ANTÔNIA, A JOVEM

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Copenhagen, New Carlsberg Glyptotek. Agrippina the Younger. Marble. 1st century A.D. Inv. No. 743.

Em 31 de dezembrode 36 A.C., nasceu, em Atenas, Grécia, Julia Antonia Minor (Antônia, a Jovem), a segunda filha do Triúnviro Marco Antônio e de Otávia, a Jovem, irmã mais velha de Otaviano, que mais tarde se tornaria o futuro imperador Augusto.

(Marco Antônio e Otávia, a Jovem, pais de Antônia, a Velha)

Quando Antônia, a Jovem veio ao mundo, Marco Antônio já tinha abandonado a sua mãe para ir viver com a rainha do Egito, Cleópatra, com quem ele já tinha, inclusive, tido dois filhos, em Alexandria, sendo este um dos pretextos para o rompimento com Otaviano, o que levaria ao fim do Triunvirato e começo da Guerra Civil. Assim, Antônia nunca chegou a conhecer pessoalmente o próprio pai, que cometeu suicídio no Egito, em 30 D.C., quase um ano após ele e Cleópatra serem derrotados por Otaviano, na Batalha de Actium.

Ainda em 36 A.C, Otávia, a Jovem voltou para Roma, levando Antônia e sua irmã mais velha, que também tinha o nome de Antônia ( para diferenciar as irmãs, esta era chamada de Antonia Major ou Antônia, a Velha).  Lá em Roma também moravam os três filhos do casamento anterior de Otávia com Caio Cláudio Marcelo, o Jovem.

Em 16 A.C., quando tinha 20 anos, Antônia casou com Nero Claudius Drusus (Druso, o Velho), o segundo filho do primeiro casamento da Imperatriz Lívia Drusila, a influente esposa de Augusto. Assim, Antônia,  que já era sobrinha de Augusto, passou a ser  também cunhada de Tibério, o filho mais velho de Lívia, que, anos mais tarde, seria adotado por Augusto, tornando-se herdeiro do trono por direito.

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(Nero Cláudio Druso, primeiro e único marido de Antônia, a Velha,)

Do casamento de Antônia com Druso, que morreria das sequelas de uma queda de cavalo, quando em campanha na Germânia, em 9 A.C., nasceram Germânico, que se tornaria um general de prestígio e figura muito popular entre o povo romano,  e também (além de outras crianças mortas prematuramente) Livilla e o caçula Cláudio, que, durante a infância e mesmo a juventude, foi considerado incapaz, devido a uma doença que o fazia gaguejar e babar. Consta que, por esse motivo, Antônia rejeitava o menino, referindo-se a ele como “um monstro, inacabado pela Natureza“.

(Germânico, Livilla e Cláudio, os filhos de Antônia, a Jovem)

Antônia, ao tornar-se viúva, jamais quis se casar novamente, apesar da insistência do imperador Augusto, uma atitude que engrandeceu a reputação dela perante a opinião pública. Ela também herdou as vastas propriedades e as muitas conexões de seu pai Marco Antônio no Oriente. Por isso, a sua casa em Roma vivia cheia de príncipes e dignatários orientais, especialmente judeus.  Inclusive o futuro tetrarca da Galileia, Herodes Agripa, foi educado em Roma junto com seu filho caçula Cláudio.

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Em 1 A.C., Livilla, a filha de Antônia, casou-se com Gaius Caesar (Caio César), neto de Augusto, que, naquele momento, era, juntamente com o seu irmão, Lucius Caesar (Lúcio César), o filho adotivo e o herdeiro oficial de Augusto. Entretanto, os dois irmãos morreriam cedo: Lúcio, em 2 D.C. e Caio, em 4 D.C.

(Caio César e Lúcio César)

Augusto, que tinha visto todos os seus herdeiros preferidos morrerem, foi, então, obrigado a adotar Tibério, em 4 D.C.,  exigindo, porém, que este, por sua vez, adotasse Germânico, o filho mais velho de Antônia.

Em seguida, naquele mesmo ano de 4 D.C., dentro do rearranjo dinástico que Augusto estava promovendo, Livilla casou-se com seu primo Drusus Julius Caesar (Druso, o Jovem), filho de Tibério.

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(Druso, o Jovem)

Quando Tibério finalmente ascendeu ao trono em 14 D.C., após a morte de Augusto, parece que a imensa popularidade que o jovem general Germânico estava obtendo com suas campanhas militares na Germânia, bem como a independência com a qual ele agia, assustaram o segundo imperador.

Em 19 D.C., Germânico morreu misteriosamente em Antioquia, supostamente envenenado pelo governador da Síria, e as suspeitas recaíram sobre Tibério e Lívia, como mandantes do crime. A comoção popular foi gigantesca.  Antônia não compareceu ao velório do filho, evento ao qual o imperador e sua mãe também não foram. Especula-se que TibérioLívia tenham proibido a presença dela, mas também é possível que ela tenha ficado abalada demais ou estivesse doente.

Não obstante, os relatos fazem presumir que Antônia continuou apoiando Tibério e não deu suporte às acusações que a viúva de Germânico, Agripina, a Velha reiteradamente fazia a ambos.

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(A Morte de Germânico, de Nicolas Poussin – 1627)

Druso, o Jovem agora era o único herdeiro do trono e Antônia certamente devia dar como certo que sua filha se tornaria imperatriz. Seria o coroamento de uma presumível estratégia sua de unir mais ainda os ramos dos Júlios e dos Cláudios

Porém, aparentemente Livilla tinha outras intenções, e estas pareciam incluir o poderoso Prefeito Pretoriano Lucius Aelius Sejanus (Sejano). O ambicioso Sejano, por volta de 21 D.C. exercia considerável influência sobre Tibério, que, avesso às intrigas da Corte, em Roma, cada vez mais, delegava os assuntos da administração para o auxiliar.  Encorajado pela ascendência que demonstrava ter sobre o imperador, e talvez movido pelo desejo de suceder o já velho Tibério, Sejano tramava contra todos que julgava estar em seu caminho.

A proeminência de Sejano colocou-o em rota de colisão com Druso, o Jovem. E, segundo os relatos dos historiadores antigos, Sejano conseguiu seduzir a própria esposa do rival, Livilla, de quem ele tornou-se amante.

Em 23 D.C., Druso, o  Jovem, morreu, acometido de uma doença misteriosa. Devastado, Tibério largou de vez o Império nas mãos de Sejano e, em 26 D.C., o imperador exilou-se voluntariamente na Ilha de Capri, em sua magnífica Villa (vide foto das ruínas, abaixo).

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Sejano aproveitou para perseguir sua desafeta, Agripina, a Velha, viúva de Germânico, e os filhos dela, especialmente Druso César e Nero César, que tinham sido adotados por Tibério após a morte do filho e passaram a ser os herdeiros oficiais do trono. Agripina e seus dois filhos foram acusados de crimes contra os costumes perante o Senado, mas somente após a morte da imperatriz Lívia, em 29 D.C., Sejano conseguiu obter o exílio deles, em 30 D.C..

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(Agripina, a Velha)

Com a morte de Lívia,  os filhos de Germânico, Calígula e  Drusila, que moravam com ela, foram viver com Antônia, que passou a ser a grande matriarca da dinastia dos Júlio-Cláudios. Consta que, certa vez, enquanto o casal de netos já vivia com Antônia, ela teria surpreendido Calígula e sua irmã Drusila na cama (Suetônio, “Vida de Calígula“, 24, 1).

Não se sabe se o referido incesto foi uma das causas, mas pouco depois do episódio, Calígula foi morar com Tibério, em Capri.

(Calígula e sua irmã, Drusila)

Para grande surpresa de todos, em 31 D.C., Sejano foi acusado em uma carta de Tibério lida no Senado, e, imediatamente preso e executado.

Segundo as fontes, foi Antônia quem denunciou os crimes de Sejano a Tibério, por meio de uma carta que ela enviou ao imperador em Capri, detalhando os atos conspiratórios do subordinado. O mensageiro foi o antigo escravo e liberto de Antônia, Marcus Antonius Pallas, sendo o episódio relatado pelo historiador judeu romanizado Flávio Josefo, em sua obra “Antiguidades Judaicas” (em outra versão, foi a ex-escrava, e também liberta de Antônia, Antonia Caenis, quem portou a carta).

Após as execuções de Sejano e de seus filhos, a viúva de Sejano, Apicata, transtornada, denunciou a Tibério que o seu falecido marido, ajudado por sua amante Livilla, foi o responsável pelo envenenamento do filho do imperador, Druso, o Jovem, ocorrido oito anos antes.

