ESTILICÃO – GENERAL DE ORIGEM VÂNDALA E FIEL DEFENSOR DO IMPÉRIO ROMANO

Em 22 de agosto de 408 D.C, o Comandante-em-chefe do Exército Romano do Ocidente, Marechal Flávio Estilicão, foi executado em Ravena, sete dias após sua prisão, por ordem do Imperador Romano do Ocidente, Honório.

Flávio Estilicão (Flavius Stilicho) nasceu por volta de 359 D.C., filho de um guerreiro da tribo germânica dos Vândalos, provavelmente um chefe que deve ter servido ao império romano durante o final da dinastia constantiniana (305 – 363 D.C.) e que se casou com uma cidadã romana. Por isso, algumas fontes se referem a Estilicão como “meio-vândalo”.

Seguindo a carreira do pai, Estilicão entrou no exército romano e, ainda jovem, deve ter se destacado bastante durante o início do reinado do imperador Teodósio, o Grande, pois, já em 383 D.C., ele foi enviado como embaixador à corte de Sapor III, rei do Império dos Persas Sassânidas, para tratar da partilha da Armênia. Note-se que uma das características marcantes do reinado de Teodósio foi a preferência pelo emprego de contingentes bárbaros em detrimento dos remanescentes do exército romano tradicional.

De volta da Pérsia, Estilicão foi promovido a Conde dos Estábulos (“Comes Stabuli”), responsável pelos estábulos imperiais. um título que foi preservado durante o reino dos Francos e sobreviveria até nossos dias sob a forma inglesa “constable” (Chefe de Polícia) (ou, ainda, “condestável”, em português).

Pouco depois, Estilicão seria promovido a marechal (“Magister Militum”), e, como prova da sua alta consideração na Corte, em 384 D.C., ele se casaria com Serena, sobrinha de Teodósio, que lhe daria um filho, Euquério, e duas filhas, Maria e Termântia. Esse fato mostra que, ao contrário da maioria dos Vândalos, que professavam a heresia ariana, Estilicão era cristão ortodoxo-niceno,  credo professado pela casa de Teodósio.

Depois disso, Estilicão, como general, participou das vitórias contra os bárbaros Visigodos e Bastarnae, em 391 D.C.

Em 394 D.C, Estilicão, combatendo junto com o rei Godo Alarico, foi o principal comandante na importante Batalha do Rio Frígido, combate no qual derrotou o o usurpador Eugênio, que havia sido colocado no trono, em 392 D.C., pelo general franco Arbogaste, o homem-forte do Império do Ocidente, ambos os quais esposavam a causa do renascimento pagão, apoiado pela facção mais tradicional do Senado Romano. Com a vitória, Teodósio passou a reinar sobre as duas metades do Império, mas não por longo tempo, pois ele morreria no ano seguinte, em 395 D.C.

Em seu leito de morte, Teodósio legou o Império Romano aos seus dois filhos: Honório, que ficaria com a Parte Ocidental e que tinha 8 anos quando na morte do pai; e Arcádio, de 12 anos, que reinaria sobre a Parte Oriental. Como tutores dos garotos e, na prática, regentes de fato do Império, o imperador agonizante nomeou, em relação a Honório, o marechal Estilicão, e, para tutelar Arcádio, foi nomeado Rufino, um alto funcionário palaciano e homem de Estado.

Entrementes, após a Batalha do Rio Frígido, o rei Alarico, convicto de que os seus guerreiros eram os que mais tinham se sacrificado pela vitória de Teodósio naquela ocasião, a partir da morte deste imperador passou a exigir altas recompensas para si e para o seu povo, não obtendo, todavia, o reconhecimento pretendido. Eleito formalmente Rei pelos visigodos (relatando-se o célebre costume germânico de erguer o novo rei em cima de um escudo) – e valendo ressalvar que alguns historiadores consideram que a aclamação dele teria ocorrido anteriormente, em 391 D.C), Alarico liderou uma revolta dos Godos contra o Império Romano, chegando, inicialmente, a marchar até os muros de Constantinopla, desistindo, entretanto, de sitiar a capital em função da solidez dos seus muros. Em seguida, os Visigodos devastaram a Macedônia e a Grécia, saqueando e destruindo as históricas cidades de Corinto, Mégara. Argos e Esparta, porém poupando Atenas.

Essa incursão foi facilitada pelo fato do Exército do Oriente estar ocupado com uma incursão dos primeiros grupos de Hunos que começavam a chegar e que, décadas mais tarde, assolariam o Império unidos sob o comando de Átila.

Diante disso, Rufino, o Prefeito Pretoriano e Regente do Império Romano do Oriente, tentou negociar em pessoa com Alarico. Ocorre que, naquele momento, Estilicão dirigia-se, através da Ilíria em direção à Grécia, para dar combate aos Visigodos de Alarico. Porém, por manipulação de Rufino, o jovem imperador Arcádio ordenou que Estilicão desse meia-volta e abandonasse com seu exército o território do Oriente. E isto era tudo o que Alarico precisava no momento, já que o exército de Estilicão no momento era mais poderosos do que o dos Godos. O motivo mais provável para a atitude de Rufino seria impedir que o regente do Ocidente aproveitasse a oportunidade para se tornar também o governante de fato do Oriente, e, ainda, para evitar que ele auferisse os louros da vitória.

No entanto, o comportamento traiçoeiro de Rufino foi tão mal-recebido pelos militares orientais que os próprios soldados da sua escolta o assassinaram. Livre, assim, da má influência de seu tutor, e, momentaneamente, bem assessorado por outros oficiais, o imperador Arcádio chamou Estilicão de volta para auxiliar Constantinopla na luta contra os Visigodos.

O leal e patriota general acedeu prontamente e, entrando na Grécia com seu exército, conseguiu, em 397 D.C, cercar Alarico nas montanhas do Peloponeso, de onde somente os bárbaros conseguiram escapar com muita dificuldade. Em verdade, os Visigodos estavam em uma posição tão vulnerável que Estilicão, na época, foi acusado de ter deixado intencionalmente eles escaparem e esse fato é objeto de discussões até os dias de hoje: Alguns historiadores acreditam que Estilicão recebeu novamente de Constantinopla ordens de partir; já para Zósimo, historiador romano do período, isso deveu-se ao excesso de confiança por parte do general romanos, que também gostaria demasiadamente de luxo e mulheres. Outros, ainda, acreditam que as tropas de Estilicão, compostas de contingentes majoritariamente germânicos, não seriam confiáveis, e teriam deliberadamente poupado os seus “compatriotas”. E há também quem diga que Estilicão ficou impossibilitado de liquidar os bárbaros porque teve que lidar com a revolta de Gildo, na África, que estourou no mesmo ano.

Seja como for, o fato é que Alarico e seus Visigodos conseguiram escapar em direção ao norte, cruzando e pilhando o Épiro e chegando até a Ilíria, levando consigo o produto do saque à Grécia.

Mais grave, entretanto, para os romanos, foi o fato de Alarico, no final dessa campanha, ter conseguido fazer o fraco Imperador Romano do Oriente nomeá-lo Marechal das Forças Armadas (“Magister Utriusque Militiae“), fato que permitiu aos Visigodos ter acesso aos arsenais e fábricas militares do Império Romano na Ilíria.

Não obstante, em 398 D.C., o imperador Honório casou-se com Maria, a filha mais velha de Estilicão, que tinha apenas 14 anos, selando a sua posição de homem-forte do Império Romano do Ocidente. Isto tornava o general de origem vândala membro da família imperial, até então uma posição inaudita para alguém de sangue bárbaro.

O assoberbado Estílicão, contudo, não pôde desfrutar de seu novo status, porque, além de ter de lidar com a revolta do Conde da África, Gildo, e ainda teve que combater uma guerra na Britânia.

Diante das vicissitudes enfrentadas por Estilicão, o insaciável Alarico, percebendo a fraqueza da parte ocidental, deu início à sua 1ª invasão da Itália, em 401 D.C. Assim, no ano seguinte, os Visigodos alcançaram Milão, a então já centenária capital do Império Romano do Ocidente, e, desafiadoramente, ali sitiaram o próprio imperador Honório. Contudo, mesmo após armarem-se nos arsenais imperiais da Ilíria, aos bárbaros ainda faltava o “know-how” para o assédio às muralhas de Milão.

Mais uma vez, a situação foi salva por Estilicão, que derrotou Alarico em Polentia, no Piemonte, capturando, inclusive a esposa do rei bárbaro. Alarico então deixou a região, mas, perseguido pelas tropas romanas, ele foi novamente derrotado por Estilicão nas cercanias de Verona, em 403 D.C., resolvendo voltar para a Ilíria.

A grande consequência dessa incursão de Alarico foi convencer o imperador Honório a deixar Milão e estabelecer a sua Corte na cidade de Ravena. O motivo desta escolha é que Ravena era uma cidade cujo acesso por terra somente poderia ser feito cruzando-se extensos pântanos que faziam parte de uma laguna e, portanto, ela era muito difícil de ser invadida pelos bárbaros. Além disso, a cidade poderia ser abastecida pelo mar, em caso de cerco, através do Porto de Classe.

Entretanto, a mudança da capital para Ravena teria influência decisiva na estratégia imperial adotada nos futuros cercos de Alarico a Roma…enquanto isso, uma catástrofe tomava vulto…

Com efeito, infelizmente, para os romanos, durante o inverno rigorosíssimo do ano de 406 D.C. o rio Reno congelou. E este não muito frequente fenômeno foi prontamente aproveitado por um grande número de tribos bárbaras que tinham migrado para a margem oriental do Rio fugindo dos Hunos. Estes povos eram sobretudo Vândalos, Suevos e Alanos. Para piorar esta situação, quando essa horda começou a atravessar para o lado ocidental, controlado pelos romanos, não havia nenhuma tropa romana suficiente para resistir, pois, justamente naquele mês, Estilicão tinha sido compelido a deslocar as tropas romanas estacionadas na Gália para enfrentar a segunda invasão de Alarico à Itália.

Como resultado imediato, a Gália foi severamente devastada pelos invasores, os quais, desta vez, tinham vindo para ficar. Ela era a província mais rica do Ocidente e nunca mais se recuperou; E, não muito tempo depois viriam os Francos, os Alamanos e os Burgúndios.

Por incrível que possa parecer, em meio a esse caos, os romanos ainda gastavam seus parcos recursos em lutas internas. De fato, logo após a invasão da Gália e o desaparecimento do exército local, o comandante da última legião da Britânia, Flávio Constantino, foi aclamado imperador romano do Ocidente pelas suas tropas, em 407 D.C. Adotando o nome de Constantino III, ele deixou a ilha e desembarcou na Gália para tentar defender esta importante província das incursões bárbaras.

O fato é que o caos resultante da travessia do Reno pelos bárbaros era uma oportunidade que Alarico não poderia desperdiçar e ele intensificou a ofensiva contra Honório. Estilicão, dessa vez, concordou em pagar 4 mil libras de ouro a Alarico e o visigodo, aceitando, deu meia-volta e tirou as suas tropas da Itália.

Para a surpresa geral, o Senado Romano sentiu-se ultrajado pelo pagamento do “resgate” do Ocidente a Alarico, tendo um senador inclusive assinalado, em um discurso indignado:

“Isto não é um tratado de paz, mas um pacto de servidão!”.

Esse fato, mais a invasão da Gália e a revolta de Constantino III minaram o prestígio de Estilicão na Corte de Honório, E o general ainda continuava enredado nas intrigas da Corte e absorvido nas disputas entre Oriente e Ocidente.

Em 408 D.C, Estilicão conseguiu casar sua segunda filha, Termântia, com o próprio Imperador Honório, recém viúvo de Maria (ela morrera no ano anterior), mantendo-se, assim, como membro da família imperial. Cresceram na Corte as suspeitas que o romano metade vândalo aspirava o trono para si. Essas suspeitas cresceram quando Arcádio, o imperador do Oriente, morreu: Honório, como imperador romano, planejou ir à Constantinopla tratar da sucessão do irmão falecido, mas foi aconselhado a não ir por Estilicão, que se ofereceu para ir em lugar dele.

No início de agosto, algumas tropas se rebelaram na Itália, provavelmente instigadas por adversários políticos de Estilicão. Ameaçado, o general refugiou-se em Ravenna, onde ele acabou sendo preso.

Então, Olímpio, um ministro da corte de Honório, convenceu o jovem imperador que Estilicão planejava usurpar o trono do Oriente. Honório, indignado, ordenou a morte do fiel e valoroso general.

Consta que Estílicão poderia ter facilmente resistido à sua sentença de morte, pois eram muitos os soldados que lhe eram fiéis, mas ele aceitou resignada e obedientemente o seu fim. Estilicão foi executado em 22 de agosto de 408 D.C. Pouco depois, executaram seu filho, Euquério.

Muitos consideram que a execução de Estilicão foi um golpe que Honório deu no próprio Império Romano: Logo após a execução do infeliz general, alguns populares romanos atacaram famílias de soldados bárbaros federados que formavam o exército de Estilicão e cerca de 30.000 soldados desse exército desertaram e fugiram, juntando-se a ninguém menos do que Alarico!

Em consequência, a Itália ficou indefesa, iniciando-se a cadeia de eventos que resultaria no dramático Saque de Roma por Alarico e seus Visigodos, em 410 D.C.

PROBO – IMPERADOR-SOLDADO DA ILÍRIA

Probus_Musei_Capitolini_MC493(Cabeça de Probo)

Em 19 de agosto de 232 D.C., nasceu, na cidade de Sirmium (atual Sremska Mitrovica, na Vojvodina, Sérvia)que, então, ficava na província romana da Panônia Inferior), Marcus Aurelius Probus (Probo), filho de um certo Dalmatius, que seria um simples jardineiro, ou hortelão.

