ANTÊMIO

Em 11 de julho de 472 D.C, o imperador romano do Ocidente, Antêmio, após tentar se refugiar na antiga Basílica de São Pedro, na colina do Vaticano, em Roma, foi capturado e decapitado por Gundobado, o Burgúndio, sobrinho do general bárbaro a serviço de Roma, Ricimero.

Moeda (solidus) de Antêmio, imperador. Foto Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

ANTECEDENTES E CARREIRA DE ANTÊMIO

Procópio Antêmio era filho de Procópio (Vamos chamá-lo aqui de Procópio Pai), um general que ocupou o posto de Marechal do Império Romano do Oriente para as províncias orientais (Magister Militum per Orientem). Procópio Pai, por sua vez, era descendente de outro Procópio (ao qual chamaremos aqui de Procópio, o Velho), que era primo do imperador romano Juliano (cognominado “o Apóstata“, pelos historiadores cristãos), e, após a morte deste na fracassada expedição contra o Império Persa, em 363 D.C (da qual Procópio, o Velho participou e, por motivos até hoje ignorados, não conseguiu unir a sua coluna à expedição comandada pelo imperador). Após a morte súbita de Joviano, o sucessor de Juliano, e a ascensão de Valentiniano I e do irmão dele, Valente, respectivamente, ao trono da Parte Ocidental e Oriental do Império Romano, este Procópio, o Velho se autoproclamou Imperador, tornando-se, assim, um usurpador, mas foi derrotado, capturado e executado, em 366 D.C. Portanto, considerando que Juliano era sobrinho do Constantino, o Grande, pode-se considerar que Antêmio era um dos últimos integrantes, ainda que distante, da prestigiosa dinastia constantiniana.

Por parte de mãe, Antêmio era neto de outro famoso Antêmio (vamos chamá-lo aqui de Antêmio, o Velho), o Prefeito Pretoriano do Oriente (404 a 415 D.C) que, após a morte do Imperador Romano do Oriente, Arcádio, em 408 D.C, na prática foi o regente e virtual governante de metade oriental do Império Romano durante a infância do sucessor deste, Teodósio II. Neste papel, Antêmio, o Velho foi o responsável pela construção das inexpugnáveis Muralhas Teodosianas, que protegeriam a capital por mais de um milênio. A família dos Antêmios estava solidamente estabelecida no seio da aristocracia romana oriental, pois Flavius Philippus, o avô de Antêmio, o Velho, também havia sido Prefeito Pretoriano do Oriente, em 346 D.C, e Cônsul, em 348 D.C., durante o reinado do imperador Constâncio II.

Muralhas Teodosianas, erguidas por Antêmio, o Velho, em Constantinopla. Foto A.Savin, FAL, via Wikimedia Commons

Não se sabe o ano exato que Antêmio nasceu, mas deve ter sido durante o início da década de 420 D.C, época em que seu pai ocupou cargos importantes e se casou com sua mãe, que era filha do poderoso Antêmio, o Velho.

Com tamanho “pedigree“, não espanta que Antêmio tenha recebido uma excelente formação, seguindo a tradição dos jovens da aristocracia romana: ele foi enviado para estudar em Alexandria na famosa escola do filósofo neoplatônico Proclo, que também era retórico, astrônomo e matemático.

Em 453 D.C, Antêmio casou-se com Eufêmia, filha única do imperador romano do Oriente, Marciano. O imperador nomeou Antêmio Comes rei militaris, ou seja, Comandante dos Comitatenses, um dos postos militares mais importantes do Império, abaixo apenas do Magister Peditum e do Magister Equitum (Marechal da Infantaria e Marechal da Cavalaria) e enviou-o para a fronteira do rio Danúbio, com a tarefa de reconstruir as fortificações. No ano seguinte, Antêmio foi chamado de volta a Constantinopla, onde recebeu o título de Patrício e, em seguida, foi nomeado Magister Utriusque Militari (Comandante-em-Chefe da Infantaria e da Cavalaria). Para completar, em 455 D.C, ele foi escolhido para ser Cônsul, tendo o imperador romano do Ocidente, Valentiniano III, como colega, situações que deixavam claro que Antêmio estava sendo escolhido por Marciano como seu sucessor. Na verdade, parece que Marciano chegou a considerar nomear Antêmio como novo imperador romano do Ocidente, após o imperador Avito ser deposto, em outubro de 456 D.C, pelo general de origem suevo-visigótica Flávio Ricimero, o homem-forte do governo ocidental, e, posteriormente, morto, não se sabe ao certo se assassinado ou de causas naturais.

Moeda (solidus) de Marciano. Foto Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Entretanto, em 27 de janeiro de 457 D.C, o imperador Marciano morreu, de gangrena (ele tinha uma inflamação na perna que o impedia de caminhar direito, sem que ele tivesse expressamente escolhido o seu herdeiro.

Embora Antêmio fosse um candidato natural à sucessão, naquele momento, quem controlava o exército do Império Romano do Oriente era o marechal Flavius Ardaburius Aspar (Áspar), que vinha sendo o homem-forte da metade oriental do Império desde antes de 430 D.C, e que já tinha colocado Marciano, que havia sido seu subordinado no Exército Romano por 15 anos, no trono, em 450 D.C. Sendo de origem bárbara, mais propriamente, alano-gótica, Áspar não poderia assumir o trono ele mesmo, então ele precisava nomear algum romano legítimo que ele pudesse controlar.

Detalhe de um prato em relevo mostrando Áspar e seu filho Ardaburio, como Cônsul,. Foto I, Sailko, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

E o escolhido de Áspar foi Leo Marcellus (Leão), um militar que ascendeu até o posto de Tribuno dos Mattiari (um regimento do Exército Romano cujos soldados eram especializados no uso da “mattea”, ou seja, maça), cargo em que ele ficava diretamente subordinado à Áspar. Assim, em 07 de fevereiro de 457 D.C.. em Constantinopla, Leão I foi coroado Imperador Romano do Oriente.

Todavia, Leão não se mostraria tão dócil e subserviente como Áspar planejou que ele seria. Astucioso e determinado, o novo imperador, ao longo dos anos, começou a recrutar soldados de origem isáuria (um povo semi-romanizado que vivia na Anatólia, no interior da atual Turquia) e com eles formou uma guarda imperial, chamada de Excubitores (literalmente, “os que dormem do lado de fora do leito imperial”).

No ano de 460 D.C, Antêmio, que mantivera o posto de Magister Militum, derrotou uma incursão dos Ostrogodos liderados pelo rei Valamir, na Ilíria. E, entre o final deste ano e o ano seguinte, ele derrotou uma incursão de Hunos, que haviam tomado a cidade de Serdica (atual Sofia, capital da Bulgária), após sitiá-la. Nenhuma dessas vitórias chegou a ser definitiva, pois sabe-se que Leão concordou em pagar 300 libras de ouro aos Ostrogodos pela paz.

A SITUAÇÃO NO IMPÉRIO ROMANO DO OCIDENTE

Enquanto isso, o trono do Império Romano do Ocidente continuava vago, após a deposição e posterior morte de Avito, que, acredita-se, tenha ocorrido entre o final de 456 D.C e o início de 457 D.C.

Os responsáveis pela queda e morte de Avito tinham sido os generais Ricimero e Júlio Valério Majoriano. Este último era uma figura rara naqueles conturbados tempos: um aristocrata romano que tinha seguido uma sólida carreira militar, derrotando contingentes bárbaros germânicos em algumas oportunidades. Majoriano entrou para o Exército Romano servindo sob as ordens do Marechal Aécio, que habilmente tinha comandado a estratégia militar do Império Romano do Ocidente durante 20 anos (entre 433 e 454 D.C), fazendo o possível para restaurar o poder imperial, e que, por isso, receberia a alcunha de “O Último dos Romanos”. Por sua vez, Ricimero era um general de origem germânica, de ascendência sueva e visigótica.

Entendo ser necessário agora, então, fazer uma breve digressão sobre os eventos que antecederam a supracitada vacância do trono ocidental.

Após o assassinato de Aécio, morto pelo imperador Valentiniano III em pessoa, em 454 D.C, e o assassinato deste último, vingado por dois auxiliares de Aécio, no ano seguinte, Majoriano, contando com o apoio de Ricimero, chegou a ser cogitado para suceder o imperador, mas o escolhido, com o apoio da aristocracia senatorial da Itália, foi o senador Petrônio Máximo, envolvido na trama que resultara na morte do grande comandante e também na do citado imperador. Após ser aclamado, Petrônio Máximo nomeou Majoriano para ser Comes Domesticorum (Comandante da Guarda Imperial).

O reinado de Petrônio Máximo seria breve, uma vez que a aristocracia e o populacho da cidade de Roma, indignados com a invasão dos Vândalos, que controlavam o Norte da África, liderados pelo rei Geiserico, e o cerco à cidade de Roma, que logo cairia e seria saqueada, apedrejou e linchou o imperador, em 31 de maio de 455 D.C .

Então, Ricimero, Majoriano e a aristocracia senatorial italiana não viram alternativa senão apoiar a escolha de Avito, um senador galo-romano que tinha laços estreitos com os Visigodos, naquele momento uma das poucas forças capazes de confrontar os Vândalos e outros adversários que ameaçavam o Império do Ocidente.

Entretanto, Avito, adotando uma linha que, de certo modo, era estrategicamente mais racional, mostrou-se mais preocupado em defender a sua nativa Gália de novas invasões bárbaras, mas ele dependia excessivamente das tropas visigóticas. Ele também nomeou muitos de seus conterrâneos galo-romanos para cargos importantes. A elite senatorial e o populacho de Roma ressentiram-se dessa política que entenderam como detrimental da Itália. Enquanto isso, Ricimero obteve duas vitórias navais contra os Vândalos na Sícília e na Córsega. Então, com o apoio dos senadores e da plebe romana, Ricimero e Majoriano iniciaram a rebelião que resultou na queda de Avito.

Moeda (solidus) de Avito. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Apesar do trono ocidental igualmente, nessa oportunidade, ter ficado vago, já que inexistia um imperador reconhecido pelo Senado do Ocidente ou pelo Imperador do Oriente, Ricimero recebeu, ou melhor dizendo, se conferiu o posto de Magister Militum e o título de Patrício, que naquele tempo significava algo como grão-vizir ou shogun significariam no Império Otomano ou no Japão Feudal. Por sua vez, Majoriano também foi alçado a Magister Militum.

Por volta de abril de 457 D.C, um bando de cerca de 900 bárbaros alamanos invadiu a Itália e foi derrotado pelo Conde Burco, seguindo ordens de Majoriano. Em outros tempos, esta seria não mais que um confronto insignificante, indigno sequer de menção nas fontes, mas, na situação em que o Império do Ocidente se encontrava, foi considerado uma grande vitória, e Majoriano foi aclamado imperador pelas tropas. O acontecimento foi celebrado pelo poeta Sidônio Apolinário.

Somente em 28 de dezembro de 457 D.C, Majoriano foi formalmente declarado imperador pelo Senado Romano. Provavelmente, a demora deveu-se ao fato dos senadores estarem esperando um reconhecimento formal por parte do Imperador Romano do Oriente, como de costume. Contudo, Leão, tudo indica, ao menos inicialmente, não reconheceu Majoriano, o que é reforçado pelo fato dele ter assumido o consulado do ano seguinte sozinho, sem um colega ocidental, de acordo com as fontes orientais contemporâneas.

Moeda (solidus) de Majoriano. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

Majoriano seria o último imperador ocidental realmente capaz e também o último imperador ocidental a comandar exércitos no campo de batalha. Ele conseguiu, ainda que com o auxílio vital de tropas bárbaras, restaurar o controle imperial sobre o sul da Gália e boa parte da Hispânia (e também a Sicília), reduzindo os Visigodos, Burgúndios e Suevos, que já se intitulavam como reinos, ao status de Foederati (Federados, segundo a lei romana do período tardio, eram povos que recebiam por tratado a autorização de residir no interior do Império, mantendo seus chefes como rei-clientes e como súditos do Imperador, ficando obrigados a fornecerem soldados para o Exército).

Mapa do Império do Ocidente no reinado de Majoriano. Foto Wojwoj, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Infelizmente, em 460 D.C, Majoriano sofreria um grande revés: Ele reunira uma grande frota em Cartagena para invadir o reino dos Vândalos no Norte da África, mas o astucioso rei Geiserico conseguiu destruir os navios. Se o plano tivesse dado certo, ele poderia ter representado a salvação do Império do Ocidente. Entretanto, Majoriano tinha investido recursos e reunido um exército basicamente formado por bárbaros, os quais, sem ter mais dinheiro para pagar, foi obrigado a desmobilizar. O único contingente militar significativo restante estava sob as ordens de Ricimero. Então, quando Majoriano, desmoralizado pelo revés em Cartagena, retornava para a Itália, escoltado apenas por uma pequena guarda imperial, ele foi interceptado na altura de Tortona, capturado e, após cinco dias de torturas, executado por Ricimero, em 07 de agosto de 461 D.C.

Sem mais ninguém para lhe fazer sombra, Ricimero esperou três meses até indicar o novo imperador ao submisso Senado Romano, o obscuro senador Líbio Severo, que, no entanto, não foi reconhecido por Leão. Após reinar quatro anos como imperador-fantoche, Líbio Severo foi descartado por Ricimero, que precisava do apoio de Leão para poder manter o que restava do Império do Ocidente. Não se sabe realmente se Ricimero mandou matar Líbio Severo, mas este morreu em 14 de novembro de 465 D.C.

Então, o trono ocidental ficou novamente ficou vago por um ano e meio, sendo o Império do Ocidente governado, de fato, por Ricimero.

Contudo, apesar de Ricimero ter sido a eminência parda do Império do Ocidente desde 456 D.C., e o responsável pelas nomeações dos imperadores Majoriano, Líbio Severo e, posteriormente, Olíbrio, ele mesmo, na prática, não poderia atrever-se a assumir o trono, uma vez que Ricimer era filho de Rechila, o rei dos Suevos, na Galícia e norte do atual Portugal e neto, por parte de mãe, de Wallia, rei dos Visigodos.

Selo de Ricimero. Foto See page for author, Public domain, via Wikimedia Commons

ANTÊMIO, IMPERADOR DO OCIDENTE

Ricimero, então, recorreu a Leão para que o imperador romano do Oriente, legalmente, indicasse o novo imperador romano do Ocidente. Leão escolheu Antêmio.

O fato é que Ricimero precisava do apoio de Constantinopla para contrabalançar a influência de Geiserico, rei dos Vândalos, que estava tentando compelir o Senado Romano a escolher Olíbrio, um senador da influente família dos Anícios, casado com Placídia, filha de Valentiniano III, que, junto com sua mãe, a imperatriz Licínia Eudoxia, e sua irmã, Eudocia, foram levadas para Cartago pelos Vândalos, após o Saque de Roma, em 455 D.C.

Como retribuição à sua aceitação de Antêmio, e também como uma provável compensação por abrir mão de colocar um outro fantoche seu no trono ocidental, Ricimero recebeu a mão de Alypia, a filha de Antêmio, em casamento.

Mas é provável também que Leão tenha tido mais um motivo para escolher Antêmio. Com efeito, este era um experiente homem público de origem tão ilustre que ele chegou até ser considerado um candidato potencial ao trono. Leão, assim, astutamente, ao tê-lo enviado para a Itália, com um exército, para fazer valer os interesses de Constantinopla no Ocidente, estava livrando-se, ao mesmo tempo, de um provável rival e pretendente ao seu próprio trono.

Desse modo, Antêmio foi proclamado Imperador em 12 de abril de 467 D.C.

Agora, pela primeira vez em várias décadas, havia a chance real de que os imperadores romanos do Ocidente e do Oriente cooperassem efetivamente para enfrentar a ameaça bárbara.

Solidus de Antêmio, imperador do Ocidente. No verso, ele e Leão dão as mãos, sinalizando a união dos Impérios Ocidental e Oriental. Foto Numismatica Ars Classica NAC AG, CC BY-SA 3.0 DE https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/de/deed.en, via Wikimedia Commons

De fato, como imperador, Antêmio procurou atacar os dois maiores problemas que ameaçavam a sobrevivência do Império do Ocidente:  a) a ocupação dos Vândalos na África, governados pelo astuto e competente rei Geiserico, que fazia incursões na Itália (entre as quais o Grande Saque de Roma, em 455 D.C) e em várias outras regiões na orla do Mediterrâneo, e intervinha constantemente nos assuntos do governo e, b) a expansão dos Visigodos na Gália.

Para isso, Antêmio contava com o apoio de Leão I, que também estava comprometido com uma estratégia de enfraquecimento do poder dos bárbaros e, como visto, mostrava-se preocupado com a situação do Império do Ocidente. E, sem a participação de Constantinopla, nenhum plano nesse sentido seria possível, porque os recursos materiais e humanos à disposição de Leão eram muitos superiores aos disponíveis ao imperador ocidental. Outro apoio importante seria do Conde Marcelino, um comandante militar romano que, desde a morte de seu amigo Aécio, controlava a Dalmácia e que também havia apoiado Majoriano (ele, inclusive, iria participar da fracassada campanha que este imperador havia planejado contra Geiserico e os Vândalos, em 460 D.C).

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Busto de Leão I. Foto Louvre Museum, CC BY 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by/2.5, via Wikimedia Commons

Com efeito, o fato é que, após a perda da África, em  sua maior fonte de grãos, em 435 D.C., para os Vândalos,  e de boa parte da Gália, a sua província mais rica, o Império do Ocidente praticamente não tinha recursos para pagar o seu exército composto, majoritariamente, de mercenários bárbaros e tribos germânicas servindo como foederati.

Ainda em 467 D.C, Antêmio planejou uma campanha contra o Vândalos, chegando a reunir uma frota, mas o mau tempo obrigou a frota a retornar ao porto.

Expedição à África

Todavia, os Vândalos haviam se tornado um problema também para o Império do Oriente, chegando a fazer incursões navais de saque até a Grécia, no coração dos domínios ocidentais, e prejudicando a navegação em todo o Mediterrâneo.

Leão, Antêmio e Marcelino então, planejaram uma gigantesca operação militar combinada das forças armadas orientais e ocidentais, em sua maior parte financiada pelo tesouro oriental, visando a esmagar os Vândalos para sempre:

Uma gigantesca frota de 1.113 navios zarpou de Constantinopla, transportando forças estimadas em 100 mil homens (há controvérsias sobre esse número), sob o comando de seu cunhado Basilisco, para atacar diretamente Cartago, a capital vândala. Concomitantemente, o general Heráclio deveria zarpar do Egito com direção à Tripolitana, e dali, marchar por terra contra Cartago. Enquanto isso, o Conde Marcellinus atacaria a Sicília e, após derrotar os invasores Vândalos lá instalados, rumaria também para Cartago.

A operação até começou bem, pois Heráclio conseguiu desembarcar em Tripolitana e Marcellinus dominou os Vândalos na Sicília. Porém, o grande erro de Leão foi ter escolhido o seu incompetente cunhado Basilisco, irmão da Imperatriz Verina, como comandante da principal ponta do ataque.

Efetivamente, Basilisco após conseguir dispersar a frota vândala na Sicília, facilmente fundeou na Baía de Cartago, mas, ao invés de imediatamente atacar Geiserico, inexplicavelmente, ele aceitou um pedido de trégua de 5 dias pedido pelo rei bárbaro. Ocorre que Geiserico aproveitou o refresco para construir novos barcos e balsas incendiárias. Como, normalmente, a sorte não ajuda a incompetência, no final da trégua, fortes ventos impulsionaram as balsas vândalas em chamas contra a frota romana e metade dela foi incendiada, na chamada Batalha do Cabo Bon. Assim,Basilisco teve que fugir com os remanescentes para a Sicília, visando se juntar a Marcelino. Este porém, logo em seguida foi assassinado na Ilha, suspeita-se, a mando de Ricimer. Já o general Heráclio, quando soube da derrota romana em Cartago, resolveu recuar de volta para o Egito.

Mapa de Cartago, mostrando o Cabo Bon. Foto Eric Gaba (Sting), CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Assim, este foi o final desastroso da campanha que poderia ter salvo o Império do Ocidente. Ela tinha sido, na verdade, uma retomada, mais ambiciosa, dos planos de Majoriano, o que mostra como os imperadores mais comprometidos com os reais interesses romanos tinham a consciência de que a reconquista da África era vital para a existência de um império ocidental viável.

Antêmio, então, teve que dirigir sua atenção aos Visigodos, que, sob a liderança do rei Eurico, tinham aproveitado o enfraquecimento militar verificado após a morte de Majoriano para se expandir pela Gália. Os provinciais galo-romanos inclusive enviaram uma embaixada ao imperador, em Roma, liderada por Sidônio Apolinário, solicitando proteção. Carente de tropas, após o desastre da expedição africana, Antêmio recrutou, em 470 D.C, um contingente de doze mil Bretões, liderados pelo rei Riothamus, para atacar Eurico, os quais chegaram a ocupar a cidade de Bourges.

Nota: especula-se que esses bretões poderiam ser remanescentes de tropas “fronteiriças” – ou limitanei- romano-britânicas, que no final do Império tinham sido rebaixadas à condição de uma quase-milícia. E que Riothamus, cujo nome na verdade seria um título, poderia ser na verdade um certo Ambrosius Aurelianus, uma liderança romano-britânica que resistiu aos invasores saxões da Grã-Bretanha, que por sua vez seria tio e antecessor do rei Arthur nas lendas e crônicas medievais britânicas.

Entretanto, os Visigodos conseguiram repelir os homens de Riothamus, obrigando Antêmio a enviar, como último recurso, uma tropa chefiada pelos generais Thorisarius e Everdingus, provavelmente chefes bárbaros a serviço do Império e pelo Conde dos Estábulos Hermianus, que foi derrotada por Eurico, por volta de 471 D.C, em uma batalha nas vizinhanças de Arles, inclusive matando o filho do imperador, Anthemiolus, que era o comandante formal da expedição.

Esses insucessos tornaram Antêmio muito mais dependente de seu general Ricimer, que, ostensivamente, já se mexia para colocar um novo fantoche no trono ocidental. Para piorar a situação, Leão, em uma Constantinopla, praticamente falida pelos custos astronômicos da expedição contra os Vândalos, naquele momento era incapaz de fornecer qualquer auxílio (segundo o historiador J.B. Bury, o impacto financeiro da expedição foi tão grande que o tesouro oriental levou mais de trinta anos para se recuperar – “History of the Later Roman Empire, vol, 1, p. 337).

O fim de Antêmio

O estopim para  o conflito aberto entre Antêmio e o seu comandante-em-chefe Ricimer foi a execução do senador Romanus, amigo próximo e aliado do general bárbaro, acusado de conspiração, o que levou Ricimero a abandonar Roma acompanhado de 6 mil  guerreiros, em direção a Milão, onde ficou instalado como se fosse um imperador de fato ou um rei independente.

O bispo de Pavia tentou intermediar uma trégua entre Antêmio e Ricimer, a qual durou um ano. Quando as hostilidades recomeçaram,  Antêmio julgou mais seguro ir se refugiar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, que, desde o reinado de Constantino I era a sede do Bispado de Roma.

Aparência da antiga Basílica de São Pedro, no mesmo local da atual, construída pelo Imperador Constantino, no Vaticano, em Roma. Desenho de Henry William Brewer (1836-1903) – https://www.ribapix.com/old-st-peters-basilica-rome-about-the-year-1450-restored-from-ancient-authorities_riba127584, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=151052485

Leão I, preocupado com a crise, resolveu mandar à Roma o senador Olíbrio, que se encontrava em Constantinopla para intermediar um novo acordo entre os adversários, além de um emissário levando uma carta para Antêmio

Segundo uma das fontes, porém, a verdadeira intenção de Leão I era se livrar de Olíbrio, já que este era suspeito de ser aliado de Geiserico, o rei dos Vândalos, que por duas vezes, já tinha patrocinado a candidatura dele ao trono ocidental. Leão também havia, finalmente, conseguido, com a ajuda dos Excubitores e seu comandante isáurio, Tarasis Kodisa (o futuro imperador Zenão I), livrar-se de seu Magister Militum, o general bárbaro Áspar.

Contudo, os soldados de Ricimero controlavam o Porto de Roma e a carta do imperador foi interceptada. Ao ser aberta a carta, uma surpresa: Nela, Leão I dava instruções a Antêmio para executar Olíbrio assim que este chegasse à Roma, além de informar ao colega ocidental que ele havia conseguido dar cabo de Áspar, aconselhando Antêmio a fazer o mesmo com Ricimero. Não de surpreender, diante dessas circunstâncias, que o estratagema de Leão acabasse tendo efeito contrário: Em abril de 472 D.C. (data provável), Ricimer proclamou Olíbrio como novo imperador do Ocidente.

Porém, os nobres e a população de Roma ficaram do lado de Antêmio.

Seguiram-se cinco meses de combates urbanos nas ruas de Roma, com Antêmio e seus partidários entrincheirados no Palatino. Porém, quando Ricimer conseguiu  cortar a rota entre o Palácio e o Porto fluvial do Tibre, interrompendo o abastecimento de víveres, Antêmio foi obrigado a ir se refugiar novamente na Basílica de São Pedro (outra fonte menciona a Igreja de Santa Maria in Trastevere). Vale citar que, entre as tropas comandadas por Ricimero, estava Odoacro, chefe da tribo dos Scirii, que poucos anos mais tarde entraria para a História como o homem que destronaria o último imperador romano do Ocidente.

Em uma última tentativa desesperada, durante o conflito, Antêmio enviou um pedido de ajuda às tropas da Gália, também compostas de mercenários germânicos, sendo que Ricimero havia feito, concomitantemente, idêntica solicitação.

Ocorre que o primeiro a atender o pedido foi Gundobado, o sobrinho de Ricimero, cognominado “O Burgúndio”, que ocupava o cargo de Magister Militum per Gallias, que veio em apoio do tio. Efetivamente, o substituto de Gundobado, Bilimer, também veio em socorro de Antêmio, mas ele foi derrotado e morto nas proximidades de Roma.

Então, em 11 de julho de 472 D.C., com seus últimos soldados desertando e sem esperança de reforços, Antêmio tentou fugir disfarçado de mendigo, refugiando-se na Igreja de São Crisógono, no bairro de Trastevere, em Roma, mas foi identificado e decapitado por Gundobado, que não deu a mínima para o fato do imperador estar refugiado em uma igreja, teoricamente um santuário que deveria ser respeitado pelo bárbaro supostamente cristão.

Igreja de São Crisógono, em Roma, onde Antêmio foi decapitado, coincidentemente, a mesma forma pela qual o santo foi martirizado. Foto Por LPLT – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=7586506

EPÍLOGO

Pouco mais de um mês depois da morte de Antêmio, o general Ricimero também morreria, aparentemente de causas naturais, após vomitar sangue. Durante mais de quinze anos ele tinha sido o homem mais poderoso do Ocidente, tendo seu poder apenas diminuído um pouco durante o reinado de imperadores capazes como Majoriano e Antêmio, notadamente mais sob o primeiro. Historiadores debatem se ele foi um general bárbaro leal ao Império ou, se ao contrário, apenas buscava o poder para o seu benefício imediato, ao arrepio dos interesses imperiais, e, consciente ou inconscientemente, agia a favor dos seus conterrâneos germânicos. O fato é que muitas ações de Ricimero foram apoiadas, senão estimuladas, pela aristocracia senatorial italiana. Por outro lado, o comportamento dele durante a expedição de Basilisco contra os Vândalos foi indubitavelmente nocivo ao Império.

Olíbrio ocuparia o trono ocidental apenas por alguns meses, morrendo de edema em 02 de novembro de 472 D.C., sendo sucedido por mais um imperador-fantoche, Glicério, agora alçado ao trono por Gundobado, em março de 473 D.C, que não foi reconhecido por Leão.

Sem o apoio oriental, que, diga-se de passagem, naquele momento, somente poderia se dar de maneira muito limitada, não havia muito o que qualquer imperador pudesse fazer no Ocidente: a Gália e a Hispânia encontravam-se tomadas por povos germânicos e a Ilíria era governada por um subordinado leal ao Império do Oriente.

Na prática, o Imperador do Ocidente controlava apenas a Itália, que era defendida por tropas bárbaras leais aos seus chefes, que apenas nominalmente tinham títulos de comandantes do exército romano. Para se ter uma ideia do quadro de anarquia e desagregação que grassava, durante o igualmente curto reinado de Glicério, quando recebeu a notícia da morte do pai, Gundobado preferiu deixar a Itália e partir para a Borgonha, para garantir o seu direito à sucessão do reino burgúndio. Assim, o Império Romano do Ocidente agonizava.

CLEÓPATRA – RAINHA DOS REIS

Kleopatra VII Thea Philopator (Cleópatra) nasceu no início do ano de 69 A.C., em Alexandria, a capital do Egito. Ela era filha do faraó Ptolomeu XII Auletes e, provavelmente, não se tem uma certeza exata, da rainha Cleópatra V Triphaena. Kleopatra quer dizer, em grego: “A glória do pai“, e  “Thea Philopator ” significa: “Deusa que ama o pai“.

A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados. Apenas escutar o som da voz dela já era um prazer, e a sua língua, como se fosse um instrumento de muitas cordas, podia passar de um idioma para outro, conforme ela desejasse, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete, respondendo-lhes pessoalmente e sem auxílio.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,2

Genealogia, infância e juventude de Cleópatra VII

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Busto de Cleopatra VII – Altes Museum – Berlin – Germany 2017.jpg

Cleópatra e sua família eram descendentes diretos do nobre macedônio Ptolomeu,  um general que foi um dos auxiliares mais próximos do rei da Macedônia, Alexandre, o Grande.

(Busto de Ptolomeu I Soter, foto de Marie-Lan Nguyen )

Quando Alexandre morreu, em 323 A.C, os generais mais próximos de Alexandre estabeleceram-se, inicialmente, como “sátrapas” (governadores) das terras que tinham sido anexadas pelo rei macedônio, e a Ptolomeu coube governar o Egito. Em 305 A.C., Ptolomeu, da mesma forma que os outros sátrapas, após uma série de conflitos entre os sátrapas e diversos pretendentes à sucessão de Alexandre, denominada de Guerra dos Diádocos, autoproclamou-se rei do Egito, com o nome de Ptolomeu I Soter.

Mapa dos territórios controlados pelos sucessores de Alexandre, foto Fabienkhan, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

No Egito, os sucessores e descendentes de Ptolomeu rapidamente assumiram os títulos e ornamentos milenares dos faraós, e, para se legitimarem perante os súditos nativos, adotaram também muitos dos costumes da realeza nativa, entre os quais estavam os casamentos endogâmicos, entre irmão e irmã, que tinham o objetivo de preservar o caráter divino da linhagem sanguínea dos faraós.

Ptolomeu XII Auletes, pai de Cleópatra, retratado em um relevo no templo de Kom Ombo, foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

Por outro lado, culturalmente e em suas relações com o mundo mediterrâneo, a corte ptolomaica reconhecia a si mesma e comportava-se como os outros reinos helenísticos surgidos a partir do falecimento de Alexandre, o Grande. A língua da corte era o grego koine e em Alexandria foram erguidos templos, monumentos e palácios em estilo arquitetônico clássico. Entretanto, os ptolomaicos continuaram construindo templos e monumentos no estilo egípcio, inclusive ostentando inscrições em hieróglifos e participando do culto às divindades egípcias tradicionais.

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Farol de Alexadnria, por Stella maris, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O Egito Ptolomaico experimentou tempos prósperos e chegou mesmo a ser um reino muito poderoso; porém, quando Cleópatra nasceu, o país estava em franca decadência política, em boa parte devido a disputas sucessórias e incompetência dos governantes, tornando-se praticamente um protetorado da grande potência do mundo mediterrâneo, Roma, que vinha paulatinamente anexando todos os reinos helenísticos. Na verdade, então, o único estado digno de nota no Mediterrâneo, além da República Romana, era o Egito, que, apesar de conflagrado e desorganizado, era bastante rico, graças aos abundantes excedentes de trigo gerados produzidos pela fertilidade oriunda do ciclo das enchentes do rio Nilo e ao comércio com a Índia.

Cleópatra recebeu uma educação clássica esmerada. O seu tutor foi Philostratos, provavelmente um filósofo, com o qual aprendeu Filosofia e Oratória. De fato, desde ja infância, a jovem princesa deve ter demonstrado uma notável inteligência, pois ela aprendeu a falar nove línguas: grego, egípcio, latim, persa, etíope (amárico), aramaico, siríaco, troglodita e a língua dos Medos. Segundo nos conta o historiador antigo Plutarco:

“Era um prazer somente escutar o som da voz dela, com a qual, como se fosse um instrumento de muitas cordas, ela podia passar de uma língua para outra, de modo que havia poucas nações bárbaras para as quais ela precisava de um intérprete para responder.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27,3

O reinado do pai de Cleópatra foi marcado pelo aumento da dependência política e econômica do Egito para com Roma. Muitas dívidas foram contraídas junto aos banqueiros romanos e o Senado Romano chegou a cogitar a anexação do reino, acarretando que humilhantes concessões aos romanos tivessem que ser feitas. Obviamente, que isso desagradou à população egípcia e aos influentes sacerdotes.

Assim, em 58 A.C., as tensões políticas internas do Egito levaram a uma revolta popular que resultou no exílio de Ptolomeu XII, após a anexação da ilha de Chipre, que era domínio ptolemaico, pelos romanos. O faraó acabou indo morar na Villa do triúnviro Pompeu, na colinas albanas, próximo à cidade de Roma, levando consigo a sua filha Cleópatra, que tinha onze anos de idade (os dois filhos homens de  Ptolomeu XII: Ptolomeu XIII Theos Philopator e Ptolomeu XIV, ainda tinham somente quatro e dois anos de idade).

Contudo, o levante nacionalista, que colocou como governante do Egito a irmã mais velha de Cleópatra, Berenice IV, em conjunto com rainha Cleópatra VI Triphaena, (que não se tem certeza se era outra irmã das duas ou a esposa de Ptolomeu XII), teria vida curta. Os banqueiros romanos,  grandes credores de Ptolomeu XII, tinham todo interesse em sua restauração. Assim, Pompeu ofereceu uma grande soma em dinheiro ao governador romano da Síria, Aulus Gabinius, para ele invadir o Egito e recolocar Ptolomeu XII  no trono.

No início de 55 A.C., Gabinius invadiu o Egito e Ptolomeu XII e Cleópatra acompanharam a expedição. Entre os oficiais de Gabinius, estava o jovem Marco Antônio, que inclusive impediu um massacre de civis na cidade greco-egípcia de Pelousium. Anos mais tarde, Marco Antônio contaria que foi durante a invasão que ele conheceu, e se apaixonou, pela jovem princesa egípcia de apenas 14 anos de idade…

Em pouco tempo, apoiado pela vitoriosa expedição, Ptolomeu XII já reinava de novo sobre o Egito. Ele executou a sua filha Berenice IV e vários de seus apoiadores, apoiado por dois mil soldados e mercenários romanos, que foram apelidados de “Gabinianos“. Percebendo a aptidão de Cleópatra para governar, e provavelmente já percebendo os primeiros sinais de doença, Ptolomeu XII, em 31 de maio de 52 A.C, a nomeou Regente do Egito, como atesta uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera.

Rainha do Egito

Nos primeiros meses de 51 A.C., Ptolomeu XII morreu, nomeando como herdeiros e sucessores, em seu testamento, a sua filha Cleópatra e o seu filho Ptolomeu XIII, que deveriam reinar em conjunto. Para serem os executores deste testamento, Ptolomeu encarregou, expressamente, o  “Senado e Povo Romanos”…

Rainha aos dezoito anos de idade, Cléopatra casou-se, como impunha o costume real egípcio, com seu irmão e agora colega Ptolomeu XIII, que tinha somente doze anos. Ele foi reconhecido oficialmente como governante, mas, na prática, quem atuava como o seu regente era o eunuco Pothinus (ou Potheinos).

(Dracma de Cléopatra VII. Podemos ver  nesta moeda, que foi cunhada no reinado dela, todos os elementos convencionais da iconografia da rainha: O diadema real dos Ptolomeus, o cabelo fatiado no estilo “melão”, o coque, o nariz ligeiramente aquilino ou adunco e o queixo proeminente Foto By Hedwig Storch – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5930892

O fato é que, sendo mais velha e muito mais preparada do que o irmão, Cléopatra governava como se fosse a única soberana. A partir de agosto de 51 A.C, ela começou a cunhar moedas apenas com a sua efígie como rainha, e os documentos oficiais não mencionavam mais Ptolomeu XIII. A situação econômica, porém, continuava difícil, pois ela herdara a grande dívida que o pai contraíra junto aos romanos.

Pothinus e outros conselheiros de Ptolomeu XIII persuadiram-no a reagir contra a predominância da irmã no reino. Eles urdiram uma conspiração que foi bem sucedida e que foi ganhando o apoio de pessoas importantes, pois tudo indica que, antes do final de 50 A.C., Ptolomeu passou a controlar o governo, já que os documentos oficiais, a partir de então, ostentam o nome dele antes do nome da irmã.

Havia uma guerra surda não-declarada dentro de Alexandria entre as cortes de Ptolomeu XIII e Cleópatra quando, no verão de 49 A.C., chegou à cidade Gnaeus Pompeius, o filho de Pompeu, o Grande, que tinha sido obrigado a fugir para a Grécia após Júlio César invadir a Itália e tomar Roma, dando início à Grande Guerra Civil. Pompeu pedia ao Egito auxílio financeiro e tropas para ajudar as forças leais aos Optimates na guerra contra César e os Populares.

Cleópatra e Ptolomeu XIII concordaram e assinaram um último decreto conjunto enviando a Pompeu 60 navios de guerra e 500 soldados egípcios, além dos Gabinianos“.

Deposição e  luta pelo poder

Nesse meio tempo, os partidários de Ptolomeu conseguiram prevalecer sobre a facção que apoiava Cleópatra e ela foi obrigada a fugir do palácio, indo se refugiar em Tebas, mais ao sul, subindo o Nilo.

Agora, o Egito também estava vivendo uma guerra civil aberta. Assim, Cleópatra, acompanhada de sua meia-irmã Arsinoe IV, viajou para a Síria, e lá ela conseguiu reunir um exército para tentar recuperar Alexandria, porém, o avanço do seu exército foi barrado nas cercanias de Pelousium.

Em 9 de agosto de 48 A.C.,  Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsália, e, com o remanescente de seu exército, ele fugiu para a cidade de Tiro, no atual Líbano. Lá, Pompeu decidiu que valia a pena ele viajar até o Egito, tendo em vista as boas relações que ele sempre manteve com Ptolomeu XII, pai dos atuais governantes do país, os quais, inclusive, haviam atendido o seu pedido anterior de ajuda, e onde ele esperava obter um valioso apoio para continuar a luta contra César.

Quando o navio de Pompeu chegou próximo a Pelousium, ele foi abordado por galeras da frota egípcia, que aderira a Ptolomeu XIII. O jovem rei foi aconselhado por Pothinus a não ajudar Pompeu, e, em uma armadilha idealizada pelo seu auxiliar Theodotus, Pompeu foi atraído para desembarcar e morto no próprio bote em que ele estava sendo transportado, tendo a sua cabeça sido cortada, fato ocorrido em 29 de setembro de 48 A.C.. Este assassinato ocorreu porque Ptolomeu e Pothinus acreditavam que, assim, eles estariam agradando a César, o qual poderia seria ser simpático à causa do primeiro na disputa contra a irmã.

Porém, ao contrário do que os egípcios esperavam, César ficou consternado e enfurecido com o assassinato de Pompeu. Além da afronta que representava o assassinato de um cônsul ao prestígio romano, ele certamente pretendia utilizara captura de Pompeu politicamente, talvez perdoando-o, como era do seu costume, para angariar simpatia perante a opinião pública. Assim, César ordenou que Ptolomeu XIII e Cleópatra desmobilizassem os seus exércitos e fossem encontrá-lo em Alexandria, onde ele resolveria a disputa entre os irmãos à luz dos interesses de Roma.

Julius Caesar Aghast at Soldier Holding Pompey's Head
1820 — Theodatus, the rhetorician, shows Caesar the head of Pompey. Etching, 1820. — Image by © Bettmann/CORBIS

Todavia, Ptolomeu XIII não obedeceu a ordem de César e chegou a Alexandria à testa de seu exército, que ficou acampado nas cercanias da cidade, enquanto ele e seus auxiliares mais diretos, instalados na mesma,  aguardavam a audiência como o líder romano.  Já César ficou  instalado no palácio real, situado em uma península.

Amante de Júlio César, restauração do trono e maternidade

Para a surpresa de Ptolomeu XIII, a sua irmã/esposa e rival dele conseguiu furar o cerco que o exército dele fazia à cidade e penetrar no palácio, chegando até os aposentos de César. A ser verdadeiro o célebre relato de Plutarco, foi uma aparição espetacular: Cleópatra entrou no palácio escondida dentro de um tapete enrolado, que estava sendo levado como presente para César!

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Cleópatra ante César, óleo de Jean-Léon Gérôme, 1866, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Acho altamente provável que, já naquela noite, César tenha dormido com Cleópatra, conforme o relato de Plutarco deixa transparecer. Ela tinha entre 20 e 21 anos e era bonita, inteligente e sedutora. Ele tinha 52 e era famoso por ter casos com mulheres ilustres, incluindo algumas rainhas. E é até possível que César tenha sido o primeiro homem na vida de Cleópatra. Ela certamente não deve ter tido relações sexuais com o irmão bem mais novo.

(Busto de Tusculum, considerado o único que foi feito enquanto César era vivo, por volta dos 50 anos de idade, mostrando a aparência que ele deveria ter quando conheceu Cleópatra, Museum of antiquities, Public domain, via Wikimedia Commons)

A versão do historiador romano Cássio Dião, embora um pouco diferente nos detalhes, e sem mencionar a rocambolesca entrada em um tapete, é no mesmo sentido:

“Cleópatra, ao que parece, tinha, inicialmente, exposto a César o seu pleito contra o irmão por meio de emissários, porém, assim que ela descobriu as inclinações dele (que era muito suscetível, a tal ponto de ter tido casos com tantas outras mulheres –  indubitavelmente, com todas que por acaso tivessem passado pelo seu caminho), ela o avisou de que estava sendo traída pelos amigos dela, e pediu permissão para defender a sua causa em pessoa. Pois ela era uma mulher de beleza transcendente, e, naquela época, quando ela estava na flor da sua idade, ela estava ainda mais impactante; ela também possuía uma voz muito charmosa, e sabia como se fazer ainda mais agradável a todos. Sendo deslumbrante tanto para ser vista como para ser ouvida, e com o poder de conquistar a qualquer um, e até mesmo um homem saciado de amor que já tinha ultrapassado o auge da idade, ela achou que era o seu papel encontrar César e escorar em sua beleza todas as suas reivindicações ao trono. Ela, consequentemente, pediu para ser admitida à presença dele, e, obtendo essa permissão, ela se enfeitou e se arrumou de modo a aparecer perante ele com a aparência mais majestosa, e, ao mesmo tempo, inspiradora de pena. Quando ela aprontou esse esquema, ela entrou na cidade (pois ela estava vivendo fora dela) e, à noite, sem o conhecimento de Ptolomeu, entrou no Palácio. César, ao vê-la e ouvi-la dizer algumas palavras,  imediatamente ficou tão cativado por ela que, antes da alvorada, mandou buscar Ptolomeu e tentou reconciliá-los, agindo assim como advogado daquela mesma mulher da qual ele tinha decidido ser o juiz.”

Cássio Dião, História de Roma, Livro LII, 34, 4 – 35, 1

Furiosos com a intimidade que agora César e Cleópatra demonstravam ter, há até quem diga que ele, ao chegar no palácio para falar com César, encontrou a irmã no quarto do romano,  Ptolomeu XIII e  os seus partidários resolveram partir para o confronto direto com o futuro Ditador romano. Eles correram até a multidão, denunciando que Cleópatra iria entregar o Egito aos romanos e a turba, revoltada, cercou o palácio. Entretanto, embora César tivesse entrado em Alexandria com poucas soldados, o número era suficiente para conter a multidão e ele não se abalou: o líder romano mandou ler em público o testamento de Ptolomeu XII e afirmou que a vontade do falecido rei seria respeitada, devendo Ptolomeu XIII e Cleópatra governarem o Egito juntos.

O eunuco Potheinus não se conformou com a decisão de César e secretamente mandou uma mensagem para o general egípcio Achillas, o assassino de Pompeu e comandante militar de Ptolomeu XIII, instando-o a ordenar um ataque aos romanos em Alexandria. Ele estava confiante que César, contando com apenas quatro mil soldados, não conseguiria resistir ao exército do faraó, que era muito maior, de cerca de vinte mil homens. Mas, após o envio do recado, o ardil de Pothinus foi descoberto e ele acabou sendo executado por ordem de César. Diante da situação, o líder romano até tentou negociar um acordo com Achillas, mas este executou os emissários romanos, e, em seguida, marchou contra Alexandria, sitiando César e Cleópatra no palácio.

Arsinoe IV, a jovem e ambiciosa irmã de Cleópatra,  que tinha  entre cerca de 15 ou 20 anos de idade (não se sabe exatamente quando ela nasceu), aproveitou para fugir do palácio, auxiliada pelo eunuco Ganymedes, e se juntou a Achillas, proclamando-se rainha do Egito, já que o seu irmão Ptolomeu XIII encontrava-se sob a custódia de César. Em seguida, Arsinoe ordenou a execução de Achillas e nomeou Ganymedes no lugar dele, como comandante do exército.

Em 23 de junho de 47 A.C., Cleópatra deu a luz a seu primeiro filho, que se chamou Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar. Ela anunciou que o menino, que receberia o apelido de Caesarion (Cesárion ou Cesarião), era fruto do seu relacionamento com Júlio César, que, aliás, nunca negou publicamente a paternidade, apesar de, igualmente, jamais ter reconhecido oficialmente a criança. A cronologia do nascimento de Caesarion, estimando-se que ele tenha nascido com 9 meses, aponta para uma concepção por volta de outubro de 48 A.C., mais ou menos a data em que deve ter ocorrido o primeiro encontro entre Júlio César e Cleópatra, ou, então, somente um punhado de dias depois.

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(Cabeça que se acredita retratar Caesarion como Faraó. Os traços faciais lembram muito os das imagens de Cleópatra; Sdwelch1031, CC0, via Wikimedia Commons

Com muita dificuldade, César conseguiu resistir ao cerco até que reforços chegassem, em março de 47 A.C. O exército egípcio, agora comandado por Arsinoe IV e Ptolomeu XIII, que tinha conseguido autorização de César para sair de Alexandria, para servir de negociador, recuou para o Nilo, onde foram derrotados por César, na chamada Batalha do Nilo. O barco de Ptolomeu XIII, na fuga, virou, e ele acabou se afogando no rio, em janeiro ou fevereiro de 47 A.C., morrendo com 15 anos de idade, aproximadamente. Arsinoe foi capturada e, mais tarde, seria exibida na procissão triunfal de César pelas ruas de Roma.

Em seguida, César designou o irmão mais novo de Cleópatra, Ptolomeu XIV, que tinha doze anos de idade, para reinar ao lado dela, como faraó, e, como previa o costume, irmão e irmã se casaram. Não obstante, Cleópatra e César continuaram morando juntos, no palácio, em Alexandria. Como presente, César também devolveu ao Egito o governo da ilha de Chipre, que tinha sido tomada pelos romanos em 58 A.C.

Se a posição de Cleópatra no Egito parecia assegurada., no entanto, a de César, na República Roman, certamente estava longe disso, pois ainda havia consideráveis forças dos Optimates na África e na Espanha, onde os seus adversários estavam firmes e resolutos no prosseguimento da guerra civil. Além disso, havia assuntos políticos urgentes a decidir em Roma, já que ele havia sido, recentemente, nomeado Ditador.

Por isso mesmo, até hoje é motivo de espanto entre os analistas o fato de César, deixando de lado a sua premente situação, ter ficado até abril de 47 A.C. no Egito, ou seja, mais de dois meses. E, segundo a narrativa de Suetônio, os amantes aproveitaram esse tempo para fazer um idílico cruzeiro romântico e turístico pelo Nilo, visitando os antigos monumentos da milenar civilização egípcia na barcaça real de Cleópatra, que se chamava Thalamegos e tinha remos de prata. Este inusitado interlúdio amoroso somente foi interrompido pelo fato dos soldados romanos que acompanhavam César terem se recusado a continuar até a Etiópia:

“Ele também teve casos com rainhas, incluindo Eunoe, a Moura, esposa de Bogudes, para quem, e também ao marido, ele deu vários presentes esplêndidos, como escreve Naso; Mas, acima de todas, com Cleópatra, com quem ele frequentemente festejava até o amanhecer, e com quem ele teria ido até a Etiópia, atravessando o Egito, na barcaça real dela, se os seus soldados não tivessem se recusado a segui-lo. No final, ele chamou-a para Roma, e não deixou-a ir até que ele a cobrisse de honrarias e de ricos presentes; E ele até permitiu que ela desse o seu nome à criança que ela carregava. De fato, de acordo com certos autores gregos, essa criança parecia muito com César, fisicamente e no jeito de andar. Marco Antônio declarou ao Senado que César tinha realmente reconhecido o menino, e que Gaius Matius, Gaius Oppius, e outros amigos de César, sabiam disso”.

Suetônio, Vida de Júlio César, 52, 1-2
Barcaça de Cleópatra, de Henri Pierre Picou, 1891, foto Internet Archive Book Images, No restrictions, via Wikimedia Commons
Detalhe do famoso mosaico romano retratando cenas do rio Nilo, no Museu Nacional de Palestrina, por amelia.boban, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Em abril de 47 A.C., César foi para a Capadócia lutar contra o rei Farnaces II, que havia se aproveitado da guerra civil romana para invadir a região e tentar retomar o antigo reino de seu pai, o Ponto, deixando no Egito quatro legiões para apoiar Cleópatra e vigiar eventuais ações contra os interesses romanos. Em 2 de agosto de 47 A.C., essa guerra na Ásia já estava terminada, com a vitória romana na Batalha de Zela. A campanha foi tão rápida, que levou César a dizer uma de suas frases célebres: “Veni, vidi, vinci” (Vim, vi e venci).

De fato, o tempo ocioso passado no Egito dera tempo às forças remanescentes do falecido Pompeu e do Senado de se reorganizarem na Áfric, obrigando César a ter que se deslocar para lá, mas, mesmo assim, ele conseguiu vencer as Batalhas de Ruspina, em 04 de janeiro de 46 A.C. e de Tapsos, em 6 de abril de 46 A.C., na qual foram eliminados seus grandes opositores, Catão, o Jovem, e Metelo Cipião.

A Guerra Civil  ainda não estava terminada, já que restava um importante foco de resistência na  Hispânia, centrado em Córdoba, que era liderado pelos filhos de Pompeu. Por sua vez,  nessa campanha, os exércitos de César  eram comandados pelos seus lugar-tenentes, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio. Não obstante, Cleópatra e César julgaram a situação suficientemente segura para que a rainha fizesse uma espetacular visita à Roma, no final de 46 A.C, acompanhada de Ptolomeu XIV, para assistirem ao Triunfo de César.

Cleópatra em Roma. Grandes esperanças e decepções.

