua frota deu a impressão de querer empurrar à ala direita da esquadra de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito, porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem e se dirigindo à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

Relevo retratando a Batalha de Actium

Foi então que, em um movimento inesperado, os navios que estavam com Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio, e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram no que parecia ser a direção do Egito, levando consigo todo o tesouro.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando para trás o restante da frota, que ficou lutando acéfala, exceto por cerca de 60 navios egípcios que conseguiram acompanhar a fuga deles. Mesmo assim, os combates duraram até a madrugada do dia seguinte, porém, no final, toda a frota remanescente de Antônio acabou sendo destruída por Otaviano

Embora, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandassem, ao menos no papel, um numeroso exército, o fato é que o custo moral da derrota foi muito alto.

Assim, Cleópatra e Antônio e seus navios remanescentes navegaram até o Peloponeso, conseguindo se evadir à breve perseguição dos navios de Otaviano, e rumaram em direção à África.

Antônio foi para a Líbia, pensando em trazer as legiões que ele tinha deixado ali para a defesa da fronteira ocidental do Egito, enquanto Cleópatra voltou para Alexandria. Porém, o governador de Cyrene e comandante daquelas legiões, Lucius Pinarius Scarpus, que era primo de Otaviano, recusou-se a entregá-las a Antônio. Ao perceber que tudo estava desmoronando, Plutarco conta que Antônio chegou a tentar o suicídio, mas foi impedido pelos seus amigos. Ele então partiu para o Egito, para reencontrar Cleópatra.

Em julho de 30 A.C, Otaviano sitiou Alexandria. Embora tenha havido resistência, as forças dele eram numericamente superiores e mais motivadas. Antônio chegou até a vencer uma escaramuça, no meio da qual desafiou Otaviano para um combate pessoal, a fim de resolver a disputa poupando baixas de ambos, mas este negou-se, limitando-se a responder que:

Em 1º de agosto de 30 A.C, retornando para Alexandria, Antônio, acreditando que Cleópatra tinha morrido, matou-se com a própria espada. A rainha, que estava escondida em seu mausoléu, foi capturada e levada para prisão domiciliar em seu próprio palácio.

Otaviano, agora senhor do mundo romano, planejava levar Cleópatra para Roma e exibir a rainha egípcia em seu triunfo, porém, ela conseguiu enganá-lo e cometeu suicídio, alegadamente deixando-se picar por uma serpente.

Restava somenbte Caesarion, que havia fugido para o sul do Egito com a finalidade de embarcar em direção à Ìndia. Ele, oficialmente, após a morte da mãe, agora era o último faraó do Egito. Consta que Otaviano, indeciso sobre o que fazer com o rapaz, recebeu o seguinte conselho do filósofo Areius:

Então, um destacamento de soldados de Otaviano conseguiu interceptar a caravana de Caesarion e ele foi executado.

9- Senhor de Roma

Após vários anos de duas grandes guerras civis, no período do Primeiro e do Segundo Triunviratos, o povo romano, exausto e sequioso de paz e ordem, aguardava ansiosamente qual seria o próximo passo de Otaviano

Busto de Otaviano, aproximadamente da época da derrota de Cleópatra. Foto> By Gautier Poupeau from Paris, France – Octave, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=35036733

Com a morte de Antônio e Cleópatra, não mais existiam na orla do Mundo Mediterrâneo, terras não controladas por Roma (a não ser por pequenos bolsões interiores, ainda não completamente dominados), e, no Estado Romano, ninguém que pudesse contestar a autoridade suprema de Otaviano, então na flor de seus 34 anos.

A primeira medida de Otaviano, como detentor de fato, ainda que não de direito, do poder absoluto em Roma e nas terras por ela controladas, foi tornar o Egito uma província romana, porém sujeita diretamente à sua pessoa, não sendo admitida qualquer participação do Senado em sua administração e até mesmo a presença de qualquer senador em seus limites, sem expressa autorização dele.

Quando a notícia da vitória completa de Otaviano alcançou Roma, o Senado decretou que ele detivesse as prerrogativas de imunidade dos Tribunos de forma perpétua (o que era importante, pois os Tribunos eram invioláveis não podendo ser alvo de qualquer constrição, processo ou violência). E muitas outras honras inauditas foram votadas e conferidas a Otaviano, antes mesmo dele por os pés novamente na Cidade.

Ao chegar na capital, Otaviano recusou algumas homenagens e privilégios mais extravagantes, mas fez questão de que seus maiores auxiliares, incluindo Agripa, fossem devidamente condecorados. Na Procissão Triunfal das inúmeras vitórias obtidas durante a Guerra Civil e contra povos estrangeiros, foram exibidos os despojos e prisioneiros capturados, destacando-se os filhos de Cleópatra e Antônio, além de uma pintura de Cleópatra (leia nosso artigo sobre esse quadro).

Em 29 A.C., Otaviano e Agripa foram eleitos cônsules, o que legalmente lhes dava o exercício do que poderíamos chamar de poder executivo em Roma.

Percebe-se que, desde que voltou vitorioso e assumiu as rédeas do Estado Romano, Otaviano mostrou-se consciente de que era necessário evitar, ou, quando isto não fosse possível, ao menos mascarar, as práticas e comportamentos que acarretaram o assassinato de seu tio-avô Júlio César, acusado de tentar se tornar Rei de Roma.

Neste propósito, ele contou com o aconselhamento de seus inseparáveis amigos Agripa e Caio Mecenas.

Assim, Otaviano deveria ser visto aos olhos do público como o salvador da República; nunca como um Rei, mas sim como um líder que divinamente nasceu para manter a paz, a ordem e as tradições republicanas, as quais, sem a sua presença, continuariam ameaçadas por novas guerras civis e pela anarquia. Desse modo, as prerrogativas dos Senadores seriam respeitadas, graças à sua proteção, assim como cabia a ele assegurar os direitos da plebe. Todas as formalidades, assembleias e cargos republicanos seriam nominalmente mantidos, mas o seu funcionamento e efetividade, na prática dependeriam da vontade de Otaviano.

Busto de Marco Vipsânio Agripa, fiel colaborador de Augusto

Seguindo essa política, em 28 A.C, Otaviano revogou todos os decretos e leis excepcionais ou de emergência editados durante a Guerra Civil e declarou que estava devolvendo todos os poderes ao Senado, incluindo o comando das várias dezenas de legiões que ele controlava.

Provavelmente, poucos senadores ficaram convencidos da sinceridade do gesto, mas outros tantos, certamente, temiam, com razão, que, sem a autoridade de um líder inconteste como Otaviano, era grande a probabilidade de que as guerras intestinas pelo poder voltassem a assolar o Estado Romano.

Ocorre que, efetivamente, Otaviano, naquele momento, era provavelmente o homem mais rico do planeta, e ele controlava recursos descomunais comparáveis ao do próprio Estado Romano. E comandava uma imensa massa de militares que, naquele momento, estava ligada por laços de lealdade e devoção à causa de César e do herdeiro deste, Otaviano. Esses veteranos precisavam ser desmobilizados, assentados e assegurada a sua subsistência, e com boa dose de certeza, isso não seria possível sem a intervenção de Otaviano.

10 – Início do Principado e o Primeiro Pacto

Este foi o quadro em que se deu o chamado “Primeiro Pacto” entre Otaviano e o Senado Romano: Ante o clamor dos senadores para que ele continuasse à frente do Estado, Otaviano “aceitou” que ele ficaria no controle das províncias onde estavam estacionadas a maior parte das legiões romanas, não por mera coincidência, aquelas mais estratégicas, pelo prazo de dez anos, enquanto que as outras seriam administradas pelo Senado. Criou-se ainda, já que qualquer insinuação de monarquia era inaceitável, um novo título para espelhar a posição de Otaviano na República – ele seria o “Princeps” (o primeiro de todos), um título derivado de uma prerrogativa senatorial conferida ao senador mais antigo de ser o primeiro a falar (Princeps Senatum).

Busto de Augusto. Foto By Dan Mihai Pitea – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=117069932

O título foi conferido pelo Senado em 16 de janeiro de 27 A.C., sendo que na mesma sessão, lhe foi conferido o cognome de “Augustus” (significando o “Venerável” ou o “Reverenciado“), após anteriormente vários outros nomes terem sido considerados (e certamente avaliados por Otaviano). Este nome tinha conotações religiosas e visava conferir a Otaviano uma aura sagrada, valendo citar que ele já se apresentava como “Filho do Divino Júlio“, por causa da deificação de Júlio César, tornado divino logo após o seu assassinato. A partir daí, os historiadores passam a se referir a Otaviano como Augusto, e é assim que faremos também.

Seguindo a convenção de conhecimento geral, a partir de 27 A.C, termina o período da República Romana, nascendo o Império Romano.

Observe-se que “Imperium Romanum” significava, originalmente, as terras sobre as quais Roma exercia domínio, mas “Imperium” também significa o comando e a autoridade militar conferidos a um general sobre suas tropas. De acordo com o costume, quando vitorioso, o general era aclamado “Imperator“. Vimos que a primeira providência de Augusto foi continuar tendo o “Imperium” sobre suas legiões – afinal, desde o início do século I A.C, esta vinha sendo a verdadeira fonte de poder dos governantes romanos – Assim, o título de “Imperator” seria, desde o início, adotado por todos os imperadores romanos a partir de Augusto.

Segundo Antônio dissera certa vez, “Otavio deve tudo ao nome“. Embora tenha sido um comentário feito com intenção depreciativa, o fato é que não fosse a conexão familiar dele com Júlio César, o homem que antes dele chegara ao poder supremo ilimitado temporalmente, abrindo as portas para o processo de mudança de regime, certamente Augusto não teria chegado onde chegou, não obstante ele tenha demonstrado, ainda muito jovem, notável determinação, coragem, talento e inteligência para se tornar o primeiro imperador romano e inaugurar uma forma de governo que duraria, praticamente inalterada, até 284 D.C, e que pode ser considerar, ainda, que, com muitas modificações, sobreviveria, sem quebra de continuidade, até a Queda de Constantinopla, em 1453.

Por isso, ao titulo de “Imperator“, em pouco tempo seriam adicionados,  na forma de títulos, os nomes de “Caesar” e “Augustus“. Em pouco tempo, inúmeros imperadores  romanos subsequentes ostentariam nas inscrições e moedas o título de “Imperator Caesar Augustus“.

Mantendo a fachada de retorno à ordem institucional republicana, Augusto assumiu o cargo de Censor, junto com Agripa, o que lhe permitiu escolher novos senadores, excluindo outros para compor aquela Assembleia, que se encontrava bastante desfalcada em função das mortes ocorridas durante a Guerra Civil.

Agripa também foi nomeado “Curador das Águas” e, nesta capacidade, ele reformou o aqueduto Acqua Marcia. Como Edil, ele também limpou e expandiu a rede de esgoto Cloaca Maxima, além de ter construído Termas e muitos templos. Efetivamente, Agripa foi o principal responsável pelo que Augusto, mais tarde, deixaria expresso em seu testamento público como sendo um de seus maiores legados:

Entre os monumentos mais conhecidos que Augusto ergueu em Roma está o Fórum que leva o seu nome, sendo este o segundo Fórum planejado construído em Roma, após o Fórum de César. Neste Fórum, inaugurado em 2 A.C, Augusto cumpriu a promessa que havia feito de construir um templo em honra ao deus Marte, caso ele vencesse a Batalha de Fílipos, ocorrida quarenta anos antes da inauguração. Assim, foi erguido o Templo de Marte Vingador (Mars Ultor), sendo esta denominação devida ao fato de que o deus teria intervindo para vingar a morte de Júlio César, ajudando Augusto a vencer os assassinos dele. O templo foi construído em uma área que pertencia ao próprio Augusto, e o projeto teve que ser alterado porque Augusto se recusou a desapropriar ou confiscar as residências particulares contíguas para que o espaço contemplasse a concepção original do complexo.

Ruínas do Templo de Marte Vingador, no Fórum de Augusto, em Roma. Foto Por Jakub Hałun – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=37645434

Também digno de nota é o Teatro de Marcelo, inaugurado em 12 A.C, que recebeu esse nome em memória do falecido sobrinho de Augusto, sobre o qual falaremos em breve. Com capacidade para 17 mil espectadores, foi o maior teatro já construído na cidade de Roma e suas ruínas, que foram parcialmente transformadas em residências, ainda podem ser aprecidas.

Teatro de Marcelo. Foto By Fiat 500e – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=139306337

Outra obra importante, não pela grandiosidade, mas pelo significado político, histórico e artístico, foi a Ara Pacis (Altar da Pax), erguida no Campo de Marte para celebrar aquela que Augusto considerava como uma de suas maiores realizações: A Paz Romana (Pax Romana), ou Paz Augusta (Pax Augusta), que consistia no fim das guerras civis e conquista ou pacificação das nações vizinhas circundantes, garantindo a existência de fronteiras estáveis. A Ara Pacis foi dedicada em 9 de janeiro de 9 A.C e ela é importante também como monumento artístico, graças à excelência de suas proporções e qualidade dos relevos, os quais ilustram uma procissão religiosa com retratos de vários membros da família imperial dos Júlios-Cláudios

A Ara Pacis, reconstruída com parte dos relevos originais. Foto Por Manfred Heyde – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6435591

11- Grave enfermidade e o Segundo Pacto

Porém, em 23 A.C, Augusto ficou muito doente a ponto de considerar seriamente que não iria sobreviver. Fazia dez anos sucessivos que ele vinha ocupando o cargo de Cônsul, algo que causava desagrado aos senadores tradicionalistas, uma vez que durante a República este era o cargo mais alto que podia ser alcançado por um cidadão, e que conferia grande prestígio às famílias aristocráticas, que o vinham ocupando desde  o início da República, em 509 A.C, com raríssimas exceções.

Até aquele momento, não havia nenhuma norma estabelecida acerca da sucessão de Augusto como Princeps e nem mesmo se esta posição seria exclusiva dele, cessando com sua morte, ou se o regime continuaria. E neste caso, também não se sabia quem seria o escolhido para ser o novo imperador.

O colaborador mais próximo e amigo mais íntimo do imperador, Marco Vipsânio Agripa, certamente poderia contar com o apoio do Exército, que tantas vezes ele havia comandado com brilhantismo durante a Guerra Civil. No entanto, sua família pertencia à classe equestre, o segundo escalão da nobreza romana, e sua aceitação pelos integrantes da aristocracia senatorial provavelmente seria problemática, embora ele, naquele momento, fosse casado com a sobrinha de Augusto, Cláudia Marcela. O herdeiro mais provável parecia ser Marco Cláudio Marcelo, que além de ser sobrinho de Augusto, e seu parente do sexo masculino mais próximo, era casado com Júlia, a única filha de Augusto. No entanto, Marcelo somente tinha 19 anos e não possuía real experiência política e militar. 

Busto de Marcelo. Foto: By Siren-Com – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=32780891

Segundo as fontes, no auge da doença, Augusto entregou o anel contendo o seu selo para Agripa, o que muitos entenderam como sendo a escolha dele como sucessor. Entretanto, Augusto também convocou seu colega de consulado, Calpúrnio Pisão, conhecido por ser um adepto das tradições republicanas, e entregou-lhe as contas das finanças do Estado, bem como todos os documentos oficiais que estavam em seu poder, além da lista das legiões existentes, no que pode ter parecido um gesto de que ele tencionava restaurar a República, ou ao menos, manter a divisão de poderes entre o futuro príncipe e o Senado como ele havia deixado. 

Porém, de fato, pode ser que a intenção de Augusto fosse a de que Agripa, que sempre havia se provado o seu amigo e ajudante mais fiel entre todos, administrasse o Estado até que Marcelo estivesse preparado. Essa é a hipótese que me parece mais provável.

No entanto, Augusto, graças aos cuidados do médico Antônio Musa, acabou se recuperando. Em seguida, o imperador começou a dar demonstrações de preferência por Marcelo, conferindo-lhe honras e financiando um grande espetáculo que o sobrinho ofereceu em Roma. Ocorre que o episódio do anel gerou uma certa animosidade de Marcelo em relação a Agripa. Assim, para afastar quaisquer dúvidas, o sempre obediente e dedicado Agripa foi enviado em uma missão no Oriente.

Porém, naquele mesmo ano, Marcelo contraiu uma febre, possivelmente a mesma enfermidade que havia atacado Augusto, sendo igualmente tratado por Musa, mas desta vez sem sucesso. Então, Marcelo morreu aos 19 anos de idade e foi muito pranteado pelo tio, recebendo várias homenagens fúnebres. 

Apesar de ser de conhecimento do público que uma peste grassava em Roma no ano da doença de Augusto e da morte de Marcelo, muitos desconfiaram que o rapaz pudesse ter sido envenenado, e a principal suspeita recaiu sobre a imperatriz Lívia, que estaria interessada em assegurar que seu filho natural mais velho, Tibério, fosse o sucessor de Augusto. Embora provavelmente não tenha passado de um boato, essa suspeita seria reforçada no futuro por acontecimentos semelhantes…

Diante do estado de indefinição sobre quais seriam os limites do poder de Augusto, ou, melhor dizendo, quais os poderes e prerrogativas o Senado ainda poderia manter, os acontecimentos levaram Augusto e os senadores a colocarem em prática o que ficaria conhecido como o “Segundo Pacto“.

Tentando, sinceramente ou não, afastar as incertezas  e os temores que as ações relativas à sua sucessão durante a sua grave enfermidade incutiram tanto em seu círculo, como no Senado  e até na opinião pública, de que o Império se tornaria uma monarquia hereditária, Augusto decidiu renunciar ao Consulado. Isso visava contentar aos Senadores, que agora teriam duas vagas para disputar as muitas honrarias que o cargo proporcionava. Além disso, deixando de ser Cônsul, tecnicamente Augusto não teria mais ingerência, ao menos formalmente, sobre as chamadas Províncias Senatoriais, continuando apenas como Procônsul das chamadas Províncias Imperiais, administradas por seus Legados.

O Segundo Pacto, antes de significar que o Senado tencionasse disputar o poder com Augusto, era uma forma de solucionar impasses legais aptos a gerar confusões e perplexidades no governo do Império. Assim, o Senado votou que Augusto deteria um “Imperium Proconsularis Maius“, que lhe permitia, em caso de necessidade, intervir nas províncias senatoriais, mas que, de maneira inédita, aplicava-se também no interior da cidade de Roma.

Prosseguindo, o Senado também conferiu a Augusto o Poder Tribunício vitalício (mas não, por óbvio, o cargo de Tribuno, que era privativo de plebeus), permitindo-lhe apresentar  ou vetar propostas de leis, incluindo, ainda, os poderes de Censor, muito importante porque permitia arrolar os cidadãos dentro dos diversos estratos da sociedade romana (o que importava em prerrogativas e privilégios para os escolhidos, como o de ocupar certos cargos e não ficar sujeito a penas infamantes), realizar Censos, além de fiscalizar os costumes públicos.

Foi no uso dessas capacidades que Augusto criou um corpo de “Vigiles” (bombeiros) para atuar na cidade de Roma, e também instituiu medidas conservadoras de costumes, como penas para adultério e a obrigação de todo cidadão usar a toga quando adentrasse o Fórum Romano. E também criar uma guarda imperial, que foi chamada de Guarda Pretoriana e era a única guarnição armada admitida no interior da Cidade de Roma.

Nota: originalmente, todos os comandantes militares romanos tinham uma guarda pretoriana, nome derivado do Pretorium, o quartel-general ocupado pelo comandante. Augusto manteve a sua guarda pretoriana quando voltou para Roma, e mais tarde, institucionalizou esse corpo militar, inclusive criando o cargo de Prefeito Pretoriano, que eram dois). Não obstante, a segurança dentro do palácio ficaria a cargo de um corpo de guarda-costas de origem germânica.

A plebe romana, que não confiava na aristocracia senatorial, ao saber que Augusto não mais concorreria ao Consulado, e ignorante das sutilezas do Segundo Pacto (que na realidade havia aumentado os poderes de Augusto), chegou a promover tumultos nas ruas, exigindo que ele concorresse às eleições para o cargo nos anos de 22, 21 e 19 A.C, e até que ele assumisse o posto de Ditador (que era uma magistratura excepcional temporária prevista nas normas constitucionais da República Romana). Augusto, cautelosamente, recusou. Mas quando, no primeiro ano citado, houve escassez de comida na Cidade, seguiram-se maiores tumultos, e o imperador foi obrigado a intervir com recursos próprios para assegurar o fornecimento de trigo. Isso o levaria, anos mais tarde, a instituir o cargo de Prefeito da Anona, que teria muita importância política na história imperial.

O aumento dos poderes do Príncipe não passou despercebido para os mais perspicazes senadores, e, em 22 A.C, foi denunciada a existência de uma conspiração em andamento para derrubar Augusto, liderada por um obscuro Fannius Caepio (provavelmente, as referências ao personagem foram restringidas pela reação imperial), com a participação de Lucius Murena, legado imperial na Síria. Os participantes, que haviam fugido, foram julgados sumariamente à revelia, e executados assim que foram capturados. Nesse julgamento, Tibério, o enteado de Augusto, funcionou como acusador público.

Em 19 A.C,  a aparência de continuidade republicana tão ciosamente promovida por Augusto esvaneceu-se um ainda um pouco mais quando ele recebeu o “Império Consular“, permitindo-lhe exercer os poderes dos Cônsules Ordinários e utilizar seus ornamentos e símbolos, incluindo um séquito de litores carregando “fasces” (o feixe de varas que representava o poder de castigar que detinham os magistrados). Finalmente, em 12 A.C, Augusto recebeu o cargo de  Sumo Pontífice, passando a ser o chefe dos cultos reconhecidos pelo Estado Romano e, finalmente, em 2 A.C, a ele foi conferido o título de “Pai da Pátria“. Podemos, assim considerar que estava concluída a transição da República para o Império.

Estátua de Augusto, vestido de Sumo Pontífice. Foto By Vicenç Valcárcel Pérez – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=99990278

12- A Era de Augusto

Augusto e seus auxiliares mais próximos, sobretudo Gaius Mecenas, patrocinaram poetas, artistas e historiadores, como Virgílio e Tito Lívio, reunidos em um círculo, criando uma verdadeira ideologia e estética imperiais. O governo de Augusto foi apresentado como o ponto culminante de toda da História de Roma, desde a sua fundação, e as obras produzidas, como a Eneida, enfatizavam os costumes ancestrais, as virtudes romanas e sua relação com a Era de Augusto, em que o patriotismo, a paz e a concórdia eram estimulados e assegurados pelo imperador. 

Por sua vez, a imperatriz Lívia passou a personificar a virtude das matronas romanas. Tida como casta e incorruptível, segundo divulgou-se, ela até chegava a fiar em seus aposentos as roupas que o marido usava. Porém, Lívia era muito mais do que apenas uma imperatriz-consorte, e por várias vezes constatou-se que ela tinha voz efetiva nos assuntos do governo e Augusto ouvia seus conselhos. Além disso, Lívia tinha o direito de ter seus próprios secretários e geria por conta própria o seu vasto patrimônio.

Como Censor, Augusto tentou reformar práticas considerados imorais da aristocracia romana, tomando medidas contra o adultério (embora ele mesmo fosse um rematado adúltero) e revigorar costumes tradicionais, como por exemplo ao proibir que pessoas entrassem no Fórum Romano sem estarem vestidas com a típica toga romana.

Passada a fase de alguma indefinição acerca de sua posição no Estado Romano, após os dois pactos estabelecendo a sua supremacia sobre qualquer outra instância de governo, Augusto sentiu-se à vontade para expandir e consolidar as fronteiras do Império Romano.

Dissemos nos capítulos anteriores que, ao final da Guerra contra Antônio e Cleópatra, Roma era a senhora da orla do Mediterrâneo, o que era verdade. Porém, no interior dos territórios controlados pelos Romanos, havia várias tribos e regiões ainda não submissas ao poder romano, acarretando, inclusive, alguma descontinuidade territorial entre algumas províncias. Vale citar que o próprio César, por exemplo, teve que negociar com chefes de tribos celtas que controlavam passagens nos Alpes para poder se movimentar da Gália para a Itália e vice-versa, mesmo após a conquista romana e a transformação da Gália em província.

Mesmo antes da completa estabilização política interna, Augusto já havia liderado, até ser obrigado a se afastar por uma enfermidade, uma campanha contra as tribos dos Cântabros, em 26 A.C, e, posteriormente, contra os Astures e os Galaicos, na Hispânia,. Essas campanhas foram concluídas com sucesso pelos governadores da Hispânia Citerior e Ulterior, em 19 A.C., assegurando o controle romano sobre o norte e o noroeste da Península Ibérica, incluindo ricas minas de ouro.