Há uma versão alternativa, segundo a História Augusta, de que o pai de Probo, se chamava Maximus, um comandante que, após deixar o exército, foi morar no Egito com a família. Porém, é quase certo que aqui a História Augusta faz confusão com Tenagino Probus, que foi governador da Numídia e do Egito durante os reinados dos imperadores Cláudio Gótico e Aureliano. Note-se que as inscrições encontradas mencionando Tenagino Probus tornam cronologicamente improvável (embora não impossível), que este tenha sido o pai de Marco Aurélio Probo (a quem, aliás, a História Augusta também atribui erroneamente alguns feitos de Tenagino Probus, que ocorreram nas referidas províncias).

De qualquer modo, sabe-se que a região da Ilíria, na segunda metade do século III D.C., era o esteio militar do Império Romano (efetivamente, dez imperadores romanos nasceram em Sirmium, quase todos eles militares de carreira). Assim, como tantos de seus compatriotas, Probo entrou no Exército Romano no início da década de 250 D.C.

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(Elmo romano do início do século IV, do tipo “Berkasovo”, assim chamado porque foi achado na cidade do mesmo nome, próxima a Sirmium)

Durante os reinados dos imperadores da dinastia dos Severos, tudo indica que o excesso de privilégios e benesses dados aos soldados comprometeu a disciplina do Exército, justamente quando o ressurgimento do poder persa no Oriente, sob a dinastia dos Sassânidas, começava a colocar Roma no desafio estratégico de enfrentar conflitos em três fronts, já que as fronteiras ocidentais dos rios Reno e Danúbio começavam a ser pressionadas pelo deslocamento de povos germânicos.

Foi de fato um período de frequentes rebeliões e assassinatos de imperadores, muitos, diga-se de passagem, incompetentes para enfrentar aqueles desafios, seguindo-se, assim, repetidas derrotas para os Persas e Germânicos, no período de 238/260 D.C, sendo as mais dignas de nota as catastróficas derrotas na Batalha de Abritus, em 251 D.C., para os Godos, com a morte do imperador Trajano Décio no campo de batalha, onde ocorreu a provável perda de todo o tesouro imperial, e a humilhante captura do imperador Valeriano pelos Persas, em 260 D.C.

Naghsh-e_rostam,_Irán,_2016-09-24,_DD_12.jpg(Relevo do Imperador Sapor I capturando Valeriano, na necrópole persa de Naqsh-e Rustam, foto de Diego Delso)

Enquanto isso, a Gália, o norte da Itália, a Ilíria, a Trácia e a Grécia, entre outras províncias, eram devastadas por invasões bárbaras. Foi nesse contexto dramático que os soldados provenientes da Ilíria foram recrutados e progrediram no Exército Romano, como foram os casos de Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, todos eles Ilírios nativos de Sirmium (Obs: há uma certa dúvida quanto a Cláudio Gótico, que pode também ter nascido em Naissus, na Dardânia, mas com certeza ele era Ilírio).

Todos os três imperadores supracitados serviram durante o reinado do imperador Galieno, o filho e sucessor de Valeriano (260-268 D.C.), sendo que Cláudio Gótico chegou a comandante dos Comitatenses, a cavalaria de elite que Galieno criou (hipparchos). Por sua vez, Probo, apesar de ser bem mais jovem que os outros dois, chegou a ser mencionado em cartas dos referidos imperadores como sendo responsável por várias façanhas militares, motivo pelo qual ele foi promovido a Tribuno, segundo a História Augusta, .

Gallienus_monochrome(Busto de Galieno)

Apesar dos esforços de Galieno, que venceu algumas batalhas contra os bárbaros, a caótica situação militar entre 251 e 260 D.C., acabou acarretando a secessão da província da Gália, que se autoproclamou “Império Gaulês”, e, posteriormente, a perda da província da Síria que passou a fazer parte do chamado “Império de Palmira”. Estas secessões foram, de fato, um acontecimento devastador, pois a Gália e a Síria eram, juntamente com o Egito, as duas províncias mais ricas do Império. Porém, ao contrário do que possa parecer, a separação destas duas províncias ocorreu muito mais em função da incapacidade de Roma defendê-las dos bárbaros e dos Persas, do que devido a algum sentimento nacionalista anti-romano.

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A gravidade da situação, como não poderia deixar de ser, minou a reputação de Galieno, que acabou sendo assassinado, em 268 D.C., em mais uma conspiração perpetrada pela Guarda Pretoriana, mas que muito provavelmente teve a participação de Cláudio Gótico, que foi proclamado imperador, e de Aureliano, que foi nomeado Comandante da Cavalaria. Havia chegado, portanto, a vez dos soldados ilírios governarem o Império. Se a História Augusta está correta, com a chegada dos seus dois compatriotas ao poder, Probo foi nomeado comandante de uma legião.

Cláudio Gótico obteve importante vitórias contra os Alamanos e esmagou os Godos, porém, em 270 D.C., ele morreu vítima da Peste que grassava no Império, sendo sucedido por Aureliano, que, sucessivamente,  conseguiu derrotar o Império Gaulês e Palmira e recuperar a Gália e a Síria, reunificando o Império Romano, motivo pelo qual recebeu do Senado o título de “Restaurador do Mundo(Restitutor Orbis).

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(Moeda romana. Aureliano “restitui” o mundo (orbis) à deusa Roma”)

Aureliano, apesar desses sucessos retumbantes, acabou sendo assassinado pelas próprias tropas em 275 D.C, segundo consta, pelo motivo dele ser muito severo com os soldados. Então, o Senado Romano, em um arranjo que talvez emulasse o que ocorreu com Nerva, quase dois séculos antes, escolheu, em 25 de setembro daquele ano, o velho senador Tácito, de 75 anos de idade, como novo imperador. Aliás, esta seria a última vez que o Senado elegeria um imperador romano por iniciativa própria.

Tácito (não confundir com o historiador homônimo), segundo consta, teria nomeado Probo, “governador do Oriente”. Em seguida, o referido imperador, apesar de sua já provecta idade, partiu para enfrentar, com sucesso, os mercenários hérulos que devastavam as províncias orientais, acompanhado de seu meio-irmão, Floriano. Todavia, enquanto retornava para lutar contra uma invasão dos Francos e Alamanos, Tácito contraiu uma febre e morreu, em junho de 276 D.C, (vale citar que, segundo uma versão menos aceita, do historiador Zózimo, a morte de Tácito teria sido por assassinato).

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(Busto de Tácito,  Photo © Roby 9 janvier 2005)

Quando a notícia da morte de Tácito circulou, as tropas de Probo o aclamaram imperador, o mesmo ocorrendo com Floriano, que foi reconhecido no Ocidente, mas não no Oriente, que somente apoiou Probo. Assim, os dois imperadores rumaram para decidir a sucessão em uma batalha, perto de Tarso, na atual Turquia. Floriano até tinha superioridade numérica, mas as suas tropas não estavam acostumadas ao calor que fazia na região. Probo, cautelosamente, evitou um engajamento e o relato é de que as tropas de Floriano, impacientes com o sol inclemente, assassinaram o seu imperador, em setembro de 276 D.C. O motivo mais provável, contudo, é que as tropas, certamente compostas por muitos Ilírios, devem ter preferido tomar partido de um compatriota oriundo, como eles, da caserna.

Com o seu trono agora inconteste, uma das primeiras medidas de Probo foi punir os assassinos de Aureliano e de Tácito que ainda estavam impunes.

probus 6nxAX9s9e57GSp38LM3c5gaRw4YE2b.jpgImediatamente após sua ascensão, Probo teve que se deslocar para o Ocidente para enfrentar uma invasão dos Godos na Ilíria, os quais ele derrotou, recebendo o titulo de Gothicus Maximus, em 277 D.C. Nessa altura, Probo já tinha sido reconhecido pelo Senado. Depois disso, Probo rumou para a Gália, onde, em 278 DC., ele obrigou os bárbaros Francos, Longiones e Alamanos a cruzarem de volta o Reno (feito pelo qual ganhou o título de Germanicus Maximus), capturando Semnon, chefe dos Longiones, e o filho deste, que foram poupados. Finalmente, Probo derrotou os Burgúndios, capturando um grande número deles, que foram incorporados ao exército romano.

Probo_-_Foto_Giovanni_Dall'Orto,_25_Giu_2011(Cabeça de uma estátua dourada de Probo, foto de Giovanni Dall’Orto)

Com a derrota dos bárbaros na fronteira renana, Probo adotou a estratégia de construir alguns fortes na margem oriental do rio, nos pontos em que o mesmo podia ser cruzado, além de depósitos de suprimentos.

Em seguida, Probo conseguiu pacificar a província da Récia e, após, ele voltou para a Ilíria, agora para reprimir uma invasão dos Vândalos, em 279 D.C. A persistência dessas invasões mostra que, provavelmente, nenhuma dessas vitórias foi conclusiva, ou, então, que tais incursões bárbaras não eram massivas. Não obstante, esses sucessos mostraram que o Império recuperara a capacidade de defender as fronteiras.

Com a estabilização da situação na Gália e no Danúbio, Probo adotou a benéfica política de utilizar o exército parar plantar vinhedos na Gália e na Panônia, o que era, sem dúvida uma medida inteligente, tendo em vista a devastação que essas províncias tinham sofrido nos últimos 20 anos, causando sua decadência econômica. Nas províncias mais despovoadas pelas seguidas invasões, Probo decidiu assentar algumas das tribos germânicas pacificadas, política que, entretanto, apresentava alguns riscos à segurança do império.

É interessante observar que, dentre os lugares nos quais Probo ordenou que fossem plantados os vinhedos, está a região do antigo Monte Alba, próximo à cidade natal de Probo, Sirmium, onde, segundo a História Augusta, o imperador plantou o primeiro vinhedo com as próprias mãos, sendo que esta região é conhecida atualmente como as montanhas Fruska-Gora, na região sérvia da Vojvodina, e ainda hoje constitui uma conceituada região vinícola!

fruska-vino222.jpg(A região vinícola de Fuska-Gora, onde Probo ordenou o plantio de vinhedos)

Em 280 D.C., Probo enviou os seus generais para comandar uma campanha contra os Blemmyes, um reino tribal de populações da etnia Beja, que viviam na antiga Núbia, correspondendo à região onde hoje é o Sudão, e que vinham atacando a província romana do Egito.

Derrotados os Blemmyes, Probo, seguindo a política de recuperação econômica que adotara no Ocidente, determinou ao Exército a reconstrução de diques, de canais de irrigação e de pontes ao longo do Nilo, medidas que eram relevantes para estimular a produção agrícola de uma província que era a grande fonte de cereais para a Itália.

Lamentavelmente, a praga das rebeliões militares não deixava de assolar o Império e, entre 280 D.C. e 281 D.C., Probo teve que enfrentar as revoltas dos usurpadores Júlio Saturnino, na Síria, e de Próculo e Bonosus, em Lugdunum (atual Lyon) e Colônia, nas províncias da Gália e na Germânia, os quais se declararam co-imperadores. Logo Saturnino acabou sendo morto pelos seus próprios soldados. Já a revolta dos dois últimos citados é um tanto obscura, e tanto pode ter sido fruto de algum resquício do “Império Gaulês”; ou talvez fruto de alguma insatisfação mais generalizada, já que inscrições com o nome de Probo também foram apagadas na Hispânia, na mesma época. Vale citar que Próculo tinha ligações com os Francos. Por sua vez, Bonosus, consta, teria se revoltado por medo de ser punido pelo incêndio da flotilha romana do Reno, pelos bárbaros germanos. O fato é que ambas as rebeliões foram derrotadas, sendo Próculo executado após ser entregue a Probo pelos seus aliados Francos, para onde ele fugira após a chegada do exército do imperador. E Bonosus, se matou após perder o combate com as tropas imperiais. Probo, dando uma prova do seu temperamento moderado, poupou as famílias dos usurpadores.

Somente em 281 D.C., Probo conseguiu celebrar em Roma o seu merecido Triunfo pelas vitórias contra os bárbaros. Nessa estadia na capital, ele aproveitou para completar as imponentes muralhas iniciadas por seu antecessor Aureliano (e que por isso são chamadas de Muralhas Aurelianas, as quais ainda existem).

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Segundo a História Augusta, Probo tentou devolver algumas prerrogativas ao Senado Romano, como o de ser a instância máxima para julgar as apelações das decisões dos tribunais superiores, a competência para designar os Procônsules e os legados dos Procônsules e de conferir aos governadores as prerrogativas e os poderes de Pretor. Isso é considerado duvidoso por alguns historiadores, mas, se for verdade, pode bem ser uma das causas de alguma insatisfação do Exército com o imperador, já que cada vez mais aquela corporação estava se acostumando a ser a principal instância de poder.

Em 282 D.C., Probo partiu para a sua cidade natal de Sirmium, que, segundo parece, iria servir como ponto de partida para uma futura campanha contra a Pérsia. Há o relato de que ele teria, mais uma vez, determinado aos soldados que trabalhassem em obras públicas para o benefício da província, fato que acabou causando uma rebelião. Acuado, Probo teve que se refugiar em uma fortificação chamada de “Torre de Ferro”, onde ele acabou sendo morto. Em outra versão, de acordo com o relato de Zózimo, a qual muitos estudiosos acham mais crível, as tropas proclamaram imperador Marco Numério Caro (Caro), o Prefeito Pretoriano de Probo, ocasião em que o contingente enviado por Probo para reprimir o levante aderiu à revolta, e, em função disso, os próprios soldados da escolta imperial acabaram assassinando o imperador, em setembro de 282 D.C.