Entretanto, tão grande era agora o respeito que Tibério demonstrava em relação a Antônia, que, ao invés de mandar executar Livilla, o imperador entregou-a à mãe, na casa de quem a nora deveria ficar em prisão domiciliar. Então, segundo o historiador romano Dião Cássio, Antônia teria mandado trancar a filha em um quarto, no qual a severa matrona teria deixado Livilla morrer de fome.

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Após a morte de Tibério, em 37 D.C., Calígula assumiu o trono e, inicialmente, agiu com reverência para com sua avó Antônia, fazendo o Senado decretar que ela recebesse todas as homenagens que Lívia havia recebido, incluindo o título de “Augusta”, que, entretanto, teria sido recusado por Antônia.

Todavia, Suetônio relata que logo o tratamento que Calígula  dispensava à Antônia amoldou-se ao padrão tirânico e tresloucado que passou a marcar o seu reinado. Certa vez, ao receber um conselho da avó, Calígula teria respondido, com rudeza: “Lembre-se de que eu tenho o direito de fazer o que quiser a qualquer um” (Suetônio, “Vida de Calígula“, 29, 1). Depois, Calígula passou a só aceitar receber Antônia na presença do Prefeito Pretoriano Macro (Suet. “Vida de Calígula”, 23, 2).

Talvez abalada por esses desaforos do neto, Antônia, a Jovem faleceu, em 1º de maio de 37 D.C., com a idade avançada de 72 anos. Segundo o relato, Calígula não compareceu ao velório público da avó, preferindo assistir à cremação do corpo dela da varanda de sua sala de jantar.

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Como assassinato de Calígula, em 41 D.C., Cláudio, o filho tão rejeitado por Antônia, tornou-se imperador. Um dos primeiros atos dele foi conferir, pela segunda vez, o título de “Augusta” à falecida mãe, além de decretar a celebração de jogos em comemoração ao aniversário dela.

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Postumamente, através de seus libertos Pallas e Antonia Caenis, Antônia exerceu muita influência nos reinados de Cláudio e Nero, e, mesmo após o fim da dinastia dos Júlio-Cláudios, no reinado de Vespasiano.

Pallas, por exemplo, foi  o poderoso Secretário do Tesouro de Cláudio e Nero, tornando-se também um dos homens mais ricos do Império. Ele apoiou Agripina, a Jovem, sobrinha de Cláudio e mãe de Nero, ajudando-a tornar-se imperatriz. Nesse particular, parece que Pallas absorveu e deu continuidade ao já referido desígnio de sua antiga senhora, Antônia, de reforçar os laços dinásticos entre os Júlio-Claudios.

Além disso, Antonia Caenis, por exemplo, foi amante e companheira de toda a vida de Vespasiano, e tudo indica que ela persuadiu a sua senhora, Antônia, a ajudá-lo bastante em sua carreira pública, especialmente durante o reinado de Cláudio. E, quando Vespasiano tornou-se imperador, Antonia Caenis passou a ocupar a posição equivalente a de uma imperatriz de fato, embora não de direito.

CONCLUSÃO

Dentro dos estritos limites que a sociedade patriarcal romana reservava às mulheres, Antônia, a Jovem conseguiu ter um papel relevante na História de Roma. Ela foi importante para assegurar a consolidação da dinastia dos Júlio-Cláudios., que, sem ela, bem poderia ter terminado com o reinado de Tibério

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(Aureus – moeda de ouro – com a efígie de Antônia Augusta, cunhada no reinado de seu filho, Cláudio)

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SEVERO, O TETRARCA, E A TETRARQUIA

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Em 16 de setembro de 307 D.C., o Imperador Romano Flávio Severo foi executado por ordens do usurpador Maxêncio, na estalagem chamada Tres Tabernae, que era um tradicional ponto de pernoite na Via Ápia para os viajantes que rumavam em direção à Roma,  que ficava a 50 km de distância.

Flavius Valerius Severus (Severo) era mais um dos muitos oficiais de origem ilíria que, durante a segunda metade do século III D.C. e o início do século seguinte, assumiram o comando do Exército Romano e,  valendo-se desta posição, alcançaram o trono imperial. O mais importante dos generais desse período foi Diocleciano, que reorganizou militar e administrativamente o Império Romano, a partir da sua coroação, em 284 D.C.

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Entre as inovações introduzidas por Diocleciano no Império estava a divisão do poder imperial, que costumava ficar centralizado na pessoa de um só monarca, que tradicionalmente governava a partir da cidade de Roma, para agora quatro governantes: dois deles mais graduados, que detinham o título de “Augustos“, com as respectivas capitais em Milão e Nicomédia, e os outros dois, situados em plano um pouco inferior e subordinados aos primeiros, intitulados “Césares“, instalados em Trier e Sirmium. Esse novo regime de quatro governantes imperiais recebeu o nome de “Tetrarquia“.

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De acordo com o plano de Diocleciano, a sucessão dos Augustos deveria ocorrer automaticamente, com a substituição destes pelos Césares que lhes eram subordinados, motivada pela morte, incapacidade ou aposentadoria dos primeiros sendo que, em seguida, os novos Augustos nomeariam dois novos Césares, e assim por diante.

Em 1º de março de 293 D.C, Diocleciano autorizou Maximiano a nomear Constâncio Cloro como “César” do Ocidente o que caracterizava a sua ascensão ao posto de imperador “júnior” e herdeiro de Maximiano.

Provavelmente naquela mesma data, ou pouco depois, Diocleciano nomeou seu genro, o general Galério, marido de sua filha Valéria (Diocleciano não teve filhos homens), para o posto de “César” do Oriente, e, portanto, seu herdeiro. Sendo o mais antigo dos Césares, Constâncio Cloro, formalmente, teria precedência sobre Galério, sendo o seu nome sempre mencionado na frente de seu colega nos documentos.

Em 305 D.C., Diocleciano, aos 60 anos de idade, doente e sentindo-se cansado, resolveu se aposentar. Essa era a primeira vez, após mais de três séculos de Império Romano, que um imperador abdicava voluntariamente do trono.

Inicialmente, as coisas ocorreram de acordo com o plano de  Diocleciano e  seu amigo e colega imperial, Maximiano, a quem ele havia nomeado como Augusto ainda em 286 D.C., também concordou em abdicar junto com ele, tendo a abdicação de ambos sido formalizada em uma cerimônia simultânea ocorrida nas respectivas capitais, no mesmo dia, em 1º de maio de 305 D.C.

Em obediência ao sistema idealizado por Diocleciano, imediatamente, ele e Maximiano foram sucedidos por Galério e Constâncio Cloro, respectivamente, os novos Augustos do Oriente e do Ocidente.

A grande expectativa agora era em relação a quem seriam os novos Césares

Naquele momento, tudo indica que Galério valendo-se de sua influência sobre Diocleciano, manobrou para que o seu velho camarada de armas, Flávio Severo, fosse o escolhido como o novo César do Ocidente, enquanto ele mesmo designou o seu sobrinho, Maximino Daia, para ser o novo César do Oriente.

Então, Diocleciano foi viver em seu espetacular palácio-fortaleza construído na cidade de Salona, em sua terra natal, na Dalmácia. Boa parte desse palácio ainda existe e em seu vasto interior nasceu a atual cidade de Split, na Croácia.

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A expectativa geral, contudo, era a de que Maxêncio, o filho de Maximiano, e Constantino, o filho de Constâncio Cloro seriam os escolhidos. Constantino, inclusive, já possuía mais de 30 anos, havia sido educado na corte de Diocleciano e servido em várias campanhas.

Assim, grande foi a surpresa quando Maximino Daia e Flávio Severo foram anunciados como os novos Césares. A Tetrarquia, que mal havia começado, já nascia, assim, ameaçada em sua estabilidade pelo preterimento de dois candidatos naturais à sucessão.

No caso de Severo, o espanto da sua coroação foi  ainda maior, diga-se de passagem, pelo fato dele ser um notório beberrão.

Os primeiros a transformarem em ações a sua insatisfação com a sucessão “tetrárquica” seriam Constantino e Constâncio Cloro, que se encontravam em campanha na Britânia. Constantino, que vivia na condição de virtual refém de Galério, em Nicomédia, imediatamente percebeu que sua vida corria perigo e, valendo-se de um momento de distração, conseguiu obter do referido Augusto uma autorização relutante para deixar a corte oriental para ir ajudar seu pai na Britânia, o qual ficara doente no curso da campanha contra os bárbaros Pictos, no norte da Ilha (Quando Galério mudou de ideia, no dia seguinte, Constantino já estava em galope acelerado rumo à Britânia).