Em Roma, Cleópatra foi recebida por César com toda a pompa que os monarcas helenísticos estavam acostumados a ter. Mas, para manter as aparências, uma vez que ele era casado com a sua esposa romana Calpúrnia, a rainha e o seu irmão-consorte ficaram hospedados nos Horti Caesaris, a propriedade com grandes jardins que o Ditador possuía do lado de fora das muralhas de Roma, às margens do rio Tibre. Lá, ela era visitada pelos mais ilustres membros da sociedade romana, incluindo Cícero, que se queixou da rainha egípcia em uma carta. a seu amigo Atticus. Nesta missiva, o célebre político e orador romano confessa que detestava Cleópatra, de quem não suportava a arrogância, e se queixa de que a rainha não teria cumprido uma promessa relativa a “assuntos literários” (talvez, quem sabe, algum livro raro da Biblioteca de Alexandria no qual Cícero estaria interessado?).

Dião Cássio afirma que essa recepção à Cleópatra comprometeu a imagem de César perante a opinião pública, o que tanto pode se referir apenas à classe senatorial, como à população em geral. Ciente, ou não disso, durante a estadia de Cleópatra e Ptolomeu, César providenciou para que eles recebessem o título de “Amigos e Aliados do Povo Romano“.

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Estátua de Cleópatra, no Museo Pio Clementino, parte dos chamados Musei Vaticani. A imagem possui o diadema real, o penteado “melão”, o nariz adunco e outros traços faciais correspondentes às de outros retratos identificados como o da rainha. É, indiscutivelmente, uma estátua de Cleópatra. Foto:.Vatican Museums, Public domain, via Wikimedia Commons

Em setembro de 46 A.C., César celebrou o seu grande triunfo pelas ruas de Roma, celebrando suas vitórias desde a Gália até o Egito, e que durou espantosos dez dias. Nessas procissões triunfais, foram exibidos, como cativos, o chefe gaulês Vercingetórix, e Arsinoe IV,  a irmã de Cleópatra. Porém, Dião Cássio menciona que a visão da jovem Arsinoe sendo levada acorrentada em um carro inspirou compaixão na multidão, que ficou com pena da menina de apenas 17 anos de idade (estimativa mais baixa). Essa inesperada reação do público forçou César a poupar a vida de Arsinoe, contrariamente á tradição de executar o líder inimigo cativo após o evento, e então ela foi enviada para residir no Templo de Artémis, em Éfeso, um tradicional santuário para perseguidos políticos e fugitivos da justiça.

No dia 26 de setembro, último dia de seu triunfo, César inaugurou o chamado Fórum de César, próximo ao Fórum Romano, cujo espaço já estava ficando insuficiente para abrigar o público. E dentro do Fórum de César foi erguido o Templo de Vênus Genitrix (Vênus Genitora), divindade que ele associava ao culto da sua  própria genealogia, pois os Júlios alegavam ser descendentes de Enéas, que, segundo a mitologia romana, era filho da deusa. E, no precinto do templo, César mandou colocar várias obras de arte, incluindo uma estátua de ouro de Cleópatra, caracterizada como se fosse a deusa egípcia Ísis.

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(Fórum de César, com o Templo de Vênus Genitrix, onde ficava a estátua de Cleópatra

Porém, no início de 45 A.C., Fábio Máximo e Quinto Pédio pediram a intervenção de César, pois eles estavam em situação difícil na Espanha, sitiados pelos exércitos dos Optimates, liderados por Cneu e Sexto Pompeu, além de Labieno, um general ex-partidário de César. Assim, César deixou Roma às pressas e foi para a Espanha. Não sabemos se Cleópatra e o irmão voltaram para o Egito, mas após derrotar definitivamente os adversários na Batalha de Munda, em 17 de março de 45 A.C., o último conflito da Guerra Civil, César retornou para Roma.

Em fevereiro de 44 A.C., na celebração do festival das Lupercais, Marco Antônio tentou, por 3 vezes, colocar um diadema de ouro na cabeça de César. O diadema era um tipo de coroa em forma de aro que simbolizava a realeza nos reinos helenísticos, como era o caso do Egito. Com efeito, Cleópatra, inclusive, assim como os seus antepassados ptolomaicos e os seus congêneres macedônios, selêucidas, atálidas, etc., era quase sempre retratada usando um diadema.

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Portanto, além de parecer uma óbvia manifestação de um projeto monárquico, seja de César ou de seus partidários, o gesto de Antônio, ao menos indiretamente, pode muito bem ter sido associado à relação de César com Cleópatra: Tencionariam ambos reinar sobre o mundo como um casal real? Seria aquela união uma repetição da política de Alexandre, o Grande, que costumava casar-se com as rainhas dos países que ele conquistava? Sintomaticamente, Cícero, que estava presente na ocasião, desconfiado, chegou a perguntar “de onde teria vindo aquele diadema”…

O fato é que o incidente com o diadema nas Lupercais sem dúvida desencadeou, ou ao menos apressou, a execução da conspiração para assassinar César.

Quando, em 15 de março de 44 A.C., César foi assassinado na Cúria de Pompeu, por um grupo 60 senadores, Cleópatra e seu filho Caesarion ainda estavam em Roma. E, certamente, no grande caos que se seguiu ao assassinato, a rainha egípcia deve ter temido pela segurança de ambos, mas, mesmo assim, ela ainda ficaria em Roma até meados de abril.

Teria sido esse período de aproximadamente um mês que Cleópatra ficou em Roma após o assassinato de César decorrente da sua esperança de que Caesarion obtivesse algo de grande monta no testamento do Ditador falecido? Quem sabe o esperado reconhecimento póstumo da paternidade do menino, ou, ao menos, quem sabe, algum grande legado. Porém, segundo as fontes, o testamento não continha nenhuma menção a Caesarion, mas, ao contrário, a última vontade de César oficializava a adoção do sobrinho-neto dele, Gaius Octavius Thurinus (ou Otaviano, como ele passou a ser chamado, que mais tarde se tornaria o futuro imperador Augusto), que, além de filho adotivo, tornou-se o herdeiro político de César e, além disso, recebeu dois terços da imensa fortuna do tio-avô.

De volta ao Egito e reinado “junto “com Caesarion.

Otaviano, que estava na Ilíria recebendo treinamento militar para participar, junto com César, na planejada campanha contra a Pártia, chegou à Roma em 06 de maio de 44 A.C., ocasião em que Cleópatra já tinha voltado para o Egito. Aliás, essa missão de Otaviano, juntamente com outras ações do Ditador em favor do sobrinho neto, não deixam muitas dúvidas de que César jamais planejou tornar o filho de Cleópatra seu herdeiro.

De volta ao Egito, Cleópatra passou a reinar sozinha, e o seu irmão e marido oficial, Ptolomeu XIV, era faraó apenas no papel. Mas, em algum momento, entre o final de julho e o final de agosto de 44 A.C., Ptolomeu XIV morreu. Suspeita-se, com boa dose de probabilidade, que ele tenha sido assassinado por ordem de sua irmã e consorte.

Assim, em 02 de setembro de 44 A.C., com a tenra idade de três anos Caesarion foi coroado Faraó do Egito, com o nome oficial de Ptolemaios XV Philopator Philometor Caesar, passando a reinar oficialmente ao lado da mãe, que, obviamente, era quem detinha todo o poder.

Relevo no Templo de Dendera, retratando Cleópatra, personificada como Ísis., e Caesarion, como faraó. Foto de Olaf Tausch, CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by/3.0, via Wikimedia Commons

Cleópatra iniciou a construção de um templo em honra de César, o Caesareum, em Alexandria. Ela mandou retirar quatro imensos obeliscos erguidos por faraós das 18ª e 19ª dinastias do Antigo Egito para decorar o templo. Aliás, um destes obeliscos, conhecido como a “Agulha de Cleópatra“, foi doado pelo Quediva do Egito aos Estados Unidos, no século XIX e encontra-se no Central Park, em Nova York. Cleópatra construiu também outros templos e até uma sinagoga para os judeus, em Alexandria (estima-se que mais de 100 mil habitantes da cidade eram judeus).

Reconstituição do Caesareum de Alexandria, com o obelisco ao fundo, por Franck devedjian, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Enquanto isso, a situação política em Roma permanecia confusa: Marco Antônio e Otaviano apresentavam-se como herdeiros políticos de César, cada um tendo seus partidários e exércitos. No início, houve confronto entre ambos, e o Senado tentou se aproveitar disso para reassumir o controle do Estado, aliando-se aos assassinos de César. Todavia, os numerosos veteranos de Júlio César não gostaram nem um pouco disto. Assim, Antônio e Otaviano se associaram a outro correligionário de César, o general Marco Emílio Lépido e os três assumiram o governo, formando o chamado “Segundo Triunvirato“, em 43 A.C.. O Senado, acuado, assentiu com o governo dos três pelo prazo de cinco anos, mas, neste ínterim, os assassinos de César, que se autoentitulavam Liberatores (“Os Libertadores”), tinham conseguido fugir da Itália e levantar alguns exércitos, encontrando apoio entre alguns governadores simpáticos à causa deles, conseguindo, com isso, controlar a Grécia a Macedônia e a Síria.

Começava, assim, uma nova guerra civil romana e, como não era de surpreender, em pouco tempo chegaram ao Egito duas mensagens pedindo o apoio militar de Cleópatra: uma delas enviada pelo governador da Síria, Públio Cornélio Dolabela, um ex-partidário de César, que, tendo inicialmente aderido à causa dos Liberatores, e assim obtido a sua nomeação, resolveu mudar de lado novamente e apoiar o Segundo Triunvirato; a outra, de Caio Cássio Longino (Cássio), o principal líder, juntamente com Bruto, da conspiração que assassinara César. Inclusive Cássio, que conseguira apoio na Síria, tinha sido designado pelo Senado para substituir Dolabela, em uma decisão tomada antes do reconhecimento do Segundo Triunvirato. Agora, ambos lutavam pelo controle da Síria.

Cleópatra respondeu a Cássio que o seu reino estava mergulhado em problemas internos. Porém, ela permitiu que as quatro legiões que César tinha deixado no Egito se juntassem à Dolabela, além de lhe fornecer alguns navios. Em troca, Dolabela conseguiu que o Senado, agora controlado pelos Triúnviros, reconhecesse Caesarion como rei do Egito.  Entretanto, não só as legiões que Cleópatra enviou do Egito foram capturadas por Cássio, como Serapion, o governador que Cleópatra havia nomeado para o Chipre, resolveu se juntar a ele, fornecendo-lhe vários navios. Este último fato talvez seja um indício de que a estratégia de Cleópatra era a de tentar ficar bem com os dois lados, e esperar para ver quem iria prevalecer.

Então, na Batalha de Fílipos, travada em duas etapas, em 03 e 23 de outubro de 42 A.C., Marco Antônio e Otaviano derrotaram os exércitos de  Bruto e Cássio, que se suicidaram.

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(Mapa do mundo romano, após a Batalha de Fílipos, por ColdEel)

Romance com Marco Antônio

Após a Batalha de Fílipos, Antônio passou a controlar a maior parte das províncias orientais da República Romana, enquanto Otaviano passou a mandar no Ocidente. Porém, dentre as suas primeiras medidas, Antônio resolveu apurar as responsabilidades daqueles que tinham apoiado Bruto e Cássio contra o Segundo Triunvirato. Assim, de acordo com o relato de PlutarcoAntônio mandou convidar Cleópatra para uma audiência em Tarsos, na Cilícia, parte da atual Turquia, onde ele estava aquartelado, no verão de 41 A.C.,  já que ela tinha sido acusada de ter fornecido dinheiro e navios a Cássio. Como a rainha não respondeu às várias cartas remetidas, Antônio enviou um assessor, Quintus Dellius,  para tentar convencer Cleópatra a se encontrar com ele em Tarsos. Então, segundo, Plutarco:

“Ela foi  convencida por Dellius, e, levando em consideração as evidências que, antes disso, ela tinha percebido acerca do efeito que a beleza dela teve sobre Júlio César e Cneu, o filho de Pompeu, ela esperava que Antônio cairia mais facilmente aos pés dela. Pois, César e Pompeu a tinham conhecido quando ela ainda era uma garota inexperiente nas coisas, mas agora ela iria visitar Antônio exatamente na idade em que a beleza das mulheres é mais brilhante e elas estão no pico da sua capacidade intelectual. Consequentemente, ela levou consigo muitos presentes, dinheiro e ornamentos que, naturalmente, a sua alta posição e o seu reino próspero tornavam possível, porém, ela partiu colocando a maior confiança em si mesma, e no charme e no feitiço de de sua própria pessoa.”

Plutarco, Vida de Antônio, 25, 3

E Cleópatra não estava errada.  Ela chegou a Tarsos de forma arrasadora e deslumbrante, na sua barcaça-real Thalamegos, a mesma embarcação que a levara junto com César no cruzeiro romântico pelo Nilo. Plutarco descreve a cena:

“Ela muito menosprezou e se riu daquele homem, ao ponto de subir o rio Cydnus em uma barcaça de proa dourada, cujas velas abertas tinham cor púrpura e cujos remadores remavam com remos de prata. ao som de flautas misturados com órgãos de tubo e alaúdes. Ela própria ia reclinada sob um toldo salpicado de ouro, adornada como Vênus em uma pintura, enquanto meninos, também como Amores em uma pintura, ficavam de cada lado abanando-a. Da mesma forma, as mais belas criadas, vestidas como Nereidas e Graças, estavam a postos, algumas nas voltas dos lemes, e o outras nas cordas esticadas. Maravilhosos odores de incontáveis incensários se espalhavam ao longo das margens do rio. Alguns dos habitantes acompanhavam-na em cada margem do rio desde a embocadura, enquanto outros desceram da cidade para observar aquela cena. Então, a multidão no mercado gradualmente foi se dispersando, até que o próprio Antônio, sentando no seu tribunal,  ficou sozinho. E um rumor se espalhou por toda parte de que Vênus tinha vindo para se divertir com Baco pelo bem da Ásia.”

Plutarco, Vida de Antônio, 26,1-3
Cleópatra navegando pelo rio Cygnus para encontrar Marco Antõnio, 1892, Óleo de Henryk Siemiradzki, Public domain, via Wikimedia Commons

Antônio foi jantar na barcaça de Cleópatra, toda iluminada, e foi recebido com todo o luxo e sofisticação decorrentes de  séculos de refinamento egípcio e grego, os quais faziam os romanos parecerem rudes camponeses. No dia seguinte, o triúnviro tentou retribuir, em terra, o banquete, mas, segundo Plutarco, ele não conseguiu nem chegar perto. Vale a pena, contudo, transcrever, nesse episódio, mais uma descrição da rainha:

“Cleópatra via nos gracejos de Antônio muito de soldado e de plebeu, e ela também adotou esses modos com ele, sem hesitar e audaciosamente. A beleza dela, de acordo com o que nos foi dito, em si mesma não era de todo incomparável, nem tanta que impactasse aqueles que a viam, mas a sua presença tinha um charme irresistível, e havia uma atração na sua pessoa e na sua conversa, que, junto com a peculiar força de  sua personalidade, em cada palavra ou gesto, deixavam todos que se envolvessem com ela enfeitiçados.”

Plutarco, Vida de Antônio, 27, 1

Não surpreende, assim, que a acusação contra Cleópatra tenha sido descartada; Antônio, inclusive, entregou-lhe Serapion, o ex-governador egípcio de Chipre que ajudara Cássio, e a rainha mandou imediatamente executá-lo. Mas Antônio também atendeu a um outro pedido de Cleópatra, este muito mais sombrio: Ele mandou executar a irmã dela, Arsinoe IV, que, como vimos, estava custodiada no Templo de Artémis, em Éfeso, apesar de este ser um santuário reconhecido por todo o mundo helenístico (e listado entre as Sete Maravilhas). Com efeito, a execução da jovem, de apenas 22 anos de idade, morta nas próprias escadarias do templo, em desrespeito à santidade do santuário, foi considerada um grande escândalo em Roma, e este fato mancharia as reputações de Antônio e Cleópatra.

Temple of Artemis at Ephesus
Reconstrução do Templo de Artémis, em Éfeso, uma das 7 maravilhas do mundo antigo e local da execução de Arsinoe. Por Zee Prime at cs.wikipedia, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Nota: Hilke Thür, uma arqueóloga austríaca, afirmou que os vestígios de uma tumba descoberta há várias décadas, em Éfeso, continham restos mortais que poderiam ser de Arsinoe. A tese decorre do fato da tumba ser octogonal, lembrando o formato do célebre Farol de Alexandria, e da data estimada da construção bater com o período em que Arsinoe viveu em Éfeso. Todavia, a análise do esqueleto mostrou que tratava-se de uma jovem cuja idade estava entre 15 e 18 anos na data da morte, um tanto jovem demais para ser Arsinoe, de acordo com os historiadores (ver https://www.livescience.com/27459-cleopatra-sister-discovery-controversy.html).

Os “Inimitáveis Viventes

Em novembro de 41 A.C., Antônio visitou Alexandria, a convite de Cleópatra, e o caso entre os dois não era mais segredo para ninguém. Eles passavam o tempo em fantásticos banquetes, rindo e se divertindo, entre eles e com amigos. Plutarco conta que os dois amantes fundaram uma espécie de sociedade, que eles batizaram de “Os Inimitáveis Viventes“, o que por si só dá uma ideia do prazer que ambos estavam tendo na companhia um do outro (É interessante observar que, em sua “Vida de Antônio“, Plutarco menciona que ouviu esses relatos de seu próprio avô, que conviveu com uma testemunha ocular).

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Cleópatra e Antônio passavam o dia e a noite inteira juntos, e nem mesmo as brincadeiras e arruaças que eles costumavam cometer pelas ruas de Alexandria pareciam deixá-los mal com a população da cidade. Plutarco:

“Ela jogava dados com ele, bebia com ele, caçava com ele e o assistia enquanto ele treinava com armas; e, quando à noite, ele se postava nas portas ou janelas da gente comum da cidade e zombava daqueles que se encontravam dentro das casas, ela ia junto, nessas suas sessões de maluquices, vestindo um traje de serva, porque Antônio também tentava se disfarçar de servo. Por conta disso, ele sempre recebia uma batelada de insultos, e, frequentemente, de pancadas, antes de voltar para casa, embora a maioria das pessoas suspeitasse quem ele era. Entretanto, os alexandrinos adoravam os modos  engraçados e civilizados deles; Eles gostavam dele, e diziam que ele usava uma máscara de teatro trágica com os romanos, porém,  quando estava com eles, ele punha uma máscara de comédia“.

Afresco da Casa dos Amantes Castos, em Pompéia, por WolfgangRieger, Public domain, via Wikimedia Commons

Entre as estórias deliciosas do romance entre os dois, Plutarco conta que Antônio, incomodado pelo fato de Cleópatra estar assistindo uma pescaria na qual ele não havia conseguido pescar nada, certa vez mandou que um pescador mergulhasse e prendesse um peixe enorme, mas já pescado, na linha dele para impressionar a amante. Cleópatra percebeu a trapaça, mas não deu recibo, fingindo ficar admirada com a destreza de Antônio. Na pescaria seguinte, ela convidou todos os amigos do casal e mandou que outro mergulhador prendesse um arenque defumado no anzol de Antônio, e quando ele puxou a linha, todos caíram na gargalhada.

Mas toda essa diversão não significa que Cleópatra descurasse dos assuntos de governo. No início do reinado dela, por exemplo, ela ordenou que os grãos armazenados nos celeiros reais fossem distribuídos para aliviar os efeitos da seca. E, no decorrer de seu governo, ela decretou uma reforma monetária e promulgou leis instituindo monopólios e de controle de preços, pois o Egito vivia em duradoura crise econômica decorrente de problemas climáticos e do pagamento das dívidas com Roma.

Inclusive, chegou até os nossos dias um papiro, datado de 33 A.C., registrando uma isenção de impostos dada a um romano relacionado a Antônio, assinado pela própria Cleópatra, que constitui um dos raríssimos casos de escrita manuscrita de um governante da antiguidade. O texto com a parte dispositiva do papiro foi produzido por um escriba, mas, no final do documento, a rainha escreveu, de próprio punho: “Faça-se com que aconteça“.

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Ancient Ptolemaic-period scribe(s) as well as Cleopatra VII of Egypt who offered her signature on the document, Public domain, via Wikimedia Commons

Todavia, Marco Antônio era casado com a rica e poderosa Fúlvia, que naquele momento não apenas representava os interesses do marido em Roma, mas agia e dava as cartas na política romana por conta própria, pois herdara as conexões políticas de seu ex-marido, o populista e demagogo Clódio. Inclusive, para selar a aliança do Segundo Triunvirato, Otaviano casou-se com Clódia, filha de Clódio e de Fúlvia. Mesmo assim, Fúlvia se opôs a algumas medidas de Otaviano e conseguiu reunir oito legiões para defender os interesses de Antônio. Então, houve um conflito armado na Itália, no final de 41 A.C, entre as tropas de Otaviano e essas legiões reunidas por Fúlvia, comandadas por Lúcio Antônio, irmão caçula de seu marido, que acabaram sendo sitiadas na cidade de Perugia. Mas, em fevereiro do ano seguinte, Lúcio Antônio acabou se rendendo e Fúlvia foi obrigada a fugir da Itália para a Grécia, levando junto os seus filhos. Por isso, Antônio, já no ano seguinte, foi encontra-la em Atenas, onde ele censurou a esposa por ter desencadeado o conflito.

Segundo o historiador Apiano, o motivo principal para Fúlvia ter provocado a guerra contra Otaviano teria sido o desejo dela de obrigar Marco Antônio a deixar Cleópatra e voltar para a Itália. Esse motivo, entre outros, também é mencionado por Plutarco, mas o mais provável é que a motivação tenha sido política.

Entretanto, ainda em 40 A.C., Fúlvia morreu, próximo a Corinto, aparentemente de alguma doença, e isso foi um pretexto para Antônio e Otaviano reconciliarem-se publicamente, na Itália, alegando que as suas desavenças tinham sido provocadas pela falecida. Então, para selar essa reconciliação, Antônio casou-se, em outubro de 40 A.C, com Otávia, a Jovem, a bela irmã mais velha de Otaviano (ela, aliás, nasceu no mesmo ano que Cleópatra). Pouco depois, em Brundisium (Brindisi), os Triúnviros dividiram formalmente entre eles o território romano, celebrando o chamado Tratado de Brundisium.

Sintomaticamente, Dião Cássio faz questão de observar que, durante as negociações, em que as partes se ofereceram banquetes, Otaviano se apresentava vestido com uniforme romano de general, enquanto que Antônio  vestia trajes egípcios e orientais, mas, segundo Plutarco, embora, nessa época, Antônio estivesse apaixonado pela rainha egípcia, ele ainda não admitia a possibilidade de tê-la como esposa, mostrando que, ao menos politicamente, a sua razão continuava a prevalecer sobre a emoção. 

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Busto de Otávia, a Jovem, irmã de Otaviano, foto de Giovanni Dall’Orto

No final de 40 A.C., Cleópatra deu a luz a um casal de gêmeos, que receberam os nomes de Alexandre e Cleópatra. As crianças eram filhas naturais de Antônio, mas, legalmente para os romanos, era preciso que Antônio reconhecesse as crianças, para que o fato gerasse efeitos jurídicos relevantes.

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Busto de Cleópatra |Selene II, filha de Cleópatra e Marco Antônio, no Museu de Cherchell, Argélia. Por PericlesofAthens, CC0, via Wikimedia Commons

Nessa período, Antônio estava envolvido com assuntos importantes: primeiro com o conflito de Fúlvia contra Otaviano e, em seguida, com a invasão da Síria pelos Partos, liderados por Pacorus, filho do rei Orodes. Contudo, sabe-se que, no intervalo dessas guerras, Antônio passou o início do ano de 40 A.C. em Alexandria, que deve ter sido quando Cleópatra engravidou dos gêmeos.

De qualquer forma, pouco tempo antes ou depois dos gêmeos de Cleópatra nascerem, conforme já mencionamos, Antônio já estava morando com sua nova esposa, Otávia em Atenas, cidade em que o casal foi residir depois da celebração do Tratado de Brundisium. Sabemos que, em agosto ou setembro de 39 A.C., nasceu a primeira filha do casal, Antônia, a Velha. Sem dúvida, Antônio não negligenciava os deveres de amante, e muito menos os de marido…O seu comportamento, contudo, continuava a escandalizar os romanos: ele se autodenominou “Dionísio” e promovia festas em que se apresentava vestido como este deus.

Como não deve causar espanto, tudo indica que a relação entre Cleópatra e Antônio esfriou a partir do nascimento da filha dele com Otávia. O romano, agora, governava a partir do lar conjugal deles, em Atenas, o que, sem dúvida, enfraquecia os projetos mais ambiciosos de Cleópatra, pois, desse modo, Alexandria deixava de ser o centro do Mundo Helenístico.

Não obstante, o fato das atenções de Antônio, e de Roma, no Oriente estarem totalmente voltadas para a guerra contra os Partas, enquanto que Otaviano tinha que lidar com a oposição armada de Sexto Pompeu, o filho de Pompeu, o Grande, que controlava a Sicília, ao Segundo Triunvirato, deixava a rainha com considerável margem de atuação política.

Com efeito, Cleópatra já podia se orgulhar dela não só ter mantido a independência do Egito ante Pompeu e César, durante a Guerra Civil romana, mas também de ter persuadido Antônio de restaurar vários territórios que historicamente fizeram parte do império ptolomaico, tais como Chipre e a Cilícia.

Também sob Cleópatra, o Egito havia voltado a ser um ator influente na política do mediterrâneo oriental: De fato, em dezembro de 40 A.C., ela recebeu como refugiado o tetrarca e futuro rei Herodes, o Grande, da Judéia, um aliado de Antônio, mas que tinha sido obrigado a se exilar pelo rival Antigonos II Mattathias, que tomou o trono apoiado pelos Partas. Mas Cleópatra nunca escondeu que o seu desejo era restaurar o império ptolomaico em sua máxima extensão, o que incluía a Judéia. Assim, Herodes acabou indo procurar ajuda em Roma.

Por outro lado, quando a relação entre Antônio e Otaviano voltou a ficar conflituosa, Otávia foi fundamental para apaziguar o marido e o irmão. e até conseguiu convencer este a ceder tropas para a campanha de Antônio contra os Partas. Esta campanha estava sendo bem conduzida pelo lugar-tenente de Antônio, que, entre 39 e 38 A.C., obteve várias vitórias, culminando com a derrota e morte de Pacorus. E a morte do príncipe parta causou muita instabilidade na Pártia, resultando que o rei Orodes acabasse sendo assassinado, junto com boa parte da sua família, pelo próprio filho, Fraates IV, que assumiu o trono. Este era um nítido sinal de fraqueza que estimularia Antônio a buscar a glória de anexar o Império dos Partas, que, menos de duas décadas antes, tinha infligido dura derrota aos romanos, aniquilando as legiões de Crasso, em Carras.

Ao mesmo tempo, estava chegando ao fim o mandato de cinco anos que o Senado dera aos Triúnviros para governar a República, que ia até 31 de dezembro de 38 A.C.. Em um encontro intermediado por Otávia, Otaviano e Marco Antônio se encontraram em Tarento, já em 37 A.C., e concordaram em impor a renovação da aliança até 33 A.C. Entre as cláusulas do chamado Tratado de Tarento estava o fornecimento por parte de Otaviano de duas legiões completas, mais auxiliares, cerca de 20 mil homens, para a planejada campanha de Antônio contra os Partas.

Antônio voltou para o Oriente ainda em 37 A.C., deixando, na Itália, Otávia, grávida da segunda filha deles, Antônia, a Jovem, que nasceria em 31 de janeiro de 36 A.C. Na narrativa sobre o Tratado de Tarento, Plutarco menciona passagens que denotam que Otávia de fato amava o marido.

Porém, Otaviano deixou de cumprir o compromisso de fornecer as prometidas tropas a Antônio para a campanha contra os Partas. Em vez de 20 mil, só foram enviados 2 mil, dez por cento do prometido e que não representavam grande ajuda.

Busto de Antônia, a Jovem, na Ny Carlsberg Glyptotek, Public domain, via Wikimedia Commons

Consequentemente, precisando de soldados, e também de dinheiro, Antônio, por conveniência ou não, lembrou-se de sua rica e poderosa amante em Alexandria. Instalado em Antioquia, quartel-general das operações, Antônio mandou chamar Cleópatra para uma conferência. A rainha chegou, como sempre, em grande estilo, e desta vez trazendo os gêmeos Alexandre Helios (Sol) e Cleópatra Selene (Lua), que, pela primeira vez, iriam ser apresentados ao pai. As crianças estavam com três anos de idade e, provavelmente, foi nesta ocasião que elas receberam os seus segundos nomes e foram reconhecidas oficialmente por Antônio. E esses nomes denotam, sem dúvida, que os pais delas tinham planos bem elevados para o futuro deles…

Em Antioquia, Cleópatra obteve de Antônio importantes concessões: O Egito receberia todo o território da Fenícia, exceto Tiro e Sidon, e a cidade de Ptolemais Akko, fundada pelo seu antepassado Ptolomeu II. Cleópatra também recebeu a região da Síria-Coele, uma parte do reino dos Nabateus (parte da atual Jordânia), a cidade de Cyrene, na atual Líbia e duas cidades na ilha de Creta. Em troca, Cleópatra financiaria à campanha de Antônio na Pártia, além de fornecer boa parte do exército egípcio. Isso possibilitou a Antônio armar o que talvez fosse o maior exército jamais reunido pelos romanos, que alguns estimam, provavelmente com algum exagero, em 200 mil homens.

Fazer tantas concessões à Cleópatra, sendo cristalino que elas seriam repudiadas pela opinião pública romana, foi uma aposta muito arriscada de Antônio (e outras concessões ainda maiores seriam feitas no futuro!): Em uma justificativa racional dessa cartada, Antônio deve ter ficado impressionado com os recursos materiais e financeiros que o Egito podia lhe proporcionar e pensou que, com os mesmos, se ele derrotasse o Império Parta, o caminho de eliminar Otaviano e assumir o poder unipessoal em Roma estaria pavimentado. Sem dúvida, Antônio deve ter se sentido próximo de emular a carreira quase mitológica de Alexandre, o Grande, e tanto mais próximo disso ele não estaria, quem sabe, unindo-se matrimonialmente à última remanescente do império macedônio que aquele fundara?

Seja como for, os relatos das principais fontes, notadamente Plutarco e Dião Cássio, dão conta de que, em Antioquia, Cleópatra e Antônio reataram a sua união amorosa. E, dali em diante, eles não se separaram mais, exceto quando chegou o crepúsculo de suas vidas.

Cleópatra chegou a acompanhar Antônio no início da campanha, que começou pela invasão da Armênia, em 36 A.C., mas voltou para Alexandria, já que agora ela estava grávida do seu terceiro filho com Antônio, que nasceu entre agosto e setembro de 36 A.C. O menino recebeu o nome de Ptolomeu Philadelphus.

A campanha de Antônio contra os Partas estava enfrentando altos e baixos. Os romanos até ganharam alguns confrontos, mas sofreram várias emboscadas e foram cercados algumas vezes. Mas a maior causa de baixas foram doenças e o frio do inverno que chegava. As perdas já alcançavam cerca de 30 mil homens, quando Antônio resolveu suspendê-la e retirar-se para a cidade de Leukokome, próximo à Beirute, no atual Líbano.

Quando a notícia da volta de Antônio e do insucesso da sua expedição chegou em Alexandria, Cleópatra partiu para o Líbano, levando mantimentos e dinheiro para pagar as tropas, e lá encontrou Antônio abatido e entregue à bebida., em dezembro de 36 A.C. Em seguida,ambos voltaram para Alexandria, onde ele finalmente pode conhecer o seu segundo filho homem, Ptolomeu Philadelphus.

As Doações de Alexandria

O ano de 35 A.C., começou com Antônio planejando retomar a campanha na Armênia. Otávia, que soube do insucesso da expedição do marido, se propôs a viajar para Atenas levando os dois mil soldados para ajudá-lo na continuação da guerra. Segundo as fontes, esta foi uma tentativa da esposa romana de tentar contrabalançar a influência de Cleópatra e afastar o marido da presença da amante. Consta que seu irmão, Otaviano, permitiu a viagem da irmã e forneceu os soldados, já prevendo que poderia utilizar o episódio como propaganda contra Antônio.

E Otaviano estava certo: Antônio não só não foi ao encontro da sua fiel e dedicada esposa, como ainda lhe deu ordens para que não deixasse Atenas para encontrá-lo no meio trajeto da expedição; todavia, sem demonstrar nenhum constrangimento, Antônio aceitou os soldados que Otávia lhe trouxera. Foi um ultraje para a distinta Otávia, uma ofensa que até justificaria, aos olhos da opinião pública romana,  uma resposta de Otaviano.

Segundo Plutarco, sentindo a ameaça que a volta de Otávia a Atenas e a aparente determinação dela em reconquistar Antônio representavam, Cleópatra valeu-se de vários artifícios românticos e dramáticos para seduzi-lo e mantê-lo preso a ela. O autor narra, entre outros exemplos, que a rainha chegou a fazer um regime para emagrecer, além de passar a usar roupas sensuais e a simular choros. Fantasioso ou não o relato, o fato é que Antônio  adiou por algum tempo a expedição à Armênia e continuou em Alexandria.

Enquanto isso, a quase repudiada Otávia retornou para Roma. Otaviano, como se esperava, utilizou a humilhação da irmã o máximo possível contra a reputação de Antônio. Ele chamou Otávia para morar em sua casa, como uma mostra de que sua irmã não podia mais contar com a proteção do marido. Porém, para a surpresa de muitos. Otávia recusou e foi morar na residência de Antônio, em Roma. Lá, ela continuou cuidando não só das filhas que tinha com ele, mas também dos filhos de Antônio e Fúlvia, demonstrando publicamente que ainda se considerava a legítima esposa do marido. Não é impossível, contudo, que tudo isso também tenha sido combinado com Otaviano, para vitimizá-la ainda mais perante o público romano.

Mas foi o próprio Antônio, estimulado por Cleópatra, quem daria o maior golpe na própria reputação, dando a Otaviano um trunfo gigantesco na disputa entre ambos pelo poder supremo:

No outono de 34 A.C., retornando de uma, enfim, moderadamente bem sucedida campanha na Armênia, Antônio e Cleópatra organizaram em Alexandria uma parada triunfal, sendo que Antônio conduzia o carro vestido de deus Dionísio-Osíris, e na qual a família real armênia foi exibida pelas ruas da cidade, até dois tronos dourados, um para Antônio, outro para Cleópatra. Em seguida, ao povo reunido no Gymnasium , Antônio proclamou solenemente que Cleópatra, que na ocasião  estava vestida como a deusa Ísis, era a “Rainha dos Reis” e “Rainha do Egito, Chipre, Líbia e Sìria-Coele“, junto com seu filho, Caesarion, o “Rei dos Reis“. Alexandre Helios foi nomeado “Rei da Armênia, da Média e da Pártia“. Já Ptolomeu Philadelphus foi designado “Rei da Cilícia e da Síria”, e Cleópatra Selene, por sua vez, a “Rainha de Creta e de Cyrene“. Na cerimônia, Antônio também fez questão de proclamar que Cleópatra tinha sido esposa de Júlio César,  e que o seu filho Caesarion, era o filho legítimo de César.

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Tudo aquilo representava, sem dúvida nenhuma, uma declaração de rompimento com Otaviano e com o próprio Senado Romano. Na verdade, aquela era uma iniciativa que  seria recebida em Roma quase que como uma declaração de guerra, pois, doando-os à amante e aos filhos, abria mão de territórios que faziam parte da esfera de influência de Roma, alguns até já controlados diretamente, ainda que não formalmente anexados.

Essa distribuição de territórios feita por Antônio à Cleópatra e aos seus filhos, um ato que, já naquele tempo, recebeu o nome de “As Doações de Alexandria“, era tão impactante e inacreditável, que, quando a mensagem que Antônio enviara comunicando o decreto ao Senado Romano chegou à Roma, já no ano seguinte, os futuros cônsules Gnaeus Domitius Aehonabarbus e Gaius Sosius, que eram partidários de Antônio, recusaram-se a tornar o documento público, resistindo aos insistentes pedidos de Otaviano!

A “Guerra Fria” entre Antônio e Otaviano

O prazo renovado do Segundo Triunvirato expirou em 31 de dezembro de 33 A.C, não havendo interesse em nova prorrogação. Otaviano e Antônio, então, começaram uma guerra aberta de propaganda, cada um expondo episódios de má conduta, traições, ultrajes, etc., contra o outro, pois já anteviam o conflito que estava por vir e, por antecipação, ambos queriam justificar perante a opinião pública o motivo da  iminente guerra civil, colocando a culpa pelo início da mesma no adversário. E não causou espécie a ninguém que o motivo mais grave alegado por Otaviano foi o fato de Antônio ter reconhecido oficialmente Caesarion como o filho legítimo e herdeiro de Júlio César

Por sua vez, Cleópatra também foi apontada pelos propagandistas de Otaviano como a principal responsável pelas causas do conflito, acusando-se a egípcia ter seduzido Antônio para satisfazer as suas ambições dinásticas. De modo muito parecido com o que acontece hoje, políticos, poetas e escritores divulgavam verdadeiras “fake news“, como por exemplo a de que Cleópatra teria usado de bruxaria para enfeitiçar Antônio. Este também foi acusado de ter doado à amante todos os livros da biblioteca de Éfeso, uma acusação que, posteriormente, mostrou-se inverídica. Da sua parte, Antônio chegou a afirmar que Otaviano somente teria sido adotado por César porque este costumava possuir sexualmente o sobrinho-neto…

Denário de prata de Cleópatra e Antônia, c. 32 A.C. por Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Havia outras acusações tão ou mais sérias, segundo a lei romana, que incluíam o fato de Antônio ter iniciado a guerra contra a Armênia e a Pártia sem a necessária autorização do Senado (não ficando claro, contudo, se o mandato como Triúnviro lhe dava poderes para tanto) e ter executado Sexto Pompeu sem julgamento. Por sua vez, Antônio acusou Otaviano de ter removido ilegalmente Lépido da posição de Triunviro (o que ele realmente fez) e se apossado do território que este controlava, a Sicília.

A versão de Otaviano, obviamente, foi aquela que, mais tarde, prevaleceria. Mas o fato é que, naquele momento, Antônio ainda tinha muitos simpatizantes em Roma, inclusive no Senado. De acordo com Dião Cássio, em 1º de janeiro de 32 A.C., primeiro dia de sessão do ano, por exemplo, o cônsul e aliado de Antônio, Gaius Sosius, proferiu um discurso no Senado atacando violentamente Otaviano e propondo a aprovação de uma legislação contrária aos interesses deste.

Otaviano resolveu, então, abandonar os escrúpulos de legalidade e, na sessão seguinte do Senado, no outro dia, compareceu à Cúria acompanhado de sua guarda pessoal e de partidários armados com adagas escondidas sob as togas. Como Otaviano controlava as legiões da Itália, bem como do Ocidente em geral, nos dias seguintes os cônsules Gaius Sosius e Domitius Ahenobarbus, intimidados, abandonaram Roma e partiram para se unir a Antônio na Grécia, sendo acompanhados por mais de duzentos senadores que também apoiavam Antônio.

Fachada da Curia Julia, no Fórum Romano,em Roma, onde o funcionava o Senado Romano. Foto de Thorvaldsson, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

A situação era um tanto parecida com a que deflagrara a Primeira Guerra Civil, de César contra Pompeu. Este fugiu para o Oriente, junto com os senadores partidários dos Optimates. Agora, eram os partidários de Antônio que fugiam para encontrá-lo no Leste. E, assim como os historiadores militares consideram que abandonar a Itália foi um grande erro de Pompeu, eu, igualmente, acredito que também foi um grande erro de Antônio ter deixado Otaviano ter o controle total da Itália.  A Itália ainda era o esteio militar do mundo romano, mesmo que o oriente helenístico fosse mais rico e mais populosos, e isso seria mais uma vez demonstrado na nova guerra civil que estava por vir.

Já preparando-se para a guerra, Cleópatra providenciou duzentos navios de guerra para a frota de oitocentas naves que Antônio estava reunindo, além, naturalmente, de muito dinheiro para o esforço bélico. O casal reuniu-se em Éfeso para organizar a campanha contra Otaviano. Segundo as fontes, alguns senadores correligionários de Antônio, sobretudos os amigos dele, Titius e Munatius Plancus, mostraram-se contrariados pela proeminência que Cleópatra demonstrava ter em todas as decisões, e, por sua vez, resolveram partir e aderir a Otaviano.

De acordo com Plutarco, Titius e Lucius Munatius Plancus conheciam os termos do testamento de Antônio, que, conforme o costume, havia sido depositado lacrado em poder das Virgens Vestais, e contaram tudo para Otaviano. Ciente, assim, dos termos da última vontade do rival, Otaviano, ilegalmente, conseguiu se apossar do testamento, que foi aberto e lido por ele em uma sessão do Senado. Entre suas cláusulas, segundo consta, havia a recomendação de Antônio para que o seu corpo fosse entregue à Cleópatra e sepultado em Alexandria. Essa disposição muito convenientemente ia de encontro ao boato que os partidários de Otaviano andavam espalhando por Roma: a de que Antônio, caso vencedor,  pretendia transformar Alexandria na capital do território romano!

A “Guerra contra Cleópatra”

Engenhosamente, o Senado Romano, agora controlado por Otaviano, não declarou guerra a Antônio, apesar dele ser o alvo principal da medida – Preocupados com a opinião pública, e com a posteridade, os senadores formalmente votaram pela declaração de guerra contra Cleópatra, a rainha do Egito, e, assim, todos os tradicionais ritos previstos para uma guerra contra inimigos estrangeiros puderam ser celebrados. Além disso, tal circunstância impedia que os senadores partidários de Antônio fossem considerados desertores ou criminosos, deixando uma porta aberta para o seu retorno. Não obstante, foi decretada expressamente a retirada de todos os poderes que Antônio ainda detinha. Essa preocupação com as aparências, e a necessidade de justificar a guerra pelo poder como um conflito contra uma governante estrangeira, mostra também que o povo devia estar indeciso sobre quem tinha razão no conflito entre os dois líderes romanos.

Se ainda havia alguma dúvida de que o rompimento era definitivo, ainda em 32 A.C, Antônio divorciou-se de Otávia. A partir daquele momento, Cleópatra não precisaria mais temer a rival e, aparentemente, a opinião dela prevaleceria em todos os aspectos, incluindo a estratégia que seria adotada para a guerra…

Contrariando os conselhos dos seus assessores militares mais próximos, que defendiam uma guerra terrestre, já que, nominalmente, eles possuíam mais tropas do que Otaviano (aproximadamente cerca de 100 mil homens, contra 80 mil de Otaviano), Antônio seguiu a vontade de Cleópatra, que defendia que Otaviano deveria ser derrotado no mar, pela frota composta, em parte apreciável, pelos navios egípcios. E os navios da frota de Antônio, de fato, eram mais numerosos e maiores do que os de Otaviano.

Mas o motivo principal da estratégia proposta por Cleópatra, na visão de muitos historiadores, era o fato de que uma vitória no mar, travada na Grécia ou na Turquia, protegeria melhor o Egito de um ataque romano, pois nesta batalha, boa parte da frota romana seria destruída. De todo modo, ainda que mais numerosos, os navios de Antônio e Cleópatra tinham um considerável déficit em suas tripulações, em alguns casos havendo menos da metade dos remadores previstos. Além disso, em virtude dessa deficiência, muitos deles não eram remadores experientes, e sim tropeiros, fazendeiros e até meninos.

Os historiadores antigos criticam Antônio por ter cedido às intenções de Cleópatra, mas o mais provável é que ele conhecesse as deficiências do seu efetivo militar. De fato, as próprias fontes dão a entender que o exército de Otaviano era melhor treinado. Não que Antônio não tivesse um núcleo de tropas romanas experimentadas com ele, mas o número de legiões essencialmente romanas de Otaviano parece que era maior. Por outro lado, os recursos financeiros à disposição de Antônio parecem ser ter sido bem maiores, pois as fontes relatam que ele chegou a enviar dinheiro para a Itália para tentar subornar partidários de Otaviano, que realmente ficou bem preocupado com essa possibilidade.

A Batalha de Actium

Consta que Antônio chegou a tentar um avanço naval até Corcyra, atual Corfu, na fronteira da atual Grécia com a Albânia, o que o colocaria bem próximo de poder atacar a costa italiana, mas, ao encontrar unidades navais da frota de Otaviano, ele desistiu e voltou para o Golfo Ambraciano, ou Golfo de Actium, na costa setentrional da Grécia, no final de 32 A.C.. Assim, quem tomou a iniciativa foi Otaviano. Ele zarpou para a Grécia e se dirigiu para Actium, local onde, agora, Antônio e Cleópatra tinham estabelecido o seu quartel-general das operações e reunido sua imensa frota. Enquanto isso, seu almirante, Marcus Vipsanius Agrippa (Agripa), tomou Corcyra e lá instalou uma base para as operações contra Antônio.

Otaviano desembarcou suas tropas no lado oposto do Golfo Ambraciano e enviou emissários aos comandantes de Antônio propondo uma negociação, proposta esta que foi recusada. Porém, nas escaramuças que se seguiram com as tropas de Antônio, estacionadas ao longo de Actium, as forças de Otaviano levaram a melhor. Começaram, então, a pipocar deserções entre os aliados de Antônio, que incluíam quase todos os reinos-clientes de Roma no Oriente, tais como Amynthas, da Galatia, e Deiotarus, da Paflagônia, além de amigos romanos de longa data, como Quintus Dellius, que fugiu e foi se juntar a Otaviano, fornecendo a este informações valiosas sobra o estado da frota e os preparativos de Antônio.

De acordo com o relato de Dião Cássio, nessa fase da campanha, Cleópatra fez prevalecer a opinião dela de que as posições mais defensáveis deveriam ser ocupadas por guarnições militares, mas que ela e Antônio, juntamente com o grosso das tropas, deveriam rumar para o Egito. Assim, parece realmente que o que importava mesmo para a rainha era a defesa do Egito e, para Antônio, que ele pudesse continuar contando com o suporte financeiro e militar de Cleópatra, dinheiro que, cada vez mais, aparentava ser o elemento fundamental para a coesão do seu exército.

Tendo em vista que o número de marinheiros era insuficiente para tripular adequadamente todos os navios da sua frota, Antônio ordenou que aqueles em mau estado fossem queimados, e selecionou os melhores. Ele e Cleópatra também ordenaram que, secretamente, todo o tesouro fosse embarcado neles.

No dia 02 de setembro de 31 A.C, Antônio ordenou que os navios zarpassem e se colocassem de costas para o promontório de Actium, ao pé do qual suas sete legiões estavam acampadas, e de onde podiam assistir às manobras. Sua frota agora era composta de 230 grandes galeras.

Segundo os relatos, a nau-capitânia de Antônio zarpou com as velas abertas, o que não era comum em ordem de batalha, levantando a suspeita entre alguns historiadores de que, desde o início, a intenção dele era chegar ao mar aberto e, aproveitando-se do vento noroeste que soprava a seu favor, fugir em direção à Alexandria. Ele formou seus três esquadrões em duas linhas, à frente dos navios mercantes que levavam o tesouro e dos navios que escoltavam Cleópatraque seguia, atrás, embarcada em sua nau-capitânia, batizada de “Antonias“.

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(Mapa de Future Perfect at Sunrise, on the basis of work by User:Lencer and User:Leo2004)

Comandada por Agripa, a frota de Otaviano tinha 250 quinquerremes, navios menores, porém mais rápidos e manobráveis do que os da frota de Antônio. Graças às informações fornecidas por Quintus Dellius, entretanto,  Otaviano e Agripa tinham ciência dos planos de Antônio, e estavam preparados, esperando a frota inimiga.

Ao meio-dia, Antônio deu ordem de avançar. Sua ala esquerda deu a impressão de querer empurrar à ala direita da frota de Otaviano para o norte e abrir um caminho em direção ao sul (bombordo), que poderia levar ao Egito, porém, Otaviano, parecendo estar ciente desse propósito, mandou os navios manterem distância, atraindo mais o inimigo para o alto-mar.

Quando ambas as frotas ficaram mais próximas, começaram os disparos de artilharia e flechas. Agripa ordenou que os navios de sua segunda linha se estendessem mais para o norte e para o sul, visando cercar o inimigo em menor número, sendo que Antônio, ao perceber isso, tirou navios do seu centro e esticou a sua linha, deixando no centro os navios mais pesados, que estavam resistindo bem e se dirigindo à direita (estibordo) e ao norte para combater o esquadrão comandado por Agripa. Isso acabou abrindo espaços no centro da sua formação.

Relevos retratando a Batalha de Actium descobertos em Avellino. Por Carole Raddato, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Foi então que, em um movimento inesperado, os navios comandados por Cleópatra, aproveitando um buraco no centro da linha da frota comandada por Antônio, e o súbito vento que soprava favoravelmente, ultrapassaram as suas linhas à toda velocidade, e, deixando para trás o resto da frota, rumaram em direção ao Egito, levando consigo todo o tesouro.

Não se sabe com exatidão os motivos pelos quais Cleópatra tomou essa decisão. Alguns acreditam que ela, inexperiente na guerra, interpretou equivocadamente o fato de Antônio ter deixado o centro da linha deles e rumado para o norte. De fato, a rainha pode ter perdido contato visual com o navio do companheiro e pensado que ele tinha sido afundado, capturado ou fugido.

O fato é que Antônio, quando viu os navios de Cleópatra se afastando, resolveu ele também fugir, embarcando em outro navio mais veloz e deixando para trás o restante da frota, que ficou lutando acéfala, exceto por cerca de 60 navios egípcios que conseguiram acompanhar a fuga deles. Mesmo assim, os combates duraram até a madrugada do dia seguinte, mas, no final, toda a frota remanescente de Antônio acabou sendo destruída por Otaviano. A grande duração dos combates ao nosso ver mostra que, sem a fuga de Antônio e Cleópatra, o resultado da Batalha de Actium poderia ter sido outro.

Nesse sentido, vale notar que, mesmo após a derrota, 19 de suas legiões e 12 mil cavaleiros mantiveram-se aquartelados por uma semana, esperando o aparecimento de Antônio, mas, passado esse tempo, os soldados desistiram e se renderam. Com isso, todos os reis aliados abandonaram a causa de Antônio e entraram em acordo com Otaviano, sendo um destes o rei Herodes, o Grande, da Judéia.

Embora, mesmo com a derrota naval na Batalha de Actium, Antônio e Cleópatra ainda comandassem, ao menos no papel, um numeroso exército, o fato é que o custo moral da derrota foi muito alto.

Assim, Cleópatra e Antônio e seus navios remanescentes navegaram até o Peloponeso, conseguindo se evadir à breve perseguição dos navios de Otaviano. Consta que durante a viagem, que durou três dias, ambos não se falaram. De lá, Cleópatra resolveu partir o mais rápido possível para o Egito, temendo que a notícia da derrota chegasse à Alexandria primeiro do que ela, o que poderia desencadear uma rebelião. Por isso, ela mandou decorar as proas dos seus navios de modo a que parecessem estar chegando ao porto em triunfo pela vitória inexistente.