CONCLUSÃO

Os combativos imperadores-ilírios Cláudio Gótico, Aureliano e Probo, no período entre 268 D.C e 282 D.C contribuíram decisivamente para conter as ameaças dos Germanos e dos Persas, nos fronts ocidental e oriental do Império Romano. Contudo, persistiram os graves problemas da instabilidade política e econômica e da insubordinação militar a comprometerem a sobrevivência do Império, problemas que seriam mais bem enfrentados pelos seus sucessores Ilírios, Diocleciano e Constantino.

FIM

A BATALHA DE ADRIANÓPOLIS

Amiano Marcelino, “História”, Livro XXXI, 13,10

Como foi possível que essa tragédia romana ocorresse?

O texto acima foi escrito pelo historiador romano Amiano Marcelino, relatando a catástrofe sofrida pelo Exército Romano e o desfecho da Batalha de Adrianópolis, ocorrida em 9 de agosto de 378 D.C., culminando com a morte do imperador romano do Oriente, Valente.

1- Prelúdio

O Império Romano passou por profundas transformações nos 100 anos anteriores ao saque visigodo.

Durante 350 anos, começando com Augusto, o primeiro imperador (e cujo nome, coincidentemente batiza o mês de agosto), que reinou entre 27 A.C e 14 D.C., a estratégia militar romana consistia na disposição de suas principais forças militares nas fronteiras, organizadas em 28 legiões (esse número se manteve relativamente estável durante esse período). Essas legiões eram, de início, formadas por legionários recrutados entre os cidadãos romanos que fossem italianos ou oriundos de colônias de italianos estabelecidas em territórios conquistados.

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Cada legião tinha cerca de 5 mil homens e ela consistia em uma unidade virtualmente autônoma, com seus quartéis, estábulos, fábricas de armas, corpos de engenheiros, etc. (Note-se que, com o tempo, muitos dos quartéis das legiões dariam origem a várias cidades europeias atuais). E o Exército Romano também recrutava contingentes da população que habitava as localidades nas quais as legiões estavam situadas, os quais formavam regimentos de Auxiliares (Auxilia). Tradicionalmente, havia um corpo de auxiliares para cada legião, com o mesmo número de soldados que os legionários.

Basicamente, esses Auxiliares eram utilizados como tropas de patrulha, empregados em escaramuças, ou então como tropas especializadas, como, por exemplo, arqueiros, fundibulários (fundas), cavalaria ligeira, etc., sempre de acordo com as habilidades guerreiras de cada povo. Após servirem pelo prazo de 20 anos, um Auxiliar ganhava o direito de pleitear a cidadania romana (que era conferida por decreto do próprio imperador – aliás, muitos desses diplomas de bronze sobreviveram e foram encontrados em escavações, os quais, certamente, foram guardados com muito orgulho pelos agraciados (vide foto abaixo).

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Como resultado positivo dessa estratégia, denominada de “defesa estática“, o estabelecimento das legiões nas fronteiras acarretou a “romanização” daquelas populações fronteiriças, Assim, pouco a pouco,  as legiões também começaram a recrutar localmente as suas tropas. Vale lembrar que o recrutamento de soldados sempre foi um problema que afligiu os romanos, já que, desde as reformas de Caio Mário, por volta de 100 A.C, o Exército Romano deixara de ser uma milícia de cidadãos que prestavam serviço militar, para se transformar no primeiro exército verdadeiramente profissional da História.

Entretanto, esse sistema demonstrou ser um fator de instabilidade política: Com efeito, após a derrubada e suicídio de Nero (68 D.C.), quando três generais comandantes de legiões disputaram o trono, tornou-se cada vez mais frequente, em tempos de crise, o surgimento de rebeliões daquelas legiões estacionadas nas fronteiras do Império. Na verdade, o próprio regime do Principado, que substituíra a República, descendia de um longo processo de tomada do poder pela força por políticos que também eram generais. Não é a toa que o título “Imperator” significava, na origem, ‘Comandante”…

Consequentemente, na prática, quase todo general à testa de uma legião era um candidato em potencial a Imperador,  e, ao menor sinal de fraqueza do imperador reinante, poderia ser aclamado como tal por suas tropas. E tal comportamento, sem dúvida, era decorrente do costume de se recompensar regiamente os legionários que serviam na legião, quando o seu comandante conseguia ser vitorioso na disputa (inclusive, houve vários casos em que toda a tropa, ávida pelas polpudas gratificações, aclamava o seu general imperador. mesmo contra a vontade deste! Ironicamente, isso tornava-se caso a rebelião fracassasse, uma sentença de morte para o coitado do general…).

Essa instabilidade militar chegou ao máximo durante o período que se denomina “Crise do Século III“, onde a média de duração de um reinado era pouco mais de um ano, e, algumas vezes, havia vários Imperadores rivais.

2- A reforma militar de Constantino

Finalmente, em 312 D.C., após mais uma dessas incontáveis rebeliões, Constantino, um general romano de origem ilíria, filho de um dos quatro co-imperadores nomeados por Diocleciano, no fracassado projeto de divisão racional do poder que este instituíra, chamado de “Tetrarquia“, derrotou o rival Maxêncio e se tornou Imperador.

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Constantino foi o responsável por  duas mudanças radicais, no campo político-administrativo e militar, que impactariam decisivamente o Império Romano nas décadas seguintes:

1) Reconhecendo que o território romano era grande demais para ser administrado por um imperador somente, instalado em apenas uma capital, resolveu, inspirado no precedente tentado por Diocleciano (tetrarquia), instituir uma divisão político-administrativa do império em duas metades – Ocidental e Oriental (Pars Occidens e Pars Oriens). A capital ocidental, predominantemente de fala latina, a princípio, continuou sendo Roma, mais tarde substituída, sucessivamente, por Milão e Ravena. Porém, para capital da parte oriental, onde se falava majoritariamente o idioma grego, ele escolheu a antiga cidade grega de Bizâncio, notória por suas qualidades defensivas (basicamente um triângulo de terra cercado de água em dois lados), que recebeu o nome oficial de “Nova Roma que é Constantinopolis“, mais conhecida como Constantinopla;

2) Constantino também resolveu instituir um “Exército Central Móvel“, que ficaria sob o comando direto do Imperador, formado com os melhores contingentes das 28 legiões espalhadas pelo Império Romano. A elite do exército eram as tropas de cavalaria couraçada (Scholae Palatina). E os soldados desse exército central ficariam conhecidos como Comitatenses (literalmente, aqueles que fazem parte da “Comitiva” imperial). Esses soldados receberiam pagamento maior e melhores uniformes e equipamento do que os do restante do Exército Romano. Já as antigas legiões não seriam extintas, mas de certa forma, elas foram rebaixadas. Os seus integrantes passaram a ser denominados de “Limitanei” (isto é, os “fronteiriços”, ou “da fronteira”), que recebiam pagamento menor. Como o tempo demonstraria, essas tropas, paulatinamente, acabaram definhando e virando uma espécie de guarda provincial de fronteira.

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A maior parte dos estudiosos acredita que, mais do que preocupação com a estratégia militar defensiva imperial, o grande objetivo de Constantino era assegurar a estabilidade de seu trono e continuidade da sua própria dinastia., no que, aliás, ele foi bem sucedido, pois ele mesmo reinou 25 anos e a sua dinastia duraria 50 anos.

A criação de um Exército Central Móvel, na forma adotada por Constantino, consagrou a adoção do que se chama, em ciência militar, de estratégia de “defesa em profundidade“, cuja principal característica é o reconhecimento de que os inimigos atacantes não poderão ser detidos nas fronteiras, e, inevitavelmente, eles penetrarão o território do império, devendo as tropas fronteiriças apenas retardar ou atrapalhar o avanço do exército inimigo em solo pátrio, até que o mesmo seja engajado e derrotado pelo exército principal do país, onde for mais recomendável.

3- A ameaça nas fronteiras

O problema é que essa mudança estratégica romana ocorria em meio a dois acontecimentos ocorridos no exterior que teriam consequências gravíssimas: o primeiro, já do conhecimento dos romanos, era o renascimento de um império persa nacionalista e militarmente agressivo, que 40 anos antes, tinha-lhes infligido duras derrotas, inclusive com a captura, pela primeira vez, de um imperador romano em campo de batalha (Valeriano, em 260 D.C.), que havia imprudentemente invadido a Mesopotâmia.

Em 363 D.C., o último integrante da dinastia de Constantino, o Imperador Juliano (denominado de “O Apóstata”, pois ele renunciou à fé cristã e tentou restaurar os deuses pagãos) sofreu nova derrota desastrosa na Pérsia, onde ele morreu após ser ferido em batalha. O sucessor, dele, Joviano, teve que negociar um tratado humilhante para conseguir sair da Pérsia com o que sobrou do exército romano de 90 mil homens, um dos maiores já reunidos em toda história do império. Amiano Marcelino foi um historiador romano que participou dessa campanha como soldado e deixou um relato excepcional da campanha. Sobre Juliano, vale a pena ler o livro homônimo, do escritor americano Gore Vidal, um romance histórico magistralmente escrito).

Mas foi o segundo fato, ocorrido na longínqua China e então desconhecido dos romanos, que causaria uma sucessão de eventos que redundaria, décadas mais tarde, no Saque de Roma: a migração dos Hunos.

Derrotados após uma tentativa de conquistar o Império Chinês, os Hunos se voltaram para o Ocidente. Atravessando a Ásia Central, em hordas invencíveis de milhares de arqueiros montados, os hunos foram empurrando povos e mais povos, em um verdadeiro efeito dominó, em direção ao Oeste, gerando o aumento dos conflitos na fronteira romana do Reno/Danúbio.

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Assim, o cenário militar romano em meados do século IV era aquele que assombra o imaginário de qualquer líder militar: o de uma guerra em dois fronts!

Um dos povos que foram desalojados pelos hunos eram os Godos, um povo germânico de origem escandinava que havia migrado para a região do Danúbio, estabelecendo-se nas proximidades da antiga província romana da Dácia (aproximadamente a Romênia atual).

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Em 376 D.C., uma vasta migração dos Godos Thervingi, liderados pelo chefe Fritigern, totalizando cerca de 200 mil pessoas, pediu autorização ao Imperador Romano do Oriente, Valente, para cruzar o rio Danúbio e se instalar na província romana da Moesia, no que, na verdade, era quase um pedido de asilo. Foi dada a permissão, sob a condição de que eles entrariam desarmados, mas ficariam sujeitos ao serviço militar (os romanos sempre costumavam empregar bárbaros como tropas, e durante a dinastia de Constantino, o emprego de tropas germânicas tinha aumentado bastante, ao ponto de influenciar o equipamento, vestuário e até o grito de guerra dos soldados romanos)

Em geral, a História e os achados arqueológicos demonstram que os povos germânicos, ao longo dos quase 400 anos que separam o ano de 100 A.C, quando as fontes romanas pela primeira vez mencionam a invasão da Itália pelos povos denominados de Cimbros e Teutões ([invasão derrotada por Mário), do aparecimento dos Godos na fronteira do Danúbio, no final do século III, vinham sendo influenciados pelo Império Romano, mas sempre mantendo uma consciência que poderíamos chamar de “étnico-cultural” ou nativista muito forte (o que ficou demonstrado na resistência comandada por Arminius – ou Herrmann, o Germânico – à penetração romana na Germânia, em 9 D.C, infligindo aos romanos a destruição de três legiões e o abandono definitivo do projeto romano de transformar a região em província romana, com consequências duradouras para a história dos dois povos no futuro).

A mudança mais importante observada na sociedade germânica ao longo desses séculos de contato com os romanos, foi a tendência à aglutinação das antes isoladas tribos em grandes confederações, como por exemplo, a dos Alamanos, que em sua origem etimológica, quer dizer “All men” (todos os homens), e acabaria dando nome a um futuro país (Alemanha), e a dos Francos (que, curiosamente, daria nome ao maior rival da Alemanha, a França).

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Outra mudança notada entre os povos germânicos, que, para alguns estudiosos, foi consequência do contato com os romanos, foi a crescente sofisticação e especialização militar dos contingentes armados, em contraste com os grupos mais primitivos de guerreiros no início da era cristã. Para saber mais sobre todos esses fenômenos envolvendo as tribos germânicas, recomendamos a leitura do livro “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians“, do historiador Peter Heather, que consultamos para escrever este e outros artigos sobre o período.

É certo que essas confederações germânicas cooperavam entre si no embate contra os romanos. Assim, ataques na fronteira do Reno eram combinados com ataques no Danúbio. E sabe-se que, algumas vezes, quando chegava a notícia de uma derrota militar romana na Pérsia, desencadeava-se uma série de ataques germânicos oportunistas.

Por outro lado, ficou evidenciado que, ao longo dos séculos, os germanos passaram a apreciar mercadorias produzidas no Império Romano, como demonstram os achados arqueológicos de sepulturas germânicas do período.

Note-se que, durante muito tempo, inúmeros germanos serviam no exército romano, mas depois eles voltavam para viver junto ao seu povo, trazendo consigo a expertise militar romana (Arminius, inclusive, havia sido um precursor disso, pois ele comandava um contingente de Auxiliares do Exército Romano).

Desde o século IV, os Godos haviam se convertido ao Cristianismo, embora o professassem sob a doutrina denominada de Arianismo, considerada heresia pela Igreja Católica (porque idealizada pelo bispo Ário – nome que nada tem a ver com a suposta “raça ariana”, por favor!).