Em 25 A.C, o rei Aminthas, da Galácia, um reino-cliente de Roma, morreu e Augusto aproveitou o fato para anexar o reino.

Entre 16 A.C. e 7 A.C, as tribos que habitavam os Alpes foram conquistadas. Em comemoração, foi erguido o imponente monumento denominado “Troféu dos Alpes” (conhecido como La Turbie, na França), próximo ao atual Principado de Mônaco, cujas ruínas ainda existem, contendo a inscrição com o nome das 45 tribos subjugadas.

La Turbie, originalmente em forma de cilindro, ainda hoje é uma ruína impressionante. (Foto: Berthold Werner, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons)

Em 20 A.C, Augusto obteve, mediante diplomacia, a devolução dos estandartes militares romanos que os Partas haviam capturado em 53 A.C, após derrotarem e matar o Triúnviro Crasso (o colega de César e Pompeu no Primeiro Triunvirato). O acontecimento foi alvo de uma bem-sucedida campanha de propaganda para o público interno, apresentada como se o imperador parta, Fraates IV, tivesse se submetido a Augusto. Este até passou a usar uma elaborada couraça com relevos retratando a devolução dos estandartes, que pode ser apreciada na famosa estátua conhecida como “Augusto de Prima Porta“, atualmente nos Museus Vaticanos, em Roma.

A famosa estátua do Augusto de Prima Porta

Todas essas vitórias foram orgulhosamente relacionadas na Res Gestae Divi Augusti (Atos do Divino Augusto), um documento escrito pelo próprio Augusto, descrevendo todas as suas realizações civis e militares desde que iniciou sua vida pública, sobretudo após vencer a Guerra Civil e exercer o poder supremo em Roma (o texto encontra-se gravado nas paredes de um templo, em Ancyra (atual Ancara), na Turquia, e por isso é conhecido como Monumentum Ancyranum.

As paredes do Templo de Augusto e Roma, em Ancara, contendo as inscrições com o texto da Res Gestae Divi Augusti

Porém, Augusto, não é de surpreender, não contou as, diga-se de passagem, poucas derrotas que os romanos sofreram em seu longuíssimo reinado. Ele omitiu, particularmente, o famoso “Desastre de Varo”, na Germânia.

Hoje não há dúvidas, cotejando os relatos das fontes antigas com os achados arqueológicos, que Augusto pretendia transformar toda a Germânia (Germania Magna) em uma província romana. Seus generais, notadamente seus enteados Druso e Tibério, obtiveram muitas vitórias sobre as tribos germânicas e chegaram a alcançar o rio Elba , indo até mesmo além. Quartéis e até algumas cidades foram construídas a leste do rio Reno.

Porém, quando tudo parecia correr para que este projeto desse certo, o governador da Germânia, Públio Quintílio Varo, seria atraído para uma emboscada por seu auxiliar germânico, Arminius, e ele e três legiões romanas completas seriam massacrados na Batalha da Floresta de Teutoburgo, em 9 D.C. Os próprios romanos desmantelaram ao menos uma das cidades e os quartéis queimados pelos germanos. Segundo consta, após receber a notícia do desastre, Augusto passou vários dias lamentando-se, chegando a bater a cabeça na parede, enquanto dizia :

Não obstante, Augusto fez importantes reformas militares e fixou o número de legiões, espalhadas predominantemente pelas fronteiras estratégicas, em 28, reduzindo assim a quantidade imensa de legiões criadas durante as Guerras Civis, que pesavam no orçamento público.

A carreira militar também foi incentivada com a criação de um fundo público para o pagamento de pensões, o Aerarium Militare, um passo importante para assegurar a existência de um exército permanente.

Até mesmo inovações tecnológicas no equipamento militar foram implantadas no governo de Augusto, como a adoção da lorica segmentata, a célebre armadura de placas articulares, tão famosa nos filmes de Hollywood.

Voltando às iniciativas no campo da administração civil, Augusto estabeleceu um sistema de tributação permanente e estável, para vigorar em todo o território controlado por Roma, mas ao mesmo tempo acabando com os confiscos e tributos extraordinários e irregulares que eram impostos frequentemente às províncias, e aproveitando para aliviar a taxação sobre os Italianos (O sistema, elaborado em bases mais racionais, também restringiu a atuação dos odiados publicanos, que eram particulares que recebiam comissões para cobrarem impostos, ficando com uma parte, o que passou a ser predominantemente feito por servidores públicos).

Aliás, foi Augusto quem primeiro estabeleceu a Itália como uma região político-administrativa, compreendendo a península italiana.

13- A procura de um herdeiro e os últimos anos

Mas o grande insucesso de Augusto foi mesmo não conseguir ser sucedido por um parente sanguíneo, legítimo integrante da gens Júlia.

O primeiro candidato a não vingar, como vimos, foi Marcelo. Augusto, então determinou que a viúva deste, a  sua filha Júlia, se casasse com aquele que talvez fosse a pessoa em que ele mais confiava: Marcos Agripa, em 21 A.C. (que, após o falecimento de Marcelo, recebeu o império proconsular pelo prazo de cinco anos. O casamento dos dois seria prolífico, gerando três meninos  e duas meninas: O primeiro, Caio César, nasceu em 20 A.C, sendo seguido por Júlia, a Jovem. Em 17 A.C. nasceria Lúcio César. Depois se seguiriam Agripina, a Velha, e Agripa, cognominado Póstumo (por ter nascido após o falecimento do pai).

Cabeça de Júlia, a Velha, filha de Augusto. Foto By Didier Descouens – Own work, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=115964066(Toulouse) Portrait de Julie Ra 338

Eu acredito, vale repetir, que Augusto nunca pretendeu de fato que Agripa fosse o seu sucessor permanente, confiando que o amigo cumpriria o planejado e abdicaria em favor de um dos filhos, quando eles se tornassem maiores de idade. Assim, Caio e Lúcio César foram adotados oficialmente por Augusto, tornando-se legalmente os seus herdeiros, em 17 A.C. Augusto providenciou para que os rapazes fossem nomeados cônsules para os anos de 1 D.C. e 4 D.C, apesar deles estarem bem abaixo da idade legal. Como já visto, Agripa faleceu em 12 A.C, pouco antes do nascimento de seu terceiro filho com Júlia, que seria chamado de Agripa Póstumo.

Contudo, Lúcio César faleceu em Marselha, enquanto se dirigia para completar seu treinamento militar na Hispânia, aparentemente de alguma enfermidade não identificada, em 20 de agosto de 2 D.C., quando tinha 18 anos de idade.

Cabeça de Lúcio César

Por sua vez,  Caio César seria ferido em um cerco a uma fortaleza na Armênia, em 9 de setembro de 2 D.C. Segundo as fontes, o ferimento não teria sarado adequadamente, e Caio César acabaria falecendo em 21 de fevereiro de 4 D.C, aos vinte e três anos, em uma cidade da Lícia, na atual Turquia.

Cabeça de Gaius Caesar, neto de Augusto. Foto By Unknown artist – Marie-Lan Nguyen (2011), CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15469314

Autores antigos levantaram a suspeita de que a imperatriz Lívia estaria por trás da morte dos rapazes, de modo semelhante aos boatos que circularam no caso da morte de Marcelo, e pelo mesmo propósito: assegurar o trono para seu filho Tibério.

É muito difícil chegar a uma conclusão sobre essas suspeitas…Realmente, as mortes de três jovens bem nascidos e, aparentemente, sem problemas de saúde reportados previamente, parece improvável. Mas devemos lembrar que a mortalidade na Roma Antiga, assolada por epidemias e cuja medicina era mais rudimentar, era bem maior do que hoje.

Eu acho difícil que Lívia possa ter tido participação no episódio que resultou no ferimento de Caio César, ocorrida em uma ação militar em um território distante e fora da jurisdição de Roma. Entretanto, há um considerável intervalo de tempo de mais de um ano entre este episódio e a morte do rapaz, que ocorreu já em uma província romana oriental.

Note-se que Caio, que estava mais próximo na corrida pela sucessão, foi o segundo a morrer, em circunstâncias que não chegam a parecer tão suspeitas. Por outro lado, Lúcio, o mais novo, morreu mais perto de Roma, em Marselha, e em circunstâncias um tanto mais obscuras. Mas, para quem acredita que Lívia realmente encomendou a morte dos rapazes, não teria sido mais fácil matá-los enquanto ainda crianças? Afinal, a mortalidade infantil era algo corriqueiro na Roma Antiga. E o pai deles, Agripa, que poderia inspirar algum receio em Lívia, morreu em 12 A.C, quando o mais velho tinha 8 anos e o mais novo, 5. Faria mais sentido assassinar os dois antes que eles chegassem à idade adulta.

O fato é que a morte do sobrinho e dos dois netos deixou Augusto sem uma opção de herdeiro imediata. Isto em uma época em que ele estava entrando em uma idade avançada para os padrões romanos. Assim, ele foi obrigado a recorrer ao seu enteado Tibério.

Cabeça de Tibério

A posição de Tibério, a quem parece que Augusto nunca foi afeiçoado, já tinha melhorado  na “corrida sucessória” com a morte de Agripa, uma vez que, no mesmo ano do falecimento deste, em 12 A.C., Augusto obrigou-o a divorciar-se de sua amada esposa, Vipsânia Agripina, filha de Agripa, e casar-se com sua filha Júlia, viúva do falecido, no que seria uma união notoriamente infeliz. Além disso, Tibério vinha se destacando como um excelente general, e sendo encarregado de importantes missões estatais, as quais cumpriu com eficiência.

Augusto, em 6 A.C, chegou a compartilhar o “Poder Tribunício” com Tibério. Surpreendentemente, contudo, neste mesmo ano, o enteado resolveu abandonar tudo e ir morar na ilha de Rodes, em verdadeiro autoexílio. Ninguém sabe ao certo quais foram os motivos de Tibério para sua partida, mas há várias hipóteses plausíveis. 

Na minha opinião, há uma coincidência sintomática entre esta decisão e o fato de que, também no ano de 6 A.C., o Comício das Centúrias, certamente por sugestão de Augusto, tenha decidido eleger Caio e Lúcio César para os consulados do ano 1 e 4 D.C.:

Assim, o seu “autoexílio” seria um gesto de retaliação de Tibério contra o propósito de Augusto de avançar a carreira dos rapazes e prepará-los para serem os sucessores o mais rápido possível, retirando a perspectiva de que Tibério pudesse sucedê-lo, ou, no caso de que isto ocorresse, devido à morte de Augusto antes de que eles fossem Cônsules, de que o reinado dele fosse breve. Desse modo, Tibério, ao contrário de Agripa, teria querido deixar claro que ele não aceitava ser apenas um  imperador “interino”. Muitos estudiosos defendem esta hipótese. 

Mas há outros historiadores que acreditam que a causa principal do exílio de Tibério teriam sido os frequentes adultérios de Júlia em Roma, os quais maculavam a reputação do próprio Tibério enquanto marido traído. Foi em 2 A.C. que o comportamento escandaloso de Júlia chegou ao conhecimento de Augusto que, envergonhado pelo comportamento da filha, contrário às leis moralizantes instituídas por ele próprio, decidiu pelo divórcio de Tibério e Júlia.

Indo além, Augusto mandou exilar os amantes da filha e até mesmo obrigou alguns a cometerem suicídio. A própria Júlia também foi exilada para a remota ilha de Pandatária. A mágoa de Augusto foi tanta, que, em seu testamento, ele proibiu que ela, quando morresse, fosse sepultada no Mausoléu dele, em Roma, proibição que se estendia à  sua neta Júlia, a Jovem, filha de Júlia, que também seria exilada em 8 D.C, igualmente sob a acusação de adultério. Dada a dimensão desse rancor, aventou-se a possibilidade de que Júlia também teria participado de uma conspiração contra Augusto, fato que, segundo uma fonte, ele mesmo teria comentado no Senado. Júlia morreria em 14 D.C, após a morte de Augusto, ainda no exílio, agora em Regium, segundo consta, de depressão ou até mesmo inanição deliberadamente provocada por ordem ou no interesse de Tibério, aos 52 anos de idade.

Seja como for, as fontes mencionam que o auto-exílio de Tibério deixou Augusto muito preocupado pelo fato de Caio e Lúcio César serem ainda meros adolescentes, o que colocaria em perigo a própria continuidade do Principado, caso Augusto morresse subitamente naquele momento, no qual, mais uma vez, ele lidava com um problema de saúde. Porém, como das outras vezes, Augusto se recuperou e, pelas aparências, não perdoou Tibério, que, reiteradamente, após passar alguns anos em Rodes, fazia  pedidos de autorização para retornar para Roma, todos recusados pelo imperador. Certamente Augusto, com a chegada de Caio à idade adulta, não via mais utilidade no enteado. Somente em 2 D.C, Augusto consentiu com a volta de Tibério a Roma, porém, como mero particular, sem dar-lhe nenhum cargo ou função pública.

Tudo mudaria, porém, com a morte dos dois netos, Caio e Lúcio. Sem mais nenhuma opção viável para a sucessão, Augusto foi obrigado a adotar imediatamente Tibério como filho e herdeiro, conferindo-lhe, ainda, o Poder Tribunício e o Império Proconsular Maior.

Todavia, ainda assim, Augusto não abandonou completamente o desejo de que um dia alguém  do seu sangue herdasse o Império: ao adotar Tibério, ele exigiu que este, por sua vez, adotasse o seu sobrinho-neto, Germânico, filho de Antônia, a Jovem, que era filha de sua irmã, Otávia. Além disso, juntamente com Tibério, Augusto adotou seu único neto vivo, Agripa Póstumo (que não havia sido adotado junto com os irmãos para que ele pudesse dar continuidade ao nome de seu pai, Marco Vipsânio Agripa).

Cabeça que se acredita ser de estátua de Agripa Póstumo

Por que, então, Augusto não adotou apenas Agripa Póstumo como herdeiro? Na verdade, este tinha 16 anos quando Augusto adotou-o junto com Tibério. Assim, se Augusto falecesse subitamente, era grande a chance de que Póstumo não tivesse apoio suficiente para ser imperador ou então fosse facilmente “bypassado” por outros. Consequentemente, naquele momento, o respeitado e experiente Tibério era a garantia de continuidade do principado.

Ademais, segundo várias fontes, Agripa Póstumo seria um rapaz brutal, estúpido, insolente e depravado, portanto, não deve ter demorado muito tempo para que o próprio Augusto tenha percebido que ele seria inapto para sucedê-lo.

Assim, em 7 D.C, Póstumo foi banido para Sorrento, e, posteriormente, para Planásia, outra remota ilha  É bem provável que Lívia e o próprio Tibério tenham influído nesta decisão e o rapaz ficaria sob guarda armada na ilha, em exílio perpétuo. Especula-se que ele também possa ter se envolvido em alguma conspiração que ensejou esta medida. De fato, no ano seguinte, Júlia, a Jovem, irmã de Póstumo e neta de Augusto, seria exilada sob a alegação de ter cometido adultério, sendo que, segundo Suetônio, o marido dela, Lúcio Emílio Paulo, foi executado por ter conspirado contra Augusto, em data não apontada.

Suetônio também menciona que dois homens de baixa condição, Lucius Audasius, um estelionatário, e Asinius Epicadus, mestiço de origem ilíria, chegaram a planejar o resgate de Júlia e Póstumo e levá-los até um contingente de tropas, certamente com o propósito de derrubar Augusto, então existe alguma possibilidade de que ambos os irmãos tenham mesmo se envolvido em alguma conspiração.

14- Morte de Augusto e sucessão

Nesta época, Augusto se tornara septuagenário, uma idade avançada mesmo para romanos da classe alta. Pouco a pouco ele foi deixando os assuntos de Estado mais importantes a cargo de Tibério, embora, segundo as fontes, ele nunca tenha deixado de despachar e ler os documentos de governo.

Esta estátua de bronze, encontrada no Mar Egeu, hoje no Museu Arquológico Nacional de Atenas, é uma das poucas a retratar Augusto em idade madura e de forma não idealizada, sendo provavelmente uma de suas representações mais realistas. Foto George E. Koronaios, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em 13 D.C, foram dados a Tibério todos os poderes de Augusto, em pé de igualdade. Portanto, na prática, Tibério era, agora, co-imperador. Ele passara os dois últimos anos na Germânia, lidando com os problemas militares que sucederam o Desastre de Varo. Ao voltar para Roma, Tibério celebrou um Triunfo, a procissão da vitória que, no governo de Augusto, tinha se tornado exclusiva do Imperador.

Em meados de 14 D.C, a saúde de Augusto começou a piorar. Mesmo assim, ele resolveu fazer uma viagem para Nola, hospedando-se na mesma velha casa de verão da sua família. Ele estava chegando aos 75 anos. Apesar disso, em Nola, ele chegou a melhorar um pouco. Porém, em 19 de Agosto de 14 D.C, o vetusto imperador sentiu que iria morrer. Ele deitado no mesmo quarto em que o seu pai havia falecido. As suas últimas palavras para os que estavam em seu aposento foram: 

Julgo que a frase é de extrema sutileza, pois Augusto de fato interpretou com maestria o personagem de “rei que não deveria ser e nem quer ser um rei”…

Novamente, alguns nutriram, mais uma vez, a suspeita de que Lívia teria envenenado o marido, mencionando até que ela teria utilizado figos envenenados. Entretanto, não há nenhuma evidência sólida de que isto teria acontecido. O fato de alguém muito doente melhorar um pouco antes da morte é algo bem corriqueiro e frequentemente observado.

Um dos motivos para a suspeita é que, durante o trajeto da viagem para Nola, algumas fontes aventaram o fato de que Augusto teria pego um barco até a ilha de Planásia e feito uma visita a Agripa Póstumo, com o suposto objetivo de reabilitar o neto. Porém, aberto o testamento de Augusto, não havia nenhuma menção ao rapaz (é bem verdade que não se pode excluir terminantemente a hipótese dele ter sido adulterado, a mando de Lívia ou de Tibério).

De qualquer forma, Póstumo foi executado no mesmo ano e aproximadamente na mesma época em que Augusto morreu, não se sabe ao certo se exatamente antes ou depois. Tácito conta que um centurião teria abordado Tibério após ele ser aclamado pelo Senado, e dito que “as ordens dele foram cumpridas“, mas Tibério negou que tivesse dado qualquer ordem, e que o centurião teria se referido a uma ordem dada por Augusto.

O corpo de Augusto foi levado para Roma, cremado e as cinzas depositadas no Mausoléu de Augusto, que foi recentemente reformado pela Prefeitura de Roma. Vários outros imperadores e membros da dinastia dos Júlios-Cláudios seriam sepultados ali.

Maquete reconstituindo o Mausoléu de Augusto, modelo da cidade de Roma por E. Gismondi. Foto Por Jean-Pierre Dalbéra from Paris, France – Maquette du mausolée d’Auguste (musée de la civilisation romaine, Rome), CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24668980

15- Características pessoais de Augusto

Segundo relatos das fontes e traços detectados nas estátuas sobreviventes, Augusto tinha uma bela aparência, possuindo cabelos castanhos claros, puxados um tanto para o louro e ligeiramente ondulados, e olhos azuis claros. A tez de sua pele ficava entre clara e morena, e ele tinha muitas pintas no corpo. Ele gostava de estar bem barbeado e penteado. Seus dentes eram separados, pequenos e mal cuidados. O imperador tinha 1,70m de altura, não sendo baixo para os padrões da época, mas gostava de usar calçados para aumentar a sua estatura.

Augusto gostava de morar na mesma casa que ele habitava no Palatino e dormiu no mesmo quarto por quarenta anos, uma casa que depois foi aumentada e anexada ao templo do deus Apolo, de quem ele era especial devoto. Ele tinha o costume de, mesmo depois, de adulto, usar de propósito algumas palavras com erros que ele cometia quando criança. Ele era moderado no comer e no beber, mas era muito friorento no Inverno, quando costumava vestir quatro túnicas, uma por cima da outra, para diminuir a sensação de frio, e calorento no verão, quando gostava de ser abanado e dormir de portas e janelas abertas. E também não gostava de pegar sol. Seu principal divertimento eram jogos de tabuleiro e especialmente os que envolviam apostas.

Acredita-se que esse aposento, soterrado por cosntruções posteriores, pertence à Casa de Augusto, no Palatino. Foto By Cassius Ahenobarbus – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=26372292

Augusto viveu a maior parte de sua vida junto à sua terceira esposa, Lívia, com quem ele casou aos 25 anos, tendo o casamento durado 51 anos. Durante a união, Lívia chegou a engravidar de Augusto e dar a luz a uma criança, que, no entanto, nasceu morta. Eles nunca conseguiram ter outro bebê. Muito provavelmente, Lívia, que já tinha tido dois filhos de seu casamento anterior, deve ter ficado estéril devido às complicações deste último parto.

Não obstante, embora isso fosse comum na sociedade romana, Augusto  não se divorciou da esposa infértil e eles ficaram casados até morrer. Por tudo isso, acredito que havia amor genuíno entre o casal.  Mas era público e notório que Augusto teve casos com várias mulheres durante o casamento, e Lívia deixou também publicamente transparecer que ela sabia das traições, mas preferia ignorá-las, como escreveu Cássio Dião:

16 – Legado

Durante a sua longuíssima carreira pública, iniciada aos 19 anos, já em uma posição de poder, Augusto adotaria vários comportamentos: Inicialmente mostrou-se implacável e até sanguinário, na luta contra seus adversários políticos, mas, após assumir o poder supremo, ele assumiu uma postura bem mais benevolente. As suas grandes virtudes foram a de conseguir inspirar lealdade e respeito, reunindo e mantendo um círculo de partidários leais e talentosos, e, em troca, ser leal  e devotado aos seus amigos. Sem ser general e quase totalmente ignorante na arte da guerra, ele fez com que outros lutassem e vencessem por ele, dando-lhe alegremente as glórias.

Augusto soube avaliar os erros dos que os precederam e compreender que era necessário dar uma aparência republicana de legitimidade ao seu governo. Sobretudo, ele compreendeu que não era viável governar o Império Romano sem a classe senatorial, ao mesmo tempo que era necessário cultivar o apoio da plebe e, sobretudo, dos soldados.

O mero fato de Augusto governar o Império por mais de quarenta anos, sem conflitos internos, e apenas contendo os inimigos externos (com a exceção do Desastre de Varo) foi uma grande contribuição para a prosperidade e desenvolvimento econômicos do Mundo Romano.

Augusto estabeleceu um sistema de governo que durou, praticamente inalterado, até o reinado de Diocleciano, iniciado em 284 D.C.  As fronteiras do Império e até mesmo o número de 28 legiões que ele julgou suficiente para defendê-las foram mantidas, mais ou menos inalterados, até o reinado de Constantino, e mesmo além. Seu único insucesso foi não ter conseguido implantar uma regra estável para a sucessão.

FIM

AURELIANO, O RESTAURADOR DO MUNDO

Moeda de Aureliano, como “Restaurador do Mundo”

1- Origem e início da carreira

Em 9 de setembro de 214 D.C nasceu, em Sirmium, na província romana da Panônia, Lucius Domitius Aurelianus, o imperador romano Aureliano (OBS: algumas fontes também mencionam que ele teria nascido na província da Dacia Ripensis).

Maquete de Sirmium, foto mediaportal.vojvodina.gov.rs, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Aureliano era filho de um humilde colono romano, provavelmente um soldado veterano assentado nas terras de um certo senador de nome Aurelius, com cuja filha seu pai acabou casando-se, tendo ele nascido dessa união, recebendo, portanto, o seu sobrenome por parte da mãe. Esta é a versão da frequentemente fantasiosa História Augusta, que também menciona que a mãe dele seria sacerdotisa no templo do Deus-Sol.

Mas alguns historiadores acreditam que Aureliano era apenas o filho de um soldado ilírio que deve ter recebido a cidadania romana no reinado de Caracala, que a estendeu a todos os homens livres do Império, em 212 D.C. Em gratidão, sabe-se que boa parte deles adotou o sobrenome de “Aurelius”, em homenagem àquele imperador, cujo nome oficial era “Marcus Aurelius Antoninus”.