Antônio foi para a Líbia, pensando em trazer as legiões que ele tinha deixado ali para a defesa da fronteira ocidental do Egito. Porém, o governador de Cyrene e comandante daquelas legiões, Lucius Pinarius Scarpus, que tinha sido apontado por ele, mas também era primo de Otaviano, recusou-se a entregá-las. Percebendo que tudo estava desmoronando, Plutarco conta que Antônio tentou  o suicídio, mas foi impedido pelos amigos. Ele então partiu para o Egito, para reencontrar Cleópatra.

Chegando no Egito, Antônio encontrou Cleópatra organizando um plano ousado: transportar por terra os trezentos navios da frota egípcia para o Mar Vermelho, através da península do Sinai, com o objetivo de colocá-los à salvo da frota de Otaviano. Contudo, este plano foi por água baixo quando os primeiros navios que chegaram próximo à cidade de Petra foram queimados pelos Nabateus, instigados pelo governador da Síria, Quintus Didius, partidário de Otaviano. Este é mais um exemplo de que a linha mestra da rainha egípcia sempre fora a manutenção da independência do Egito e a sobrevivência da dinastia ptolomaica.

Os “Parceiros na Morte”

Inicialmente, Cleópatra e Antônio mantiveram-se afastados em Alexandria, ele vivendo em uma mansão à beira-mar, e ela no palácio. Porém, quando chegou a idade de inscrever Caesarion na lista dos efebos (evento que marcava o fim da infância no mundo grego) e de Anthilyus, o filho de Antônio e Fúlvia, vestir a toga virilisAntônio passou os dias na companhia de Cleópatra, comendo e bebendo nos suntuosos banquetes comemorativos do evento.

Le repas de Cléopâtre et de Marc-Antoine, 1754, por Charles-Joseph Natoire, Public domain, via Wikimedia Commons

Foi durante esses eventos que, segundo Plutarco, Cleópatra e Antônio resolveram dissolver a sociedade dos “Inimitáveis Viventes” e fundar outra em seu lugar, a qual batizaram de “Sociedade dos Parceiros na Morte“, nome que certamente demonstra a consciência que os dois tinham de que a cortina estava se fechando para eles e de que estava chegando ao fim a brilhante trajetória que tinham percorrido juntos…

Os autores antigos afirmam que, nessa época, Cleópatra começou a testar venenos em prisioneiros condenados, inclusive submetendo-os a picadas de serpentes, com o objetivo de encontrar algum que causasse a morte mais rápida e indolor possível.

Cleópatra e Marco Antônio supervisionando a morte de conspiradores, 1866, quadro de Antoine Van Hammée, Public domain, via Wikimedia Commons

Parece que a sobrevivência da dinastia dos Ptolomeus agora era a única preocupação de Cléopatra: Segundo Dião Cássio, ela enviou uma correspondência secreta para Otaviano, contendo uma coroa e um cetro, que foram aceitos por ele. Assim, em público, Otaviano teria continuado a dar ultimatos para que ela abandonasse as armas e renunciasse ao trono, mas, secretamente, mandou mensagens prometendo que, se Cleópatra mandasse matar Antônio, ela seria perdoada e mantida como soberana.

Enquanto isso, Antônio também enviou correspondências a Otaviano, acompanhadas de muito ouro,  afirmando que ele concordava em largar tudo e ir viver como particular. Já em outra versão, ele propôs a Otaviano que ele se mataria, desde que o rival deixasse Cleópatra viver. Em todo o caso, as fontes concordam que Otaviano somente respondia às mensagens de Cleópatra, ignorando as de Antônio.

As fontes antigas enfatizam que as respostas de Otaviano à Cleópatra visavam três objetivos: incentivá-la a eliminar Antônio, o que encerraria logo a guerra e lhe daria o poder absoluto em Roma; dissuadir que Cleópatra dispersasse ou destruísse o imenso tesouro egípcio, preservando-o para os romanos; e desestimular que a rainha se matasse, para que não lhe fosse roubada a incomensurável glória de exibi-la em triunfo pelas ruas de Roma. Mas parece que os dois primeiros motivos eram os mais prementes para Otaviano, pois, quando ele soube que Cleópatra pretendia levar todo o tesouro do Egito para a tumba que ela estava construindo para si mesma nos jardins do palácio, onde tudo seria queimado, Otaviano mandou Thyrsus, que era seu liberto, levar para Cleópatra cartas na qual ele dizia que estava apaixonado por ela, ao menos segundo a versão de Dião Cássio, na esperança de que a rainha, que se consideraria irresistível, acreditaria nisso e daria cabo de Antônio, mantendo-se viva, e o tesouro, intacto.

O cerco se fecha

Na primavera de 30 A.C., As forças de Otaviano tomaram Pelousium, que, de acordo com Dião Cássio, teria sido entregue sem luta, seguindo ordens de Cleópatra. Porém, segundo Plutarco, essa suspeita parece infundada, pois ela concordou com a execução da esposa e dos filhos de Seleucus, o governador que se rendeu a Otaviano.

O exército de Otaviano, aproximava-se dos muros de Alexandria., na vizinhança do Hipódromo, Antônio comandou um ataque à vanguarda do exército inimigo e conseguiu derrotar a cavalaria de Otaviano, que, já cansada da marcha até a cidade,  foi perseguida até o acampamento. Porém, a inferioridade numérica impediu qualquer exploração desse sucesso, e Antônio retornou ao palácio, onde, vestido de uniforme e couraça, ele beijou Cleópatra e contou sobre a pequena vitória que eles tinham obtido. Ela deu caros presentes para um soldado que havia se destacado na batalha, mas, como um emblema da situação desesperadora em que eles se encontravam, naquela mesma noite o soldado fugiu e desertou para Otaviano, levando consigo os presentes…

No dia seguinte, Antônio tentou um ataque combinado por terra e por mar. Ele próprio cavalgou até próximo das tropas inimigas e desafiou Otaviano para um combate singular, corpo a corpo, entre os dois, um desafio que ele já havia feito anteriormente. Otaviano ignorou e mandou responder que “havia muitos maneiras pelas quais Antônio poderia morrer“.

Quando Antônio ordenou que a frota avançasse, para a sua consternação, os remadores levantaram os remos em sinal de rendição e ele soube que eles tinham aderido à Otaviano, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido por ordens de Cleópatra, que talvez tivesse resolvido traí-lo para cair nas boas graças de Otaviano, ou, poderia também estar com medo de que Antônio tentasse fugir para a Espanha. É de se notar, contudo, que a cavalaria dele também desertou. Antônio ainda tentou combater com a infantaria que lhe restara, mas foi facilmente derrotado. Naquele momento, então, Antônio não teve dúvidas de que estava tudo acabado. Ele deixou o campo de batalha e correu para o palácio.

Cléopatra foi se esconder no interior do mausoléu que ela havia mandado construir, acompanhada de um eunuco e duas escravas. Quando Antônio chegou, ele foi informado de que Cleópatra havia se matado e estava enterrada na tumba, que havia sido lacrada. Desesperado, Antônio, segundo Plutarco, proferiu as seguintes palavras:

“Por que tu demorastes tanto, Antônio? O Destino levou a tua única desculpa para te agarrares à vida!”

Antônio, então, entrou na antecâmera da tumba, tirou a couraça e, deixando-a de lado, continuou:

“Oh, Cleópatra! Eu não lamento que tu tenhas sido arrancada de mim, pois logo eu me juntarei a ti, mas eu lamento que um comandante tão grande como eu tenha se mostrado menos corajoso do que uma mulher”

Em seguida, Antônio implorou ao seu escravo doméstico, Eros, que o matasse, como ele já o havia anteriormente instruído. Porém, o devotado Eros, ao invés de matar o seu amo, pegou a espada e matou a si mesmo, para não ter que cumprir essa dolorosa ordem. Desesperado, Antônio, então, jogou-se sobre a própria espada apoiada no chão, que penetrou em sua barriga. Porém, esta ferida não foi suficiente para matá-lo imediatamente e, assim, Antônio ficou agonizando na cama, pedindo para que algum dos presentes se dignasse a apressar a sua morte.

Os ruídos e lamentos do agonizante Antônio acabaram sendo ouvidos por Cleópatra, que, observando a cena de dentro da tumba, por uma janela, mandou seu secretário Diomedes trazer Antônio para dentro. Quando Antônio percebeu que Cleópatra estava viva, ele mandou que os servos dele o colocassem de pé. Mas, como a porta do mausoléu estava selada, Antônio teve que ser erguido por cordas até a janela, puxadas pelas escravas de Cleópatra que estavam lá dentro, além da própria rainha, que também ajudava. Segundo o próprio Plutarco, enquanto Antônio era puxado, coberto de sangue, ele estendia os braços e as mãos em direção à Cleópatra, e para o historiador, de acordo com as testemunhas presentes que descreveram a cena, jamais houve cena mais pungente:

E quando Cleópatra dessa forma conseguiu pegá-lo e deitá-lo, ela rasgou suas roupas sobre ele, puxou e socou os seios com as próprias mãos, esfregou um tanto do sangue dele no rosto dela, e o chamou de amo, marido e imperador; De fato, em sua compaixão por ele, ela quase esqueceu a sua própria desgraça. Mas Antônio fez cessar os lamentos dela e pediu uma taça de vinho, tanto por ele estar com sede, como para lhe dar mais rapidamente um alívio. Depois de ter bebido, ele aconselhou-a buscar a sua própria segurança, se ela pudesse fazer isso sem desonra; que, dentre todos os amigos de César (Otaviano), ela deveria confiar em Proculeius; e que ela não lamentasse as últimas adversidades que ele tinha sofrido, mas que o considerasse feliz pelas boas coisas que ele tinha conseguido, uma vez que ele tinha se tornado o mais ilustre dos homens, tinha conquistado o poder supremo; e que, naquele momento, ele não tinha sido derrotado de modo ignóbil, mas em uma luta de romano contra romano“.

Plutarco, Vida de Antônio, 77, 1
Antoine rapporté mourant à Cléopâtre d’Eugène-Ernest Hillemacher (1863), Museu de Grenoble, Eugène Ernest Hillemacher, Public domain, via Wikimedia Commons

Em poucas horas, Antônio morreu nos braços de Cleópatra, em 1º de agosto de 30 A.C. Ele tinha 53 anos de idade. Um dos seus guarda-costas, Dercetaeus, escondeu a espada com a qual ele tinha se suicidado, fugiu do palácio e entregá-la a Otaviano, que, fingidamente ou não, mostrou-se consternado pela morte do rival.

Prisioneira de Otaviano

Verdadeiro ou não o seu lamento, agora a maior preocupação de Otaviano era evitar que Cleópatra cumprisse as ameaças de se suicidar, impedindo-o de exibi-la em seu almejado triunfo pelas ruas de Roma, e de levar consigo todo o tesouro do Egito, para ser incinerado junto com o cadáver dela na tumba real. Assim, ele enviou o seu auxiliar Proculeius para conversar com Cleópatra, que ainda estava encerrada no mausoléu, cujas pesadas portas eram fechadas com poderosos ferrolhos e trancas. Na conversa com Proculeius, do lado de dentro da tumba, Cléopatra fez o pedido para que os filhos dela herdassem o seu trono, enquanto o enviado tentava tranquilizar a rainha, dizendo-lhe que ela podia confiar em Otaviano.

Tumba nas Catacumbas de Kom Al Shuqafa, em Alexandria. Foto Roland Unger, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

Na verdade, Proculeius, agindo bem ao contrário do que o finado Antônio havia mencionado a seu respeito, tinha aproveitado a conversa para fazer um reconhecimento do mausoléu e voltou para contar a Otaviano o que ele tinha visto. Em decorrência, Otaviano mandou Gallus, com o pretexto de fazer uma nova entrevista com Cleópatra. E, então, enquanto Gallus e a rainha conversavam, Proculeius, valendo-se de uma escada, conseguiu entrar na tumba pela janela. Quando notou a invasão, Cleópatra tentou se matar com uma faca, mas Proculeius conseguiu impedir que ela se ferisse, e disse:

Oh, Cleópatra! Você está enganando a si mesma e a César (Otaviano), tentando roubar dele uma oportunidade de mostrar a maior bondade, e pregando nele o estigma de ser implacável e não-confiável“.

Dito isso, ele retirou a faca dela e revistou-a, para certificar-se de que ela não tinha outra arma escondida. Otaviano, ao saber do que havia sucedido, ordenou que Cleópatra fosse mantida sob estrita vigilância, mas que a rainha deveria ter tudo que fosse necessário para o seu conforto e lazer. A verdade é que, na prática, Cleópatra, agora estava sob prisão domiciliar…

Antes disso, enquanto Otaviano ainda não havia conquistado Alexandria, Cleópatra havia mandado seu filho Caesarion para a Etiópia, junto com um tesouro bem substancial, como ponto de partida para a viagem dele para a Índia, onde o rapaz poderia ficar a salvo da perseguição romana. Era um plano inteligente, mas, que deveria ter sido posto em prática com mais antecedência, pois, tudo indica, Otaviano não demorou a saber disso, e, mais tarde, Caesarion acabaria sendo capturado e morto. Na versão de Plutarco, foram os próprios tutores de Caesarion, Rhodon e Theodorus, certamente a mando de algum emissário de Otaviano, que convenceram o rapaz a voltar para Alexandria, sob o falso pretexto de que Otaviano deixaria que ele continuasse reinando no lugar da mãe. Já segundo Dião Cássio, a caravana de Caesarion foi interceptada ainda na estrada para a Etiópia e o rapaz foi morto ali mesmo, mas, em qualquer caso, isso somente ocorreu após a morte de Cleópatra. A morte de Caesarion teria sido decidida após o filósofo Areius assim ter advertido Otaviano:

“Boa coisa não é que haja muitos Césares!”

Após a morte de Antônio, Otaviano consentiu que Cleópatra sepultasse o corpo de Antônio no mausoléu, em uma cerimônia suntuosa, típica da realeza. Devido ao pesar que ela sentia pela morte de Antônio e pelas dores que ela sentia devido aos golpes que ela mesmo desferira contra os próprios seios, Cleópatra acabou ficando doente após o funeral, e até deixou de comer. Ela ficou aos cuidados do médico Olympus, a quem ela pediu conselhos sobre a melhor forma de cometer suicídio, como o próprio Olympus escreveria mais tarde em um livro, que deve ter sido consultado por Plutarco.

Temendo a morte de Cleópatra, o que esvaziaria o seu triunfo, Otaviano ameaçou-a com relação ao bem-estar dos filhos dela, e, assim, preocupada com o destino deles, a rainha acabou consentindo em receber cuidados médicos.

Mesmo assim, o próprio Otaviano resolveu visitar Cleópatra em pessoa, o que, segundo Dião Cássio, teria ocorrido a pedido dela. Na narrativa deste historiador, Cleópatra mandou arrumar o quarto da forma mais esplêndida e luxuosa, onde foram espalhadas imagens de seu antigo amante Júlio César, o pai adotivo de Otaviano. E Cleópatra também colocou a seu lado, as várias cartas de amor que ela recebera de César. Então, quando Otaviano entrou, ela teria se jogado aos pés dele, em sinal de submissão, e, depois de ter lido trechos ardentes da carta, Cleópatra tentou seduzir Otaviano com olhares lânguidos e voz melosa, terminando por dizer a ele que, se ela o tivesse, seria como se ela tivesse César, e que César viveria nele.

Sobre esse episódio, eu prefiro a narrativa de Plutarco:

“Após alguns dias, o próprio César (Otaviano) veio conversar com ela e confortá-la. Ela estava deitada numa cama simples de estrado, vestida apenas com a sua túnica, mas saltou da cama quando ele entrou e se jogou aos pés dele; o cabelo e o rosto dela estavam terrivelmente desarrumados, sua voz tremia, e os seus olhos tinham olheiras. Havia também muitas marcas visíveis das cruéis pancadas no peito dela: em uma palavra, o corpo dela parecia não estar em melhor estado do que o seu espírito. Apesar disso, o charme pelo qual ela era famosa, e o impacto da sua beleza, não estavam de todo extintos, ao contrário, apesar dela estar naquela situação lamentável, eles resplandeciam e se manifestavam nas expressões dela. Após César (Otaviano) ter rogado para que ela se deitasse e ele próprio  ter se sentado próximo a ela, ela começou a fazer uma espécie de justificativa das suas ações, atribuindo-as à necessidade e ao medo que sentia de Antônio; Contudo, enquanto César (Otaviano) discordava dela e a refutava em cada ponto, ela rapidamente mudou de tom e buscou sensibilizá-lo com as suas preces, como se ela fosse alguém que, acima de todas as coisas, agarrava-se à vida. E, finalmente, ela lhe deu uma lista de todos os tesouros que ela possuía; Nesse momento, quando Seleucus, um dos camareiros dela, demonstrou, conclusivamente, que ela estava escamoteando e escondendo alguns deles, ela saltou da cama, agarrou-o pelos cabelos e despejou uma saraivada de golpes no rosto dele.  E quando César (Otaviano), com um sorriso, fez com que ela parasse, ela disse: “Mas não é uma coisa horrível, Oh, César, que quando tu te dignaste a vir e falar comigo, embora eu esteja nesta situação miserável, os meus escravos me denunciem por separar alguns adornos femininos – não para mim mesma, é claro, mulher infeliz que sou – mas para que eu possa dar alguns presentes insignificantes para Otávia e para tua Lívia, e, mediante a intercessão delas, te fazer mais piedoso e gentil?” Então César (Otaviano) ficou satisfeito com este discurso dela, restando totalmente convencido de que ela queria continuar viva. Consequentemente, ele disse que ele deixaria esses assuntos por conta dela, e que, em todos os outros aspectos, ele lhe daria o tratamento mais esplêndido que ela poderia esperar. Ele, então, saiu do quarto, supondo que a tinha enganado, mas ele é quem seria enganado por ela”.

Uma vitória na morte

Plutarco narra, ainda, que um dos companheiros de Otaviano, chamado Cornelius Dolabella, que tinha uma certa queda por Cleópatra, conseguiu avisá-la de que Otaviano havia mandado as legiões se aprontarem para marchar pela Síria, e que, dentro de três dias, ele iria envia-la para Roma junto com os filhos. Cleópatra agora tinha certeza de que a intenção de Otaviano era exibi-la acorrentada em carro aberto em seu triunfo pelas ruas de Roma, perante o populacho da cidade.

Então, no dia 12 de agosto de 30 A.C. (alguns defendem que foi no dia 10), Cleópatra pediu aos seus captores para que lhe fosse permitido entrar no mausoléu para proceder alguns ritos religiosos em honra de Antônio. Obtida a permissão dos romanos, Cleópatra tomou banho, fez uma suntuosa refeição e mandou as suas duas servas de maior confiança, que se chamavam Charmion e Iras, vestirem-na com os trajes de gala da realeza ptolomaica.

Enquanto isso, chegou na antessala dos aposentos de Cleópatra, um camponês trazendo um cesto. Os guardas perguntaram o que havia dentro dele e o camponês respondeu que eram figos para a rainha, abrindo a tampa. Os guardas olharam e o camponês, sorrindo, disse que eles poderiam ficar com alguns.  Acreditando que não havia motivo para desconfiarem, os guardas deixaram o homem entrar e deixar o cesto no quarto.

Após o banho, Cleópatra chamou um mensageiro e entregou uma mensagem em uma tabuleta selada para que fosse entregue a Otaviano. Depois que o mensageiro saiu, Iras e Charmion trancaram as portas do aposento.

Quando Otaviano abriu a carta e leu o seu conteúdo, o seu rosto deve ter ficado lívido: entre várias lamentações e pedidos, Cleópatra implorava para que ele a enterrasse junto com Antônio. O futuro imperador percebeu imediatamente do que se tratava e mandou que alguns dos seus auxiliares fossem o mais rápido possível até os aposentos de Cleópatra. Todavia, quando os guardas romanos, que ainda não sabiam de nada, abriram as portas, encontraram Cleópatra já sem vida, deitada sobre uma colcha de ouro, vestida com os trajes reais. Eles ainda puderam ver que Iras agonizava,  já sem sentidos, aos pés da sua rainha, e, por sua vez,  Charmion,  também já quase desfalecendo, arrumava o diadema sobre a testa de Cleópatra. Plutarco conta que alguém, indignado, chegou a dizer, em tom de repreensão: “Bela ação, Charmion!“, tendo a serva respondido, antes de também cair morta:

“Sem dúvida, é a mais bela, e condizente com a descendente de tantos reis”

Uma das muitas representações artísticas da morte de Cleópatra está no Museu dde Belas Artes de Toulouse, por Jean-André Rixens (1874), Public domain, via Wikimedia Commons

Tanto Plutarco quanto Dião Cássio afirmam que ninguém soube a causa exata da morte de Cleópatra, mas que havia duas picadas no braço. O primeiro menciona os comentários de que ela foi mordida por uma áspide (serpente) a qual estaria escondida no cesto de figos, e o segundo, que o réptil estaria dentro de um jarro d’água. Mas os dois historiadores também citam que havia quem afirmasse que Cleópatra teria usado um palito ou prendedor de cabelo oco, contendo veneno, para se espetar. Provavelmente, segundo Plutarco, a versão da picada da cobra também era a que Otaviano acreditava, pois, no triunfo que ele celebrou pela vitória sobre Cleópatra, uma imagem da rainha egípcia com uma serpente agarrada nela foi carregada junto com a  procissão. (Nota: tratamos desta imagem, e da aparência de Cleópatra, em nosso artigo: “O Retrato Perdido de Cleópatra“.

Ao receber a notícia da morte de Cleópatra, Otaviano ficou consternado, tanto pela grandeza de  espírito  que ela demonstrara, quanto pelo fato de ele ter sentido que ela lhe roubara a glória do seu tão desejado triunfo. Se verdadeiro o relato de Dião Cássio, Otaviano chegou a mandar que fossem administradas drogas e sugado o sangue de Cleópatra por um membro da tribo dos Psylli, especialistas em serpentes, em uma vã tentativa de ressuscitá-la.. Seja como for, ele deu ordens para que o corpo dela fosse sepultado ao lado do de Marco Antônio, com a pompa da realeza. E até Charmion e Iras também tiveram direito a um enterro solene.

EpílogoVitória na “Batalha dos Genes”

Quando morreu, Cleópatra tinha 39 anos de idade. Com a morte dela, o Egito foi incorporado como uma província de Roma (o Império Romano começaria oficialmente em 27 A.C., com Otaviano recebendo o título de “Princeps” e o cognome de Augusto, tornando-se o primeiro imperador).

Os três filhos que  Cleópatra teve com Marco Antônio  foram poupados por Otaviano e, depois deles serem exibidos na procissão triunfal pelas ruas de Roma, foram entregues para serem criados pela irmã dele, Otávia.

Os meninos não atingiriam a idade adulta e não se sabe ao certo o que aconteceu com eles.

Contudo, a menina, Cleópatra Selene, casou-se com o rei Juba II, da Numídia, tornando-se rainha da Mauritânia, e boa parte dos estudiosos acredita que o filho dela, Ptolomeu da Mauritânia, através do casamento com Júlia Urania, teve como filha Drusilla da Mauritânia, que, por sua vez, casou-se, em segundas núpcias, com Gaius Julius Sohaemus Philocaesar Philorhomaeus, membro da família real da cidade síria de Emesa (os Sempseramidas, que também eram sumo-sacerdotes do deus El-Gabal), o qual reinou, como rei-sacerdote, entre 54 e 73 D.C..

Busto de Ptolomdu da Mauritânia, Museu do Louvre, foto de Marie-Lan Nguyen 

Sohaemus e Drusilla tiveram um filho, de nome Gaius Julius Alexion, que também reinou em Emesa, entre 73 e 78 D.C (após o que o reino foi incorporado à Província Romana da Síria) e é mencionado em uma inscrição tumular em Emesa como sendo pai de Gaius Julius Sampsiceramus, que, por sua vez, é considerado por alguns prosopografistas como antepassado de Gaius Julius Bassianus, sumo-sacerdote de El-Gabal.

O motivo pelo qual estamos traçando para o leitor esta talvez tediosa genealogia é porque Gaius Julius Bassianus foi o pai de Júlia Domna, uma integrante da família real de Emesa que casou com o futuro imperador romano Septímio Severo (193-211 D.C.), e foi mãe dos imperadores Geta (209-211 D.C) e Caracala (198-217 D.C). Por sua vez, Júlia Maesa, a outra filha de Bassianus, teve duas filhas, Julia Soemias Bassiana, que foi a mãe do imperador romano Elagábalo (Heliogabalus 218-222 D.C). e Julia Avita Mamea, mãe do imperador romano Severo Alexandre (222-235 D.C).

Busto da imperatriz Julia Domna
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Domna_(Julia_Pia),inv._2210,_RomanBraccio_Nuovo,_Museo_ChiaramontiVatican_Museums-_DSC00897.jpgna, no Museu Chiaramonti, Vaticano,

Portanto, temos como uma grande ironia do destino o fato de que é altamente provável que Cleópatra seja antepassada direta de quatro imperadores romanos, enquanto que Augusto, o seu algoz, somente teve dois descendentes diretos como imperadores: Calígula e Nero

Vale também citar que, entre os presumidos descendentes de Cleópatra está a célebre rainha Zenóbia, de Palmira, que alegava ser descendente da rainha egípcia, e que, no final do século III D.C chegou a conquistar a Síria e o Egito, ameaçando a própria sobrevivência do Império Romano. Segundo relata a História Augusta, depois de derrotada e levada para Roma, em triunfo, Zenóbia teria se casado com um senador romano e com ele teve filhos. De fato, a efígie da rainha até mostra alguns traços de semelhança com as imagens convencionais de Cleópatra, notadamente o penteado ao estilo “melão. Porém, essa ascendência de Zenóbia é considerada por muitos estudiosos como bem menos provável.

Zenobia_obversee.png
A rainha Zenóbia, de Palmira, uma possível descendente de Cleópatra, foto Classical Numismatic Group, Inc

CONCLUSÃO

Foi somente graças à Cleópatra que o Egito conseguiu ficar independente por mais 20 anos, depois da grande guerra civil de Roma. Valendo-se apenas de sua inteligência, ela influenciou os dois homens mais poderosos do Império mais poderoso que o Mundo Clássico até então havia conhecido, e, mais do que isso, manobrou-os para conseguir os seus objetivos políticos. E, por pouco, ela não conseguiu, ainda que isso pudesse ter durado apenas alguns anos, tornar Alexandria a capital do mundo romano e governá-lo junto com Marco Antônio, chegando próxima de criar uma dinastia “Júlio-ptolomaica”. Enfim, Cleópatra mostrou ao mundo que uma grande mulher não era inferior aos grandes homens do seu tempo.

Dificilmente um escritor ou roteirista conseguiria imaginar eventos de tamanha dramaticidade como a história de Cleópatra. Episódios como a entrada no palácio enrolada no tapete, o cruzeiro junto com César pelo Nilo, a morte trágica de Antônio e o próprio suicídio dela, caso fossem escritos como ficção, certamente seriam tachados de mirabolantes e até poderiam causar rubor ao seu autor. E, no entanto, tudo isso aconteceu de verdade!

Sem dúvida, Cleópatra foi…uma inimitável vivente!

FIM

©EduardoAndré

Não deixe de ler nosso artigo “O Retrato Perdido de Cleópatra“.

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TRAJANO – O ÓTIMO IMPERADOR

“Felicior Augustus, melior Traianus” (“Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano”)

“Tanto respeito tem sido tributado à memória dele, que, mesmo em nossos tempos, eles aclamam em voz alta aos imperadores: “Mais feliz do que Augusto, melhor do que Trajano!”

Eutropius, Breviarium

De acordo com o historiador romano Eutrópio, que escreveu duzentos e cinquenta anos após a morte do Imperador Trajano, ainda no tempo dele os senadores romanos aclamavam cada novo imperador com a seguinte saudação: “Felicior Augusto, Melior Traiano“, esperançosos de que o novo monarca tivesse um reinado mais feliz do que o de Augusto e reinasse melhor do que Trajano. Assim, dentre os cerca de cinquenta homens que, a partir de Augusto até o final do século IV, haviam assumido o título de imperador romano, Trajano, foi considerado por muitos, senão por toda a posteridade de seus súditos, como tendo sido o melhor deles.

Quais foram os motivos para tamanho reconhecimento?

1- Origem familiar

Marco Úlpio Trajano (Marcus Ulpius Traianus-II) nasceu na cidade de Itálica (no território da atual Santiponce, na vizinhança de Sevilha), que ficava na província romana da Hispania Baetica, no dia 18 de setembro de 53 D.C.. Ele era filho de Marcus Ulpius Traianus -I e de Marcia, que por sua vez era filha do senador romano Quintus Marcius Barea Sura, e cujo pai, Quintus Marcius Barea Soranus, tambem havia sido um senador romano e Consul Suffectus (substituto) no ano de 34 D.C.

A cidade de Itálica foi fundada em 206 A.C. pelo grande general e político romano Cipião, o Africano, ainda durante a Segunda Guerra Púnica, como uma colônia romana habitada por soldados auxiliares veteranos do referido conflito, originários da Itália, sendo essa a razão do nome escolhido.

Anfiteatro de Itálica, foto Tyk)

Em algum momento, não sabemos se quando da fundação da cidade ou posteriormente, romanos da gens Úlpia (Ulpii), originária da cidade italiana de Tuder (atual Todi), que fica na região da Úmbria, instalaram-se em Itálica. Considerando que Tuder foi conquistada pelos romanos em 217 A.C., não é impossível que os Úlpios tenham sido soldados auxiliares recrutados pelos romanos na cidade e, nesta condição, eles estivessem entre os colonos italianos pioneiros de Itálica.

panorama da atual Todi

Mais tarde, os Ùlpios uniram-se a outra família radicada em Itálica, a gens Traii, ou, mais provável, algum membro desta família foi adotado por um Úlpio, dando origem à família dos Úlpios Trajanos (Ulpii Traianii). Vale notar que há uma corrente de historiadores espanhóis que defendem que os antepassados de Trajano seriam descendentes do povo ibérico dos Turdetanos, que habitava a região e, portanto, o futuro imperador teria sido o primeiro cidadão romano de origem não-italiana (“estrangeira”) a assumir o trono do Império Romano, como afirma o historiador romano Dião Cássio (Livro LXVIII, 4, 1). Nessa linha, os Traii seriam uma família nativa da região, que foram romanizados após a fundação de Itálica. Segundo uma teoria, o membro da gens Traii que teria sido adotado por um Úlpio pode muito bem ter sido o próprio pai do imperador Trajano.

“Mas Nerva não considerava que os laços familiares estivessem acima da segurança do Estado, nem estava ele menos inclinado a adotar Trajano por ser este um espanhol, em vez de um italiano ou italiota, visto que nenhum estrangeiro previamente havia sido soberano romano.”

Cassius Dio, Livro LXVIII, 4,1

É bem provável que os antepassados de Trajano, pertencendo a famílias integrantes da elite de Itálica, fossem proprietários de vastas propriedades agrícolas, e que eles tenham enriquecido principalmente devido à plantação de oliveiras, produção e exportação de azeite, produto pelo qual até hoje a região é conhecida. Aliás, é curioso que uma das explicações para a origem do nome “Traii” é que ele seria derivado da palavra ibérica nativa “traha“, que dava nome a uma ferramenta agrícola utilizada para lavrar a terra (vide https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

Seja como for, o primeiro Úlpio a alcançar uma posição de proeminência na História de Roma foi o pai de Trajano, Marcus Ulpius Traianus-I (Traianus Pater ou Trajano Pai). Nascido por volta de 25 D.C. (data estimada por Julian Benett, autor do livro “Trajan: Optimus Princeps, Ed. Routledge), em Itálica, tendo uma irmã conhecida como Ulpia, o pai de Trajano comandou a Legião Romana X Fretensis durante a Grande Guerra Judaica, que durou de 66 a 70 D.C., servindo diretamente sob o comando geral do respeitado general Vespasiano, que em breve seria aclamado imperador romano, em 69 D.C. A Décima Legião era provavelmente a legião mais afamada do exército romano, recrutada e comandada pelo próprio Júlio César. Vale notar que antes de deixar a Judéia para ir reclamar o trono do Império, Vespasiano chegou a instalar o seu quartel-general no acampamento conjunto da Legião X Fretensis e da Legião V Macedonica. O Historiador romano de origem judaica, Flávio Josefo, inclusive narra, em sua obra A Guerra do Judeus, várias ações militares comandadas por Trajano Pai.

Cabeça de estátua de Marcus Ulpius Traianus Pater (Pai de Trajano)

Portanto, sem dúvida, o desempenho de Marcus Ulpius Traianus-I deve ter impressionado o futuro imperador Vespasiano (que já devia conhecê-lo, já que as famílias eram próximas, como em breve veremos) que, em reconhecimento aos serviços por ele prestados na referida campanha, após assumir o trono imperial, nomeou Trajano Pai governador da província romana da Capadócia e, em seguida, este recebeu a grande honraria de ser nomeado Consul Suffectus, nos meses de setembro e outubro de 72 D.C.. Continuando sua trajetória bem-sucedida, Trajano Pai foi, sucessivamente, nomeado Governador da província romana da Síria, entre 73 e 74 D.C., Procônsul da Ásia, de 79 a 80 D.C., e governador da província de origem da sua família, a Hispania Baetica, em uma data não precisada. Sem dúvida, tratava-se de uma carreira pública brilhante, certamente turbinada pela antigos laços amistosos que havia entre ele e Vespasiano.

Busto de Vespasiano, foto de shakko, under CC BY-SA 3.0

Vale notar que o fato de Trajano Pai ter sido nomeado pelo imperador Nero comandante (Legatus Legionis) da X Legião Fretensis, que pode ser considerada uma unidade de elite, demonstra, no contexto da organização do Exército Romano implementada por Augusto, que ele já tinha se tornado senador e ocupado o cargo de Pretor. Assim, muito provavelmente, ele já deveria ser um militar experimentado. É, ainda, possível, como especula Julian Benett, que a carreira de Trajano Pai tenha sido ajudada por um conterrâneo espanhol que era muito influente no início do reinado de Nero: Lucius Annaeus Seneca (Sêneca, o Jovem), um nativo de Corduba, cidade igualmente situada na Hispania Baetica.

Por volta do ano 47 D.C., Marcus Ulpius Traianus -I casou-se com Márcia, que era integrante de uma família que pertencia a uma gens de prestígio, a qual, embora de origem ancestral plebeia, reivindicava ser descendente de Anco Márcio, um dos reis lendários de Roma. Como já vimos, Márcia era filha e neta de senadores, e sobrinha e neta de cônsules e, portanto, um casamento com um pretendente que não pertencesse à classe senatorial seria impensável. É provável, então, que o anterior casamento de Ulpia, tia de Trajano, com um filho de um senador romano de uma proeminente família também radicada em Itálica, tenha facilitado a união.

Por sua vez, Márcia, a futura mãe de Trajano, era irmã de Marcia Furnilla, que, em 63 D.C., casou-se com Tito Flávio Vespasiano (Tito), o filho mais velho de Vespasiano, que era muito amigo do pai dela, o senador Quintus Marcius Barea Sura. Mais tarde, o tio de Márcia, Quintus Marcius Barea Soranus, foi acusado de conspirar contra Nero e obrigado a suicidar-se, em 66 D.C. Em função disso, a família de Márcia caiu em desgraça, e Tito achou mais prudente divorciar -se de Marcia Furnilla, mas ficando, entretanto, com a guarda da filha que ambos tiveram em 64 D.C., que recebeu o nome de Julia Flavia.

Acredita-se que este busto retrate Marcia Furnilla, foto Carole Raddato 

Em agosto de 48 D.C., Marcus Ulpius Traianus -I e Márcia foram pais de uma menina, que recebeu o nome de Ulpia Marciana.

Cabeça de Ulpia Marciana

2- Infância e Juventude

E, em 18 de setembro de 53 D.C., nasceu a segunda cria do casal, o primeiro varão, que recebeu o mesmo nome do pai, Marcus Ulpius Traianus – II (Marco Úlpio Trajano, o futuro imperador Trajano). A criança nasceu em Itálica, lar ancestral dos Úlpios Trajanos, onde o patriarca devia passar parte do ano supervisionando as suas propriedades e recebendo a sua clientela.

Não sabemos detalhes da infância do menino Trajano. Ao vestir a toga virilis, por volta dos 14 anos, que marcava o início da idade adulta, certamente ele passou a se inteirar mais dos negócios do pai. E, quando ele atingiu a idade militar, já no início do reinado de Vespasiano, o seu pai estava prestes a assumir o cargo de governador da importante província da Síria, um posto que implicava no comando das numerosas legiões ali estacionadas. É, então, quase certo que Trajano deva ter iniciado sua carreira militar na Síria, na condição de tribuno, algo que sua posição como filho de um senador lhe permitia. É bem possível que, na Síria, Trajano tenha presenciado de perto quando seu pai repeliu uma incursão dos Partos.

As fontes antigas, tais como Cássio Dião e a Epitome De Caesaribus, atribuída a Sexto Aurélio Victor, denotam que Trajano não teve uma educação esmerada, algo que, certamente, deve-se ao fato dele, desde muito jovem, ter se dedicado inteiramente à carreira militar, provavelmente passando a sua juventude no meio dos soldados, entre quartéis e acampamentos:

“Faltava-lhe educação, no sentido estrito da palavra, quando se tratava de oratória, mas o conteúdo, ele tanto conhecia como empregava.”

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4

Ele estimava grandemente pessoas muito francas ou homens muito eruditos, embora ele mesmo tivesse conhecimento teórico superficial e fosse moderadamente eloquente.”

Aurelius Victor, 149, 8

Fontes sobre Trajano

Nesse ponto de nossa biografia de Trajano é preciso dizer que as fontes históricas sobre o seu reinado, em comparação com a dos seus antecessores, são de certo modo bem esparsas. O relato mais completo sobrevivente é feito pelo historiador Cássio Dião (Cassius Dio ou, ainda, Dion Cássio) que escreveu um século depois do reinado de Trajano uma História de Roma até aos seus próprios dias, porém, o livro 68, que trata do referido imperador, é na verdade uma coletânea ou resumo (Epitome) produzida posteriormente nos tempos do Império Bizantino. Há ali, não obstante, algumas informações importantes sobre Trajano, tanto na sua biografia, como, em menor número, na do seu sucessor, Adriano. A “Epitome de Cesaribus“, atribuída a Sextus Aurelius Victor, é basicamente uma sinopse contendo ainda mais curtos resumos do reinado dos imperadores romanos e o capítulo 13, que trata de Trajano, tem somente 15 linhas, a mesma característica aplicando-se ao resumo do reinado dele contido no Breviarium, de Eutrópio. O historiador eclesiástico romano Eusébio de Cesaréia, em sua História da Igreja, também relata alguns fatos ocorridos no reinado de Trajano, notadamente acerca da Guerra de Kitos. Finalmente, o historiador romano-bizantino João Malalas, do século VI D.C., ainda que por vezes impreciso e não muito consistente, fornece informações sobre a campanha de Trajano contra os Partas. As cartas trocadas entre o Caio Plínio Segundo, mais conhecido como Plínio, o Jovem, que era amigo de Trajano, e o imperador, no período em que o primeiro serviu como governador da Bitínia, revelam informações de primeira mão e também pistas sobre algumas ações, motivações, preocupações de Trajano e o seu caráter como governante. De Plínio também nos chegou um revelador Panegírico, um discurso de saudação escrito no ano 100, que apesar do tom bajulador, traz informações valiosas sobre a percepção senatorial da conduta do imperador. Lúcio Flávio Arriano Xenofonte (ou Arriano de Nicomédia) escreveu uma História da Pártia (Parthica), que também aborda a campanha de Trajano contra os Partas, mas da qual somente sobrevivem poucos fragmentos, embora valiosos. Finalmente, há algumas informações sobre o reinado de Trajano nas Cartas de Marco Cornélio Frontão ao imperador Marco Aurélio e também nos Discursos de Dião Crisóstomo (ou Dião de Prusa). Não obstante, sobreviveram muitos monumentos, estátuas, moedas e inscrições, além de achados arqueológicos, que ajudam a preencher essas lacunas, como por exemplo, a Coluna de Trajano.

Desse modo, não sabemos muitos detalhes do início da carreira militar de Trajano.

Por volta de 75 D.C., mais ou menos, Trajano casou-se com Pompeia Plotina, uma conterrânea nascida na província da Hispania. Provavelmente, este foi um casamento para atender os interesses locais de ambas as famílias. Plotina, não obstante, mostraria durante toda a sua vida, ser uma mulher muito culta, inteligente, austera e virtuosa. Entretanto, o casal jamais geraria um filho, talvez devido à orientação sexual de Trajano, que, segundo os relatos dos historiadores, sempre demonstrou muita atração por rapazes, preferência que, juntamente com o vinho, parece ter sido seu único vício, segundo os autores antigos:

É claro que eu sei que ele devotava-se aos garotos e ao vinho, porém, se ele alguma vez tivesse praticado ou levado a cabo algum ato baixo ou maligno como resultado disso, ele teria incorrido em censura; do jeito que foi, entretanto, ele bebia todo vinho que queria, e permanecia sóbrio, e, em suas relações com rapazes, ele não fez mal a ninguém

Cassius Dio (Livro LXVIII 7, 4)

Em 78 D.C., Ulpia Marciana, a irmã de Trajano, ficou viúva, e foi morar com Trajano e Plotina, levando com ela sua filha, Salonina Matidia, que tinha dez anos de idade. Trajano se afeiçoou muito à sobrinha e passou a tratá-la como se fosse sua própria filha. Os tios devem ter arranjado o casamento precoce de Matidia com o senador de uma ilustre família de status consular, Lucius Vibius Sabinus, união da qual nasceria, em 83 D.C., uma menina, que recebeu o nome de Vibia Sabina. Pouco depois do nascimento da filha, porém, Sabinus faleceu. Matídia, agora viúva, ainda se casaria mais duas vezes, a última delas com Marcus Annius Verus-I, um rico senador de uma família também originária da Hispania Baetica. Desta última união, nasceriam, entre outros: Anna Galeria Faustina, que seria esposa do futuro imperador Antonino Pio, e Marcus Annius Verus-II, pai do futuro imperador Marco Aurélio.

Busto de Salonina Matídia, foto de Clio20

Em 81 D.C., Trajano foi designado para o cargo de Questor na cidade de Gortyn, que era a capital da província romana de Creta. Os Questores provinciais podiam ser, de acordo com a organização política do Império Romano da época, os auxiliares militares diretos do governador da província, ocupando a posição de segundo em comando das tropas ali estacionadas.

Cumprida a designação em Creta, Trajano voltou para a sua província natal e, em 86 D.C., ele assumiu o comando da VII Legião Gemina, uma unidade militar que havia sido recrutada pelo imperador Galba na própria Hispania, e cujo quartel-general (Castra Legionis), deu origem à atual cidade de Léon, nome que deriva do seu nome original – Legio (Legião, em latim). Certamente, Trajano, nessa época, já devia ter virado Senador, pois já atingira a idade mínima legal de 30 anos e tinha sido Questor, o que lhe permitiu ser apontado para o referido comando.

Também em 86 D.C., ocorreu o falecimento de Publius Aelius Hadrianus Afer, primo de Trajano, que era viúvo. Hadrianus Afer era filho do senador Publius Aelius Hadrianus Marullinus, ele mesmo filho e neto de senadores, e de Ulpia, a irmã do pai de Trajano. Os Élios (Aelii) eram, como os Úlpios, uma rica família descendente dos colonos italianos que fundaram Itálica.

Hadrianus Afer deixou órfãos, em Itálica, um filho de dez anos de idade, de nome Publius Aelius Hadrianus (o futuro imperador Adriano) e uma menina de onze anos, chamada Aelia Domitia Paulina. As crianças ficaram sob a tutela do primo em segundo grau, Trajano, e de Publius Acilius Attianus, um outro cidadão de Itálica, provavelmente um amigo da família, sendo que os dois podem ter sido indicados pelo falecido pai delas em testamento.

3- Ascensão de Trajano

A primeira oportunidade que Trajano teve desempenhar um papel relevante na grande cena da história política de Roma ocorreu em 89 D.C., quando ele, no comando da ajudou a debelar uma revolta liderada por Lúcio Antônio Saturnino, governador da província da Germânia Superior, contra o imperador Domiciano.

Cabeça do imperador Domiciano

A Revolta de Saturnino, suspeita-se, estava ligada a uma conspiração senatorial maior, decorrente do comportamento crescentemente despótico de Domiciano em face dos senadores, e a uma série de reveses militares, especialmente contra os Dácios.

Os Dácios eram um povo indo-ariano de origem Sármata, originalmente das estepes da europa oriental, que, por volta de 300 A.C, assentou-se no território hoje conhecido como Romênia. Após se tornarem agricultores, os Dácios passaram também a explorar as ricas minas de ouro, ferro e cobre que havia no seu território e, no século I A.C., eles fundaram um reino que, à exceção do Império Romano, tornou-se o único Estado organizado da Europa, e situado na sensível fronteira romana do Danúbio.

Em 85 D.C., provavelmente estimulados pelo fato de que o Exército Romano, recentemente saído de uma campanha inconclusiva contra os germânicos Catos, estava ocupado com operações no norte da Britânia (e também com a construção de uma linha de paliçada e fortificações, o Limes Germanicus, no território incorporado dos Agri Decumates, entre o Reno e o Danúbio Ocidental, encurtando a fronteira das recém-criadas províncias da Germânia Superior e Inferior), os Dácios invadiram a Província da Moésia, na região próxima ao Mar Negro, chegando a matar o governador romano da proví­ncia. 

A campanha contra os Dácios terminou com a vitória parcial dos romanos, comandados por Cornélio Fusco, em 86 D.C. Porém, pouco tempo depois, os Dácios novamente voltaram a atacar os romanos, ocasião em que a Legião V, comandada por Fusco, foi destruída, na Primeira Batalha de Tapae (Tapas), um desastre militar no qual o próprio Fusco perdeu a vida. Os Dácios, posteriormente, foram derrotados pelo general Tettius Julianus (Segunda Guerra Contra os Dácios), sem que, contudo, a capital dácia, Sarmizegetusa, fosse tomada.

Inclusive, especula-se que devido à crescente pressão na fronteira do Danúbio, em função da guerra contra os Dácios e também a incursões dos Suevos e dos Sármatas, que se somavam à agressão dos Catos, Domiciano foi obrigado a ordenar uma retirada total das tropas romanas na Caledônia, onde os romanos enfrentavam resistência, recuando a fronteira romana uns 120 km para o sul da ilha da Grã-Bretanha.

Pressionado em vários frontes e, naquela altura da vida, não parecendo muito disposto a trocar os prazeres de Roma para se empenhar em duras campanhas militares, Domiciano, assinou com a Dácia um tratado de paz no qual Roma concordava em pagar ao rei Decébalo um subsídio anual de oito milhões de sestércios, uma concessão  que foi muito criticada pelos autores antigos.

Há indícios de que Trajano permaneceu na Germânia, após a Revolta de Saturnino ser debelada, para lidar com as tribos germânicas que tentaram se aproveitar da confusão reinante.

É bem provável que a recompensa pelos bons serviços prestados a Domiciano pela supressão da Revolta de Saturnino e a contenção dos germânicos tenha sido a escolha de Trajano para ser o Cônsul Ordinário para o ano de 91 D.C., cargo que normalmente significava o auge da carreira política para um cidadão romano. Foi nessa época que Trajano trouxe para Roma o grande arquiteto Apolodoro de Damasco, que, durante o seu futuro reinado, e o de seu sucessor, Adriano, se notabilizaria por projetar grandes obras e monumentos na capital e por todo o Império.

O agravamento da paranoia de Domiciano, deflagrada pela Revolta de Saturnino, resultou em uma onda de perseguições e execuções, terminando por acarretar, em 18 de setembro de 96 D.C., o seu assassinato, em uma conspiração palaciana, carreada por pessoas do círculo mais íntimo do imperador, que se sentiu ameaçado, mas que, com toda a certeza, deve ter contado com o apoio de um grupo influente de senadores, possivelmente integrado secretamente por alguns que exerciam comandos militares importantes…

Em um desfecho surpreendente- pela ausência prévia de pretendentes apoiados pela Guarda Pretoriana e/ou de generais aclamados pelas suas tropas nas províncias dirigindo-se à Roma para reclamar o trono, o Senado Romano escolheu o velho senador Marcus Cocceius Nerva (Nerva), homem já sexagenário e sem filhos, como o novo Imperador Romano. Tratava-se obviamente, como até hoje é a opinião de muitos, de um “imperador-tampão”, em uma sintomática solução de compromisso, uma escolha que não significava a volta da supremacia política do Senado, algo que seria inaceitável para o exército, bem como para o populacho, e nem a perspectiva de um reinado duradouro ou o estabelecimento de uma nova dinastia, situação que aplacaria, ao menos por algum tempo, os senadores e generais mais ambiciosos.

Busto do Imperador Nerva

Porém, o assassinato de Domiciano irritou bastante os Guardas Pretorianos, que gostavam dele.

Nessa época, Trajano ocupava o importante posto de Governador da Germânia Superior (não se tem certeza se ele foi nomeado ainda no reinado de Domiciano, ou pelo novo imperador, Nerva). Antes da Germânia, parece que Trajano era governador da província da Panonnia ou da Moesia).

4- Herdeiro do trono

Porém, em outubro de 97 D.C.,  estourou uma revolta da Guarda Pretoriana, liderada por seu comandante, Casperius Aelianus, exigindo a punição dos assassinos de Domiciano. Os Pretorianos chegaram a cercar o palácio imperial, praticamente colocando o imperador na situação de refém. Acossado e humilhado, Nerva teve que ceder, e dois implicados na conspiração contra Domiciano foram executados.

Sem dúvida, a fraqueza de sua posição obrigou  Nerva  a adotar aquele que provavelmente era o general mais prestigiado do Exército Romano no momento: Trajano, comandante das legiões romanas na Germânia, como filho e sucessor. Segundo a narrativa consagrada, esta representou a escolha do homem mais capaz para a sucessão imperial, uma fórmula sucessória que seria a marca da dinastia dos Nerva-Antoninos. O ato de adoção ocorreu perante o Templo de Jupiter Optimus Maximus, na colina do Capitólio.

Consequentemente, Nerva, vendo a si mesmo mergulhado em tal situação de desonra, em virtude da sua velhice, subiu ao Capitólio, e disse em voz alta: “Que possa a a boa Fortuna escutar o Povo e o Senado de Roma e a mim mesmo: Eu, neste ato, adoto Marcus Ulpius Nerva Traianus!”

Cassius Dio (Livro LXVIII 3, 4

O fato é que não sabemos se Trajano pressionou Nerva a adotá-lo ou se esta foi uma decisão voluntária do imperador. Eu pessoalmente acredito que o círculo de senadores hispano-romanos, que havia muitos anos vinha mostrando ser muito influente, deve ter tido alguma participação nessa escolha. Outro ponto a favor de Trajano deve ter sido o fato dele não ser intimamente associado a Domiciano e de não ter participado ou apoiado as perseguições do falecido imperador; Com efeito, apesar de Trajano ter prosperado e experimentado sua grande ascensão na carreira pública durante o reinado daquele odiado imperador, a percepção que deve ter prevalecido entre seus colegas é que isso decorreu exclusivamente dos seus méritos militares.