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Em 25 de julho de 306 D.C., na cidade de Eburacum (atual York), Constâncio Cloro morreu, não sem antes dar o sinal verde ao filho para lutar pelo trono. Imediatamente, Constantino foi aclamado Augusto pelos soldados, por iniciativa do chefe germânico Chrocus, um bárbaro alamano a serviço de Roma, que,  à maneira dos Germanos, mandou os seus homens erguerem Constantino em cima de um escudo.

Quando a notícia chegou à Nicomédia, Galério ficou enfurecido, mas premido pelas circunstâncias (Os exércitos de Constâncio controlavam a Britânia, a Gália e a Hispânia), ele momentaneamente acabou reconhecendo a aclamação de Constantino, contudo conferindo-lhe o posto menor de “César“. Concomitantemente, para suceder o falecido pai de Constantino na posição de Augusto do Ocidente, Galério designou o seu velho amigo Severo, em 25 de julho de 306 D.C, o que ainda estava de acordo com as regras da Tetrarquia, afinal, Severo era o César de Constâncio Cloro.

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Entretanto, em Roma, a Tetrarquia logo sofreria um novo abalo, em adição à aclamação de Constantino, uma vez que, em Roma, Maxêncio também se revoltou terminando por ser aclamado imperador pelas tropas remanescentes da Guarda Pretoriana, em 28 de outubro de 306 D.C. (estava nos planos de Galério extinguir a Guarda).

Ao saber da nova revolta, Galério ordenou que Severo deixasse a sua capital em Milão e marchasse com o seu exército até Roma para sufocar a rebelião. Ocorre que a maior parte das tropas do exército de Severo  tinha sido comandada anteriormente pelo imperador-aposentado Maximiano, que era ninguém menos do que pai do revoltoso Maxêncio

Maxêncio mandou emissários ao pai propondo dividir com ele o posto de Augusto do Ocidente. Assim, quando Severo alcançou as muralhas de Roma, as tropas dele desertaram e se uniram ao seu antigo comandante e a Maxêncio.

Sem alternativa, Severo fugiu para Ravena, onde ele entrincheirou-se atrás dos impenetráveis pântanos que circundavam a posição da cidade (uma característica estratégica que influenciaria muitos acontecimentos durante a História do Baixo Império Romano e  até na Idade Média)

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Sabendo da dificuldade de tomar Ravena, Maximiano ofereceu a Severo a proposta de que a sua vida seria poupada e ele receberia um tratamento digno caso ele se rendesse pacificamente. Severo, provavelmente por julgar que sua situação já estava muito enfraquecida, aceitou. Porém, quando ele se entregou a Maximiano, por volta de abril de 307 D.C., foi preso e enviado para a estalagem de Três Tabernas, na Via Ápia.

Quando Galério, conduzindo o seu exército, finalmente invadiu a Itália para combater a rebelião dos usurpadores, Severo foi assassinado, em 16 de setembro de 307 D.C.. por ordens de Maxêncio (Em outra versão, Severo teria sido forçado a cometer suicí­dio).

O filho de Severo, Flávio Severiano, conseguiu escapar e foi se refugiar na corte de Galério, em Nicomédia, na Bití­nia (atual Izmir, na Turquia).

Epílogo

Galério, contudo, não conseguiu fazer uma campanha bem sucedida contra Maximiano e Maxêncio, e, temendo a falta de víveres, ele teve que se retirar da Itália.

Em 308 D.C., Galério, contando com a ajuda de Diocleciano, preocupados com a situação caótica em que a Tetrarquia se encontrava, convocou os rivais para uma conferência em Carnuntum, cidade fortificada situada no sudeste da atual Áustria.

Conderência de Carnuntum resultou em um acordo que estabelecia um equilíbrio precário: Maximiano, que agora estava rompido com Maxêncio, pelo fato dele ter censurado a conduta  que o filho vinha tendo como governante em Roma, e tinha ido se refugiar junto a Constantino, na Gália, foi compelido a se aposentar novamente. Maxêncio foi declarado um usurpador. Constantino, que tinha se aliado com Maximiano e Maxêncio, teve o seu posto de “César” confirmado, o mesmo ocorrendo com Maximino Daia, no Oriente (para o desagrado de ambos, que reivindicavam o tí­tulo de Augusto, o que eles acabariam conseguindo, em 310 D.C.).

Para aumentar os fatores de instabilidade, Galério nomeou Licínio, que era outro amigo e companheiro de armas seu, para ser o Augusto do Ocidente.

Quando Galério morreu, em 5 de maio de 311 D.C., Maximino e Licí­nio dividiram entre si as províncias do Oriente. Esse acordo, porém,  teve vida curta, porque Licí­nio preferiu aliar-se a Constantino, e Maximino Daia, a Maxêncio, que foi derrotado e morto por Constantino em Roma, na Batalha de Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 D.C.

Quando Licínio atacou e derrotou Maximino Daia, em 30 de abril de 313 D.C, Flávio Valeriano, o filho de Severo, que tinha sido nomeado por Maximino governador da Isáuria, foi considerado por Licínio como uma ameaça à sua legitimidade ao trono e, em decorrência disso, ele foi executado.

CONCLUSÃO

A Tetrarquia durou apenas 20 anos e falhou em seu principal propósito que era dar estabilidade ao Império Romano e resolver o problema da sucessão. Porém, a percepção de Diocleciano quanto à necessidade de reorganização político-administrativa do Império e estabelecimento de uma outra corte imperial instalada em outra capital que ficaria responsável por governar e defender uma parte do Império seria retomada e vigoraria por praticamente um século e meio.

SIDÔNIO APOLINÁRIO

Em  5 de novembro de 432 D.C., nasceu Gaius Sollius Sidonius Apollinaris (Sidônio Apolinário),  famoso poeta e missivista romano, em Lyon, antiga Lugdunun, na província romana da Gália, no seio de uma tradicional família da classe senatorial daquela província, sendo ele filho e neto de prefeitos pretorianos da Gália.

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(Ruínas do anfiteatro romano de Lyon)

As Cartas escritas por Sidônio constituem a fonte histórica contemporânea mais importante, não apenas sobre a situação da província da Gália no final do século V, mas também nos fornecem um panorama do Baixo Império Romano em seus últimos anos de agonia.

E Sidônio encontrava-se em uma posição de espectador privilegiado para legar essa contribuição, pois, em 452 D.C., ele casou com Papianilla, que era filha de Avito, que logo seria aclamado Imperador Romano do Ocidente (Avito, que também era um influente senador galo-romano, reinaria de julho de 455 a outubro de 456).

As cartas de Sidônio nos mostram que ele teve uma esmerada educação na cultura clássica greco-romana, talento que lhe granjeou o respeito dos seus contemporâneos e, sem dúvida, ele utilizou em seu próprio benefício, ao compor panegíricos em honra de seu sogro, Avito, e também dos imperadores Majoriano, que destronou o primeiro, e reinou de 457 D.C. a 461 D.C. e lhe nomeou Conde (Comes) de Auvergne, e Antêmio, que reinou de 467 D.C. a 472  D.C. – sendo que este último, em reconhecimento, presenteou Sidônio com o prestigioso cargo de Prefeito Urbano de Roma, em 467 D.C.

Sidônio voltou para a Auvergne em 469 D.C. e aproveitou para publicar o restante dos seus poemas. Logo depois, ele foi escolhido como Bispo da atual cidade de Clermont-Ferrand, graças muito mais às suas conexões políticas e prestígio do que pelos seus méritos teológicos, já que ele mesmo duvidava de usa capacidade para ocupar o cargo. Nessa função, Sidônio tentou defender a cidade dos  ataques dos bárbaros visigodos.

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Quando Clermont finalmente se rendeu aos Visigodos, em 474 D.C., Sidônio  foi exilado para Carcassone, mas, depois de muito suplicar a Eurico, rei dos germânicos, ele foi autorizado a reassumir suas funções de bispo em Clermont.

Não obstante, pouco após a sua morte, ocorrida em 21 de agosto, provavelmente do ano de 486 D.C., Sidônio Apolinário foi canonizado pela Igreja Católica e virou um santo, cujo dia de veneração é o dia do seu falecimento, que ocorreu quando ele tinha cerca de 45 anos de idade.

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(Pedaço da estela funerária de Sidônio Apolinário, com fragmentos do texto do seu epitáfio)

O CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA

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Em 8 de outubro de 451 D.C, na cidade de Calcedônia (atual Kadıköy, na Turquia), situada na provi­ncia da Bití­nia, parte do Império Romano do Oriente, teve início o quarto concílio ecumênico da Igreja, convocado pelo Imperador Marciano.