A História conta que, após entrarem no Império Romano, os Godos foram muito maltratados pelos governadores das províncias romanas onde se estabeleceram. Grassava a fome entre eles e os oficiais romanos cobravam preços extorsivos pelos grãos estocados nos celeiros do Estado. Alguns chegaram até a escravizar alguns godos.

Os germanos não conseguiram suportar as injustiças e arbitrariedades dos romanos por muito tempo e eles rebelaram-se. As autoridades romanas, não percebendo a gravidade da ameaça, mandaram um contingente militar insuficiente para reprimir a rebelião, e essas tropas romanas foram derrotadas. Assim, por dois anos, os Godos conseguiram assolar a região.

4- A Batalha de Adrianópolis

Assim, em 378 D.C, o Imperador Romano do Oriente, Valente, decidiu  marchar e comandar em pessoa o Exército Central e esmagar os Godos. O imperador do Ocidente, Graciano, já havia se comprometido a enviar também o seu Exército, porém, de acordo com a versão mais prevalente, Valente,  querendo os louros da vitória somente para si, resolveu fazer uma marcha forçada e dar combate aos Godos sem esperar os reforços ocidentais.

Fritigern, que era um hábil comandante, sabedor que não poderia enfrentar os 40 mil soldados de Valente em campo aberto, resolveu “entrincheirar-se” e mandou que os carroções em que o seu povo, homens, mulheres e crianças, moravam e viajavam (parecidos com aqueles que os pioneiros americanos usaram na Conquista do Oeste) formassem um círculo protetor (laager) em uma colina, próxima a Adrianópolis, na Trácia. E mandou que a sua cavalaria, que tinha um efetivo estimado entre 10 e 20 mil homens ficasse ao largo. Dentro do laager, talvez estivessem 20 mil guerreiros, além de muitos milhares de mulheres, que talvez ajudassem nos combates. Quando viu os romanos se aproximando, Fritigern mandou atear fogo ao campo na planície em volta da colina e enviou mensageiros para atrasar os romanos e outros para chamar a cavalaria.

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Em 9 de agosto de 378 D.C., os romanos chegaram ao campo de batalha após uma marcha forçada de sete horas e, sem descanso, eles preparam-se para atacar os godos.

Amiano Marcelino conta que uma unidade romana, demonstrando falta de disciplina, acabou atacando sem esperar as ordens e precipitando o avanço. Enquanto isso, a cavalaria goda chegou e atacou o flanco direito  dos romanos, prevalecendo sobre a cavalaria romana, que fugiu. A visibilidade era ruim, devido a fumaça e a poeira e o sol e ocalor do verão eram intensos, o que afetava mais os soldados romanos fatigados pela marcha. Os romanos não perceberam que sua cavalaria tinha sido dispersada e avançaram colina acima em direção ao laager.

Então, os guerreiros godos, saindo do círculo de carroções, atacaram o lado esquerdo dos romanos que, por sua vez, foram atacados pela retaguarda pela cavalaria goda que havia dado a volta. Os romanos foram obrigados a avançar para a base da colina.

Valente percebeu o movimento e avançou, porém, a massa compacta de soldados não conseguia mais manobrar. Os romanos foram completamente envolvidos e acabaram sendo massacrados. O imperador, segundo relatos, morreu lutando, e o seu corpo nunca foi encontrado, perdido entre a massa de 40 mil soldados romanos caídos.

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5- Conclusão

Amiano Marcelino encerra a sua História com o relato sombrio e emocionante da Batalha de Adrianópolis. É expresso o reconhecimento do desastre: Dois terços do Exército Romano do Oriente foram eliminados em uma tarde. Ele relaciona com tristeza o número imenso de generais e oficiais romanos que morreram na Batalha.

Assim, o Império Romano sofrera duas derrotas humilhantes no espaço de 15 anos. o historiador Arther Ferril (“A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”) compara essa situação ao clima que se abateu sobre o exército americano após a derrota para o Vietnã.

Após a Batalha de Adrianópolis, na prática, não havia mais exército romano no Oriente. Os Godos, imediatamente apos a vitória, tentaram saquear Adrianópolis, mas, desprovidos de máquinas de assédio, e ignorantes da arte da guerra de sítio, não conseguiram. Mas eles pilharam toda a província e, mais importante, saquearam os arsenais do exército.

Durante os próximos 30 anos, os romanos teriam que enfrentar um fato que não acontecia na história romana desde a  Segunda Guerra Púnica, entre 220 a 202 A.C: Um exército estrangeiro armado movendo-se e vivendo em solo romano. Só que agora porém, era um povo inteiro que demandava um pedaço de território romano para viver!

Após a derrota romana na Batalha de Adrianópolis, com a morte em combate de Valente, o sobrinho deste, Graciano, que já era o Imperador Romano do Ocidente. virou, por direito, o soberano das duas metades do Império Romano.

Ocorre que Graciano só tinha 19 anos na ocasião e ele já estava suficientemente assoberbado com as invasões dos Alamanos e outros povos germânicos na Gália, sendo, portanto, incapaz de lidar com os invasores godos na parte oriental. O jovem imperador acabou por ver se obrigado a escolher um colega mais experiente para governar a parte oriental do Império Romano e a escolha recaiu sobre o prestigiado general espanhol Teodósio. Este, basicamente mediante a diplomacia, conseguiria manter momentaneamente os Godos sob controle. Porém, o fato é que os bárbaros germânicos agora tinham vindo para ficar e eles permaneceriam no seio do Império até a sua Queda em 476 D.C., e além….

FIM

Fontes:

1- Amiano Marcelino, “História”

2-Arther Ferril, “A Queda do Império Romano – a Explicação Militar”

3- Peter Heather, “The Fall of the Roman Empire, a New History of Rome and the Barbarians”

BATALHA DE CANAS – O DIA MAIS SANGRENTO DA HISTÓRIA

Em 02 de agosto de 216 A.C., quando o sol se pôs detrás do rio Aufidus, na fértil planície da região da Apúlia, próximo à cidadezinha de Canas (Cannae), no sul da península italiana, 80 mil cadáveres jaziam sem vida.

Eram os corpos de cerca de 70 mil soldados e aliados romanos, aos quais se somavam pouco mais de 6 mil soldados africanos, celtiberos e gauleses, estes integrantes da força expedicionária comandada pelo grande general cartaginês Aníbal Barca.

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(Acredita-se que este busto antigo, encontrado em Cápua, seja de Aníbal)

Para se ter uma ideia do tamanho dessa carnificina- talvez a maior jamais ocorrida em um único dia em qualquer guerra- estima-se, por exemplo, que 50 mil civis e soldados alemães morreram no Bombardeio de Dresden, em abril de 1945, realizado por mil bombardeiros ingleses. Já em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, a estimativa do número de mortos varia entre 22 mil e 80 mil vítimas, e o maior número de pessoas mortas proposto para Nagasaki, três dias depois também devastada por uma bomba atômica norte-americana, é de 70 mil vítimas. No primeiro dia da sangrenta Batalha do Somme, na 1ª Guerra Mundial, em 1916, o número estimado de soldados mortos é de 35 mil. E, por sua vez, na Batalha de Borodino, travada entre o exército de Napoleão e a Rússia Czarista, o maior número estimado de baixas é de 45 mil, entre mortos e feridos.

Prelúdio

Após a Primeira Guerra Púnica, que durou de 264 A.C a 241 A.C., Roma havia conseguido deter a expansão de Cartago pela Sicília e pelo sul da Itália, triunfo em boa parte conseguido após ela construir, pela primeira vez em sua história, uma marinha, derrotando a rival no mar. Os mais de 20 anos de conflito, e o tratado de paz assinado com os romanos, contudo, não impediram que Cartago continuasse a prosperar, expandir suas colônias e aumentar sua esfera de influência pela Península Ibérica, levando a atritos com aliados de Roma, especialmente a cidade ibérica de Sagunto, que, em 219 A.C., acabou sendo alvo de um ataque, o qual deflagraria um novo conflito.

O grande general Aníbal Barca, filho de Amílcar Barca, o comandante cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, então, imaginou a estratégia de atacar diretamente Roma no coração do território que ela controlava na Itália, ao invés de combater os exércitos romanos que se encontravam na Espanha, foco das presentes disputas.

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(Shekel, moeda cartaginesa, com a efígie de Amílcar Barca)

Em uma manobra surpreendente e ousada, Aníbal conseguiu evadir as tropas romanas que se dirigiam à Espanha, cruzando a França e, com seu exército de cartagineses e aliados celtiberos e celtas, incluindo uma verdadeira unidade móvel “blindada” integrada por elefantes treinados para a guerra, que cruzou as escarpadas montanhas dos Alpes, invadindo a Itália por terra, com uma rapidez inesperada, sendo que muitos supunham que o ataque se daria por via marítima.

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Mestre na Arte da Guerra, Aníbal derrotou os exércitos consulares que os romanos confiantemente enviaram para derrotá-lo no norte da Itália, na Batalha de Trébia e na Batalha do Lago Trasimeno, sendo que esta foi uma emboscada terrível na qual os romanos sofreram 30 mil baixas, entre mortos e capturados.

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A gravidade da situação militar levou o Senado Romano a acionar um dispositivo constitucional que, em circunstâncias extremas, permitia a nomeação de um Ditador com poderes extraordinários, tendo sido designado o Cônsul Quinto Fábio Máximo.

O Ditador Fábio entendeu que o melhor para os romanos, diante da posição estratégica em que eles se encontravam, era adotar uma tática de guerrilha, evitando engajamentos decisivos em batalhas campais, com o objetivo de consumir, paulatinamente, os efetivos de Aníbal, considerando o contingente mais reduzido de que, então, os romanos dispunham na Itália, depois da perda de vários exércitos consulares, e, sobretudo, o fato de Aníbal estar distante de suas bases de suprimentos na Espanha e na África. Essa estratégia, que, aliás, seria repetida com sucesso pelos russos contra Napoleão e contra Hitler, até hoje é chamada de “Estratégia Fabiana” e valeu a Fábio o cognome, isto é, o apelido, de Fábio Cuntator, ou seja, o “Contemporizador”.

Durante dois anos, a estratégia fabiana foi adotada com bons resultados pelos romanos. Porém, quando Aníbal chegou ao sul da Itália, algumas cidades aliadas começaram a desertar para o lado dos cartagineses, fato que, como ele tencionava, acabaria por obrigar os romanos a uma batalha campal.

A estratégia de Fábio era eficiente, mas não era popular…Os romanos se orgulhavam do seu exército, com o qual haviam anexado praticamente a Itália inteira, e a questão virou política. Nas eleições de 216 A.C., foram eleitos os cônsules Caio Terêncio Varrão (Varro) e Lúcio Emílio Paulo. Varrão era de uma família importante, mas de origem plebeia, e Emílio Paulo era um aristocrata da tradicional elite senatorial. O primeiro, era um ardoroso crítico da estratégia fabiana, e defendia um ataque direto ao exército de Aníbal; já o outro, um pouco mais cauteloso, propunha apenas um pouco mais de ousadia, sem abandonar o que vinha dando certo.

Por outro lado, Aníbal não conseguiu convencer as cidades mais importantes do sul, como Cápua, a abandonarem a aliança com Roma, como ele pretendia, visando deixar os romanos isolados e conseguir, ele mesmo, uma base mais estável na Península. Ele então, planejou uma ação mais contundente para atrair os romanos: tomar o importante depósito romano de suprimentos na cidade de Canas, algo que dificultaria muito as ações do exército romano no sul da Itália.

Quando a notícia da perda de Canas chegou a Roma, os Cônsules decidiram que era chegada a hora de um ataque combinado ao exército cartaginês. O Senado autorizou o recrutamento de forças que dobravam os exércitos consulares, totalizando uma força entre 90 e 100 mil homens, configurando, até então, o maior exército já reunido pelos romanos em toda a sua história!

Comandados por Varrão e Paulo, que se revezavam periodicamente no comando, o enorme exército, após uma marcha de 2 dias, chegou até as vizinhanças de Canas, acampando a uns 10 km do acampamento cartaginês (e, no final desta marcha, os romanos chegaram a derrotar em uma escaramuça alguns cartagineses). Consta que, admirado ao ver o tamanho do exército romano, Gisco, um oficial cartaginês, teria ,, receoso, comentado com Aníbal que o exército romano era muito mais numeroso do que o cartaginês, ao que o grande general, sarcasticamente, teria respondido:

Paulo, nos dois dias em que ele foi o comandante-em-chefe do exército combinado, manteve-se acampado. Os romanos haviam decidido estabelecer um pequeno acampamento suplementar na outra margem do rio Aufidus, para assegurar o suprimento de água. No terceiro dia, 02 de agosto de 216 A.C., Varrão assumiu o comando e Aníbal, percebendo a oportunidade (parece que ele tinha sido informado da divergência de opiniões entre os dois romanos), mandou um destacamento de cavalaria atacar o acampamento menor.

A Batalha

Varrão mordeu a isca e ordenou que o exército saísse do acampamento para a planície, desdobrando-se em ordem de batalha. Ele certamente estava confiante, pois em suas vitórias anteriores, Aníbal tinha se aproveitado ou de emboscadas ou de um terreno difícil. Mas, desta vez, a batalha ocorreria em campo aberto, onde os romanos se julgavam imbatíveis…

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(Os soldados de uma legião romana, da esquerda para a direita: 1- Hastati, 2-Velites, 3-Triarii, 4- Principes)

Ocorre que Aníbal, como todo grande general, já tinha estudado completamente o terreno onde escolhera oferecer batalha. Ele escolheu uma posição na qual, ao longo da luta, os romanos ficariam de frente para o sol escaldante do verão italiano, e contra o vento, que poderia jogar poeira e atrapalhar o avanço inimigo. Além disso, ele sabia como os romanos lutavam, que, aliás, não diferia muito da tática padrão dos exércitos helenísticos: tentar quebrar a linha do adversário e, então, envolver as formações desconjuntadas.