Certamente abalado pela revolta dos pretorianos, em 1º de janeiro de 98 D.C., Nerva sofreu um derrame, em uma audiência privada. E em 27 de janeiro de 98 D.C, o alquebrado imperador faleceu, aos 65 ou 67 anos de idade, em sua casa situada nos Jardins de Salústio, em Roma, após uma prolongada febre, que surgiu depois do citado derrame. Trajano foi prontamente reconhecido pelo Senado como sucessor, o que não deve ter surpreendido ninguém, pois Nerva já lhe havia concedido o “Poder Tribunício”e o título de “Imperator” (na prática, o comando dos exércitos romanos), e portanto, Trajano era, na prática, um co-imperador. Ele adotou o título e o nome de Imperator Caesar Divi Nervae Filius Nerva Traianus Augustus (Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto).

5- Trajano imperador

O primeiro a levar a notícia da morte de Nerva à Trajano, que se encontrava em Colonia Agrippina (atual Colônia) na Germânia, foi o seu primo Adriano, que cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial, motivo pelo qual Trajano ficou muito grato ao rapaz.

(Nota : Quando Adriano tinha 14 anos, e largou a toga praetexta, Trajano enviou-o à Roma, para se aprimorar nos estudos e iniciar sua carreira pública. Quando da adoção de Trajano por Nerva, Adriano já era tribuno militar. Vale ressaltar, outrossim, que uma fonte relata que Trajano, anteriormente, havia se indisposto com o seu tutelado, quando ele soube do estilo de vida extravagante e perdulário que Adriano estava levando em Roma).

Estátua de Trajano

Surpreendentemente, Trajano, após ser comunicado da morte de Nerva, na Germânia, não se deslocou imediatamente para Roma, preferindo assegurar a lealdade das legiões do Reno antes de se deslocar para a capital, o que somente ocorreria no ano seguinte. Ele diplomaticamente enviou uma carta ao Senado, na qual prometia jamais executar ou cassar um senador.

Creio que Trajano aprendeu bem com os exemplos que ele mesmo presenciou no início de sua carreira militar, durante a crise da deposição e sucessão de Nero, que resultara no chamado “Ano dos Quatro Imperadores“: Galba, Otão e Vitélio de fato não tomaram os cuidados necessários e partiram direto para Roma enquanto havia pretendentes rivais no comando de outras poderosas legiões, o apoio do Senado era incerto e sem que eles tivessem assegurado o controle, ou ao menos a simpatia, da Guarda Pretoriana.

Trajano seria mais prudente, e procurou assegurar-se, antes de marchar para a capital do Império, da lealdade dos comandantes das principais legiões e dos Pretorianos. Vejamos:

O novo imperador contava com o apoio de um outro conterrâneo seu, Lucius Licinius Sura (Licínio Sura), natural de Tarraco, na Hispania Tarraconensis, Consul Suffectus em 93 D.C., e que era o Governador da província da Germânia Inferior, quando Nerva faleceu. Ele tornou-se um grande amigo de Trajano, embora não se possa precisar se amizade era anterior a esses fatos, e durante o reinado deste, receberia inauditas honrarias, como ser designado Cônsul por mais duas vezes (em 102 e 107 D.C.), o que não era comum para quem não fosse da família imperial, ter o seu nome dado a um banho público na cidade de Roma e receber Trajano em sua casa, sem guardas, tendo o imperador, certa vez, se permitido até dormir, tomar banho e ser barbeado ali, para demonstrar sua inteira confiança no amigo. Mais tarde, segundo conta o historiador Sexto Aurélio Vítor, Trajano construiria no Aventino, termas em homenagem a Sura (ou, então, estabeleceria que esses banhos, que teriam sido construídos pelo próprio amigo,deveriam ser batizados em homenagem ao mesmo).

Outro aliado importante de Trajano foi Quintus Sosius Senecio (Sósio Senecião), um senador que também seguira uma carreira militar de sucesso e era o Governador da Província da Gallia Belgica. Certamente, o apoio dele deve ter sido muito valioso para Trajano, pois, já em 99 D.C., Sósio Senecião foi designado Cônsul Ordinário (e, novamente, em 107 D.C.). Da mesma forma, Trajano contou com o apoio de Sextus Attius Suburanus, um experiente militar da classe equestre que ocupara vários postos militares importantes no Exército, desde o início do reinado de Vespasiano, e, formalmente, era subordinado a Sósio Senecião,, exercendo o importante cargo de Procurador da Gallia Bélgica, sendo o responsável por controlar as finanças da referida província e das legiões do Reno.

Finalmente, podemos também citar Aulus Cornelius Palma Frontonianus (Cornélio Palma), mais um senador e comandante de legião, que foi o outro Cônsul Ordinário indicado por Trajano para o ano de 99 D.C., ano em que ele também foi nomeado Governador da Hispania Tarraconensis e, posteriormente, Governador da Síria.

Desse modo, confiante em seu “dispositivo militar”, Trajano, ainda na Germânia, convocou o Prefeito Pretoriano  Casperius Aelianus e outros guardas pretorianos para comparecerem à sua presença, fazendo-os acreditar que tinha alguma missão ou recompensa para lhes dar. Todavia, a sua verdadeira intenção era livrar-se daqueles que, tendo já ameaçado o seu antecessor, não eram dignos de gozar da sua confiança.

Eliminado o perigoso Casperius Aelianus, Trajano nomeou Sextus Attius Suburanus para substituí-lo como Prefeito Pretoriano, enviando-o imediatamente para Roma para assumir o comando da Guarda, onde com toda a certeza Suburanus deve ter escolhido oficiais fiéis ao novo imperador e defenestrado aqueles julgados não-confiáveis. Posteriomene, Suburanus foi recompensado pelos bons serviços, entrando para o Senado Romano e chegando a ser designado Consul Suffectus, em 101 D.C.

O chamado relevo de Cancelleria, retratando guardas pretorianos

De fato, Suburanus revelou-se tão competente e digno de confiança que, segundo o relato de Cássio Dião, quando Trajano entregou-lhe cerimonialmente a espada de Prefeito Pretoriano. ele a desembainhou e a passou às mãos de Suburanus, dizendo:

“Pegue essa espada para que, se eu reinar bem, você possa usá-lá a meu favor; mas, se eu reinar mal, use-a contra mim”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 16, 1,2

O tempo decorrido entre a morte de Nerva e a entrada de Trajano em Roma foi superior a um ano, intervalo que ele aproveitou para inspecionar as fronteiras do Reno-Danúbio, supervisionar a construção do Limes Germanicus e avaliar a ameaça das tribos, enquanto seus homens de confiança “arrumavam a casa”, na capital e no Exército. Embora não se saiba de nenhuma grande vitória que tivesse, então, sido obtida por Trajano contra os Germanos, os seus feitos na província renderam-lhe o título de Germanicus, conferido pelos Senado. Ao partir para capital, ele deixou Adriano na Germânia, no posto de Tribuno Militar.

Ao chegar em Roma, em outubro de 99 D.C., várias ações de Trajano mostraram o seu tato político:

Ele, de início, pagou o tradicional donativo à Plebe Romana, que os imperadores costumavam dar em razão da sua aclamação. Porém, de maneira surpreendente, o igualmente costumeiro donativo que se pagava aos soldados foi reduzido pela metade. Isso, a meu ver, é uma prova evidente da autoconfiança de Trajano de que ele tinha seguro controle do Exército.

Claramente, a nosso ver, o novo governante estava formulando uma ideologia de que o governo imperial deveria ser legitimado pela atenção ao interesse público, pelo respeito à lei, aos direitos dos cidadãos e aos costumes, e, principalmente, pela escolha do governante mais capaz, uma política atribuída, ainda que um tanto eufemística e fantasiosamente, à Nerva, apontado como o fundador da dinastia, e que seria continuada por seu filho adotivo Trajano e, depois, pelos seus sucessores. Tratava-se, obviamente, de uma forma de despotismo esclarecido, uma monarquia autocrática, mas que se prometia limitada pela lei, pela razão e pelo respeito a algumas das prerrogativas históricas da aristocracia romana, corporificada no Senado, a quem o regime reconhecia dever deferência. Como a realidade iria demonstrar, era um regime que dependeria muito da personalidade do monarca: funcionou bem com Trajano, mas de forma um tanto oscilante com seu sucessor Adriano, recuperando-se com Antonino Pio e Marco Aurélio, para desmoronar de vez sob Cômodo….

Aureus de Trajano. No verso, as efígies de Nerva, o pai adotivo, e Traianus, o pai natural

Essa ideologia evidencia-se claramente do texto do Panegírico escrito por Plínio, o Jovem, saudando Trajano, no início do ano 100 D.C, quando o imperador iniciava o seu terceiro consulado. como bem definiu o grande historiador Ronald Syme:

“O discurso não é meramente um encômio de Trajano – é uma espécie de manifesto senatorial em favor da monarquia constitucional “

Ronald Syme, citado por Mark P. O. Morford, no artigo “Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty”, publicado no The American Journal of Philology, vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press

No citado Panegírico, Plínio enfatiza a participação voluntária de Trajano na cerimônia da renuntiatio, uma formalidade dos tempos da República, no qual o resultado das eleições para as magistraturas da República Romana eram anunciados publicamente aos eleitores, e os eleitos faziam um juramento perante os Cônsules. Plínio elogia o fato de Trajano, quando da sua terceira eleição para o Consulado, ter seguido o procedimento costumeiro, que há muito não era observado pelos imperadores, comparecendo pessoalmente à cerimônia e fazendo o juramento de pé, perante o Cônsul em exercício, este sentado em sua cadeira curul, do mesmo modo que faria qualquer senador:

O Povo Romano vos contemplou no lugar solene da Eleição, onde vós pacientemente comparecestes a todas as cerimônias que nesta ocasião são costumeiras, e contentastes-vos em ser feito Cônsul seguindo os mesmos ritos tradicionais, como se fôsseis um de nós. Qual de vossos predecessores jamais condescenderia em fazer esta honra ao cargo, ou ao Povo?”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 63, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Outro texto que ilustra muito bem a acima descrita ideologia do principado é o Terceiro Discurso sobre a Realeza, do filósofo Dião Crisóstomo, também conhecido como Dião de Prusa, que havia sido banido por Domiciano e se tornou amigo de Trajano.

Toda suposta “Era de Ouro” tem que ser precedida de uma era anterior, obviamente feita de um elemento menos nobre, para ser comparada…As fontes romanas do período, marcadamente de pedigree senatorial, encontraram o antípoda de Trajano em seu predecessor Domiciano, cujo período passou a ser retratado como “reinado de terror”.

O temperamento e os modos ao mesmo tempo sóbrios e afáveis de Trajano logo contribuíram para fazê-lo querido pelo povo e pela aristocracia romanas, sobretudo em contraste com o comportamento arrogante, frio e frequentemente misantropo de Domiciano:

A associação dele com o Povo foi marcada pela afabilidade, e a sua relação com o Senado pela dignidade, tanto que ele foi amado por todos e temido por ninguém, a não ser pelo inimigo. Ele se juntava aos outros nas caçadas e em banquetes, e também nos seus afazeres, planos e brincadeiras. Frequentemente, ele levava outros três em sua carruagem, e entrava nas casas dos cidadãos, muitas vezes até sem um guarda, e se divertia lá.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 7, 3

A postura da imperatriz Plotina também contribuiu para enfatizar a nova atmosfera política, respirada por todos como mais fresca e saudável. Segundo Cassius Dio, ao entrar pela primeira vez no Palácio, na colina do Palatino, ela se virou para a multidão, e disse:

“Ao sair, desejo ser a mesma mulher do que quando entrei”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 5, 4

Trajano deu nova ênfase à nomeação de senadores e equestres para cargos importantes, preferindo-os, quando possível, em detrimento da crescente tendência dos imperadores das dinastias dos Júlio-Cláudios e dos Flávios de privilegiarem os seus próprios libertos para exercerem funções importantes para o governo.

Outra característica marcante do reinado de Trajano, e que seria muito apreciada pelos Senadores, foi o pouco número de consulados exercidos pelo Imperador e pela família imperial, em contraste com os seus antecessores, permitindo que muitos senadores se tornassem cônsules. E, de fato, embora o cargo tivesse se tornado, no Principado, meramente honorífico, ele era ainda muito cobiçado pela aristocracia senatorial.

Governante e politico sagaz, Trajano, contudo, jamais deixou de ser, em sua alma, um soldado, profissão que ele exerceu desde os dezoito anos, sendo que, por mais de uma década, ele fora um general do Exército Romano, assim, as habilidades que ele devia dominar com mais maestria, eram as de um comandante militar.

6- Primeira Guerra contra a Dácia

O tratado de paz firmado por Domiciano com Decébalo nunca foi bem digerido pela opinião pública romana. Trajano, ao inspecionar a fronteira do Reno/Danúbio, certamente percebeu, de perto, a crescente ameaça que o Reino da Dácia representava. Segundo Cássio Dião:

Após passar algum tempo em Roma, ele fez uma campanha contra os Dácios; pois ele levou em consideração as ações passadas deles e estava incomodado com a quantidade de dinheiro que eles estavam recebendo anualmente; e ele também observou que o poder e o orgulho deles estava aumentando”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 6, 1

Uma das maiores queixas do Império Romano era que Decébalo não só vinha dando abrigo a um grande número de desertores do Exército Romano, mas também os recrutava para seu exército, valendo-se do dinheiro que ele recebia dos próprios romanos em cumprimento ao tratado assinado com Domiciano. A grande riqueza natural da Dácia, dotada, entre outras coisas, de produtivas minas de ouro, também lhe permitia contratar engenheiros e técnicos romanos, empregados para construir máquinas de assédio, muralhas e outros tipos de defesas. Claramente, Roma temia a competição do único estado organizado na Europa além do Império Romano. Por 150 anos, Roma vinha conseguindo conter com sucesso o Império Parta na Ásia, os Germânicos no Reno/Danúbio e os Celtas na Caledônia. Mas permitir o crescimento de um estado rival na Europa parecia uma ameaça grande demais.

A campanha começou a ser idealizada já em 100 D.C., pois Trajano recrutou duas novas legiões (havia então, 28 legiões no Exército Romano): a XXX Ulpia Victrix e a II Traiana ( OBS: algumas fontes apontam da data de 105 D.C., para esta última, correspondendo à 2ª fase da campanha contra os Dácios). Há, ainda, indícios de que outras duas legiões foram criadas por Trajano para essa campanha, e, posteriormente, extintas por Adriano, por volta de 120 D.C.

Assim, desde que Augusto, após firmar-se no cargo de imperador, após a Batalha de Actium, dissolvera dezenas de unidades, estabelecendo o número máximo de 28 Legiões, mais de um século antes, nunca o Exército Imperial havia sido tão numeroso.

Na primavera de 101 D.C., Trajano considerou que Roma estava preparada para o ataque.

Não há relatos escritos detalhados das batalhas dessa Guerra, mas Trajano nos legou uma crônica visualmente muito informativa, retratada nos relevos da coluna comemorativa que ele mandou construir em seu Fórum (vale a pena conferir todos os relevos aqui http://www.trajans-column.org/?page_id=107#PhotoSwipe1600480583249).

As imagens são bem realistas: o primeiro relevo mostra a fronteira romana com a Dácia, com sua paliçada e torres de vigia. Depois, a narrativa desenrola-se ao longo da coluna como um papiro: entre as centenas de cenas, podemos citar as pontes de embarcações utilizadas para atravessar o Danúbio, as armas, trajes e equipamentos dos romanos e dos Dácios e dos seus aliados sármatas, a frota fluvial romana, as atrocidades, como as cabeças decepadas e mulheres dácias torturando prisioneiros romanos, táticas legionárias como a “tartaruga”, os conselhos de guerra de Trajano; Enfim, é quase como se fosse uma história em quadrinhos sobre as duas guerras contra os Dácios.

Trajano teve que formar um grande exército para a invasão, somando às nove legiões do Danúbio, outras quatro legiões, duas transferidas de outras províncias e as duas recém-criadas para a campanha, já mencionadas. O ataque foi dividido em duas colunas, que, deixando o quartel-general em Viminacium, capital da província da Moesia Superior (Atual Stari Kostolac, na Sérvia, a leste de Belgrado) atravessaram o Danúbio marchando por uma espetacular ponte fluvial em cima de barcaças (muito semelhante às pontes de campanha que os exércitos modernos constroem), avançaram em direção ao centro da Dácia, sitiando cidades e queimando vilas pelo caminho. Seguindo as táticas do manual militar romano, em seu avanço, as tropas cortavam florestas, para abrir passagem e obter material para construir os seus acampamentos. Inclusive, boa parte dos relevos mostra os legionários cavando, cortando árvores e construindo fortificações, deixando claro que o grande diferencial dos romanos não era tanto a bravura ou os armamentos mais sofisticados, mas sim, a disciplina, a engenharia e a logística.

Por volta de setembro de 101 A.C., os romanos infligiram aos Dácios uma derrota na Segunda Batalha de Tapas (Tapae). Segundo Cássio Dião, apesar da vitória, esta foi uma batalha renhida e os romanos tiveram muitas baixas. Os guerreiros dácios destacavam-se por utilizar como armamento principal uma espécie de foice comprida, chamada falx, com a qual os soldados romanos não estavam familiarizados. Essa arma afiada causava terríveis ferimentos, especialmente nos braços desprotegidos dos legionários e obrigou-os a utilizar uma proteção até então típica dos gladiadores: a manica, uma armadura articulada que recobria os braços.

Relevo do Troféu de Trajano, em Adamclissi, mostrando um romano submetendo um dácio, armado com falx. O legionário já está usando uma manica laminata, que foi adotada para proteger os braços. Foto de CristianChirita

Decébalo enviou emissários para negociar e pediu um encontro com Trajano ou alguém de sua confiança. O imperador enviou o seu amigo Licínio Sura e Tiberius Claudius Livianus, que havia substituído Suburanus no comando da Guarda Pretoriana, para negociar; porém, Decébalo não apareceu.

Trajano, ladeado por Licínio Sura e Claudius Livianus, detalhe da Coluna de Trajano, foto de ColdEel

Trajano, então, reiniciou os ataques contra os postos fortificados dácios que ficavam perigosamente nas montanhas do entorno de Tapae, que guardava a entrada para as chamadas “Portas de Ferro”, uma garganta profunda que constitui a única entrada pelo sul para a capital Dácia, Sarmizegetuza, e para o grande e fértil planalto da Transilvânia. Nessas operações, os romanos lograram capturar grande quantidade de armas, máquinas de guerra e até um estandarte romano que havia sido tomado pelos Dácios quando eles derrotaram Cornélio Fusco, na Primeira Batalha de Tapas, no reinado de Domiciano.

Todavia, devido à chegada do inverno, Trajano decidiu interromper as operações, retirando seu exército para, provavelmente, aguardar a retomada da campanha aquartelado em Viminacium, onde os romanos passaram a virada do ano de 101 para o ano 102 D.C.

Neste intervalo, Trajano mandou de volta à Roma o seu pupilo Adriano, onde este assumiu o posto de Questor e casou-se com Víbia Sabina, a jovem filha (18 anos) de Matídia, que, por sua vez, era a muito querida sobrinha-neta de Trajano, a quem o imperador tratava como se fosse sua própria filha.

Busto de Víbia Sabina, esposa de Adriano e futura imperatriz de Roma

Decébalo aproveitou a retirada estratégica dos romanos para, beneficiado pelo congelamento do rio Danúbio, no início de 102 D.C., atravessar o rio e fazer ataques na província da Moesia, junto com seus aliados Roxolanos, uma tribo sármata que se notabilizava pelo emprego da cavalaria couraçada, do tipo catafractos. Provavelmente, o objetivo de Decébalo era atrair os romanos para longe dos Portões de Ferro e da sua capital, Sarmizegetuza.

A cavalaria dos Roxolanos, como retratada na Coluna de Trajano. Vale notar como o escultor tentou reproduzir a descrição feita pelas fontes de que os cavaleiros e os cavalos sármatas eram inteiramente protegidos por armadura.

Mas o estratagema não foi bem sucedido. No início de 102 D.C., Trajano enviou uma força de cavalaria para lidar com os ataques diversionistas de Decébalo, e partiu, novamente em duas colunas, para o norte, em direção a Sarmizegetuza. Os romanos ganharam duas batalhas, a primeira, contra os Roxolanos, no local onde posteriormente Trajano fundaria a cidade de Nicopolis ad Istrum, no norte da atual Bulgária. O segundo enfrentamento, mais decisivo e também vencido pelos romanos. foi na Batalha de Adamclisi, já na região romena da Dobruja (mais tarde, em 109 D.C., os romanos construíriam um grande monumento em homenagem aos 3 mil soldados mortos na batalha, o chamado “Tropaeum Traiani“).

Reconstrução do Tropaeum Traiani, na Romênia, foto de Bogdan Croitoru

Em seguida, uma força comandada por Manius Laberius Maximus (Labério Máximo), outro senador, que já fora Consul Suffectus sob Domiciano, em 89 D.C., tomou uma das fortalezas que guardavam a entrada para a capital dácia, logrando inclusive capturar uma irmã de Decébalo. Para piorar a situação dos Dácios, as duas colunas comandadas por Trajano e Labério Máximo finalmente se uniram, e às duas se juntaram a altamente móvel cavalaria auxiliar moura, liderada por Lusius Quietus (Quieto), posicionando-se todos a apenas 30 km de Sarmizegetuza.

O experiente rei dácio percebeu o tamanho da ameaça que pairava sob sua cabeça e decidiu pedir a paz, concordando com todas as exigências romanos. Os Dácios teriam que entregar aos romanos todas as suas armas, máquinas de assédio e os especialistas que as tinham construído, os quais, provavelmente, eram em sua grande maioria desertores romanos ou romanos a serviço dos Dácios, além de todos os outros desertores romanos, bem como se comprometeram a demolir as fortalezas que guardavam Sarmizegetuza e a abandonar o território romano que eles haviam invadido. Os Dácios comprometiam-se, finalmente, a abster-se de dar abrigo a desertores romanos ou empregar qualquer romano em seu exército e a não se aliar com inimigos de Roma ou não atacar povos aliados dos romanos. Especialmente, a questão da proibição do abrigo aos desertores ou a qualquer pessoa dotada de habilidades técnicas foi enfatizada: Roma não poderia tolerar a competição de outro Estado organizado em suas fronteiras na Europa.

Na cerimônia de assinatura do Tratado de Paz, Decébalo prostrou-se aos pés de Trajano, depondo suas armas em frente do Imperador, tornando-se formalmente um rei-cliente de Roma. Os Dácios também enviaram embaixadores ao Senado Romano, para este ratificasse o tratado.

Retornando para Roma, Trajano celebrou um Triunfo pelas ruas de Roma e foi agraciado com o título de “Dacicus“. Em reconhecimento, Labério Máximo foi designado Cônsul ordinário, em 103 D.C., em companhia do próprio Trajano. Quieto, que era um príncipe berbere de nascimento e que recebera de Domiciano o status de Equestre, foi nomeado senador.

Em Roma, Trajano dedicou-se às outras tarefas que costumavam construir uma boa imagem de imperador: Ele proporcionou ao povo os adorados jogos de gladiadores no Coliseu, e também os espetáculos de pantomimas (ou mimes) nos teatros, os quais haviam sido proibidos pelas medidas de moralização de costumes características do reinado de Domiciano.

7-A administração da Justiça sob Trajano

Trajano também empenhou-se em presidir julgamentos nos tribunais, principalmente no Fórum de Augusto ou no Pórtico de Lívia.

Uma rara imagem de Trajano em trajes civis (Toga), mostra-o concedendo uma audiência a cidadãos, provavelmente comerciantes ou empresários., acompanhado de Adriano. Relevo do Arco de Trajano, em Benevento)

No aspecto legal, Trajano é reconhecido pelos estudiosos do direito romano como o responsável por fazer constar em lei dois princípios hoje considerados como básicos do Direito Penal (vide https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview :

“Nenhum réu poderá ser julgado à revelia no processo penal”

“O réu tem o direito de conhecer e contraditar as testemunhas apresentadas contra si”

O segundo princípio citado surgiu como corolário da proibição instituída por Trajano de que alguém fosse processado com base em denúncias anônimas, um fato comum durante o reinado de Domiciano.

Essas passagens, atribuindo expressamente tais normas a Trajano, constam do Digesto publicado pelo imperador Justiniano, quase cinco séculos depois:

“Uma pessoa ausente não deve ser condenada em um processo criminal, o divino Trajano respondeu em uma consulta a Júlio Frontão. E ninguém deve ser condenado com base em meras suspeitas, o divino Trajano respondeu a Adsiduus Severus; pois é melhor absolver um culpado do que condenar um inocente”.

(Absentem in criminibus damnari non debere, divus Traianus Iulio Frontoni rescripsit. Sed nec de suspicionibus debere aliquem damnari, divus
Traianus Adsiduo Severo rescripsit; satius enim esse, impunitum relinqui
facinus nocentis, quam innocentem damnari)

DIG. 48.19.5pr;

8- Primeiras grandes obras públicas do reinado de Trajano:

  • Porto de Trajano

Ainda em 103 D.C., Trajano ordenou a construção de um enorme cais hexagonal, ligado por um canal ao porto construído pelo imperador Cláudio, visando a desafogar o porto da cidade de Óstia, a 4 km de distância. Com 39 hectares escavados na terra, o Porto de Trajano é ainda hoje uma obra impressionante (O mar recuou várias centenas de metros em 19 séculos, mas subsiste o cais que agora é uma lagoa artificial com seis lados).

Modelo do Porto de Trajano
  • Termas de Trajano

Posteriormente, em 104 D.C., Trajano iniciou as obras de construção do impressionante complexo de banhos públicos, livraria e ginásio que receberia o nome de Termas de Trajano, no Monte Ópio, construído em cima de parte das estruturas que tinham pertencido à Domus Aurea, o enorme palácio do imperador Nero. As Termas de Trajano, provavelmente planejadas por Apolodoro de Damasco, também ofuscavam às vizinhas Termas de Tito, que eram bem menores. O complexo ocupava uma área de mais de 110 mil metros quadrados e a obra somente seria inaugurada em julho de 109 D.C. Estas termas foram as maiores já construídas até então e tornaram-se o modelo para todas as que seriam construídas posteriormente em Roma.

Reconstrução das Termas de Trajano, na maquete da cidade de Roma no século IV feita por I. Gismondi, em exibição no Museu dela Civita Romana, Roma, EUR. Foto de Cassius Ahenobarbus

Foi por essa época (104 D.C.), que Trajano permitiu que Adriano designado para o cargo de Pretor.

9- Optimus Princeps

A partir de 105 D.C. (alguns falam em 103 D.C.) aparecem moedas romanas ostentando a efígie de Trajano acompanhada da palavra “optimus” e/ou “optimo principi” (“melhor dos príncipes”), alcunha que sabemos que ele recebeu por meio de um Senatus Consultum (espécie de decreto legislativo emanado pelo Senado Romano), segundo Cassius Dio (Cassius Dio), mais em função do seu caráter justo e moderado do que em razão de seus feitos militares. No entanto, no livro LXVIII da Epitome de Cassius Dio, consta que o título de Optimus foi conferido pelo Senado Romano após Trajano incorporar a Armênia ao Império Romano, o que ocorreu em 114 D.C. Segundo o referido autor, dentre todos os títulos que Trajano recebeu durante o seu reinado, a alcunha de Optimus era a que ele mais apreciava.

10- Segunda Guerra contra a Dácia

Após a paz, ou melhor seria dizer, trégua, com os Dácios, Trajano, que como general tinha, como uma de suas melhores qualidades, o talento para compreender as necessidades logísticas de uma campanha, ordenou a construção de uma espetacular ponte sobre o rio Danúbio, a fim de possibilitar o deslocamento de reforços e suprimentos para as legiões romanas acantonadas em território ocupado da Dácia e, provavelmente, já antevendo uma futura anexação daquele reino.

A Ponte de Trajano, construída entre 103 e 105 D.C., entre as atuais cidade de Drobeta-Tumu Severin (Romênia) e Kladovo (Sérvia) é seguramente uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade.e, com mais de 1 km de comprimento (1135m) foi a ponte sobre arcos mais longa construída durante mil anos. A obra, que foi projetada por Apolodoro de Damasco, tinha 20 pilares de tijolos e concreto romano que suportavam arcos de madeira.

A Ponte de Trajano, reproduzida em um dos relevos da Coluna de Trajano
Reconstrução moderna de um trecho da Ponte de Trajano, na Romênia (“Trajan’s Bridge over the Danube, Romanian side” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Em paralelo à construção da Ponte de Trajano, os engenheiros militares romanos escavaram uma passagem nas ravinas dos Portões de Ferro que ladeavam o Danúbio, no ponto em que o rio se estreita e as águas correm muito rápido. Essas passagens na verdade serviam como canais, pois o nível das águas era muito mais alto do que hoje em dia (devido à construção da represa de Djerdap), e possibilitavam a comunicação entre os barcos das frotas fluviais das províncias da Moésia e da Panônia.

Todos esses preparativos certamente impeliram Decébalo a transgredir o tratado de paz assinado com os romanos. Assim, segundo Cássio Dião, o rei dácio começou a restaurar as suas fortalezas, voltou a dar asilo e a empregar desertores romanos, a atacar os povos vizinhos que não o apoiassem, inclusive anexando parte do território dos Iáziges e a fazer alianças com outros povos supostamente hostis aos romanos.

O Senado Romano, seguindo a formalidade tradicional, declarou Decébalo inimigo de Roma, o que significava guerra. Trajano assumiu o comando das operações em pessoa e iniciou as operações militares na Dácia.

Visando ganhar tempo, Decébalo, mais uma vez, pediu uma trégua, porém negando-se a debandar o seu exército e continuando a convocar seus vizinhos para ajudar a Dácia.

Ainda de acordo com a narrativa de Cássio Dião, Decébalo chegou a executar um plano para assassinar Trajano, sendo que a tentativa foi frustrada quando os desertores romanos que o rei enviou tencionando que fossem recebidos em audiência pelo imperador foram presos por suspeita e, torturados, revelaram o plano.

Em seguida, Decébalo prendeu o general Gnaeus Pompeius Longinus, um respeitado senador e comandante de legiões romanas na Dácia, após atraí-lo para uma conferência onde o rei supostamente concordaria com as exigências romanas. A ideia era interrogar Longinus acerca dos planos de Trajano e usá-lo como refém para obter alguma concessão dos romanos. Porém, Longinus conseguiu enganar Decébalo, fazendo-o acreditar que ele, através de uma mensagem enviada por um liberto, ele conseguiria convencer Trajano a ceder. Ocorre que, após Decébalo concordar em enviar o liberto a Trajano, Longinus tomou uma poção de veneno que o liberto havia lhe dado e morreu. O liberto, que estava ciente desse plano, ao chegar, contou tudo a Trajano. O rei dácio, então, propôs a Trajano que, se o imperador lhe enviasse de volta o liberto que o havia traído, os dácios devolveriam o corpo de Longinus e mais dez prisioneiros romanos . Entretanto, o imperador, em mais um exemplo de seu caráter e humanidade, julgando que a preservação da vida do liberto, em reconhecimento às suas ações favoráveis a Roma, era mais importante para a dignidade do Império do que o enterro do ilustre Longinus, recusou a proposta.

Nota; As fontes não mencionam, mas as escavações arqueológicas demonstram que, enquanto Trajano ocupava-se da campanha contra a Dácia, as tribos do norte da Britânia, provavelmente aproveitando-se da diminuição do efetivo romano local, que deve ter cedido destacamentos para a Guerra contra Decébalo, lograram sucesso em queimar e destruir um importante forte romano na atual Newstead, na Escócia, além de cerca de 5 fortes menores, obrigando, ainda que não imediatamente, os romanos a retroceder, de maneira organizada, para uma linha mais defensável na altura da passagem do Tyne, mais estreita (Fonte: ”The Reach of Rome, a History of the Roman Imperial Frontier 1st – 5th Centuries AD“, Derek Williams, St. Martin’s Press)

O fato é que os preparativos feitos por Trajano para a Segunda Guerra contra a Dácia provaram-se fundamentais, pois a resistência dácia somente foi vencida graças aos contínuos reforços trazidos pelos romanos, que conseguiram reconquistar as fortalezas que protegiam Sarmizegetusa, que foi cercada.

Nesta campanha, Trajano foi acompanhado por Adriano, que foi designado comandante da Legião I Minervia.

Vendo a sua capital ameaçada pela sede e fome, e sentindo o grande risco de ser capturado pelos romanos, captura que certamente seria seguida pela sua exibição no triunfo de Trajano pelas ruas de Roma, Decébalo conseguiu escapar do cerco à sua capital e fugiu para as montanhas, mas, perseguido e acuado pela cavalaria romana, o rei terminou por cometer suicídio, cortando a própria garganta, em 106 D.C. O cavaleiro Tiberius Claudius Maximus, da Legião VII Claudia Pia Fidelis, por pouco não capturou Decébalo com vida e foi ele quem cortou a cabeça do rei dácio e entregou este cobiçado troféu a Trajano, feito que o soldado fez questão de registrar em sua estela funerária, erguida na cidade de Philippi, na Grécia. Trajano, em reconhecimento, promoveu o soldado ao posto de Decurião.

Este relevo da Coluna de Trajano retrata o momento em que Decébalo comete suicídio. O cavaleiro romano que se aproxima do rei agonizante é Tiberius Claudius Maximus

Para completar a desgraça dos Dácios, um certo Bicilis, um dos membros da corte de Decébalo, revelou aos romanos onde estava escondido o enorme tesouro do rei dácio, que havia mandado enterrar suas riquezas no leito do rio Sargetia, cujo curso ele havia ordenado que fosse desviado enquanto que os súditos que escavaram o canal de desvio, com a finalidade de manter o segredo, foram prontamente executados após a tarefa.

A capital Sarmizegetusa foi eventualmente tomada pelos romanos, em 106 D.C., e totalmente arrasada, tendo seus habitantes sido escravizados.

Ruínas de Sarmizegetusa, foto de
Cosmin Stefanescu
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Assim, segundo as estimativas, os romanos capturaram na Dácia a fabulosa quantidade de 165 toneladas de ouro e de 331 toneladas de prata, além de cerca de 100 mil escravos (Para se ter um termo de comparação, em Serra Pelada, no estado brasileiro do Pará, que foi o maior garimpo registrado a céu aberto do mundo, o máximo de produção alcançado em um ano (1983) foi de 14 toneladas (vide https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u62192.shtml ).

A última resistência dos Dácios foi vencida em Porolissum, local onde os romanos, em 106 D.C., construíram um quartel militar para 5 mil soldados auxiliares e que daria origem à cidade de mesmo nome, que se tornaria capital da província da Dacia Porolissenssis, criada pelo futuro imperador Adriano, em 124 D.C.

A maior parte da Dácia, consequentemente, foi incorporada ao Império Romano, avançando-se a fronteira, no trecho que corresponde a atual fronteira entre a Bulgária e a Romênia, mais de 400 km quilômetros para o norte, além do curso do Rio Danúbio, curso de água que servia uma barreira natural aos invasores; porém a região da Transilvânia. que corresponde à maior e mais importante área conquistada pelos romanos, é um planalto rodeado em quase todos os lados pelas montanhas dos Cárpatos.

Portanto, desde que defendida por uma cadeia de fortes, torres e paliçadas, ocupadas por um número de tropas suficientes, a nova província foi uma excelente aquisição estratégica, sobretudo porque os custos necessários para pagar e manter os cerca de 30 mil soldados necessários para a sua defesa poderiam ser suficientemente cobertos pela produção das minas de ouro existentes na Dácia e, logo, a segurança, bem como o mercado consumidor, que as tropas romanas representavam incentivou que agricultores vindos predominantemente da Trácia se instalassem no fértil planalto.

Enfim, como bem avaliou o historiador britânico Derek Williams:

A Conquista da Dácia removeu um espinho encravado por meio século no flanco de Roma. Embora um saliente, ou fronteira em formato de bolsão projetado para fora, nunca seja o ideal, a obtenção da Dácia colocou a segurança da totalidade do território imperial, de Budapeste até o Mar Negro. em fundações sólidas. Foi uma proa de segurança projetada 250 milhas barbaricum (n.t; terras dominadas pelos bárbaros) adentro, com as tribos que antes flanqueavam os domínios romanos agora elas mesmas flanqueadas. Neste sentido estratégico, a nova província continuaria a ser um ativo valioso durante os 165 anos que Roma teve o poder para mantê-la. Em particular, o resultado da vitória de Trajano foram sessenta anos de paz praticamente ininterrupta neste quadrante do Império; uma paz que tornou a prosperidade do século II possível, porque este período começa e termina com uma conflagração no Médio Danúbio”

“The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, St. Martin’s Press, pág. 62”
“File:Moesian-Dacian Limes.jpg” by rené ployer, marinus polak and ricarda schmidt is licensed under CC BY 4.0

11- Conquista do Reino dos Nabateus (Nabatéia)

De acordo com Cássio Dião, durante a fase final da Segunda Guerra contra os Dácios, o imperador Trajano determinou que o governador da Síria, o seu antigo correligionário Cornélio Palma, invadisse o Reino dos Nabateus, após a notícia da morte do rei Rabbel Soter II, que já era um rei-cliente de Roma.

Os Nabateus eram um povo semita, mais especificamente árabes, que enriqueceram monopolizando o comércio entre a Arábia propriamente dita (Arabia Felix) e os povos do Mediterrâneo oriental, feito por caravanas que transportavam principalmente incenso e mirra, através da Rota do Incenso, para a capital Petra, e também de especiarias com a Índia, por via marítima, em seu empório situado na cidade de Leuke Kome. Nesta última, os Nabateus consentiram, ainda na primeira metade do século I, que os romanos estabelecessem uma guarnição militar na cidade, chefiada por um centurião encarregado de coletar um imposto de importação de 25% sobre as mercadorias destinadas ao Império Romano.

O território do Reino da Nabatéia compreendia os territórios da moderna Jordânia e parte da faixa de Gaza e da Península do Sinai.

A conquista da Nabateia resultou muito fácil, tendo sido iniciada e concluída por Palma em 106 D.C., praticamente sem oposição relevante, se é que houve alguma, e o reino foi rebatizado como a nova província da Arabia Petrae. E somente foi necessário o acantonamento de apenas uma legião no reino recém-conquistado, a Legião VI Ferrata, em Bosra, escolhida como a nova capital, rebatizada como Traiana Bostra.

Panorâmica da cidade de Petra, com um trecho do calçamento romano, foto “Petra” by ChrisYunker is licensed under CC BY 2.0

A Legião VI Ferrata ocupou-se a seguir, entre 111 e 114 D.C, da pavimentação da antiga Estrada do Rei, uma rota milenar que unia o porto de Aqaba à Bosra, com cerca de 400 km de extensão, que foi rebatizada como Via Nova Traiana e conectada a uma rede de estradas romanas que cortava a Síria e a Anatólia, unindo, assim, o Mar Vermelho ao Mar Negro.

Não há nenhum relato sobre as razões expressas que levaram Trajano a anexar a Nabateia, mas essa anexação de reinos-clientes no Oriente era uma tendência que vinha ocorrendo desde o início do século I e muito provavelmente decorria de uma visão estratégica de consolidar a fronteira oriental do Império Romano contra uma eventual ameaça do Império Parta, para o fim de melhor proteger a vital província do Egito e a rica província da Síria, bem como, talvez, controlar diretamente o comércio com o Oriente mais distante.

Após derrotar os últimos focos de resistência, Trajano dedicou-se a organizar a província da Dácia, onde ele ordenou que o seu primeiro governador, Decimus Terentius Scaurianus, construísse a nova capital, Colonia Ulpia Traiana Augusta Dacica Sarmizegetusa, no local onde ficava o quartel da Legião V Macedonica, situado a 40 km da capital dácia original. Trajano também decretou, fugindo da sua política tradicional de privilegiar as relações com os senadores, que as ricas minas da província seriam administradas por um por Procurador pertencente à classe dos Equestres, diretamente subordinado ao imperador (procurator aurariarum).

Em 107 D.C., Trajano retornou à Roma trazendo consigo o imenso tesouro de Decébalo e cerca de quinhentos mil escravos. Ele celebrou a vitória com uma magnífica procissão triunfal e proporcionou cento e vinte e três dias de espetáculos ininterruptos no Coliseu e no Circo Máximo, em que, segundo Cássio Dião (Epítome do Livro LXVIII, 15, 1), lutaram dez mil gladiadores e cerca de onze mil feras foram mortas!

Adriano, que foi encarregado de organizar os festejos, foi, em seguida, designado governador da Panônia Inferior.

Pouco tempo depois desse memorável ano, morreu Lucius Licinius Sura, o grande amigo de Trajano, que havia sido honrado, em reconhecimento aos serviços prestados na Segunda Guerra contra a Dácia, com o privilégio incomum de exercer um terceiro consulado.

12- Continuação do grande programa de obras públicas:

  • Acqua Traiana (Aqueduto de Trajano)

Favorecido pelo grande aporte de metais preciosos obtido na Dácia, em 24 de junho de 109 D.C., Trajano inaugurou um grande aqueduto, que trazia água potável de fontes situadas a mais de 40 km a oeste da cidade de Roma, batizado de Acqua Traiana, e que foi inaugurado dois dias após as Termas de Trajano, o que demonstra que ambas as obras devem ter sido planejadas em conjunto (fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Aqua_Traiana). Além das Termas, sabe-se que o aqueduto abastecia a Naumaquia de Trajano, uma espécie de enorme anfiteatro-piscina, destinada a jogos de combates navais de gladiadores, que ficava na colina do Vaticano, e, não menos importante, um grande complexo de moinhos de grãos situado na colina do Janículo, similar ao existente em Barbegal, na França.

Complexo de moinhos hidraulicos romanos em Barbegal, desenho da revista Scientific American, em http://www.waterhistory.org/histories/barbegal/
  • Via Traiana

Em 109 D.C., Trajano deu início à construção de uma expansão da célebre Via Appia, encurtando em um dia a viagem entre Benevento e Brindisi. Alguns anos mais tarde, foi construído um Arco comemorando a conclusão da estrada, em Benevento, que, como não é de se admirar, recebeu o nome de Via Traiana.

Arco de Trajano, em Benevento, foto de Decan 
  • O Fórum de Trajano

Provavelmente assim que a segunda campanha contra a Dácia foi concluída, Trajano começou a planejar a construção do gigantesco complexo arquitetônico que seria batizado de Fórum de Trajano, cujas obras iniciaram-se em 109 D.C., e também foram custeadas pelo imenso butim obtido na referida guerra.

O complexo, que pode ser considerado um Centro Cívico, era constituído por uma vasta praça, que constituía o Fórum propriamente dito, que levaria o seu nome, com 116 metros de comprimento x 95 metros de largura (maior do que um campo de futebol oficial), uma enorme Basílica, que seria batizada de Úlpia e uma Coluna Honorária, comemorativa das duas campanhas contra a Dácia, e duas Bibliotecas, edifícios aos quais, postumamente, Adriano adicionaria um Templo de culto a Trajano. Finalmente, também compunha o projeto um grande edifício semicircular de concreto adjunto a outros prédios e com uma rua interna, formando uma exedra, que acompanhavam o formato de uma das absides da Basílica, que por sua vez formavam o Mercado de Trajano.

Foto da reconstrução do Fórum de Trajano constante da maquete da cidade de Roma feita por I. Gismondi, existente no Museu da Civilização Romana, EUR)
“Roman Fora: reconstruction plan” by Penn State Libraries Pictures Collection is licensed under CC BY-NC 2.0

O complexo foi concebido por Apolodoro de Damasco, e sua construção exigiu a demolição de inúmeras casas, ruas e até o desmonte de uma parte da colina do Quirinal, com 38 metros de altura. Essa, propositadamente, é a mesma altura da Coluna Honorária completada em 113 D.C., contando em uma série de relevos esculpidos em volta da coluna de maneira helicoidal, como se fosse um rolo de papiro sendo desenrolado, a história das duas campanhas que resultaram na anexação da Dácia. O topo da Coluna de Trajano era encimado por uma estátua do Imperador. Já a base da Coluna era em formato de um grande cubo, onde em um dos lados ficava a porta de entrada para o interior da Coluna., e contendo a seguinte inscrição:

O Senado e Povo de Roma dedica isto ao Imperador César, filho do Divino Nerva, Nerva Trajano Augusto Germânico Dácico, Pontífice Máximo, em seu 17º ano no cargo de Tribuno, tendo sido aclamado 6 vezes Imperador, 6 vezes Cônsul, e Pai da Pátria, para demonstrar de quão grande altura era a colina e o lugar que foram removidos por tão grandes obras “

A Coluna de Trajano ficava um tanto “ensanduichada” entre as entradas de dois prédios, em formatos de templos, sendo que um abrigava uma biblioteca de obras em latim e o outro uma biblioteca de obras em grego. Como a maior parte dos relevos contando a história das Guerras contra a Dácia não poderiam ser vistos do chão, é provável que os mesmos pudessem ser observados dos andares de cima e do terraço das bibliotecas, permitindo aos observadores vislumbrar a narrativa visual completa.

Mas o prédio mais impressionante do complexo do Fórum de Trajano era mesmo a Basílica Úlpia, que media 117 metros de comprimento por 55 metros de largura e cujo teto ficava a uma altura de cerca de 30 metros.

Ornada com dezenas de colunas e revestimentos dos mármores mais preciosos, espólios da Guerra contra os Dácios e inúmeras estátuas e inscrições alusivos àquela campanha, a magnificência e suntuosidade da Basílica Úlpia, que era a maior edificação deste tipo em Roma (basílica, então, significava um edifício público retangular e coberto, para finalidades civis, geralmente judiciais, políticas ou comerciais, composto por uma nave central e duas ou mais naves laterais), pode ser apreciada na excelente reconstrução apresentada no vídeo abaixo:

  • O Mercado de Trajano

Além da Coluna de Trajano. o único componente do complexo do Fórum de Trajano que se manteve de pé até nossos dias foi o Mercado de Trajano. Inaugurado em 113 D.C., é, em si mesmo, um complexo erguido em vários níveis, sendo o principal um enorme edifício semicircular sustentado por várias arcadas, o qual acompanhava o formato exterior de uma exedra que por sua vez seguia o traçado de uma das absides da Basílica Úlpia. Havia, sobre este edifício, outros edifícios de vários andares, os quais abrigavam até apartamentos, e uma rua interna, chamada de “Via Biberatica“, aparentemente pelo fato de existirem várias lojas onde se vendia pimenta (pipera, em latim), ou, então, porque ali também ficavam tavernas onde se bebiam vinho e outras bebidas alcoólicas (nesta hipótese, o nome da rua decorreria do verbo latino “bibere” , que significa beber).

Muitos consideram que o Mercado de Trajano foi o primeiro “shopping-center” da História. Vale notar, todavia, que ali também funcionavam repartições públicas, sendo inclusive o local para a distribuição pública de víveres para os cidadãos romanos pobres, como era o caso dos alimenta, programa instituído por Trajano, do qual trataremos a seguir.

Mercado de Trajano, foto de Alessio Nastro Siniscalchi
Via Biberatica

13- Políticas Públicas de Trajano :

  • Os “Alimenta

Trajano adicionou à tradicional distribuição de trigo e gêneros alimentícios aos cidadãos romanos pobres da Cidade de Roma (Anonna), um programa de benefícios sociais chamado “Alimenta“, que era muito mais amplo e destinado às famílias italianas.

O programa consistia em sua essência no fornecimento de uma renda aos pais de famílias pobres dos diversos distritos da Itália, que poderiam inscrever seus filhos, de qualquer sexo, fossem legítimos ou ilegítimos, para que provessem a alimentação e também a educação da prole, ou, mais provável, para que recebessem diretamente alimentos e ensino custeados pelo esquema. Os recursos necessários para a execução e manutenção do programa eram provenientes dos juros pagos pelos proprietários rurais do distrito em questão, que recebiam do governo imperial um empréstimo correspondente a 8% do valor das propriedades, devendo pagar 5% de juros anuais, sendo este pagamento direcionado para os Alimenta (vide a tese de Gavin Carroll O’ Brien,Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan“, Universidade de Leyden – https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450 ).

Uma carta de Plínio, o Jovem a seu amigo Caninius (Cartas, Livro VII, Carta 18) dá a entender que uma outra forma de contribuição para o Programa poderia ser a cessão de domínio de parte da propriedade ou de outro imóvel para o Estado, continuando o proprietário com o domínio útil da área, sobre a qual deveria pagar um aluguel ao Estado.

Certos trechos do Panegírico, escrito por Plínio, o Jovem, enfatizam que o objetivo primordial de Trajano ao instituir os Alimenta seria prover os funcionários públicos e, principalmente, os soldados, dos quais o Império Romano necessitaria para manter-se poderoso:

Não! Vós ordenastes que as próprias crianças fossem arroladas entre as finalidades da vossa real assistência, para que, em sendo educadas sob Vosso encargo, elas possam desde o berço reconhecer o seu Pai Adotivo. Vós pensastes, senão justa e razoavelmente, que aqueles que são criados para o Vosso serviço devem ser mantidos às Vossas expensas: Que eles devem ser sustentados por uma pensão até que sejam capazes de ganhar um salário; e assim não serem mais agradecidas aos próprios pais por terem nascido do que a Vós por terem se tornado homens. É uma discreta generosidade, César, assumir o custo de criar essas florescentes esperanças de Roma. Não pode haver desembolso mais vantajoso, nenhum que irá mais eficazmente vos comprar um nome imortal, que este que assim é estabelecido para o bem da Posteridade. Os ricos tem estímulos para ter filhos para gozarem os muitos privilégios que por ostentarem tal condição eles ganham, evitando aqueles inconvenientes que eles de outro modo experimentariam; Os pobres não tem senão um incentivo: que é a benção de gerar súditos para um Príncipe tão bom. Estas crianças, assim, nascem para o único propósito de serem usadas a seu serviço. E se Ele delas não cuidar, os alimentar e manter, ele sabe que não fará outra coisa senão acelerar a queda do seu Império e impulsionar a ruína da República: Porque um Príncipe que protege a sua nobreza com privilégios e proteção, enquanto deixa a República nua e indefesa, não propicia senão uma cabeça cambaleante, sem braços ou corpo para equilibrá-la ou suportá-la.”

Plínio, o Jovem, “Panegírico”, 50/51, em https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

Em outros trechos do Panegírico, infere-se que Trajano também organizou melhor a distribuição da Anonna em Roma, que antes obrigava os interessados no benefício a terem que fazer requerimentos escritos à burocracia imperial, e, depois, em dia determinado, a multidão de beneficiários teria que comparecer a algum evento público em que se fazia a distribuição, a qual, aparentemente, ocorria na própria rua, em praças ou nos fóruns, em um dia determinado e, alguma vezes na presença do próprio imperador, o que, provavelmente, devia causar muitos percalços e confusão.

Este relevo do Arco de Trajano, em Benevento, parece mostrar uma representação alegórica da distribuição de pão aos cidadão romanos pobres, carregando nos ombros seus filhos, provavelmente uma alusão aos Alimenta. Foto: Institute for the Study of the Ancient World from New York, United States of America, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Commons

Acredito, portanto, que a construção do enorme Porto de Trajano, em Óstia, do grande complexo de moinhos em Roma, alimentado pela Acqua Traiana, e dos Mercados de Trajano, devia estar também relacionada à reestruturação da Anonna e à instituição dos Alimenta, tudo isso demonstrando a grande capacidade de planejamento estratégico de Trajano, indubitavelmente uma aplicação civil de seu invulgar conhecimento da logística militar.