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O Concí­lio de Calcedônia teve como objetivo resolver as disputas teológicas relativas à natureza de Jesus Cristo e os cismas intensificados pelo Concí­lio de Éfeso, sobretudo entre as Sés de Antióquia e Alexandria. Um importante cânone foi o reconhecimento da Sé de Constantinopla como tendo as mesmas prerrogativas e privilégios que a Sé de Roma, vindo, somente nos assuntos eclesiásticos, logo depois da velha Capital.

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A principal consequência do Concí­lio de Calcedônia foi repudiar as doutrinas Monofisista, para quem a natureza de Jesus seria unicamente divina, e Nestoriana, onde em Cristo haveria duas pessoas, uma humana e outra divina e que também negava que Maria pudesse ser a mãe de Deus. O Credo resultante do Concílio de Calcedônia é o seguinte:

“Todos nós, com voz uníssona, ensinamos a fé num só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo o mesmo perfeito na divindade e o mesmo perfeito na humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, com alma racional e com corpo, da mesma substância do Pai quanto à divindade e quanto à  humanidade da mesma substância que nós, em tudo semelhante a nós menos no pecado; o mesmo que desde a eternidade é procedente do Pai por geração quanto à divindade e o mesmo que quanto à  humanidade nos últimos tempos foi gerado pela Virgem Maria, Mãe de Deus, por nós e nossa salvação; sendo um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que nós reconhecemos com o existente em duas naturezas, sem confusão, sem mutação e sem divisão, sendo que a diversidade das naturezas nunca foi eliminada pela união, ao contrário, a propriedade de cada uma das naturezas ficou intata e ambas se encontram em uma só pessoa e uma só hipóstase. O Filho não foi dividido ou separado em duas pessoas, mas é um só e o mesmo a quem chamamos de Filho, Unigênito, Deus, Verbo, Senhor, Jesus Cristo, como desde o iní­cio a respeito dele falaram os profetas e o próprio Jesus Cristo nos ensinou e como nos foi transmitido pela Doutrina dos Padres.”

Esse credo não foi aceito pelas Igrejas da Armênia, de Alexandria, da Etiópia e da Sí­ria, o que acabou dando origem ao Cristianismo Ortodoxo Oriental e suas respectivas Igrejas, dentre as quais se destaca a Igreja Ortodoxa Copta. Muitos historiadores acreditam que os cismas e os conflitos decorrentes da não-observância do Concí­lio de Calcedônia por esses milhões de fiéis, os quais nunca resolvidos, facilitaram a conquista das províncias orientais do Egito e da Sí­ria pela expansão islâmica no século VII D.C

PLÍNIO, O VELHO

A erupção do vulcão Vesúvio, em 24 de agosto de 79 D.C,  foi uma tragédia que ceifou milhares de vidas e sepultou as cidades de Pompéia, Herculano, Oplontis e Stabiae. E, dentre as vítimas, a mais famosa foi Gaius Plinius Secundus, mais conhecido como Plínio, o Velho, que morreu no dia seguinte à erupção, 25 de agosto (leia nota no final deste artigo sobre esta data).

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Plínio, o Velho nasceu por volta de 23 D.C, na cidade de Como. Ele era filho de um integrante da classe Equestre (o segundo escalão da nobreza romana), de nome Gaius Plinius Celer, e de sua esposa, Marcella.

Nota: A cidade de Como foi fundada por Júlio César, em 59 A.C, com o objetivo de vigiar e conter incursões de tribos alpinas ainda não subjugadas por Roma.

Durante a sua adolescência e juventude, Plínio foi morar em Roma para estudar Direito. Concluídos os estudos, ele ingressou, em 46 D.C, com a idade de 23 anos, no Exército Romano, como era costume entre os jovens da aristocracia, no posto de oficial, servindo na Germânia. O tempo que ele passou nesta província ajudou Plínio a escrever, posteriormente, uma importante obra de história sobre as guerras entre os Romanos e os Germanos. O famoso historiador Tácito utilizaria esta obra de Plínio como fonte para o seu livro “Germania“, o  qual sobreviveu até os nossos dias.

Após o início do reinado de Nero, Plínio voltou à Roma e, ao que se sabe, ele não ocupou nenhum posto no serviço público, dedicando-se à advocacia e aos estudos literários e historiográficos. Ele, então, trabalhou em uma biografia sobre seu comandante na Germânia, Pomponius Secundus, escreveu seus vinte volumes sobre a História das Guerras Germânicas, além de um manual sobre retórica (Studiosus) e, nos anos finais do reinado do referido imperador, oito livros intitulados “Dubii Sermonis“. Somente estes últimos teriam sido publicados enquanto Nero era imperador, o que foi considerado uma prova de coragem, pois o insano monarca tinha fama de perseguir intelectuais que se destacassem.

Quando Vespasiano assumiu o trono, vencedor da guerra civil decorrente da rebelião que causou o suicídio de Nero, e também ele, um equestre nascido em uma pequena cidade italiana, o novo imperador certamente encontrou em Plínio um homem confiável e não conectado ao antigo regime, mas que gozava de prestígio intelectual e tinha experiência militar. Assim, durante o reinado de Vespasiano, Plínio exerceu vários cargos públicos, sobrelevando os de Procurator (ou governador) da Gália Narbonense, da África, da Hispânia e da Gália Belgica (embora não haja certeza quanto a segunda e a última). Consta até que Vespasiano costumava receber Plínio à noite para despachar, o que dá provas da intimidade que ele tinha com o imperador.

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O exercício de cargos em variadas regiões do Império Romano também contribuiu para que Plínio escrevesse o seu último e mais famoso trabalho (e o único que chegou até nós): a sua “História Natural“, na verdade, uma verdadeira Enciclopédia em 37 livros, compilando a maior parte do conhecimento do mundo romano sobre os mais variados assuntos, especialmente botânica, zoologia, astronomia, geologia, mineralogia, agricultura (leia nosso artigo sobre o vinho em Roma, com muitas citações da obra) e indústria. Muitas das técnicas e equipamentos ali descritos por Plínio foram confirmados pela arqueologia, tais como a extração mineral de ouro pelo processo hidráulico da lavação e o uso de moinhos hidráulicos. Inclusive algumas obras-primas da arte clássica descritas por Plínio foram encontradas séculos depois, como é o caso da famosa escultura de Lacoonte e seus Filhos, atualmente em exibição nos Museus Vaticanos, em Roma (vide foto abaixo).

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Em 79 D.C, Plínio foi nomeado por Vespasiano como Comandante da Frota Imperial baseada em Miseno, uma cidade situada na Baía de Nápoles. Em 24 de agosto daquele ano, ele testemunhou a erupção do Vesúvio, em 24 de agosto, com muito interesse, como se esperaria de um naturalista. Todavia, ele logo recebeu em sua casa uma mensagem de sua amiga Rectina, pedindo-lhe que a resgatasse, bem como ao amigo Pomponianus e aos habitantes das cidades costeiras ao sopé do vulcão. Naquela ocasião, estava hospedado com Plínio, o seu sobrinho e herdeiro, Gaius Plinius Caecilius Secundus, que ficaria conhecido como Plínio, o Jovem. de 18 anos de idade.

Plínio, o Velho, após ordenar que a frota rumasse para resgatar os habitantes de outras cidades em perigo, zarpou ele mesmo em um pequeno navio mais veloz para resgatar Rectina e outras pessoas ameaçadas na cidade de Stabiae.

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Efetivamente, Plínio conseguiu desembarcar em Stabiae e encontrar Pomponianus. Porém, os mesmos ventos que haviam impulsionado Plínio rapidamente até Stabiae, agora impediam o navio de voltar. Plínio, então, resolveu esperar os ventos mudarem, mas a contínua chuva de pedra-pomes lançada do vulcão acabou obrigando o grupo a deixar a casa., já no dia seguinte, 25 de agosto de 79 D.C.

Plínio, o Velho, que era obeso e sofria de problemas respiratórios, provavelmente asma, acabou não conseguindo acompanhar os outros e, provavelmente, desmaiou e foi deixado  para trás pelo grupo, que deve tê-lo julgado morto. O resto do grupo, ou ao menos alguns deles, conseguiram escapar e relataram o que aconteceu a Plínio, o Jovem. Três dias depois, quando a fumaça e as cinzas dissiparam, o corpo de Plinio, o Velho foi encontrado, intacto e dando a impressão de estar apenas adormecido.