(Nota: As batalhas de infantaria da Antiguidade, sobretudo as dos gregos e macedônios, até então ( as quais influenciaram o resto do mundo mediterrâneo), caracterizavam-se pelo choque de linhas cerradas de infantaria, armadas com escudos e lanças, variando a profundidade e a extensão dessas linhas de soldados, sempre visando a empurrar o adversário para trás, até que essa linha cedesse em algum ponto, onde então se dava uma penetração que levaria ao esfacelamento dessa linha e ao consequente envolvimento dos pedaços cercados. Somente aí é que se começava a infligir as maiores baixas, já que, por si só, a pressão frontal contra centenas ou milhares soldados de capacete e armadura, protegidos por uma barreira de escudos, lado a lado, causava muito poucas mortes. Os massacres só ocorriam quando um exército era completamente cercado e, sobretudo, quando os soldados debandavam, dando as costas para o inimigo.)

Percebendo que os romanos planejavam fazer uso do seu número muito maior de tropas, Aníbal escolheu um terreno onde o exército romano não poderia se espalhar muito, já que as suas linhas, caso inteiramente desdobradas, tinham a capacidade de ficar muito mais extensas do que as dos cartagineses. Por isso, ele colocou o exército cartaginês perto do rio, cobrindo o seu flanco esquerdo, sendo que, no lado direito, um terreno mais elevado dificultava que ele fosse atacado por ali.

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(O sítio da Batalha de Canas, com a coluna in memoriam que foi erguida já antiguidade. O rio Aufidus (atual Ofanto) mudou o seu curso ao longo de 2 milênios, mas a elevação é a mesma descrita pelos historiadores. Na coluna foi gravada uma citação de Tito Lívio sobre a Batalha: “Nenhuma outra nação poderia ter sofrido tamanhos desastres sem ter sido destruída.“)

Por outro lado, Aníbal optou por adelgaçar (tornar mais fina) a profundidade da sua linha, que era a única maneira pela qual ele poderia desdobrar a sua linha de frente em uma extensão igual dos romanos. Aníbal compreendia que os romanos também não esgarçariam demais a linha deles, já que, pela lógica das táticas vigentes, acima explicadas, eles deveriam concentrar o seu peso no centro da linha dos Cartagineses.

Além disso, Aníbal sabia que os romanos eram tradicionalmente fracos em cavalaria – enquanto que ele dispunha de dez mil cavaleiros africanos, ibéricos e gauleses, os romanos somente contavam com quatro mil cavaleiros. Assim, ele poderia proteger melhor os seus flancos com a sua cavalaria, e impedir que os romanos o envolvessem valendo-se de sua infantaria bem maior, ou, melhor ainda, ao dispersar a cavalaria romana, Aníbal poderia, com a sua própria, tentar atacar a infantaria romana pelos flancos e pela retaguarda. No comando da cavalaria númida, no flanco direito da linha cartaginesa, estava Asdrúbal, irmão de Aníbal, acompanhado de Maharbal, e, no esquerdo, o cartaginês Hanno.

Seguindo o seu plano, e, aí, mais do que em todo resto, reside o brilhantismo de Aníbal, ele calculou que o centro do seu exército iria ceder terreno aos atacantes inimigos, embora não a ponto de se dissolver com a pressão exercida pelo avanço romano. Para isso, Aníbal cuidadosamente escolheu a posição que cada grupo do seu exército multinacional deveria ocupar: na vanguarda, com a função de causar o máximo de estrago possível, antes do contato com o inimigo, ficaram os fundibulários das ilhas baleares, mestres no uso da funda. No centro da formação, ele colocou os ibéricos e os gauleses, teoricamente os integrantes menos confiáveis das tropas e, portanto, para melhor poder comandar e vigiar esse sensível setor, Aníbal escolheu para si mesmo esta posição na ordem de batalha. Já nas alas esquerda e direita do seu exército, Aníbal posicionou a leal infantaria recrutada no norte da África, território de Cartago, já experimentada em batalha,  e em quem ele tinha inteira confiança..

Era, portanto, um plano totalmente não convencional para a época, em que as melhores tropas estavam nos flancos, e não no centro da formação.

O historiador grego Políbio assim descreve  o início da batalha:

Observe-se que, para alguns estudiosos que fazem uma ressalva à descrição de Políbio, inicialmente, a intenção de Aníbal seria apenas a de segurar o avanço dos romanos ao máximo, a fim de aguardar que sua cavalaria subjugasse a romana e viesse em seu auxílio. Por isso, os flancos de infantaria africana teriam sido dispostos diagonalmente, em formação de esquadrão.

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Seja como for, o fato é que Aníbal controlou magistralmente o desenvolvimento da luta no centro da linha do seu exército, comandando os celtas e ibéricos em um recuo ordenado. Devido a isso, o centro romano começou a avançar mais e mais para o centro da meia-lua cartaginesa, sem que, provavelmente atrapalhados pelo sol e pelo vento que soprava a poeira no rosto dos romanos, estes percebessem que, na verdade estavam sendo cercados pelas alas esquerda e direita da infantaria africana de Aníbal. Na verdade, Varrão, vendo o recuo do centro cartaginês, realmente acreditou que os inimigos estavam prestes a serem derrotados e ordenou que o avanço romano se intensificasse.

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Enquanto isso, a ala esquerda das cavalarias ibérica e celta cartaginesa conseguiu fazer a romana fugir e se dirigiu para apoiar a sua ala direita, formada pela cavalaria númida, que ainda lutava contra sua contraparte inimiga romana. Em pouco tempo, a cavalaria romana inteira debandou, sendo perseguida pela cartaginesa.

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Naquele momento, o avanço romano no centro tinha tal intensidade, que os soldados romanos da frente começaram a ser espremidos pelos de trás, faltando-lhes espaço até para desembainhar seus gládios. Por sua vez, os flancos romanos vulneráveis começaram a ser atacados pelas alas direita e esquerda da infantaria africana, obedecendo às ordens de Aníbal. E, para piorar a situação dos romanos, algum tempo depois, a vitoriosa cavalaria cartaginesa retornou para o campo de batalha e começou a atacá-los pela retaguarda. Como resultado, os romanos ficaram completamente cercados, tendo a infantaria ibérica e celta pela frente, os africanos pelos lados e a cavalaria inimiga por trás…

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Foi um clássico movimento de pinças, também conhecido como “duplo envelopamento” que até hoje, dois mil e duzentos anos depois, é obrigatoriamente estudado em qualquer academia militar que se preze no planeta.

Ainda segundo a descrição de Políbio, o desfecho da batalha foi assim:

E foi dessa forma que o historiador romano Tito Lívio descreveu o estado do campo de batalha, em seus momentos finais:

Dos cerca de 86 mil romanos, somente entre 10 mil e 14 mil romanos conseguiram escapar. Paulo morreu na batalha, mas Varrão conseguiu fugir. Do exército de Aníbal, estimado em cerca de 50 mil homens, entre 8 mil e 5700 morreram. Apesar dos historiadores romanos posteriormente terem acusado Varrão de ser o responsável pela tragédia romana, mesmo assim ele foi recebido com respeito pelo Senado, que inclusive renovou o seu comando.

Epílogo

Após a batalha, muitos esperavam que Aníbal iria imediatamente marchar contra Roma. Segundo Tito Lívio, Maharbal teria chegado a demandar que o general fizesse exatamente isso, tendo Aníbal dito que iria ponderar o assunto e, segundo consta, Maharbal teria afirmado:

Em verdade, contudo, fazendo-se, a posteriori, uma análise fria, Aníbal tomou a decisão militarmente mais correta: Roma era uma cidade que na época deveria ter cerca de 250 mil habitantes, cercada de muralhas. E, ao contrário de Cartago, ela não era mais apenas uma cidade-estado, mas liderava o que, praticamente, era uma confederação de cidades italianas, cujo poder de recrutamento não estava esgotado. Além do mais, ainda havia um exército romano na Sicília, e outro na Espanha, além dos 12 mil romanos que haviam sobrevivido à batalha, o que correspondia a cerca de duas legiões. Portanto, um cerco a Roma não seria nada fácil, e o exército de Aníbal se veria na perigosa situação de atacar uma cidade murada com tropas inimigas às suas costas. Ele preferiu, assim, mandar uma embaixada à Roma,  que foi liderada por Carthalo, para negociar um tratado de paz com termos moderados.

Ao contrário do que Aníbal esperava, o Senado, apesar da consternação geral com a esmagadora derrota em Canas, recusou a paz e determinou medidas extremas para lidar com a catástrofe: decretou-se a mobilização total de todos os cidadãos, incluindo, excepcionalmente, o recrutamento de camponeses sem terra, e, em um ato extremo, até de milhares de escravos. Foi proibida a utilização da palavra “paz” e, segundo consta, temporariamente, até alguns sacrifícios humanos, que eram abominados pela opinião pública romana, teriam sido admitidos para obter a boa vontade dos deuses.

Na verdade, com a vitória em Canas, Aníbal efetivamente esteve muito perto de obter o seu maior ganho estratégico planejado: separar Roma de seus aliados italianos. Por exemplo, as importantes cidades de Cumas e Tarento mudaram de lado e aderiram aos cartagineses. E o importante reino de Siracusa, na Sicília, também aliou-se a Cartago. O resultado de Canas também encorajou o rei Filipe V, da Macedônia a atacar os romanos na Ilíria, abrindo um front que colocava Roma em uma péssima situação estratégica (Primeira Guerra Macedônica, da qual tratamos em nosso post sobre a Batalha de Pydna).

Concluindo, agora, somente a vontade férrea do Senado, o patriotismo dos romanos, e a futura emergência de uma nova liderança militar romana, – Públio Cornélio Cipião–  cujo gênio era comparável ao de Aníbal, salvariam Roma da derrota total.

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TEODÓSIO II

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(Cabeça de Teodósio II, foto de Marie-Lan Nguyen)

Em 10 de abril de 401 D.C., nasceu Flavius Theodosius Junior (Teodósio II), em Constantinopla , filho do Imperador Romano do Oriente Arcádio, e neto de Teodósio, o Grande, o último imperador a reinar sobre as duas metades do Império Romano.

A mãe de Teodósio II, Aelia Eudoxia (Eudóxia), era filha de Flávio Bauto, um general Franco, na verdade, um chefe bárbaro assimilado à serviço de Roma, que chegou ao posto máximo de Magister Militum (Comandante do Exército), durante o reinado do imperador Graciano, e foi Cônsul em 385 D.C.

A ancestralidade germânica  por parte de mãe  parece que não retirou o “pedigree” dinástico de Teodósio II como descendente de Teodósio, o Grande, apesar de Eudóxia ter sido rotulada como possuindo “um grau não desprezível de arrogância bárbara” pelo historiador eclesiástico Philostorgius.

Antes mesmo de completar um ano de idade, Teodósio II foi nomeado Augusto, e, portanto, formalmente, co-imperador, por seu pai Arcádio, em 402 D.C, sendo, assim, o imperador mais jovem em toda a História do Império Romano.

Em 1º de maio de 408 D.C, o imperador Arcádio morreu e Teodósio II foi reconhecido como Imperador Romano do Oriente, tendo apenas sete anos de idade.

Consequentemente, quem exerceu de fato o poder na qualidade de regente foi o Prefeito Pretoriano Antêmio, que foi o responsável pela construção da grande obra que marcaria o reinado de Teodósio: as espetaculares Muralhas Teodosianas de Constantinopla, completadas em 413 D.C , as quais garantiriam a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de mil anos, até serem penetradas pelos turcos otomanos, em 1453 D.C. Entretanto, pouco depois da conclusão dessa impressionante obra, Antêmio não seria mais mencionado nas fontes, não se sabendo se ele morreu de causas naturais, se foi demitido ou executado.

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Enquanto isso, Teodósio II recebia esmerada educação em grego e latim, além de aulas de Gramática e Retórica, e treinamento em equitação, esgrima e arco e flecha.

Durante o início do reinado de Teodósio II, contudo, aprofundou-se a divisão e a rivalidade entre as duas metades do Império Romano, ou, para sermos mais precisos, entre a Corte de Constantinopla e a aristocracia senatorial da velha Roma, concentrada no Senado Romano.

Com efeito, o regente Antêmio vinha adotando uma política anti-germâmica e de intervenção nos assuntos do Ocidente, e por isso, ele entrava frequentemente  em choque com a sua contra-parte na corte ocidental, o general Estilicão, que, por sua vez, exercia o poder de fato por trás do Imperador Honório, irmão de Arcádio.

Entretanto, após a execução de Estilicão, em 408 D.C., o qual teve seu prestígio solapado junto a Honório devido à grande invasão bárbara que atravessou o Reno em 406 D.C. e pelo insucesso dele em lidar com os Godos alojados no interior do Império, houve, enfim, uma reaproximação política entre Constantinopla e Ravenna.

Em 414 D.C, Pulquéria, a irmã mais velha de Teodósio II, foi proclamada “Augusta” e assumiu a regência do Império do Oriente, bem como a tutela e criação do imperador, que estava ainda em sua pré-adolescência. Cristã devota, Pulquéria tomou voto de castidade perpétua e esta condição, provavelmente fruto de um cálculo político, assegurou-lhe autoridade moral para adotar uma política de promoção da ortodoxia católica, a qual resultou também na perseguição do paganismo, das heresias cristãs e do judaísmo, mas que acabou acirrando as disputas religiosas no seio do Império do Oriente, degenerando no brutal assassinato da filósofa pagã Hypathia, em Alexandria.