Mas os Alimenta também podem ser considerados como um grande gesto político de Trajano: Sendo ele o primeiro imperador nascido fora da Itália (mais especificamente, de uma família provincial), a criação de um programa social exclusivo para os cidadãos da Península certamente foi recebida pela opinião pública como o reconhecimento da posição especial e privilegiada a que os Italianos tinham direito no Império que eles haviam criado.

  • Pão e Circo

Com efeito, dentre os imperadores romanos, Trajano foi um dos que melhor compreendeu que uma das chaves para um príncipe manter-se seguro no trono e assegurar um reinado estável e duradouro era providenciar a subsistência da plebe romana, mas, além disso, mantê-la entretida, como escreveu o percuciente professor, orador e advogado romano Marco Cornélio Frontão em uma de suas Cartas:

No restante, se Trajano deve ser considerado mais ilustre na guerra ou na paz da minha parte eu deixo de opinar, apenas pontuando que até Espártaco e Viriato detinham consideráveis habilidades militares, enquanto que, nas artes da paz, quase ninguém, se é que houve alguém, tenha igualado Trajano em relação à popularidade com o povo. (…). É baseado nos mais elevados princípios de sabedoria política que o Imperador não negligencia até mesmo os atores e outros artistas de palco, o Circo e o Anfiteatro, tendo ciência, como ele de fato tem, que o Povo Romano é conservado por duas coisas acima de todas: A Anona (o fornecimento gratuito de trigo) e os Espetáculos; que o sucesso de um governo depende tanto das diversões como de coisas mais sérias; negligenciar estas acarreta a maior perda, negligenciar as diversões, o maior descontentamento; dar comida é um incentivo mais fraco do que os espetáculos: somente o proletariado arrolado na Anona é aplacado de maneira isolada e individualizada, enquanto que, pelos espetáculos, mantém-se todo o populacho de bom humor…”

Carta de Frontão Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

Assim, mesmo antes da implantação dos Alimenta, Trajano preocupou-se em proporcionar espetáculos suntuosos ao povo romano, como por exemplo os já mencionados jogos que duraram 123 dias e envolveram dez mil gladiadores e a morte de onze mil feras. Além da Naumaquia, também já mencionada, Trajano foi o responsável por reconstruir em Roma o vetusto Circo Máximo, que nos últimos séculos havia sofrido alguns incêndios, agora feito inteiramente em alvenaria e revestido de mármore, com a capacidade de abrigar um público estimado entre 150 mil e 250 mil espectadores!

Reconstrução do Circo Máximo por I. Gismondi, maquete existente no Museo della Civiltá Romana
  • Desvalorização do denário

Mesmo com o gigantesco afluxo de metais preciosos advindos da conquista da Dácia, Trajano decidiu, em 107 D.C., desvalorizar o denário de prata, reduzindo a sua pureza de 93,5% para 89%. Provavelmente, ele foi obrigado a isso para financiar os imensos gastos ocasionados não apenas pela campanha, mas sobretudo com o enorme programa de obras públicas (valendo notar que a maioria delas somente foi concluída após a desvalorização) e os Alimenta. De qualquer forma, o aumento da base monetária não se mostrou nocivo à economia romana, que experimentou um grande crescimento no período.

  • Os Correctores

Durante a formação do Império Romano, houve a incorporação várias Cidades-estados tão ou mais antigas do que Roma, inicialmente na Itália, fundadas pelos próprios povos itálicos ou pelos gregos (a chamada Magna Grécia, que compreendia também a Sicília) e depois, principalmente no Mediterrâneo Oriental, especialmente cidades de cultura grega na própria Grécia, suas penínsulas e ilhas do Mar Egeu como cidades fundadas pelos gregos na Ásia Menor, de cidades e territórios dominados por diversos impérios ou reinos conquistados pelos romanos (como o Império Cartaginês, Macedônia, Egito, etc), além de colônias fundadas pelos próprios romanos em todo o território.

A autonomia político-administrativa e os direitos políticos dos cidadãos das centenas de cidades existentes no Império Romano variava em função do contexto em que se deu a sua incorporação ao Império Romano, bem como, após a sua incorporação, podiam variar em função de diversos acontecimentos relevantes que modificavam a relação das cidades com o governo imperial.

No caso das cidades italianas e gregas, a maioria incorporada ao “Imperium Romanum” (na sua acepção de território governado por Roma) ainda no tempo da República, houve inúmeros casos em que os conquistadores romanos reconheceram aos cidadãos o direito de manter as suas assembleias eleitas pelos cidadãos locais, os seus respectivos direitos políticos e um grande grau de autonomia em seus assuntos internos.

A chamada Pax Romana, que o Império Romano experimentou após a incorporação de toda a orla do Mediterrâneo e o fim das guerras civis dos 2 Triunviratos, ocasionou uma grande prosperidade geral, notadamente na Itália e na Grécia.

Sobretudo na Grécia, onde havia mais cidades populosas e, em geral, mais riqueza acumulada, seja devido à maior antiguidade dos centros civilizados, seja pela possibilidade de um fluxo comercial maior e mais profícuo com outras civilizações tais como as iranianas, mesopotâmicas, índicas e até mesmo a chinesa, houve um grande enriquecimento das cidades e das suas classes dominantes.

Entretanto, historicamente, sempre houve uma grande rivalidade e competição entre as Cidades-Estado gregas, um traço que, quando elas ainda eram independentes e interesses estratégicos “nacionais” estavam envolvidos, resultou em muitas guerras, ou, de modo mais saudável, essa rivalidade era resolvida em provas esportivas, exibições musicais ou construção de obras artísticas ou embelezamento urbano.

A Biblioteca de Celso, em Èfeso, exemplo do tipo de edifício suntuoso que as cidades gregas se compraziam em construir, foto de Benh Lieu Song

Após a conquista romana, as cidades gregas não perderam essa cultura competitiva, como alguém poderia esperar, mas continuaram a disputar acirradamente entre elas pelo respectivo status dentro da mesma província ou no Império Romano, que podia se traduzir em favores imperiais, como, por exemplo, algum benefício fiscal ou outra vantagem, e mais frequentemente, eram expressados por títulos, muitas vezes apenas honoríficos. E uma forma frequente que a classe dominante dessas cidades gregas utilizava para ganhar proeminência política e aumentar o status das suas cidades era mediante a construção de edifícios públicos grandiosos e suntuosos, tais como termas, basílicas, fontes e chafarizes, etc.

Reconstrução artística da cidade de Nicomédia, na Bitínia, uma das cidades que seria alvo da ação do Corrector Plínio, o Jovem (foto extraída de Limen Project – Izmit (Ancient Nicomedia), Turkey)

Como essas cidades ainda gozavam de uma certa autonomia política e os seus cidadãos mantiveram os seus direitos políticos de votar e ser votados, elegendo os seus governantes locais, mas que todavia, prestavam contas, de uma forma ou de outra, ao governador romano da Província, e, em última instância, ao Imperador, era comum que essas disputas políticas, que não poucas vezes degeneravam em tumultos violentos, ou até mesmo em revoltas, acabassem sendo levadas à Roma, sobrecarregando as repartições públicas imperiais e o próprio monarca. Parece que um problema semelhante ocorria na Itália, posto que para essas duas províncias é que os Correctores seriam designados.

Do mesmo modo, a consequente insolvência dessas cidades, além de implicar na diminuição do montante dos tributos que deviam ser pagos ao Império, acabava obrigando Roma, em algum momento, a ter que enviar algum dinheiro para a manutenção de um serviço público ou construção considerada essencial, ou até mesmo para socorrer a população. Além disso, essa crescente onda de construções de edifícios públicos grandiosos, que se esperava fossem custeados pelos que, por direito, faziam parte dos conselhos municipais (os chamados “Curiais“), afastava desses conselhos a maior parte dos membros menos ricos da aristocracia local, que não tinham condições financeiras de comparecer com a parte que lhes caberia, o que não era de interesse do Império Romano, que precisava dos “Curiais” para atender várias demandas fiscais e administrativas no território controlado pelas cidades.

O Ninfeu restaurado na cidade de Sagalassos, na Turquia, uma cidade pequena, mas que não economizou na construção de uma fonte pública suntuosa (“The restored Antonine Nymphaeum, erected ca. 160-180 AD, Sagalassos, Turkey” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0)

Para lidar com esse problema, e uma vez que o estatuto de “cidade livre” impunha algumas restrições ao poder dos governadores romanos, Trajano decidiu criar uma magistratura extraordinária que recebeu o nome de “legatus Augusti pro praetore(missus) ad corrigendum (ordinandum)” – nome que normalmente acompanhado do local onde as funções seriam exercidas, sendo que no caso do primeiro a ser designado por Trajano, o título foi “legatus Augusti pro praetore ad corrigendum statum civitatium liberarum“, ou seja, “enviado de Augusto com poderes de pretor (este era o título oficial dos governadores das províncias imperiais) para regular as cidades livres” (Nota: os governadores das províncias senatoriais tinham o título de “pro-cônsules“). Posteriormente, o cargo passou a ser conhecido genericamente como “Correctores” (um termo cuja melhor acepção seria “Corregedores”). Durante o reinado de Trajano e dos seus sucessores Antoninos, o cargo de Corrector foi ocupado por membros da aristocracia senatorial que fizessem parte do circulo mais íntimo do imperador, e, portanto, isto fazia também parte da estratégia de Trajano de manter boas relações com o Senado.

Os Correctores eram designados em função de crises e lugares específicos, mas eles tinham um amplo poder (imperium) delegado pelo Imperador, nas esferas administrativa, política e jurídica locais. Na prática, eles podem ser considerados como um misto de auditores e interventores, e, como se extrai principalmente da correspondência imperial, adequavam-se a uma crescente tendência centralizadora, vigilante e autocrática do Principado, mas que também ao que parece emanava da personalidade do próprio Trajano.

As situações existentes nas cidades gregas que devem ter inspirado a decisão de Trajano podem ser vislumbradas:

1) No 38º Discurso feito aos cidadãos de Nicomédia, na Bitínia, no qual Dião Crisóstomo critica a rivalidade entre aquela cidade e a cidade vizinha de Nicéia, que se digladiavam, entre outras honrarias, pelo título de “metrópole” da região:

“Assim, pelos atos públicos deles (os governadores romanos), eles vos rotularam como um bando de idiotas, sim, eles vos tratam como crianças, pois nós sempre oferecemos às crianças as coisas mais triviais em lugar de coisas de grande valor, na ignorância delas do que é realmente valioso e no prazer que elas sentem pelo que é de menor importância, da satisfação pelo que é, meramente, coisa alguma. Assim, também no vosso caso, no lugar da Justiça, no lugar da liberdade das cidades da espoliação ou do confisco da propriedade privada dos seus habitantes, em lugar de que eles se abstenham de vos insultar, no lugar deles se absterem da violência embriagada, os vossos governadores vos dão títulos, e vos chamam “primeiros”, seja oralmente ou por escrito; feito isto, eles podem, doravante, impunemente tratá-los como se vós fosseis os últimos!

Em verdade, tais marcas de distinção, com as quais vós vos enfeitais, são objeto de total desprezo, não apenas aos olhos de todas as pessoas de discernimento, mas, especialmente, em Roma, onde elas despertam gargalhadas e, o que é mais humilhante, são chamadas de “fraquezas gregas!”.

Dio Chrysostom, “The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html

2) No 48ª Discurso feito por Dião Crisóstomo aos seus concidadãos da cidade de Prusa, possivelmente pronunciado pouco tempo antes do envio do primeiro Corrector à Grécia, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Vocês pensam que um mercado, teatro, ginásio ou colunata ou riqueza trazem alguma vantagem para homens que estão em discórdia? Não, não são essas coisas que fazem um cidade bela, mas sim autocontrole, amizade, confiança mútua. Porém, quando vocês criticam o Conselho, os líderes do governo, os magistrados devidamente eleitos, não estão vocês criticando a vocês mesmos? Porque, se os melhores homens entre vocês são baixos, o que alguém irá achar em relação aos demais? “Então nós vamos perder o que nos pertence?”, alguém contrapõe. Ninguém está sugerindo isso, pelo contrário, vocês podem ficar certos que em todas as nossas cidades há verbas públicas, e que algumas poucas pessoas estão em poder desses fundos, alguns por ignorância e alguns por outro motivo. e é preciso tomar medidas e tentar recuperar essas verbas, contudo não com ódio ou brigas”.

Dio Chrysostom, “The Forty-eighth Discourse: A Political Addres in Assembly”, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

O mais famoso Corrector nomeado por Trajano foi o seu amigo e senador Gaius Plinius Caecilius Secundus, mais conhecido como Plínio, o Jovem, para intervir nas cidades livres da Província da Bitínia. Enquanto cumpria esta designação, Plínio, o Jovem trocou uma copiosa correspondência com o Imperador, que posteriormente foi compilada em uma coleção que, aliás, surpreende pela frequência com a qual o auxiliar consultava o monarca sobre quase qualquer questão, inclusive assuntos que hoje nos parecem questões burocráticas de pouca importância. Sobrelevam, entretanto, nas cartas, os assuntos relacionados aos gastos públicos excessivos das cidades gregas.

Plínio relata e pede orientação a Trajano acerca de como proceder em relação a aquedutos, teatros e banhos públicos inacabados, construção de ginásios e termas demasiadamente grandiosos para determinadas cidades, tais como Nicomédia, Prusa e Nicéia e, quase sempre, a resposta do imperador enfatiza a preocupação com as finanças municipais e a averiguação das responsabilidades pelo desperdício do dinheiro público e punição dos desvios.

Em uma das cartas, entretanto, vemos que o Imperador estava também especialmente preocupado com os riscos potenciais que a criação de quaisquer associações de cidadãos em geral pudesse acarretar ao domínio romano, e aqui o tom do imperador nos soa mais sombrio, mostrando uma política imperial mais parecida com a de um estado policial:

Plínio a Trajano, Livro X, Carta 33:

“Enquanto eu estava visitando uma parte distante da província, um incêndio muito desolador deflagrou-se em Nicomédia e destruiu um número de casas particulares e dois edifícios públicos: o asilo e o Templo de Ísis, embora uma rua corresse entre eles. Permitiu-se que o fogo se espalhasse mais do que deveria, em primeiro l ugar, devido à violência do vento, e, em segundo lugar, devido á inação dos habitantes, (…). Além do mais, não há sequer uma única bomba de incêndio (sipho) ou balde no local, e nem um solitário equipamento para lidar com um surto de incêndio. Entretanto, estes serão providenciados de acordo com as ordens que eu já dei. Mas, Senhor, eu gostaria que vossa majestade considerasse se uma corporação de bombeiros, de cerca de 150 homens, deveria ser instituída. Eu cuidarei para ninguém que não seja um bombeiro genuíno deva ser admitido, e que a corporação não aja contrariamente ao estatuto que lhe for conferido; e não haveria dificuldade em vigiar um contingente tão pequeno.”

Trajano a Plínio, Livro X, Carta 34:

“Você concebeu a ideia de que uma corporação de bombeiros devia ser formado em Nicomédia, nos moldes de várias outras já existentes. Mas, deve ser lembrado, que a vossa província da Bitínia, e, especialmente, cidades-estado como Nicomédia, são presas de facções. Qualquer nome que nós possamos dar àqueles que formem uma associação, e qualquer que possa ser a razão desta associação, elas logo irão degenerar em sociedades secretas. É melhor política providenciar equipamentos para lidar com incêndios e encorajar os proprietários a fazer uso deles, e, se a ocasião requerer, convocar a multidão para que se junte a esta tarefa.

Em http://www.attalus.org/old/pliny10a.html
Teatro de Niceia, o mesmo mencionado por Plínio, o Jovem na Carta 39, a Trajano. Foto de Dosserman

Nas célebres Cartas 96 e 97, Plínio consulta Trajano sobre como ele deveria proceder em relação aos processos instaurados contra os Cristãos. O Corrector demonstra uma certa perplexidade com a própria acusação em si, pedindo ao soberano orientação sobre a natureza do crime e a punição a ser aplicada aos que fossem seguidores do Cristianismo. Das perguntas de Plínio e da resposta do imperador infere-se que já estava estabelecido, provavelmente antes mesmo do reinado de Trajano, que o Cristianismo era uma religião ilegal. Entretanto, parece a percepção estatal mais aguda era a de que as condutas dos Cristãos eram perigosas para a ordem pública por envolverem a associação dos fiéis e a realização de reuniões constantes (e aqui se lê Plínio citando um Decreto de Trajano que certamente nasceu de uma preocupação análoga aos motivos elencados para a proibição da criação da corporação de bombeiros em Nicomédia). Em segundo lugar, nota-se que o Cristianismo representava um risco às religiões tradicionais, mas, sobretudo, ao culto imperial. Neste último aspecto, a razão para que os Cristãos, “caso denunciados e a culpa provada“, fossem punidos, mas não “perseguidos“, parece ter sido também a de preservar a ordem pública e a devoção ao imperador, evitando o descontentamento entre os fiéis das religiões tradicionais e preservando os negócios que dependiam delas (segmentos de onde deviam provir a maior parte dos que delatavam os Cristãos e esperavam a sua punição) e afirmando o caráter divino do Imperador (uma condição que era essencial na parte oriental do Império, mesmo desde o início do Principado):

Plínio a Trajano, Carta 96:

Meu senhor, tenho como costume fazer chegar a ti todas aquelas dúvidas que me acometem no cumprimento de meu cargo. Quem melhor, na verdade, para conduzir minhas hesitações por um bom caminho ou instruir-me em minha ignorância? Nunca participei em Roma de nenhum processo contra os cristãos. Desconheço, por isso, qual é o crime do qual os acusam, quais punições merecem, qual procedimento deve regular o inquérito e quais limites devem colocar-se a eles. [2] Assim, tive as mais sérias dúvidas sobre se devem estabelecer-se diferenças entre as idades dos réus ou se, pelo contrário, os mais jovens, por mais tenra que seja sua idade, em nada se diferenciam dos mais velhos; sobre se deve conceder-se a absolvição à retratação, ou pelo contrário, àquele que tenha sido cristão em nada lhe beneficia a renúncia; por fim, se o castigo é pelo mero nome de cristão, inclusive na ausência de quaisquer tipos de crimes, ou se o que se castiga são os crimes associados ao dito nome. Eis de que modo me comportei até o momento com aqueles que foram conduzidos diante de mim e acusados de ser cristãos.
[3] Perguntei diretamente a eles se são cristãos. Ao responder-me que sim, perguntei-lhes uma segunda e até uma terceira vez, advertindo-lhes que o reconhecimento de algo assim expressaria a morte. Aos que mantiveram sua declaração, ordenei que os executassem. A razão disso foi que não me cabia dúvida de que, qualquer que fosse a natureza do crime que confessavam, certamente este fanatismo e esta obstinação intransigente merecia a morte. [4] Houve outros que, apesar de mostrarem uma irracionalidade semelhante, sendo cidadãos romanos, os incluí nas listas daqueles que devem ser enviados ao julgamento em Roma. Em seguida, durante a instrução do processo, ao estender a outros a acusação, apresentou-se, como de costume, muitos casos particulares. [5] Por exemplo, apareceu fixado em um lugar público uma denúncia anônima contendo um grande número de nomes. Aos que negaram ser ou terem sido em algum momento cristãos, como invocaram aos deuses de acordo com a norma ditada por mim, fizeram uma oferenda de incenso e vinho diante de tua imagem, que com este propósito eu havia ordenado trazer junto às estátuas dos deuses, e também maldisseram o nome de Cristo, o que segundo se diz, não se pode forçar de modo algum aos que são verdadeiramente cristãos, a estes cri que devia deixá-los em liberdade. [6] Outros, cujos nomes foram revelados por um delator, reconheceram inicialmente ser cristãos, mas logo negaram, dizendo que, na verdade, haviam sido cristãos, mas que deixaram de sê-lo. Alguns firmam que faz três anos, outros dizem que faz muitos anos, inclusive alguns há mais de vinte anos. Todos estes também veneraram tua imagem e as estátuas dos deuses e maldisseram o nome de Cristo. [7] Houve entre eles quem assegurou, além disso, que toda a sua culpa, ou melhor, todo o seu erro consistiu tão somente em reunir-se regularmente em certo dia antes do nascer do sol, entoar alternadamente entre os presentes um hino em honra de Cristo, como se de um deus se tratasse, e comprometer-se mediante juramento a não perpetuar alguns tipos de crimes, como se comenta, a não cometer furto nem roubo com violência, nem adultério, a não faltar com a palavra dada e a não se negar a restituir um depósito quando chamados a pagar. Também manifestaram que, uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes, mas que já haviam deixado estas práticas desde que meu Édito, seguindo tuas ordens, proibiu a todos os tipos de associações. [8]
Por esta razão, considerei necessário investigar quanto há de verdade em tudo isso e, assim, submeti à tortura duas escravas as quais os cristãos denominam de ministras. Mas não encontrei nada além de uma tola e extravagante superstição. [9] Por tudo isso, adiando de momento a instrução da causa, apressei-me a consultar-te. Na verdade, pareceu-me que o assunto merecia uma consulta a ti, em especial pelo número dos acusados, pois muitas pessoas de todas as idades, de toda condição e tanto de um como de outro sexo já foram processadas, e ainda muitas outras serão. E o contágio desta superstição não se estendeu unicamente pelas cidades, mas que também se propagou pelos povos e campos. Acredito, contudo, que a enfermidade pode ser detida e curada.
[10] Certamente, é um fato comprovado que os templos, que já se encontravam praticamente abandonados, começaram a ser frequentados novamente, que as cerimônias sagradas, interrompidas durante um longo tempo, voltaram a ser celebradas, e que por toda parte se vende a carne das vítimas sacrificadas, para a qual até pouco tempo encontravam-se escassos compradores. Disto se deduz facilmente que grande quantidade de pessoas poderia ser afastada dessa superstição, se a elas fosse oferecida a absolvição no caso de retratação.”

Caio Plínio Segundo (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Resposta de Trajano a Plínio, Carta 97):

Meu caríssimo Segundo, seguiste o procedimento que devias ao analisar as causas dos processos daqueles que foram denunciados diante de ti como cristãos. Na verdade, não se pode estabelecer uma norma geral que imponha, por assim dizer, alguns critérios absolutamente rígidos. Os cristãos não devem ser perseguidos. Se forem denunciados e a culpa provada, devem ser castigados. No entanto, aquele que nega ser cristão e o demonstre de fato, isto é, venerando aos nossos deuses, embora se suspeite de ter sido cristão no passado, deve obter a absolvição por sua retratação. [2] Quanto às denúncias anônimas que podem aparecer fixadas em lugares públicos, não devem servir a nenhum tipo de acusação, pois é uma prática detestável e imprópria de nosso tempo.

Trajano (Carta 97, tradução retirada de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

Enfim, a correspondência entre Trajano e Plínio, o Jovem é uma fonte valiosa para se entender a política imperial do período para as províncias, bem como para revelar as preocupações que moviam as ações de Trajano. Porém, o estudioso do reinado de Trajano não deve se esquecer que o tom adotado por Plínio, o Jovem é quase sempre de adulação e, portanto, não nos permite penetrar no real caráter do reinado, seja para considerá-lo mais “republicano” ou menos tirânico e despótico do que o de algum dos seus maus-afamados antecessores, como Nero ou Domiciano.

14- Guerra contra os Partas

Durante sete anos, contados desde a conquista definitiva da Dácia e a anexação da Nabateia, em 106 D.C., Trajano dedicou-se apenas aos assuntos civis e administrativos. Tanto na política exterior como na interna, a tranquilidade reinava: entre as fontes, Cássio Dião, entretanto, relata que houve pelo menos uma conspiração, que resultou na punição de Gaius Calpurnius Piso Crassus Frugi Licinianus ao exílio. O Breviarium de Eutrópio também menciona a condenação de um único senador inominado, que foi aplicada pelo Senado, a qual, de acordo com o relato do autor, teria ocorrido sem o conhecimento do imperador.

Então, em 112 D.C., um incidente no exterior requereu a atenção de Trajano: o nobre Osroes (Chosroes ou Khosro) revoltou-se contra o imperador dos Partas, Pacorus II e assumiu o controle da metade ocidental do Império Parta (a metade oriental ficou sob o cetro de Vologeso III, filho de Pacorus II) . Em seguida, Osroes I interveio na vizinha Armênia, depondo o rei Axidares, filho de Pacorus II (ou, segundo outra versão, o deposto teria sido um certo Tiridates, que Osroes I substituiu por Axidares).

Moeda com a efígie de Osroes I, em  http://www.cngcoins.com

Ocorre que, desde 63 D.C., durante o reinado de Nero, os impérios romano e parta haviam celebrado o Tratado de Rhandeia, que pôs fim à chamada “Guerra da Sucessão Armênia” travada entre as duas potências referidas. Pelo tratado, que considera-se ter sido mais vantajoso para os Partas, o rei da Armênia deveria ser um príncipe integrante da dinastia parta dos Arsácidas, mas a sua nomeação e investidura ou coroação cabia ao imperador romano. A Armênia era estrategicamente importante para os Romanos porque funcionava como uma zona ou estado-tampão que protegia suas províncias da Ásia Menor, como a Bitínia, a Capadócia, o Ponto, bem como suas possessões no Mar Negro, de ameaças vindas do Irã e da Mesopotâmia, controladas pelo Império Parta. Os Romanos chegaram a invadir e controlar brevemente a Armênia, em 66 A.C. e em 34 A.C., mas o imperador Augusto preferiu negociar com os Partas um status de reino-cliente de Roma para a Armênia, com a prerrogativa do Império Romano de indicar um rei de sua confiança, ainda que Arsácida. Então, a partir desse período, a nobreza armênia dividiu-se em facções pró-Roma e pró-Partas e, então, o país, embora fosse étnica e culturalmente mais ligado aos povos iranianos, ele oscilou entre a esfera de influência de um e de outro Império.

Estátua de nobre parta, encontrada em Shami, Irã, datada entre 50 A.C. e 150 D.C., foto de  Arashk rp2 

Tratava-se, portanto, a ação de Osroes, de uma evidente violação do tratado, o que obrigava o Império Romano a dar uma resposta.

Façamos, agora, uma rápida pausa digressiva para explicar que o Império Parta era dominado pela tribo iraniana dos Parni, um dos vários povos iranianos que habitavam a região situada entre o atual Irã e o Afeganistão. Os Parni, liderados por Arsaces I, travaram uma longa guerra de independência ao final completamente bem sucedida, entre 247 e 129 A.C., contra o Império Selêucida, que por sua vez tinha sido fundado pelo general macedônio Seleuco I, em 323 A.C., após a morte de Alexandre, o Grande, rei da Macedônia que havia destruído o Império Persa (que era controlado por outra tribo iraniana, a dos Farsi e havia sido fundado pela dinastia persa dos Aquemênidas, cerca de 550 A.C.) e conquistado toda a região, até o norte da Índia.

Porém, ao contrário dos seus antecessores persas, o Império Parta tinha uma organização mais descentralizada e o imperador era praticamente um suserano de uma coleção de grandes províncias, quase feudos, muitos semi-independentes e frequentemente propensos a revoltas (sem falar nas frequentes disputas entre vários príncipes da dinastia Arsácida pelo trono). Não obstante, o Império mantinha, entretanto, um controle mais direto sobre a Mesopotâmia, que, embora fosse a parte mais rica e populosa do Império, e também a região onde ficava a capital, Ctesifonte, não era a terra natal dos Partas, que ainda habitavam em sua maior parte as terras situadas dentro do atual Irã, uma terra montanhosa, de onde ainda provinha a nobreza guerreira que compunha as unidades militares de elite – a cavalaria couraçada denominada de “catafractos“, e também a parte restante do exército, quase que inteiramente constituída por arqueiros montados. Vale observar também que, ao contrário dos seus sucessores persas da dinastia dos Sassânidas, o Império Parta era bem mais permeável a influências vindas do Ocidente, e no geral, os Arsácidas permitiam que as muitas cidades helenísticas existentes em seu território mantivessem a organização política e a identidade cultural de matriz grega.

John Tremelling, GFDL http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html, via Wikimedia Commons
Catafracto em relevo em Nasq-i-Rustam, Irã. Foto: Zereshk, Public domain, via Wikimedia Commons, Public domain, via Wikimedia Commons

Retomando a nossa narrativa principal, em 113 D.C., Trajano partiu de Roma para o Oriente já com o propósito de retaliar o Império Parta pela violação do Tratado. Entretanto, é provável que o imperador romano deve ter mandado um ultimato aos persas, ou que a notícia da sua partida tenha corrido mais rápido, pois quando Trajano chegou a Atenas, segundo Cássio Dião, ele já encontrou ali os embaixadores partas, trazendo presentes e uma proposta de paz de Osroes I: O rei propunha que o trono da Armênia fosse dado a Parthamasiris, outro filho de Pacorus II, que ele já havia colocado no trono no lugar de Axidares e cuja aprovação ele agora pedia a Trajano, justificando que o motivo da deposição foi o fato deste último estar se mostrando insatisfatório tanto para os Partas quanto para os Romanos.

Contudo, Trajano rejeitou os presentes oferecidos por Osroes I e despachou de volta a embaixada dos Partas, respondendo apenas que “a amizade devia ser demonstrada pelos atos, e não pelas palavras“, junto com o aviso de que ele, Trajano, estava partindo para a Síria, e lá chegando, ele faria tudo aquilo “que fosse apropriado” em relação ao caso.

Trajano partiu para Antióquia, a capital da província da Síria, onde começaram os preparativos para a guerra contra os Partas. Estando pelo menos desde o início de 114 D.C., o imperador recebeu uma embaixada enviada pelo rei Abgar VII, do reino de Osroene, trazendo presentes, mas que, durante o seu reinado, vinha se esforçando para manter a neutralidade em relação aos Impérios Romano e Parta. Trajano também reabilitou e convocou novamente o nobre berbere Lusius Quietus (Lúsio Quieto), cuja cavalaria moura tinha sido muito útil na Guerra contra a Dácia, mas que, após essa campanha, tinha sido expulso do Exército por má conduta. Partindo de Antióquia, Trajano também fez uma viagem ao grande complexo religioso de Heliopolis (Baalbek) para visitar o oráculo situado no Templo de Júpiter e consultá-lo sobre a iminente campanha.

Assim, não temos dúvida de que quando Trajano partiu de Roma ele já tinha o propósito de fazer uma campanha militar contra o Império Parta, Na verdade, alguns trechos das cartas de Plínio até sugerem que a empreitada já estava sendo planejada desde 111 D.C. e estima-se, antes do início das hostilidades, que dez legiões foram sendo concentradas na Síria.

Há, inclusive, indícios de que ao preparar uma campanha contra os Partas, Trajano pode ter retomado um projeto de seu antecessor Domiciano (o que, aliás, parece ter se verificado em muitos outros atos do seu governo), conforme pode ser visto em “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, página 214, vide

(https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf).

Entretanto, até hoje especula-se quais seriam os verdadeiros motivos que levaram Trajano a essa audaciosa decisão, uma vez que os Partas se mostraram dispostos a negociar e os precedentes históricos demonstravam que muitas vezes a guerra contra esses adversários tinha sido desfavorável, quando não desastrosa, para o Exército Romano. Vale lembrar, entre outras, a derrota sofrida por Crasso, na Batalha de Carras, em 53 A.C, onde o triúnviro perdeu a vida e vinte mil romanos foram mortos ou capturados.

Desde o reinado de Augusto que manter um equilíbrio de poder na Armênia vinha sendo considerado um objetivo estrategicamente satisfatório para o Império Romano. Desse modo, a razão que levou Trajano a invadir o Império Parta sempre provocou questionamentos entre os historiadores (e mesmo entre os seus contemporâneos, como veremos).

Alguns historiadores modernos defendem que a grande meta de Trajano era que o Império Romano assumisse o total controle das rotas comerciais com a Índia, inclusive mediante a conquista do pequeno reino de Characene ou Mesene, cuja capital, Charax, fundada por Alexandre, o Grande, era um importante porto marítimo que ficava próximo à foz do rio Tigre, no Golfo Pérsico, por onde passavam os navios que transportavam os produtos indianos, além de ser o ponto de partida das caravanas terrestres para Petra, que recém havia sido conquistada pelos romanos.

O problema com essa teoria é que não há evidência conclusiva de que os romanos estivessem de fato experimentando algum transtorno em seu comércio com a Índia que pudesse ser atribuído aos Partas, ou que a conquista de Charax eliminasse algum custo fiscal ou com intermediários que justificasse uma guerra e uma invasão por si mesmas muito custosas. Na verdade, as evidências são de que Charax, antes da invasão de Trajano e da sua Guerra Contra os Partas, apesar de ser um reino-vassalo dos Partas, era muito mais influenciada pela cultura helenística do que pela iraniana. Os achados arqueológicos, especialmente moedas, parecem sugerir que foi somente após a saída dos romanos que Charax passou decisivamente para a esfera de influência cultural e controle mais direto pelos Partas. Aliás, o referido reino somente seria anexado pelos sucessores dos Partas e dos Arsácidas, o Império da Pérsia Sassânida, em 221-222 D.C. (ver https://iranicaonline.org/articles/characene-and-charax-spasinou-in-pre-islamic-times)

Território controlado por Characene ou Mesene, imagem de NordNordWest –

Outro possível motivação de Trajano, a nosso ver bem mais provável, seria aproveitar uma boa oportunidade de eliminar definitivamente a ameaça militar Parta, tornando a fronteira leste do Império Romano mais protegida, já que o Império Parta naquele momento, encontrava-se internamente dividido pela disputa entre Osroes I, que governava a parte ocidental, e Vologeso III, que continuou controlando as províncias orientais.

Mas não podemos descartar a opinião dos autores antigos que concluíram que o maior propósito de Trajano era mesmo o de aumentar a sua glória e renome, emulando Alexandre, o Grande, que conquistara o Império Persa, um desejo que também parece ter inspirado os seus predecessores no governo romano, ainda sob a República- Crasso, Júlio César e Marco Antônio, como escreveu Cássio Dião:

Em seguida, ele fez uma campanha contra os Armênios e Partas sob o pretexto de que o rei armênio não tinha sido coroado por ele, mas pelo rei parta, embora a verdadeira razão fosse o seu desejo de ganhar renome”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 17, 1)

A mesma opinião foi esposada por Frontão em uma carta enviada ao seu pupilo e futuro imperador Lúcio Vero:

Para Trajano, como muitos julgam do restante de suas ambições, provavelmente a sua própria glória lhe era mais preciosa do que o sangue dos seus soldados, porque ele frequentemente enviou de volta os embaixadores do rei parta desapontados, quando eles suplicaram pela paz”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Trajano invadiu a Armênia, ainda nos primeiros meses de 114 D.C., à testa de um exército estimado entre 60 e 80 mil soldados, um dos maiores já reunidos pelos imperadores romanos, compostos das legiões veteranas da Guerra contra a Dácia, estacionadas na Panônia e das legiões, ou respectivos destacamentos retirados das mesmas (vexillationes), estacionadas no Egito, Judéia e Síria, entre as quais vale citar as Legiões IV Scythica, VI Ferrata, X Fretensis e XVI Flavia Firma, totalizando provavelmente dez legiões no total.

Em seu progresso pela Armênia, Trajano foi recebendo a submissão ou presentes de vários “sátrapas” (governadores) e nobres armênios e também de reis de regiões vizinhas, até mesmo do Mar Cáspio.

O rei Parthamasiris percebendo o tamanho da força invasora e a situação estratégica débil de seus aliados Partas, imediatamente mostrou-se disposto a ceder à vontade dos romanos. Ele foi ao encontro de Trajano na cidade de Elegeia, próxima a atual Erzurum, na Turquia, onde, em um ritual de submissão, retirou a coroa (em verdade, um diadema) de sua cabeça e colocou-a sob os pés de Trajano, que estava sentado em um tribunal. As tropas enfileiradas saudaram Trajano com gritos de Imperator“, o que assustou Parthamasiris, que fez menção de tentar fugir. Às tentativas do rei armênio de entabular alguma condição, Trajano lhe respondeu que a Armênia agora pertencia à Roma e que teria um governador romano.

Segundo a versão de Cássio Dião, o imperador concedeu que Parthamasiris partisse para onde quisesse com sua comitiva, acompanhados de uma escolta de cavalaria romana, porém, de acordo com as palavras de Frontão, momentos depois, o rei armênio deposto foi assassinado enquanto estava sob a custódia dos soldados romanos:

Não é fácil absolver Trajano do assassinato de um suplicante rei Parthamasiris. Porque, embora pelo fato de ter sido o primeiro a apelar para a violência este tenha feito a sua sorte cair sobre sua própria cabeça; na conflagração que se seguiu, ainda assim, teria sido melhor para o bom nome dos Romanos que um suplicante partisse ileso do que punido, mesmo que com justiça; pois em tais feitos, o motivo do ato fica oculto, mas o ato em si está diante dos olhos, e é bem melhor deixar passar uma injúria, e ter a opinião pública do seu lado, do que vingar outra e tê-la contra você”.

Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 14 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n226/mode/2up?view=theater

Uma coluna comandada por Quieto foi enviada contra o povo iraniano dos Mardi, ou Mardianos, que viviam a leste do Lago Van, derrotando-os completamente e uma guarnição romana foi estacionada na fornteira da Armênia com a Lazica, provavelmente para fechar completamente o cerco ao reino, que foi conquistado ainda em 114 D.C., levando o Senado Romano a conceder-lhe formalmente o título de Optimus Princeps e a cunhagem de moedas, ostentando a inscrição KOINON APMENIAC, dando a entender que a Armênia tinha sido incorporada ao Império como uma liga de cidades (koinon) e povos com certo grau de autonomia, nos mesmos moldes do que anteriormente ocorrera com outros reinos gregos. Seu primeiro governador foi Lucius Catilius Severus (Severo), um senador que já vinha ocupando cargos muitos importantes e comandado legiões como general, inclusive nesta campanha.

Moeda de Trajano ostentando a representação da Armênia sentada sobre as suas armas diante de um troféu, simbolizando a sua captura


Nesta fase do relato da campanha, Cássio Dião nos mostra como Trajano, mesmo já tendo completado 60 anos de idade, sentia-se com disposição de exercer o comando de um exército como general no campo de batalha, o que talvez tenha sido outro fator a motivá-lo a embarcar em uma campanha militar:

“Ele sempre marchava a pé com a soldadesca do seu exército e cuidava da ordem e disposição das tropas durante toda a campanha, liderando-os às vezes em uma ordem de marcha, ora em outra, e atravessou todos os rios que eles atravessavam. Algumas vezes, ele até fez com que seus batedores circulassem falsas notícias para que os soldados ao mesmo tempo praticassem exercícios militares e se tornassem destemidos e prontos para quaisquer perigos.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 23, 1

Após a conquista da Armênia, onde deixou guarnições estacionadas em pontos-chave, por volta de julho de 114 D.C., Trajano dirigiu a campanha para o sul, com suas forças divididas em duas colunas, descendo as terras altas para onde fluíam os rios Tigre e Eufrates e adentrando a Mesopotâmia setentrional (nome que deriva do fato da região ficar no meio de dois rios).

Trajano rumou para a importante cidade de Nísibis (atual Nusaybin, no Curdistão turco), que foi tomada, por volta de setembro de 114 D.C., juntamente com a cidade de Batnae (atual Suruç, também no Curdistão), embora as fontes não deem detalhes de como isso aconteceu, sendo que a segunda cidade, que fazia parte do filarcado de Anthemusia, teria sido entregue sem luta, com a fuga do seu governante, Sporaces. A conquista destas cidades fez com que Trajano fosse aclamado Parthicus“, título que seria posteriormente confirmado pelo Senado Romano quando a notícia deste sucesso chegou à Roma. Assim como na Armênia, foram estacionadas guarnições nas referidas cidades e em pontos estratégicos ao longo do avanço das tropas romanas. Provavelmente nesta fase as operações devem ter sido suspensas com a chegada do inverno.

No início da primavera do ano de 115 D.C., a força invasora romana então dirigiu-se, para Edessa (atual Sanliurfa, na Turquia), capital do Reino de Osroene, cujo rei Abgar VII, que até então vinha se esgueirando em responder às investidas diplomáticas de Trajano, acabou tendo que se submeter aos romanos, dada a magnitude da expedição militar. Antes de encontrar Trajano, contudo, Abgar enviou seu filho, Arbandes, como emissário. Segundo a narrativa de Cássio Dião, este foi um gesto inteligente do rei, ou, ao menos bem afortunado, uma vez que a bela aparência do rapaz teria tido bastante influência no espírito de Trajano, que aceitou as desculpas de Abgar. Nesta passagem, Cássio Dião, talvez intencionalmente querendo fazer um paralelo com o episódio do jovem Júlio César com o rei Nicomedes, da Bitínia (frequentemente utilizado pelos adversários políticos do Ditador como prova de sua suposta homossexualidade) menciona que, no banquete realizado para homenagear Trajano, o jovem Arbandes “entreteve” o imperador romano, dançando para ele no jantar.

” Entretanto, nesta ocasião, induzido em parte pela persuasão do seu filho Arbandes, que era bonito e estava na flor da idade e, consequentemente, tido em boa conta por Trajano, e, em parte, pelo seu medo da presença deste último, ele foi ao encontro de Trajano na estrada, apresentou suas desculpas e obteve perdão, porque ele tinha em seu filho um poderoso intercessor. Assim, ele tornou-se amigo de Trajano e o entreteve em um banquete; e, durante o jantar ele introduziu seu filho para executar uma ou outra dança bárbara.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 21, 2

Assim, Osroene tornou-se mais um reino-cliente de Roma, não obstante a existência de uma facção dos súditos que se opuseram a isso. Abgar, além disso, ofereceu aos romanos 250 catafractos, compreendendo cavaleiros e respectivos cavalos, além de um suprimento de 60 mil flechas (segundo os fragmentos 48 a 52 da Parthica, de Arriano, citados em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 227) .

Enquanto isso, Trajano recebeu uma embaixada de Manisarus, rei de Corduena, um reino-vassalo dos Partas, que estava em guerra contra Osroes I, chegando ocupar território do Império Parta na Mesopotâmia e até na Armênia,em que ele comunicava ao imperador romano que pretendia retirar-se das terras que ele havia capturado. Na mesma ocasião, também foram recebidos emissários enviados por Mannus, que, segundo Cássio Dião, governava uma parte da Arábia vizinha à Edessa.

Ocorre que Mannus, anteriormente, havia enviado auxílio militar a Mebarsapes, sátrapa ou rei de Adiabena, um reino-cliente do Império Parta, cujos reis tinham se convertido ao judaísmo, no século I D.C., e que estava resistindo à invasão romana, tentado obstaculizar o avanço das legiões. Mebarsapes inclusive mandou prender o centurião Sentius, emissário que lhe havia sido enviado por Trajano, que foi aprisionado numa fortaleza chamada Adenystrae. Porém, Sentius conseguiu tomá-la com o auxílio dos outros prisioneiros e abriu as portas para o exército romano que invadia a Mesopotâmia.

O fato é que Trajano ignorou os apelos dos emissários e o avanço romano prosseguiu para ocupar o território controlado por Adiabena situado na margem ocidental do rio Tigre, onde as cidades de Singara e Libana foram ocupadas pelas tropas comandadas por Quieto.

Com a aproximação do inverno, Trajano decidiu, como era praxe nas guerras da Antiguidade, interromper a campanha e invernar em Antióquia. no final de 115 D.C. A conquista da Armênia e da Mesopotâmia (setentrional) foi comemorada com a emissão de moedas.

(Sestércio de Trajano, com a inscrição ARMENIA ET MESOPOTAMIA IN POTESTATEM P R REDACTAE no reverso (foto extraída de Leu Numismatik)

Enquanto Trajano passava o inverno em Antióquia ocorreu, em 13 de dezembro de 115 D.C., um terrível terremoto que durante alguns dias assolou boa parte da Síria, mas foi especialmente destrutivo na cidade, onde o número de mortos foi estimado em 260 mil (A data do terremoto é dada pelo historiador romano-bizantino João Malalas, cidadão de Antióquia). Cássio Dião narra o episódio em detalhes, contando que o imperador chegou a correr risco de morte e escapou com ferimentos leves. Já o Cônsul Marcus Pedo Vergilianus não teve tanta sorte e faleceu na catástrofe:

” Enquanto o imperador estava invernando em Antioquia, ocorreu um terremoto terrível; Muitas cidades sofreram danos, mas Antioquia foi a mais desgraçada de todas. Considerando que Trajano estava passando o inverno ali e muitos soldados e civis haviam se dirigido para lá em função de processos judiciais, embaixadas, negócios ou turismo, não houve nação que escapasse ilesa; e assim, em Antioquia o mundo inteiro que se encontrava sob o cetro de Roma sofreu a catástrofe. Tinha havido muitas trovoadas e ventos portentosos, mas ninguém poderia esperar que tantos males resultassem deles. Em primeiro lugar veio, de repente, um rugido ululante, e este foi seguido por um tremendo tremor. A terra toda foi erguida e prédios saltaram no ar; alguns foram lançados para cima apenas para desmoronarem e serem feitos em pedaços, enquanto outros foram jogados para lá e para cá como se fosse pelas ondas do mar e virados de cabeça para baixo, e as ruínas espalharam-se por uma grande extensão até mesmo em campo aberto. O barulho do choque de madeiras junto com telhas e pedras sendo trituradas e quebradas foi o mais apavorante; e levantou-se uma inconcebível quantidade de poeira de modo que era impossível alguém enxergar algo e falar ou escutar uma palavra. No que toca às pessoas, muitos, mesmo os que estavam fora das casas, foram atingidos, sendo erguidos e jogados de um lado para o outro violentamente e então chocando-se com o chão como se tivessem caído de um morro; alguns sendo mutilados e outros mortos. Em alguns casos, até mesmo árvores saltaram no ar, com raízes e tudo. Não foi possível contar o número dos que foram soterrados nas casas e morreram, porque multidões foram mortas pela força dos fragmentos que caíam, e um grande número morreu sufocado nas ruínas. Aqueles que jazeram com uma parte do corpo soterrado sob as pedras ou traves de madeira sofreram terrivelmente, pois não lhes era possível nem sobreviver, nem encontrar uma morte rápida.

Não obstante, mesmo muitos destes foram salvos, como era de se esperar em tão incontável multidão, porém nem todos ilesos. Muitas pernas e braços foram perdidos, alguns tiveram as cabeças fraturadas e outros ainda vomitaram sangue; Pedo, o Cônsul, foi um destes, e ele morreu na ocasião. (…)

Trajano conseguiu escapar através de uma janela do quarto onde ele estava. Algum ser, de altura maior que a humana, veio até ele e o conduziu adiante, de modo que ele escapou com apenas alguns ferimentos leves; e enquanto os tremores continuaram por vários dias, ele acampou ao ar livre no hipódromo. (…)”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 24, 1-6 a 25, 1-5)

No início da primavera de 116 D.C., Trajano deu prosseguimento à campanha contra o Império Parta, novamente dividindo o exército em duas colunas, uma avançando ao longo do rio Eufrates e outra seguindo o curso do rio Tigre. Chama a atenção dos estudiosos que, até aquele momento, a oposição das forças partas houvesse sido mínima, para não dizer inexistente. A principal explicação para esse fato, que serve também para justificar a decisão de Trajano iniciar o próprio conflito, era o fato de que a guerra civil entre Osroes I e Vologeso III se intensificara. Reforçando essa impressão, as evidências numismáticas sugerem que o controle da casa da moeda (fundição) parta em Seleucia-Ctesifonte passou das mãos do segundo para o primeiro, naquele período (cf. “A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, The University of ChicagoPress, página 228).

Demonstrando todo o seu gênio logístico, quando dominou a região de Nísibis, que era circundada por florestas, Trajano havia ordenado a construção de uma frota de barcos aproveitando a oferta de madeira, recurso que sabia ser inexistente no restante da Mesopotâmia. Assim, quando o exército chegou às margens do rio Tigre, lá encontrou já montados os navios que Trajano havia mandado construir, os quais haviam sido transportados até lá desmontados em cima de carretas.

Ainda hoje a região de Nísibis é bem arborizada. Foto de Arab Salsa – Qamishli view at Arabic Wikipedia

As fontes sugerem que o propósito do transporte dos barcos era possibilitar que as tropas romanas cruzassem o rio Tigre, atravessando para a margem oriental, invadindo o distrito conhecido como Assíria e conquistassem a Adiabena propriamente dita. O ponto escolhido para a travessia foi o lado oposto às montanhas Gordyaean, e pela primeira vez, forças partas (ou de seus vassalos adiabenos), posicionadas na outra margem tentaram atacar os romanos com artilharia e flechas. Porém, os romanos, enquanto construíam uma ponte sobre barcos, usavam outros como escudo para proteger esse trabalho, uma parte trazendo arqueiros e infantaria pesada, enquanto que outros fingiam se dirigir para pontos de desembarque. Assim, tanto a visão inesperada e incomum de inúmeros navios, como a tática de empregá-los para responder aos ataques inimigos e confundi-los quanto ao lugar onde seria estabelecida a cabeça-de-ponte, tiveram como resultado intimidar os Partas (ou Adiabenos), que, após observar a conclusão da ponte e a travessia do Exército Romano, retiraram-se sem oferecer mais combate.

Dessa forma, os romanos conquistaram o reino de Adiabena, a qual foi transformada na província romana da Assíria.

Tudo indica que a referida frota de barcos do rio Tigre foi abandonada após a travessia do rio, pois não é mais mencionada. Provavelmente, o motivo para essa decisão deve-se ao fato de que, então, como atualmente, a navegação no rio Tigre na primavera torna-se difícil devido ao volume que desce das nascentes com o degelo, e impossível no trecho das corredeiras Al-Fathah.

Enquanto isso, a outra coluna, comandada pessoalmente pelo próprio Trajano, saiu de Antioquia, provavelmente marchando pela estrada construída pelo próprio imperador, passando por Alepo, até as margens do rio Eufrates. O exército, então, desceu o rio Eufrates, também acompanhado por uma frota de barcos sem enfrentar oposição digna de nota, passando pelas cidades de Phaliga e Dura-Europos (ver nosso artigo sobre a Pompéia do Deserto), fundada pelos Selêucidas, onde foi erguido um arco triunfal pelos soldados da Legião III Cyrenaica, cujos vestígios ainda existem.

Trecho preservado da estrada romana que liga Antioquia a Alepo “Roman road, Aleppo” by luigig is licensed under CC BY 2.0

O avanço romano seguiu Eufrates abaixo, chegando até a cidade de Ozogardana, onde Trajano passou em revista as tropas, conforme atesta a existência de um pódio ou tribunal cuja existência é relatada pelo historiador romano Amiano Marcelino, que, quase 250 anos depois, acompanhou pessoalmente e fez o relato da campanha do imperador romano Juliano (apelidado O Apóstata” contra a sucessora do Império Parta, a Pérsia Sassânida.