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A erupção do Vesúvio em 79 D.C e a morte de Plínio, o Velho, foram minuciosamente narradas por seu sobrinho Plínio, o Jovem, em uma carta escrita ao historiador Tácito. Por isso, o tipo de erupção vulcânica piroplástica relatado por ele é chamada até hoje de “erupção pliniana”.

Nota: Em 2018, arqueólogos realizando escavações na Região V ( Regio V) de Pompéia encontraram uma inscrição feita a carvão na parede de uma residência, depois de retirarem grande quantidade de detritos vulcânicos que cobria o aposento, que via a luz do sol após mais de 1900 anos. A inscrição em latim dizia : “16 dias antes das calendas de novembro”, o que corresponde a 17 de outubro (vide foto abaixo). Os estudiosos acreditam que, tendo em vista que uma inscrição a carvão em uma parede não deveria durar por muito tempo, o grafito deve ter sido feito alguns dias antes da erupção do Vesúvio, talvez por algum construtor (a casa apresentava vestígios de que estava em obras quando da erupção), o que comprovaria a tese, já defendida há algum tempo, de que a catástrofe ocorreu em outubro ou novembro, e não em agosto de 79 D.C., o que também parece ser reforçado pelos restos de plantas e sementes carbonizados, que condiziam com a estação mais fria, pelas vestígios das vestes das vítimas da tragédia, já próprias para o outono/inverno, e de restos de carvão em braseiros utilizados para aquecimento nas residências, que foram encontrados, apontando para uma data mais próxima ao final do outono. Considerando que alguns manuscritos medievais contendo a carta de Plínio, o Jovem, narrando o episódio, contém datas diferentes, embora prevalecendo a data de 24 de agosto, é muito provável que algum copista tenha transcrito a data errado ou então se confundido com o antigo calendário romano,

https://www.theguardian.com/world/2018/oct/16/archeological-find-changes-date-of-pompeiis-destruction

MORRE O IMPERADOR TRAJANO

MORRE O IMPERADOR TRAJANO

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Em 8 de agosto de 117 D.C., morre, em Selinus, na Cilícia, o imperador romano Trajano, quando ele retornava de uma exaustiva, mas bem sucedida campanha no Oriente, na qual  o Exército Romano derrotou o Império Parta e incorporou a Mesopotâmia como província.

Marco Úlpio Trajano nasceu em Italica (próximo à atual Sevilha), na Hispânia, em 53 D.C. O pai dele, que tinha o mesmo nome, foi nomeado Cônsul no reinado do imperador Vespasiano.

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Trajano seguiu a carreira militar com sucesso e, no reinado do imperador Domiciano, quando era legado na Espanha, ele teve um papel importante nas ações para debelar uma conspiração contra o referido imperador, que, reconhecendo o mérito, a partir de então nomeou Trajano para vários comandos importantes.

Quando Domiciano foi assassinado, em 96 D.C., encerrando a dinastia dos Flávios, o novo imperador escolhido pelo Senado, o velho senador Nerva, desde o início precisou do apoio do Exército para conter a insubordinação da Guarda Pretoriana em Roma, e, como resultado, ele teve que adotar Trajano como herdeiro, sendo sucedido por ele, em 98 D.C., após falecer sem deixar filhos.

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O reinado de Trajano foi caracterizado, no plano externo, por uma série de campanhas militares que resultaram em importantes conquistas de território. De fato, durante o Principado de Trajano, o Império Romano atingiria a sua maior extensão geográfica. A conquista da Dácia, que se apresentava como um perigoso Estado belicoso no Danúbio, e o espólio dali resultante, permitiu um grande afluxo de ouro e prata na economia romana. Já a conquista da Pártia ocidental eliminou temporariamente um ameaçador império rival no Oriente e anexou ao Estado Romano as províncias da Armênia e da Mesopotâmia (esta teria vida curta e seria abandonada por seu sucessor, Adriano). Antes disso, o Reino dos Nabateus havia sido anexado, tornando-se uma província com o nome de Arábia Petra.

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No plano interno, o reinado se notabilizou pelas boas relações do Palácio com o Senado Romano, cujos membros foram prestigiados e apontados para importantes comandos militares. Como já dito, o ouro e a prata da Dácia  trouxe prosperidade econômica e permitiu a construção de grandes monumentos em Roma, entre os quais se destacam o Fórum de Trajano – o maior dos fóruns imperiais, do qual faziam parte a Basílica Úlpia e a Coluna de Trajano (cujos relevos narram a campanha da Dácia), bem como as Termas de Trajano. Grande obras públicas também foram construídas nas províncias, especialmente estradas e pontes. Trajano instituiu um programa de apoio aos órfãos e crianças pobres da Itália, chamado de “Alimenta“, fornecendo aos menores carentes comida e ensino subsidiado pela Estado.

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Por todas essas realizações, Trajano recebeu do Senado Romano o título de “Optimus Princeps” (Melhor Príncipe). Os historiadores sempre o incluíram como um dos maiores representantes da categoria dos “Bons Imperadores”.

Trajano era casado com a imperatriz Plotina, mas eles não tiveram filhos. Por isso, Trajano escolheu como sucessor seu parente Adriano, que era filho de seu primo e conterrâneo Públio Élio Adriano Afer, que morreu quando Adriano tinha 10 anos de idade, deixando Trajano como tutor do menino.

Ele morreu de um edema,  aos 63 anos de idade, sofrendo, no último ano de sua vida um quadro de declínio em sua saúde, que pode ser constatado em suas últimas estátuas.

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Voltaremos a falar de Trajano e do seu reinado, fazendo um artigo mais completo, como os leitores já estão acostumados, quando de seu aniversário de nascimento ou de aclamação.

A BATALHA DE DIRRÁQUIO

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A BATALHA DE DIRRÁQUIO

 

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Em 10 de julho de 48 A.C.,  fazia cerca de um semestre que os exércitos dos rivais Caio Júlio César e Cneu Pompeu encontravam-se em um impasse, entrincheirados atrás de fortes posições defensivas, sem que um deles conseguisse atrair o outro para um engajamento decisivo.

A  Grande Guerra Civil de Roma havia começado em 16 de janeiro do ano anterior, quando César cruzou o Rio Rubicão com apenas uma legião.

Surpreendentemente, pouco tempo depois da célebre travessia, César tomou Roma sem precisar lutar, uma vez que Pompeu, o chefe dos exércitos senatoriais, junto com boa parte dos senadores integrantes da facção dos Optimates (nobres), perplexos com a rapidez e o sucesso da investida de César, concluiu que a melhor estratégia era deixar a capital e aglutinar suas forças.

Pompeu decidiu, então, partir para a Grécia, onde, explorando o seu prestígio e sua vasta clientela existente na região, poderia reunir um grande exército. Além disso, ele ainda tinha sob seu comando uma considerável frota romana, ao contrário de César, que tinha poucos navios disponíveis para perseguir Pompeu;

Acompanharam Pompeu, em sua retirada estratégica da Itália, a maior parte da facção dos Optimates. Assim, ao contrário de César, que era o comandante supremo de suas forças, Pompeu, por diversas vezes, tinha que escutar e levar em consideração os palpites militares dos senadores mais proeminentes, muitos deles sem experiência bélica.

César, devido à impossibilidade de perseguir Pompeu até a Grécia, decidiu, então, partir para enfrentar o grupo de exércitos do rival que se encontravam baseados na Hispânia. Chegando em Ilerda, após mais uma impressionante marcha forçada, César cercou o exército senatorial, que se rendeu em 02 de julho de 49 A.C.

Voltando para a Itália, César reuniu as 7 legiões que estavam disponíveis para serem transportadas, e embarcou em Brundisium (Brindisi), em 28 de novembro de 49 A.C, cruzando o mar Adriático em direção ào Épiro, na atual Albânia. Se o inverno era insatisfatório para transportar as tropas via marítima, o era muito mais para as instáveis galeras de patrulha da frota de Pompeu, assim, a cartada de César inicialmente foi um sucesso e ele desembarcou com metade de suas forças.

Porém o comandante da frota de Pompeu, ancorada em Corfu, Marco Calpúrnio Bíbulo, que tinha sido pego de surpresa pelo desembarque repentino de César, agora estav alerta, e decidiu bloquear a costa do Épiro, impedindo a chegada de reforços e de provisões para César. E o outro comandante naval fiel aos Optimates, Lúcio Escribônio Libo, chegou a capturar as ilhas que dominavam a entrada do porto de Brundisium, reforçando ainda mais o bloqueio das operações navais de César.