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(Estudiosos acreditam que o relevo de marfim representa Teodósio II e Pulquéria em procissão trazendo relíquias para Constantinopla)

Graças à intervenção de Pulquéria, Teodósio II conheceu a jovem grega Athenais, uma brilhante filha de um filósofo de Atenas, originalmente pagã, que se tornaria a sua esposa, adotando como imperatriz  o nome de Eudocia. Não obstante, Eudocia se tornaria no futuro a grande rival de Pulquéria e ambas disputariam o posto de maior influência sobre Teodósio II. O casal imperial teve três filhos, porém somente a mais velha, Licínia Eudocia, chegaria à idade adulta e se casaria com os imperadores romanos do Ocidente, Valentiniano III e Petrônio Máximo.

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(Eudócia é retratada neste mosaico do séc. XIX, em Sófia, Bulgária)

No plano externo, o reinado de Teodósio II caracterizou-se pela tentativa de conter as ameaças representadas pelo Império Persa e pelos Hunos. Com os Sassânidas, o Império Romano, após uma guerra inconclusiva, conseguiu celebrar um tratado de paz duradouro, que ficaria conhecido como a “Paz dos Cem Anos“.

Durante seu reinado, Teodósio II também procurou auxiliar militarmente o Império do Ocidente contra os Vândalos, infelizmente, sem sucesso

Tentou-se uma política de apaziguamento dos Hunos mediante o pagamento de tributos, com sucesso limitado, já que periodicamente os bárbaros exigiam o aumento do valor, que começou em 350 libras de ouro, aumentou para 700 libras com a ascensão de Átila e Bleda, em 433 D.C e passou para 2.100 libras, em 443 D.C., após os Hunos derrotarem dois exércitos romanos. Mesmo assim, em 447 D.C., os Hunos devastariam os Bálcãs e chegariam aos subúrbios de Constantinopla.

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Relativamente às relações com o Império do Ocidente, Teodósio II apoiou seu tio Honório e defendeu a causa do sucessor deste, seu primo Valentiniano II, chegando a abrigá-lo, acompanhado de sua mãe Gala Placídia, em Constantinopla, e depois ajudando-os a reinstalá-los em Ravena, com o auxílio de um pequeno exército oriental.

.Em 425 D.C., Teodósio II fundou o Pandidakterion, que mais tarde seria considerada como a “Universidade de Constantinopla,” uma precursora das universidades medievais europeias, situada na Magna Aula do Palácio (Magnaura).

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(Reconstituição da Magnaura, em Constantinopla, onde ficava o Pandidakterion – © Byzantium 1200.)

O outro grande legado de Teodósio II, além das Muralhas de Constantinopla e da Universidade, foi o seu “Código Teodosiano“, uma grande compilação e sistematização do Direito Romano produzido até então e que, cem anos mais tarde, seria a base para o “Código de Justiniano”, contribuindo, assim, para a preservação da herança jurídica romana até os nossos dias. Os trabalhos foram iniciados por ordem de Teodósio II em 429 D.C. e, após muitos anos de trabalhos e a nomeação de duas comissões de juristas, o Código foi promulgado em 438 D.C.

Em 28 de julho de 450 D.C, Teodósio II sofreu uma queda de cavalo enquanto caçava. Ele foi levado para Constantinopla, mas não resistiu e morreu naquele mesmo dia. Segundo a versão oficial, ele teria indicado o general Marciano como seu sucessor, já que não tinha mais nenhum filho do sexo masculino. Na verdade, o nome de Marciano foi imposto pelo marechal Áspar, um militar de origem bárbara (Alano-Gótica) que era o comandante-em-chefe do Exército e homem forte do Império Romano do Oriente, desde meados da década de 20 do século V D.C.

Trinta dias após a morte de Teodósio II, Marciano foi reconhecido como imperador e se casou com Pulquéria, que, contudo, manteve o seu voto de castidade.

CONCLUSÃO

Em tempos mais amenos, Teodósio II poderia ter sido um bom imperador, mas a sua época demandava um governante mais enérgico e determinado, que possuísse mais aptidões e meios militares, coisas das quais ele não dispunha.

A BATALHA DE CTESIFONTE

Em 29 de maio de 363 D.C, o Exército Romano, comandado em pessoa pelo imperador Juliano I, que mais tarde seria cognominado “O Apóstata“, derrotou, às portas da capital do Império Sassânida, Ctesifonte, parte do exército persa.

Acredita-se que esta cabeça de estátua possa ser do imperador Juliano. Foto: George E. Koronaios, CC BY-SA 4.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0, via Wikimedia Commons

Os romanos mataram cerca de 2.500 soldados persas e somente perderam 70 homens.

Seria o coroamento da campanha iniciada em 05 de março daquele mesmo ano pelo imperador romano, que avançou invicto pela Mesopotâmia até as portas da capital persa.

Porém, como várias vezes ocorreu na longuíssima história dos confrontos entre Roma e Pérsia, os segundos, sabedores da superioridade romana em combate aberto, preferiram a tática de fazer emboscadas e limitar a luta a escaramuças, sempre que percebiam que a batalha estava indo contra eles (confira, a esse respeito, nossos artigos sobre a Batalha de Carras e sobre a campanha do imperador Trajano contra o Império Parta).

Os Persas sabiam que o tempo estava do lado deles, pois a campanha nos desertos da Mesopotâmia, quando se afastava do curso dos rios Tigre e Eufrates, impunha grande esforço logístico aos romanos, que marchavam sempre ameaçados pela sede.

Para piorar, Juliano não se preocupou em trazer consigo material em quantidade suficiente para a construção de muitas máquinas de assédio (ele inclusive mandou precipitadamente queimar a frota que acompanhava o avanço romano pelo rio Tigre). Assim, apesar da vitória tática no campo de batalha, ele fracassou em tomar Ctesifonte.

Àssim, o Shainshah (Rei dos Reis) Sapor II (Shapur) que tivera a cautela de colocar a maior parte do seu exército à distância, quando viu os Romanos serem obrigados a suspender o Cerco e marchar de volta pelo deserto, aproveitou a oportunidade para voltar a atacar os romanos durante o trajeto.

Em 26 de junho de 363 D.C, quando avisado que a retaguarda do Exército Romano estava sendo atacada pelos Persas, próximo à Samarra, Juliano deixou a vanguarda das tropas, com tanta pressa que não teve tempo de vestir a sua couraça, correndo para repelir o ataque.

Porém, durante os combates, uma lança foi atirada e atingiu seu dorso. Juliano foi levado ferido para sua tenda, agonizando, e morreu antes da meia-noite. Os comandantes romanos em conselho de guerra resolveram eleger o relativamente jovem general Joviano (32 anos) como sucessor.

Detalhe de relevo Sassânida em Naq i Rostan, mostrando o imperador Juliano morto (foto: Philippe Chavin, CC BY-SA 3.0)

Joviano tentou retirar o restante do Exército Romano dos domínios do Império Sassânida, porém, na cidade de Dura, os Persas conseguiram impedir que os Romanos cruzassem o rio Tigre e retornassem para o seu território.

Assim, Joviano foi obrigado a assinar um Tratado de Paz humilhante, abrindo mão de várias províncias e das estratégicas cidades de Nísibis e Síngara, além da predominância sobre a Armênia.

Como se sabe, Juliano foi o último imperador da dinastia inaugurada por Constâncio Cloro e seu filho Constantino, o Grande (ele era filho de Julius Constantius, meio-irmão deste imperador) que tornou o Cristianismo uma religião legal, refundando a cidade de Bizâncio como Constantinopla, fazendo dela uma capital essencialmente cristã e favorecendo muito a Igreja, que a partir de então começou a predominar no Estado Romano.

Solidus do imperador Juliano, foto: Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 2.5 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.5, via Wikimedia Commons

Porém, Juliano (que foi elevado ao trono em novembro de 361 D.C) resolveu reverter todas as medidas pró Cristianismo de seus antecessores, voltando a prestigiar as religiões pagãs, reinstaladas como cultos oficiais do Império, motivo pelo qual foi cognominado de “O Apóstata”, pelos historiadores cristãos.

Portanto, podemos considerar que o resultado não conclusivo da Batalha de Ctesifonte e a resultante morte precoce de Juliano foi também um evento decisivo na História de Roma.

ADRIANO – ANIMA VAGULA BLANDULA

 

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NASCIMENTO, ORIGEM FAMILIAR, INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 24 de janeiro de 76 D.C, nasceu Publius Aelius Hadrianus (Adriano), em Roma, ou, segundo algumas fontes, em Itálica, uma cidade na província romana da Hispania Betica, a 9 km da atual Sevilha, que foi fundada por Cipião, o Africano ainda durante a 2ª Guerra Púnica, onde foram assentados colonos romanos de origem italiana, entre os quais provavelmente estava a família dos Élios.

O pai de Adriano, Publius Aelius Hadrianus Afer, era um senador romano e primo de Marcus Ulpius Trajanus, seu conterrâneo de Itálica que se tornaria, em 98 D.C, o imperador Trajano (o primeiro imperador nativo de uma província fora da Itália;) já a sua mãe, Domícia Paulina, também vinha de uma família da classe senatorial radicada na Espanha.

Quando Adriano tinha apenas 10 anos de idade, no ano de 86 D.C, os seus pais faleceram e ele ficou sob a tutela de Trajano e de Publius Acilius Attianus, um conterrâneo de seu pai.

Aos 14 anos de idade, Adriano, que estava em Itálica, foi chamado para ir morar em Roma por Trajano. Na capital do Império, Adriano recebeu uma esmerada educação, em companhia de outros rapazes da alta aristocracia romana.

Consta que, ainda na infância, chamava a atenção o grande interesse de Adriano pela cultura grega, chegando ele a receber o apelido de”graeculus” (“greguinho”), não se olvidando que esse termo também era, entre os romanos, por vezes usado como uma forma jocosa de chamar alguém de efeminado ou “gay”.

Com cerca de 18 anos, Adriano entrou para o serviço militar na condição de tribuno, mas sem muito destaque. Ele serviu por cerca de três anos em legiões na Mésia, na Dácia e na Germânia.

INGRESSO NA FAMÍLIA IMPERIAL DE TRAJANO E INÍCIO DA CARREIRA PÚBLICA

Em 98 D.C, o imperador Nerva (que, ao assumir o trono, havia adotado Trajano como sucessor), faleceu. Adriano, assim que soube da notícia, fez questão de ser o primeiro a comunicar o momentoso fato a Trajano, que estava em campanha, e, cavalgando com velocidade espantosa para a época, conseguiu chegar na frente do emissário oficial. Trajano ficou muito grato e, assim, a carreira de Adriano começou a decolar.

Fortalecendo seus laços com a casa imperial, Adriano, em 100 D.C, casou-se com Víbia Sabina, que era filha de Matídia, a sobrinha de Trajano, que foi criada como se fosse filha do imperador (que, aliás, nunca teve filhos naturais). Este foi um casamento arranjado por Matídia e pela própria imperatriz Plotina, duas mulheres que sempre demonstraram um grande afeto por Adriano. E, com efeito, os estreitos laços emotivos entre Plotina e Adriano ainda favoreceriam muito o jovem no futuro…

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(Busto da Imperatriz Plotina, a protetora de Adriano)

Pouco depois do casamento, Adriano acompanhou Trajano na primeira grande empreitada militar deste imperador: A Primeira Guerra contra a Dácia (101-102 D.C).

Contudo, no decorrer desta campanha, Adriano foi dispensado para assumir os cargos de Questor, em 101 D.C, e, posteriormente, de Tribuno da Plebe, em 105 D.C., seguindo os passos da tradicional carreira das magistraturas romana (cursus honorum).

E, na Segunda Guerra contra os Dácios (105-106 D.C), Adriano também integrou a comitiva de Trajano e recebeu o comando da I Legião Minervia.

Novamente, Adriano deixou essa campanha em seu desenrolar e foi para a Roma assumir o cargo de Pretor, em 106 D.C. Em seguida, Adriano foi nomeado governador da Panônia Inferior. Não obstante, Adriano recebeu menções honrosas do Imperador pelo seu desempenho na referida segunda campanha na Dácia.

Posteriormente, em 108 D.C, Adriano foi nomeado cônsul suffectus (equivalente a cônsul substituto), um posto somente inferior ao consulado ordinário (Um cônsul suffectus era designado para completar o período do consulado ordinário quando este ficava vago).

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(Relevo da Coluna de Trajano, em Roma, com cena da Guerra contra os Dácios)

Depois do consulado, Adriano integrou os colégios sacerdotais dos setêmviros e dos sodalis augustales, este último um prestigiado ofício religioso encarregado do culto a Augusto.

Nos anos seguintes, que parecem ter sido “sabáticos”, sabemos que Adriano viajou para a sua adorada Grécia, onde ele estudou com o filósofo estóico Epicteto, na Hélade. Nesse período, em mais um exemplo do seu amor pela civilização grega, Adriano conseguiu ser eleito cidadão de Atenas e ocupou o cargo de Archon, uma magistratura ateniense, entre 112 e 113 D.C.

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(Arco de Adriano, em Atenas, foto de Carole Raddato)

Nesse ponto, certos historiadores questionam por que a carreira pública de Adriano ficou em segundo plano em relação à sua viagem existencial pela Grécia.

Eles acreditam que Trajano nunca tenha tido muito entusiasmo pela possibilidade de Adriano tornar-se seu sucessor: Se por um lado, a sucessão de cargos ocupados por ele (bem como o seu casamento com Sabina) demonstra que Adriano era bem considerado e próximo ao Imperador, por outro é certo que até então ele ainda não tinha recebido nenhuma distinção inegável para que fosse considerado um herdeiro escolhido, tal como, por exemplo, o Poder Tribunício, a adoção oficial ou, mesmo, a designação para sucessivos consulados ordinários.