Se cronologicamente o relato de Cássio Dião estiver correto, Trajano avançou rapidamente pelo Eufrates, mais uma vez sem encontrar resistência, até a antiga cidade da Babilônia, que na época já contava com mais de dois mil anos de idade, embora, naquela época, ela estivesse praticamente abandonada (os seus habitantes haviam sido reassentados na cidade helenística de Selêucia no rio Tigre, por ordem de seu fundador, Seleuco I Nicator, o fundador do Império Selêucida). Nas cercanias da Babilônia, Trajano observou o asfalto que foi empregado na construção das muralhas da cidade, e também um local sagrado de onde emanavam, através de um buraco na terra, vindos do subterrâneo, gases sulfurosos.

Muralhas restauradas da Babilônia, “Processional Way” by D-Stanley is licensed under CC BY 2.0

Entretanto, como a Babilônia fica cerca de 40 km ao sul da altura do ponto do curso do rio mais próximo à Ctesifonte, a capital parta que ficava nas margens do rio Tigre (que corre paralelo ao Eufrates), onde deveria estar Osroes I e seu exército, o mais provável é que essa visita tenha se dado após o ataque à referida cidade. Mas não é impossível que Trajano tenha passado um ou dois dias visitando a Babilônia, pois batedores poderiam ter lhe dito que a mesma era quase desabitada e segura e ir até lá com destacamentos de cavalaria levaria apenas algumas horas, enquanto os trabalhos que mencionaremos a seguir eram efetuados.

Seguindo o relato de Cássio Dião, quando alcançou o trecho onde a distância entre o Tigre e o Eufrates é mais estreita (cerca de 30 km), Trajano pretendeu escavar um canal ligando os dois rios, a fim de navegar até Ctesifonte. Porém, a diferença de altura existente entre as duas áreas onde corre cada rio tornava a tarefa difícil e arriscada. Então, o imperador ordenou a construção de engenhos capazes de arrastar os barcos do Eufrates até o Tigre, onde os mesmos seriam necessários para cruzar este rio, uma vez que a capital parta ficava na margem oposta. Essa distância seria capaz de ser percorrida pelas legiões em um dia de marcha forçada. Já os barcos e as equipes de transporte, bem como as escoltas, devem ter levado mais tempo.

Ctesifonte ficava na margem oriental do Eufrates, praticamente em frente à cidade de Selêucia do Tigre, a antiga capital dos Selêucidas (dinastia de origem macedônica fundada por Seleuco I, Nicator, general de Alexandre, o Grande, que também fundou Selêucia, em 305 A.C.), que governaram a cidade até esta ser capturada pelos Partas, em 141 A.C. As evidências indicam, porém, que ao invés de instalarem a sua capital na cidade helenística conquistada, na margem ocidental do Tigre, os Partas preferiram, uns 20 anos mais tarde, transformar o acampamento militar que o seu exército havia erguido na margem oposta em uma nova capital, com palácios, mercados e habitações mais de acordo com a sua cultura, permitindo que Selêucia continuasse como uma urbe helenizada.

Seleucia, na margem esquerda do Tigre, e Ctesifonte, na margem direita, imagem de Lencer 

As fontes não relatam a chegada de Trajano à Selêucia, e apenas o Breviarium de Eutrópio, menciona que a cidade foi tomada por Trajano, muito provavelmente sem luta.

Assim, Trajano não teve dificuldade em cruzar o Eufrates e, de maneira mais surpreendente, Ctesifonte foi também tomada sem oferecer resistência. Parece que Osroes I fugiu ante à aproximação dos romanos, deixando contudo à mercê dos invasores uma filha e o seu trono real dourado (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 13, 8), sendo ambos capturados e, posteriormente, levados para Roma. Em Ctesifonte, Trajano foi novamente aclamado Imperator e teve o título Parthicus confirmdo quando a notícia chegou ao Senado, Foram cunhadas moedas com a inscrição: “Parthia capta“. Cássio Dião escreve, com uma conotação um tanto jocosa, que o Senado também decretou que, dali em diante, Trajano poderia celebrar o Triunfo que ele desejasse contra qualquer nação estrangeira, em decorrência da quantidade de mensagens relatando vitórias sobre povos cujos nomes os senadores não conseguiam transcrever corretamente nos documentos…

Aureum de Trajano, com a inscrição “Párthia capta”, no verso

Seria razoável na situação em que se encontravam os romanos, a conclusão de que Trajano poderia reivindicar que a campanha era vitoriosa e dar a guerra por terminada, com a captura da capital do Império Parta, a fuga do seu rei e a conquista da sua província mais rica e populosa, a Mesopotâmia, sobre a qual o imperador imediatamente instituiu a cobrança de um imposto (cf. Historia Augusta, Vida de Adriano, 21,12). Todavia, Trajano, seja pelo suposto projeto de dominar toda a Mesopotâmia até o Golfo Pérsico e controlar diretamente o comércio com a Índia, ou seja pelo desejo da glória de se igualar a Alexandre, o Grande, após a chegada dos barcos decidiu continuar navegando o rio Tigre abaixo, em uma frota de cinquenta navios, incluindo a sua grande e luxuosa galera imperial.

Em um misto de expedição militar e viagem turística, Trajano entrou no território de Mesene (Characene), ocupando as cidades Apamea, e Charax-Spasinus, onde ele parece ter sido bem recebido pela população e ali recebeu a submissão do seu rei Athambelus, passando pela confluência dos rios Tigre e Eufrates.

Em seguida, rumando para a foz do sistema hídrico Tigre/Eufrates, no Golfo Pérsico, que se transforma no rio atualmente chamado de Shatt-el-Arab, Trajano e sua frota correram um sério perigo ocasionado por uma tempestade em conjunto com a maré contrária ao curso do rio, um um fenômeno do tipo “pororoca”, que até hoje é observado naquele rio, entre janeiro e junho.

Finalmente, provavelmente em meados de 116 D.C, Trajano chegou às margens do Golfo Pérsico, sendo o primeiro e único governante romano a alcançar este feito, chegando a observar os navios que dali partiam para a Índia, para onde, segundo Cássio Dião, ele teria navegado, não fosse a sua idade:

” Então ele chegou ao oceano propriamente dito, e quando ele conpreendeu onde estava e viu um navio velejando para a Índia, ele disse: “Eu certamente também teria rumado para as Índias, fosse eu ainda jovem”. Porque ele começou a pensar nos Hindus e estava curioso sobre os seus negócios, e ele considerou Alexandre um homem de sorte”.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 29, 1-2)

Reconhecendo a impossibilidade de avançar em direção à Índia, Trajano começou o caminho de volta, provavelmente pelo Eufrates, com objetivo de parar na cidade da Babilônia (ou também é possível que ele tenha retornado pelo Tigre e desembarcado no ponto mais estreito entre os dois rios, fazendo o restante da jornada por terra). O imperador, não obstante, teria enviado mensageiros ao Senado informando que ele havia avançado mais longe do que o próprio Alexandre. De acordo com o relato de Cássio Dião, enquanto fazia este percurso, começaram a estourar levantes armados na maior parte das províncias recém-conquistadas, especificamente na Armênia e na Mesopotâmia.

Ainda ignorante das más notícias, Trajano, durante sua nova estadia na Babilônia, uma parada cujo objetivo parece ter sido sobretudo simbólico, aproveitou para fazer um sacrifício no aposento onde, em 11 de junho de 323 A.C., Alexandre, o Grande deu seu último suspiro, nas ruínas do palácio de Nabucodonosor II.

Cronologia da campanha

É possível até que o mencionado sacrifício tenha sido intencionalmente feito na data de aniversário da morte do célebre rei macedônio (Observação: Nossa cronologia dessa parte da expedição toma como ponto de partida a supracitada data do terremoto em Antióquia, obtida no sítio da Encyclopaedia Iranica e o período compreendido pelo fenômeno das marés no Shatt al-Arab e a data da morte de Trajano, mas advertimos que essa não é a cronologia seguida por muitos historiadores consagrados). Mas não podemos afirmar que isso tenha ocorrido na mesma data, até porque isso exigiria que a coluna comandada por Trajano tivesse levado quatro meses para fazer todo esse percurso, contados da saída de Antioquia. Então é possível que isso tenha ocorrido na metade de 116 D.C. Não obstante, considerando os fatos de que até aquele momento a oposição militar vinha sendo quase inexistente ,e que o trajeto em grande parte envolveu a navegação pelos rios, (cuja velocidade provável eu não tenho conhecimento para afirmar), eu mantenho esta minha “timeline“.

Temos, inclusive, um termo de comparação cronológica que é a campanha do imperador Juliano, em 363 D.C, cujo efetivo em termos numéricos era praticamente o mesmo e que seguiu um curso semelhante ao de Trajano. Com efeito, sabe-se que a expedição de Juliano saiu de Antióquia em 05 de março de 363 D.C. e que em meados de maio do mesmo ano os romanos estavam sitiando as muralhas de Ctesifonte, que fica nas cercanias da moderna Bagdá. Pois bem, de Antióquia até Bagdá são cerca de 1050 km, e desta até Basra, que já fica no Shatt-al Arab, são pouco mais de 500 km. Então, ao menos teoricamente, parece-me perfeitamente possível que Trajano tenha conseguido estar na Babilônia lá pela metade do ano de 116 D.C.

Reação Parta

Seja como for, nos dias em que Trajano ficou na Babilônia, ele recebeu a péssima notícia de que as guarnições romanas estacionadas nos territórios inicialmente conquistados mais ao norte haviam sido massacradas ou fugido em função de revoltas simultâneas. Um irmão de Osroes I, chamado Meherdotes (ou Mitridates, um nome comum na realeza parta) conseguiu retomar um pedaço da Mesopotâmia, situada no Médio Eufrates, morrendo em seguida (ao cair de um cavalo) e sendo substituído por seu filho Sanatruces que aparentemente também controlava algum território na Armênia. Entre as cidades que se revoltaram com sucesso contra os Romanos estavam Selêucia do Tigre, Nísibis e Edessa.

Este pedaço de um friso em marfim, encontrado nas ruínas de um terraço em Éfeso, representa Trajano na campanha da Pártia “Trajan in Parthia, ivory frieze from the Terrace Houses, Ephesus Museum” by Following Hadrian is licensed under CC BY-SA 2.0

Trajano ordenou que os generais Lúsio Quieto e Appius Maximus Santra rumassem para o norte para sufocar a revolta em Nísibis e Edessa, enquanto que os generais Marcus Erucius Clarus e Tiberius Julius Alexander Julianus foram enviados para sitiar e tomar Selêucia do Tigre.

O sempre eficiente Quieto conseguiu capturar Nísibis, porém, um certo Arbaces (possivelmente o rei Abgar, cujo nome teria sido corrompido ou escrito errado em alguma cópia do manuscrito de Cássio Dião, vide (PDF) The Mysterious Arbaces | David Potter – Academia.edu ) conseguiu derrotar as legiões sob comando de Appius Maximus Santra, que acabou morto.

Não obstante, após a captura de Nísibis, Quieto conseguiu tomar Edessa, que foi saqueada e queimada. É possível que Nísibis tenha sido poupada por ter concordado em se render sem luta, ou, então, pelo fato de ocupar uma posição mais estratégica, não interessando aos romanos a sua destruição. Já Edessa pode muito bem ter sido punida pela oposição armada que acarretou a morte de Appius Maximus Santra.

Por sua vez, Selêucia foi capturada e, igualmente, queimada, enquanto que o próprio Trajano conseguiu entrar em Ctesifonte, a capital parta que, aparentemente, conseguiu ser mantida em mãos romanas pela sua guarnição, que compreensivelmente devia ser a mais reforçada. Aparentemente, até então as revoltas estavam ocorrendo em territórios controlados pelos antigos vassalos partas em Osroene, Adiabena e Armênia. Um dos motivos imediatos para a revolta podem ter sido as taxas impostas por Trajano incidentes sobre o transporte de cavalos e camelos pelos rios Tigre e Eufrates, providência que ele estava implementando quando estourou a rebelião ( vide Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 215”).

Segundo o relato de João Malalas, para sorte dos romanos, no momento em que ganhava força a resistência parta à invasão do seu império, Parthamaspates, um príncipe parta que era filho de Osroes I, entrou em desavença com seu primo Sanatruces. Aproveitando rapidamente a oportunidade, Trajano enviou emissários a Parthamaspates oferecendo-lhe o trono da Pártia, caso ele se voltasse contra Sanatruces. O filho de Osroes I aceitou a proposta, comparecendo a uma conferência secreta noturna com o próprio imperador romano e, com os soldados de Parthamaspates recebendo o auxílio de tropas romanas, Sanatruces foi capturado e morto. ( vide “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

Após, temendo que Ctesifonte também pudesse se revoltar, o que comprometeria ainda mais a segurança dos territórios conquistados e colocaria em risco a segurança do próprio exército romano invasor, Trajano, na presença da população da cidade, incluindo os Partas simpáticos à Roma e os Romanos que agora a habitavam, reunidos em frente a um palanque construído especialmente para a ocasião, coroou Parthamaspates, como Rei da Pártia, colocando o diadema na cabeça dele com as próprias mãos. A cena aparece nos sestércios cunhados na época, acompanhada da frase: ¨Rex Parthia Datus¨.

Sestércio de Trajano coroando Parthamaspastes, foto em https://www.vcoins.com/

Agora agindo claramente na defensiva, Trajano, quando soube que Vologeso, filho de Sanatruces, comandando um exército que se encontrava em ordem de batalha contra as tropas do governador da Armênia, Lucius Catilius Severus, havia proposto uma trégua, o imperador romano enviou ao chefe parta emissários informando que Roma abria mão de uma parte da Armênia, em troca da paz. Esta concessão de Trajano pode ser explicada pelo fato de que, caso Severo fosse derrotado, o exército de Vologeso, invadindo a Mesopotâmia, poderia apoiar a insurreição dos vassalos partas de origem árabe que também estourara na cidade de Hatra, e até mesmo, juntando-se a eles, impedir a retirada do exército romano da Pártia, o que tudo indica, era a intenção de Trajano.

Panorâmica das ruínas de Hatra, foto de Multi-National Corps Iraq Public Affairs. Infelizmente, as ruínas caíram em poder do Estado Islâmico (DAESH), que as vandalizou barbaramente

Hatra era a capital de um pequeno reino árabe situado na Mesopotâmia Superior, que fica 110 km ao sul da atual cidade iraquiana de Mosul, dedicada ao culto de Shamash, o deus-sol babilônico, A cidade era vassala do Império Parta e seu urbanismo, arquitetura e arte ostentavam forte influência cultural parta, embora houvesse sincretismo com as religiões grega, babilônica, canaanita e árabe. Os Partas dotaram a cidade de fortes muralhas, que, somadas ao fato do território circundante ser desértico, sem fontes de água potável ou madeira para construir máquinas de assédio, tornava qualquer sítio um desafio logístico.

A operação romana de cerco a Hatra foi comandada por Trajano em pessoa. Os Romanos conseguiram até abrir uma brecha nas muralhas e o imperador enviou a cavalaria para tentar invadir a cidade, mas o ataque foi repelido e os atacantes tiveram que se refugiar no acampamento. Trajano, inclusive, chegou a acompanhar pessoalmente uma arriscada incursão da cavalaria romana contra as muralhas de Hatra, que também foi reprimida. Nas palavras de Cássio Dião:

“De fato, o próprio imperador por pouco não escapou de ser ferido enquanto ele cavalgava diante das muralhas, apesar do fato dele ter tirado seu traje imperial para evitar ser reconhecido; mas o inimigo, vendo a sua majestosa cabeça grisalha e o seu augusto semblante, suspeitou sua identidade, disparou flechas em sua direção e matou um cavaleiro que o escoltava.”

Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 3)
Estátua de um comandante militar da cidade de Hatra, foto de By Hanming Huang https://www.flickr.com/photos/29868194@N08/40405703243/ – This file has been extracted from another file: Military commander from the city of Hatra. National Museum of Iraq.jpg, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=89183132

Ainda segundo Dião, durante o cerco a Hatra, o exército romano foi atormentado pelo sol e calor, mas também por fortes chuvas, trovões e nuvens de moscas, as quais pousavam sobre toda a bebida e comida dos legionários (cf. Cassius Dio (Livro LXVIII, 31, 4). Este relato é consistente com o clima da região no início do outono, sendo que moscas e mosquitos ali são abundantes até hoje, sendo um dos picos de infestação verificados entre os meses de setembro e outubro.

A resistência dos sitiados e o tormento causado pelo clima e pelos insetos, de acordo com o relato de Dião, obrigaram Trajano a suspender o sítio a Hatra e ordenar a retirada do exército. E então, pouco depois de deixar as cercanias da cidade, o imperador adoeceu.

Para Frontão, que parece não ter nutrido muita simpatia por Trajano, em observação feita em uma carta ao seu antigo pupilo e então co-imperador (junto com Marco Aurélio), Lúcio Vero, ao discorrer sobre as guerras de Roma contra os Partas, qualifica a interrupção da campanha de Trajano contra esses velhos inimigos como tendo o objetivo de permitir que o imperador celebrasse o seu triunfo, resultando em nada menos do que uma difícil e encaniçada retirada forçada:

“Dentre o gênero humano, somente os Partas sustentaram o papel de inimigo dos romanos de uma maneira a ser jamais desprezada, como mostra apropriadamente, não apenas o desastre de Crasso e a fuga vergonhosa de Antônio, mas o massacre de um general com todo o seu exército sob o comando até mesmo de Trajano, o mais resoluto dos imperadores, e pela retirada, de modo algum ilesa ou sem baixas, deste imperador, enquanto ele retrocedia para celebrar seu triunfo.” (Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae“, em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto“, pág. 203)

A Guerra de Kitos

Apesar da sua moléstia ter aparecido após o fim do cerco, Trajano quase que certamente teriaque interromper as operações contra Hatra mesmo que a sua saúde estivesse em perfeito estado: em primeiro lugar pela aproximação da chegada do inverno, e, mais importante, pelo fato de que, naqueles dias, chegara a notícia de que os judeus de Cirene (capital da Cirenaica, na atual Líbia), comandados por um certo Andreas (chamado em outra fonte de Lukuas), tinham deflagrado uma grande rebelião contra o governo romano e contra os habitantes gregos da região adeptos de religiões pagãs, revolta essa que rapidamente se alastrou para o Egito e para a ilha de Chipre (vide Cassius Dio (Livro LXVIII, 32, 1) .

Segundo o historiador cristão Eusébio de Cesaréia ( vide”História da Igreja“, livro IV, 2), esta revolta judaica começou no 18º ano do reinado de Trajano, ou seja, no ano de 115 D.C., quando o imperador estava em campanha no norte da Mesopotâmia, sendo que, no ano seguinte (116 D.C.), quando era governador do Egito um certo Lupus, os cidadãos romanos de língua grega, que haviam se refugiado em Alexandria dos ataques dos Judeus, contra-atacaram e, por sua vez massacraram os judeus alexandrinos. De acordo com Dião, duzentos e vinte mil pessoas foram mortas na região de Cirene e outras duzentas e quarenta mil pessoas morreram em Chipre, para onde a revolta se alastrou (sendo ali liderada por um judeu de nome Artemion), entre judeus e os seus adversários, sem contar as mortes em Alexandria, que certamente devem ter sido também muito numerosas.

Não se sabe com exatidão as causas da revolta judaica, nem se os movimentos em Cirene, Alexandria e Chipre foram planejados em comum. De fato, a História registra uma prolongada rivalidade entre os cidadãos gregos e os judeus em Alexandria, desde as primeiras décadas do Império Romano, não raras vezes degenerando em autênticos pogroms. Uma tese bem provável é que a insatisfação dos judeus com o Império Romano durante o reinado de Trajano tenha tido como causa mais remota o “fiscus judaicus“, um tributo imposto aos judeus após a Primeira Guerra contra os Judeus, a grande revolta ocorrida entre 66 e 73 D.C., debelada por Vespasiano e seu filho Tito, sendo que esse tributo foi expandido pelo imperador Domiciano, que reinou entre 81 e 96 D.C.

O fato é que a campanha de Trajano contra o Império Parta, que incluiu sitiar e conquistar cidades onde havia uma expressiva população judia, como é o caso de Nísibis, Edessa e Selêucia, bem como a taxação que o imperador impôs às caravanas que cruzavam o Tigre e o Eufrates, uma lucrativa atividade empreendida por muitos judeus, deve ter exacerbado ainda mais os ânimos da comunidade judaica. Assim, é bem provável que o levante dos Partas na Mesopotâmia tenha tido a participação entusiástica dos judeus habitantes dessas cidades.

Em reação à revolta, de acordo com Eusébio de Cesaréia, Trajano enviou o incansável Lúsio Quieto para atacar os judeus na Mesopotâmia, sendo responsável pela matança de milhares deles. Para reprimir a revolta no Egito e em Cyrene, foi enviado o comandante da Frota Imperial de Miseno (Classis Misenensis), Quintus Marcius Turbo, que com uma força naval transportando unidades de infantaria e cavalaria sufocou a rebelião.

Andreas/Lukuas fugiu e se refugiou na cidade de Lydda, na Judéia (atual Lod, em Israel), que parece ter sido o último bastião da revolta. A cidade foi, então, sitiada por Quieto, que conseguiu tomá-la e executar os revoltosos. Pouco antes disso, ou logo em seguida, Quieto foi nomeado governador da Judéia. Devido ao papel predominante que Lúsio Quieto desempenhou na repressão a esta revolta, o conflito ficou conhecido como “Guerra de Kitos“, sendo “Kitos“, uma corruptela do nome do general (latim: Quietus), como este devia ser falado pelos judeus de fala grega da região.

O relevo acima, da Coluna de Trajano, retrata a cavalaria moura comandada por Lúsio Quieto na Guerra contra os Dácios, que prestou outros tantos serviços inestimáveisao imperador Trajano (“File:Colonne trajane 1-50 rec.jpg” by User:Cassius Ahenobarbus is licensed under CC BY-SA 3.0)

Quando a revolta judaica foi sufocada, já em 117 D.C., Trajano ainda estava em Antióquia, para onde ele foi obrigado a partir, no final do ano anterior, devido a chegada do inverno e à deterioração do seu estado de saúde.

MORTE DE TRAJANO

Segundo Cássio Dião, enquanto invernava e procurava convalescer em Antióquia, no início de 117 D.C., Trajano estava planejando fazer uma nova expedição à Mesopotâmia para sufocara as revoltas e restabelecer o controle romano sobre a região.

Porém, o esforço físico que a campanha acarretou para o organismo do imperador de 64 anos de idade, além da possível gravidade de alguma doença contraída nos inóspitos confins da Mesopotâmia, provaram-se insuperáveis, a saúde piorou e, provavelmente entre o final do mês de julho e o início de agosto de 117 D.C., Trajano resolveu deixar Antióquia e partir para Roma, deixando Adriano no comando do Exército na Síria. Cássio Dião cita que, nesta época, o Trajano apresentava algum problema circulatório, o que o teria levado até a suspeitar de possível envenenamento. Ainda segundo o citado historiador, após a partida, o imperador sofreu um derrame e ficou com uma parte do corpo paralisada, mostrando-se inchado ou com edemas generalizados.

Ao parar na cidade litorânea de Selinus, atual Gazipasa, na Turquia, uma parada que certamente deve ter sido motivada pelo agravamento do seu estado de saúde, Trajano faleceu, no dia 08 de agosto de 117 D.C. A cidade fica distante 550 km de Antioquia por rodovia moderna, mas a distância em linha reta e provável rota marítima é menor, então deve ter levado só uns poucos dias entre a partida de Antioquia e a chegada a Selinus, que em função do trágico evento, seria rebatizada como Traianopolis.

A morte de Trajano deve ter antecedido, mas pode também ter sido concomitante, ou até mesmo pode ter ocorrido em seguida a uma retirada geral das tropas romanas das posições ocupadas na Mesopotâmia e da Pártia. Dura-Europos, por exemplo, ao norte da Mesopotâmia, foi evacuada antes do outono de 117 D.C (segundo M. Rostovtzeff, citado em A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise., pág. 238, nota 123). Esta retirada pode ter sido tanto em consequência, como pode ter sido a causa de outro revés estratégico para os romanos: naquele mesmo ano, Parthamaspates, o aliado parta que Trajano havia colocado no trono da Pártia foi expulso do trono pelos súditos, para quem ele obviamente era inaceitável. De acordo com alguma evidência numismática, na ocasião, Osroes I prontamente reassumiu o controle de Ctesifonte (A Political History of Parthia“, Neilson C. Debevoise, pág. 239).

Acredita-se que esta efígie de bronze, que originalmente ficava nas termas de Ancyra (atual Ankara, na Turquia), seja uma efígie de Trajano, feita quando ele estava em Antióquia, e exibe um imperador envelhecido e possivelmente já com a saúde debilitada. Foto de Bjørn Christian Tørrissen – Own work by uploader, http://bjornfree.com/galleries.html

Sucessão de Trajano

Graças a pequena distância entre Selinus e Antioquia, a notícia da morte do imperador deve ter chegado rápido a Adriano e ao grande exército estacionado na capital da província da Síria.

Efetivamente, durante o seu longo reinado e até os dias que precederam a sua morte, Trajano não havia adotado oficialmente Adriano, que, como já mencionamos anteriormente, era seu primo em segundo grau e foi seu tutelado enquanto menor de idade, além de ser casado com sua sobrinha, que era considerada como uma filha pelo imperador.

Cássio Dião menciona a existência de relatos ou rumores de que a imperatriz Plotina, que estava acompanhando o marido em seu retorno para Roma, e que sempre havia sido amiga e protetora de Adriano, teria atuado para esconder a morte de Trajano por alguns dias, forjando o anúncio da adoção de Adriano por Trajano como tendo ocorrido ainda em vida. Nessa empreitada, Plotina contou com a ajuda do Prefeito Pretoriano Publius Acilius Attianus, que era ninguém menos do que o antigo tutor de Adriano, durante a sua menoridade, juntamente com Trajano… De acordo com Cássio Dião, uma carta de Trajano foi enviada ao Senado comunicando a adoção, porém a missiva estava assinada por Plotina. (Dião inclusive afirma que esta versão lhe foi contada por seu próprio pai, que era governador da província da Cilicia, quando Trajano morreu, vide Cassius Dio, Livro LXIX, 1, 3-4).

Já segundo a Historia Augusta, igualmente a adoção de Adriano teria sido forjada por Plotina nos dias que se sucederam a morte do marido, porém, de acordo com esta versão, a farsa teria consistido nela ter feito alguém se passar por Trajano em seu leito de morte e, imitando a voz trêmula do imperador moribundo, anunciado a adoção de Adriano.

Seja como foi, o fato é que as tropas do Exército Romano na Síria aclamaram Adriano imperador imediatamente ao tomarem conhecimento da morte de Trajano, o que até motivou o envio de uma protocolar carta de Adriano ao Senado desculpando-se pelo fato da sua ascensão ao trono não haver sido previamente submetida à aprovação daquela assembleia, como era a formalidade costumeira. Vale notar que não se tratava apenas das legiões da Síria que aclamaram Adriano, mas de todo o exército combinado para a Guerra contra os Partas, reunindo efetivos de inúmeras legiões espalhadas pelo Império e portanto, não havia nenhuma outra força militar que pudesse se comparar ao contingente sob o controle do novo imperador.

Cabeça de Adriano, foto Bodrumlu55, CC BY-SA 4.0

A maioria dos historiadores desconsidera, tendo por fantasioso, o relato existente na História Augusta de que Trajano tencionava nomear o jurista Neratius Priscus como sucessor. Embora aparentemente Trajano não nutrisse grande afeto por Adriano, durante o seu reinado este exerceu magistraturas e comandos militares importantes e recebeu honrarias que denotavam confiança e proximidade com o imperador, ainda que, é verdade, nenhuma chegando a ser inequivocamente um sinal de consagração como herdeiro do trono.

Portanto, ainda que possam ser verdadeiras as suspeitas relatadas nas fontes antigas, a “interpretação” que a imperatriz Plotina teria dado à vontade do finado marido, foi a mais lógica, senão verossimilhante.

Epílogo

Assim que Adriano assegurou o trono, houve um rápido e sangrento expurgo de alguns dos mais fiéis e valorosos colaboradores de Trajano: Lúsio Quieto, a quem Trajano havia prometido o consulado do ano de 118 D.C. em retribuição aos inestimáveis serviços nas últimas campanhas militares, foi imediatamente acusado de traição e afastado do comando. Manius Laberius Maximus, duas vezes cônsul e general veterano da campanha da Dácia, foi exilado para uma ilha. Além dos dois, caíram em desgraça: Cornélio Palma (Aulus Cornelius Palma Frontonianus), apoiador de primeira hora nos eventos que levaram Trajano ao trono, conquistador da Nabatéia e também duas vezes cônsul, Gaius Avidius Nigrinus, outro importante colaborador de Trajano, que era governador da Dácia e havia sido Cônsul Suffectus e, finalmente, Lucius Publilius Celsus, que era muito amigo de Trajano, tendo igualmente exercido duas vezes o consulado e provavelmente havia se destacado militarmente, pois, ele foi, da mesma forma que Cornélio Palma e Sósio Senecião, honrado em vida por Trajano com uma estátua de bronze no Fórum. Todos eles seriam executados em 118 D.C.

De acordo com a História Augusta, Cornélio Palma e Publilius Celsus eram inimigos de longa data de Adriano. Apesar disso, Adriano, tendo em vista a impopularidade que a execução de senadores e consulares tão ilustres lhe granjeou perante a opinião pública, afirmou expressamente que ele nunca ordenou a execução desses auxiliares de Trajano, atribuindo este ato a Attianus, o Prefeito Pretoriano, uma alegação que não soou muito convincente, pois este foi em seguida nomeado por Adriano para o Senado.

Cássio Dião alude como justificativa, para ele não muito crível, para as referidas execuções, à alegação de que Cornélio Palma e Publilius Celsus teriam conspirado para matar Adriano durante uma caçada. Já a História Augusta traz a versão de que a trama para assassinar Adriano em uma cerimônia religiosa ou sacrifício teria tido a participação de Avidius Nigrinus, Cornélio Palma, Lúsio Quieto e Publilius Celsus.

Mas o mais provável é que Adriano tenha feito um expurgo preventivo, seja porque desconfiava dos auxiliares mais próximos de Trajano, ou, sobretudo porque, ele em vias de promover uma guinada de 180º na política externa romana…

Com efeito, de acordo com o relato da História Augusta, assim que assumiu o trono, Adriano decidiu abrir mão de todas as conquistas de Trajano a oeste de Eufrates, reconhecendo na prática a independência da Pártia ao nomear Parthamaspates rei de Osroene, e também da Armênia, além de ordenar a retirada de tropas de partes da Dácia. Adriano ainda teve que lidar com algumas revoltas e ataques que estouraram na Mauritânia, atacada pelos mouros, na Britânia, no Danúbio, com incursões dos Sármatas, e na Líbia e na Palestina, onde os judeus haviam renovado a insurreição.

Há até quem procure explicações psicológicas para tamanha mudança na estratégia imperial promovida por Adriano, como vaidade expressa na necessidade de competir com a fama do antecessor ilustre, ou algum complexo de rejeição pelo parente que nunca teria lhe demonstrado apreço, mas prevalece o entendimento de que a decisão de Adriano de por um freio ao expansionismo romano, devolver províncias conquistadas e adotar uma estratégia defensiva (da qual o Muro de Adriano seria o exemplo mais eloquente) foi uma medida racional, motivada pela compreensão da crescente incapacidade militar e demográfica do Império Romano em continuar se expandindo, sendo preferível manter as províncias mais defensáveis.

Seja com for, somente após tomar medidas contra as referidas rebeliões, e também depois de dispensar Quieto e exilar Laberius Maximus, Adriano deixou Antióquia e foi prestar as homenagens aos restos de Trajano, que estavam sob os cuidados de Plotina, Matídia e Attianus. O imperador Adriano, então, enviou as cinzas de Trajano para Roma, junto com uma carta em que recomendava ao Senado a deificação do seu antecessor.

O Senado espontaneamente decretou a deificação de Trajano e muitas outras honras além das que Adriano havia solicitado. As cinzas de Trajano foram depositadas em uma urna no interior da base da sua Coluna Honorária, no Fórum de Trajano, que narra em relevo as campanhas contra a Dácia.

Base da Coluna Honorária de Trajano, onde foi depositada a urna com suas cinzas. Foto de Gary Todd from Xinzheng, China, PDM-owner, via Wikimedia Commons

Conclusão

Trajano permanece como a epítome daqueles que a historiografia romana convencionou chamar de “Bons Imperadores“. E realmente, para os seus contemporâneos ele demonstrou possuir todas as virtudes que eram valorizadas não apenas pela classe senatorial, de onde proveio a maior parte dos historiadores romanos, mas também pelo populacho romano.

Assim, Trajano foi moderado e afável em suas relações com os súditos, respeitoso com o Senado, cujos integrantes foram nomeados para os mais altos cargos civis e militares, vitorioso nas guerras externas, construtor de grandes obras públicas, manteve ou aumentou a prosperidade econômica e prestou assistência aos cidadãos pobres.

Mesmo na Idade Média, mais de mil anos após a sua morte, Trajano foi mencionado como exemplo de virtude por autores com Tomás de Aquino e Dante Alighieri (fonte: wikipedia.en, verbete: Trajan).

Thomas Ihle, CC BY-SA 3.0 http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/, via Wikimedia Commons

Das conquistas militares de Trajano, a da Dácia teve influência até os nossos dias, tendo a atual Romênia, cujo território corresponde em boa parte a da antiga província incorporada pelo imperador, permanecido como um país de língua latina em meio a um mar de idiomas eslavos.

Porém a campanha contra o Império Parta é frequentemente avaliada sob viés negativo, como um gasto de energia infrutífero, contraproducente e fruto de vaidade desmedida. Trata-se de um entendimento compreensível em função dos resultados práticos e, sobretudo, das subsequentes medidas do sucessor de Trajano. Mas teria sido mesmo esta uma empreitada vã? Em outras palavras, a submissão do Império Parta, durante o reinado de Trajano, seria algo inviável ou além das capacidades do Império Romano no início do século II D.C.?

Em primeiro lugar, como objetivo estratégico de longo prazo, e não sendo descartável que o aumento de alguma pressão bárbara hostil no Danúbio já fosse perceptível pelos governantes romanos, eliminar ou controlar o Império Parta, ou, pelo menos, ao longo de algumas décadas, “romanizar” (ou “greco-romanizar”) mais a região teria tido um impacto estratégico muito positivo no futuro, e, possivelmente, econômico.

Alguma comparação com as campanhas de Alexandre, o Grande, ainda que em um contexto temporalmente distante cerca de 450 anos no passado, pode ser útil para análise.

Devemos ressaltar que o Império Parta dos Arsácidas era, sob muitos aspectos, um adversário mais difícil de derrotar que o decadente Império Persa dos Aquemênidas, em parte pelos defeitos do primeiro: Os Partas eram muito mais descentralizados, então a derrota de um exército ou a conquista da capital não resultavam na conquista inevitável do país.

Militarmente, os Aquemênidas, quando das guerras contra Alexandre, ainda não tinham como forças principais a cavalaria couraçada (Catafractos) e nem os arqueiros montados. Os Persas, no século IV A.C, estavam taticamente muito influenciados pelos próprios gregos, e adotavam como esteio militar, ou núcleo de seu exército, a infantaria de hoplitas, muitos deles sendo mercenários gregos e ainda, os obsoletos carros de batalha, além de arqueiros a pé. Os temíveis arqueiros à cavalo, que adotavam o famigerado “Tiro Parta“, não eram usados em quantidades dignas de nota.

Portanto, os Partas eram muito mais móveis e difíceis de engajar para os romanos do que os Persas de Dario III foram para os Macedônios. Por outro lado, Alexandre dispunha de um exército de 45 mil homens quando começou a enquanto estima-se que Trajano tenha invadido o Império Parta à testa de um exército de 60 mil homens. Indiscutivelmente, o total dos meios militares à disposição de Trajano era superior a qualquer material humano que Alexandre pudesse cogitar.

Mesmo assim, foi a persistência de Alexandre em continuar a perseguição ao exército de Dario III e dar combate a qualquer força militar persa que escapasse que permitiu a conquista do Império Persa pela Macedônia. E tanto a conquista do Império Persa como o do Império Parta, por um período razoável de tempo, não era possível sem que fosse controlada ou neutralizada a região da Média, que era de onde vinha a nobreza guerreira iraniana.

As terras altas e montanhosas da Média ao Norte e ao Leste dominam a Mesopotâmia mais baixa, ao Sul e ao Oeste. Portanto, caso Trajano tencionasse mesmo dominar o Império Parta, ele certamente não ignorava que uma segunda fase da campanha obrigatoriamente impunha a conquista ou o controle da Média.

Não temos como seria o desfecho da campanha se Trajano não tivesse sucumbido à doença. Cássio Dião relata expressamente que o imperador, enquanto tentava convalescer em Antióquia, tencionava uma nova expedição.

Trajano estava se preparando para fazer uma nova expedição à Mesopotâmia, porém, como sua doença começou a afligi-lo severamente, ele partiu, visando navegar até a Itália, deixando Publius Aelius Adriano com o Exército na Síria.

Cassius Dio (Livro LXVIII, 33, 1
Trajan by Colin Smith, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

Talvez, se Trajano fosse dez anos mais novo, o desfecho da Guerra contra os Partas, e, por decorrência, da própria História Mundial, seria diferente. Certamente, comparando com a guerra anterior contra a Dácia, o imperador possuía a disposição e a saúde para conduzir uma campanha difícil e prolongada por vários anos.

FIM

FONTES:

a) Romanas

1- Cássio Dião, Cassius Dio, Roman History, Book LXVIII, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/68*.html

2- Sexto Aurélio Vítor, Epitome De Caesaribus, A Booklet about the Style of Life and the Manners of the imperatores, sometimes attributed to Sextus Aurelius Victor, Translated by Thomas M. Banchich, Canisius College Translated Texts, Number 1, Canisius College. Buffalo, New York, 2018, 3rd edition, http://www.roman-emperors.org/epitome.htm

3- Plínio, o Jovem, “Panegírico”, PLINY’S Panegyrick. An address of thanks to a good prince presented in the panegyrick of Pliny, upon Trajan, the best of Roman Emperours, Kennett, White, 1660-1728. https://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A55147.0001.001/1:5?rgn=div1;view=fulltext

4- Plínio, o Jovem, Cartas, Livro X, http://www.attalus.org/old/pliny10a.html (OBS: As Cartas 96 e 97 foram extraídas de PROMETEUS – Ano 11 – Número 28 – Edição Especial – 2018 – E-ISSN: 2176-5960)

5- Marco Cornélio Frontão, Carta de Frontão a Lúcio Vero, “Principia Historiae”, 17 , em “The Correspondence of Marcus Cornelius Fronto” , disponível em https://archive.org/details/correspondencem00frongoog/page/n230/mode/2up?view=theater

6- Dião Crisóstomo, Dio Chrysostom,The Thirty-eighth Discourse: To the Nicomedians on Concord with the Nicaeans“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/38*.html e “The Forty-eighth Discourse: A Political Address in Assembly“, https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Dio_Chrysostom/Discourses/48*.html#ref19

7- Eutrópio, Sumário da História Romana, Abridgement of Roman History, translated, with notes, by the Rev. John Selby Watson, London: Henry G. Bohn, York Street, Convent Garden, 1853. disponível emhttps://www.forumromanum.org/literature/eutropius/trans8.html

8- Historia Augusta, Life of Hadrian, disponível em https://penelope.uchicago.edu/Thayer/L/Roman/Texts/Historia_Augusta/Hadrian/1*.html

9- João Malalas, “The Chronicle of John Malalas, A Translation” by Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys and Roger Scott with Brian Croke, Jenny Ferber, Simon Franklin, Alan James, Douglas Kelly, Ann Moffatt, Ann Nixon, Melbourne, 1986, pág. 145, em https://en.calameo.com/read/000675905f2f4bf509d49)

10–Eusébio de Cesaréia, História da Igreja, Livro IV, 2, disponível em https://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf201.iii.ix.ii.html

b) Modernas

1- Caesar’s Legion, The Epic Saga of Julius Caesar’s Elite Tenth Legion and the Armies of Rome, Stephen Dando-Collins, Wiley, 2002.

2- Quem foi Quem na Roma Antiga, Diana Bowder, Ed. Círculo do Livro, 1980

3- The Reach of Rome, an History of the Roman Imperial Frontier 1st-5th Centuries AD, Derek Williams, 1997, St. Martin’s Press

4- A Vida Cotidiana em Roma no Apogeu do Império, Jerôme Carcopino, Livros do Brasil, Lisboa,

5- Trajan’s Imperial Alimenta: An analysis of the values attached to children in Roman society in the alimenta of Trajan, Gavin Carroll O’ Brien, Universidade de Leyden. 2020. https://studenttheses.universiteitleiden.nl/handle/1887/133450

6- A Political History of Parthia, Neilson C. Debevoise, The University of Chicago Press, 1938 https://oi.uchicago.edu/sites/oi.uchicago.edu/files/uploads/shared/docs/political_history_parthia.pdf

Artigos:

1- Las raíces béticas de Trajano: los ‘Traii’ de la Itálica turdetana, y otras novedades sobre su família, Alicia M. Canto. https://www.academia.edu/1082682/Las_ra%C3%ADces_b%C3%A9ticas_de_Trajano_los_Traii_de_la_It%C3%A1lica_turdetana_y_otras_novedades_sobre_su_familia_texto_

2- Iubes Esse Liberos: Pliny’s Panegyricus and Liberty, Mark P. O. Morford, publicado no The American Journal of Philology vol. 113, nº 4, 1992,  The Johns Hopkins University Press.

3- The Government as Fiduciary: A Practical Demonstration From the Reign of Trajan, Robert G. Natelson, University of Richmond Law Review, vol 35, issue 2, 2001, disponível em https://scholarship.richmond.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=2425&context=lawreview

4- The Mysterious Arbaces, David Potter, disponível em https://www.academia.edu/389199/The_Mysterious_Arbaces

VINHO ROMANO – IN VINO VERITAS

Por Eduardo André

O Vinho ocupava um espaço central na vida romana, assim como em praticamente todas as civilizações mediterrâneas. Não à toa, a bebida, juntamente com o trigo e a oliveira, era um componente do tripé daquilo que os historiadores consideram como sendo o sustentáculo das civilizações da orla do Mediterrâneo: a chamada Tríade Mediterrânea, tão bem explicada pelo grande historiador francês Fernand Braudel.

O historiador Fernand Braudel (1902- 1985), grande estudioso do Mediterrâneo e suas civilizações. Foto Contributeur19322, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

É praticamente consenso que a vitivinicultura chegou aos romanos inicialmente por meio dos Etruscos, e em seguida, dos gregos que a trouxeram para o sul da Itália (Magna Grécia). Inclusive, Enotria (ou Oenotria) era o nome que os gregos deram à região (entre Paestum e o sul da Calábria), com o significado de “Terra dos Vinhedos”…

Conquistando paulatinamente os Etruscos e as cidades gregas do Sul da Itália, Roma absorveu e incorporou toda a cultura vinícola desses povos, e, em seguida, o mesmo ocorreu em relação à Grécia e Cartago, que praticavam técnicas avançadas e cultivavam variedades próprias.

CULTIVO

Segundo nos conta Plínio, o Velho (História Natural, Livro XIV), de acordo com o costume romano, as vinhas eram podadas anualmente e, na Campânia, as plantas, em princípio, eram colocadas para crescer em torno dos álamos ou outras árvores. O naturalista romano também descreve as técnicas de cultivo em latadas (estruturas em grades de madeiras ou pergolados, ainda muito comuns na Itália e no sul do Brasil, onde as parreiras ficam suspensas) e, para a surpresa de muitos, ele também cita, como é mais comum atualmente, uma forma de cultivo similar à espaldeira, em que as vinhas são plantadas em fileiras brotando diretamente do solo, apoiadas em estacas (obviamente sem os “cavalos de videira”, isto é, os tocos de videiras nativas da América que foram adotados como porta-enxertos das variedades viníferas europeias, após a praga da Filoxera, que devastou os vinhedos europeus no século XIX). Segundo Plínio, o cultivo semelhante à espaldeira era preferencialmente praticado em algumas províncias, como a Gália Narbonense.

VARIEDADES

Em sua História Natural, Plínio, o Velho já menciona a existência de incontáveis variedades de uvas e de vinhos no Mundo Romano, motivo pelo qual ele justifica que somente abordou os mais importantes. Para ele, os vinhos de mais alta qualificação seriam provenientes de um tipo de uva que os romanos chamavam de Aminaea (o texto sugere se trata de um tipo de uva, e não de uma espécie individual, que compreendia cinco variedades) e que melhoraria com o envelhecimento. Entre as regiões onde a Aminea era cultivada, o naturalista cita especificamente o Monte Vesúvio e as colinas de Sorrento. Então, certamente, entre outros lugares, ela devia ser consumida, senão produzida, em Pompéia.

Vinhedo replantado no Foro Boario, em Pompéia, obedecendo a disposição dos vestígios de vinhas romanas encontradas no local. Ao fundo, o vulcão Vesúvio. Foto Marco Ebreo, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

O vinho Falérnio, ou Falerno, o mais afamado no Império Romano, de acordo com Plínio, o Velho (originalmente era o Caecubum, mas, segundo o autor, este não era mais produzido quando o livro foi escrito), era produzido com a variedade Aminea Gemina na região de Falerno, que ficava na Campânia, em três vinhedos no sopé do Monte Massico, próximo à antiga cidade de Sinuessa, perto da fronteira com a região do Lácio (nos limites da atual província italiana de Caserta). Vários autores antigos exaltaram em seus textos a excelência do Falerno, como os poetas Horácio e Catulo e, de acordo com esses relatos, ele pode ser considerado o equivalente antigo de ícones tradicionais da região de Bordeaux, como um Petrus ou da Borgonha, como um Romaneé-Conti. Tudo indica que devia ser um vinho branco, possivelmente fortificado, doce e de colheita tardia, com alto teor alcoólico, pois, segundo Plínio, o líquido acenderia quando em contato com uma chama.

Afresco proveniente de Pompéia, proveniente da Casa do Centenário, hoje no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles, mostrando o deus Baco, caracterizado com um traje feito de uvas, ao lado do Monte Vesúvio, ainda com seu topo que seria destruído pela erupção e coberto de latadas de parreiras. Foto ArchaiOptix, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Da mesma forma que ocorre hoje com os vinhos de qualidade, o Falerno era safrado, e Plínio cita que Júlio César, ao celebrar suas vitórias na Hispânia, em 60 A.C, mandou servir no banquete comemorativo vinho falérnio da safra de 121 A.C, chamada de Opimiano, porque foi colhida no consulado de Lucius Opimius, no referido ano (os romanos identificavam os anos de acordo com o nome dos cônsules ordinários que exerceram o consulado nos mesmos). Aliás, ainda segundo Plínio, foi César, já em seu terceiro consulado (46 A.C.), quem, pela primeira vez em Roma, no banquete, comemorativo de seu triunfo, teria servido quatro tipos de vinhos diferentes aos comensais (vinho Falerno, e os vinhos Quiano, isto é, de Quios, na Grécia, Lésbio e Mamertino – vide História Natural, Livro XIV, capítulo 17).

As escavações em Pompéia permitiram encontrar e identificar vinhedos e inferir os tipos de uvas que neles eram plantadas (o que ocorria até mesmo em jardins de residências particulares), sendo que viticultores especialistas, analisando sementes, troncos e impressões de folhas, acreditam que existe parentesco entre as variedades Aglianico e Falanghina, atualmente extensamente cultivadas na região, com as uvas que eram cultivadas pelos Romanos quando da erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

Cientistas que analisaram sementes de uvas encontradas em sítios arqueológicos da época romana no sul da França encontraram laços estreitos entre as amostras obtidas e duas variedades de uvas altamente populares hoje: Syrah, que provavelmente descende (e até mesmo poderia ser a mesma) da variedade denominada allobrogica, mencionada pelos autores antigos como sendo cultivada na região do rio Rhône, e Pinot Noir (que para outros seria de fato a allobrogica). Por sua vez, testes de DNA comprovaram que as variedades suiças Humagne Blanc e Amigne descendem diretamente de uvas cultivadas pelos romanos. (vide: https://www.inrae.fr/en/news/dna-ancient-roman-and-medieval-grape-seeds-reveals-unexpected-links-modern-grape-varieties).

Havia também uma variedade chamada de biturica, citada por Columella (Lucius Junius Moderatus Columella) em sua obra “De Re Rustica” (que contém 3 volumes tratando do cultivo e produção de vinhos), que para alguns especialistas seria ancestral das Cabernet.

A leitura do texto de Plínio, o Velho sobre o cultivo e consumo do vinho no mundo romano permite observar que compartilhamos com os Romanos muitos dos usos e costumes relacionados à Enologia e cultura enogastronômica moderna: Safras consideradas boas de produtores renomados eram compradas ainda nos parreirais pelos comerciantes, e as ânforas dos vinhos produzidos com elas, mesmo décadas depois, adquiriam preços astronômicos. Os apreciadores de vinho atribuíam sua boa saúde e longevidade ao consumo da bebida e também havia os espertalhões que vendiam vinhos inferiores como se fossem vinhos caros. Em Pompéia, por exemplo, em uma taberna (termopolium), descobriu-se um anúncio de uma dose de vinho “Falérnio” por 4 asses (moeda romana de bronze ou cobre, normalmente usada para troco e pagamentos de pequeno valor), sem dúvida uma ninharia, pois, segundo os relatos antigos, uma ânfora de um genuíno Falérnio poderia ser trocada por um escravo.

Citemos, como curiosidade, a seguinte passagem, escrita por Plínio, sobre a influente imperatriz Lívia Drusila, também conhecida como Júlia Augusta, esposa do primeiro imperador romano, Augusto:

Plínio, o Velho, História Natural, Livro XIV, 8, 59-62;

Acredita-se que o “Vinho de Pizzino” fosse um tipo de vinho espumante, semelhante ao Prosecco.

Villa Regina, em Boscoreale, uma fazendinha romana admiravelmente preservada pela erupção do Vesúvio, com seu vinhedo replantado. Foto: Norbert Nagel, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

PRODUÇÃO

A leitura das obras dos autores antigos que se debruçaram sob o tema da vitivinicultura, como Plínio, o Velho, Columella e Catão, o Velho, mostra que os Romanos já utilizavam muitas das técnicas conhecidas dos produtores modernos: eles sabiam que a poda das videiras melhorava a qualidade do vinho, assim como o distanciamento das mesmas permitia melhor insolação, plantavam mudas de outras plantas, como lavanda, ou árvores junto às mesmas, lavavam e purificavam periodicamente os recipientes utilizados para a fermentação e sabiam que os vinhos produzidos com o primeiro mosto obtido das bagas eram de melhor qualidade. Os romanos conheciam e praticavam também a “colheita tardia”, na qual o teor de açúcar da uva é aumentado. Ao introduzirem o plantio de vinhas às margens dos rios Reno e Mosela, os Romanos aprenderam que a plantação em terraços descendentes protegia os vinhedos do vento gélido e favorecia a melhor insolação, exatamente como é feito atualmente na mesma região e em outras, como ao longo do rio Douro. Eles também sabiam que deixar o vinho branco envelhecer um pouco em contato com a borra contendo leveduras mortas contribuía para diminuir a acidez e acrescentar notas de tostado e nozes, técnica conhecida na França atual como “sur lie“.