Agora, de fato parecia que a audácia de César o tinha levado longe demais. Pompeu tinha muito mais legiões do que ele no Épiro e, além da inferioridade numérica, o seu exército não poderia mais receber suprimentos. E, naquele momento, parecia que o Épiro, assim como toda a Grécia, estavam do lado de Pompeu

Pompeu, diante das notícias, resolveu que era hora de se mexer e marchar em Direção à Apolônia, na costa do Épiro. Porém, César, com a velocidade que lhe era característica, chegou lá antes, e a cidade grega, surpreendentemente, recebeu-o de braços abertos.

Quando ficou sabendo da perda de Apolônia, Pompeu decidiu fazer uma marcha forçada para a boa posição defensiva na cidade de Dirráquio (atual Durres, na Albânia, ou, ainda, Durazzo, em italiano), a qual ele alcançou em 3 de dezembro de 49 A.C. Essa marcha forçada não foi um bom prenúncio para os partidários de Pompeu. Nela ficou patente que o grande general já estava ficando velho, e que as tropas recrutadas estavam despreparadas e desanimadas.

Agora, os dois exércitos estavam separados pelo rio Apsus : o de Pompeu acampado nas cercanias de Dirráquio, e o de César, nos arredores de Apolônia. Apesar do exército de Pompeu ser muito mais numeroso, o veterano general, em uma demonstração de falta de combatividade, ou talvez por não confiar na capacidade do seu exército, ao invés de atacar César, ficou acampado por dois meses em atitude de espera…

Enquanto isso, César vinha requisitando o envio de reforços com urgência, tendo ele chegado a dizer, acerca do seu receio de que navios fossem perdidos devido ao rigoroso inverno:

Eu preciso de soldados, não de navios!”.

Para a sorte de César, Marco Antônio, o seu braço-direito, conseguiu despistar o bloqueio naval de Libo, que havia perdido um pouco da eficiência depois da morte de seu colega Bíbulo, e desembarcou mais quatro das legiões de César na cidade de Nympheum, em fevereiro de 48 A.C.

Quando a notícia do desembarque de Marco Antônio chegou, quase ao mesmo tempo, aos dois acampamentos, Pompeu decidiu interceptar os recém-chegados reforços e impedir que eles se unissem a César. Pompeu tinha a vantagem de não ter que cruzar o rio e, na verdade, ele começara a marcha um pouco antes. Assim, ele escolheu um ponto para tentar emboscar as legiões de Antônio que avançavam. Antônio, porém, foi avisado por simpatizantes gregos dessa armadilha e resolveu permanecer acampado, protegido de um ataque inimigo por paliçadas, fossos e torres.

Pompeu percebeu que, agora, era ele quem corria o risco de ficar entre uma posição fortificada inimiga e o exército de César, e achou mais prudente voltar para Dirráquio, onde ele se entrincheirou de vez, seguido por César, que também começou a construir uma cadeia de paliçadas, fossos e torres de fortificação, de modo que ambos os líderes foram tornando o campo de batalha, de certa forma, parecido com o que se veria, quase dois mil anos depois, na 1ª Guerra Mundial.

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Permitir a junção das reforços de Antônio com as legiões de César com certeza foi uma derrota tática de Pompeu. Se antes, quando ele tinha superioridade de 3 para 1, ele não atacara César, agora, então, isso seria muito mais difícil…

O plano de Pompeu, agora, era esperar que César ficasse sem suprimentos, já que ele mesmo poderia continuar a recebê-los da Grécia. César, por sua vez, como demonstram os trabalhos de fortificação que ordenou, também esperava proteger as únicas linhas que tinha de suprimentos por terra, no Épiro, província que estava longe de ser abundante em recursos, já bem exauridos pelos recentes combates, e, sobretudo, se proteger dos ataques do inimigo, muito mais numeroso.

Curiosamente, à medida que o tempo ia passando, o trigo dos campos que se encontravam dentro do perímetro fortificado de César começou a crescer, enquanto que Pompeu passou a ter problemas de escassez de água, e, assim,  este é que passou a ficar na condição de sitiado.

Essa aflitiva situação em breve obrigaria Pompeu a ter que atacar para romper as linhas de César. Mas, nessa premência, Pompeu seria beneficiado por um golpe de sorte: Dois comandantes de cavalaria da tribo gaulesa dos Allobroges, auxiliares no exército de César, acusados de desviarem o soldo dos seus soldados, desertaram, e foram se unir a Pompeu. Eles revelaram muitos detalhes acerca das posições defensivas de César, sobretudo  apontando algumas posições ao sul das linhas, que não tinham ficado prontas.

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Vislumbrando uma grande oportunidade, Pompeu ordenou, em 10 de julho de 48 A.C., um ataque de 6 legiões contra o ponto fraco do inimigo, em um local onde a paliçada de César chegava até o mar, inclusive utilizando tropas ligeiras, que desembarcaram diretamente da água, naquele ponto.

Contando com superioridade numérica esmagadora, as legiões de Pompeu conseguiram romper o perímetro defensivo, fazendo recuar a IX Legião inimiga, com pesadas perdas. César deslocou 4 mil homens para o ponto fraco, sob o comando de Marco Antônio e contra-atacou, fazendo as tropas de Pompeu se refugiarem em um pequeno forte que, anteriormente, havia sido abandonado pelos soldados de César, que, por sua vez, resolveu desalojá-los de lá enviando 33 Cohortes de infantaria, apesar desse número ser metade do das legiões que estavam sendo atacadas.

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Ao contrário do que se esperava, as tropas de Pompeu lutaram tenazmente e ainda foram auxiliadas por um destacamento misto de cavalaria e infantaria que seu comandante enviou no calor da batalha para flanquear a retaguarda da ala direita dos soldados de César. Este tentou organizar uma retirada ordenada, mas os soldados entraram em pânico e correram para se proteger atrás dos muros de seus próprios acampamentos. Como resultado, César perdeu mil homens no ataque fracassado.

Mais uma vez, contudo, Pompeu hesitou no momento oportuno, e deixou de ordenar um ataque generalizado ao exército de César,  o qual teria grande probabilidade de lhe dar a vitória completa. Parece que ele, erroneamente, suspeitou que a retirada de César era uma armadilha ou, ainda, que a parada já estava ganha, e, por conta disso, acabou não fazendo nada, o que motivaria impiedoso comentário de César:

“Hoje a vitória teria sido dos Inimigos, se houvesse entre eles alguém que soubesse ganhá-la…”.

César decidiu se retirar do campo de Dirráquio e marchar para a Tessália, para onde ele já tinha enviado umas legiões sob o comando de Cneu Domício Calvino para confrontar as tropas de Pompeu lideradas por Cipião Násica.

Pompeu, da mesma forma, deixou o campo de batalha e seguiu para a Tessália. Embora, cautelosamente,  ainda achasse que não chegara a hora de lutar uma batalha decisiva, ele acabou sendo convencido pelo seu séquito de influentes senadores Optimates a perseguir César e o seu exército para forçar uma batalha decisiva.

O novo encontro ocorreria um mês depois em Farsália, e seria a batalha decisiva da Guerra Civil, embora o conflito não terminasse com ela…

 

SENADORES ROMANOS DA GÁLIA – ANTEPASSADOS DA NOBREZA EUROPEIA?

 

Publicamos no blog um artigo sobre o Imperador Avito (455-456 D.C). Na crônica que fizemos do seu reinado, me chamaram a atenção o patriotismo e a notável coesão da aristocracia senatorial galo-romana durante o século V, especialmente da região da Auvergne, centrada na cidade de Clermont, além das cidades de Tours, Arles e Lyon.

As cartas e poemas de Sidônio Apolinário ( *430 +489 D.C), um conhecido diplomata, político e poeta galo romano sobre quem escrevemos outro artigo, um membro da prestigiada classe senatorial da Província que chegou a ocupar o cargo de Prefeito Urbano de Roma, descrevem as provações que a Gália e sua elite enfrentaram durante as invasões bárbaras da fase final do Império Romano do Ocidente.

A leitura de Sidônio Apolinário, que pode e deve ser feita em conjunto com a “História dos Francos“, de Gregório de Tours (ele também um descendente da classe senatorial galo romana, mas que escreveu pouco mais de um século depois de Sidônio), demonstra como os senadores galo romanos conseguiram não apenas preservar em um grau considerável as suas propriedades e a sua posição social, durante os primeiros reinos bárbaros instalados no que tinha sido a província romana da Gália, mas até mesmo influenciar a política e o desenvolvimento destes mesmos estados originados do desmembramento do Império.

As fontes do período demonstram que, para conseguir feito tão notável, a ferramenta principal utilizada pela aristocracia galo romana foi a Igreja Católica.