Busto do Imperador Caracala

Como tantos outros soldados de origem Ilíria durante o século III, Aureliano alistou-se no exército romano, seguindo a carreira do pai, e ele foi sendo promovido graças a seus méritos militares. A História Augusta conta que Aureliano tinha uma boa aparência, era alto e forte, e que ele costumava se exercitar com as armas, sendo muito hábil com a espada, mas muito severo em relação à disciplina dos seus comandados:

“(…) ele era um homem atraente, belo de se olhar devido a sua graça varonil, bem alto de estatura, e de musculatura muito forte; ele era um tanto dado ao vinho e a comida, porém ele raramente se entregava à suas paixões; ele era muito severo e aplicava uma disciplina que não tinha igual, estando extremamente pronto para desembainhar a sua espada. E de fato, como havia no Exército dois tribunos, ambos chamados Aureliano: ele e um outro, que posteriormente foi capturado junto com Valeriano, os soldados deram-lhe o apelido de “Espada â mão”, de modo que, se alguém perguntasse qual dos dois Aurelianos tinha feito algo ou praticado qualquer ação, a resposta seria “Aureliano Espada à Mão”, e aí saberiam que foi ele.”

História Augusta, Vida de Aureliano, 6

 

Há dúvida se esta cabeça de estátua de imperador retrata Aureliano ou Cláudio Gótico

Segundo a História Augusta, o desempenho de Aureliano chamou a atenção de um certo comandante (Dux) chamado Ulpius Crinitus, que o nomeou para comandar como Legado a III Legião. Comandando esta unidade, Aureliano derrotou uma força de Godos. Agradecido, Ulpius Crinitus adotou Aureliano como herdeiro, cerimônia da qual participou o próprio imperador Valeriano. É possível que a esposa de Aureliano, Úlpia Severina, fosse filha deste Úlpio Crinitus. Cumpre observar que a real existência de Ulpius Crinitus, que seria da família do imperador Trajano, não é inconteste.

Aureliano e Úlpia Severina tiveram uma filha, cujo nome não foi preservado.

Após a humilhante captura de Valeriano pelos persas, em 260 D.C, seu filho, Galieno, passou a reinar sozinho. Esta derrota para a Pérsia lançou o império romano no caos, e, naquele mesmo ano, visando proteger-se melhor das crescentes invasões germânicas, a Gália, juntamente com a Germânia e a Britânia, se separaram na prática do Império Romano, quando o legado imperial, o usurpador Póstumo, estabeleceu o que seria chamado de “Império Gaulês”.

território controlado pelo Império Gaulês, em vermelho e roxo, foto Aurelian272, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons.

Durante o reinado de Galieno, o sucesso de Aureliano fez com que ele fosse designado para integrar a cavalaria de elite que foi instituída por aquele Imperador (Comitatus), da qual ele acabou se tornando comandante. Esta força, baseada em Milão, atuava como o núcleo de um exército central móvel e, para alguns, representava uma transição de uma estratégia de defesa estática, adotada desde o principado de Augusto, para uma focada na defesa em profundidade.

2- Ascensão

No reinado de Cláudio II “Gótico, sucessor de Galieno, assassinado em setembro de 268 D.C, ele também um ilírio nativo de Sirmium, Aureliano foi nomeado Comandante-em-chefe da Cavalaria do Exército Romano, e, liderando um grande ataque montado, ele participou decisivamente da grande vitória obtida pelo novo imperador contra os Godos, na Batalha de Naissus, em 268 ou 269 D.C. Observe-se que alguns historiadores acreditam que Aureliano pode ter participado da conspiração que resultou no assassinato de Galieno.

Em seguida, juntos, na Batalha do Lago Benacus (Lago de Garda), ocorrida provavelmente no início de 269 D.C., Cláudio Gótico e Aureliano derrotaram uma crítica invasão da Itália pelos Alamanos, que tinham se aproveitado da rebelião de Aureolus, um general que se rebelara contra Galieno, para invadir a Península.

A cavalaria romana de elite, em período anterior a Aureliano. foto I, Adsek, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Porém novamente os Godos, agora aliados com os Hérulos, Gépidas e Bastarnae, voltaram a atacar o Império nos Bálcãs e Aureliano teve participação vital em combater essa incursão com sua cavalaria dálmata. Porém, os bárbaros resistiram duramente até 270 D.C, quando uma peste irrompeu na Península afetando ambos os exércitos.

Ocorre que o imperador Cláudio Gótico acabou contraindo a peste e teve que abandonar as operações, que foram concluídas com sucesso por Aureliano, a quem coube o comando das tropas.

3- Aureliano imperador

Ainda no 1º quadrimestre de 270 D.C, chegou a notícia de que Cláudio Gótico morreu em Sirmium, da doença que ele havia contraído. O Senado imediatamente reconheceu o irmão do imperador falecido, Quintilo, como sucessor. Porém, em maio, o exército sob o comando de Aureliano também o aclamou imperador.

Rapidamente, as tropas de Aureliano derrotaram o exército de Quintilo e este foi assassinado ou cometeu suicídio.

Aureliano assumiu um Império Romano em grave crise e em processo de desagregação. Após a derrota de Valeriano para a Pérsia Sassânida, as províncias romanas da Síria, da Arábia e do Egito procuraram a proteção da cidade autônoma de Palmira, governada pelo vigoroso líder Odenato, que conseguiu repelir os Persas.

Aureliano passou à História como um dos “imperadores-soldados” oriundos da Ilíria que mais contribuiu para a sobrevivência de Roma durante a “Crise do Século III”, contribuindo decisivamente para colocar um fim nela, estabilizando o Império Romano.

Palmira era uma cidade habitada por uma mescla de povos semitas, em sua grande maioria Arameus (ou Aramaicos) e Árabes. Localizada ao redor de um oásis no meio de um vasto deserto ela fica entre 150 e 200 km dos rios perenes mais próximos, dependendo do oásis e de cisternas para uma agricultura viável. Entretanto, a cidade prosperou como importante centro na rota de caravanas comerciais que ligavam o Mediterrâneo ao Império Persa e à Índia.

Encorajado pelo sucesso e pelo declínio romano, Odenato proclamou-se “Rei dos Reis”, mas ainda mantendo-se formalmente subordinado à Roma. Porém, após ser assassinado, em 267 D.C., ele foi sucedido por seu filho pequeno, Vaballathus, e o poder passou a ser exercido por sua viúva, Zenóbia, como regente. Em seguida, embora ainda sob o pretexto de agir em nome do Império Romano, Zenóbia invadiu o Egito, em outubro de 270 D.C. Aliás, vale citar que a rainha reivindicava ser descendente direta da célebre rainha do Egito, Cleópatra.

Contudo, em 271 D.C, Zenóbia assumiu para si e para o filho os títulos de Augustos, criando o que ficaria conhecido como “Império de Palmira” (ou também Império Palmirense. ou Palmireno).

O Império de Palmira,, em 271, em amarelo. Em verde, o Império Gaulês. Foto User:Pomalee, User:Игорь Васильев, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

4- Invasões e revoltas

Inicialmente, quando a notícia da incorporação das províncias orientais pelo Império de Palmira chegou ao seu conhecimento, Aureliano estava impossibilitado de atacá-lo pelo fato de estar envolvido com invasões dos Iutungos, Vândalos e Sármatas no norte da Itália, as quais ele conseguiu derrotar.

Ademais no ano seguinte, uma nova invasão bárbara, dos Alamanos ou dos Iutungos, obrigou Aureliano a ir combatê-los no norte da Itália, e finalmente conseguiu derrotá-los na Batalha de Fano, no Rio Metauro, vitórias pelas quais ele recebeu o título de “Germanicus Maximus”.

As fontes também relatam três revoltas lideradas respectivamente por Septimius, Urbanus e Domitianus, personagens obscuros, que provavelmente eram comandantes de tropas nas províncias afetadas pelas invasões bárbaras, cujas rebeliões devem ter tido breve duração.

De volta à Roma, percebendo que a ameaça dos bárbaros ao coração do Império passaria a ser uma constante, Aureliano ordenou a construção do grande sistema de muralhas defensivas da Cidade, protegendo uma área de 1.400 hectares e que ficariam conhecidas como as “Muralhas Aurelianas”. As obras durariam 5 anos e somente seriam completadas pelo imperador Probo.

Muralhas Aurelianas, foto Lalupa, Public domain, via Wikimedia Commons

Em Roma, Aureliano ainda teve que enfrentar uma feroz revolta armada dos cunhadores de moedas, liderados por Felicissimus, o Secretário do Tesouro Imperial, que provavelmente estavam insatisfeitos com alguma medida dele coibindo o desvio dos metais, o que acarretava a cunhagem de moedas de qualidade inferior. Inclusive, durante o seu reinado, Aureliano fez uma reforma monetária, aumentando a quantidade de prata contida no Antoninianus (moeda que substituiu o denário) para 5%, o que demonstra o quanto a moeda estava desvalorizada. Se os relatos forem verídicos, a revolta dos cunhadores foi tão séria que resultou no massacre deles, sendo que a repressão teria custado a vida de sete mil soldados!

Antoninianus de Aureliano, No verso da medalha, celebra-se a concórdia entre o imperador e os militares. Foto Copyrighted free use, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=348653

Novamente, mais uma incursão dos Godos nas fronteiras do Danúbio obrigou Aureliano a marchar para dar-lhes combate, ocasião em que, atravessando o Rio, as tropas comandadas pelo imperador derrotaram e mataram o chefe Godo Cannobaudes, recebendo, em homenagem a esta vitória, do Senado o título de “Gothicus“. Entretanto, a constante pressão bárbara nesta fronteira, levou Aureliano a decidir abandonar a província romana da Dácia, na margem norte do Danúbio, pela dificuldade em defendê-la. Ele reassentou os habitantes romanos da província abandonada ao sul do Danúbio, em uma parte da Mésia, que foi rebatizada de “Dacia Aureliana“, com a cidade de Serdica (atual Sofia, na Bulgária), como capital.

5- Guerra contra o Império de Palmira e reconquista das províncias orientais

Finalmente, em 272 D.C, Aureliano teve condições de enfrentar o grave problema da perda das províncias orientais para o Império de Palmira, que agora controlava o Egito, a Síria, a Palestina e até partes da Ásia Menor. Vale observar que a perda do Egito estava afetando o vital suprimento de trigo para a cidade de Roma.

Moeda de Zenóbia Augusta. Foto Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, Public domain, via Wikimedia Commons

Interessante observar, antes de falarmos sobre a campanha de Aureliano contra o Império de Palmira, que recentemente cientistas da Universidade Aarhus e da Universidade de Bergen conduziram uma pesquisa e publicaram um artigo que trouxe uma nova perspectiva sobre os motivos que teriam levado os Palmirenses a anexarem territórios controlados pelo Império Romano.

No estudo, os cientistas, examinando dados paleo-climáticos e as culturas e técnicas agrícolas empregadas pelos Palmirenses, concluíram que as mudanças climáticas prejudiciais que ocorreram exatamente na época dos reinados de Odenato e Zenóbia, bem como o rápido crescimento populacional da cidade, decorrente da prosperidade experimentada nos séculos II e III D.C (Palmira chegou a ter mais de 200 mil habitantes), comprometeram a segurança alimentar da cidade, levando seus líderes a embarcarem em um processo de militarização e expansão territorial que levou ao conflito final com Roma.

https://www.heritagedaily.com/2022/09/archaeologists-give-new-insights-into-final-blow-of-autonomous-ancient-palmyra/144774?amp

Feito o parêntese acima, na ofensiva romana contra os Palmirenses, Aureliano reconquistou com facilidade os territórios romanos que aqueles ocupavam na Anatólia, havendo apenas resistência nas cidades de Bizâncio (prenunciando a excepcional posição defensiva que caracterizaria a futura capital, Constantinopla) e Tiana (que teria sido poupada graças à aparição do espírito do filósofo e suposto paranormal Apolônio de Tiana, que rogou por sua cidade ao imperador). Enquanto isso, o general Marco Aurélio Probo (o futuro imperador Probo) reconquistou o Egito, ocasião em que o Quarteirão Real de Alexandria, onde ficava o remanescente da Biblioteca de Alexandria, foi queimado.

Batalha de Imas

Então, o exército de Aureliano chegou aos arredores da grande cidade síria de Antióquia, para onde Zenóbia e o general palmirense Zabdas esperavam os romanos com um grande exército. A Batalha de Imas, que se seguiu, é assim narrada pelo historiador romano Zósimo:

“Observando que a cavalaria palmirena depositava grande confiança na armadura deles, que era muito forte e segura, e que eles eram melhores cavaleiros do que os seus soldados, ele (Aureliano), ele posicionou sua infantaria do outro lado do rio Orontes. Ele ordenou que a sua cavalaria não engajasse imediatamente a vigorosa cavalaria dos Palmirenos, mas que esperassem pelo ataque deles, e, então, fingindo fugir, continuassem galopando até que eles fatigassem tanto os homens quanto os seus cavalos devido ao excesso de calor e o peso das armaduras, de modo que eles não pudessem mais persegui-los.

Este plano foi bem-sucedido e assim que a cavalaria do imperador viu que seus inimigos estavam cansados, e que as montarias deles eram praticamente incapazes de ficar em pé sob eles, ou mesmo de se mover, os romanos puxaram as rédeas dos seus cavalos, e, voltando-se rapidamente, carregaram contra os inimigos, atropelando-os enquanto caíam dos seus cavalos. Dessa forma, o massacre foi generalizado, alguns morrendo pela espada e outros pisoteados pelos seus próprios cavalos ou pelos dos romanos”

Zozimus, New History, Livro 1

Os sobreviventes do exército de Zenóbia foram tentar se refugiar dentro dos muros da cidade de Antióquia e o relato de Zósimo infere que, para entrar na cidade, que já estava em vias de se amotinar contra seus conquistadores palmirenses, Zabdas foi obrigado a usar o artifício de conduzir preso um soldado que se parecia com Aureliano, vestindo-o com trajes semelhantes aos usados pelo imperador, como se este tivesse sido capturado pelos Palmirenos. Mesmo assim, durante a noite, Zabdas e Zenóbia partiram com seu exército para Emesa.

Então, quando amanheceu, Aureliano, ao partir para engajar novamente os remanescentes do exército de Palmira, recebeu a notícia da fuga de Zenóbia e entrou em Antioquia, sendo recebido festivamente pelos habitantes. Ao saber que muitos cidadãos tinham fugido da cidade pelo temor da punição de terem apoiado Zenóbia, Aureliano publicou decretos perdoando-os e conclamando-os a retornar à Antioquia, tendo multidões atendido a este chamado.

Seguindo o relato de Zósimo, Aureliano então partiu para Daphne, um subúrbio de Antióquia, onde uma parte do exército de Palmira tinha ocupado uma colina que interceptava a estrada para Emesa Nesta passagem, fica claro que Aureliano ordenou que os soldados atacassem os Palmirenses entrincheirados no alto da colina, em formação de “tartaruga” (testudo), demonstrando que, no final do século III, o exército romano ainda era capaz de utilizar esta célebre tática:

“Imaginando que a inclinação dela (da colina) lhes permitiria obstruir a passagem do inimigo, ele ordenou a seus soldados que marchassem com seus escudos tão próximos uns aos outros, e em forma tão compacta, para que eles não fossem atingidos por quaisquer dardos ou pedras que fossem atirados contra eles”.

Zózimo, New History, Book 1
Legionários em formação tartaruga, Coluna de Trajano, Roma, foto: National Museum of Romanian History, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Batalha de Emesa

Após reconquistar a grande cidade síria de Antióquia para o Império Romano, Aureliano subiu o curso do rio Orontes e entrou sem contestação nas cidades de Apamea, Larissa e Arethusa, percorrendo o caminho em direção à cidade de Emesa (atual Homs, na Síria), também cortada pelo referido rio. Então, ao se aproximar das muralhas desta Cidade, os romanos observaram o exército de Palmira em formação em frente às mesmas. Segundo o relato de Zósimo:

“Encontrando o Exército Palmireno formado ante Emesa, totalizando setenta mil homens, entre Palmirense e seus aliados, Aureliano opôs a eles a cavalaria dálmata, os Mésios e os Panônios, e as Legiões célticas de Noricum e Rétia, e atrás destas os mais seletos regimentos imperiais, escolhidos homem a homem, a cavalaria da Mauritânia, os Tianenses, os Mesopotâmicos, os Sírios, os Fenícios e os Palestinos, todos homens de reconhecido valor; os Palestinos ao lado de outras armas, brandindo porretes e cajados. No começo do engajamento, a cavalaria romana recuou, a fim de que os Palmirenses, que os excediam em número, e eram melhores cavaleiros, valendo-se de algum estratagema, não cercassem o exército romano. Mas a cavalaria palmirena os perseguiu tão ferozmente, embora as suas fileiras estivessem desfeitas, que o evento ocorreu muito contrariamente ao que esperava a cavalaria romana. Porque eles foram perseguidos por um inimigo cuja força lhes era muito superior, e consequentemente muitos deles foram derrubados. A infantaria então teve que suportar o peso da ação. Observando que os Palmirenses tinham quebrado as suas linhas quando a cavalaria iniciou a perseguição, ela deu meia-volta e atacou quando eles estavam espalhados e em desordem. Nesta ocasião, muitos deles foram mortos, porque um lado lutou com as armas costumeiras, enquanto os Palestinos empregaram clavas e cajados contra cotas de malha feitas de ferro e latão. Consequentemente, os Palmirenses debandaram com a maior precipitação, e em sua fuga eles pisotearam uns aos outros, ficando em pedaços, como se o inimigo já não os tivesse massacrado suficientemente; O campo ficou coalhado de homens e cavalos mortos, enquanto os poucos que escaparam refugiaram-se na cidade.”

Zózimo, New History, Book 1

A derrota abalou o espírito de Zenóbia, que, após consultar seus auxiliares, decidiu abandonar Emesa e entrincheirar-se em Palmira, tendo em vista que os habitantes da cidade já manifestavam a sua insatisfação com a rainha e davam mostras de simpatia aos Romanos. Com a partida de Zenóbia, Aureliano entrou em Emesa, onde efetivamente ele foi bem recebido pelos cidadãos e capturou uma parte do tesouro que a rainha não havia conseguido levar consigo. Na cidade, segundo a História Augusta, o imperador fez oferendas no Templo de Elagabalus, divindade solar introduzida em Roma pelo imperador Elagábalo (ou Heliogábalo). Aureliano, tudo indica, atribuiu a vitória que lhe valeu a conquista de Emesa à divindade e, mais tarde, dedicaria um templo ao Sol Invicto, em Roma.

Aureliano, então, marchou em direção à Palmira, afastando-se do rio Orontes e rumando para o deserto sírio. Lá chegando, cercou-a por todos os lados, valendo-se da ajuda dos Beduínos, que haviam passado para o lado dos Romanos, para assegurar suas linhas de suprimentos (segundo o relato da História Augusta, essa marcha foi hostilizada pelos locais, tendo, inclusive, Aureliano sido ferido por uma flechada).

Cerco a Palmira

Inicialmente, os Palmirenses, aparentemente, não se sentiram muito intimidados com o cerco inimigo e chegaram até a zombar dos Romanos, acreditando que estes logo ficariam sem provisões, ignorando o efeito da aliança daqueles com os Beduínos. Porém. com o passar do tempo, foram os sitiados que começaram a ficar privados de alimentos, e, então, de acordo com Zósimo, um conselho de guerra decidiu que seria melhor Zenóbia fugir da cidade em direção ao rio Eufrates, com o fim de pedir auxílio aos Persas, montando um camelo (fêmea) veloz.

Ruínas da cidade de Palmira, Síria. Foto: James Gordon from Los Angeles, California, USA, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Todavia, a fuga foi percebida pelos Romanos, e Aureliano enviou sua cavalaria em perseguição à Zenóbia, que foi interceptada, enquanto tentava cruzar o rio Eufrates em um barco, capturada, e levada à presença do Imperador.

Diante disso, os Palmirenses resolveram render-se. Aureliano foi magnânimo e não puniu a cidade, mas apropriou-se do tesouro de Palmira. Ele também deixou na cidade uma guarnição de 600 arqueiros, comandada por um certo Sandario. Então, segundo Zósimo, o imperador retornou para Emesa, onde Zenóbia e seus auxiliares próximos foram submetidos a um julgamento (em sendo verdadeiro esse relato, isso, a nosso ver, demonstra que Zenóbia e seus assessores, provavelmente, gozavam de cidadania romana. De fato, o sobrenome de Zenóbia em inscrições existentes em Palmira é “Septimia“, que deve ser proveniente de seu marido, Odenato, que era cidadão romano com status de “consularis“, e, portanto, integrante da classe senatorial, no topo da sociedade romana). No julgamento, segundo Zósimo e a História Augusta, o filósofo Longino foi condenado à morte e executado, de acordo com o primeiro, pelo fato dele ter sido acusado por Zenóbia, sua aluna, de tê-la induzido a embarcar na aventura contra Roma, ou, mais especificamente, na versão da segunda, pelo fato de ter redigido uma carta ofensiva a Aureliano quando do cerco à Palmira. Nesta carta, transcrita na História Augusta, Zenóbia, ao recusar a proposta de rendição oferecida por Aureliano, teria mencionado o exemplo de Cleópatra, em que esta preferiu morrer a ser um troféu para Otaviano. Após o julgamento, outros membros do conselho de Zenóbia também foram executados.

Em seguida, Aureliano derrotou um destacamento de soldados que o Império da Pérsia Sassânida havia enviado em auxílio aos Palmirenses.

Aureliano, em seguida, rumou de volta para Europa, levando consigo, como cativos, Zenóbia e o filho dela, Vaballathus. Aqui as fontes divergem, Zósimo contando que na viagem, a rainha teria morrido de doença, ou inanição, e os demais cativos se afogado no Estreito de Bósforo. Porém, os demais autores narram que os dois foram levados até Roma, onde adornaram o magnífico Triunfo de Aureliano, que veremos adiante. Algumas fontes relatam que após ser exibida na procissão, Zenóbia foi libertada e acabou indo morar na Vila de Adriano, em Tívoli. Ela também casou-se com um senador romano, com quem teria tido outros filhos.

“A Rainha Zenóbia olhando Palmira pela ùltima Vez”, tela de Herbert Gustave Schmalz, (1888) Public domain, via Wikimedia Commons

Ao chegar à Europa, Aureliano teve que enfrentar uma invasão dos Carpi, um povo aparentado aos Dácios, no Danúbio, vitória que teria lhe valido o título de “Carpicus“. Porém, logo após, já em 273 D.C., enquanto ainda estava na região da Trácia, o imperador recebeu do Prefeito da Província da Mesopotâmia e Corrector do Oriente, Marcellinus, a notícia de que os Palmirenos tinham novamente se revoltado, sob a liderança de um certo Septimius Apsicos (ou Apseus), matando Sandario e a guarnição de 600 arqueiros. Em seguida, Apsicos havia tentado cooptar Marcellinus, oferecendo apoio caso este se rebelasse contra Aureliano, reclamando o trono. Marcellinus, entretanto, fingiu considerar a proposta, enquanto relatava os fatos ao imperador.

Percebendo que seus esforços estavam sendo infrutíferos, os líderes da revolta, então, proclamaram Septimius Antiochus, um parente de Zenóbia, como Augusto. Todavia, Aureliano, imediatamente após receber a mensagem de Marcellinus, pôs-se em marcha com seu exército e, com rapidez inesperada, chegou a Antióquia, e dali, partiu para Palmira, que foi tomada com facilidade. Dessa vez, Aureliano não teve clemência e, após derrotar a nova insurreição, ordenou que a cidade fosse saqueada e arrasada. No entanto, a vida de Septimius Antiochus, que, tudo indica, era apenas uma criança, foi poupada.

De Palmira, Aureliano teve que rumar para Alexandria, pois estourara ali uma revolta comandada por um certo Firmus, um rico aliado de Zenóbia no tempo em que o Egito fez parte do Império de Palmira, aliado a grupos de Árabes e Blemmyes (povo que habitava terras ao sul do Egito). Embora seja incluído em algumas fontes como usurpador, consta que Firmus na verdade não se proclamou imperador, sendo o seu objetivo tornar o Egito independente. Porém, Firmus cortou o vital suprimento do trigo do Egito para a Cidade de Roma, algo que nem a poderosa Zenóbia ousara fazer. De qualquer modo, Aureliano submeteu Alexandria com facilidade, executou Firmus e restaurou o fornecimento do trigo egípcio.

Em decorrência dessas vitórias no Oriente, que reincorporaram ao Império Romano as províncias conquistadas por Palmira, Aureliano recebeu os títulos de “Parthicus Maximus” e de “Restaurador do Oriente”.

Chegou então a oportunidade para Aureliano lidar com o “Império Gaulês”, que já estava bem enfraquecido pelas derrotas sofridas para Cláudio Gótico.

6- Guerra contra o Império Gaulês e reconquista das províncias ocidentais

Em 274 D.C, Aureliano marchou contra Tétrico, o usurpador que ocupava o trono da Gália e os exércitos encontraram-se em Chalons-en-Champagne, no nordeste da Gália. Os combates foram duros, mas as tropas de Aureliano levaram a melhor. Tétrico foi poupado e posteriormente até nomeado para o cargo de Corrector da Lucânia. Algumas fontes mencionam que Tétrico teria feito um acordo prévio de rendição com Aureliano e abandonado suas tropas antes ou durante os combates.