Inclusive, os cientistas Dimitri Van Limbergen, da Ghent University e Paulina Komar, da Universidade de Varsóvia, publicaram na revista Antiquity um artigo demonstrando que o vinho romano provavelmente tinha um sabor ligeiramente picante e tinha aromas semelhantes ao pão torrado e nozes.

De acordo com a matéria sobre o referido estudo, publicada pela revista Newsweek, Van Limbergen e Paulina Komar estudaram as “Dolia” antigas – um tipo de vaso ou pote usado para armazenar o vinho nos tempos romanos antigos – comparando-as com o vinho produzido nos chamados qvevri, recipientes muito semelhantes usados até hoje para produzir vinho na República da Geórgia. As Dolia eram utilizadas não apenas para guardar o vinho, mas também para produzi-lo e envelhecê-lo.

Os resultados do nosso estudo nos forçam a questionar várias suposições de longa data sobre a vinificação romana. Em primeiro lugar, usando as técnicas que descrevemos em nosso artigo, os romanos eram capazes de fazer vinhos muito melhores, mais saborosos e muito mais estáveis do que se supõe”.

“A natureza generalizada das adegas com recipientes de barro (dolia) no mundo romano entre o século III ou II d.C. e o século III ou IV d.C. sugere o desenvolvimento de uma indústria vinícola em uma escala nunca alcançada antes, e com um nível de experiência e um perfil sensorial há muito obscurecido”.

“Ideias modernas de classificação de vinhos são inúteis para capturar a natureza do vinho romano. As cores do vinho, por exemplo, não eram subdivididas por padrão entre branco e tinto (como é feito hoje), mas para os romanos, elas pertenciam a um amplo espectro de cores que variam de branco e amarelo a dourado, âmbar, marrom e depois vermelho e preto, tudo baseado em uvas maceradas com a casca.”

Van Limbergen, em entrevista à revista Newsweek (conferir link no texto)

Hoje em dia, a maioria do vinho é feita em grandes recipientes de metal, o que permite que mais vinho seja produzido em massa. Já as “dolia” são comparáveis ao qvevri, que são vasos usados para fazer vinho na atual República da Geórgia. O processo usado neste processo de vinificação mostrou-se muito semelhante ao que os romanos teriam utilizado para fazer vinho nas dolia.

Qvevri, recipientes de barro utilizados para fazer vinho na Geórgia. Foto: Mutialulu, CC0, via Wikimedia Commons

De acordo com o estudo, a base estreita do vaso de fermentação permitia que os resíduos sólidos da uva fossem separados do vinho. Ao contrário de muitos dos vinhos típicos que consumimos, esse processo de fermentação dava ao líquido uma cor laranja.

O sabor picante surgia ao se enterrar as dolia no chão, diz o estudo. Isso significava que o pH e a temperatura eram bem controlados enquanto o vinho envelhecia. As leveduras tinham mais oportunidade de fermentar, produzindo um composto conhecido como sotolon.

Dolia enterrados no chão da Villa Regina, em Boscoreale, a fazenda romana preservada pela erupção do Vesúvio. Foto: Carla Brain, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

A vinificação em qvevri e dolia é extremamente simples e uma forma engenhosa de produzir vinho, segundo Van Limbergen, mas ele ressalva:

““Grandes adegas cheias de dolia eram investimentos de um tipo que só poderia ocorrer em circunstâncias economicamente favoráveis, e sua presença atesta a prosperidade econômica no mundo romano no final dos tempos republicanos e no início do império.

Ao mesmo tempo, muitas famílias podiam pagar um dolium, e a produção de vinho provavelmente fazia parte da vida quotidiana de muitas famílias, tornando o vinho um produto consumido numa ampla escala social (muitas famílias hoje na Geórgia produzem o seu próprio vinho e mantêm-no próximo de na cozinha ou numa adega dentro de um qvevri, isto deve ter sido bastante semelhante no mundo romano).”

A textura deste vinho também teria sido diferente do vinho que consumimos hoje. O barro da vasilha conferia ao vinho uma “sensação de ressecamento” na boca. Segundo os pesquisadores, isso era popular entre os paladares romanos.

Esta pesquisa não só nos ensina como era o sabor e o aroma do vinho, mas também dá aos arqueólogos novos detalhes sobre como viviam os romanos. A partir do processo de fermentação, fica claro que os romanos conheciam muitas técnicas diferentes de criação de vinho e podiam variar seu sabor e aroma. Eles manipulavam os sabores e aromas alterando o formato das dolia e a forma como eram armazenadas.

Confira em https://www.newsweek.com/how-roman-wine-tasted-archaeologists-1862792?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR2J1n6JEtX32a4YY3bIYB0dY2UpoygS9YcAeIW5h9UxIj4nvihiL9097ik_aem_Aba55-ae5Up7PJ21tp1M9_8Nas2qEJcqGNTCsKjxYCfUahL3GeTzisgtnmnOVRBp7rTLF2BHL9xQiK0oY0ONxbZI

Em outra matéria jornalística que compilamos, publicada no site da Revista do Smithsonian Institute, uma adega recentemente descoberta no centro de Israel por uma equipe dirigida pelos arqueólogos Elie Haddad, Jon Seligman e Liat Nadav-Ziv, produziu alguns dos melhores vinhos do Mediterrâneo, já no período da Era Bizantina (que nada mais é do que o Império Romano do Oriente, que continuou existindo até 1453 D.C), a um ritmo de mais de meio milhão de galões por ano (um galão tem 3,78 litros), afirmam os arqueólogos da Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA). Vide https://www.smithsonianmag.com/smart-news/1500-year-old-winery-found-in-israel-180978848/

Ao escavar no local de um projeto de construção nos arredores de Yavne, a sul de Tel Aviv, a equipe de Haddad encontrou cinco enormes lagares de vinho, cada um com cerca de 2.400 metros quadrados. Cada lagar incluía pisos com degraus, onde os trabalhadores esmagavam as uvas com os pés, bem como compartimentos para fermentar o vinho e cubas para o recolher. Também no local havia quatro grandes armazéns onde o vinho era envelhecido, bem como fornos onde os jarros de vinho eram cozidos.

O vinho produzido na região de Yavne e arredores era conhecido como Vinho de Gaza ou Ashkelon, devido aos portos próximos que o transportavam para outras partes do mundo mediterrânico.

Era um vinho branco e leve”, disse Seligman ao Jerusalem Post. “Encontramos muitos lagares em Israel, mas o que é único aqui é que estamos falando de um conjunto de cinco lagares enormes, especialmente bonitos em sua arquitetura.”

Na instalação, os trabalhadores primeiro colocavam as uvas em pisos pequenos, onde a pressão do seu próprio peso fez com que produzissem suco “livre”, escreve Ruth Schuster, no jornal Haaretz. Este suco produzia um vinho da mais alta qualidade, livre de taninos amargos liberados quando as cascas das uvas eram esmagadas pela pisa. Depois disso, as uvas seguiam para as pisadas, onde se produziam vinhos menos sofisticados. Depois de as uvas terem sido prensadas com os pés, uma prensa de rosca as espremia para extrair os últimos sucos, para produzir vinhos ainda mais baratos.

Seligman disse que a equipe agora está tentando extrair DNA de sementes antigas de uva encontradas no local para determinar quais tipos foram usados ​​na vinícola. Fontes antigas descrevem o vinho de Gaza servido na festa de coroação do Imperador Romano Justino II, em Constantinopla, ocorrida em 565 D.C., como “branco como a neve”.

A grande operação de estilo industrial não marcou o início da utilização do local para a vinificação. A escavação também encontrou lagares anteriores que datam de cerca de 300 a.C., bem como fornos usados ​​para fazer recipientes que remontam ainda mais longe, ao período da Média Idade do Bronze, em quantidades que sugerem uma operação industrial.

Sarcófago com relevo mostrando o processo de colheita e pisagem das uvas, o principal método para extrair o mosto das uvas. Ca. 290-300 AD. Malibu, Getty Villa, Foto: Typhon2222, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

BARRICAS DE VINHO ROMANAS

Como já mencionamos, os romanos, assim como a maioria dos povos mediterrâneos, desenvolveram a vinificação das uvas usando primordialmente como recipientes para fermentação e armazenamento ânforas de barro. Esta técnica vem sendo estudada por especialistas modernos e tem se verificado que resulta em vinhos de sabor agradável, embora um tanto diferente do que estamos acostumados.

Porém, sabe-se, inclusive mediante o relato de Júlio César, em seus Comentários às Guerras da Gália, que os romanos entraram em contato com a técnica de armazenar o vinho em barricas de madeira a partir da conquista da Gália, no século I A.C, e, ao longo da existência do Império Romano, esta técnica concorreu com as tradicionais ânforas de barro, sobretudo nas áreas aos longo dos rios Reno e Ródano, como é mostrado em vários relevos romanos antigos.

Pedra tumular de um negociante ou produtor de vinhos romano em formato de barrica, Museu de Évora. Foto: Ken & Nyetta, CC BY 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by/2.0, via Wikimedia Co

Em 2008, no rio Vesle, próximo à cidade de Reims, na França (considerada a capital do Champagne), arqueólogos chefiados por Philippe Rollet desenterraram três barris de madeira, em excelente estado de conservação, datados do século I ao século IV D.C.

A análise dos vestígios das aduelas do barril, no entanto, obteve restos reveladores de ácidos málico e tartárico, que são indicadores comuns de fermentação alcoólica. Além disso, havia marcas nos barris que indicavam que tinham sido utilizados no comércio de vinho antes de serem eventualmente reaproveitados.

Os barris de vinho romanos de Reims foram construídos quase exclusivamente com materiais colhidos no norte da Europa: as tábuas dos barris eram feitas de abeto prateado europeu, os aros, de mudas de avelã e o selante, de piche de madeira de pinho. Isto indica que provavelmente foram produzidos por fabricantes de barris ou tanoeiros locais, cujos serviços foram contratados por comerciantes ou atacadistas que operavam na metade norte da próspera e geograficamente expansiva rede de comércio de vinho do Império Romano. Não obstante, parece que, ao menos nos primeiros séculos, a técnica e os materiais utilizados no período, no que se refere à conservação do vinho, apresentavam resultados inferiores aos obtidos com o uso das ânforas de barro.

Os barris foram construídos para conter até 317 galões (1.200 litros) de vinho, o que seria suficiente para encher 1.500 garrafas fabricadas de acordo com os padrões modernos.

Uma parte interessante do estudo sobre as barricas encontradas em Reims mostrou que elas continham os selos ou marcas não só dos produtores das barricas, mas também dos produtores dos vinhos, dos negociantes atacadistas que as adquiriam e revendiam o vinho aos varejistas que supriam os consumidores, e até mesmo dos empresários encarregados de transportá-los, demonstrando a existência de uma rede organizada de comércio. Os pesquisadores, então, deduziram que as barricas eram encomendadas pelos negociantes, que as enviavam aos produtores para serem enchidas com a bebida, e que, após serem transportadas até o destino final, as barricas eram esvaziadas e deviam ser devolvidas aos negociantes, para serem reutilizadas. Todos os envolvidos gravavam os seus selos nas barricas, o que de certa forma, funcionava como marca de propriedade e selo de autenticidade, e também como uma espécie de “nota fiscal”, além de funcionar como controle de qualidade.

A descoberta pode ser consultada no link https://www.ancient-origins.net/news-history-archaeology/roman-wine-barrels-0014830

Relevo romano retratando o transporte de vinho em barricas no rio Durance, afluente do Ródano, séc. I D.C, aproximadamente. Atualmente no Museé Lapidaire, França

ÂNFORAS

Mas, as dolia e as barricas de madeira do tamanho das que foram encontradas em Reims obviamente eram grandes demais para serem transportadas por via terrestre até o consumidor final, ou para serem guardadas nas tabernas e nas residências ou, ainda, serem usadas nas ocasiões em que o vinho era consumido.

Para estas finalidades, o recipiente mais utilizado eram as ânforas de barro ou cerâmica. A palavra “ânfora” vem do grego “amphoreus“, sendo que “amphi” significa ambas ou dois lados, no caso, em referência às alças, e “phoreus” quer dizer carregador. As ânforas eram utilizadas na Antiguidade, e muito tempo depois, principalmente para transporte de vinho, azeite, e vários produtos agrícolas, como especiarias, ou até mesmo da indústria alimentícia antiga, como o molho “garum” Havia as maiores, destinados ao transporte comercial dessas mercadorias, sobretudo em navios, onde seu formato permitia que fossem engenhosamente empilhadas com segurança, mas também versões menores, para guarda sobretudo de vinho e azeite nas tabernas e nas residências, ou até mesmo para serviço de mesa.

No caso do vinho para ser consumido em casa, por ocasião de um banquete ou refeição, era comum deixar o vinho em uma ânfora de mesa acompanhado de uma “hídria” (vaso usando na antiguidade para servir água ) feita de cerâmica, bronze ou prata, contendo água para ser misturada ao vinho de acordo com o gosto dos convivas.

Com o tempo, os antigos romanos foram desenvolvendo ânforas com um formato específico para cada tipo de vinho, e, até mesmo, para cada região (e os achados arqueológicos mostram que havia uma quantidade enorme de formatos diferentes). Assim, os consumidores poderiam saber, só de olhar a garrafa, que vinho ela continha. Considerando que os índices de alfabetização no mundo greco-romano, embora consideráveis em comparação com os povos circundantes, eram muito inferiores ao atuais, devia ser importante que os iletrados pudessem escolher o seu vinho mesmo sem saber ler os anúncios nas vendas e tabernas, bem como que os estivadores encarregados de carregar e descarregar os navios pudessem separar corretamente as cargas.

(Toulouse) Musée Saint-Raymond, Amphores de Vieille-Toulouse

O sistema de selos e anotações nos recipientes, que mencionamos no tópico referente às barricas de madeira com certeza foi aplicado primeiro nas ânforas de cerâmica: nelas foram encontradas inscrições feitas com carimbos no próprio barro quando ainda úmido ou pintadas após a secagem, seja relativas à olaria onde foram produzidas, ao volume que podiam transportar, seja relativas ao produtor do vinho, mencionando o nome do vinicultor, o tipo de vinho, a região, o ano de produção ou louvando a sua qualidade, seja, ainda, aquelas relativas ao negociante e ao transportador.

OS VINHOS ROMANOS QUE SOBREVIVERAM AO TEMPO

Em 1867, na cidade de Speyer, na Alemanha, no decorrer de uma escavação, foi encontrado, dentro de um sarcófago romano datado do século IV D.C (entre os anos de 325 e 350 D.C., segundo avaliações), uma garrafa de vidro contendo, em seu terço inferior, um líquido vermelho escuro, acima do qual havia substâncias resinosas.

O líquido estava selado com azeite grosso e cera de abelha, que certamente ajudou na sua preservação, e seu recipiente ficou conhecido como a Garrafa de Vinho de Speyer ou Römerwein (vinho romano, em alemão) e, então, foi considerado como sendo o vinho mais antigo ainda existente em estado líquido. A garrafa tem cerca de 1,5 litros de capacidade e possui duas alças em forma de golfinho, semelhantes às usadas em ânforas. O líquido dentro dela foi considerado pelos estudiosos como sendo uma mistura de vinho, resina e ervas, conservado em uma combinação de azeite de oliva, que criou uma camada protetora contra a oxidação.

Embora a tecnologia moderna permita a análise química do conteúdo, o vinho nunca foi aberto, principalmente por questões de conservação e respeito ao artefato histórico. Os especialistas acreditam que abrir a garrafa poderia comprometer a integridade do líquido e do próprio frasco. Tudo indica que o vinho que ela preserva pode ser enquadrado no tipo que os romanos denominavam de conditum, como veremos a seguir. A garrafa do Römerwein faz parte do acervo do Wine Museum, seção do Museu Histórico do Palatinado, em Speyer.

A garrafa de “Rommerwein”, no Museu do Vinho, em Speyer

Porém, em 2024, o Römerwein perderia o seu título para outro exemplar de vinho romano, também ainda em estado líquido, descoberto em 2019 em uma tumba nos limites da cidade espanhola de Carmona, na Andaluzia, por um time de arqueólogos a serviço da Prefeitura da Cidade. A tumba, datada do século I D.C., inteiramente preservada e selada, continha os restos mortais de um homem chamado Senicio, de uma mulher, de nome Hispana, além de outros dois homens e duas mulheres. Uma urna de vidro continha as cinzas e restos de ossos de Senicio, imersos em um líquido de cor avermelhada.

A urna de vidro contendo vinho romano em estado líquido descoberta em Carmona. Foto: Juan Manuel Román Journal of Archaeological Science: Reports (2024)

Análises químicas feitas por uma equipe do Departamento de Química Orgânica da Universidade de Córdoba, liderada pelo Professor José Rafael Ruiz Arrebola, confirmaram que o líquido se tratava de vinho. O estudo foi publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, em 2024.

Eles estudaram o pH do líquido e a presença de certos compostos químicos e os compararam a vinhos da denominação Montilla-Moriles, Jerez e Sanlúcar. A chave para a confirmação da natureza do líquido encontrado baseou-se na presença de polifenóis, substâncias presentes em todos os vinhos. E os pesquisadores encontraram sete polifenóis específicos presentes nas denominações espanholas supracitadas, comprovando que se tratava mesmo de vinho romano. A ausência de um polifenol específico, o ácido siríngico, indica que o vinho preservado provavelmente era vinho branco, embora os cientistas admitam que essa substância possa ter se degradado ao longo do tempo.

A matéria pode ser conferida em https://phys.org/news/2024-06-world-oldest-wine-rome.html

CONSUMO

O mosaico da foto acima, que hoje faz parte do acervo do museu do Chatêau de Boudry (foto copiada do site “http://www.chateaudeboudry.ch&#8221😉 é um dos mais extraordinários mosaicos romanos que sobreviveram. Ele data do século V D.C. e acredita-se que seja originário da Síria e mostra uma cena de um banquete romano.

Bem no canto direito, podemos ver um escravo enchendo um recipiente em uma espécie de samovar, com o que parece ser água quente, pois sabemos que os romanos costumavam adicioná-la ao vinho (porém, os romanos, no verão, também apreciavam o oposto: beber vinho misturado com neve trazida dos picos das montanhas). Ou, quem sabe, pode ser o próprio vinho aquecido, com especiarias, como ainda se consome no norte da Europa (vin chaud).

Depois da sobremesa, um banquete que se pretendesse longo evoluiria para uma fase de degustação de vinhos, em variadas formas, chamada de comissatio (valendo observar que nos banquetes romanos, ao contrário dos symposia gregos, o vinho era servido já durante a refeição).

O vinho frequentemente era misturado com água ao gosto do convidado, em sua própria taça, para o qual ele se valia de uma concha, chamada de simpulum. Muitos acreditam que isso era necessário porque o processo de fermentação utilizado pelos romanos resultaria em um vinho de teor alcoólico muito elevado. E, provavelmente isto realmente era necessário para alguns tipos de vinho. Entretanto, conforme já vimos, cada vez mais surgem evidências de que os romanos eram capazes de controlar o processo de fermentação e produzir vinhos de vários tipos, assim eu acredito que na verdade essa era também uma forma dos convivas dosarem a quantidade de álcool que ingeriam, permitindo que bebessem mais, como hoje fazemos ao intercalar bebidas alcoólicas e copos d’água em um evento (sendo que beber água pura, na Antiguidade, aumentava o risco de contrair doenças).

Simpulum romano de prata. Foto: BnF Museum, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Entre os tipos de vinhos mais consumidos estava o passum, um vinho doce de uvas passificadas, o muslum, que era uma mistura de vinho e mel, de origem cartaginesa, e o conditum, que era uma mistura de vinho, mel e especiarias, envelhecida em recipientes. Segundo as recomendações, as mulheres somente deveriam consumir o passum. Uma outra forma de adoçar o vinho, relatada pelos autores antigos mas que para nós parece inacreditável, era adicionar ao vinho suco de uva concentrado, aquecido em recipientes de chumbo, que adocicavam a mistura devido ao acetato presente no referido elemento.

A prática de guardar o vinho em ânforas seladas com resinas de árvores fazia com que o vinho adquirisse um pouco do aroma e sabor das resinas empregadas, e, este tipo de vinho resinado deu origem moderna Grécia na bebida chamada de Retsina, um vinho branco ou rosé resinado.

A alguns paladares romanos agradava que o vinho tivesse notas de “fumaça”, característico do envelhecimento da bebida, o que levava alguns produtores, ainda na fase de produção, a guardarem as ânforas em um compartimento chamado de fumarium, uma câmara construída sobre um forno à lenha, na qual o vinho adquiria o aroma e o sabor enfumaçado, de certa forma emulando o que acontece modernamente com vinhos colocados a envelhecer com “chips” de madeira.

Outro costume, esse nos parecendo muito mais estranho, mas que é relatado pelas fontes, era diluir o vinho com água do mar para ser bebido.

Havia taças de vários tipos, as mais comuns sendo o scyphus e o cantharus, de inspiração grega, que tinham duas asas para segurar.

Scyphus ou Skiphos romano de prata. Foto: Bibliothèque nationale de France, Public domain, via Wikimedia Commons
Cantharus romano de vidro. Foto: Metropolitan Museum of Art, CC0, via Wikimedia Commons

O consumo de vinho também era definido pela marcada estratificação da sociedade romana.

Os soldados rasos romanos consumiam a posca, uma bebida resultante da mistura de vinho quase avinagrado com água (um litro por dia, segundo o Código de Justiniano).

E, para consumo dos escravos, era produzida a lora, bebida feita com a mistura quase sólida das cascas das uvas, engaços e sementes, prensadas pela terceira vez e deixada por um dia dentro de um recipiente com água.

CONCLUSÃO

Terminamos assim nossa jornada pelo mundo do vinho romano. Espero que o leitor tenha apreciado. Pedimos simplesmente que, em caso afirmativo, curta e compartilhe esse artigo. Escrevo este blog apenas pelo prazer de estudar o tema e são as curtidas e compartilhamentos que fazem os algoritmos perceberem nossa existência.

Como diz o provérbio romano, que foi preservado na História Natural, de Plínio, o Velho:

FIM

FONTES (traduções do inglês pelo autor):

-História Natural, Plínio, o Velho, capítulo 14 ( em http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0137%3Abook%3D14%3Achapter%3D3)

-Revista História Viva, Grandes Temas, edição especial temática nº 17 (“Sete Mil Anos de Vinho)

https://www.deliciousitaly.com/lazio-rome-food-wine/ancient-roman-wine

https://glossary.wein.plus/ancient-grape-varieties

https://www.ancient-origins.net/news-history-archaeology/roman-wine-barrels-0014830

https://phys.org/news/2024-06-world-oldest-wine-rome.html

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/1500-year-old-winery-found-in-israel-180978848/

https://www.inrae.fr/en/news/dna-ancient-roman-and-medieval-grape-seeds-reveals-unexpected-links-modern-grape-varieties

Satyricon, Petrônio, capítulo 34 (em https://www.gutenberg.org/files/5219/5219-h/5219-h.htm#p1160

JULHO – O MÊS DE JÚLIO

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(Mosaico de uma casa romana de Tysdrum (El Djem), na Tunísia, foto de Ad Meskens )

No antigo calendário romano, de dez meses, que começava no mês de março, Quintilis era o nome do quinto mês, que vinha depois de Junius (junho), assim chamado para homenagear a deusa Juno, e antes do mês Sextilis.

Devido a imprecisão desse calendário primitivo, os romanos passaram a adotar um calendário de doze meses, introduzindo-se os meses de janeiro, quer passou a ser o primeiro mês, e de fevereiro. Assim, Quintilis passou a ser o sétimo mês do ano, mas, mesmo assim, ele manteve esse nome, com o qual o povo já estava acostumado.

Apesar disso, persistindo ainda consideráveis discrepâncias entre aquele calendário romano, de apenas 355 dias e o ano solar (período de translação da Terra em torno do Sol, ordinariamente de 365 dias), o ditador Caio Júlio César, em 46 A.C., assistido por uma comissão de astrônomos notáveis, determinou a adoção do calendário de um novo calendário, inspirado pelo mais preciso Egípcio, de 365 dias, ajustando o número de dias dos diversos meses, que passou a ser chamado de “Calendário Juliano“.

Após o assassinato de Júlio César, nos Idos de março de 44 A.C., entre as homenagens póstumas decretadas em sua memória, o mês Quintilis foi rebatizado de “Julius“, que, na língua portuguesa, transformou-se em “Julho“. O motivo da escolha de Quintilis para homenagear César é o fato dele ter nascido no dia 12 de julho de 100 A.C.

No mês de Julho, a data mais importante compreendia os oito dias dos Ludi Apollinares, jogos em honra do deus Apolo, a divindade associada com o Sol, entre 06 e 13 de julho, homenagem muito apropriada, afinal, em julho começa o verão no Hemisfério Norte!

TEODORA – DE DANÇARINA A IMPERATRIZ

Em 28 de junho de 548 D.C., morreu, em Constantinopla, a imperatriz Teodora Augusta, esposa do imperador romano do Oriente Justiniano I (Segundo uma fonte, ela tinha  48 anos, enquanto que outra fonte menciona que ela faleceu com 51 anos de idade). A causa da morte foi uma enfermidade que os especialistas modernos identificam como câncer de mama, com base nos relatos antigos).

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Nascimento, infância e juventude

Nascida por volta do ano 500 D.C., provavelmente na ilha de Chipre (embora outras fontes mencionem a Síria e a Paflagônia como o local de nascimento),  Teodora, era a segunda das três filhas de Acacius, um adestrador de ursos que trabalhava para a facção dos Verdes no Hipódromo de Constantinopla, onde os animais participavam dos espetáculos encenados nos intervalos entre as corridas de quadrigas, para distrair o público.

Hippodrome-of-Constantinople.jpg(Reconstituição do Hipódromo de Constantinopla)

Nota: As  chamadas “facções” do Hipódromo: os Verdes, os Azuis, os Vermelhos e os Brancos, haviam surgido no Circo Máximo em Roma e, inicialmente, elas constituíam, ao mesmo tempo, uma espécie de equipe e torcida organizada nas corridas de quadrigas de cavalos que ali eram disputadas. Com o passar do tempo, essas facções passaram a adquirir também caráter político e, até mesmo, a participar de disputas teológicas e, por fim, acabaram sendo transplantadas de Roma para Constantinopla, onde os Verdes e os Azuis absorveram as outras duas facções).

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Porém, quando Teodora tinha apenas quatro anos, o seu pai, Acacius,  faleceu, e a mãe dela, que era atriz e dançarina (o nome dela não é mencionado), precisou casar-se com outro homem, esperando que este herdasse o posto do seu falecido marido junto aos Verdes.

No entanto, os Verdes escolheram outra pessoa, e a mãe de Teodora, desesperada com a perspectiva da família cair na miséria, ordenou que ela e as irmãs, enfeitadas com guirlandas, fossem ao Hipódromo apresentar-se pessoalmente aos chefes das demais facções, diante dos camarotes que eles ocupavam à beira da pista. Diante dessa cena, o representante da facção dos Azuis, que também estavam precisando de um tratador de animais, ficou com pena das meninas, e resolveu contratar o padrasto de Teodora. Em gratidão, Teodora se manteria fiel e devotada aos Azuis pelo resto da vida.

Ainda assim, desde criança, Teodora teve que trabalhar, junto com a sua irmã mais velha, chamada Comito, no Hipódromo, onde ela se apresentava em números artísticos.

Já adolescente, Teodora notabilizou-se pela performance interpretando “Leda e o Cisne“, uma peça burlesca baseada no célebre mito grego, em que Zeus, transformado em um cisne, seduz e faz amor com a rainha Leda, de Esparta. Em uma das cenas da peça, Teodora apresentava-se praticamente nua e deitada, com grãos de cevada espalhados nas suas virilhas, os quais eram apanhados com o bico por um cisne, em evidente alusão erótica a um objeto fálico.

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(Afresco recentemente descoberto na Região V de Pompéia, retratando o mito de Leda e o Cisne)

Aos 14 anos, Teodora deu à luz a uma menina e foi aproximadamente nessa época que ela fez amizade com Antonina, a filha de um condutor de quadrigas de corrida que competia no Hipódromo e de uma dançarina dos espetáculos teatrais. Essa amizade perduraria por toda a vida das duas, e Antonina, mais tarde, casaria-se com Belisário, o célebre general de Justiniano I.

A maior parte dessas estórias é contada pelo historiador Procópio, em sua obra “A História Secreta”, onde ele afirma que, em adição às performances artísticas no Hipódromo, Teodora também exerceria a prostituição em um bordel.

Procópio chegou, ainda, a escrever, sobre a suposta luxúria desenfreada de Teodora, que certa vez ela teria reclamado que Deus deveria ter feito mais orifícios em seu corpo, “porque somente três não seriam suficientes para satisfazê-la“…

Sabe-se que, de fato, durante o Império Romano, mesmo que no período tardio, não era incomum que a profissão de atriz estivesse ligada á prostituição. Mas os relatos mais exagerados de Procópio sobre Teodora são vistos como suspeitos pelos historiadores: Eles contradizem o que ele próprio escrevera em livros anteriores e, em uma passagem da “História Secreta“, o historiador chega a afirmar que Teodora e Justiniano seriam demônios de verdade.

Enquanto ela ainda trabalhava como atriz e/ou prostituta, Teodora conheceu, em Constantinopla, um certo Hecebolus, que tinha sido nomeado governador do distrito de Pentapolis, supostamente na Líbia, tornando-se amante dele.

Então, com apenas 16 anos de idade, Teodora teria partido, acompanhando Hecebolus, para a África (eu acredito que há uma incorreção aí, pois a reconquista de Justiniano da África para o Império Romano somente ocorreu em 533 D.C., quando Teodora já era imperatriz. Por isso, talvez a Pentapolis mencionada não seja na Líbia, já que vários outros agrupamentos de cinco cidades do mundo helenístico recebiam esse nome). Vale notar que havia, desde 409 D.C.,  uma lei romana em vigor que previa que os atores e atrizes não poderiam mudar-se da cidade onde trabalhavam. Portanto, é provável que Hecebolus deva ter “mexido alguns pauzinhos” para que Teodora pudesse lhe acompanhar…

Entretanto, Procópio narra que Hecebolus logo desinteressou-se de Teodora, chegando até a maltratá-la. Por esse motivo, Teodora deixou-o e foi viver em uma comunidade de religiosos ascetas no deserto próximo à Alexandria, onde ela converteu-se ao credo Monofisita (o Monofisismo é uma doutrina que prega que Jesus Cristo tem apenas uma natureza: a divina), talvez provavelmente por influência do Patriarca de Alexandria, Timóteo III.

Posteriormente, Teodora foi viver em Antioquia, na Síria, onde ela ficou muito amiga de uma  certa  Macedonia, que também era atriz e dançarina na facção dos Azuis. Conta-se que Macedonia também atuava como informante de Flavius Petrus Sabbatius Iustinianus (o futuro imperador Justiniano), sobrinho e filho adotivo do comandante da tropa militar de elite dos ExcubitoresJustino, que procurava saber tudo acerca da posição dos nobres e militares que poderiam apoiar a ascensão de seu pai adotivo ao trono, uma vez que o imperador Anastácio I Dicoro, que já era octogenário, não tinha filhos.

Encontro com Justiniano e casamento

Aparentemente, foi Macedonia quem  apresentou Teodora a Justiniano, talvez como uma pessoa que lhe pudesse ser útil.  Um traço comum entre os dois era que Justiniano, como Teodora, era partidário da facção dos Azuis. O fato é que, em 522 D.C., aos 21 anos, Teodora retornou à Constantinopla, onde, renegando o passado de atriz, passou a trabalhar como fiadeira de lã, em uma casa próxima ao Palácio Imperial. Nessa época, Justino I já tinha sucedido Anastácio e se tornado imperador, e Justiniano era seu herdeiro e braço-direito.

Não temos muitos detalhes de quando e como o romance entre Teodora e Justiniano começou, mas o certo é que Justiniano tinha encontrado a mulher de sua vida. Todavia, haviadois obstáculos para que os dois contraíssem matrimônio legalmente: a lei que proibia que os integrantes da classe senatorial – a nobreza do império romano – casassem com atrizes, e a oposição da imperatriz Eufêmia, tia de Justiniano, ao casamento do sobrinho com uma mulher de baixa condição social como Teodora (não obstante, ela mesmo, Eufêmia, tivesse nascido bárbara e escrava, e dormido com o seu amo, antes dela casar -se com Justino).

Ocorre que, por volta de 524 D.C, a imperatriz Eufêmia morreu. Pouco tempo depois, o imperador Justino I revogou a lei  proibindo o casamento de nobres com atrizes. Assim, cerca de 525 D.C.,  Justiniano e Teodora puderam casar-se perante o Patriarca Epifânio, em Constantinopla, na primitiva igreja da Santa Sofia.

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Em 1º de agosto de 527 D.C., Justino I morreu e Justiniano I foi coroado imperador ao lado de Teodora, que recebeu o título de “Augusta” (imperatriz).

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(Reconstituição das feições de Justiniano I, com base em mosaicos e efígies)

Os primeiros anos do reinado de Justiniano foram ocupados por duas questões principais:

No plano externo, o conflito com o Império Persa foi marcado por sucessos e reveses. Após a morte do Xá Kavadh, Justiniano assinou, em 532 D.C., o chamado “Tratado da Eterna Paz” com a Pérsia o que lhe asseguraria as condições para as suas campanhas no Ocidente.

E, em casa,  Justiniano iniciou seu reinado colocando em prática o seu imenso projeto de reforma e codificação do Direito romano, que seria coroado pela edição do  Corpus Juris Civilis, nomeando uma comissão composta pelos mais notáveis juristas do Império.

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O Corpus Juris Civilis e a provável influência de Teodora em favor dos direitos das mulheres

Os estudiosos acreditam que Teodora teve considerável influência em alguns dispositivos do Corpus Juris Civilis que ampliavam os direitos das mulheres, notadamente  nos artigos que protegiam as prostitutas, bem como nos que puniam aqueles que forçassem as mulheres a se prostituírem contra a vontade. Foram, ainda, aumentadas as penas para os estupradores e, finalmente, também previu-se que as mulheres presas, caso não houvesse guardas do sexo feminino, deveriam ficar custodiadas em um convento de freiras.

Em outros artigos, o Código de Justiniano também previu que as mulheres viúvas poderiam ficar com a guarda de seus filhos ou netos. Por sua vez, a prática de exposição de recém-nascidos, fruto de gravidez  não desejada os quais, costumeiramente eram abandonados nas cidades romanas e frequentemente eram do sexo feminino, foi proibida.

Por fim, outra normas instituíram que o costumeiro dote que a família da noiva tinha que dar ao noivo deveria ser restituído à viúva, após a morte do marido, e que o marido necessitava do consentimento da esposa para contrair dívidas de grande valor ( o que pode estar na origem de várias leis semelhantes, tratando do consentimento da esposa para compra e venda de imóveis, que sobreviveram até os nossos dias).

Teodora também apresentava-se como protetora dos desvalidos e há uma grande inscrição na Igreja de São Sérgio e São Baco, em Constantinopla com o seguinte trecho:

“Teodora coroada por Deus cuja mente está adornada com piedade e cujo trabalho incessante repousa em incansáveis esforços para cuidar dos despossuídos”

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(Igreja de São Sérgio e São Baco, construída pelo imperador Justiniano I)

Entre outras ações de Teodora em proteção das mulheres figuram o fechamento de bordéis na capital e o envio das prostitutas para morarem em um convento chamado de Metanoia (Arrependimento).

Por tudo isso, é muito difícil não relacionar essas ações com a própria vida pregressa de Teodora, que deve ter presenciado, senão experimentado na própria carne, as vicissitudes a que estavam sujeitas as prostitutas em Constantinopla, bem como a aflição que a sua própria mãe passou quando perdeu o marido.

Iniciativas religiosas

Um exemplo da independência com que Teodora agia foi  na questão religiosa: Embora Justiniano fosse adepto do credo do Concílio de Calcedônia, Teodora fundou um monastério Miafisita (uma doutrina parecida com o Monofisismo) em Sycae, uma localidade em frente à Constantinopla e abrigou no próprio Palácio bispos Miafisitas que estavam sendo perseguidos pelos defensores da ortodoxia cristã.

A proteção que Teodora daria ao Miafisismo durante toda a sua vida lhe renderia a crítica de que ela comprometeu a unidade religiosa do Império Romano.

De qualquer forma, Justiniano foi muito influenciado por Teodora, afinal ambos eram interessados nas questões teológicas e conversavam muito sobre esse tema. Assim, no final da sua vida, Justiniano aproximou-se do Monofisismo e tentou conciliar os credos em torno de pontos comuns, visando manter a unidade, embora, como frequentemente acontece, ele tenha acabado por desagradar a todos os envolvidos. Mesmo assim, atendendo aos pedidos de Teodora, após a morte da esposa, Justiniano manteve a proteção aos bispos miafisitas.

Durante a futura campanha de Justiniano na Itália, que culminou com a reconquista da península pelo Império Romano, Teodora conseguiu, em 537 D.C., por meio do general Belisário,  a deposição do Papa Silverius, em Roma, colocando em seu lugar Vigilius, que era Apokrisiarios, em Constantinopla (representante papal junto ao imperador), um prelado que ela tinha compelido a apoiar a causa dos Monofisistas. Ao sentar no trono papal, contudo, o Papa Vigilius não agiu como Teodora esperava e manteve-se fiel ao credo de Calcedônia, que era dominante entre a população italiana.

A Revolta Nika

Em 13 de janeiro de 532 D.C., estourou um grande tumulto no Hipódromo de Constantinopla. As queixas imediatas da multidão reunida no Hipódromo diziam respeito à prisão de líderes das facções dos Azuis e dos Verdes, por assassinatos cometidos em uma corrida anterior.

Justiniano já tinha comutado as sentenças de morte proferidas contra os acusados pelos assassinatos para penas de prisão, mas isso não satisfez a massa.

É de fato bem provável que houvesse motivos mais profundos para a revolta da turba, já que ambas as facções atuavam como um misto de agremiação política e torcida organizada ligadas a interesses de grupos políticos e eclesiásticos. De fato, entre as reivindicações dos manifestantes, estavam a demissão do influente Prefeito Pretoriano João, o Capadócio, responsável pela cobrança de tributos que desagradaram a plebe e também por coordenar as reformas legais compiladas no Corpus Juris Civilis. E no decorrer da rebelião, os revoltosos chegariam a aclamar o nobre Hypatius, sobrinho do falecido imperador Anastácio I Dicoro, como imperador.

Assim, naquele dia 13 de janeiro, quando Justiniano apareceu no camarote imperial (o  chamado “Khatisma“, no qual o imperador podia assistir as corridas e ser visto pelo público), a multidão começou a insultar o imperador aos gritos. Então, ao começar o páreo de número 22 do programa, os costumeiros gritos de “Azuis” ou de “Brancos” foram substituídos pelo canto de “Nika!“, que quer dizer, em grego, “Vitória!”. Em seguida, a grande massa de espectadores deixou seus assentos e tentou invadir o Palácio, deixando os guardas e os burocratas imperiais estupefactos.

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(O imperador (Teodósio II), no Kathisma, o camarote imperial no Hipódromo de Constantinopla)

A “Revolta Nika“, como o episódio ficou conhecido, durou cinco dias, no decorrer dos quais Justiniano e Teodora  ficaram sitiados no Palácio. Certa dia, durante uma reunião, o pânico tomou conta do Imperador e de seus ministros, e eles começaram a considerar fugir nos navios que estavam ancorados no cais particular do Palácio. Nesse momento, segundo Procópio (“Guerras”, 1.24.33-37), Teodora levantou-se e fez o seguinte discurso:

“Meus senhores, a ocasião presente é muito grave para me permitir seguir a convenção de que uma mulher não deve falar em uma reunião de homens. Aqueles cujos interesses estão ameaçados pelo perigo extremo, somente devem pensar no curso de ação mais inteligente, e não em convenções. Na minha opinião, fugir não é o caminho correto, mesmo que isso nos deixe em segurança. É impossível que alguém que tenha nascido, não morra, mas, para quem quer que tenha reinado, é intolerável tornar-se um fugitivo. Que eu nunca seja despojada deste manto púrpura, e que eu nunca veja o dia em que eu não seja chamada de Imperatriz! Se tu desejas, meu Senhor, salvar-se, não há dificuldade: nós somos ricos, lá está o mar, e ali estão os navios…No entanto, reflita por um momento se, uma vez que tenhas escapado para um lugar seguro, tu não trocarias alegremente esta segurança pela morte? Quanto a mim, eu concordo como o adágio que diz que a púrpura real é a mais nobre das mortalhas!”

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(Reconstituição da imagem de Teodora em trajes de imperatriz com base no mosaico de San Vitale)

O discurso inspirador de Teodora reacendeu o espírito de luta de Justiniano e ele decidiu agir. O eunuco Narses, que posteriormente se notabilizaria como general na Itália, foi enviado para subornar os líderes da facção dos Azuis, os quais abandonaram a revolta. Em seguida, Justiniano enviou a sua guarda pessoal, comandada pelo leal general Belisário contra os integrantes da facção dos Verdes, que permaneciam rebelados no  Hipódromo.

A repressão foi brutal e estima-se que 30 mil pessoas tenham sido massacradas no Hipódromo e adjacências.

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(O Hipódromo, colado ao complexo do Palácio Imperial, incluindo o porto particular do imperador)

A Revolta Nika provocou um grande incêndio e causou uma grande destruição em Constantinopla, e, entre os prédios afetados, estava a Igreja de Hagia Sophia, fundada por Constantino, o Grande, cuja reconstrução foi encomendada por Justiniano aos arquitetos Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto para se tornar em breve o edifício religioso mais impressionante até então construído no Império Romano.

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(A atual Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, erguida por Justiniano I após a Revolta Nika para substituir a anterior que foi queimada por um incêndio)

Após a Revolta Nika, o papel de Teodora como virtual co-governante do Império não podia mais ser colocado em dúvida.

Por exemplo, consta que, debelada a revolta,  Justiniano chegou a cogitar em poupar  Hypatius e Pompeius, os sobrinhos de Anastácio I Dicoro, mas Teodora interveio, alegando o risco que isso representaria para o governo, e demandou a punição de ambos, que foram, então, executados.

Teodora também mostrou apetite para as maquinações e intrigas típicas da corte imperial, premiando aliados e perseguindo desafetos: O eunuco Narses era seu protegido, e, com o seu apoio ele se tornaria, decorrido algum tempo, o general mais importante do exército romano. A impertatriz também apoiava o Prefeito Pretoriano Pedro Barsymes.

João, o Capadócio, que tinha sido o antecessor de Barsymes, e gozava de bastante prestígio junto a Justiniano, mas que mostrava pouca deferência para com Teodora,  foi o principal alvo das maquinações da Imperatriz, que,  valendo-se da ajuda de sua velha amiga Antonina, tramou a queda do ministro.

Na trama supracitada, Antonina  enviou a João, o Capadócio a falsa informação de que o marido dela, o general Belisário, estava planejando derrubar o Imperador.  Assim, ela conseguiu atrair João para um encontro em um palácio na cidade de Calcedônia, onde Narses e Marcellus, o comandante da guarda imperial dos Excubitores, estavam escondidos para ouvir a conversa. Os dois tinham ordem de matar o ministro assim que este falasse qualquer coisa que pudesse sugerir sua adesão a traição. Porém, João conseguiu escapar deles e abrigar-se em uma igreja.

Quando o fato chegou ao conhecimento de Justiniano, este, ao contrário do que seria de se esperar, não mandou executar João, mas ordenou que o mesmo fosse exilado para Cyzicus, uma cidade na Anatólia não muito longe de Constantinopla, por volta de 540 D.C.

Em Cyzicus, João, o Capadócio foi obrigado a se ordenar padre. Porém,  quando o bispo da cidade foi assassinado, ele foi implicado na trama e, desta vez, exilado para a distante cidade de Antinoe, antiga Antinoopolis, no Egito.

Evidenciando novamente a enorme influência de Teodora sobre Justiniano é fato que, somente após a morte dela, em 548 D.C., o exílio de  João, o Capadócio foi suspenso pelo imperador, que o chamou de volta à Constantinopla.

Últimos anos e morte de Teodora

Em 547 D.C., foi concluída a Basílica de San Vitale, em Ravenna, antiga capital do Império Romano do Ocidente, que foi reconquistada, juntamente com toda a península italiana, por Justiniano, nas guerras contra o Reino Ostrogodo da Itália, a partir de 535 D.C. (esta guerra teria indas e vindas, e somente acabaria em 554 D.C., com a derrota completa dos Ostrogodos).

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(Basílica de San Vitale, em Ravenna, foto de Madaki)

O interior da Basílica de San Vitale (esta igreja não é uma basílica em termos arquitetônicos, pois tem uma planta octogonal) foi adornado com alguns dos mais fabulosos mosaicos produzidos pela arte romano-bizantina, os quais foram concluídos em 547 D.C.

Nas duas paredes laterais da apse da Basílica de San Vitale há dois mosaicos excepcionais, um em cada lado:  O do lado direito ostenta a imagem do imperador Justiniano, vestido com seu manto púrpura e coroa, ladeado pelos seus mais importantes auxiliares, além do bispo Maximiano, que inaugurou a igreja.

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E o mosaico do lado esquerdo da apse ostenta a imagem da imperatriz Teodora, igualmente vestida com seu manto púrpura, coroada e adornada de ricas jóias, ladeada por suas damas e seus eunucos mais chegados.

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Caso ainda persista alguma dúvida de que Teodora dividia o status de governante do Império com Justiniano, basta a mera contemplação dos dois painéis de mosaicos da Basílica de San Vitale para se ter a certeza de que ambos reinaram em pé de igualdade.

Provavelmente, quando da conclusão da Basílica de San Vitale, Teodora já devia estar sofrendo da doença que acabaria causando a sua morte, um ano depois. As fontes usam o termo grego que é traduzido por “câncer”, mas podem também se referir a um tumor ou úlcera que supurava.  A teoria mais aceita é de que se tratava de um câncer de mama.

No dia 28 de junho de 548 D.C., Teodora morreu no Palácio Imperial, em Constantinopla, aos 48 anos de idade (ou aos 51, de acordo com outras fontes). Consta que no velório dela, o imperador Justiniano chorou copiosamente em público a perda da sua esposa, companheira e sócia de uma vida inteira.

Teodora foi sepultada na Igreja dos Santos Apóstolos, que sempre foi o tradicional local de descanso da maior parte dos imperadores romano-bizantinos, desde Constantino I, o Grande,  e era mais uma das igrejas que ela e Justiniano tinham reconstruído na capital. A igreja foi destruída em 1456 pelos turcos,  três anos após a Queda de Constantinopla.

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(Sarcófagos de pórfiro de Imperadores Romanos do Oriente, que ficavam na igreja dos Santos Apóstolos e atualmente estão no exterior do Museu Arqueológico de Istambul)

A união de Teodora e Justiniano não gerou filhos e certamente ela muito desejou dar um herdeiro ao esposo. Segundo Procópio (História Secreta), quando Sabas, o Santificado (São Sabas), um venerado eremita e arquimandrita da Palestina, que tinha fama de fazer milagres, esteve em Constantinopla, em 531 D.C., Teodora, apesar do religioso ser um tenaz oponente do Monofisismo, pediu a Sabas que ele rezasse para que ela engravidasse. Entretanto, o velho eremita se recusou, respondendo que qualquer filho que Teodora desse à luz seria uma grande calamidade para o Império.

Conclusão

Teodora certamente foi uma das mulheres mais poderosas da História Romana. E,  diferentemente de outras detentoras de poder de fato, como Lívia Drusila, Agripina ou Júlia Domna, ela não foi uma eminência parda ou exercia o seu poder na alcova, mas também tinha a sua posição soberana reconhecida oficialmente: ela tinha o seu próprio selo imperial, sua própria corte e corpo de funcionários privativos. Em documentos oficiais, Justiniano chegou a referir-se a Teodora como “minha sócia nas minhas deliberações“. Contrastando, ainda, com as referidas imperatrizes, bem como outras célebres mulheres poderosas do Mundo Helenístico, Teodora não nasceu na realeza nem tinha origem nobre, tendo, ao revés, vindo dos estratos mais baixos da sociedade.

F I M

O CONCÍLIO DE NICÉIA E O CREDO NICENO

O CREDO NICENO

Em 19 de junho de 325 D.C., bispos cristãos reunidos no Primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, realizado na cidade romana de Nicéia, aprovaram o chamado Credo Niceno.

O Concílio de Nicéia foi o primeiro concílio ecumênico da Igreja Cristã (isto é, uma assembleia que se propunha a congregar o maior número de bispos existentes e reuni-los para definir uma doutrina unificada para o Cristianismo), tendo sido convocado pelo próprio imperador Constantino, o Grande, que até então, embora tivesse tomado uma série de medidas favoráveis à Igreja e ao Cristianismo, ainda não havia sido batizado e se convertido oficialmente à fé cristã.

A iniciativa de Constantino foi fundamental para a realização do Concílio, uma vez que ele colocou todo o sistema de correio, transporte e estalagens imperiais à disposição dos bispos, sem o que dificilmente teria sido possível que eles se reunissem em Nicéia (atual Iznik, na Turquia).

Oficialmente, 318 bispos teriam comparecido ao Concílio de Nicéia, mas acredita-se que o número real tenha sido de pouco mais de 250 bispos, a esmagadora maioria da parte oriental do Império Romano (Somente cinco bispos seriam provenientes das sés do Império Romano do Ocidente, além de dois legados enviados pelo Bispo de Roma, o Papa Silvestre I). Entre os participantes, estavam expoentes importantes da Igreja, como Eusébio de Cesaréia, e, provavelmente, Nicolau de Mira (São Nicolau).

O grande motivo que levou Constantino a convocar o Concílio (seguindo recomendações de um sínodo presidido pelo bispo Hosius de Córdoba), foi a disputa teológica acirrada que estava sendo travada entre os defensores da doutrina pregada pelo diácono Ário de Alexandria (que veio a receber o nome de “Arianismo“) e o clero adepto da doutrina ortodoxa tradicional que vinha sendo elaborada desde os primórdios do Cristianismo. Basicamente, Ário reconhecia que Jesus era filho de Deus, mas tinha natureza essencialmente humana. Assim, por ter sido criado, necessariamente Cristo teria vindo depois de Deus (e portanto, não seria Eterno), bem como estaria, de certa forma, “abaixo” de Deus, embora acima de todos os outros seres.

Desnecessário dizer que as ideias de Ário abalavam o dogma da Santíssima Trindade, que já estava disseminado junto ao clero e aos fiéis ortodoxos.

Acredita-se que a principal motivação de Constantino para decidir concordar com a convocação do Concílio foi o fato de que as disputas teológicas entre os seguidores de Ário e da doutrina ortodoxa já estavam causando tumultos nas ruas de Alexandria, e esta divisão ameaçava se espalhar pelo Império, não tendo o imperador demonstrado ter interesse na prevalência de uma ou outra corrente.

Então, Constantino apenas declarou que aquele bispo que não seguisse a orientação que fosse tomada no Concílio seria passível de exílio.