Com efeito, quase todos os senadores galo romanos que abordamos no artigo sobre Avito, bem como os que mencionaremos a seguir, tornaram-se Bispos de Clermont-Ferrand, Tours, Arles, Metz, Uzes, Lyon, Reims e muitas outras cidades da atual França, exatamente aquelas onde a língua e a cultura clássica romana foram melhor preservadas.

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Pela simples leitura de Apolinário e de Gregório de Tours, percebemos que, com o desaparecimento da autoridade civil e militar romanas, os bispados passaram a atuar como se fossem verdadeiros magistrados romanos: resolvendo disputas jurídicas, provendo o abastecimento em situações de calamidade, organizando a defesa das cidades contra os bandos armados, etc.

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( A igreja católica copiou a organização administrativa do Império Romano Tardio)

E, para conferir um mínimo de organização aos primeiros reinos bárbaros, bem como para regular as suas relações com os seus novos súditos -os antigos cidadãos romanos (que ainda constituíam a maioria da respectiva população) os reis germânicos dependiam do auxílio de homens letrados. Note-se, por exemplo, que os primeiros códigos de leis do reino visigótico e do reino burgúndio foram elaborados por membros da citada aristocracia senatorial, os quais continuaram ocupando postos importantes nas cortes germânicas.

Penso que a situação da Gália pós-imperial, nas primeiras décadas que se seguiram ao desmembramento do Império Romano do Ocidente, devia ser  parecida a uma mistura de Velho Oeste Americano, de Sertão brasileiro dos coronéis e cangaceiros. e da Sicília, no apogeu da Máfia Italiana, onde, em meio a um Estado fraco, os grandes senhores ou chefes locais exerciam a sua autoridade, cada um com seu bando armado. Vale observar que os bárbaros, fossem os Visigodos, na Aquitânia (e, depois, na Hispânia), os Burgúndios (que dariam o nome à Borgonha, onde se assentaram) ou os Francos, não eram numerosos. Para os primeiros, por exemplo, a estimativa é a de que a sua população deveria estar na casa dos 200 mil indivíduos. Os Burgúndios deveriam ser por volta de 80 mil. E os Francos deviam estar entre algum desses números…

E os bárbaros provavelmente não tinham nem o efetivo, nem o ânimo para controlar diretamente cada uma das imensas propriedades detidas pela nobreza galo romana, onde devia trabalhar e morar uma considerável população de colonos e escravos, proporcionando aos seus proprietários uma força não desprezível para se defender, senão de um exército, pelo menos de pequenos ou até mesmo bandos médios de atacantes bárbaros, caso isso fosse inevitável. Assim, um compromisso entre os chefes germânicos e os grandes senhores de terra era mais do que natural…

Com a conversão dos Francos ao Cristianismo Católico do Credo Niceno, foi-se o último obstáculo para uma acomodação com a classe dirigente galo romana. Na verdade, a conversão do rei franco Clóvis ( que foi convertido pelo bispo Remigius,  que depois viraria Saint Remy, também ele um integrante da aristocracia galo romana e amigo de Sidônio Apolinário) é um dos fatores pelos quais a França manteve a sua herança romana de forma muito mais marcante do que os outros reinos bárbaros.

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(São Remígio batizando Clóvis, relevo em marfim, c. 870 D.C.)

GENEALOGIA DA NOBREZA EUROPEIA  ATUAL RECUARIA ATÉ A ROMA ANTIGA

É fato incontroverso que praticamente todas (senão todas) as casas reais da Europa, reinantes ou pretendentes em caso de restauração monárquica, podem, sem muita dificuldade, traçar sua árvore genealógica até o rei Carlos Magno, rei dos Francos e fundador do Sacro Império Romano-Germânico, no ano de 800 D.C.

Carlos Magno nasceu por volta do ano 742 D.C e teve 18 filhos. Portanto, somente por esse fato, muitos milhares de pessoas, hoje, podem traçar sua genealogia até ele. Genealogistas conseguem desenhar, com certa segurança, o traçado de uma árvore genealógica de uma pessoa viva até o grande rei franco, desde que essa pessoa provenha de uma família que tenha mantido alguns documentos de ancestrais não muito distantes e  assim é torna-se possível conectá-los com a legião de nobres europeus que descendem do referido Sacro-imperador.

 

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(“denário” cunhado por Carlos Magno. O Imperador se considerava um sucessor dos imperadores romanos e se a Prosopografia estiver correta, a pretensão tinha bases não apenas políticas, mas  também genealógicas)

Porém, recuar qualquer genealogia europeia para aquém do século VIII D.C, sempre foi bastante difícil: antes disso, a Europa estava mergulhada no período mais sombrio da Idade Média, ao que corresponde a escassez de documentos e fontes históricas sobre o período entre o século VI, quando os últimos autores remanescentes do Império Romano começaram a serem engolfados pelo caos, e o século VIII, quando houve o chamado “Renascimento Carolíngio” e as condições do continente europeu experimentaram uma melhora.

Alguns pesquisadores tem se valido, para tentar preencher esse hiato, da “Prosopografia“, que pode ser entendida como o estudo das características comuns de um grupo social histórico, cujas biografias individuais podem ser consideravelmente não-traçáveis, através do estudo coletivo de suas vidas, em análises de múltiplas carreiras. A pesquisa prosopográfica, portanto, tem como meta o estudo de padrões de relacionamentos e atividades através do estudo biográfico coletivo. Assim, ela coleta e analisa estatisticamente quantidades relevantes de dados biográficos acerca de um grupo bem definido de indivíduos.

Por conseguinte, a Prosopografia vai além da Genealogia (embora inevitavelmente tenha que se valer muito desta), pois o escopo da primeira é estudar a relação entre um grupo social e os acontecimentos históricos, valendo-se da trajetória individual pública, dos relacionamentos públicos e privados entre os integrantes deste grupo e entre estes e os demais grupos sociais. Não obstante, a Prosopografia pode também contribuir para completar as lacunas da genealogia dos indivíduos, através do estudo de uma “rede prosopográfica“, que se vale das ferramentas da análise de redes sociais, onde, inclusive, podem ser empregadas a matemática de sistemas complexos e estudos gráficos.

A maior autoridade na Prosopografia do final do Império Romano e da Alta Idade Média é o historiador francês Christian Settipani, autor das obras ” Les Ancêtres de Charlemagne” e “Nos ancêtres de l’Antiquité“.

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Segundo os estudos de Settipani, a conexão de Carlos Magno com os senadores galo-romanos segue a genealogia da família dos Pipinidas, também conhecidos como Arnulfidas:

É consenso que Carlos Magno (*742 +814 D.C.) era filho de Pepino, o Breve (* 714 + 768 D.C.), que era filho de Carlos Martelo (* 686 +741 D.C.), que era filho de Pepino de Herstal (*635 +714 D.C.), que era filho de Ansegisel (*602 ou 610 + antes de 679 D.C.), que era filho de Arnulfo (Santo Arnulfo, Bispo de Metz *582 +645 D.C.), que era filho de Arnoaldo (*540 ou 560 +611 D.C), também Bispo de Metz .

Segundo Paulo, o Diácono (século VIII D.C), Arnoaldo era um romano de “família senatorial” e era filho de Ansbertus (uma crônica do reino dos Francos, também do século VIII confirma isso) e de Blithilde ou Bilichilde (*538 +603 D.C), filha do rei franco merovíngio Cariberto I e neta de Clotário, rei dos Francos que, por sua vez, era filho do rei Clóvis, o fundador da dinastia dos Merovíngios.

De acordo com a Commemoratio Genealogiae Domni Karoli Glorissimi Imperatoris , do início do século IX, Ansbertus era filho do aristocrata galo-romano Ferreolus de Rodez (* c. 485 D.C.), originalmente de Narbonne, e que depois se estabeleceu em Rodez, e de  Doda, filha de Cloderico, rei dos Francos Ripuários. Ferreolus de Rodez, por sua vez, era filho do senador galo-romano Tonantius Ferreolus (II) *c.440 + c.517 D.C. e de sua esposa Industria.

Acredita-se que Industria fosse a filha de Flavius Probus, senador romano originário de Narbonne. Flavius Probus era filho de Flavius Magnus, Senador de Narbonne e Cônsul para o ano de 460 D.C. Há uma teoria de que Flavius Magnus seria filho de Flavius Felix, Cônsul para o ano de 428 D.C, e sua mãe seria filha de Flavius Julius Agricola, senador de Narbonne, duas vezes Prefeito Pretoriano da Gália e Cônsul para o ano de 421 D.C., e que se supõe ter sido o pai de Avito, Imperador Romano do Ocidente (455-456 D.C.), o qual era originário da nobreza senatorial galo-romana da cidade de Clermont-Ferrand.