Com a reincorporação das províncias controladas pelo Império das Gálias ao Império Romano, que foi reunificado e restituído ao seu tamanho tradicional, Aureliano celebrou seu grande triunfo, que incluiu a exibição de Tétrico e Zenóbia pelas ruas de Roma, e recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo” (Restitutor Orbis). A História Augusta nos deixou um relato muito interessante da referida procissão triunfal, a qual transcrevemos abaixo:

“Vale a pena saber como foi o triunfo de Aureliano, porque este foi um espetáculo sobremaneira brilhante: Houve três carros imperiais, o primeiro dos quais, esmeradamente forjado e adornado com ouro, prata e joias, tinha pertencido a Odenato, o segundo, forjado com igual esmero, foi dado a Aureliano pelo rei dos Persas, e o terceiro Zenóbia mandou fazer para si mesma, esperando visitar a cidade de Roma nele. E esta esperança não deixou de ser satisfeita, porque, de fato, foi com ele que ela entrou na cidade, porém derrotada e levada em triunfo. Havia também outro carro, puxado por quatro cervos e que se dizia ter pertencido ao rei dos Godos. Neste carro, de acordo com a memória de muitos, Aureliano foi conduzido até o Capitólio, planejando sacrificar lá os cervos, que ele tinha capturado junto com este carro e então dedicou-os, diz-se, a Jupiter Optimus Maximus. Ali avançaram vinte elefantes, e duzentas bestas domesticadas de diversos tipos, da Síria e da Palestina, que certa vez havia presenteado a cidadãos particulares, pelo fato de que o orçamento pessoal do imperador (Fiscus) não fosse sobrecarregado com o custo de sua alimentação; além disso, junto eram conduzidos em ordem quatro tigres e também girafas, alces e outros animais, e também oitocentos pares de gladiadores ao lado dos cativos das tribos bárbaras. Havia Blemmyes, Axumitas (povo da Etiópia), Árabes da Arábia Feliz, Indianos, Báctrios, Iberos (da Ibéria, na atual Geórgia), Sarracenos e Persas, todos carregando seus presentes; Havia Godos, Alanos, Roxolanos, Sármatas, Francos, Suevos, Vândalos e Germanos, todos cativos, com suas mãos acorrentadas. Também caminhavam entre eles certos homens de Palmira, que tinham sobrevivido à sua queda, os mais principais do governo, e também Egípcios, por causa da sua rebelião.

Junto a eles também foram conduzidas dez mulheres, que, lutando com trajes masculinos, tinham sido capturadas entre os Godos, depois de muitos deles terem sido mortos: Quanto a estas, uma tabuleta declarava que pertenciam a raça das Amazonas”.

7- Outras iniciativas de Aureliano

Aureliano era devoto do “Sol Invicto”, que ele procurou tornar a divindade máxima do Império e a principal do Panteão Romano. Há até quem diga que o imperador tencionava, com isso, instaurar o Monoteísmo no Império. No dia consagrado ao “Nascimento do Sol Invicto” (Dies Natalis Solis Invicti), em 25 de dezembro de 274 D.C, Aureliano inaugurou em Roma o templo dedicado ao Deus (construído e adornado com o espólio de Palmira). Aliás, o imperador instituiu para si o tratamento de “Nascido Deus e Senhor”.

Outro indício de que o reinado de Aureliano prenunciava o período do Dominado, em contraste com o Principado instituído por Augusto, encontra-se na Epitome de Caesaribus, do historiador romano Sextus Aurelius Victor:

“Este homem foi o primeiro a introduzir entre os Romanos um diadema para a cabeça, e ele usava ouro e pedras preciosas em cada item de vestuário, em uma escala praticamente desconhecida para os costumes romanos”.

Epitome de Cesaribus, Aurelius Victor, 35,5

Aureliano incrementou a distribuição de alimentos objeto da Anona, acrescentando à porção de pão uma quantidade de azeite, de sal e de toucinho ou salame.

8- Morte de Aureliano

Em 275 D.C, Aureliano partiu para o Oriente visando derrotar o último grande inimigo de Roma que ele ainda não havia vencido: o Império Persa.

Todavia, no final de setembro ou início de outubro de 275 D.C. quando Aureliano, ainda no início da expedição, chegou na cidade de Caenophrurium, na Trácia (na atual Turquia europeia ou na Bulgária), um secretário que estava ameaçado de ser punido por uma transgressão (segundo Zózimo, este se chamaria Eros, e segundo a História Augusta, o nome dele seria Mnestheus), forjou uma lista de oficiais da Guarda Pretoriana que também seriam punidos e estes, temerosos, acabaram assassinando o imperador, aproveitando uma ocasião em que Aureliano deixou a cidade acompanhado de um pequeno séquito. Os seus próprios assassinos construíram no local uma tumba para seus restos mortais e um templo em sua homenagem.

9- Epílogo

A História Augusta e Sexto Aurélio Victor relatam que o Império Romano ficou sem um imperador por um intervalo de até seis ou sete meses, e alguns historiadores consideram, com base na numismática, que a imperatriz-viúva Ulpia Severina pode ter governado o Império até que o Senado Romano escolhesse, a pedido do Exército, o velho senador Tácito como novo imperador, período que constituiu, assim, um “interregnum“. Mas, este intervalo, de acordo com outras fontes, teria durado apenas algumas semanas. Pode ser que a explicação para esta discrepância esteja na versão constante da História Augusta: O Senado, relutante em escolher um imperador que não tivesse o apoio dos militares, devolveu a questão para o Exército, e, por causa disto, o impasse teria durado cerca de seis meses.

Acreditamos, portanto, que há alguma verossimilhança no relato das circunstâncias que levaram ao assassinato de Aureliano, uma vez que aparentemente nenhum general reclamou o trono logo após a morte dele, e os líderes do Exército, provavelmente surpreendidos pelo seu desaparecimento, em uma decisão incomum, solicitaram ao Senado que um novo imperador fosse escolhido entre os senadores. O escolhido foi Marco Cláudio Tácito, supostamente um riquíssimo senador, que também parece ter relutado algum tempo até aceitar a escolha. Mas alguns historiadores defendem outra possibilidade, como aventado acima: que o Senado tenha devolvido o assunto para o Exército, sendo Tácito um general que foi escolhido por seus próprios colegas, após algum tempo de deliberação (situações que se repetiriam no século seguinte, com Joviano e Valentiniano I).

O Senado Romano deificou Aureliano, provavelmente no período do interregno, ou, então, no início do reinado de Tácito.

Aureus de (Úlpia) Severina Augusta. Foto: By Sailko – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=31986856

10 – Conclusão

Aureliano é um típico representante do grupo dos chamados “imperadores-soldados”, homens originários da Ilíria que se alistavam no Exército Romano e galgavam os postos até chegarem ao trono, onde sua principal preocupação era a de lutar contra ataques dos bárbaros e usurpadores.

Mas Aureliano passaria à História como um dos mais bem-sucedidos desses “imperadores-soldados” e um dos que mais contribuiu para a sobrevivência de Roma durante a “Crise do Século III”, restaurando a autoridade do Império Romano nas suas fronteiras históricas. É certo que Diocleciano foi mais além e promoveu uma grande reforma administrativa e fiscal, além de ter reinado por muito mais tempo, mas não há dúvida que sem a contribuição dada por Aureliano, ele talvez não tivesse tido tanto sucesso.

FIM

Fontes:

a) Antigas;

1-Historia Augusta, “Life of Aurelian“, livros I e II, disponível em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Historia_Augusta/Aurelian

2-Zósimo, “New History“, Livro I, disponível em https://www.tertullian.org/fathers/zosimus01_book1.htm

3-Eutropius, “Abridgment of Roman History“, livro 9, disponível em https://www.forumromanum.org/literature/eutropius/trans9.html

4- Sextus Aurelius Victor, “The Style of Life and the Manners of the Imperatores“, disponível em http://www.roman-emperors.org/epitome.htm

b) Modernas:

5- Diana Bowder, “Quem foi Quem na Roma Antiga“, Art Editora S.A

6- Ross Cowan, “Roman Battle Tactics” 109 BC-AD 313″, Osprey

7- Wikipedia, “Aurelian“, verbete em inglês

c) Artigo:

8-“Food security in Roman Palmyra (Syria) in light of paleoclimatological evidence and its historical implications“, Joan Campmany Jiménez, Iza Romanowska , Rubina Raja  e Eivind H. Seland, disponível em https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0273241

AGOSTO – O MÊS DE AUGUSTO

No primitivo calendário romano, de dez meses, que começava no mês de março, Sextilis era o nome do sexto mês, que vinha depois de Quintilis, mês que, após a morte do Ditador Caio Júlio César, foi rebatizado de Iulius (Julho), mês do nascimento dele, em sua homenagem.

Devido a imprecisão desse calendário primitivo, os romanos passaram a adotar um calendário de doze meses, introduzindo-se os meses de janeiro, quer passou a ser o primeiro mês, e de fevereiro (essa reforma é atribuída ao rei Numa Pompílio). Assim, Sextilis passou a ser o oitavo mês do ano, mas, apesar disso, ele manteve o seu nome, com o qual o povo já estava acostumado.

Ilustração do Fasti Antiates, calendário anterior à reforma Juliana, mostrando Sextilis (abreviado como SEX) no topo da oitava coluna. Foto: See page for author, Public domain, via Wikimedia Commons

Apesar disso, persistindo ainda consideráveis discrepâncias entre aquele calendário romano, de apenas 355 dias e o ano solar (período de translação da Terra em torno do Sol, ordinariamente de 365 dias), Júlio César, em 46 A.C., assistido por uma comissão de astrônomos notáveis, determinou a adoção de um novo calendário, inspirado pelo mais preciso utilizado pelos Egípcios, de 365 dias, ajustando o número de dias dos diversos meses, que passou a ser chamado de “Calendário Juliano“. Em decorrência, Sextilis e Quintilis passaram a ter 31 dias.

Segundo Varrão e Cássio Dião, em 8 A.C, o Senado Romano decretou que Sextilis deveria se chamar Augustus, em homenagem ao primeiro imperador romano, Otávio, que recebera o nome honorífico de Augusto (cujo significado em latim é “venerável”, “magnífico”).

Fragmento de um mosaico romano mostrando os meses do ano, no Museu Arqueológico de Sousse, Tunísia. Foto: Ad Meskens, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

O motivo para a escolha de Sextilis para receber o nome de Augusto (que em português virou “Agosto”, de acordo com o Senatus Consultum (decreto do Senado Romano com força de lei), transcrito na obra “Saturnalia“, do romano Macrobius, escrita no século V D.C., foi o fato de que neste mês ocorreram eventos muito importantes na carreira do primeiro imperador. Segue a tradução da referida transcrição:

QUANDO O IMPERADOR CAESAR AUGUSTO ASSUMIU O CONSULADO NO MÊS DE SEXTILIS, E TRÊS TRIUNFOS FORAM TRAZIDOS PARA A CIDADE, E DO JANÍCULO AS LEGIÕES DEPOSITARAM SOB SEUS AUSPÍCIOS A SUA LEALDADE. E TAMBÉM O EGITO FOI COLOCADO SOB O PODER DO POVO ROMANO NESTE MÊS. E O FIM DAS GUERRAS CIVIS FOI IMPOSTO NESTE MÊS. E POR ESTAS RAZÕES, ESTE MÊS FOI E É O MAIS FELIZ PARA ESTE IMPÉRIO. O SENADO DECIDIU QUE ESTE MÊS DEVERIA SER CHAMADO DE AGOSTO.

No mês de agosto, as datas mais importantes eram o festival de Hércules Invicto ou Hércules Vencedor, no dia 12, o festival em honra da deusa Diana, no dia 13, a Portunalia, o festival em honra do deus Portunus, protetor dps portões, chaves e portos (leia nosso artigo clicando no link), no dia 17, a Vinalia, festival da colheita da uva e da safra do vinho, no dia 19, a Consualia, festival em homenagem a Consus, deus protetor da colheita de grãos, no dia 21, e a Volcanalia, festival do deus Vulcano, no dia 23.

Templo de Portunus, em Roma, século I A.C.

Fontes:

1) ORlGINES KALENDARIE ITALICAE, NUNDINAL CALENDARS OF ANCIENT ITALY, NUNDINAL CALENDAR OF ROMULUS, CALENDAR OF NUMA POMPILIUS, CALENDAR OF THE DECEMVIRS, IRREGULAR ROMAN CALENDAR .AND JULIAN CORRECTION. TABLES OF THE ROMAN CALENDAR, FROM U. C . 4 OF VARRO B . C . 750 TO U. C . 1 108 A. D. 355 , de EDWARD GRESWELL, B . D. FELLOW OF CORPUS CHRISTI COLLEGE, OXFORD (download de forgottenbooks.com).]

2) SATURNALIA, DE MACROBIUS, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Macrobius/Saturnalia/1*.html#12.35

OTÃO

1- Antecedentes familiares, infância e juventude

Em 28 de abril de 32 D.C, nasceu Marcus Salvius Otho (Otão), no seio de uma família da antiga nobreza etrusca, originária de Ferentium, uma cidade da Etrúria. O avô de Otão, de nome idêntico ao seu, foi alçado ao Senado Romano por influência da influente imperatriz Lívia Drusila, na casa de quem inclusive, este avô havia crescido. Já o pai de Otão, Lucius Salvius Otho, gozava da intimidade do imperador Tibério, e, segundo as fontes, era tão parecido com este, que muitos suspeitavam de que ele fosse filho ilegítimo dele.

Detalhe da cabeça de Otho de uma estátua do acervo do Louvre. Foto Fred Romero from Paris, France, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Por sua vez, Alba Terentia, mãe de Otão, vinha de uma família romana ilustre.

Não obstante, dada a proximidade da família de Otão com a dinastia dos Júlios-Cláudios, não surpreende que o seu pai tenha, desde cedo, conseguido seguir uma carreira pública: ele ocupou algumas magistraturas menores em Roma, foi nomeado Procônsul da África e, no reinado do imperador Cláudio, exerceu comandos militares na Ilíria, onde ele se notabilizou pela extrema severidade com relação à disciplina dos soldados, inclusive punindo com a morte legionários que haviam matado seus comandantes, não obstante estes tenham aderido a uma revolta contra o citado imperador, em 42 D.C., motivo pelo qual acabou incorrendo no desagrado da Corte.

Posteriormente, contudo, Lucius Salvius Otho recuperou seu prestígio após descobrir uma suposta conspiração de um integrante da classe Equestre que planejava assassinar Cláudio. Em reconhecimento, o Senado Romano decretou uma rara homenagem: que uma estátua de Otão deveria ser colocada no Palácio imperial.

Quando Otão nasceu, seu pai já tinha dois outros filhos: um chamado Lucius Salvius Otho Titianus, e uma filha de nome Salvia, que foi prometida a Drusus Caesar, filho do popular Germânico, morto em 19 D.C, que por sua vez tinha sido adotado por Tibério por determinação de Augusto. Este casamento, entretanto, não aconteceu, seja porque a menina morreu antes de atingir a idade para casar, seja pelo fato da família de Germânico ter caído em desgraça após a morte dele, sendo provavelmente esta a hipótese mais provável, pois as fontes relatam que, antes de morrer, Otão escreveu uma carta de despedida para uma irmã, ainda que não nominada. Suetônio menciona, ainda, que Otão, sua irmã e seu irmão mais velho eram todos filhos de Alba Terentia, mas considerando o cognomen do primogênito e a distância de idade entre Titianus e Otão, que devia ser de cerca de 20 anos, é bem possível que aquele fosse filho de um casamento anterior do pai deles.

Durante a infância e juventude precoce, segundo Suetônio, cujo relato é a base deste artigo, Otão não tinha bom comportamento, manifestando um temperamento turbulento e extravagante, chegando a obrigar seu pai a chicoteá-lo como castigo. O historiador conta, ainda, que Otão era dado a saídas noturnas pelas ruas de Roma junto com alguma turma de rapazes, ocasiões em que costumavam agarrar qualquer transeunte que aparentasse estar bêbado ou doente, jogá-lo em um cobertor, e sacudir e arremessar o pobre coitado para cima (em um procedimento algo similar ao “manteamento” tão bem descrito por Cervantes, em Dom Quixote).

Quanto à sua aparência e modos, assim Otão foi descrito por Suetônio:

Suetônio, “Vida dos Césares”; “Vida de Otão”, 12, 1

Esses obsessivos cuidados com a aparência e excessiva vaidade levaram o poeta romano Juvenal a mencionar expressamente Otão na sua Sátira de número 2, cujo título é “Moralistas sem Moral”, onde o poeta critica a decadência da elite romana e ridiculariza a efeminação de homens públicos:

Juvenal, “Sátiras”, Sátira 2

2- Ingresso no círculo imperial e carreira pública

O fato é que a personalidade e os modos de Otão acabariam aproximando-o do imperador Nero. Após cortejar uma liberta influente na corte imperial, apesar dela ser, nas palavras de Suetônio, “velha e quase decrépita“, ele conseguiu ingressar no círculo mais íntimo do imperador e, em pouco tempo, tornou-se o amigo mais próximo de Nero. De acordo com Suetônio, circularam relatos de que a amizade entre os dois pode ter ido além e envolvido “relações imorais“…

Provavelmente o boato nasceu do fato de que Nero e Otão tornaram-se tão íntimos a ponto de terem partilhado a mesma mulher, a rica Popeia Sabina, neta de um Cônsul, segundo os relatos de Suetônio, Tácito e Cássio Dião.

Cassius Dio, “Epitome of Book LXII”, 11,2

Os relatos dos três historiadores romanos acima citados acerca desse “affair” divergem apenas em poucos pontos: Segundo Suetônio e Cássio Dião, foi Nero, de quem Popeia já seria amante, que a ofereceu a Otão para que os dois celebrassem um casamento forjado, com a finalidade que Nero pudesse desfrutar dela com mais facilidade. Já de acordo com Tácito, o que ocorreu foi o contrário: Otão seduziu Popéia, casou-se com ela e, de tanto ele exaltar as qualidades da esposa para o imperador, Nero acabou interessando-se por Popeia. Mas todos convergem para o fato de que tudo se passou de acordo com a vontade da ambiciosa Popeia, que voluntariamente instigou a paixão do imperador por ela, não se afastando a hipótese de que ela tenha se casado com Otão já com este objetivo em mente.

Cabeça de Popeia

Nota: Popeia Sabina, com base em consideráveis evidências arqueológicas e epigráficas, pode ter nascido na cidade de Pompéia (não por causa do seu prenome), e certamente ela e sua família eram muito ligados à cidade e sua região, onde tinham propriedades, incluindo a fabulosa “Villa de Popeia”, na cidade vizinha de Oplontis, cujas ruínas foram admiravelmente preservadas pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

Vista da Villa Poppea, em Oplontis

Essas fontes relatam que Popeia, após conseguir se fazer desejada por Nero, teria fingido relutância em trair Otão, ou, de outro modo, este, não suportando mais ter o imperador como rival, começou a dificultar o encontro entre este e a esposa.

Seja como for, o resultado foi que Nero, agora contrariado com as dificuldades que Otão, ou Popeia, ou estes dois juntos, estavam colocando em sua paixão pela última, decidiu, entre 58 e 59 D.C, nomear Otão para ser o governador da longínqua província da Lusitânia, uma designação que, na verdade, visaria acobertar do público o virtual exílio do antigo amigo e agora rival amoroso.

Para surpresa de muitos, Otão fez uma boa administração na Lusitânia, ficando lá por longos e incomuns dez anos. Nesse meio tempo, em 65 D.C, Popeia faleceu, provavelmente de complicações decorrentes de um parto ou aborto. Segundo boatos que circularam, registrados por Suetônio, Tácito e Cássio Dião, essas complicações teriam ocorrido por causa de um chute que Popeia teria levado de Nero no abdômen, segundo os dois primeiros historiadores, ou porque o imperador teria pulado sobre a barriga dela.

3- Atuação durante a aclamação e reinado de Galba

Quando a rebelião de Gaius Julius Vindex na Gália, no início de 68 D.C, pôs em marcha os eventos que resultaram na aclamação de Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia, inicialmente por Vindex e, em seguida, por várias legiões, Otão imediatamente apoiou o governador da província vizinha a sua, tendo sido ele um dos primeiros a fazê-lo.

Abandonado pelo Prefeito Pretoriano, Ninfídio Sabino, que aderiu a Galba, e declarado inimigo público pelo Senado, que reconheceu a aclamação de Galba, Nero cometeu suicídio, em 09 de junho de 68 D.C.

Durante a marcha de Galba em direção à Roma, sabe-se que Otão teve participação ativa no avanço.

Em outubro de 68 D.C, Galba entrou na capital do Império e assumiu de fato as rédeas do governo. Porém, embora sua aclamação tenha sido recebida com algum entusiasmo, logo o novo reinado mostrou-se falho em manter a popularidade.

De fato, Galba, ao longo de sua carreira, sempre mostrou ser um chefe extremamente severo e, especialmente, um homem sovina. Os súditos e, especialmente, os militares, haviam se acostumado aos excessos de Nero quanto às benemerências e gratificações, e à condescendência quanto à disciplina. Também não ajudou o fato de Galba ser um homem já idoso e sem o “glamour” que envolvia os Júlio-Cláudios. Além disso, os cortesãos e os grupos que giravam em torno de Nero temiam as punições que já estavam ocorrendo. E os soldados esperavam recompensas.

Busto de Galba, foto: Gfawkes05, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

As fontes relatam que Galba, velho e atacado pela gota, deixava boa parte das questões de governo por conta de dois apoiadores de primeira hora: Titus Vinius, general que fazia parte do seu staff militar na Hispânia, um homem alegadamente corrupto, e que foi nomeado por Galba para servir como seu colega no primeiro consulado como imperador; e Cornelius Laco, o novo Prefeito Pretoriano, além de seu liberto, Icelus Martianus.

Com o objetivo de acalmar as legiões da Germânia e, talvez, de afastar um possível concorrente para o trono ou para a sua sucessão, Galba enviou o dissoluto e, aparentemente inofensivo, Aulo Vitélio, um notório glutão, para ser o governador da província, no final de 68 D.C. É bem possível que essa indicação tenha tido a influência de Vinius, que era amigo de Vitélio pelo fato de ambos apoiarem a facção dos Azuis nas corridas do Circo Máximo.

Entretanto, no dia em que Galba e Vinius assumiram o Consulado, em 1º de janeiro de 69 D.C, as legiões da Germânia se revoltaram e aclamaram Vitélio como novo imperador. As legiões estavam insatisfeitas com Galba porque esperavam recompensas pelo fato de terem debelado a rebelião de Julius Vindex. Segundo Tácito, as tropas também temiam alguma punição pelo fato de terem apoiado Nero contra Vindex e não terem declarado apoio a Galba na ocasião em que ele foi aclamado. Um emissário foi despachado imediatamente por Pompeius Propinquus, um agente imperial na vizinha província da Gália Bélgica levando a mensagem para Roma (Tácito).

Certamente percebendo a fragilidade de seu estado de saúde e, especialmente, a nova rebelião na Germânia, que sucedia alguns episódios prévios de indisciplina militar em seu reinado, fortaleceu-se em Galba, que não tinha filhos, a percepção de que era necessário nomear um sucessor, na esperança de que o estabelecimento de uma linha dinástica fortaleceria a sua posição e traria mais estabilidade ao governo.

Titus Vinius apoiava o nome de Otão para ser ungido como o herdeiro de Galba. Vale observar que Otão, segundo consta, estimulado por profecias de astrólogos, já vinha aproveitando, desde o início do reinado, toda oportunidade para se tornar o escolhido por Galba, alternando entre a descarada adulação ao imperador e a prestação de favores a qualquer pessoa que pudesse ter alguma influência, incluindo os militares da Guarda Pretoriana.

Todavia, para o grande desapontamento de Otão, prevaleceu a opinião de Cornelius Laco e de Icelus, que apoiavam Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus. Sem dúvida, Piso Licinianus possuía um nome muito mais ilustre do que o do Otão. A gens Licínia era uma das famílias mais ilustres de Roma, embora inicialmente de origem plebeia, tendo gerado vários cônsules e um triúnviro. Além disso, por parte de mãe, Licinianus era descendente direto do triúnviro Pompeu, o Grande, e seu irmão foi marido de Cláudia Antônia, filha do imperador Cláudio. Não obstante, para Galba, o que teria pesado mesmo contra Otão era a associação dele com o reinado de Nero

Assim, em 10 de janeiro de 69 D.C, Lucius Calpurnius Piso Frugi Licinianus foi oficialmente adotado por Galba, em uma cerimônia realizada no Quartel da Guarda Pretoriana, em Roma, passando o herdeiro a adotar o nome de Servius Sulpicius Galba Caesar.