Nessa linha de raciocínio, até se cogita que o fato de Adriano ter ficado tanto tempo em Atenas para se dedicar a estudos filosóficos, quando já tinha mais de 35 anos de idade e sem ocupar nenhum cargo de cúpula, equivaleria à nossa expressão: “ficar na geladeira”…

Não obstante, eu entendo que não há dúvidas de que Adriano jamais deixou de gozar da confiança de Trajano, pois, quando, em 114 D.C. este embarcou em sua campanha contra a Pártia, ele integrou a comitiva imperial, e, no decorrer da guerra, foi nomeado governador da importantíssima província da Síria. Esse cargo tornava Adriano virtualmente o comandante militar do Exército Romano no Oriente, pois Trajano, gravemente doente, teve que deixar a campanha e partir para Roma, em 117 D.C.

ASCENSÃO AO TRONO

Assim, foi enquanto era governador da Síria que Adriano recebeu, em Antióquia, a notícia de que Trajano havia falecido, na viagem de retorno à Roma, em Selinos, na Cilícia, ainda na Ásia Menor, em 8 de agosto de 117 D.C, nomeando-lhe como sucessor.

As fontes antigas atribuem a investidura de Adriano à imperatriz Plotina, que, contando também como o auxílio de seu velho tutor Attianus, teriam mantido a morte de Trajano em segredo por alguns dias, aproveitando para forjar os documentos em que Trajano designava Adriano como o herdeiro que deveria sucedê-lo no trono do Império Romano. A História Augusta até menciona que Trajano pretendia nomear o famoso jurista Neratius Priscus como sucessor, mas isso é altamente improvável, até porque, posteriormente, Priscus ocupou importantes cargos durante o reinado de Adriano e foi encarregado de várias reformas legais. Ocorre que certamente Priscus teria sido logo eliminado por Adriano, caso a escolha dele por Trajano como sucessor tivesse mesmo ocorrido.

O fato é que Adriano era o parente vivo mais próximo de Trajano e ocupava o importante governo da Síria, o que o colocaria, mesmo na ausência de testamento, como o comandante militar mais poderoso do Império naquele momento.

Assim, ainda que Trajano não tenha expressamente designado Adriano como sucessor, essa condição era natural pelas circunstâncias, e não se pode condenar a “interpretação” que, supostamente, Plotina deu à vontade do marido falecido…

REINADO

Uma das primeiras ações de Adriano após assumir o trono foi livrar-se de quatro importantes senadores, que tinham sido grandes colaboradores de Trajano. Contudo, as fontes relatam que ele depois sempre se ressentiria dessa “mancha” na sua, em geral, reputação de monarca tolerante e ilustrado.

A desagradável tarefa foi executada pelo seu ex-tutor Attianus, que havia sido nomeado Prefeito Pretoriano, ainda por Trajano, em Roma. Adriano sempre colocaria a culpa desses assassinatos políticos em Attianus, alegando que ele mesmo de nada sabia, chegando até a removê-lo do cargo, mas essa alegação não se coaduna com com o fato de, logo após a essa “punição”, Adriano ter nomeado Attianus para o Senado Romano e lhe honrado com os ornamentos consulares…

Entrementes, logo ficou claro que Adriano promoveria uma guinada de 180° em relação à política exterior de Trajano.

Todas as conquistas no Oriente duramente obtidas por Trajano, mas onde já espoucavam revoltas, foram abandonadas, inclusive a província da Mesopotâmia, o que gerou certa insatisfação na opinião pública. Esse sentimento é compreensível, sobretudo porque o domínio romano na Mesopotâmia evocava de certo modo as conquistas de Alexandre, o Grande na Pérsia, mas as evidências são de que esta decisão de Adriano foi correta, pois dificilmente os romanos conseguiriam mantê-la, já que a revolta dos locais havia se iniciado ainda no reinado de seu antecessor.

Adriano entendia que o Império devia fortalecer as fronteiras estabelecidas na época de Augusto, com exceção a rica Dácia, que também estabelecia um colchão de segurança para a estratégica fronteira do Danúbio.

O Império, assim, embarcou na construção de uma rede de muralhas, torres fortificadas, quartéis e paliçadas visando assegurar essas fronteiras. O exemplo mais famoso desse programa são as Muralhas de Adriano, na Grã-Bretanha (construída entre 122 e 125 D.C – vide foto abaixo).

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Não obstante, Adriano cuidou para que o Exército Romano fosse cuidadosamente mantido em estado de excelência, seja em equipamentos, disciplina e prontidão, tendo este sido extensivamente empregado em projetos de construção e manobras militares constantes. Com efeito, uma das grandes preocupações de Adriano era o evidente relaxamento da disciplina militar pelo excesso de confortos e luxos nos quartéis, situação que ele combateu.

Já na esfera social, Adriano expandiu o programa dos “Alimenta” (fornecimento gratuito de gêneros alimentícios aos cidadãos pobres da Itália), implantado por Trajano.

Adriano declarou publicamente que seu propósito era visitar todas as províncias do Império Romano, a fim de verificar pessoalmente as condições dos cidadãos romanos, conhecer os problemas das províncias e fiscalizar a administração regional.

E com efeito, Adriano visitou a Gália e o Reno (120-121 D.C), a Bretanha (121-122 D.C), a Espanha (122 D.C), a Ásia (123 D.C), a Grécia (125 D.C), e, após voltar à Roma, a África (128 D.C), novamente a sua amada Grécia (Atenas, 128 D.C), a Cária, Cilícia, Capadócia e Sìria (129 D.C) e o Egito (130 D.C), voltando à Roma em 131 D.C.

Todas essas viagens, a nosso ver, demonstravam uma visão do Império Romano como uma comunidade de povos que compartilhavam a civilização helenística, ao invés de ser meramente um território conquistado pelos romanos e governado por Roma para os de origem italiana.

Aliás,foi muito provavelmente durante a estadia de Adriano na Bitínia que ele conheceu o belo adolescente Antinoos, ou Antinous,  que foi enviado para Roma para ser educado como pajem e que se tornaria seu notório amante.

Outra reforma importante implementada por Adriano foi a designação de integrantes da classe equestre para os cargos da burocracia imperial (Trajano, ao contrário, deu preferência aos membros da classe senatorial), assegurando-lhes, a partir daí, a promoção para os mais altos cargos da magistratura. Esse passo foi seguido pela profissionalização do Conselho do Imperador (Consilia Princeps), corpo consultivo que passaria a ser integrado por conselheiros pagos e não mais por libertos ou servos domésticos do Imperador.

No campo do Direito, Adriano foi o primeiro a editar um Código de Leis publicado para ser conhecido para todos os cidadãos. Esse Código, elaborado pelo célebre jurtsta Sálvio Juliano, chamado de Édito do Pretor (depois conhecido com Editum Perpetuum), marcou uma profunda alteração no sistema jurídico-legal romano, pois, até então, tradicionalmente, os juízes (pretores) publicavam seus éditos com a sua interpretação jurídica das leis e costumes romanos, que era considerada como uma fonte do Direito.

Agora, todos os éditos anteriores ao Editum Perpetuum estavam sendo fixados no Código e, a partir daí, somente o Imperador poderia alterar a legislação mediante a expedição de decretos ou de leis ratificadas pelo Senado. Esta era uma mudança revolucionária: do sistema de direito de precedente judiciário e judge men’s law (direito dos juízes) para o direito codificado ou legislado, que, ainda hoje, marca a divisão entre os sistemas jurídicos existentes no mundo.

Adriano foi também um grande construtor, e os edifícios mais famosos em Roma construídos durante o seu reinado foram: o Templo de Vênus e Roma, o seu próprio Mausoléu (que ainda existe, na forma do Castelo de Santo Ângelo), e o muito bem preservado Pantheon, no qual, pretendendo demonstrar humildade, Adriano manteve a inscrição ostentada na fachada do prédio antecessor, que havia sido destruído havia tempos, declarando que havia sido construído por Marcus Agrippa. Espetacular também foi a sua Villa, em Tìvoli, que constituía praticamente um grande parque temático sobre o mundo helenístico.

(Pantheon e Templo de Vênus e Roma – este reconstituído por Franck devedjian)

PERSONALIDADE

A personalidade de Adriano era certamente refinada, complexa e contraditória. Ele queria ser visto como, e, tudo indica, se esforçava mesmo para ser, um monarca esclarecido, humano, tolerante, pio e dedicado ao serviço público, mas Adriano também era excessivamente vaidoso, de temperamento colérico e emotivo.

Os seguintes casos preservados pelas fontes podem dar uma idéia:

Sabe-se que Adriano publicou leis visando melhorar a condição dos escravos. Contudo, consta que certa vez, irritado com um seu escravo doméstico, Adriano cravou o seu estilete de escrita no olho do infeliz escravo. Logo depois, tomado de remorso, Adriano pediu perdão ao escravo e, visando reparar essa violência, disse que o escravo poderia pedir qualquer coisa que quisesse, que ele, Adriano, lhe daria. Resposta do escravo: “Só quero o meu olho de volta“.

Outra vez, quando Adriano viajava, uma mulher abordou a comitiva imperial para fazer um pedido, ao que ele respondeu: “Não tenho tempo para te ouvir“. A mulher então, ousadamente, replicou: “então, não seja imperador!“. Adriano, envergonhado, parou e ouviu o requerimento da mulher .

Cássio Dião descreve Adriano como sendo um homem agradável de se encontrar e dotado de um certo charme. Segundo a História Augusta, ele tinha muito interesse em poesia e nas letras e era expert em aritmética, geometria e pintura. Adriano sabia tocar bem a flauta e cantar. Porém, ele excedia-se ao satisfazer seus desejos e escreveu muitos versos aos objetos de suas paixões. Adriano também sabia manejar diversas armas.

Ainda, segundo Cássio Dião, Adriano:

“na mesma pessoa, era austero e genial, solene e brincalhão, ativo e preguiçoso, sovina e generoso, dissimulado e direto, cruel e compassivo e, sempre, em todas as coisas, volúvel“.

Certamente, Adriano era muito vaidoso intelectualmente, o que deu margem a algumas estórias sobre a inveja que sentiria de outros homens admirados pelo talento. Consta que até que ele teria mandado matar o arquiteto Apolodoro de Damasco porque este debochara de seus desenhos e desdenhara das suas sugestões para o Pantheon e o Templo de Vênus e Roma. Mas alguns duvidam que essa narrativa seja verdadeira.

Sobre a vida afetiva de Adriano, parece que o casamento com a imperatriz Sabina era de fachada, Ela inclusive teria tido um relacionamento amoroso com o célebre historiador Suetônio. Em todo caso, o casamento imperial não gerou filhos e ela morreu um pouco antes do imperador, em 136 ou 137 D.C.

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(Busto da imperatriz Víbia Sabina)

O relacionamento amoroso mais conhecido de Adriano foi com o belo jovem bitínio Antínoo, natural da cidade de Claudiópolis, que ele deve ter conhecido em 123 D.C, durante a sua viagem pelas províncias da Ásia. O menino deveria ter, então, cerca de 13 anos e foi levado para Roma para ser educado. Sendo ele grande admirador da cultura grega, é provável que a relação íntima de Adriano com o rapaz tenha se desenvolvido como a relação entre as figuras do “eraster” e do “eromenos“, onde um homem adulto assume o papel de mentor educacional de um pupilo,  ocasião em que se admitia, na Grécia, o relacionamento sexual entre eles (pederastia). Considerando que a elite romana, no período, era fortemente influenciada pelo helenismo, provavelmente a relação entre Adriano e Antinoos, naquele momento, não foi considerada escandalosa, ao menos enquanto o rapaz era adolescente.

Antinous

Porém, em 130 D.C, durante a viagem de Adriano pelo Egito, quando eles navegavam pelo Nilo, a flotilha imperial parou na cidade de Hermópolis e durante essa parada, Antinoos afogou-se no rio. Consta que Adriano chorou copiosamente a perda do amante. Pouco depois, Adriano conseguiu que os gregos deificassem Antinoos e ordenou que uma cidade no Egito fosse construída no local da morte do amante, batizando-a de Antinoopolis.  Inúmeras estátuas do jovem foram espalhadas pelo Império (muitas ainda existem).

As fontes antigas divergem sobre a causa da morte de Antinoos. As versões variam entre suicídio, assassinato, sacrifício e acidente. Para alguns, o próprio rapaz, percebendo que em breve a relação terminaria devido á sua condição de homem adulto, já que a relação amorosa aberta entre homens adultos livres não era aceita pela sociedade romana, teria se matado. Esse também seria o motivo pelo qual ele poderia ter sido assassinado. Para outros, Antínoo teria se oferecido voluntariamente para ser sacrificado em prol da vida ou saúde de seu amante, em algum misterioso ritual religioso, ou, ainda, ele teria sido apenas vítima de um infeliz acidente. O fato é que as homenagens prestadas pelo imperador a Antinoo foram consideradas excessivas e expuseram Adriano ao ridículo, ao menos segundo nos conta a História Augusta.

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O conflito militar mais importante do reinado de Adriano foi a revolta judaica liderada por Simão Bar-kohba, entre 132 e 136 D.C, que foi implacavelmente reprimida, com a destruição de Jerusalém, a morte estimada de 580 mil judeus e a deportação de grande parte da população judaica , vendida como escrava, episódio chamado pelo povo hebreu de “A Grande Diáspora“. Sobre as ruínas de Jerusalém, Adriano ordenou a construção de uma nova cidade, batizando-a de Élia Capitolina.