O Concílio iniciou-se em 20 de maio de 325 D.C, sendo que em 14 de junho, o imperador compareceu em pessoa para formalmente presidir os trabalhos, mas ele não interferiu nem participou das discussões. No início, cerca de 22 bispos mostraram-se partidários da doutrina de Ário.

Em 19 de junho, após um mês de debates, as teses de Ário foram rejeitadas, sem qualquer conciliação, tendo apenas dois bispos da Líbia se recusado a adotar a profissão de fé estabelecida pela esmagadora maioria, tendo o chamado Credo Niceno ficado assim redigido:

“Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Ε em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai;

Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai;

por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra.

O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem.

Padeceu e ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus

Ele virá para julgar os vivos e os mortos.

E no Espírito Santo.

E quem quer que diga que houve um tempo em que o Filho de Deus não existia, ou que antes que fosse gerado ele não existia, ou que ele foi criado daquilo que não existia, ou que ele é de uma substância ou essência diferente (do Pai), ou que ele é uma criatura, ou sujeito à mudança ou transformação, todos os que falem assim, são anatematizados pela Igreja Católica.”

Não obstante, o Arianismo prosperou e os dois sucessores de Constantino no trono, seu filho Constâncio II, e Valente, seriam Cristãos Arianos. O próprio Constantino, em seu leito de morte, foi batizado por um bispo adepto do Arianismo, Eusébio de Nicomédia, que também esteve presente no Concílio de Nicéia.

Foto: Ícone retratando o Concílio de Nicéia, com Ário sendo condenado no centro. Monastério Megalo Meteoron, Grécia. Foto: By Jjensen – Own work, CC BY-SA 3.0,

Além disso, bispos arianos cristianizaram os bárbaros Godos, que dentro de cinquenta anos invadiriam o Império Romano e, cerca de trinta anos mais tarde, estabeleceriam seu reino na Hispânia romana.

Ao contrário do que muitos teóricos da conspiração e publicações sensacionalistas propagam, no Concílio de Nicéia não houve deliberações acerca de quais seriam os textos bíblicos aceitos como cânone da Igreja, nem proibição de textos evangélicos apócrifos, e muito menos qualquer intervenção do imperador Constantino no que se refere a tais questões.

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VESTA E A VESTALIA

Foto Acediscovery, CC BY 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by/4.0, via Wikimedia Commons

Entre os dias 7  (ante dies VII idus junias) e 15 de junho (ante dies XVII Kalendas Iulias ou, antes do Calendário Juliano, ante dies XVI Kalendas Quinctilis), ocorria a Vestalia, que  era a nundina (período  de 9 dias que no calendário romano tradicional tinha a mesma função da atual semana)  de festejos e cerimônias em honra à deusa Vesta, uma das divindades mais antigas e tradicionais do Panteão romano, tão ancestral que inicialmente não era personalizada e nem antropomorfizada, de acordo com o regular padrão evolutivo  da religiosidade humana. Mais tarde, e com a crescente influência da cultura grega em Roma, Vesta foi incluída entre os doze “Deuses Consentes“, como filha de Saturno e Ops, e irmã de Júpiter, Netuno, Plutão, Juno e Ceres.

Vesta era uma divindade originalmente ligada ao lar e à família, sendo que o lugar mais importante da casa romana ancestral era a lareira (focus), que protegia os moradores do frio e permitia cozinhar os alimentos, e de onde se originou não só a nossa palavra “fogo”, mas também a palavra “foco” (ponto central). Próximo à lareira, na casa romana, ficava um armário ou dispensa, chamado de “penus“. Os romanos acreditavam que esses armários eram guardados por espíritos, que recebiam o nome de “Penates” que ajudavam outros espíritos que cuidavam da totalidade do lar (os “Lares“), e eram cultuados em um altar próprio dentro da casa, chamado de lararium (e que, curiosamente, deram origem a nossa palavra “lareira”, pois ambas as divindades se tornaram, desde tempos ancestrais, associadas).

Vale mencionar que, segundo uma lenda, já no início do período monárquico de Roma, o rei Sérvio Túlio seria filho de um desses “Lares”, que, transformado em pênis “(phallus), escondeu-se entre os carvões da lareira da casa do rei Tarquínio e teve relações sexuais com Ocresia, escrava (serva) da rainha Tanaquil.

Acredito, com base na filologia linguística, que Vesta pode ser uma das divindades ancestrais de um hipotético panteão proto indo-europeu, e portanto, muito anterior à fundação de Roma. De fato, segundo o filólogo francês Georges Dumézil, o nome da deusa Vesta deriva da raiz da língua proto-indoeuropeia *h₁eu-, através do derivativo *h₁eu-s- ou *h₁w-es-, que evoluiu para os radicais  εὕειν heuein,, em grego,  ustio, no latim e no védico osathi  todos com o significado de queima, sendo que o vocábulo latino está presente em Vesta. Na língua gaulesa, havia a palabra visc, que significa “fogo”.

Havia também uma divindade similar à Vesta entre os gregos, chamada Hestia, que, segundo Cícero, teria originado o nome Vesta.

Segundo a tradição, quando Roma foi fundada, Vesta já era cultuada na cidade de Lavinium, no Lácio, que segundo a lenda teria sido fundada pelo próprio Enéias, herói troiano mítico que, fugindo da queda de Tróia, teria trazido com ele para a Itália o culto aos Penates, entre os quais se incluía Vesta (conforme mencionado por Virgílio na Eneida, II, 293) e por Macrobius, na Saturnalia, III, 4). Posteriormente, Ascânio que seria filho de Enéias e Lavínia (em nome de quem Enéias batizou Lavinium), filha do rei Latinus, fundou a cidade de Alba Longa, levando para lá o culto a Vesta.

Séculos após a fundação de Alba Longa, segundo as narrativas em boa parte míticas preservadas pelo historiador Tito Lívio, depois da morte do rei albano, Proca, o seu filho mais velho, Numitor, que seria o seu sucessor, foi deposto pelo irmão mais novo, Amulius, que mandou matar os sobrinhos do sexo masculino. Já a filha de Numitor, Rhea Silvia, foi poupada pelo tio e nomeada Virgem Vestal, que era o nome e condição das sacerdotisas que cuidavam do culto a Vesta.

Porém, ainda segunda a lenda da fundação de Roma, Rhea Silvia foi estuprada pelo deus Marte, engravidou dele e deu à luz aos gêmeos Rômulo e Remo, que, tendo a sua morte ordenada por Amulius, foram abandonados nas margens do rio Tibre, sendo salvos e alimentados por um loba. Mais tarde, os irmãos cresceram, e, após matar Amulius e instalar Numitor no trono de Alba Longa, eles deixaram esta cidade e saíram para fundar a cidade de Roma. o que seria feito por Rômulo, após matar o seu irmão, em 21 de abril de 753 A.C.

Segundo Macrobius, os primeiros magistrados de Roma, ao serem empossados, deviam ir até Lavinium e fazer um sacrifício a Vesta.

Por sua vez, de acordo com Dioníso de Helicarnasso (Antiguidades Romanas, II, 66), o segundo rei de Roma, Numa Pompílio (tradicionalmente, ele teria reinado de 715 A.C. a 673 A.C), o primeiro monarca romano que se dedicou a organizar e consolidar a religião romana, decidiu estabelecer um altar a Vesta na Cidade, comum para todo o povo, situado entre as colinas do Capitólio e de Palatino, ou seja, na área que se tornaria o Fórum Romano. Este altar ou Templo de Vesta, tinha de fato o propósito de ser o “focus” comum de toda Roma e do povo romano, e, por isso Cícero se referia a ele como “focum urbis” e “focum publicus“.

Sendo Vesta uma divindade ligada ao lar, nada mais natural que, na sociedade patriarcal latina, as mulheres fossem as principais responsáveis pelo seu culto. E, em sendo verdadeiras as lendas, mesmo antes da fundação de Roma, já existiam sacerdotisas encarregadas do culto a Vesta, das quais se exigia serem virgens, como mostra a fábula de Rhea Silvia.

Entretanto, a criação do Colégio das Virgens Vestais, em Roma, é atribuída, igualmente, ao rei Numa Pompílio. Foi providenciada uma habitação custeada pelo Estado (Casa das Vestais), que também deveria sustentar as sacerdotisas, que eram escolhidas pelo próprio rei, na condição de chefe da religião romana, talvez, inicialmente entre as suas próprias filhas (atribuição que, depois, no período republicano, passou a ser do Pontifex Maximus, cargo que, mais tarde, já durante o Império, passou a ser privativo do Imperador).

A principal tarefa das Virgens Vestais era cuidar para que o fogo sagrado de Vesta, mantido no interior do seu respectivo Templo, jamais se apagasse, e os romanos acreditavam que quando isso acontecia, grandes tragédias se abatiam sobre a cidade e sobre o Estado.

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(Estátua de uma Virgem Vestal, encontrada na Casa das Vestais, em Roma)

Acredita-se que a exigência da virgindade como condição inerente às Vestais estava ligada à pureza que os romanos atribuíam ao fogo sagrado de Vesta e à própria deusa, que, naturalmente também era virgem. Assim, dentro dessa concepção romana, para garantir que as encarregadas de velar pelo fogo sagrado não conspurcassem a pureza do mesmo, somente meninas entre seis e dez anos de idade poderiam ser escolhidas para serem Virgens Vestais e, obviamente, elas deveriam permanecer virgens e celibatárias enquanto estivessem a serviço do deus, sendo que a Vestal que violasse o dever de castidade com a perda da virgindade era punida com a terrível pena de ser enterrada viva.

Ainda ligado ao desejo de assegurar pureza ou perfeição, as escolhidas não podiam ser filhas de pais divorciados, de libertos ou escravos, ou daqueles que tivessem profissões consideradas inferiores ou degradantes. E também não podiam ter defeitos físicos ou problemas mentais.

Essa extrema preocupação com a pureza do fogo de Vesta era tal que, de acordo com Plutarco (Vidas Paralelas”, “Vida de Numa”, IX, 6–7), caso a chama guardada no seu templo se extinguisse por algum motivo, ela não poderia ser acesa por outro fogo iniciado diretamente pela mão do homem, mas somente por meio de espelhos especiais, amplificando a fonte impoluta vinda do próprio sol:

E, se por alguma eventualidade ele (o fogo sagrado) se apague, como ocorreu em Atenas, durante a tirania de Ariston, como contam que a lâmpada sagrada foi apagada, e em Delfos, quando o templo foi incendiado pelos Persas, e também durante as Guerras contra Mitridates e as Guerras Civis Romanas, quando o altar foi demolido e o fogo extinto, então eles afirmam que o fogo não deverá ser aceso novamente com outro fogo, mas sim criado fresco e novo, pelo acendimento de uma chama pura e não poluída vinda dos raios do Sol. E isso eles geralmente conseguem por meio de espelhos metálicos, a concavidade dos quais é feita seguindo os lados de um triângulo isósceles retangular e que convergem da sua circunferência até um único ponto no centro. Quando, por conseguinte, aqueles são colocados contra o Sol, de modo que os raios dele, enquanto eles incidem sobre eles de todos os lados, são coletados e concentrados no centro, o próprio ar fica ali rarefeito, e substâncias muito leves e secas ali colocadas rapidamente inflamam-se – os raios solares adquirindo a forma e a substância do fogo“.

Observe-se que não há consenso, mesmo entre os autores antigos, de que essa forma de acender o fogo fosse a única ou mesmo que ela fosse a utilizada no Templo de Vesta. Outros relatos referem-se ao uso do método ancestral de esfregar um pedaço de madeira em outro. Portanto, parte do treinamento das Virgens Vestais era destinado a aprender as técnicas de acender e manter o fogo sagrado. E, de fato, todo dia 1º de março – primeiro dia do ano do primitivo calendário romano – o fogo deveria ser renovado.

A escolha das “noviças” que se tornariam Virgens Vestais, feita pelo rei ou pelo Pontífice Máximo, era compulsória, ou seja, em caso de recusa, estes tinham o poder de capturar a virgem escolhida e levá-la para a Casa das Vestais, mas, felizmente, raramente isso se mostrou necessário.

Como reconhecimento do fardo pessoal que a condição de Virgem Vestal acarretava às escolhidas, o período de sacerdócio obrigatório era de trinta anos, após o que a mulher poderia voltar à vida normal, casando e tendo filhos. Não obstante, inúmeras Vestais optavam por continuar servindo como tal pelo resto de suas vidas, muitas certamente incentivadas pelos privilégios legais que lhes eram concedidos, como ter os seus próprios litores, que lhes abriam caminhos pelas ruas, e de se sentarem em lugares de honra nas cerimônias e espetáculos públicos (e muitas também por devoção religiosa).

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(Ruínas da Casa das Vestais, no fórum romano)

Os relatos preservaram o nome das primeiras 4 virgens vestais encarregadas de velar pelo fogo sagrado de Vesta no Templo: Gegânia, Verênia, Canuleia e Tarpeia. Posteriormente, o número de quatro virgens (parece que inicialmente eram duas às quais o próprio Numa Pompílio acresceu mais duas) foi aumentado para seis, durante o reinado de Sérvio Túlio.

O Templo de Vesta

Ao contrário dos outros templos etruscos ou romanos, que eram quadrados ou retangulares, o Templo de Vesta era redondo. Para muitos estudiosos, a explicação para isso é que o formato do templo imitava o desenho das habitações primitivas dos latinos, que era circular, como demonstram, inclusive, os achados arqueológicos no Palatino, onde foram encontrados os buracos em que foram fincados os postes de madeira das cabanas, dispostos em círculo (tugurium romuli).

Como as cabanas primitivas, o templo tinha uma abertura circular no teto, para permitir que a fumaça do fogo sagrado, que ficava queimando no centro, saísse e a luz solar entrasse. Além do fogo, que provavelmente ficava em uma espécie de dispositivo à guisa de braseiro no chão, e não em uma lâmpada suspensa, havia no interior do templo um armário fechado (penus Vestae) e umas estátuas ou efígies, uma delas o célebre Palladium, uma estátua de madeira da deusa Pallas Athena, que teria sido trazida de Tróia para a Itália pelo próprio Enéias.

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(Afresco da Casa de Menandro, em Pompéia, retratando a cena em que Ajax arrasta Cassandra que se agarra ao Palladium)

Não obstante, passagens no poema de Ovídio, no livro de Plutarco, sobre a vida de Numa Pompílio e. ainda, passagens de Dionísio de Helicarnasso, associam Vesta, bem como o fogo que a representa, ou no qual ela mesma consiste, à própria Terra, ou ao menos, ao fogo que existe no interior do planeta (uma associação que não chega a surpreender vinda de um povo que vivia em uma península onde o vulcanismo era bem presente e visível, sobretudo no sul) e, assim, o formato do templo evocaria a do próprio planeta.

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Por sua vez, segundo Plutarco (“Vidas Paralelas“, “Vida de Numa“, VIII, 6-7), o Templo de Vesta foi construído por Numa Pompílio em forma circular para simbolizar o Universo, de acordo com a doutrina dos filósofos pitagóricos (não obstante o próprio historiador reconheça uma disparidade cronológica entre os períodos em que Numa e Pitágoras viveram):

“Além disso, conta-se que Numa construiu o Templo de Vesta, onde o fogo perpétuo era guardado, em forma circular, imitando não a forma da Terra, acreditando-se que Vesta seja a Terra, mas de todo Universo, no centro do qual os Pitagóricos colocam o elemento do fogo, e o chamam focus (Vesta?) ou ponto cardeal. E eles sustentam que a Terra não é imóvel, e nem se situa no centro do espaço circundante, mas que se move em círculo em torno do fogo central, não sendo ela nem o mais importante e nem mesmo um dos componentes principais do Universo. Este é o conceito, segundo nos foi contado, que também Platão, em sua velhice, tinha da Terra, nomeadamente, que ela está situada em um espaço secundário, e que a posição central e mais importante está reservada para outro corpo superior e mais nobre.”

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(Ruínas do Templo de Vesta, no Fórum Romano, foto de Wknight94 )

É, muito interessante constatar, portanto, observando toda essa simbologia contida no seu Templo, como uma divindade originalmente primitiva e animista como Vesta pode permitir uma sofisticada elaboração filosófica em seu culto: Substitua-se Vesta e seu fogo pelo Sol, ou pelo descomunal buraco negro existente no centro da Via Láctea, ou, até mesmo, pela singularidade nua que originou o “big-bang“, de acordo com a teoria da Física de que toda a matéria e energia que nos move aqui na Terra provêm deles, que, ainda nos dias atuais, aquela divindade poderia perfeitamente adquirir uma ressignificação.

Vestalia

O festival em honra a deusa Vesta – a Vestalia – começava no dia 9 de junho, com a abertura do penus Vestae, o armário e despensa do templo, evocando os que existiam em toda residência romana, e que, no caso dela ficava fechado o ano inteiro. Neste dia, as mães de família podiam vir ao templo descalças trazendo oferendas de comidas

Ainda no dia 9 de junho, um burro, animal consagrado à Vesta, era coroado com guirlandas de flores e colares contendo pedaços dos pães salgados que eram preparados pelas Virgens Vestais. Por isso, esse dia também era consagrado aos padeiros.

Para alguns, a presença do burro seria uma evidência de que o culto de Vesta teria origem nas populações mediterrâneas mais antigas, antes  da chegada dos indo-europeus à Itália (porque nas culturas indo-europeias o cavalo é o animal mais importante), mas não podemos esquecer que se a divindade Vesta tiver mesmo vindo da Anatólia para a Itália, como dizem as lendas, poderia ter sido trazida por povos indo-europeus que se assentaram originalmente no Levante, como é o caso dos Luvianos, povo indo-europeu que vivia  na esfera de influência dos Hititas e parece ter habitado a cidade de Willusa, que alguns estudiosos acreditam ser a Tróia mencionada na Ilíada de Homero. E nessa região, o burro já estava presente, inclusive sendo ela próxima a região onde a criação de burros estava mais desenvolvida no período que se estima que a Guerra de Tróia teria ocorrido – a Mesopotâmia. De qualquer forma, o burro já era conhecido dos gregos desde o segundo milênio A.C.

O dia 15 de junho era o último dia da Vestalia, ocasião em que as Virgens Vestais deveriam proceder à limpeza do penus Vestae e do recinto do templo, procedimento de purificação chamado de stercoratio. A sujeira era levada em procissão para ser jogada no rio Tibre. Feito isso, o penus Vestae e o sancta sanctorum do Templo – o recinto interior mais sagrado, onde ficavam o fogo, o armário e o Palladium, eram cerimonialmente fechados.

Fontes:

1- “On the Worship of Vesta, and the Holy Fire, in Ancient Rome, with an account of the Vestal Virgins“,  The Classical Journal, disponível em PDF, na internet).

2- “Gods and Miths of the Romans“, Mary Barnett, ed. Grange Books.

3- “Bibilioteca dos Grandes Mitos e Lendas Universais“, Roma, Stewart Perowne, Ed.Verbo.

4- Wikipédia, verbetes “Vestalia” e “Temple of Vesta“.

BATALHA DE PYDNA – O ROUND DECISIVO DO CONFRONTO ENTRE A LEGIÃO ROMANA E A FALANGE MACEDÔNICA (E AS GUERRAS MACEDÔNICAS)

Em 22 de junho de 168 A.C, no sopé do Monte Olocrus, próximo à cidade de Pydna, situada no nordeste da Grécia, o exército romano de 29 mil homens comandado pelo general Lúcio Emílio Paulo, derrotou, em pouco mais de uma hora, um exército de 44 mil homens liderados pelo rei Perseu, da Macedônia.

Morreram na batalha cerca de 20 mil macedônios, tendo sido capturados vivos cerca de 6 mil soldados e o resto do efetivo conseguiu fugir. Já do lado romano, as baixas totalizaram apenas 100 mortos e cerca de 500 feridos…

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A acachapante vitória de Roma selou o fim da chamada Terceira Guerra Macedônica : O próprio rei Perseu foi capturado em Pydna e levado para Roma, em cujas ruas ele seria exibido como cativo na procissão triunfal (Depois, o Senado decretou que o rei vencido ficaria custodiado em prisão domiciliar na Cidade).

A Macedônia foi dividida em quatro repúblicas, estabelecendo-se várias restrições à sua autonomia, uma medida que, na prática, decretou o fim da sua longa história como estado independente, condição essa que efetivamente cessaria cerca de 20 anos mais tarde.

Qual a origem deste conflito?

PRIMEIRA GUERRA MACEDÔNICA

A animosidade entre Roma e Macedônia data da 2ª Guerra Púnica, quando o rei Filipe V, da Macedônia firmou uma aliança com Aníbal, líder militar de Cartago, por volta de 215 A.C., momento em que Roma lutava pela sua própria sobrevivência, um ano após a esmagadora vitória do general cartaginês,  na Batalha de Canas.

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(Moeda da Macedônia cunhada com a efígie de Filipe V)

Em decorrência, e mesmo tendo que lutar contra o grande exército de Aníbal na Itália, Roma conseguiu despachar um pequeno contingente militar para a Ilíria, onde a presença das tropas macedônias do outro lado do Mar Adriático representava uma ameaça estratégica à faixa costeira já controlada por Roma e à própria costa oriental da Itália.

Esse deslocamento de tropas romanas para os Bálcãs foi, ainda, motivado pelo conflito já existente entre a Macedônia e a Liga Etólia, que disputava com a primeira e com a Liga Acaia a supremacia na Grécia. Os Etólios aliaram-se aos Romanos e, juntos, eles, inicialmente, conseguiram impedir a invasão da Ilíria pelos Macedônios, após algumas escaramuças.

Porém, os Macedônios acabaram levando a melhor, forçando Romanos e Etólios a assinarem com eles o Tratado de Phoenice, em 205 A.C, onde as partes reconheceram que algumas cidades da Ilíria ficariam sobre o controle da Macedônia. Em contrapartida, Filipe V aceitou renunciar à sua aliança com Aníbal, o que satisfez, momentaneamente, os Romanos.

O Tratado de Phoenice encerrou o conflito entre Roma e a Macedônia, que, embora tenha ocorrido em escala bem limitada, ficaria conhecido como a “Primeira Guerra Macedônica“.

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Porém, pouco tempo depois da assinatura do Tratado, algumas iniciativas de Filipe V alarmaram o Senado Romano, sobretudo quando a Macedônia assinou um tratado de não-agressão com o Império Selêucida, que era governado pelo rei Antíoco III, o Grande, em 204 A.C.

Esse tratado alterou a correlação de forças no mediterrâneo oriental, onde os três reinos remanescentes do grande Império de Alexandre, o Grande: o Egito Ptolemaico, o Império Selêucida, baseado na Síria, e a própria Macedônia, contrabalançavam-se como potências dominantes da região, tentando incorporar os pequenos reinos e as velhas Cidades-Estado helenísticas ainda independentes, sobretudo na Grécia, onde a maior parte das últimas tinham se reunido nas Ligas Etólia e Acaia.

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(Cabeça de Antíoco III, o Grande)

Mais do que tudo, o fato dos dois pretendentes ao trono do Egito estarem travando uma guerra civil no momento da assinatura do tratado despertou as suspeitas romanas de que os seus outros dois rivais, os Macedônios e Selêucidas, tinham firmado a aliança com o objetivo de dividir entre si os domínios ptolemaicos que, inclusive, iam além das fronteiras do Egito, daí resultando uma provável partilha de todo o espólio resultante das conquistas de Alexandre entre os dois.

E, de fato, Filipe V iniciou uma campanha na Ásia Menor, sitiando a cidade ptolemaica de Samos e também a cidade de Mileto. Isso, por sua vez, colocou a Macedônia em conflito com o Reino de Pérgamo e a rica Ilha de Rodes, que enviaram embaixadores à Roma, protestando contra a Macedônia. O Senado Romano, então, assim provocado, mandou embaixadores à Grécia para investigar os assuntos gregos e, quando estes chegaram à Atenas, lá encontraram o próprio rei Átalo, de Pérgamo, e outra delegação de embaixadores ródios.

Foi dentro deste quadro que os Atenienses decidiram declarar guerra à Macedônia.

Julgando que a aliança entre Macedônia e o Império Selêucida arranhava o seu prestígio junto aos seus novos protegidos gregos, o Senado Romano decidiu enviar um ultimato à Filipe V, ordenando que o rei se abstivesse de manobras hostis contra os recém aliados dos Romanos: Atenas, Rodes, Pérgamo, e, ainda, contra os seus antigos amigos da Liga Etólia.

Ocorre que fazia muito pouco tempo que Roma havia vencido, de maneira terrivelmente custosa e sangrenta, a Segunda Guerra Púnica, em 202 A.C. Por isso, Filipe V deve ter se sentido encorajado a desafiar os Romanos, e, simplesmente, resolveu ignorar o ultimato senatorial.

Outro motivo para a confiança de Filipe V era o prestígio militar que a Falange Macedônia, a tradicional formação de batalha empregada pelos Macedônios, gozava no Mundo Mediterrâneo da época.

Com efeito, os Macedônios, desde o governo de Filipe II, pai de Alexandre, o Grande, tinham desenvolvido a tática de empregar fileiras cerradas de infantaria armada com longas lanças, de cerca de 6 metros de comprimento (sarissas), empregadas por soldados altamente treinados, tornando praticamente impossível penetrar nas formações, que, além disso, eram protegidas pelo comprimento das lanças dos ataques frontais de cavalaria e, até mesmo, das descargas de flechas, pois as lanças das fileiras posteriores às de frente ficavam erguidas, como espinhos eriçados, à frente e por cima dos soldados.

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Foi empregando a Falange Macedônia que Alexandre, o Grande havia derrotado os rivais gregos remanescentes, conquistado o Império Persa e invadido até mesmo a Índia, tudo sem conhecer derrota. Note-se, contudo, que, somada à falange, Alexandre também empregou brilhantemente a sua cavalaria pesada, conhecida como os “Companheiros”.

Então, um segundo ultimato foi enviado pelo Senado a Filipe V, que respondeu que não entendia o motivo da atitude romana, já que ele não havia violado nenhum dos termos do Tratado de Phoenice.

SEGUNDA GUERRA MACEDÔNICA

Porém, antes mesmo de Filipe V receber a resposta à sua indagação, Roma já havia enviado um exército para a Ilíria, em 200 A.C, começando, dessa forma, as hostilidades.

No entanto, os dois primeiros anos desta campanha foram infrutíferos, devido à falta de iniciativa do comandante Públio Sulpício Galba. Para piorar,  agora já sob o comando de Públio Vílio, as tropas romanas chegaram até a se amotinar!

Tudo mudaria, contudo, em 198 A.C, quando o recém-eleito Cônsul Tito Quíncio Flaminino, que tinha apenas 30 anos de idade, mas era um veterano da 2ª Guerra Púnica, assumiu o comando da campanha contra Filipe V.

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(cabeça da estátua do grande general e estadista romano Flaminino encontrada em Delfos)

Flaminino, que era um grande admirador da cultura grega (philohelennes), fez saber aos gregos que, agora, ao invés de exigir apenas que Filipe V cessasse os ataques aos aliados romanos,  Roma demandava também que ele retirasse as tropas macedônias da Grécia e restaurasse a antiga liberdade das Cidades-Estado. Com isso, o romano obteve a simpatia dos gregos.

Em pouco tempo, Flaminino conseguiu expulsar os Macedônios de quase toda Grécia, obrigando-os a se refugiar na Tessália. Filipe V tentou, então, entrar em acordo com Flaminino, mas os seus aliados gregos, inicialmente, opuseram-se à iniciativa..

Com o insucesso das negociações, a guerra continuou, desenrolando-se a favor dos romanos, e, assim, mudando de postura, os aliados gregos de Filipe V começaram a abandoná-lo.

Mas, quando o exército de Flaminino e de seus aliados da Liga Etólia marchou em direção à cidade de Pherae, o exército macedônio, reforçado por um contingente de mercenários, foi obrigado a oferecer combate.

A BATALHA DAS CINOSCÉFALAS

Em 197 A.C, nas colinas Cinoscéfalas, ocorreu o primeiro encontro em larga escala entre as legiões romanas e a falange macedônia, onde cerca de 25 mil romanos lutaram contra cerca de 27 mil macedônios.

Havia muita neblina no começo da batalha, que acabou se desenvolvendo em um terreno escarpado, prejudicial à formação rígida da falange. A má visibilidade também prejudicava as manobras dos manípulos (unidades de 120 soldados, usualmente dispostas em 3 linhas de 40 homens, que podiam ser movimentados com mais flexibilidade).

No início, a cavalaria e a infantaria leve de ambos foi envolvida no combate e os Romanos foram obrigados a recuar, ordenadamente, o mesmo ocorrendo com os Macedônios, ambos em sua ala esquerda. Filipe mandou metade da falange descer a colina. A ala direita dos Macedônios começou a empurrar os Romanos para trás; porém, enquanto a ala esquerda da falange ainda estava marchando para se posicionar em linha com a direita que avançava, foi atacada pela ala direita dos Romanos, reforçada por elefantes de campanha.

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A batalha, assim, naquele momento encontrava-se em um impasse, com o lado direito de cada exército levando vantagem sobre o esquerdo, o qual recuava, até que um tribuno romano, a quem as fontes antigas não deram o nome, tomou a iniciativa de retirar 20 manípulos (cerca de três mil legionários) da ala direita romana, que estava obtendo sucesso e lançá-los contra a retaguarda da ala esquerda da falange, que por sua vez estava prevalecendo sobre a outra ala romana.

A rígida ala esquerda dos Macedônios, pega por trás,  era uma presa fácil devido ao tamanho das suas lanças que dificultavam qualquer manobra, e começou a ser dizimada. Os infantes falangistas, então, ergueram as lanças, o que significava um sinal de rendição. Porém os Romanos, ignorantes dessa convenção militar grega, prosseguiram na matança.

Os Macedônios perderam 8 mil homens e 5 mil foram feitos prisioneiros. Os romanos perderam somente mil homens.

Cynoscephalae

Terminava assim a Segunda Guerra Macedônica.

Filipe V conseguiu escapar e continuou reinando sobre a Macedônia, cujo território original e independência foram mantidos intactos. Porém, o reino foi obrigado a pagar uma vultosa indenização e a assinar um acordo retirando o seu exército da Grécia e devolvendo as suas conquistas na Ásia Menor. Além disso, Filipe V teve que enviar o seu filho mais novo, Demétrio, à Roma, como refém.

Flaminino, nos Jogos Ístmicos de 196 A.C, fez a sua famosa proclamação de “Liberdade para a Grécia”, sendo entusiasticamente aclamado pelos Gregos, que até chegaram a divinizá-lo e erguer uma estátua homenageando o general romano na sagrada cidade de Delfos.

Guarnições romanas, contudo, foram aquarteladas nas principais cidades gregas que. antes eram dominadas pela Macedônia, até 194 A.C, quando elas foram evacuadas por ordens do galante Flaminino, empenhado em manter a sua promessa, apesar da oposição do Senado Romano.

Nesse ínterim, em 195 A.C., as tropas de Flaminino derrotaram o tirano-usurpador Nábis, de Esparta, que havia se aproveitado da 2ª Guerra Macedônica para tomar a cidade de Argos.

(Nota: três anos mais tarde, Nábis seria derrotado pelo chefe da Liga Acaia, Filopêmene, em um conflito em que Nábis seria traiçoeiramente morto pelos seus próprios aliados da Liga Etólia, tornando-se, assim, o último governante independente da célebre cidade-estado de Esparta).

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(Moeda cunhada por Nabis, autoentitulando-se rei de Esparta. Ele seria o último governante da célebre Cidade-Estado grega)

Nos anos seguintes, Filipe V manteve-se, cautelosamente, nos limites do tratado assinado com os romanos e até os ajudou na campanha contra Nábis.

E ele também ficou do lado dos romanos quando estes tiveram que voltar sua atenção para o Império Selêucida, do rei Antíoco III, o Grande, permitindo até que as tropas romanas marchassem através da Macedônia.

Em retribuição, os romanos abriram mão da indenização devida por Filipe V e libertaram o seu filho, Demétrio.

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(Mapa geopolítico do Mediterrâneo Oriental após a guerra contra Nábis)

Antíoco III, contudo, não se sentiu intimidado pela reação dos romanos à política expansionista de Filipe V, que era boa parte decorrente do tratado de não agressão que ele próprio tinha celebrado com os Macedônios, e continuou anexando territórios controlados pelo Egito Ptolemaico, inclusive a Judéia.

Essa expansão levou a cidade helenística de Smyrna, na Ásia Menor a também pedir ajuda à Roma. E, para piorar as coisas, Aníbal, o grande inimigo figadal de Roma, deixou Cartago e recebeu o caloroso asilo de Antíoco III, na cidade de Éfeso, na Turquia.

Consta que Aníbal, constatando a iminência da guerra entre Antíoco III e Roma, chegou a se oferecer para comandar uma expedição militar ao sul da Itália, julgando essa alternativa bem melhor do que os planos para a invasão da Grécia pelos Selêucidas. E esta invasão de fato foi um fracasso, pois o exército selêucida foi derrotado pelos romanos nas Termópilas, em 191 A.C., e, novamente, em 190 A.C., na Batalha de Magnésia.

Por sua vez, a frota selêucida, sob o comando de Aníbal, foi derrotada naquele mesmo ano, mas o velho general cartaginês conseguiu um novo asilo com o rei Prúsias, da Bitínia…

(Nota: anos mais tarde, por volta de 182 A.C., quando Prúsias estava em guerra contra Eumenes II, de Pérgamo, os romanos exigiram que Aníbal lhes fosse entregue, mas o cartaginês, quando soube que Prúsias tinha concordado, preferiu se suicidar antes a cair nas mãos dos odiados romanos).

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(Aníbal, o velho general cartaginês e inimigo nº 1 de Roma, mesmo no final da vida não perdeu a oportunidade de lutar pelo Império Selêucida contra a sua odiada adversária)

Com a derrota, Antíoco III teve que assinar o Tratado de Apamea, abrindo mão das cidades e territórios que havia conquistado, sendo alguns deles entregues a Pérgamo. Ele morreu em 187 A.C., sendo sucedido por seu filho,  Seleuco IV Filopator.

Entretanto, as relações entre Roma e a Macedônia em breve voltariam a azedar, pois Filipe V aproveitou o período de paz com Roma para reforçar a sua economia e o seu exército, e tentou novamente exercer influência juntos aos vizinhos, especialmente nos Bálcãs.

Como resultado do ressurgimento das iniciativas geopolíticas de Filipe V, as cidades gregas aliadas de Roma ficaram alarmadas e queixaram-se ao Senado.

Enquanto isso, Demétrio, durante sua estadia em Roma, tornara-se simpatizante dos Romanos e tentou interferir junto ao pai em favor dos interesses da República.

Parece que Roma, percebendo as vantagens de plantar um aliado no trono da Macedônia, incentivaram Demétrio a articular suas pretensões à sucessão, em detrimento de seu irmão mais velho, Perseu.

Essas intrigas acabaram levando Filipe V a mandar executar o próprio filho, em 180 A.C., sob a acusação de traição. Foi uma decisão dolorosa e que certamente abalou a saúde do rei macedônio, que morreu no ano seguinte.

Perseu, agora rei da Macedônia, continuou a política de reerguimento da Macedônia. Ele casou-se com Laodice, filha de Seleuco IV Filopator, o que, sem dúvida, caracterizou uma renovação da aliança da Macedônia com o Império Selêucida, um lá circunstância que,  precisamente, tinha sida uma das principais causas da 2ª Guerra Macedônica. E ele também firmou uma aliança com Cótis IV, rei dos Odrísios, um dos mais poderosos reinos da Trácia.

Tudo isso acontecia sob o pano de fundo do polarizado quadro político na Grécia, onde, cada vez mais, acentuava-se uma divisão entre os partídários de Roma e os partidários de Perseu e da Macedônia, sobre quem deveria liderar a Grécia.

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(Tetradracma de Perseu, último rei da outrora poderosa Macedônia)

A tensão política foi exacerbada quando o rei Eumenes II, de Pérgamo, fiel aliado de Roma e velho inimigo da Macedônia, fez um discurso no Senado Romano, por volta de 172 A.C., denunciando as intenções bélicas de Perseu.

Pouco tempo depois, quando visitava Delfos, Eumenes II foi vítima de uma tentativa de assassinato, e as suspeitas recaíram sobre Perseu, que foi declarado “Inimigo Público” pelo Senado Romano, o que, na prática, equivalia a uma declaração de guerra.

TERCEIRA GUERRA MACEDÔNICA

Em 171 A.C., os cônsules Públio Lícino Crasso e Caio Cássio Longino deram início aos preparativos para a Terceira Guerra Macedônica : O primeiro foi encarregado da expedição à Macedônia. A força expedicionária romana tinha cerca de 40 mil homens, sendo esperados reforços dos aliados gregos quando desembarcassem.

Por sua vez, Perseu também conseguiu reunir cerca de 40 mil homens, além de aliados trácios e gauleses.

Porém, os dois primeiros anos da guerra seguiram sem combates decisivos, sendo que, em vários deles, os romanos levaram a pior, o que ia diminuindo os efetivos da força expedicionária. O Senado, preocupado, chegou a enviar uma delegação para examinar a gravidade da situação.

No terceiro ano, a campanha continuou inconclusiva, sendo que ainda ocorreram dissensões entre o comandante da frota romana e o rei Eumenes II de Pérgamo, cujo real empenho na guerra suscitava dúvidas entre os aliados romanos.

Em 168 A.C., contudo, o cônsul Lúcio Emílio Paulo, um militar veterano de 60 anos de idade, assumiu o comando da campanha na Macedônia. Chegando à Grécia, Emílio Paulo tomou pé da situação e restaurou a disciplina das tropas romanas, dedicando tempo para o seu treinamento, além de mandar fazer um relatório de inteligência sobre o ânimo dos aliados gregos, as características do território inimigo e as condições do exército macedônio.

Enquanto isso, Perseu havia se entrincheirado no sopé do Monte Olimpo, atrás do Rio Elpeus, com o mar à sua esquerda e o Monte à sua direita, em uma posição que tornava difícil um ataque frontal à falange. Emílio Paulo planejou, então, atrair os Macedônios para fora desta posição através de uma manobra diversionista – um ataque de um destacamento comandado por Públio Cornélio Cipião Násica Cóculo, que simularia a intenção de cruzar o rio costeando o mar, pelo leste. Já Emílio Paulo rumaria para o sul, e, então, passando através da elevação montanhosa, atacaria Perseu pelo oeste, visando pegar os macedônios pela retaguarda.

Porém, um desertor das forças romanas alertou Perseu e este enviou um contingente de 12 mil homens, comandados por Milo, para bloquear o caminho. O encontro entre os dois destacamentos forçou os Macedônios a recuarem de volta para o acampamento de Perseu, que decidiu abandoná-lo e se reposicionar mais ao norte, nas cercanias da vila de Katerini, ao sul de Pydna. Este era um terreno razoavelmente plano e adequado para a formação da falange.

Por sua vez, a força comandada por Cipião Násica reuniu-se às legiões de Emilio Paulo e este ordenou uma marcha forçada na direção norte, para tentar interceptar Perseu em posição favorável aos romanos.

Porém, quando os romanos conseguiram avistar os Macedônios, a falange já estava completamente disposta em formação de batalha. Emílio Paulo, então, julgou mais conveniente não arriscar o combate, tendo em vista a cansativa marcha, e ordenou que o tradicional acampamento fortificado dos romanos fosse construído no sopé do Monte Olocrus.

Naquele noite, houve um eclipse,  fato que foi interpretado como um presságio favorável aos romanos por ambos os lados uma vez que, na superstição dos antigos, normalmente isto significava a morte de um rei (muito embora Plutarco tenha ressalvado que o cônsul romano conhecia que aquele sinal era um fenômeno astronômico que ocorria a intervalos regulares).

A BATALHA DE PYDNA

No dia seguinte, a batalha somente começaria à tarde, segundo alguns, pelo fato de Emílio Paulo ter esperado o sol se colocar atrás dos romanos, para ofuscar os macedônios.

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Assim, a primeira fileira da falange avançou e colidiu com os manípulos romanos às 15h. Algumas dezenas de metros antes das lanças macedônias encontrarem os escudos romanos, a falange foi atingida pela descarga de “pila” (dardos pesados) romanos, que deve ter aberto alguns espaços nas cerradas fileiras (Mais tarde, o próprio Emílio Paulo confessaria que “a visão da falange em formação completa lhe inspirou ansiedade e admiração”).

Não obstante, os legionários logo perceberam que raramente eles conseguiam atingir os macedônios, enquanto eram empurrados pelas pontas das compridas “sarissas”, o que levou alguns a começaram a se desesperar.

Tentando pôr fim ao impasse, os mais destemidos dos soldados romanos, à maneira dos futuros “kamikazes” japoneses, começaram a correr e saltar, arremessando-se por cima das lanças inimigas, apenas para serem varados pelas pontas das lanças das fileiras posteriores.

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(legionário arremessando um pilum – o dardo foi concebido para ser arremessado, para que acertasse o inimigo ou ficasse cravado no escudo dele, obrigando o oponente a descartá-lo. O pila era também projetado para se deformar com o impacto, para que não pudesse ser reutilizado pelo inimigo. Os romanos esperavam se aproveitar dos espaços que poderiam ser abertos nas fileiras do inimigo, quando os pila arremessados atingiam o objetivo. Um soldado treinado podia arremessar um pilum até 60 metros de distância. Normalmente, os legionários carregavam dois pila, um leve e outro mais pesado, que podia ser usado também como lança de combate).

Nesse momento, a férrea disciplina dos romanos e a existência de um corpo de oficiais subalternos (centuriões) distribuídos entre as duas centúrias (80 homens) que compunham os manípulos mostrou a sua eficiência. Orientados pelos centuriões, que obedeciam aos comandos dos tribunos transmitidos por trombetas, a legião, como um todo, apesar da intensa pressão, conseguiu recuar ordenadamente, em direção ao terreno mais irregular do sopé do monte Olocrus, atrás de si.

Foi então que a grande fragilidade da falange ficou exposta: a medida que o terreno ficava mais acidentado, a falange não conseguiu manter o seu alinhamento perfeito e brechas começaram a surgir em sua formação. Imediatamente, Emílio Paulo deu a ordem para os tribunos para que, abandonando a coesão da linha de batalha romana, autorizassem os manípulos a explorarem, ao seu bel prazer, as brechas na falange.

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Atacados pelos flancos, os hoplitas não eram páreo para os legionários armados de gládios, que os golpeavam pelo lado desprotegido. Eles foram obrigados a largar as sarissas e assim, em pouco tempo, a falange começou a se desintegrar. A ala esquerda romana aproveitou-se para envolver completamente a ala direita dos macedônios que começava a ser atacada pelos legionários que haviam se infiltrado pelas brechas da sua desagregada ala esquerda.

Vendo o exército se dissolver, Perseu resolveu fugir com a cavalaria, cerca de 4 mil cavaleiros, incluindo o seu “Esquadrão Sagrado”, equivalente aos “Companheiros” (hetairoi), de Alexandre, motivo pelo qual ele seria acusado de covardia pelos seus compatriotas. Porém, os 3 mil integrantes da Guarda do rei, cercados, lutaram até praticamente o último homem. Era 22 de junho de 168 A.C.

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EPÍLOGO

Perseu acabou sendo capturado na ilha de Samotrácia, para onde ele havia fugido buscando asilo no Templo dos Dióscuros, e seria exibido acorrentado no Triunfo de seu vencedor, Lúcio Emílio Paulo, nas ruas de Roma, morrendo no cativeiro, em 165 A.C..

O Senado Romano debateu como proceder com a Macedônia e seus aliados gregos. Em um decreto muito parecido com o discurso das atuais potências ocidentais, os senadores decretaram que os Macedônios e os Ilírios deveriam ficar livres, assinalando o motivo:

Para que fique claro para o mundo inteiro que os exércitos de Roma não trazem a escravidão para os homens livres, mas, ao contrário, levam a liberdade para os escravizados, e que, entre as nações que gozam de liberdade, a segurança e a permanência dessa liberdade repousam sob a proteção de Roma”…

Sem dúvida, foi um pronunciamento que hoje não ficaria mal nos lábios de um Porta-voz da Casa Branca…

Não obstante as elevadas intenções senatoriais , o fato é que a Macedônia foi dividida em quatro partes,  e todas elas obrigadas a pagar tributo a Roma, e as suas ricas minas de ouro ficaram sob administração romana…

CONCLUSÃO

Roma agora era a indiscutível senhora dos assuntos da Grécia e maior potência do Mundo Mediterrâneo. Em sua orla, somente restavam três Estados ainda independentes de alguma importância: O Egito Ptolemaico, o enfraquecido Império Selêucida e Cartago.

Podemos imaginar como o mundo teria mudado para um cidadão romano que tivesse nascido em 220 A.C, dois anos antes de quando Aníbal cruzou os Alpes no início da 2ª Guerra Púnica…

Nessa época, a República Romana sequer dominava a Península Italiana inteira, estando o norte ainda dominado por tribos celtas e tendo que dividir o sul e a Sicília com uma série de cidades-estado independentes, culturalmente gregas.

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O nosso hipotético cidadão teria, ainda bebê, talvez percebido o terror de seus pais quando chegou a notícia da travessia dos Alpes por Aníbal.

Ainda uma criança pequena, será que o nosso personagem já teria podido compreender o choque que foi o massacre das legiões romanas em Canas? É possível, mas certamente ele cresceu acompanhando, atento, os relatos da virada da maré da guerra em favor dos seus compatriotas.

Já mocinho de 18 anos, o nosso romano poderia ter participado como um recruta do exército comandado por Públio Cornélio Cipião, na vitória final em Zama, na África, em 202 A.C.. Agora, o jovem romano poderia se orgulhar de que sua República controlava territórios na Espanha e no sul da França.

Na virada do século, o calejado jovem teria visto Roma cada vez mais se envolver nos assuntos da Grécia, lugar de onde vinham tantas ideias novas. Quem sabe não teria ele também entabulado negócios nas diversas cidades-estado gregas, agora que milhares de mercadores romanos pululavam na Hélade?

Finalmente, nosso romano, agora já entrado na maturidade de seus cinquenta anos, poderia muito bem ter acompanhado, agora comandando algum destacamento, o cônsul Lúcio Emílio Paulo, e participado da vitória definitiva contra a outrora tão temida Macedônia, a temida pátria do guerreiro mais famoso da civilização helenística – o quase divino Alexandre, o Grande.

Junto a Emílio Paulo, nosso romano poderia ter visto a inauguração do espetacular monumento equestre (cuja imponente base ainda existe) ao grande vencedor da Batalha de Pydna, o último dos troféus erguidos na sacrossanta cidade de Delfos, sede do famigerado Oráculo, onde todas as cidades gregas, durante séculos, vinham prestar homenagens ao deus Apolo, competindo para ver quem erguia o monumento mais suntuoso.

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(Monumento a Lúcio Emílio Paulo pela vitória em Pydna, erguido em Delfos)

Nosso personagem talvez tivesse retornado a tempo de participar do triunfo do seu comandante Lúcio Emílio Paulo, que agora ajuntara ao nome dele o cognomen de “Macedonicus”, e constatar que o grande espólio de guerra por ele conquistado na Macedônia, escrupulosamente depositado no Tesouro da República Romana, havia permitido ao Estado deixar de cobrar impostos durante algum tempo. Talvez ele tenha até comparecido ao funeral do grande general, quando este morreu em 160 A.C., em relativa pobreza, testemunhando essa última grande prova da proverbial honestidade do comandante falecido.

FIM

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JUNHO

Foto: Ad Meskens, CC BY-SA 3.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0, via Wikimedia Commons

No primitivo calendário romano, que tinha dez meses no total e começava em março, junho era o quarto mês do ano. Depois, com a introdução dos meses de janeiro e fevereiro, por volta do século II A.C., o mês passou a ocupar a sexta posição no calendário, que mantém até hoje.

Desde os primórdios de Roma até quase o fim do período republicano, o mês de junho tinha 29 dias, até a reforma do calendário romano instituída pelo Ditador Caio Júlio César. A partir de então, com a adoção do chamado Calendário Juliano, que começou a vigorar em 1º de janeiro de 45 A.C., o mês passou a ter 30 dias.

Segundo o poeta romano Ovídio, em seu famoso poema “Fasti“, versando sobre o calendário romano, haveria três explicações para a origem do nome Junho, ou Iunius, em latim:

Segundo a primeira delas, o nome seria uma homenagem a deusa Juno, a esposa de Júpiter e deusa protetora do Estado Romano, bem como das mulheres, do parto e do casamento. De acordo com a segunda tese contida nos versos, o nome do mês decorreria da deusa Juventus, ou Juventude, que no poema afirma que o junho é o mês dos jovens (iuniores) em contraposição ao mês anterior, maio, que é dedicado aos velhos (maiores). E Ovídio ainda cita no poema uma terceira alternativa para o nome junho: uma homenagem a Marco Junius Brutus, o fundador da República Romana e que fez o primeiro sacrifício a Deusa Carna (Dea Carna), em 1º de junho, embora esta última explicação seja improvável.

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Estátua da deusa Juno

Importantes datas cerimoniais romanas aconteciam em junho.

Nas calendas de junho (primeiro dia do mês, segundo o método romano de contagem dos dias dos meses), ocorria o já mencionado Festival de Carna, chamado de “Calendas do Feijão (ou favas)” (Kalendae fabariae). Carna era uma divindade que Ovídio associou à Carda, a deusa das dobradiças das portas (Nota:Os romanos davam tanta importância religiosa às portas das casas e aos portões dos celeiros que havia três divindades específicas para cada um dos seus componentes: um para o umbral, um para a porta propriamente dita e outra para as dobradiças…).

Nas Calendas do Feijão que se incluía entre os dias “nefastos” (ou seja, um feriado em que não podia ocorrer nenhum tipo de sessão pública, seja audiência judiciária, reunião política ou assembléia), era oferecido à deusa Carna um prato de feijões (ou favas) cozidos e fritos em banha de porco.

Entre os dias 7  (ante dies VII idus junias) e 15 de junho (ante dies XVII Kalendas Iulias ou, antes do Calendário Juliano, ante dies XVI Kalendas Quinctilis), ocorria a Vestalia, que  era a nundina (período  de 9 dias que no calendário romano tradicional tinha a mesma função da atual semana)  de festejos e cerimônias em honra `deusa Vesta, uma das divindades mais antigas e tradicionais do Panteão romano (leia nosso artigo específico sobre Vesta).

OUTRAS FESTIVIDADES EM JUNHO

Uma data importante, e que parece ter significado mais universal do que o culto à  Vesta, embora não estivesse totalmente divorciado deste, era o dia 24 de junho – o Dies Lampadarum, que marcava o solstício de verão no hemisfério norte, ou seja, dia em que o sol atingia o seu ponto máximo no firmamento e a sua luz tinha o máximo de duração (o dia mais longo e a noite mais curta do ano). Tradicionalmente, o solstício de verão nas sociedades agrícolas setentrionais marca o período da colheita, e por isso a limpeza do armário, ou penus de Vesta, era tão relevante, significando a limpeza da despensa da casa para receber os frutos da nova colheita.

Por isso, a maior parte das representações iconográficas romanas do mês de junho, inclusive a do célebre Calendário de Filócalo, de 354 D.C., apresentava um homem ou divindade carregando uma tocha, próximo a um cesto de frutas ou cereais. (vide foto abaixo)

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