Vestígios do muro do Quartel da Guarda Pretoriana (Castra Pretoria), em Roma. Foto; Gustavo La Pizza, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

4- Ascensão ao trono

Ao receber a notícia da adoção de Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano por Galba, o ambicioso Otão não perdeu tempo de passar da decepção para a ação. Valendo-se de uma propina que obteve ao extorquir um liberto do imperador, no montante de um milhão de sestércios, Otão começou a subornar alguns guarda-costas do imperador. Vale observar que alguns desses pretorianos eram ligados a Tigellinus, o infame Prefeito Pretoriano de Nero, e eles sentiam-se ainda ligados a esse finado imperador, de cujo círculo íntimo Otão chegara a fazer parte. Tudo isso deu-se em um contexto de insatisfação geral da Guarda com a intensificação da disciplina e a falta de pagamento do donativo verificados no reinado de Galba.

Então, no dia 15 de janeiro de 69 D.C, enquanto Galba realizava um sacrifício ritual em frente ao Templo de Apolo, no Fórum Romano, acompanhado de Otão e vários senadores, os fatos foram precipitados pela predição de um advinho ao interpretar os presságios como indicando a existência de um plano para matar Galba. Premido pela revelação do plano, ou acreditando, por sua vez, que se tratava de um presságio favorável à conspiração, Otão deu uma desculpa para deixar a cerimônia e foi ao encontro dos guarda-costas que apoiavam o seu plano, que eram em número de vinte e três, próximo ao Marco Miliário de Ouro e ao Templo de Saturno, também no Fórum Romano.

Localização do Marco Miliário de Outro e do Templo de Saturno no Fórum Romano. Foto: Public Domain Book: Christian Hülsen, Bretschneider und Regenberg, 1904. Author Christian Hülsen died in 1935., Public domain, via Wikimedia Commons

Os 23 guarda-costas saudaram Otão como imperador e logo um número semelhante de Pretorianos se juntou ao grupo, que ergueu Otão em uma cadeira e dirigiram-se ao Quartel da Guarda Pretoriana, onde os oficiais e o resto dos soldados, confusos e cautelosos em tomar partido, não tomaram nenhuma atitude contra os revoltosos, no que provavelmente também contribuiu a antipatia geral que a tropa nutria contra Galba.

Entretanto, Galba prosseguia na realização da cerimônia religiosa, momento em que chegaram os rumores de que Otão estava sendo aclamado pela Guarda Pretoriana.

Galba e seu círculo íntimo resolveram que o mais adequado à situação era verificar se os guardas do palácio no Palatino continuavam leais. Assim, o seu herdeiro, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano, foi até lá e fez um discurso conclamando-os a defenderem o seu imperador.

Assim que foi terminado o discurso, os integrantes do corpo de guarda-costas pessoais do imperador desapareceram, mas parte do corpo de pretorianos que estava no Palácio permaneceu em formação, atrás dos seus estandartes. Dois oficiais foram enviados ao Quartel da Guarda Pretoriana para se inteirar do ânimo da tropa, e lá chegando foram hostilizados e detidos pelos soldados. Para piorar, o destacamento de soldados-marinheiros da Frota Imperial, que ficava aquartelado em Roma aderiu aos revoltosos (eles haviam sido alvo de um banho de sangue perpetrado pelas tropas leais à Galba, quando estas entraram em Roma nos primeiros dias do reinado dele).

Uma turba invadiu as ruas do Fórum Romano, inicialmente clamando pela punição dos revoltosos.

Dois cursos de ação foram recomendados à Galba: a) Titus Vinius aconselhou que o imperador se entrincheirasse no Palácio e resistisse até que forças leais mais numerosas pudessem alcançar Roma e combater a Revolta; b) Cornelius Laco e Icelus defendiam que Galba fosse imediatamente ao encontro dos revoltosos com os poucos guardas que lhe eram leais enquanto a rebelião ainda estava incipiente e retomasse o controle das tropas.

Galba preferiu seguir o conselho de Laco e Icelus, talvez reforçado pelo falso boato de que Otão teria sido executado no Quartel da Guarda Pretoriana. O idoso imperador, então, vestiu uma couraça e, enquanto deixava o Palácio sendo carregado em uma cadeirinha, foi abordado por um pretoriano, que lhe disse que ele mesmo havia matado Otão, chegando a mostrar a espada ensanguentada. A resposta do severo e inflexível imperador foi:

Tácito, “Histórias”, Livro I, 35

Enquanto isso, o movimento no Quartel da Guarda Pretoriana transformou-se em rebelião generalizada, com os soldados aclamando Otão, vestindo suas armaduras e brandindo suas espadas, lanças e escudos com intenção de defendê-lo pela força das armas.

Logo os sons da rebelião e, em seguida, os primeiros destacamentos de revoltosos começaram a se aproximar do Fórum Romano, por onde trafegava a pequena comitiva de Galba, observada pela multidão espalhada pelas ruas, nos templos e nos edifícios públicos.

Todos puderam ter um prenúncio do que iria ocorrer quando o porta-estandarte do pelotão que escoltava Galba, ao perceber a chegada dos primeiros pretorianos amotinados, arrancou a efígie de Galba do estandarte. A multidão, ameaçada pelos soldados, e ciente do iminente desfecho, tentou fugir por onde fosse possível.

Alguns soldados de infantaria e cavalaria rebeldes aproximaram-se mais do cortejo imperial e um deles lançou um dardo, que acertou Galba sentado na cadeirinha em que era carregado. O imperador, ferido, caiu e rolou pelo chão, ocasião em que alguns relataram ter ouvido ele dizer:

Cássio Dião, “Epítome do Livro LXIV”, 5

Os soldados impiedosamente feriram várias partes do corpo de Galba, terminando por decapitá-lo. Durante todo o selvagem episódio, apenas um Guarda Pretoriano, um centurião de nome Semprônio Denso, tentou defender o imperador, conseguindo evitar a morte dele durante alguns momentos, lutando contra vários atacantes. A história pode ser consultada no artigo que escrevemos sobre Galba. Graças à ação de Semprônio, momentaneamente, Lúcio Calpúrnio Pisão Licianiano conseguiu escapar e se refugiar no Templo de Vesta, apenas para, um pouco mais tarde, ser capturado por ordens de Otão e terminar executado na frente do santuário. Já Titus Vinius, que acompanhava Galba, vendo a morte do imperador, tentou escapar, mas foi atingido por uma lança, e, em seguida, também foi executado no ato.

Reencenação de um centurião romano. Foto: I, Luc Viatour, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

5- Reinado de Otão

No fim daquele dia de 15 de janeiro de 69 D.C, após ser aclamado pelos Pretorianos e pelos soldados-marinheiros da Frota Imperial no Quartel, que, naquele momento, eram os verdadeiros senhores da situação, Otão foi até o Senado Romano, onde os senadores imediatamente confirmaram a sua elevação, votando pela concessão de todos os poderes inerentes ao Principado.

Todavia, naquele momento a anarquia e a indisciplina dos Pretorianos era tanta que foram eles próprios que não apenas escolheram os seus novos comandantes, o simples soldado Plotius Firmus e Licininus Proculus, ambos ligados a Otão, mas também o novo Prefeito Urbano, escolha que recaiu sobre Flávio Sabino, que anteriormente havia sido escolhido por Nero para ocupar esse cargo (relato de Tácito, em suas “Histórias”. Sabino era irmão do respeitado general Vespasiano, que na ocasião conduzia a campanha romana contra a Grande Revolta dos Judeus, na província da Judéia. Laco e Icelus, ligados ao finado Galba, foram imediatamente executados, e Tigellinus forçado a cometer suicídio.

Nesse ínterim, a rebelião dos partidários de Vitélio ganhava adesões na Gália e no norte da Itália. Otão tentou fazer um acordo com o rival, enviando emissários com promessas de dinheiro e salvo-conduto para ir viver a salvo onde quer que ele escolhesse. Vitélio, por sua vez, também enviou uma mensagem de teor semelhante. Os generais partidários de ambos também enviaram ou tentaram enviar mensageiros às legiões controladas pelo oponente imperial. Inclusive, Fábio Valente, general de Vitélio, enviou emissários à Guarda Pretoriana, em Roma, oferecendo negociações e argumentando que Vitélio tinha sido aclamado primeiro que Otão.

Mensagens mais animadoras chegaram da Dalmácia, da Panônia e da Moésia haviam jurado lealdade a Otão. Entretanto, a boa nova foi contrabalançada pela informação que as legiões da Hispânia aderiram à causa de Vitélio. O substancial contingente de legiões estacionadas na Judéia, sob o comando de Vespasiano, juraram lealdade a Otão.

O novo imperador tentou alguns gestos conciliadores em relação a pessoas ilustres. algumas inclusive punidas nos reinados anteriores. Após exercer o consulado do ano de sua elevação juntamente com seu irmão, Salvius Titianus, até o mês de março, Otão, para os meses posteriores, nomeou uma série de senadores, no número total de 15, para serem Cônsules daquele ano. Ele também concedeu direito de cidadania romana a algumas cidades.

Aureus de Otão. Foto: Antiksikkeler, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Outras medidas, como o soerguimento de estátuas de Nero e da falecida imperatriz Popeia Sabina, parecem ter visado a agradar os partidários de Nero e o populacho da Cidade, no seio do qual o tresloucado imperador ainda gozava de bastante estima. Ele também reabilitou vários dos libertos que faziam parte do círculo íntimo do referido antecessor. Aparentemente, Otão pretendia, e assim o seu reinado estaria sendo percebido, como uma restauração do reinado de Nero. Sintomaticamente, o povo começou a chamá-lo de “Nero Otão“, um nome que, embora ele não tenha assumido oficialmente, também não consta ter proibido ou manifestado contrariedade.

Algo que contribuiu para reforçar o sentimento de continuidade em relação ao reinado de Nero, embora tenha sido considerado desabonador pelos historiadores romanos, foi o fato dele ter trazido para perto de si o escravo Sporus (Esporo), um rapaz que, devido a grande semelhança dele com a imperatriz Popeia Sabina, seguindo as ordens de Nero, foi castrado e passou a ser tratado por este imperador como se fosse a sua própria esposa.

Finalmente, de acordo com Suetônio, o imperador Otão destinou 50 milhões de sestércios para a conclusão da Domus Aurea, o suntuoso e espetacular palácio que Nero havia começado a construir em Roma, que ainda estava por ser terminado.

Alguns bárbaros, percebendo a turbulência política no seio do Império, aproveitaram para fazer incursões no território romano. Assim, os Roxolanos invadiram a província da Moésia com nove mil guerreiros montados. Porém, a Legião III, alerta e preparada para a ação, derrotou a tribo sármata com facilidade.

Todavia, na cidade de Roma, a indisciplina dos soldados permanecia: Em certa ocasião, os Pretorianos, da qual boa parte encontrava-se embriagada no Quartel, interpretou erroneamente uma movimentação de tropas e víveres e, acreditando que se tratava de uma tentativa de destronar Otão, um bando deles, após matar um dos seus comandantes, dirigiu-se ao Palácio e invadiu um banquete que estava sendo dado pelo imperador, que mostrou-se fraco e indulgente na ocasião. Nenhum soldado foi punido pelo episódio e eles ainda receberam uma gratificação de cinco mil sestércios para comprar a sua obediência. Para finalizar, os líderes da rebelião só foram punidos porque os próprios soldados assim o demandaram.

Em seguida, em meio aos preparativos para a expedição contra Vitélio, houve uma grande cheia do rio Tibre que inundou boa parte de Roma.

Tomadas as providências para minorar os danos da inundação, Otão retomou os planos para o confronto contra o rival: Ele enviou a frota para atacar a Gália Narbonense, um dos redutos de Vitélio e reforçou as tropas aquarteladas na cidade, predominantemente componentes da Guarda Pretoriana, com alguns outros contingentes. Julgando que os preparativos eram suficientes e tomando como exemplo negativo a postura passiva de Nero ante à rebelião que lhe custou a vida e o trono, Otão, em 14 de março de 69 D.C, partiu de Roma em direção ao norte da Itália.

No meio dessas ações iniciais, dois episódios merecem nota: Tito, o filho de Vespasiano, que havia sido enviado da Judéia pelo pai para prestar homenagens a Galba, ao saber que este havia sido assassinado, e que Otão assumira o trono tendo como contestantes Vitélio e suas legiões, achou mais prudente voltar e expor a situação ao pai, a fim de ver qual curso de ação tomar. Concomitantemente, apareceu na Ásia um impostor dizendo que ele era Nero, que teria conseguido escapar da Itália, conseguindo enganar e atrair um bom número de apoiadores. Mas a farsa não perdurou muito e o farsante foi capturado e morto.

A força militar à disposição de Otão foi reforçada com a chegada de quatro legiões: a VII, XI, XIII Gemina e XIV Gemina. Nero havia conferido a esta última muitas distinções e, por causa disso, esses soldados aderiram entusiasticamente à causa de Otão, que, envergando uma couraça de metal, marchava à frente de sua tropa citadina, majoritariamente composto de Pretorianos e dos Soldados-Marinheiros, aos quais se somaram algumas tropas esparsas, incluindo uma constituída de dois mil gladiadores. A pressa se justificava, pois parte do exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina Alienus, já tinha atravessado os Alpes, cujas passagens haviam sido asseguradas pela adesão de um contingente de cavalaria chamado de Sílios, e chegado à Itália. Por sua vez, o envio da frota mostrou-se frutífero e assegurou o controle da costa italiana até os Alpes Marítimos (cadeia de montanhas no litoral do Mediterrâneo que separa a Itália da França).

Otão enviou um destacamento avançado de suas forças para atacar a região dos Alpes Marítimos, tendo essas tropas causado grande dano aos habitantes locais, com saques e destruição de propriedades. O governador da província tentou defendê-la mediante o recrutamento dos aguerridos povos montanheses, mas estes, devido à falta de treinamento militar, foram facilmente subjugados.

No litoral da Gália, Fábio Valente, general de Vitélio, temendo a ameaça de um desembarque da frota próximo à importante cidade de Forum Julii (atual Fréjus, na França), enviou doze esquadrões de cavalaria, acompanhado de uma coorte auxiliar (unidade com cerca de 800 soldados) de Lígures (povo que habitava o sopé e a parte mais baixa dos Alpes) e 500 auxiliares Panônios.

As tropas de Otão ocuparam posições elevadas junto à costa e contavam com a proteção da frota no litoral adjacente. A batalha seguiu-se imediatamente e, devido à ação conjunta dos pretorianos, de camponeses recrutados para atirar pedras (talvez usando fundas) e das tropas embarcadas, resultou favorável ao exército de Otão. Em decorrência, as tropas de Vitélio foram obrigadas a recuar. Contudo, o sucesso distraiu as tropas de Otão, e, aproveitando-se disso, o exército de Vitélio atacou o acampamento adversário de surpresa, mas acabaram sendo repelidos.

Não tendo nenhum dos lados obtido uma vitória decisiva, os dois exércitos retiraram-se: o de Vitélio para Antipolis (atual Antibes, França) e o de Otão para Albingaunum (atual Albenga, Itália).

Não obstante, a maior ameaça para Otão era o fato de que um exército de Vitélio, comandado por Aulus Caecina, já havia descido os Alpes e ocupado a fértil planície do rio Pó, cruzando este mesmo rio e ameaçando a cidade de Placentia (atual Piacenza). Observe-se que a junção dessa força com aquela comandada por Fábio Valente poderia colocar o exército de Otão em perigosa desvantagem.

Spurinna, o comandante da guarnição de Placentia, leal a Otão, mandou fortificar as defesas da cidade, que foi atacada por Caecina, mas conseguiu resistir bravamente ao cerco que se seguiu. Assim, o general de Vitélio foi obrigado a recuar, cruzar de volta o rio Pó e buscar abrigo na cidade de Cremona. Durante esta retirada, positiva para a causa de Otão, contudo, algumas tropas desertaram e juntaram-se a Caecina.

A Legião I Adiutrix, uma legião recém-formada, comandada por Annius Gallus, que marchava em direção a Placentia para ajudar a guarnição da cidade na resistência ao cerco, ao saber da retirada de Caecina, entusiasmou-se e, mesmo sem que houvesse ordem de seu comandante, marchou em direção à Cremona, somente parando, após retomada a disciplina, na cidade de Bedriacum (Bedríaco, atual Calvatone), que ficava a meio caminho.

Nesse ínterim, uma ação inusitada, segundo Tácito, acirraria a falta de confiança e entusiasmo das forças partidárias de Otão: a força de dois mil gladiadores comandada por Marcius Macer logrou atravessar o rio Pó e atacou com sucesso unidades de auxiliares do exército de Vitélio, tendo parte conseguido fugir para Cremona e outra parte sido aniquilada. Apesar do sucesso, Macer ordenou que seus homens não explorassem esse sucesso, temeroso de enfrentar inimigos em maior número. Em seguida, o general Suetônio Paulino comandou outra ação bem-sucedida na localidade chamada de Locus Castorum, porém, da mesma forma e pelo mesmo motivo, decidiu interromper o avanço. Essas hesitações acabaram acarretando a desconfiança do grosso das tropas de Otão em seus comandantes. Em decorrência, o imperador foi obrigado a designar seu irmão, Titianus, como o comandante geral do seu exército, preterindo talentosos generais que já comandavam suas legiões no teatro de batalha, como era o caso de Suetônio Paulino (que havia derrotado com sucesso a grande revolta da rainha Boudica, na Britânia).

Após controlar um perigoso motim em suas tropas, Fábio Valente conseguiu unir-se ao exército comandado por Caecina, em Cremona, ocasião em que a rivalidade entre os dois ficou evidente.

6- Primeira Batalha de Bedríaco

A junção dos dois exércitos de Vitélio tornava urgente a definição de uma estratégia por parte de Otão. Os seus generais mais experientes, como Suetônio Paulino, cientes da inferioridade numérica, recomendaram evitar uma batalha e esperar que os suprimentos das forças de Vitélio se esgotassem, já que estes não controlavam o resto da Itália e nem as rotas marítimas. O rio Pó configurava uma barreira favorável à defesa e, portanto, manter as posições defensivas em cidades fortificadas ao longo do rio propiciaria que com a passagem do tempo, as tropas de Vitélio começassem a sofrer os efeitos da carência de víveres.

Entretanto, prevaleceram as opiniões de Titianus e do Prefeito Pretoriano Proculus, que defendiam um ataque imediato, porém recomendando que o imperador e sua guarda ficassem na retaguarda, aquartelados na cidade de Brixellum (atual Brescello), para a proteção de Otão e como reserva.

Alguns desertores, espiões ou ambos, levaram as resoluções do comando das forças de Otão ao conhecimento de Valente e Caecina, que planejaram um ataque simulado aos gladiadores de Otão. Seguiu-se um combate em que os gladiadores acabaram levando a pior, o que gerou mais insatisfação das tropas com o comandante deles, Macer, que foi substituído por Tito Flávio Sabino, sobrinho de Vespasiano (não confundir com o irmão deste, mencionado anteriormente).

Finalmente, em 14 de abril de 69 D.C, Titianus, o comandante do exército de Otão, decidiu atacar Cremona e forçar o engajamento decisivo.

Mesmo assim, durante o avanço para Cremona, os generais de Otão estavam relutantes e, sentindo as tropas fatigadas pela marcha e decidiram acampar em um trecho da Via Postumia, próximo a Bedríaco (atual Calvatone).

Local da Batalha de Bedríaco. Foto: Hannibal21, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Segundo Suetônio, enquanto isso, dois centuriões das coortes pretorianas pediram para serem recebidos por Caecina, com o objetivo de entabular negociações. Antes que o real propósito dos pretorianos fosse conhecido, o comandante percebeu que seu colega Valente havia ordenado que suas tropas entrassem em formação de batalha, dando o respectivo sinal.

Então, a cavalaria do exército de Vitélio avançou, mas, surpreendentemente, ela foi repelida por um pequeno contingente das tropas de Otão. Mesmo assim, as forças de Vitélio se posicionaram em boa ordem, enquanto que as tropas de Otão se dispuseram em certa confusão, aparentando nervosismo e insatisfação com seus comandantes.

Para piorar a situação, espalhou-se entre as tropas de Otão um boato de que o exército de Vitélio havia desertado, não se sabe se propositalmente ou por acaso. Em decorrência, baixou sobre as primeiras um estado de desânimo, chegando os homens a saudarem os inimigos, que, mesmo assim, continuavam demonstrando animosidade contra eles.

Foi neste momento que o grosso do exército de Vitélio atacou.

Apesar de sua inferioridade numérica, desorganização e estado de ânimo, o exército de Otão ofereceu uma corajosa resistência. Como o campo de batalha era, em alguns trechos, entremeado de árvores e vinhedos, a luta adquiriu uma característica ora de combate homem a homem, ora de combate entre formações. As ações ofensivas foram feitas basicamente com espadas e machados, sem o arremesso de dardos.

Em outra parte do campo de batalha, entre o rio e a estrada, onde o terreno era plano e aberto, a experimentada Legião XXI Rapax de Vitélio engajou a Legião I Adiutrix de Otão, que nunca tinha visto combate real antes. Apesar disso, a Adiutrix, lutando com entusiasmo, conseguiu capturar a o estandarte-águia da Rapax. Porém, isto acabou inflamando os soldados da legião de Vitélio, e eles conseguiram matar em combate o comandante da Adiutrix, Orfidius Benignus, e capturar vários estandartes.

Ponte sobre o rio Oglio, afluente do Pó, em Calvatone (antiga Bedríaco). Alguns dos combates descritos no texto podem ter tido esse local como cenário. Foto: Massimo Telò, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, outra legião de Vitélio, a V Alaudae, conseguiu desbaratar a Legião XIII, de Otão, tendo outra legião “Otoniana”, a Legião XIV, experimentado o mesmo revés. Nesta altura do combate, os generais de Otão abandonaram o campo de batalha. A situação do exército de Otão piorou quando a temível unidade dos Batavos, que integrava as forças de Vitélio, chegou ao campo de batalha e conseguiu destroçar o contingente de gladiadores de Otão que havia atravessado o rio.

O símbolo da Legião V Alaudae era um elefante. Foto: CatMan61, Public domain, via Wikimedia Commons

Em franca desvantagem, o restante do exército de Otão foi obrigado a fugir em desordem e procurar abrigo em Bedríaco. Os seus comandantes foram recebidos com hostilidade pelos soldados no acampamento. Não obstante, parte dos soldados, inclusive dos Pretorianos, ainda considerava que eles poderiam continuar a luta.

O exército de Vitélio avançou até o marco de cinco milhas da que partia de Bedríaco e decidiu esperar. No dia seguinte, a disposição dos soldados no acampamento mudou e eles resolveram enviar uma delegação para negociar com os generais de Vitélio. Após alguma hesitação, esta delegação voltou acompanhada de uma enviada pelo exército de Vitélio, a qual foi recebida com emoção pelos acampados.

Nesse meio tempo, Otão aguardava com ansiedade as novas da batalha em Brixellum. Ele ainda tinha consigo uma quantidade apreciável de tropas e sabia que havia outras legiões que, formalmente, ainda lhe eram leais que poderiam chegar de outros pontos do Império. As lideranças dos soldados que estavam com ele manifestaram o desejo de continuar lutando, tendo Plotius Firmus, Prefeito da Guarda Pretoriana sido vocal neste sentido. Inclusive, integrantes de destacamentos das legiões da Moésia que se encontravam no acampamento, afirmaram que as tropas desta província já teriam alcançado a cidade de Aquileia, e em breve reforçariam o exército de Otão.

Naquele momento, de acordo com o relato do historiador Tácito (Nota: o nosso relato da batalha é praticamente uma transcrição do texto deste historiador), o imperador Otão fez o seguinte discurso aos seus soldados:

Tácito, Histórias, Livro II, 46

O historiador Suetônio transcreve um discurso de teor semelhante, embora com texto diferente. Sabemos que os historiadores antigos usavam como recurso narrativo inventar discursos de pessoas célebres em momentos decisivos. Tácito é considerado um historiador mais confiável em relação às fontes, mas ele também costumava inventar discursos. O certo é que todos os historiadores que relataram esses fatos concordam que Otão se dirigiu aos soldados e fez um discurso declarando o desejo de interromper a guerra civil e tirar a própria vida, para evitar mais derramamento de sangue.