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(Solidus do imperador romano Avito)

Tonantius Ferreolus (II) era filho de Tonantius Ferreolus (I) e de sua esposa Papianilla. Ele era muito amigo de Sidônio Apolinário, também ele um aristocrata romano da Gália, da cidade de Clermon-Ferrand, que chegou a ser Prefeito Urbano de Roma em 469 D.C. e senador. As cartas de Sidônio Apolinário são uma importante fonte para os eventos do final do Império Romano na Gália. Em uma das cartas, Sidônio menciona a boa acolhida que teve na grande propriedade do pai do amigo, Tonantius Ferreolus  (I), em Prusianum, na região de Gard.

Tonantius Ferreolus (I) *390 +475 D.C., também foi senador e  ocupou o importante cargo de Prefeito Pretoriano da Gália, em 451 D.C. e, embora o nome de sua mãe não seja citado nas fontes, sabe-se que ela era filha de Flávio Afrânio Siágrio, originário de Lyon, que foi Prefeito Urbano de Roma e Cônsul no ano de 382 D.C. Este Flávio Afrânio Siágrio muito provavelmente é ancestral do Siágrio que protagonizou a última resistência contra os Francos e o seu rei Clóvis, na Batalha de Soissons, em 486 D.C.

A esposa de Tonantius Ferreolus (I), Papianilla, segundo Christian Settipani, seria sobrinha do imperador Avito.

O último Tonantius Ferreolus citado, pai, era casado com Papianilla, que provavelmente era prima de outra Papianilla, esposa de Sidônio Apolinário, e esta, por sua vez, era filha do Imperador Romano do Ocidente, Avito, como já mencionamos no artigo sobre este último, o qual recomendamos aos nossos amigos que também leiam para ter um panorama completo da importância da classe senatorial galo-romana nos eventos que marcaram o fim do Império e o nascimento da Europa Medieval.

Os estudiosos propõem também uma linha alternativa, não necessariamente excludente, através do tataravô de Carlos Magno, Angegisel, cuja esposa, Begga, era filha de Pepino de Landem, Major Domus do Palácio de reino franco da Austrásia, e de sua esposa Itta, que que seria filha do Bispo de Metz, Arnoaldo, que já mencionamos acima. E por meio deste último, essa linha genealógica também recuaria até Ansbertus e os senadores galo-romanos.

Obviamente que se tratam de teorias conjecturais e especulativas, mas com um bom grau de consistência, que ainda podem vir a ser comprovadas pela arqueologia e, quem sabe, pela pesquisa genética. Nesse caso, a rainha Elizabeth II, Dom Pedro II e todos os Orleans e Bragança e, quem sabe, até você, leitor, seriam descendentes de senadores romanos!

 

O EDITO DE MILÃO

EDITO DE MILÃO

Dia 13 de junho de 313 D.C é a data em que o imperador romano Licínio instruiu os governadores da metade oriental do Império Romano para obedecerem o acordo de tolerância religiosa que ele e o seu colega Constantino firmaram na cidade de Milão, em fevereiro daquele mesmo ano.

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Com efeito, em fevereiro de 313 D.C, reunidos em Milão, Constantino e Licínio (este se preparando para marchar contra Maximino,  o seu colega no Leste, de acordo com o já  agonizante sistema da Tetrarquia instituído por Diocleciano, e que reiniciara a perseguição aos cristãos) decidiram seguir o Édito de Tolerância promulgado pelo finado imperador Galério, dois anos antes.

De maneira mais ampla do que o Edito de Galério, Constantino e Licínio decidiram proclamar o livre -exercício de todas as religiões, e, especialmente em relação ao cristianismo, decretar que todos os bens e propriedades da Igreja que tivessem sido confiscados nas perseguições anteriores fossem restituídos,  prometendo-se aos seus adquirentes a possibilidade de ressarcimento por parte do Estado.

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O teor do Edito é inferido das instruções que Licínio, após derrotar Maximiano, enviou em uma carta enderaçada ao governador da Bitínia e datada de 13 de junho de 313 D.C, cujo texto foi preservado pelo escritor cristão Lactâncio.

Assim, ao contrário do que muitas vezes é publicado na grande imprensa, o Edito de Milão – se é que houve mesmo um decreto formal promulgado pelos dois imperadores – não instituiu o Cristianismo como religião oficial do Império Romano (isso somente seria feito quase 70 anos depois, por Teodósio, com O EDITO DE TESSALÔNICA, que já abordamos em outra postagem).

De qualquer forma, a partir da implementação das disposições do Edito de Milão, grande foi o impulso que o Cristianismo sob a direção da Igreja Católica recebeu. Constantino, especialmente, além de assegurar a devolução das propriedades da Igreja, doou, ele mesmo, vários outros imóveis à instituição, e, sobretudo, custeou a construção de diversas basílicas cristãs, sendo o exemplo mais importante, a própria Basílica de São Pedro, em Roma, no Vaticano, que depois seria substituída pelo edifício atual, no século XVI. Além disso, o clero passou a gozar de vários privilégios, inclusive fiscais, e a Igreja passou a poder utilizar os sistema de correio imperial. Finalmente, os cristãos, oficiosamente, começaram a ter preferência para os cargos mais importantes.

A partir da resolução de Constantino e Licínio, no espaço de 70 anos, com a exceção do breve reinado de Juliano, cognominado “O Apóstata”, a tolerância religiosa instituída pelo Edito de Milão seria substituída pela retirada de incentivos, pela perseguição e, por último, pela proibição da prática públicade rituais do paganismo no seio do Império Romano, uma reviravolta completa que dificilmente poderia ser concebida por algum romano que tenha vivido no início do século IV.

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GETTY VILLA – UMA MANSÃO ROMANA NA CALIFÓRNIA

Há poucos dias visitei a Getty Villa, uma reconstrução perfeita da Villa dos Papiros, uma mansão romana, na verdade um casa de praia de luxo, em Herculano, que foi soterrada pela erupção do Vesúvio, em 79 D.C.

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A Villa dos Papiros foi redescoberta a partir de 1758, rendendo a maior coleção de esculturas romanas já encontrada em um simples lugar. Mas o motivo pelo qual ela se tornou famosa ainda no século XVIII foi o fato de mais de 1800 rolos carbonizados de papiros terem sido encontrados no biblioteca da propriedade. Vale observar que boa parte da Villa ainda não foi escavada, entre outros motivos, pelo fato de vários quarteirões de casas atualmente ocupadas terem sido construídas sobre os detritos da erupção que cobriram a vasta área do imóvel.

O bilionário americano John Paul Getty, um aficionado pelas obras de arte da antiguidade clássica, mandou reconstruir a Villa a partir de 1954, em um terreno próximo às praias de Santa Monica, que ele tinha  na elegante região de Pacific Palisades, na Califórnia, na área metropolitana de Los Angeles,  para hospedar a sua inestimável coleção de arte antiga. Nos anos 70, a Getty Villa foi aberta à visitação gratuita pelo público (porém, o estacionamento custa 15 dólares), e faz parte da instituição do Getty Museum.

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Um inventor italiano, ainda no século XVIII, inventou uma máquina para desenrolar parcialmente e fatiar os papiros, possibilitando a leitura de boa parte dos textos. Hoje, técnicas de escaneamento de imagens aumentaram ainda mais a capacidade de revelar o conteúdo dos papiros. A maior parte das obras pertence ao filósofo epicurista Philodemos (Filodemo).

Acredita-se que a casa pertenceu a Lúcio Calpúrnio Pisão Caesoninus, que era um rico senador e sogro de Júlio César. Pisão era patrono de Filodemo, que provavelmente morou na Villa e há até um estudioso que acredita que a casa teria pertencido ao próprio Filodemo, talvez como presente de Pisão.

Getty mandou acrescentar ao projeto da reconstrução, ambientes de outras ruínas antigas, como por exemplo, uma reprodução de uma fonte de uma casa de Pompéia. Houve uma cuidadosa reconstituição do paisagismo original da Villa dos Papiros em Herculano, baseada nos vestígios de plantas e sementes carbonizadas encontradas “!in situ” pelos arqueólogos.Também foram colocadas nos mesmos lugares onde se encontravam no imóvel original, reproduções das esculturas de mármore e bronze encontradas na casa em Herculano, que hoje se encontram no Museu Nacional de Nápoles.

Eu recomendo muito a visita à Getty Villa para todos os amantes da História de Roma e apreciadores da Antiguidade Clássica em geral, mas também como atração turística, pela beleza do lugar.

Veja o vídeo em https://youtu.be/ByRSRfCvpq0

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