MORTE

O final da vida de Adriano foi atormentado por uma grave doença que lhe causou muito sofrimento, ao ponto de seus assessores mais íntimos se preocuparem em evitar que ele tivesse qualquer instrumento potencialmente letal à sua disposição, por medo de que ele se matasse.

Adriano escolheu como sucessor Lucius Ceionus Commodus, em 136 D.C, um senador que era filho de um dos quatro consulares que ele havia executado no início do seu reinado. Porém, Lucius, que adotou o nome de Lucius Aelius Caesar, morreu no início de 138 D.C. Adriano, então, adotou Titus Aurelius Fulvus Boionius Arrius Antoninus (o futuro imperador Antonino Pio), que era casado com Faustina, uma sobrinha da imperatriz Sabina e filha de Marco Ânio Vero, grande amigo de Adriano e membro de uma família conterrânea da Hispânia, como novo herdeiro.

Segundo a História Augusta, em seu leito de morte, Adriano compôs o célebre poema Anima, Vagula, Blandula (Pequena alma terna e flutuante), uma belíssima peça lírica que ilustra a riqueza do espírito do moribundo Imperador:

“Pequena alma terna e flutuante,

hóspede e companheira de meu corpo,

vais descer a lugares pálidos, duros, nús,

onde renunciarás aos jogos de outrora.

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(Lápide moderna em mármore com o poema de Adriano em latim, colocada no interior do seu Mausoléu, hoje Castello Sant’Angelo, em Roma. Foto: Carole Raddato)

Em 10 de julho de 138 D.C., o coração de Adriano parou de bater em sua villa no tradicional balneário de Baiae. Ele tinha 62 anos de idade e seu reinado durou 21 anos, um dos mais longos da História, então somente superado por seus predecessores Augusto e Tibério. Adriano inicialmente foi sepultado em uma villa que havia pertencido a Cícero, e depois seus restos foram trasladados para Roma, onde foram cremados e depositados no seu magnífico Mausoléu de Adriano, juntamente com os de sua esposa Sabina e seu filho adotivo Lúcio Élio, pelo seu sucessor Antonino, que, por ter conseguido convencer o relutante Senado Romano a deificar Adriano, recebeu o cognome de “Pio“.

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CAPROTINIA

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(O Festival da Colheita, tela de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1871)

No dia 7 de julho, os romanos comemoravam as Nonas Caprotinas, ou Caprotinia, também chamadas, ainda, de Nonas dos Figos Selvagens, que era o festival em honra de Juno Caprotina, a divindade protetora das mulheres escravas.

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(Estátua de Juno Caprotina)

Segundo a lenda, uma virgem romana chamada Philotis, que tinha sido capturada pelos gauleses, ou, segundo outra versão, por uma tribo latina adversária dos romanos, subiu em uma figueira selvagem (Caprificus) existente no acampamento inimigo e acendeu uma tocha, assinalando para os romanos o local onde eles deveriam atacar os adversários.

Durante o festival da Caprotinia, do qual só participavam mulheres, as escravas deveriam correr se batendo com os próprios punhos ou com pedaços de pau, e depois elas banqueteavam-se sob uma figueira.

A BATALHA DE CARRAS (E TERIAM AS LEGIÕES ROMANAS DE CRASSO IDO PARAR NA CHINA?)

Em 53 A.C., o Triúnviro Marco Licínio Crasso (Crasso), governava a província romana da Síria, como resultado do acordo político firmado entre ele, Pompeu Magno e Caio Júlio César, que resultou no chamado Primeiro Triunvirato, o pacto político que acomodou temporariamente os interesses entre os três homens mais poderosos da Roma Republicana e o Senado.

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(Cabeça de estátua de Crasso)

Ciente de que, no que se refere aos louros obtidos nos campos de batalha, ele era inferior aos seus dois colegas, Crasso ansiava por uma conquista militar que lhe pusesse em pé de igualdade a Pompeu e César.

Sendo o homem mais rico de Roma, e conhecido por sua ganância, Crasso acreditava que seu caminho para a glória militar estava em atacar a Pártia, império que disputava com Roma a influência sobre o Oriente Médio e, principalmente, sobre o Reino da Armênia.

Note-se que a presença romana na Síria era um foco de tensão entre ambos os impérios e isso continuaria assim até o século VII D.C, quando o Imperador romano-bizantino Heráclio esmagou a Pérsia Sassânida, sucessora da Pártia, apenas alguns anos antes de toda a região ser varrida pela expansão dos árabes muçulmanos.

A BATALHA DE CARRAS

Crasso, então, decidiu invadir a Pártia, cruzando a fronteira com a Mesopotâmia, comandando 7 legiões em um total de 43 mil homens, sendo 35 mil legionários, 4 mil tropas leves e 4 mil cavaleiros.

Ao longo da História, as rotas de expedições militares contra a Mesopotâmia partiam da Armênia, montanhosa e menos árida e, mesmo quando eram originárias da Síria, costumavam seguir o curso do rio Tigre ou do Eufrates, porém, Crasso, ignorando os conselhos do rei armênio Artavasdes, aliado de Roma, decidiu cruzar o deserto visando um ataque direto às principais cidades partas.

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O rei Orodes II, da Pártia, decidiu enviar uma expedição punitiva contra os Armênios, e outro contingente, menor, com o objetivo de atrasar o avanço romano, contendo dez mil cavaleiros, sendo 9 mil deles arqueiros montados e mil cavaleiros couraçados, chamados de catafractos, comandados pelo general Surena.

Um chefe aliado de Roma, do reino de Osroene,  chamado  Ariamnes, provavelmente de origem aramaica ou árabe, instigou Crasso a avançar contra o contingente comandado por Surena, guiando-o para uma região árida e desolada do deserto. O que Crasso não sabia é que Ariamnes havia sido subornado pelos Partas.

Então, quando os romanos estavam já no deserto, próximo à cidade de Carras, os Partas cercaram os romanos, em 9 de junho de 53 A.C. (data apontada no poema “Os Fastos”, de Ovídio).

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(Estátua do general Surena, no Museu Mevlana, em Konya, na Turquia)

Embora em menor número no quantitativo total de tropas, os Partas se aproveitaram do fato de que a cavalaria romana era pouco numerosa e, valendo-se disso, eles conseguiam aproximar-se para atacar os romanos despejando torrentes de flechas, mas sem precisar entrar em combate direto com os legionários, que eram sabidamente superiores neste quesito.

Os romanos tentaram se proteger das flechas inimigas com os escudos, entrando na formação conhecida como “quadrado”. Porém, o calor do deserto e o aumento das baixas começaram a enfraquecer o moral dos legionários.

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No início, a tática dos romanos era esperar até que os arqueiros inimigos ficassem sem flechas, mas Surena, habilmente, conseguiu remuniciá-los usando camelos.

Incomodados com as incessantes descargas de flechas, os legionários, então, recorreram à mais defensiva de todas as formações, a tartaruga (testudo), que, no entanto, praticamente impedia qualquer contra-ataque romano.

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Crasso ordenou que um destacamento de 1300 cavaleiros gauleses, secundados por 500 arqueiros e oito coortes de infantaria (cerca de 4 mil soldados), comandados por seu próprio filho, Públio Cornélio Crasso, saíssem da formação e atacassem os cavaleiros partas, que fingiram uma retirada, visando afastar o destacamento do grosso das tropas romanas.

Enquanto as tropas comandadas por Públio avançavam, Surena ordenou que o seu contingente de arqueiros montados desse a volta e se colocasse na retaguarda do inimigo, enquanto os catafractos atacavam a cavalaria gaulesa.

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(Relevo de um arqueiro montado parta, (foto By Jean Chardin – Palazzo Madama, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1766352)

Os gauleses lutaram bravamente, mas, sem armadura e com armamento leve, não eram páreo para os pesados cavaleiros partas. Finalmente, todo o contingente, acossados pelas flechas, foi obrigado a se refugiar em uma colina, onde Públio, sem alternativas à rendição, resolveu cometer suicídio. Sobraram apenas 500 combatentes vivos de sua tropa, que foram capturados.

Enquanto isso, Crasso havia ordenado que o restante das tropas avançasse contra os Partas. No entanto, ao se aproximar dos inimigos, ele foi confrontado com a cabeça de seu filho espetado na lança de um catafracto.

Os ataques dos arqueiros partas, agora sem qualquer temor de contraataque por parte da cavalaria romana, recrudesceram e continuaram até a caída da noite, até o ponto em que Crasso, muito abalado pelo destino do filho, ordenou uma retirada total para a cidade de Carras.

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(Representação da Batalha de Carras, por piojote (Ferdinand Von Nielsen)

Os romanos deixaram no campo de batalha cerca de 4 mil soldados feridos, que foram prontamente mortos pelos Partas. Para piorar, durante a retirada para Carras, 4 coortes (cerca de 2 mil soldados) perderam-se na escuridão do deserto, sendo cercadas e liquidadas pelos inimigos.

Surena, então, ofereceu aos romanos uma trégua, que foi inicialmente recusada. Porém, os já desesperados soldados romanos ameaçaram fazer um motim e, assim, Crasso foi obrigado a negociar.

Quando Crasso e sua escolta foram ao encontro dos Partas para tratar dos termos do armistício, ocorreu um entrevero, após um soldado parta puxar as rédeas do cavalo do comandante romano e Crasso foi capturado.

Consta que os Partas, sabedores do já notório apreço de Crasso por dinheiro, teriam derramado ouro derretido pela sua garganta, matando-o dessa forma.

O exército romano, agora sem seu comandante, tentou romper o cerco, mas acabou sendo derrotado.

Apenas 10 mil soldados romanos conseguiram escapar e chegar à Síria, sendo, do exército original, 20 mil morreram e 10 mil foram capturados pelos Partas. As águias-estandartes das legiões também foram levadas pelos Partas como despojos, um fato considerado humilhante pelos romanos.  Elas somente seriam devolvidas quase 30 anos mais tarde, graças a um grande esforço diplomático do imperador Augusto.

CONSEQUÊNCIAS DA BATALHA

Os Partas, fortalecidos foram bem-sucedidos na invasão da Armênia, que passou, momentaneamente a ser sua aliada, complicando a situação estratégica de Roma no Oriente. Porém, ao tentar atacar a Síria, eles foram repelidos pelos sobreviventes da Batalha de Carras, comandados por Caio Cássio Longino (que depois seria um dos assassinos de Júlio César).

Muitos estudiosos entendem que a morte de Crasso, que resultou na dissolução do Primeiro Triunvirato, precipitou as tensões que resultaram na Guerra Civil entre os partidários da facção senatorial dos nobres (Optimates), liderados por Pompeu e a facção dos Populares, cujo líder era Júlio César.

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(A famosa estátua de Prima Porta, do imperador Augusto, em cuja couraça estão relevos retratando a devolução dos estandartes romanos capturados em Carras)

QUAL O DESTINO DOS SOLDADOS ROMANOS CATIVOS?

O rei Orodes II da Pártia, enviou os prisioneiros romanos capturados em Carras para o leste do seu território, usando-os como mão de obra para construções, pois os legionários romanos eram hábeis construtores.

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(Moeda cunhada pelo rei Orodes II, By Classical Numismatic Group, Inc. http://www.cngcoins.com, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=28299974)

Em 1941, o professor universitário de sinologia norte-americano Homer Dubs, da Universidade de Oxford, e profundo conhecedor da história da China, notou que muitos habitantes da região onde ficava a antiga cidade de Liqian, na província chinesa de Gansu, tinham olhos claros e traços caucasianos. Homer Dubs relacionou esse fato com um antigo relato histórico chinês da Batalha de Zhizhi, ocorrida em 36 A.C., quando o exército Han atacou uma fortaleza controlada pelo chefe da tribo Xiongnu (ou Hsiung-nu), oriunda das estepes asiática, próxima a Taraz, no atual Casaquistão.

Segundo os relatos, no ataque, os Han teriam lutado contra um grupo de soldados que lutavam em uma formação de “escamas de peixe”, que relembraria a “tartaruga” dos romanos. Assim, Dubs teorizou que os soldados da formação “escama de peixe” seriam os legionários romanos de Crasso, que foram feitos prisioneiros em 53 B.C., e que, depois de serem levados para a fronteira oriental da Pártia, teriam conseguido escapar e virado mercenários à serviço dos Xiongnu.

Finalmente, segundo Dubs, os legionários capturados na Batalha de Zhizhi teriam sido assentados pelos Han em Liqian, o que explicaria os traços caucasianos dos seus habitantes. Vale observar, contudo, que o lugar onde ocorreu a referida batalha fica quase à meio-caminho entre Carras e Liqian…

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O problema é que jamais se encontrou qualquer vestígio de artefato de origem ou de inspiração romana em Liqian. Testes de DNA também não encontraram marcadores específicos da Itália (origem da maior parte das legiões de Crasso).

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(A prefeitura da Liqian não perdeu tempo e construiu esse monumento à “herança romana” da cidade. Note-se o legionário romano à direita).

Embora metade da população atual da antiga Liqian tenha DNA caucasiano, isso se coaduna com o fato de o local encontrar-se na Rota da Seda, milenar via de contato entre a China e a Ásia Central. Acrescente-se que, durante muito tempo, desde 2 mil A.C e até antes disso, houve um influxo de povos indo-arianos para a China, como, por exemplo, os Tocarianos, que são caucasianos. Vale observar, por sinal, que as múmias de Tarim, encontradas em território chinês e datadas de 2000 A.C, são de pessoas de cabelos louros e traços ocidentais (vide foto de algumas das múmias abaixo)

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