7- Morte de Otão

Após o discurso, Otão mandou queimar documentos que poderiam comprometer os seus partidários e distribuiu dinheiro para algumas pessoas. Alguns militares chegaram a ameaçar um motim, mas o imperador conseguiu demovê-los. Ele tinha a seu lado seu jovem sobrinho, Lucius Salvius Otho Cocceianus, filho de seu irmão Titiano, a quem ele tranquilizou, dizendo que não tivesse medo (de fato, o rapaz foi poupado por Vitélio e viveu até o reinado de Domiciano, quando chegou a ser Cônsul, no ano de 82 D.C.., mas, segundo consta, este imperador o teria executado pelo simples fato dele haver comemorado o aniversário de Otão).

Então, Otão retirou-se para sua tenda, despediu seus amigos e apanhou duas adagas que lhe tinham sido trazidas. Após matar a sede com um tanto de água fria, o imperador dormiu um pouco. Quando o dia 16 de abril de 69 D.C. raiou, finalmente, ele se jogou sobre uma das adagas e morreu, faltando onze dias para completar 37 anos de idade.

Em obediência às suas instruções, o cadáver de Otão foi rapidamente cremado em uma pira, sendo que, durante a cremação, alguns soldados, emocionados, cometeram suicídio. Os seus restos foram sepultados em um modesto mausoléu, contendo apenas uma inscrição com o seu nome.

Mesmo após a morte de Otão, seus soldados chegaram a se amotinar e obrigar o general Lucius Verginius Rufus a aceitar ser aclamado como imperador, mas este se recusou (como já havia ocorrido quando ele derrotou a rebelião de Gaius Julius Vindex).

Os soldados, então, aceitaram a realidade e enviaram uma delegação composta por alguns generais, que submeteram aos generais de Vitélio a capitulação e o reconhecimento deste como novo imperador.

De acordo com o historiador romano Cássio Dião, quarenta mil soldados pereceram nos combates em Bedríaco.

8 – Epílogo

Em 19 de abril de 69 D.C, o Senado Romano formalmente declarou Vitélio imperador. Este, quando recebeu a notícia da vitória de suas tropas e da morte da Otão, prontamente dirigiu-se para Roma, onde fez uma entrada triunfal. Os homens fortes do novo reinado eram, obviamente, os generais Caecina e Valente. O novo imperador tentou, inutilmente, como seus predecessores, contentar a ganância dos soldados, sem conseguir discipliná-los. Para isso contribuiu o comportamento desregrado e a sua falta de compostura, que naturalmente não estimulava o respeito dos militares nem o suporte por parte da elite senatorial. Como seu predecessor, Vitélio parece ter procurado demonstrar que seu reinado manteria a orientação favorável a Nero.

Porém, em julho de 69 D.C., os exércitos do Oriente aclamaram como imperador o respeitado general Vespasiano, que comandava a campanha contra a Revolta dos Judeus. A situação de Vitélio piorou quando as legiões da Panônia, sob o comando de Antonius Primus, e da Ilíria, sob o comando de Cornelius Fuscus, declararam-se a favor de Vespasiano e marcharam para invadir a Itália. Em breve, os exércitos dos rivais encontrariam-se novamente nas proximidades de Cremona, e travariam a Segunda Batalha de Bedríaco.

9- Conclusão

A despeito de seus vícios tão enfatizados pelas fontes antigas, Otão não parece ter sido pior do que alguns de seus antecessores ou sucessores. Devemos, então, nos debruçar mais sobre os aspectos estruturais, sem deixar de relacioná-los com as ações do próprio Otão. A crônica da vida e do reinado dele demonstra a disfuncionalidade que havia quanto ao Principado no que se refere à natureza do regime e ao princípio da sucessão, algo que já abordamos no nosso artigo sobre Nero. Essa disfuncionalidade foi herdada da crise do final da República, em que o poder político se sustantava nas legiões recrutadas por generais-políticos ambiciosos. Augusto foi bem-sucedido em cooptar a elite senatorial sob uma aparência de manutenção de seus privilégios na ordem republicana, mas não conseguiu estabelecer um princípio sucessório que assegurasse a continuidade de sua dinastia. A queda de Nero reabriu a oportunidade para que aventureiros ambiciosos aliassem-se à ganância dos soldados, resultando em imperadores fracos, com pouca autoridade sobre os militares, e em um regime instável. O capítulo final da vida de Otão, e a nobreza demonstrada em sua morte, mostra que ele não era um romano tão degenerado como se supunha. Mas somente um governante com autoridade moral, comportamento respeitável, sensatez e ascendência sobre as tropas, como Vespasiano, conseguiria restaurar a estabilidade do regime imperial.

FIM

Fontes:

1- Suetônio, “Vida dos Doze Césares”; “Vida de Otão”, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Suetonius/12Caesars/Otho*.html

2- Tácito, “Histórias”, Livros I e II, começa em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Histories/1B*.html

3- Cássio Dião,Epítome dos Livro LXIII e LXIV“, em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/63*.html

4-Juvenal, Sátiras, Sátira 2, em https://www.tertullian.org/fathers/juvenal_satires_02.htm

AVE, GEORGIOS!

Em 23 de abril de 303 D.C, um soldado romano chamado Georgios foi executado por ordens do Imperador Romano Diocleciano.

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Diocleciano havia ordenado que todos os soldados do Exército Romano oferecessem um sacrifício aos deuses do panteão tradicional de Roma e aqueles que se recusassem deveriam ser presos.

Georgios (Jorge), segundo a hagiografia e a tradição cristã seria filho de Gerontius, um oficial romano da ilustre família senatorial dos Anícios, e Pollycronia, uma súdita romana de Lydda, atual Lod, em Israel, então situada na província romana da Síria Palestina. Segundo outro relato, Gerontius seria natural da Capadócia. De qualquer modo, as fontes acordam que Jorge cresceu em Lydda e que sua família era cristã.

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(Mosaico romano descoberto em Lod, Israel)

Seguindo a carreira do pai, Jorge se alistou na guarda imperial, servindo na corte de Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, na Turquia), que havia sido elevada pelo imperador à condição de capital imperial, no recém-criado sistema da Tetrarquia.

Jorge acabou sendo promovido ao posto de Tribuno, que hoje seria equivalente ao de coronel. Quando Diocleciano publicou seu Édito exigindo que os soldados cristãos renunciassem ao cristianismo, Jorge anunciou publicamente, perante as tropas formadas na presença do Imperador, sua devoção a Jesus Cristo.

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O Imperador, que apreciava Jorge tentou convencê-lo de várias formas a obedecer o Decreto, até oferecendo-lhe terras, dinheiro e escravos, mas Jorge manteve-se irredutível.

Sentindo-se obrigado a reforçar a obediência ao seu Édito, Diocleciano ordenou que Jorge fosse torturado em uma roda de afiadas espadas. Após este suplício, Jorge foi decapitado em frente às muralhas de Nicomédia, em 23 de abril de 303 D.C. Seu corpo foi levado para Lydda e logo se tornou foco de devoção como relíquia de umt mártir cristão. Ainda segundo a tradição, a imperatriz Alexandra, esposa de Diocleciano (segundo as fontes históricas, o nome da esposa dele era Prisca), ao assistir o martírio de Diocleciano, converteu-se ao cristianismo, motivo pelo qual ela também foi executada e, posteriormente, canonizada.

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(Panorama de Izmit, a antiga Nicomédia, na Turquia)

A associação de São Jorge ao dragão parece ter sido recolhida e trazida à Europa pelos cruzados no Oriente Médio (algumas populações islamizadas inclusive mantiveram a veneração a São Jorge na região).

Segundo a lenda, na cidade de Sylene (que poderia ser Cirene, na Líbia ou, segundo alguns, seria a própria Lydda), um dragão ( originalmente um crocodilo) viveria na fonte de água potável dos habitantes, que eram obrigados a oferecer ao monstro uma ovelha para sacrifício, até que, na falta dos animais, eles foram forçados a oferecer uma virgem. A donzela orou pedindo proteção e São Jorge apareceu e matou o dragão, motivo pelo qual todos os habitantes se converteram ao cristianismo.

Jorge foi canonizado pelo Papa Gelásio I, em 494 D.C. Embora o santo fosse conhecido no Ocidente, a sua popularidade chegou ao ápice com o retorno à Europa dos cruzados, que atribuíram à intervenção de São Jorge várias vitórias obtidas na Terra Santa. Por influência deles, São Jorge acabou virando o santo patrono da Inglaterra, de Portugal, da Geórgia, da Romênia e de Malta. A imagem de São Jorge matando o dragão também compõe a Cota de Armas da Federação Russa.

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MACRINO

Segundo o historiador Cássio Dião (Epítome do Livro 79, Marcus Opellius Macrinus (Macrino) nasceu na cidade de Caesarea (atual Cherchell, na Argélia), na província romana da Mauritania Caesariensis, estima-se que por volta do ano de 165 D.C.

Cássio Dião descreve Macrino como sendo um “Mouro”, o que significa que provavelmente ele era de origem berbere. Já os pais dele, por sua vez, ainda de acordo com o relato do referido historiador, seriam de “origem obscura”, significando que não se sabia nada sobre a condição social deles. Como evidência de sua origem Moura, o texto menciona que Macrino tinha uma de suas orelhas furada, presumivelmente para usar um brinco ou outro adorno, no que seria um costume característico dos Mouros.

Busto de Macrino, Palazzo Nuovo, Roma. Aumentando-se a foto nota-se parece haver algo no lóbulo da orelha direita. Seria um brinco? Pretendo inspecionar de perto quando voltar à Roma. foto: <a href=”https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0&gt;, via Wikimedia Commons

As fontes romanas relatam que, em algum momento de sua vida, Macrino adquiriu um respeitável conhecimento da legislação e jurisprudência romanas, chegando a exercer a advocacia, uma atuação que chamou a atenção de Plautianus, o desafortunado sogro do imperador Caracala, que o contratou para ser ser seu secretário particular. Conseguindo escapar da desgraça de Plautianus, que foi executado ainda durante o reinado de Septímio Severo, o promissor Macrino foi nomeado Superintendente (Curator) da Via Flamínia, uma estrada importante estrada que ligava Roma à cidade de Rimini. Certamente, este era um posto que dava visibilidade política e também permitia ao seu titular amealhar bastante dinheiro, uma prática bem comum entre os homens públicos romanos.

Durante o reinado de Caracala, a carreira de Macrino continuou em ascensão e ele foi nomeado para um cargo não especificado de Procurador, muito provavelmente um cargo de Procurator Augusti, administrando a arrecadação de tributos ou Fiscus (rendas e patrimônio da casa imperial). Também sabemos que Macrino recebeu o anel de ouro que simbolizava o pertencimento à classe dos Equestres (status social que vinha abaixo da nobreza senatorial), uma vez que os referidos cargos eram exclusivos deste grupo. De acordo com Cássio Dião, essas funções foram exercidas por Macrino com eficiência e correção.

Contudo, a História Augusta, uma coleção de biografias imperiais escrita por volta do século IV D.C. (e considerada não muito confiável pelos historiadores modernos, devido aos seus vários erros factuais e algumas contradições), apresenta uma versão mais deletéria da vida de Macrino, citando outros autores, não obstante, no próprio texto, o autor faça questão de advertir que são relatos duvidosos.

Assim, de acordo com a História Augusta, referindo afirmações feitas por um suposto historiador chamado Aurelius Victor, Macrino, durante o reinado de Cômodo (180-192 D.C.), era um escravo liberto e teria sido um “prostituto público”, encarregado de tarefas servis no Palácio, sendo, além disso, corrupto. Posteriormente, já no reinado de Septímio Severo, Macrino teria sido banido para a África por aquele imperador, província onde ele se dedicou a estudar, começando por defender pequenas causas perante os tribunais, dedicando-se à Oratória, após o que, finalmente teria conseguido tornar-se um magistrado. Então, Festus, um outro liberto que tinha sido colega de Macrino, conseguiu que este recebesse o anel de Equestre e, no reinado do imperador Verus Antoninus*, ele foi nomeado Procurador do Fisco.

*Nota: Esta referência é considerada um erro crasso do autor da História Augusta, já que Macrino seria no máximo uma criança de tenra idade quando Lucius Verus foi imperador, sendo que o autor provavelmente quis se referir a Caracala, cujo nome oficial era Marcus Aurelius Antoninus)

E a História Augusta ainda cita outras passagens sobre a vida de Macrino, provenientes de outros autores não identificados, os quais mencionaram que ele teria chegado a lutar na arena como gladiador-caçador (isto é, um venator, tipo de gladiador que capturava feras e outros animais selvagens na arena, além de se apresentar como domador, fazendo-os performar truques) sendo que, após receber o diploma honorário de dispensa da profissão, ele mudou-se para a Província Romana da África.

De qualquer modo, as fontes concordam que Macrino exerceu o cargo de Procurador com zêlo e confiabilidade suficiente para fazer com que Caracala o nomeasse Prefeito Pretoriano, em 214 D.C., tornando-se um dos comandantes da Guarda Pretoriana. Este era um posto que inicialmente compreendia apenas o comando da Guarda, mas que, no decorrer do período imperial foi sendo expandido para abranger também o comando das tropas da Itália e outras unidades mais próximas ao imperador. Posteriormente, tornaria-se um dos cargos mais importantes da administração civil, de certa forma análogo ao de um primeiro-ministro ou grão-vizir. Normalmente, eram dois os Prefeitos Pretorianos, mas, sob Caracala, chegaram a haver três simultaneamente, sendo, um deles, Macrino. O outro era Marcus Oclatinius Adventus, que também havia sido anteriormente Procurator Augusti, algo que talvez demonstre um padrão nas nomeações de Caracala. Observe-se que, pela tradição, o cargo de Prefeito Pretoriano também era destinado à homens pertencentes à Classe Equestre.

Busto de Caracala

Apesar da nomeação, Macrino parece não ter gozado da estima do imperador, que, segundo Herodiano, chegou a criticá-lo por ser adepto demais da boa mesa e também por ser efeminado.

Para não nos alongarmos muito, cumpre relatar que Macrino, na condição de Prefeito Pretoriano, acompanhou, juntamente com seu colega Adventus, Caracala na expedição contra os Partas. Durante a expedição, Flavius Maternianus, que havia ficado em Roma para comandar os Guardas durante a campanha, teria enviado uma carta a Caracala relatando que um vidente teria tido uma visão em que Macrino seria o novo imperador. Entretanto, Macrino, que já estava preocupado com a má disposição que o imperador vinha demonstrando contra ele, teve acesso primeiro à correspondência e, após ler a carta, removendo-a do malote, compreendeu que certamente seria executado se a profecia chegasse ao conhecimento de Caracala.

Assim, visando salvar a própria vida, Macrino abordou o soldado Julius Martialis, integrante da guarda pessoal do imperador, com quem ele tinha uma ligação próxima, o qual estava insatisfeito com Caracala pelo fato deste ter mandado executar injustamente o irmão dele, também soldado e convenceu-o a executar o imperador, da maneira já narrada no tópico antecedente.

No dia 8 de abril de 217 D.C, quando a caravana de Caracala se dirigia da cidade de Edessa para Carras (atual Harran, na Turquia) parou pelo simplório motivo dele fazer suas necessidades no mato, Martialis, que o seguia de perto, atravessou Caracala com sua espada e, em seguida, tentou fugir, sendo morto por um arqueiro.

Localização de Carras (Harran). Foto:Attar-Aram syria, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em 11 de abril de 217 D.C., três dias após o assassinato, e sob a iminência do exército ser atacado pelos Partas, as tropas aclamaram Macrino imperador. Vale observar que, antes, a coroa foi oferecida a Marcus Adventus, porém este recusou, alegando estar muito velho.

Importante notar que Macrino foi o primeiro imperador romano não oriundo da classe senatorial, em quase 250 anos de período imperial. Em uma sociedade marcadamente classista e estratificada como a romana, certamente era uma condição capaz de diminuir a legitimidade do imperador. Não obstante, Caracala era tão detestado pelo Senadores que a notícia da aclamação de Macrino foi bem recebida e confirmada pelo Senado Romano.

Em seguida, Macrino concluiu uma paz com os Partas, mas, ao invés de desmobilizar o Exército reunido para a campanha, mandando-o de voltas para os seus quartéis nas fronteiras, e voltar para Roma, ele preferiu ficar em Antióquia, decisão que foi considerada um erro pelos autores antigos. Ali, Macrino ficou um tempo desfrutando de luxo e prazeres, vestido com roupas luxuosas e extravagantes, o que, aparentemente, nos dá uma pista de que as anteriormente mencionadas críticas de Caracala não seriam infundadas.

Então, os soldados passaram a sentir nostalgia de Caracala, que se comportava como um deles. Além disso, a crise fiscal ocasionada pelo aumento dos gastos militares necessitava de medidas urgentes. Macrino, então, decidiu que os novos recrutas do Exército receberiam um soldo menor do que os já engajados. A ideia era não desagradar os soldados já em exercício, mas isso acabou sendo percebido como uma antecipação de futuros cortes nos soldos deles.

A insatisfação das tropas com Macrino não passou despercebida às influentes mulheres da família de Caracala. A imperatriz Júlia Domna havia morrido, de câncer no seio, pouco depois dele assumir o trono. Macrino, então, ordenou que a irmã dela, Júlia Maesa, deixasse Roma e voltasse para a cidade natal delas, Emesa, na Síria, junto com suas filhas, Júlia Soêmia e Júlia Maméia, e seu neto, Sextus Varius Avitus Bassianus, que ficaria conhecido como Elagábalo (ou Heliogábalo), filho da primeira.

Moeda com a efígie de Júlia Maesa. Foto: Bibliothèque nationale de France, Public domain, via Wikimedia Commons

Ocorre que Macrino permitiu que Júlia Maesa mantivesse com ela a imensa fortuna que a família, que já era riquíssima pelo fato de governarem a cidade e chefiarem o culto ao deus El-Gabal, tinha amealhado durante mais dos 20 anos em que fizeram parte da família imperial. Certamente, este dinheiro facilitou que Júlia Maesa convencesse os soldados da III Legião Gallica, cujo quartel ficava próximo à Emesa, que seu neto, considerado um adolescente muito bonito, chamado Elagábalo, em homenagem ao referido deus, era filho ilegítimo de Caracala, a quem as tropas tanto adoravam. Assim, em 16 de maio de 218 D.C, o comandante da Legião, Publius Valerius Comazon, aclamou Elagábalo imperador.

A reação de Macrino, que aparentemente não deu a importância devida à rebelião, foi nomear seu filho, Diadumeniano, de dez anos de idade, como co-imperador e enviar um destacamento comandado pelo novo Prefeito Pretoriano, Ulpius Julianus. Porém, ao chegarem ao acampamento dos rebeldes, os soldados de Ulpius, ao verem Elagábalo nos muros e os soldados revoltosos com suas bolsas cheias de dinheiro, desertaram e aderiram à rebelião. A cabeça de Ulpius foi cortada e enviada a Macrino.

Áureo de Diadumeniano. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 CH https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/ch/deed.en, via Wikimedia Commons

Em 8 de junho de 218 D.C, uma força comandada pelo tutor de Elagabálo aproximou-se de Antióquia. Macrino decidiu dar combate ao exército rebelde, mas, durante os combates, o imperador, descrente do resultado, abandonou o campo de batalha e voltou para Antióquia. Na cidade, contudo, estouraram tumultos e Macrino resolveu fugir em direção à Roma, despachando Diadumeniano para que este encontrasse abrigo entre os Partas.

Ao chegar à cidade de Calcedônia, Macrino foi reconhecido e capturado, sendo mantido em cativeiro. Por sua vez, a caravana conduzindo Diadumeniano foi interceptada na cidade de Zeugma e o menino assassinado. Quando a notícia chegou ao conhecimento de Macrino, ele tentou fugir, sem sucesso, terminando por ser também executado, ainda durante o mês de junho de 218 D.C. A cabeça dele foi enviada à Elagábalo, o novo imperador.

FIM

CARACALA – UM IMPERADOR PARA OS SOLDADOS

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Nascido a 4 de abril de 188 D.C, em Lugdunum, na província da Gália (atual Lyon), com o nome de Lucius Septimius BassianusCaracala era o filho mais velho do imperador Septímio Severo e da imperatriz Júlia Domna.

Severo foi o primeiro imperador romano que não descendia de uma família de origem italiana (ao menos por parte de pai,) pois a sua tinha origem púnica ou berbere, nativa da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia. Porém, a família ascendera à classe Equestre, e dois primos de Severo já tinham ocupado o consulado durante o reinado do imperador Antonino Pio.

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(Septímio Severo, pai de Caracala)

Já a mãe de Caracala, a imperatriz Júlia Domna, uma mulher admirada por sua beleza e inteligência, era filha de Julius Bassianus, sumo-sacerdote do Templo do deus Elagábalo (El-Gabal), em Emesa (moderna Homs), na Síria, e membro da dinastia dos Sempseramidas, governantes daquela cidade, que era a capital de um reino-cliente de Roma, que depois foi anexada pelo Império.

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(Júlia Domna, mãe de Caracala)

Cinco anos após o nascimento de Caracala, em 193 D.C, seu pai Septímio Severo se tornaria imperador e reinaria até 211 D.C. Severo queria fazer crer que era filho ilegítimo do finado imperador Marco Aurélio e, por isso, além  de acrescentar o nome deste imperador ao seu, mudou o nome de Caracala para Marcus Aurelius Severus Antoninus Augustus, numa tentativa de legitimar a si e a sua prole como continuadores da bem-sucedida dinastia dos Antoninos, que terminara de fato com o assassinato do imperador Cômodo.

O apelido Caracala surgiu porque Lucius Septimius Bassianus gostava muito de usar um manto com capuz, de origem gaulesa, chamado de “Caracalla“.

Severo, desde cedo, demonstrou que não iria reviver o costume dos Antoninos, que fora interrompido com a nomeação de Cômodo por seu pai, Marco Aurélio, de se escolher, como herdeiro e sucessor do imperador, o homem público  mais apto, e não o próprio filho biológico.

Assim, em 196 D.C, Caracala foi nomeado “César” (título equivalente ao de príncipe-herdeiro) e, em 28 de janeiro de 198 D.C, ele seria reconhecido como “Augusto“, tornando-se de direito co-imperador junto com seu pai, embora ele tivesse apenas 9 anos de idade.

Em 202 D.C, Severo concordou em casar Caracala com Plautila, filha do seu primo e conterrâneo, o poderoso Prefeito Pretoriano Plauciano.

Caracala odiava o sogro e a esposa e, após o seu casamento, recusou-se a ter qualquer relacionamento com Plautila. Na verdade, consta que Caracala teria chegado a prometer que, quando se tornasse imperador, daria cabo de ambos, o que pode ter levado Plauciano a conspirar contra Severo, ou, ao menos, esse foi o pretexto que Caracala usou para conseguir a queda e execução do sogro e o exílio de Plautila, em 205 D.C.

Parece que Severo pretendia ser sucedido, após a sua morte, conjuntamente por Caracala e por seu filho mais novo, Geta, que era um ano mais novo do que o irmão e foi nomeado César em 198 D.C e, posteriormente, Augusto em 209 D.C.

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(Uma das poucas imagens de Geta que sobreviveram à Damnatio Memoriae ordenada por Caracala)

Os dois irmãos destacavam-se pela dissolução dos costumes, promovendo orgias, e, igualmente, pelo ciúme e ódio que nutriam um pelo outro.

Segundo as fontes antigas, Severo, enquanto encontrava-se em campanha contra os Caledônios na Britânia, caiu gravemente enfermo, e, pressentindo que ia morrer, mandou chamar Caracala e Geta, para dar-lhes a notícia e um derradeiro conselho para o futuro reinado de ambos, que foi este:

Não briguem entre si, deem muito dinheiro aos soldados e desprezem todos os outros“.

No dia 4 de fevereiro de 211 D.C, em Eboracum (atual York), Severo morreu. No mesmo dia, Caracala e Geta foram aclamados imperadores pelas tropas. Ambos decidiram imediatamente interromper a campanha e voltar para Roma.

Porém, a animosidade entre os irmãos-imperadores era tanta que o Palácio teve que ser dividido em dois, e, mesmo assim, não satisfeitos, eles chegaram a cogitar seriamente em dividir o Império Romano em duas metades, cem anos antes de Constantino, que tomou a medida por motivos muito mais relevantes.

Não demorou muito para que Caracala colocasse em prática um plano para se livrar do irmão.  Assim, simulando um falso desejo de reconciliação, ele persuadiu Júlia Domna a convocar um encontro ente ele e Geta. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe,  um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna, em dezembro de 211 D.C.

Não satisfeito em mandar matar Geta, Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi feito, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias,  proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

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(Painel de madeira pintada com os retratos de Septímio Severo, Júlia Domna e Caracala, ainda criança. A imagem de Geta foi apagada, em obediência à Damnatio Memoriae).

Caracala, que, logo no primeiro ano de reinado, decidira não obedecer o primeiro conselho do pai, matando o irmão, entretanto seguiria à risca o segundo conselho, aumentando em 50% o soldo dos legionários. Não satisfeito, o imperador foi além e passou a cortejar os soldados, marchando junto com eles, comendo com eles o mesmo rancho, e até mesmo moendo grãos para fazer a farinha para o rancho.

Também no início do seu reinado, Caracala ordenou a construção de um gigantesco complexo de banhos públicos, que ficariam conhecidos como as “Termas de Caracala” e seriam as maiores já construídas em Roma,  até a construção das Termas de Diocleciano, 90 anos mais tarde.

Em 213 D.C., Caracala teve que deixar Roma para ir combater os bárbaros Alamanos, que ameaçavam a fronteira da Raetia (província que fazia fronteira com a Germânia, compreendendo parte da atual Suíça e do estado alemão da Baviera, entre outras regiões). Os bárbaros foram contidos e Caracala aproveitou para reforçar as defesas do território romano dos Agri Decumates).

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(Reconstrução em maquete das Termas de Caracala)

Porém, os gastos com os soldados e com as Termas obrigariam Caracala a desvalorizar o denário e a aumentar os tributos, tornando a sua figura, que já era antipática por natureza, detestada pela maioria do povo, e,  sobretudo, pelo Senado, que também frequentemente era desrespeitado por ele. Portanto, podemos dizer que o terceiro conselho de Severo: “desprezar todos os outros‘”, também estava sendo obedecido por Caracala

A principal medida legal do reinado de Caracala foi a promulgação da “Constitutio Antoniniana“, em 212 D.C,  lei também conhecida como Édito de Caracala, concedendo a cidadania romana a todos os homens livres do Império Romano. Contudo, mais do que uma medida democrática ou inclusiva, o real objetivo de Caracala era aumentar a base tributária, já que alguns tributos somente incidiam sobre cidadãos romanos.

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(Papiro com o texto da Constitutio Antoniniana, que sobreviveu até os nossos dias)

Segundo Cássio Dio, para inspirar temor nos seus súditos, Caracala gostava que a propaganda imperial  divulgasse uma imagem dele como um governante temível e implacável , e, de fato, todos os retratos que sobreviveram dele mostram exatamente essa expressão.

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Caracala admirava muito Alexandre, o Grande e, tentando emular o seu ídolo, o imperador promoveu uma campanha contra os Partos. E a fascinação de Caracala com o rei da Macedônia foi tanta que ele chegou a criar uma unidade militar com o nome de Phalangiari, imitando as falanges macedônicas que tinham dado tantas vitórias a Alexandre.

Enquanto Caracala, ausente de Roma, conduzia a campanha contra os Partos, quem se tornou a virtual governante da Cidade foi sua mãe, Júlia Domna. Com ela, começaria uma tendência que caracterizaria a dinastia dos Severos: a predominância das mães dos imperadores como eminências pardas e governantes de fato do Império, o que se acentuou durante os reinados de Elagábalo e de Severo Alexandre.

Entretanto, no dia 8 de abril de 217 D., o Imperador Caracala mandou parar sua comitiva, que marchava da cidade de Edessa para dar andamento à guerra contra a Pártia.

A parada, que ocorreu próximo à cidade de Carras (atual Harran, no sul da Turquia), tinha um motivo bem prosaico: o imperador estava com vontade de urinar…

Caracala afastou-se da comitiva, seguido, apenas, de seu guarda-costas Julius Martialis, que, aparentemente, guardava a distância necessária à privacidade do imperador.

De repente, o líquido amarelo que escorria pelo chão em decorrência do alívio da necessidade fisiológica do imperador, começou a ficar vermelho…

Martialis tinha acabado de atravessar o corpo de Caracala com o seu gládio com um golpe mortal. Os outro guardas perceberam o crime e Martialis tentou fugir, mas foi abatido por uma flecha de um arqueiro. Acredito que esta ação foi uma queima de arquivo, já que o principal suspeito de ter sido o mandante do crime era o Prefeito da Guarda Pretoriana, Macrino, que acabou se tornando o sucessor de Caracala no trono.

Todavia, Macrino logo seria substituído pelo primo de Caracala, Elagábalo, em uma revolta urdida pela sua tia, Júlia Maesa, que se valeu da enorme riqueza e dos contatos dos Sempseramidas na Síria, uma das províncias mais ricas do Império, para subornar o poderoso exército romano naquela província.

Caracala é considerado um dos muitos “maus imperadores” romanos, não apenas para os historiadores antigos, mas também por Edward Gibbon e a maioria dos historiadores modernos. Após a sua morte, ele continuaria popular entre os soldados, os únicos romanos que ele se preocupou em agradar.

FIM

SANTO AMBRÓSIO – UM BISPO TEMIDO ATÉ PELOS IMPERADORES

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Em 4 de abril de 397 D.C, morre, em Milão, cidade que então era a capital do Império Romano do Ocidente, Aurelius Ambrosius, mais conhecido como Santo Ambrósio.

Nascido por volta do ano 340 D.C, na cidade de Augusta Treverorum (atual Trier, na província da Germânia), Ambrósio era filho do Prefeito Pretoriano da Gália, que também se chamava Aurelius Ambrosius. A mãe de Ambrósio era uma cristã devota, e assim, ele e seus irmãos, Satyro e Marcellina, foram criados como cristãos (Posteriormente, os dois últimos também seriam venerados como santos católicos).

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(Porta Nigra, em Trier, portão das muralhas romanas da cidade onde Ambrósio nasceu)

Graças à posição de seu pai, Ambrósio recebeu uma esmerada educação em Roma,  sendo versado em latim, grego, filosofia e direito, e, concluídos os seus estudos, ele seguiu a carreira pública, chegando a ser nomeado governador da Ligúria-Emília, região onde ficava a cidade de MIlão, em 372 D.C.

Em 374 D.C, Ambrósio foi escolhido para ser o Bispo de Milão, por aclamação dos fiéis, embora ele não fosse ainda batizado (era então costume dos cristãos leigos se batizar apenas no fim da vida, mas para os bispos isso era requerido) e, muito menos, ordenado. Apesar de inicialmente recusar a escolha da comunidade, Ambrósio acabou cedendo e, em uma semana, ele foi batizado, ordenado padre e nomeado Bispo!

A Sé de Milão vivia uma disputa entre os devotos que esposavam o Credo Niceno, estabelecido no Concílio de Nicéia, e os que seguiam a doutrina do Bispo Ário, chamados de “Arianos” (nada a ver com o suposto grupo étnico).

Ambrósio uniu a experiência administrativa civil no serviço público, que ele tinha adquirido no cargo de governador, a uma grande eloquência e força de caráter, e, por isso, ele logo atraiu uma enorme legião de seguidores entre os fiéis. Os seus sermões eram famosos e faziam encher a catedral de Milão com uma multidão. Foi durante uma dessas homilias de Ambrósio que um jovem inseguro e  indeciso em sua fé tornou-se um fervoroso convertido: era o futuro Santo Agostinho, que seria batizado por Ambrósio, em 387 D.C.

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(Santo Agostinho, seu retrato mais antigo, do séc. V,  existente na Basílica Laterana, em Roma).

Em 380 D.C., os imperadores Teodósio I, Graciano e Valentiniano II publicaram o Édito de Tessalônica, tornando o Cristianismo a religião oficial do Império Romano.

No Concílio de Aquiléia, em 381 D.C, Ambrósio destituiu os bispos arianos, apesar dos mesmos terem o apoio do imperador Valentiniano II, o colega do imperador Graciano no Ocidente.

Mais tarde, quando o imperador cristão Graciano, em 382 D.C, ordenou a retirada do venerável Altar da Vitória, o santuário com a estátua dourada da deusa que, havia séculos, ficava na Cúria do Senado em Roma. Ambrósio foi o principal responsável por  impedir que esse altar fosse restaurado, apesar dos insistentes pedidos da influente facção de senadores pagãos.

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Interior da Cúria Júlia, sede do Senado Romano. O Altar da Vitória provavelmente ficava no fundo do edifício, no centro, onde está a base de mármore).

Outro episódio em que  Ambrósio teve destacada atuação na defesa da ortodoxia católica, ocorreu quando a imperatriz Justina, mãe de Valentiniano II, exigiu que a Basílica Portia, na cidade de Milão, fosse destinada ao culto dos cristãos arianos. Nessa ocasião, Ambrósio colocou barricadas em torno da mesma e encheu-a de partidários da ortodoxia nicena preparados para resistir, o que acabou levando a imperatriz a desistir do seu intento, em 386 D.C

Em 390 D.C., o imperador do Oriente, Teodósio I, massacrou sete mil pessoas em Tessalônica, ordenando uma brutal represália de uma revolta contra a guarnição de Godos estacionada na cidade. Considerando a ação um grave pecado, Ambrósio excomungou o imperador, que, depois de alguns meses, foi obrigado a fazer uma penitência pública, somente após a qual Ambrósio admitiu que Teodósio pudesse comungar. Esse gesto foi um precursor de uma tendência que se repetiria algumas vezes na Idade Média – o reconhecimento da supremacia do poder espiritual, detido pelo clero, sobre o poder temporal . Após este episódio, Teodósio tornou-se muito mais intolerante com o paganismo, proibindo, em 393 D.C, a celebração de qualquer ritual pagão, incluindo a proibição tácita da realização dos Jogos Olímpicos.

Assim,  Santo Ambrósio foi uma figura fundamental para que o cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano, sob a direção da Igreja Católica, o que teria influência duradoura na História do Mundo.

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(Foto: Corpo de Santo Ambrósio, preservado ao lado de dois outros mártires, na Catedral de Milão)

GLADIADOR II – LUCIUS VERUS, CARACALA E GETA

Por Eduardo André

Assisti a tão esperada continuação do já clássico filme Gladiador, e, assim como fiz no texto sobre o filme original, escrevo agora sobre Gladiador 2, procurando contextualizá-lo dentro do que se sabe sobre a História de Roma. Porém, ao contrário do que fiz no primeiro artigo, escrito muitos anos depois do primeiro filme, dessa vez vou tentar ao máximo não fazer “spoilers“; mas, se o leitor preferir nada saber e não ler alguma coisa que possa interferir em ter uma experiência de ineditismo e surpresa no cinema, novamente recomendo que não leia este artigo antes de assistir a película. De qualquer modo, a leitura do artigo Maximus Decimus Meridius-Gladiador pode ser útil para melhor entender todo o contexto (é só clicar no nome).

Antes de começar, é preciso ressaltar que Gladiador II, ao contrário do filme antecessor, abandonou quase que completamente qualquer compromisso de fidelidade com os fatos históricos. Com efeito, o enredo de Gladiador I, embora apresente muitas passagens fictícias e algumas inverossimilhanças, em seu cerne não conflitava tanto do que foi relatado pelas fontes acerca dos reinados de Marco Aurélio e Cômodo, sendo que, além dos principais personagens realmente terem existido, parte considerável do que se passa na tela corresponde ao que as fontes antigas relataram sobre eles. Também por esse motivo, este artigo será escrito de uma forma bem diferente do nosso artigo anterior.

Não obstante, há também quatro personagens neste filme que não são fictícios, embora o roteiro divirja bastante do que efetivamente se sabe sobre a vida deles: são eles os imperadores Caracala e Geta, Lucilla e Macrino (que com quase toda certeza foi inspirado na figura do imperador Macrino).

Gostaria de observar que ao apontar as inconsistências entre o enredo do filme e os fatos históricos, não estou fazendo nenhuma crítica negativa ao mesmo. Cinema é entretenimento e arte, e, não se tratando o filme de um documentário, nem tendo sido externada a intenção de contar uma história real, o cineasta e o roteirista devem ter liberdade para utilizar os personagens, ainda que históricos, com finalidades dramáticas.

CONTEXTO

A trama se passa dezesseis anos após a morte de Maximus Decimus Meridius e, obviamente, do imperador Cômodo, já que, no filme, ambos morrem em combate, um contra o outro, no Coliseu. Então, considerando que o Cômodo histórico morreu em 192 D.C., o enredo do filme começaria em 208 D.C.

O filme inicia-se com um impressionante ataque de uma grande frota romana contra uma cidade não identificada situada na região da Numídia, no Norte da África, que corresponde a grosso modo à atual Argélia.

E essa é a primeira incorreção do roteiro: Em 208 D.C, a Numídia já era uma província romana fazia 250 anos. A região foi anexada entre 46 e 42 A.C. e formalmente estabelecida como província romana em 25 A.C. Era habitada pelos Númidas, um povo de etnia berbere, indígena do Norte da África, valendo citar que os Berberes ainda compõem boa parte da população do Marrocos e da Argélia, além de estarem presentes na Líbia, na Tunísia, e, obviamente, em vários outros países para os quais eles emigraram (um representante famoso, dentre inúmeros outros, desta etnia é o jogador Zidane). Antes de ser conquistada pelos romanos, a Numídia chegou a ser um reino poderoso, que, antes de ser unificado, foi aliado deles durante a Segunda Guerra Púnica, quando parte da região era governada pelo rei Massinissa. Mais tarde, os Númidas, liderados pelo rei Jugurtha, travaram uma longa guerra (112-106 A.C) contra a República Romana, que foi vencida graças ao talento dos generais Mário e Sila. Provavelmente o personagem Jubartha, que aparece como chefe militar da cidade atacada pelos Romanos no filme, é uma alusão ao rei Númida, apesar dos séculos que separam os acontecimentos reais do episódio filmado.

Na verdade, a cena inaugural do filme evoca a conquista e destruição de Cartago pelos Romanos, na Terceira Guerra Púnica, em 146 A.C. Os acontecimentos dessa guerra são vividamente descritos pelo historiador grego Políbio, em sua “História”. Efetivamente, o cerco a Cartago envolveu ataques anfíbios combinados, por mar e por terra, chegando a haver combates navais nas muralhas que protegiam o porto da grande cidade (embora seja altamente improvável que as galeras se aproximassem a ponto de bater nas muralhas, o que com certeza as incapacitaria. E os “trebuchets“, as gigantescas catapultas que aparecem na cena defendendo a cidade, ainda não existiam). Mas a invasão deu-se mesmo por terra. o fictício guerreiro Hanno, que será o personagem principal do filme e que vive na cidade atacada pelos romanos, certamente também é uma alusão aos Cartagineses: Este foi o nome de vários comandantes e homens ilustres de Cartago. Finalmente, o comportamento do general romano Marcus Acacius, também um personagem fictício, que comanda a força invasora, também evoca a narrativa do cerco e destruição de Cartago: Políbio relata que Cipião Emiliano, Cônsul de Roma e comandante da campanha, expressou seu pesar e comiseração pela sorte da Cidade e seus habitantes, chegando a derramar lágrimas pelo destino deles. No filme, o general Acacius age de maneira semelhante, pronunciando a expressão: “Ai dos Vencidos” (“Vae Victis“), que, na vida real, teria sido proferida pelo chefe gaulês Breno, quando exigiu uma grande quantidade de ouro pelo resgate da cidade de Roma, que ele havia invadido, segundo o historiador romano Tito Lívio.

OUTRAS INCONSISTÊNCIAS

1- CARACALA E GETA

Os eventos constantes do roteiro se passam durante o reinado dos imperadores Caracala e Geta.

Oficialmente, em 198 D.C, Caracala (que se chamava Marco Aurélio Antonino, sendo Caracalla um apelido, motivado pelo fato dele usar uma capa de origem gaulesa assim chamada) recebeu o título de Augusto (que significava “Imperador”) de seu pai, Septímio Severo (193-211 D.C.), que ainda reinaria por mais treze anos. Já seu irmão Geta (Públio Septímio Geta), que era 11 meses mais novo do que Caracala, foi nomeado Augusto por Severo em 209 D.C. Septímio Severo era de uma família ilustre proveniente da cidade de Leptis Magna, na atual Líbia, de origem púnica e berbere.

Portanto, embora formalmente não seja incorreto considerar que Caracala fosse imperador em 208 D.C, como mencionado no roteiro, na prática, Septímio Severo continuava sendo o imperador com total controle do Império, até a sua morte por doença em Eburacum (atual York, na Inglaterra), em 4 de fevereiro de 211 D.C., quando efetivamente o poder passou para seus dois filhos. Caracala, que na ocasião, tinha 22 anos, e Geta, de 21, Em seu leito de morte, Septímio Severo deixou o seguinte conselho para seus dois sucessores:

Entretanto, as fontes antigas são unânimes sobre o fato de que Caracala e Geta odiavam-se mutuamente. Com efeito, o ódio entre os irmãos era tão grande, que, na jornada de retorno de York para Roma, ambos voltaram em caravanas separadas, sem jamais dividirem a mesma estalagem. Inclusive, após os dois novos imperadores instalarem-se em Roma, o Palácio Imperial (a Domus Severiana, no Palatino) teve que ser dividido em duas partes, não podendo os auxiliares e escravos de um ter acesso à parte do outro.

Não surpreende, assim, que Caracala, na primeira oportunidade que teve, desconsiderou o primeiro conselho do pai: Assim, em 26 de dezembro de 211 D.C, simulando um falso desejo de reconciliação com Geta, ele persuadiu a mãe deles, Júlia Domna, a convocar um encontro ente ele e o irmão. Quando Geta chegou na ala do Palácio ocupada pela mãe, um grupo de membros da Guarda Pretoriana fiéis a Caracala esfaquearam-no, e Geta morreu nos braços de Júlia Domna. Aos demais Pretorianos, bem como ao Senado e ao povo, Caracala divulgou a versão de que ele agiu em legítima defesa, e que foi Geta quem tentou assassiná-lo.

Portanto, o reinado conjunto de Caracala e Geta, de fato e de direito, durou apenas 10 meses, de 4 de fevereiro de 211 D.C até 26 de dezembro de 211 D.C.

Cabeça de Julia Domna, Glipoteca, Munique. foto; Laci3, CC0, via Wikimedia Commons

Não satisfeito em mandar matar Geta, o vingativo Caracala quis também eliminar qualquer referência histórica ao irmão, ordenando a sua “Damnatio Memoriae“. Em decorrência, decretou-se que a imagem de Geta deveria ser apagada de qualquer monumento público, o que efetivamente foi cumprido, como se pode ver em uma famosa pintura que chegou até os nossos dias, proveniente do Egito, onde o retrato de Geta, ainda criança, junto da família imperial, foi apagado.

O chamado “Tondo Severiano”, uma pintura do imperador Septímio Severo, sua esposa Júlia Domna e seus filhos Caracala e Geta, cujo rosto foi apagado em obediência à Damnatio Memoriae. A pintura data de cerca do ano 200 D.C, data da viagem da família imperial ao Egito, de onde ela é proveniente. Foto: © José Luiz Bernardes Ribeiro

Este retrato nos permite notar que Caracala, assim, como seu irmão, deviam ser bem diferentes dos atores que os personificaram no filme, pálidos e ruivos. Não obstante, o historiador Herodiano relata que Caracala tinha o costume de usar uma peruca loura, supostamente pelo fato dele apreciar os Germânicos, e talvez por ser um tanto calvo.

Um raro busto de Geta menino, que de alguma forma escapou à Damnatio Memoriae. Foto: Modussiccandi, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Em seguida ao assassinato do irmão, Caracala, não satisfeito, mandou executar toda e qualquer pessoa que tivesse alguma ligação com Geta, incluindo libertos, escravos, atores e até mesmo alguns senadores. De fato, mesmo antes do falecimento de Septímio Severo, a personalidade de Caracala já denotava alguns traços do que eu considero ser psicopatia: por exemplo, ele odiava Plautianus, primo e auxiliar próximo de seu pai, e, quando Septímio fez com que ele se casasse com Fulvia Plautilla, a filha de seu desafeto, Caracala, prometeu que mataria este e a própria esposa, uma vingança que ele não demorou a obter, implicando o sogro em uma conspiração provavelmente fabricada contra o imperador. motivo pelo qual Plautianus foi executado por soldados subordinados a Caracala. A pobre Plautilla foi exilada para a remota ilha de Lipari, e prontamente executada assim que Caracala assumiu o trono, logo após a morte de seu pai.

O reinado de Caracala caracterizou-se pela excessiva atenção dada ao Exército, tendo os soldados recebido um expressivo aumento nos soldos, que acabou comprometendo o equilíbrio fiscal do Império, obrigando o imperador a desvalorizar a moeda. Nisto, ele parece ter seguido à risca o segundo conselho deixado por seu pai…

Tanto era o seu desejo de agradar aos militares, que Caracala chegava a marchar junto com a tropa, carregando equipamento e estandartes, dormia nas barracas, e até mesmo, fazia as refeições junto com os legionários, comendo com eles o mesmo rancho. Enquanto isso, os assuntos relativos à administração civil e legal do Império foram deixados à cargo de sua mãe, Júlia Domna, com o auxílio de seus libertos.

Todos os retratos de Caracala revelam o propósito dele se apresentar ao povo romano como um governante marcial, másculo e implacável, por isso, a expressão dele nas estátuas era sempre a de um homem sisudo, bem diferente do que se vê no filme.

Busto de Caracala, foto: Naples National Archaeological Museum, CC BY 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by/2.5, via Wikimedia Commons

Segundo os relatos, Caracala logo tornou-se impopular para o povo e para o Senado Romano, e, como não é de surpreender, apenas os soldados o idolatravam. Ele até comandou algumas campanhas militares bem-sucedidas, mas, em muitas ocasiões mostrou-se colérico e sanguinário, e imprevisível, o que acabou atemorizando até mesmo seus auxiliares mais próximos.

Então, em 8 de abril de 217 D.C, no decorrer de uma campanha militar contra o Império Parta, no Oriente, Caracala foi assassinado por um soldado, Julius Martialis. O regicídio ocorreu quando a comitiva de Caracala se dirigia para a cidade de Carrhae, no sul da Turquia. No meio do caminho, o imperador mandou a caravana parar e foi urinar no mato, momento em que Martialis o esfaqueou pelas costas e fugiu, apenas para ser perseguido e morto pelos guarda-costas do imperador. Para muitos historiadores, isso foi uma queima de arquivo, e o principal suspeito de ser o mandante foi o Prefeito Pretoriano, Marcus Opellius Macrinus (Macrino). Mais detalhes sobre o reinado de Caracala podem ser lidos no nosso artigo sobre este imperador (clique no nome).

2- MACRINO

Estou convicto de que a principal inspiração para o personagem Macrino, de Gladiador 2 foi Marcus Opellius Macrinus, que se tornaria o imperador romano Macrino. Apesar disso, o leitor que assistiu ao filme notará que há diferenças entre a trajetória do personagem o da figura histórica que o inspirou. No filme, Macrino é interpretado por Denzel Washington, em mais uma grande atuação.

Segundo o historiador Cássio Dião (Epítome do Livro 79, Macrino nasceu na cidade de Caesarea (atual Cherchell, na Argélia), na província romana da Mauritania Caesariensis. Ele é descrito como um Mouro, o que significa que provavelmente Macrino era de origem berbere, e seus pais, por sua vez, como sendo de “origem obscura”, significando que não se sabia nada sobre a condição social deles. Inclusive, como evidência de sua origem Moura, o historiador menciona que Macrino tinha uma de suas orelhas furada, presumivelmente para usar um brinco ou outro adorno, o que seria um costume dos Mouros.

Busto de Macrino, Palazzo Nuovo, Roma. Aumentando-se a foto notq-se quehaver algo no lóbulo da orelha direita. Seria um brinco? Pretendo inspecionar de perto quando voltar à Roma. foto: <a href=”https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 https://www.flickr.com/photos/mumblerjamie/, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0&gt;, via Wikimedia Commons

As fontes relatam que, em algum momento de sua vida, Macrino adquiriu um respeitável conhecimento da legislação e jurisprudência romanas, chegando a exercer a advocacia, uma atuação que chamou a atenção de Plautianus, o desafortunado sogro de Caracala, que o contratou para ser ser seu secretário particular. Conseguindo escapar da desgraça de Plautianus, ainda durante o reinado de Septímio Severo, o promissor Macrino foi nomeado Superintendente (Curator) da Via Flamínia, uma estrada importante estrada que ligava Roma à Rimini. Certamente, este era um posto que dava visibilidade política e também permitia ao seu titular amealhar bastante dinheiro, de acordo com as práticas romanas.

Durante o reinado de Caracala, a carreira de Macrino continuou em ascensão, e, após ser nomeador para um cargo não especificado de Procurador, muito provavelmente um cargo de Procurator Augusti, administrando a arrecadação de tributos ou Fiscus (rendas e patrimônio da casa imperial), pois sabemos que Macrino recebeu o anel de ouro que simbolizava o pertencimento à classe dos Equestres (status social que vinha abaixo da nobreza senatorial), sendo que os referidos cargos eram exclusivos deste grupo. De acordo com Cássio Dião, esses cargos foram exercidos por Macrino com eficiência e correção.

Contudo, a História Augusta, uma coleção de biografias imperiais escrita por volta do século IV D.C., e considerada não muito confiável pelos historiadores modernos, devido a vários erros factuais e algumas contradições, apresenta uma versão mais deletéria da vida de Macrino, citando outros autores, não obstante o próprio texto faça questão de advertir que são relatos duvidosos.

Assim, de acordo o que a História Augusta menciona como afirmações feitas por um suposto historiador chamado Aurelius Victor, Macrino, durante o reinado de Cômodo (180-192 D.C.), era um escravo liberto e um “prostituto público”, encarregado de tarefas servis no Palácio, sendo também corrupto. Posteriormente, já no reinado de Septímio Severo, Macrino teria sido banido para a África pelo referido imperador, província onde ele se dedicou a estudar, começando por defender pequenas causas perante os tribunais, dedicou-se à Oratória e finalmente teria tornado-se magistrado. Então, Festus, um outro liberto que tinha sido colega de Macrino, conseguiu que este recebesse o anel de Equestre e, sob Verus Antoninus (um erro crasso do autor da História Augusta, já que Macrino sequer havia nascido quando Lucius Verus foi imperador, sendo que ele provavelmente quis se referir a Caracala, cujo nome era Marcus Aurelius Antoninus) foi nomeado Procurador do Fisco.

E a História Augusta ainda cita outras passagens sobre a vida de Macrino, provenientes de outros autores não identificados, os quais mencionaram que ele teria chegado a lutar na arena como gladiador-caçador (isto é, um venator, tipo de gladiador que capturava feras e outros animais selvagens na arena, além de se apresentar como domador, fazendo-os performar truques) sendo que, após receber o diploma honorário de dispensa da profissão, ele mudou-se para a Província Romana da África.

De qualquer modo, as fontes concordam que Macrino exerceu o cargo de Procurador com zêlo e confiabilidade suficiente para fazer com que Caracala o nomeasse Prefeito Pretoriano, em 214 D.C., tornando-se um dos comandantes da Guarda Pretoriana. Este era um posto que inicialmente compreendia apenas o comando da Guarda, mas que, no decorrer do período imperial foi sendo expandido para abranger também o comando das tropas da Itália e outras unidades mais próximas ao imperador. Posteriormente, tornaria-se um dos cargos mais importantes da administração civil, de certa forma análogo ao de um primeiro-ministro ou grão-vizir. Normalmente, eram dois os Prefeitos Pretorianos, mas, sob Caracala, chegaram a haver três simultaneamente, sendo, um deles, Macrino. O outro era Marcus Oclatinius Adventus, que também havia sido anteriormente Procurator Augusti, algo que talvez demonstre um padrão nas nomeações de Caracala. Observe-se que, pela tradição, o cargo de Prefeito Pretoriano também era destinado à homens pertencentes à Classe Equestre.

Apesar da nomeação, Macrino parece não ter gozado da estima do imperador, que, segundo Herodiano, chegou a criticá-lo por ser adepto demais da boa mesa e também por ser efeminado.

Para não nos alongarmos muito, cumpre relatar que Macrino, na condição de Prefeito Pretoriano, acompanhou, juntamente com seu colega Adventus, Caracala na expedição contra os Parta. Durante a expedição, Flavius Maternianus, que havia ficado em Roma para comandar os Guardas durante a campanha, teria enviado uma carta a Caracala relatando que um vidente teria tido uma visão em que Macrino seria o novo imperador. Entretanto, Macrino, que já estava preocupado com a má disposição que o imperador vinha demonstrando contra ele, teve acesso primeiro à correspondência e, após ler a carta, removendo-a do malote, compreendeu que certamente seria executado se a profecia chegasse ao conhecimento de Caracala.

Assim, visando salvar a própria vida, Macrino abordou o soldado Julius Martialis, integrante da guarda pessoal do imperador, com quem ele tinha uma ligação próxima, o qual estava insatisfeito com Caracala pelo fato deste ter mandado executar injustamente o irmão dele, também soldado e convenceu-o a executar o imperador, da maneira já narrada no tópico antecedente.

Dois dias após o assassinato, e sob a iminência do exército ser atacado pelos Partas, as tropas aclamaram Macrino imperador. Vale observar que, antes, a coroa foi oferecida a Marcus Adventus, porém este recusou, alegando estar muito velho.

Importante notar que Macrino foi o primeiro imperador romano não oriundo da classe senatorial, em quase 250 anos de período imperial. Em uma sociedade marcadamente classista e estratificada como a romana, até aquele período, certamente era uma condição capaz de diminuir a legitimidade do imperador. Não obstante, Caracala era tão detestado pelo Senadores que a notícia da aclamação de Macrino foi bem recebida e confirmada pelo Senado Romano.

Em seguida, Macrino concluiu uma paz com os Partas, mas, ao invés de desmobilizar o Exército reunido para a campanha, mandando-o de voltas para os seus quartéis nas fronteiras, e voltar para Roma, ele preferiu ficar em Antióquia, decisão que foi considerada um erro. Ali, Macrino ficou um tempo desfrutando de luxo e prazeres, vestido com roupas luxuosas e extravagantes, o que, aparentemente, dá alguma pista de que as mencionadas críticas de Caracala não seriam infundadas.

Então, os soldados passaram a sentir nostalgia de Caracala, que se comportava como um deles. Além disso, a crise fiscal ocasionada pelo aumento dos gastos militares necessitava de medidas urgentes. Macrino, então, decidiu que os novos recrutas do Exército receberiam um soldo menor do que os já engajados. A idéia era não desagradar os soldados já em exercício, mas isso acabou sendo percebido como uma antecipação de futuros cortes nos soldos deles.

A insatisfação das tropas com Macrino não passou despercebida às influentes mulheres da família de Caracala. A imperatriz Júlia Domna havia morrido, de câncer no seio, pouco depois dele assumir o trono. Macrino, então, ordenou que a irmã dela, Júlia Maesa, deixasse Roma e voltasse para a cidade natal delas, Emesa, na Síria, junto com suas filhas, Júlia Soêmia e Júlia Maméia, e seu neto, Sextus Varius Avitus Bassianus, que ficaria conhecido como Elagábalo (ou Heliogábalo), filho da primeira.

Ocorre que Macrino permitiu que Júlia Maesa mantivesse com ela a imensa fortuna que a família, que já era riquíssima pelo fato de governarem a cidade e chefiarem o culto ao deus El-Gabal, tinha amealhado durante mais dos 20 anos em que fizeram parte da família imperial. Certamente, este dinheiro facilitou que Júlia Maesa convencesse os soldados da III Legião Gallica, cujo quartel ficava próximo à Emesa, que seu neto, considerado um adolescente muito bonito, chamado Elagábalo, em homenagem ao referido deus, era filho ilegítimo de Caracala, a quem as tropas tanto adoravam. Assim, em 16 de maio de 218 D.C, o comandante da Legião, Publius Valerius Comazon, aclamou Elagábalo imperador.

A reação de Macrino, que aparentemente não deu a importância devida à rebelião, foi nomear seu filho, Diadumeniano, de dez anos de idade, como co-imperador e enviar um destacamento comandado pelo novo Prefeito Pretoriano, Ulpius Julianus. Porém, ao chegarem ao acampamento dos rebeldes, os soldados de Ulpius, ao verem Elagábalo nos muros e as bolsas cheias de dinheiro dos revoltosos, desertaram e se uniram aos camaradas. A cabeça de Ulpius foi cortada e enviada a Macrino.

Áureo de Diadumeniano. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 CH https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/ch/deed.en, via Wikimedia Commons

Em 8 de junho de 218 D.C, uma força comandada pelo tutor de Elagabálo aproximou-se de Antióquia. Macrino decidiu dar combate ao exército rebelde, mas, durante os combates, o imperador, descrente do resultado, abandonou o campo de batalha e voltou para Antióquia. Na cidade, contudo, estouraram tumultos e Macrino resolveu fugir em direção à Roma, e despachou Diadumeniano para que esse encontrasse abrigo entre os Partas.

Ao chegar à cidade de Calcedônia, Macrino foi reconhecido e capturado, sendo mantido em cativeiro. Por sua vez, a caravana conduzindo Diadumeniano foi interceptada na cidade de Zeugma e o menino assassinado. Quando a notícia chegou ao conhecimento de Macrino, ele tentou fugir, sem sucesso, terminando por ser também executado, ainda em junho de 218 D.C. A cabeça dele foi enviada à Elagábalo, o novo imperador.

3- LUCILLA e LUCIUS VERUS

Novamente, assim, como no primeiro filme a personagem feminina principal da sequência é Lucilla, a irmã do falecido imperador Cômodo. Em Gladiador (1), o espectador fica sabendo que Lucilla, antes ou depois de ficar viúva de seu marido, Lucius Verus (Lúcio Vero), manteve um caso de amor com o principal general de seu pai, Maximus. Mas, percebendo as intenções tirânicas de seu irmão Cômodo, a aflita Lucilla resolve colaborar com influentes senadores que se opunham ao reinado dele, e tramam restaurar a República. Em Gladiador II, novamente Lucilla é interpretada pela atriz Connie Nielsen.

Na vida real, Lucilla, cujo nome completo era Annia Aurelia Galeria Lucilla, de fato era a irmã mais velha de Cômodo (a diferença de idade entre os dois era de cerca de 12 anos) e, efetivamente, ela se casou com Lúcio Vero, que foi aclamado imperador junto com Marco Aurélio, em 161 D.C (o casamento foi celebrado em 164 D.C., ocasião em que ela tinha entre 14 e 16 anos de idade), sendo que o matrimônio durou até o marido morrer vitimado pela Peste, em 169 D.C. Como decorrência de seu casamento com Lúcio Vero, Lucilla recebeu o título de Augusta (Imperatriz), a posição máxima que uma mulher romana poderia aspirar na sociedade patriarcal romana, e todos os privilégios associados a esta posição.

Estátua de Lucilla, caracterizada como a deusa Ceres. Foto: Bardo National Museum, Public domain, via Wikimedia Commons

Lucilla e Lúcio Vero tiveram três filhos: Aurelia Lucilla, Lucilla Plautia e Lucius Verus (mesmo nome do pai), mas a mais velha e o menino morreram ainda crianças, e somente Lucilla Plautia parece ter alcançado a idade adulta.

O imperador Marco Aurélio, após a morte de Lúcio Vero, decidiu que Lucilla deveria casar de novo, e ele escolheu para ser o novo marido dela o general Tiberius Claudius Pompeianus, um de seus auxiliares mais próximos, que comandara com sucesso as legiões da província romana da Panônia, no norte do Império, e que também derrotara invasões dos bárbaros germânicos Lombardos e Marcomanos. Conforme expusemos no artigo sobre Maximus Decimus Meridius e o filme Gladiador (clicar no nome), Tiberius Claudius Pompeianus foi a principal inspiração para o personagem fictício Maximus.

Porém, embora Pompeianus, na ocasião do casamento com Lucilla, ocorrido em 169 D.C, já fosse senador e tivesse ocupado um consulado, ele era oriundo da Classe Equestre (que pode ser considerado o segundo escalão da nobreza romana), e, portanto, seu status social era inferior ao de Lucilla, filha e parente de imperadores, e esta foi uma circunstância que desagradou tanto a noiva como a sua mãe, conforme relatado na Historia Augusta. Para piorar, Pompeianus, na ocasião do casamento, que ocorreu em 169 D.C, tinha cerca de 44 anos de idade, enquanto que Lucilla tinha por volta de 21 anos…

O principal motivo para Marco Aurélio ter resolvido casar Lucilla com Pompeianus foi o fato de que, naquele momento, seu filho do sexo masculino, Cômodo, ter apenas oito anos de idade. A chamada “Peste Antonina“, uma séria epidemia, começava a grassar em Roma e o velho imperador temia que, se ele morresse, algum senador ou general ambicioso tomasse o trono para si. Pompeianus, além de ser um general respeitado, era um amigo confiável. Inclusive, após o casamento, Marco Aurélio chegou a consultar Pompeianus se ele aceitaria ser nomeado “César”, significando ser o seu herdeiro oficial, porém, o general não aceitou. Certamente, a intenção do imperador era que, caso ele morresse subitamente, o fiel Pompeianus asseguraria que, quando Cômodo atingisse a idade adulta, este assumiria o trono.

A diferença de idade entre Pompeianus e Lucilla, contudo, não impediu que eles tivessem um filho: por volta de 176 D.C, Lucilla deu a luz a um menino, que recebeu o nome de Lucius Aurelius Commodus Pompeianus.

Marco Aurélio permitiu que Lucilla mantivesse alguns dos privilégios inerentes ao status de imperatriz após a morte de Lúcio Vero, não obstante sua esposa Faustina, a Jovem, a mãe de Lucilla, fosse, desde então, a única Augusta (Imperatriz). Entretanto, ao contrário do enredo do filme Gladiador (1), em 177 D.C, Marco Aurélio decidiu que era já hora de nomear Cômodo, agora com 15 anos (e considerado como adulto pelos costumes romanos) co-imperador, dando-lhe o título de Augusto, consagrando, assim, a posição do filho como seu sucessor natural.

Como não é de surpreender, a elevação de Cômodo afetou diretamente as expectativas que Lucilla poderia acalentar quanto às chances de seu marido, Pompeianus, vir a suceder Marco Aurélio, e, consequentemente, ela voltar a ser, novamente, imperatriz. E quaisquer anseios dela neste sentido restaram ainda mais enfraquecidos quando, em 178 D.C, seu irmão Cômodo casou-se com a rica aristocrata Bruttia Crispina, que imediatamente recebeu o título de Augusta, tornando-se a única imperatriz romana, tendo em vista que Faustina, a Jovem morreu em 175 D.C.

A verdade é que o retrato de Lucilla, pintado nas fontes antigas, mostra que, do mesmo modo que o seu irmão Cômodo, ela era uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos.

Assim, após a morte de Marco Aurélio e assunção de Cômodo ao trono, constatando a inaptidão do irmão para governar, a ambição, o ciúme e o orgulho ferido de Lucilla causados pela sua posição inferior à da nova imperatriz Bruttia Crispina, impeliram-na a participar ativamente de uma conspiração que, em 182 D.C, tentou assassinar Cômodo.

Essa conspiração, de acordo com o relato de Herodiano, envolveu diretamente familiares e pessoas próximas à Lucilla, como a sua filha Plautia, e também vários senadores, e o seu objetivo final era assassinar Cômodo e substituí-lo no trono por Tiberius Claudius Pompeianus, o marido de Lucilla, que com isso voltaria à almejada posição de Imperatriz. Ainda segundo Herodiano, Lucilla instigou seu primo, Marcus Ummidius Quadratus Annianus, de quem ela seria amante, a dar andamento ao plano. Este, por sua vez, persuadiu um certo Quintianus, um jovem senador que seria sobrinho, ou mesmo filho do primeiro casamento de Pompeianus, a ser o executor da trama. O local escolhido foi o Coliseu.

Porém, a execução do plano foi mal feita, os guardas pretorianos prenderam Quintianus.

Com o fracasso do atentado, Quintianus e Quadratus foram imediatamente executados, e Lucilla e sua filha foram banidas para a ilha de Capri. Entretanto, antes que o ano de 182 acabasse, Cômodo resolveu mandar executar a irmã e enviou um centurião até a ilha, o qual deu cabo da tarefa e jogou o corpo de Lucilla no mar. Plautia foi poupada, assim como Pompeianus, que, tudo indica, não sabia do plano.

Desse modo, já fazia mais de 25 anos que Lucilla estava morta no ano em que o enredo de Gladiador 2 começa.

Pelo que se depreende das fontes, Lucius Verus, o filho que Lucilla teve com seu primeiro marido, cujo nome era o mesmo do filho, morreu ainda criança, embora não se saiba quando nem como (a causa mais provável seria a Peste que grassava em Roma). Ele foi a terceira criança a nascer do casamento entre os dois, sendo que a primeira, Aurelia Lucilla, nasceu em 165 D.C., sendo seguida por Plautia. Então ele deve ter nascido entre 167 e 169 D.C., ano em que seu pai morreu. Ele não deve ter chegado a idade de vestir a toga virilis, fato que marcava a chegada da idade adulta para os meninos, o que ocorria entre 14 e 15 anos, pois certamente isto teria constado nas fontes, inscrições ou algum objeto comemorativo.

Como já vimos, Lucilla teve um filho com Tiberius Claudius Pompeianus, que deve ter nascido a partir de 170 D.C, uma vez que o casamento ocorreu em 169 D.C, quando Lúcio Vero estava na Síria, e os recém-casados se encontraram em Éfeso. O menino recebeu o nome de Lucius Aurelius Commodus Pompeianus, e o mais provável é que ele tenha nascido entre 170 D.C e 177 D.C., sendo 176 D.C uma data estimada por alguns historiadores.

Ao contrário do primeiro filho de Lucilla com Lúcio Vero, seu meio-irmão, fruto do casamento dela com Tiberius Claudius Pompeianus, de nome Lucius Aurelius Commodus Pompeianus chegou a ter uma carreira pública de sucesso. Sabe-se que, durante o reinado de Septímio Severo, ele serviu como Tribuno Militar na Legião I Minervia. Provavelmente, a este imperador, que pretendia se legitimar como sucessor dos Antoninos, chegando até a auto-proclamar a sua “adoção retroativa” por Marco Aurélio, interessava demonstrar respeito pelo neto dele, como era o caso de Lucius Aurelius Commodus Pompeianus. Por isso, em 209 D.C., quando ele tinha entre 32 e 39 anos, Septímio Severo fez com que o filho de Lucilla fosse nomeado Cônsul.

Contudo, com a subida do irascível e sanguinário Caracala ao trono, a sorte de Lucius Aurelius Commodus Pompeianus estava selada: Logo após o assassinato de Geta, em 212 D.C, Lucius Aurelius, juntamente com muitos outras pessoas que tinham parentesco ou estiveram associadas aos reinados do pai dele e dos Antoninos foram assassinadas.

4- O COLISEU NO FILME

A construção do Coliseu começou em 72 D.C, no início do reinado do imperador Vespasiano (Tito Flávio Vespasiano), ficando pronto em 80 D.C, no reinado de seu filho, Tito. Acredita-se o seu nome oficial era Anfiteatro Flavio, embora isto não conste de nenhuma inscrição ou texto antigo.

O apelido “Coliseu”, do latim Colosseum (em latim: “Do Colosso”), ao contrário do que muitos podem pensar, não decorre do tamanho do anfiteatro, e sim de uma enorme estátua do imperador Nero, de mais de 30 metros de altura (ou seja, quase do tamanho do Cristo Redentor) ao lado da qual ele foi construído, e que era conhecida como “Colossus“. Assim, é bem provável que a plebe romana tenha começado a dizer que ia assistir as lutas no “anfiteatro do Colosso”, e o nome pegou.

A capacidade do Coliseu, quando estava intacto, é estimada entre 55 mil e 70 mil espectadores, alguns falando em 80 mil lugares. As 80 entradas em arco (sendo quatro maiores: uma exclusiva para o imperador e outras três para senadores e outros figurões), as escadarias e os setores eram numerados, assim como em um estádio moderno. O acesso e a saída das arquibancadas se dava, como nos estádios modernos, por túneis e aberturas chamados de vomitórios (vomitoria), e estudos mostram que o Anfiteatro poderia ser esvaziado em poucos minutos, graças ao primoroso projeto arquitetônico. Finalmente, havia um elaborado sistema de cobertura retrátil para proteger os espectadores do inclemente sol italiano, o velarium, tão complexo e de fato semelhante aos cabos e velas de um navio, que tinha que ser manejado pelos marinheiros da Frota Imperial de Misenum. Inicialmente, quando foi inaugurado, o Coliseu podia ser inundado, graças a um canal subterrâneo que trazia água de um aqueduto (sendo que um trecho deste canal ainda existe). A finalidade era encenar batalhas navais com galeras tripuladas por gladiadores e remadores, o que de fato chegou a acontecer. Neste caso, o Coliseu funcionava como uma “Naumaquia“, como eram chamados os espaços construídos para essas exibições.

Entretanto, durante o reinado do imperador Domiciano (81- 96 D.C), decidiu-se construir, embaixo da arena, um imenso labirinto de corredores e de celas para feras, e onde também havia guindastes para içamento de jaulas, criando-se um espaço subterrâneo que foi chamado de “Hipogeu” (palavra grega que tem exatamente o significado de “subterrâneo”). Com isso, o Coliseu não pôde mais ser inundado, perdendo a sua breve funcionalidade como Naumaquia. Ao que se sabe, peixes e outros animais aquáticos jamais foram exibidos neste período.

Segundo o historiador Cássio Dião, nos jogos inaugurais do Coliseu, em 80 D.C, foram mortos 9 mil animais e um número desconhecido de gladiadores. Além dos combates entre gladiadores e execuções de condenados (que podiam ser obrigados a lutar entre si até a morte ou executados de outras formas), no Coliseu eram apresentados espetáculos de caçadas (venationes) e lutas entre animas dos mais diversos tipos: elefantes, leões, tigres, ursos, javalis, e, sim, rinocerontes. Condenados à morte também podiam ser jogados a essas feras como forma de execução.

CONCLUSÃO

Comentamos, assim, os principais aspectos do filme Gladiador 2, a nosso ver, embora um bom filme, bem inferior ao primeiro. Evitamos, como já dissemos no início, falar sobre muitas cenas para não cometermos “spoiler”, já que se trata de um filme ainda em cartaz. Com o passar do tempo, iremos aprimorar este artigo. Espero que tenham “ficado entretidos”.

FIM

IO, SATURNALIA!

A Saturnália era um festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, que ocorria em 17 de dezembro no Calendário juliano. Mais tarde, as festividades foram estendidas até 23 de dezembro.

Saturno na mitologia romana foi o deus responsável por ensinar a agricultura aos homens, inaugurando uma “Era de Ouro”, de abundância e igualdade, por isso a divindade é habitualmente representada com uma foice na mão. Vale observar, inclusive, que o nome “Saturno” está ligado a raiz da palavra “semear”, em latim.

Afresco do deus Saturno, proveniente da Casa dos Dioscuros, em Pompéia. Carole Raddato from FRANKFURT, Germany, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Era a Saturnália uma das festas religiosas romanas ancestrais, ligada ao fim da sementeira de outono, quando dezembro ainda era para os Romanos o décimo e último mês do ano, antes da adoção do citado Calendário Juliano, que foi implantado pelo Ditador Júlio César e que era baseado no movimento de translação da Terra em torno do Sol durante um ano de 365 dias, dividido em 12 meses.

Com o fim da sementeira, para os agricultores romanos, terminava mais um ano de trabalho, o que era para eles, assim como até hoje é para nós, motivo para celebração e alegria.

Porém, com o passar do tempo e o progressivo distanciamento dos Romanos da Urbe das atividades agrícolas, o sentido inicial do Festival caiu no esquecimento, e a Saturnália transformou-se na prática em um animado Festival de Inverno.

O Feriado era celebrado com um sacrifício no Templo de Saturno, no Fórum Romano, seguido de um banquete público e da troca de presentes nas residências, fazendo-se festa contínua em uma atmosfera semelhante ao carnaval, onde se derrubavam as convenções sociais romanas: por exemplo, os escravos podiam ser servidos à mesa pelos seus senhores, e jogos de dados e outros tipos de jogos de azar eram permitidos em público. A Saturnália era uma das poucas datas festivas em que realmente quase ninguém trabalhava. As ruas da Cidade ficavam cheias de gente e os celebrantes cumprimentavam-se uns aos outros, dizendo: “Io, Saturnalia!”

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O Tempço de Saturno, no Fórum Romano Chabe01, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O poeta Catulo chamava a Saturnália de “o melhor dos dias“.(Da Wikipedia).

Muitos estudiosos acreditam que a Saturnália está na origem do costume das pessoas darem-se presentes no Natal e ela teria, até mesmo, influenciado a própria existência desta festividade cristã em si.

Fontes:

  1. Gods and Myths of the Romans, Mary Barnett, Grange Books, 1999
  2. Roma, Biblioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais, Stewart Perowne, Verbo, 1987
  3. Saturnalia, verbete Wikipedia, inglês